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Incertezas carregadas pelo Vento

Summary:

Quando o seu ponto mais fraco é o seu próprio reflexo, não existe lugar para onde fugir.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

            Certos dias, Venti simplesmente não suportava olhar a própria imagem.

            Porque o rosto era o dele. Os olhos, o nariz, a boca... absolutamente tudo.

            Ainda que ele soubesse, ainda que fosse uma escolha consciente, ele só... não suportava.

            Porque a dor parecia que iria parti-lo em dois.

            A dor, a solidão, a desilusão.

            Nesses momentos, tudo o que ele fazia era se afastar — de Mondstadt, da Origem do Vento, de toda e qualquer superfície em que pudesse se ver refletido. Se ele pudesse, optaria por fugir — ou talvez adormecer uma vez mais.

            Talvez por isso tenha dormido por muitos anos. Dormir sempre era uma excelente fuga.

            Não entendeu o motivo dos ventos o guiarem até a pensão Wangshu. Talvez porque fosse um local longe de tudo o que conhecia. Ou talvez...

            Subiu até o topo da pensão usando as escadarias, lentos e dolorosos passos a cada degrau. Evitou olhares, cumprimentos, tudo. A única coisa que ele gostaria era de chegar à varanda.

            E, quando estava na varanda, ele não sabia ao certo o que procurava.

            Mas talvez soubesse quem procurava.

            Ouviu o som dos guizos e virou-se, encontrando o yaksha sobre o telhado, observando-o de braços cruzados, a expressão a mesma de sempre: imparcial. Era difícil conseguir expressões de Xiao de todo modo.

            Eles partilhavam mais coisas do que parecia externamente.

            Venti tentou sorrir, mas a fachada caiu por terra, pois não conseguia manter nenhum sentimento bom por muito tempo. Xiao percebeu e, ainda sem questionar, desceu para onde Venti estava, parando à sua frente.

            Aguardou que o bardo o elucidasse por alguns instantes. Notou que ele não iria fazê-lo e, suspirando, fez um gesto para que o seguisse. Venti, ainda sem proferir uma palavra sequer, o acompanhou.

            Subiram ao telhado e, do telhado, para a copa da enorme árvore que sustentava o lugar, ocultando-se dos olhares curiosos nas imensas, densas folhas verdes.

            Venti ainda passou um longo tempo em silêncio, sendo observado atentamente pelo yaksha. Percebendo que ele nada falaria, Xiao iniciou:

            — O que aconteceu?

            Nesse momento, Venti o olhou: com íris banhadas em lágrimas, os verdes que eram sempre tão belos agora se desfazendo, esmigalhando, como se não houvesse chão aonde pisar.

            Xiao se viu refletido no desespero dele, lembrando do seu próprio.

            — Eu só... — Venti começou, piscando, a primeira lágrima caindo sem anúncio. — Ah, você poderia... colocar suas mãos assim? — Venti juntou as suas, como se fizesse uma conchinha, demonstrando ao yaksha. Xiao ergueu uma sobrancelha, estranhando, porém imitou-o.

            — Não entendo o que isso... — Antes que pudesse completar a frase, uma rajada de vento os atingiu e Xiao apertou os olhos, pego desprevenido. Quando os abriu, quem estava à sua frente não era mais o bardo de verde, mas um ser feérico miúdo de túnica branca, asas pequeninas e corpo escuro como o véu da noite. — Mas... o quê...?

            — Eu–! — A voz ainda era a mesma. Inegavelmente era Venti. Xiao piscou duas vezes, assistindo como a pequena criatura sentava em suas mãos, as perninhas esticadas, a cabeça baixa e os pequenos fios de lágrimas correndo soltos por seu rosto. — Eu só...

            Não mais conseguiu falar, somente chorar — e chorar, e chorar, e chorar. Xiao arregalou os olhos, desentendido, assustado. Sentiu-se entristecer ainda mais, compadecido.

            Assistiu como o pequeno fae lacrimava, os soluços como um sussurro ao vento, cada vez mais curvado em suas mãos, parecendo mais miúdo do que realmente era.

            Xiao o segurou por incontáveis minutos — talvez horas. Observou como ele lamuriou, copiosamente, zelando por cada pequena lágrima que deixava seus pequenos olhos, até vê-lo se enrolar todo em seus dedos, adormecendo.

            — Ah, ah... — suspirou, ajeitando o pequeno fae somente em uma mão. — Desse jeito você me dá um trabalhão, sinceramente.

            Devagar, o yaksha se levantou, tomando todo o cuidado do mundo para não derrubar ou despertar o ser feérico adormecido. E, silencioso, ele rumou para o seu pequeno quarto escondido na pensão.

 


 

            Venti foi despertando aos pouquinhos, ciente de que ainda estava em sua forma original só pela maneira que tudo parecia maior ao seu redor.

            Mas nada era maior e mais assustador do que a boca de Xiao arreganhada em sua direção.

            — YEP! — Ele chiou, fazendo uma forte corrente de vento que tomou todo o quarto, voltando à forma que era do seu antigo amigo, batendo com o topo da cabeça no queixo de Xiao no processo de transformação, quase fazendo o yaksha morder a língua. — O que você estava fazendo?!

            — O que você está fazendo, se transformando desse jeito?! — Xiao protestou, fitando Venti, arregalando os olhos e ficando rubro no mesmo momento. — Por que você está pelado?!

            — Porque–! — Venti inflou o peito. — Eu não me transformo com roupas! Eu crio elas depois!

            — Ah que ótimo. — Xiao cobriu os olhos com a mão, a ponta das orelhas vermelhinhas de vergonha. — Poderia ter ao menos me explicado o que estava acontecendo.

            — Eu não sei porque tanto alarde, nós já fodemos tantas vezes e– YEP! — Xiao puxou a coberta que estava por baixo de Venti, fazendo-o cair para trás na cama e, sem anunciar nada, a jogou por cima do bardo, pressionando o corpo dele contra o colchão. — Xiaoo! Pelos arcontes, o que você está fazendo?!

            — Te dando decência. E não clame por você mesmo, trouxa — retrucou, sentado ao lado de Venti, sendo observado pelas íris verdes, ainda inchadas pelo choro descontrolado de horas antes. — Sobre antes... — O yaksha começou, inspirando fundo, apertando os dedos no lençol. — Você parecia estar tendo um pesadelo. Eu só... queria livrá-lo dele, só isso.

            — Oh. — Venti piscou, ponderando. Não se lembrava de sonho algum, mas certamente estava com um sentimento ruim no peito. — Eu... sinto muito. Pelo que eu fiz.

            — Não tem problema. — Xiao suavizou o aperto nas cobertas, levando a mão para acariciar os cabelos de Venti, sereno. — Se você não quiser partilhar comigo, eu também entendo. Todos temos males que não gostamos de falar.

            — Hm. — Venti olhou para um canto qualquer na parede, pensativo. — Eu... acho que você deve saber, pelo menos um pouco — concluiu, sendo observado por íris amarelo-topázios, atentas.

            E, brevemente, Venti relatou sobre o incidente na antiga Mondstadt — sobre o amigo falecido e como ele, deliberadamente, havia imitado sua aparência, por achar que sua memória não deveria ser esquecida, nunca. Xiao ouviu cada uma das palavras do bardo, compreensível de sua dor.

            — Existem dias que eu não consigo tolerar a minha existência. Não nesse modo. — Venti confessou, fechando os olhos e inspirando fundo. — Nesses dias, eu só queria poder estar nas mãos de alguém de novo, de sentir que tudo estava seguro de novo. Por isso, eu... — O yaksha colocou a mão sobre seus olhos e Venti puxou o ar com ainda mais força. — Xiao...

            — Você pode vir até mim sempre que quiser — reafirmou, a voz baixa, rouca. — Eu estarei aqui para te acolher. Você sabe disso.

            — Uhum.

            Ficaram em silêncio, Xiao sentindo como Venti agarrou seu braço, segurando sua pele com força. Permitiu que ele assim o fizesse, até que o bardo, delicado, afastou sua mão dos seus olhos, piscando com íris verde-esmeralda cintilantes na sua direção.

            — Obrigado por zelar por mim enquanto eu cochilava. — O rubor no rosto de Venti era adorável. — E desculpe outra vez por bater em seu queixo.

            — Eu ainda tenho língua, pelo menos. — Xiao suspirou. E, de repente, uma epifania o atingiu, fazendo-o arregalar os olhos, o rosto corar por inteiro, até os fios de cabelos. — Espera... Se essa aparência é do seu amigo, então... — Voltou seu olhar para Venti, atestando: — Você está me dizendo que, até agora, eu estava transando com outra pessoa?!

            Venti gargalhou, tão alto que certamente poderiam ouvir do andar de baixo da pensão. E ele continuou gargalhando, os olhos se enchendo de lágrimas, a barriga doendo pelo esforço.

            — Xiao!

            — Isso é uma pergunta seríssima, Venti! — Ele chacoalhou o braço do bardo, mas este só escondeu o rosto no travesseiro, ainda rindo descontroladamente. — Isso é... desconfortável!

            — Você prefere transar na minha forma feérica, então? — Venti reuniu ar para perguntar quando sua risada havia cessado.

            Xiao o encarou profundamente por segundos que poderiam durar o milênio que eles haviam passado juntos, antes de dizer com uma voz funda e tenebrosa:

            — Nem fodendo.

            — É, foi isso que eu perguntei, mesmo. — Xiao revirou os olhos, incrédulo, mas Venti somente o sorriu, mostrando todos os dentes.

            Novamente caíram no silêncio, o bardo balançando os pés, chutando a coberta para cima e para baixo no processo, parecendo confortável na posição em que estava, no ambiente em que estava.

            — Xiao, eu... acho que vou ficar um tempo aqui com você — atestou por fim, a voz baixa, o pensamento distante. — Você... poderia zelar pelo meu sono, quando eu cochilar de novo?

            — Sim. — Xiao afirmou, baixando o rosto, esfregando o nariz pelos cabelos de Venti. — Eu zelarei por você. Fique tranquilo.

            — Obrigado.

Notes:

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