Work Text:
“Digam algo àquele que fez sua presença secreta por tanto tempo.
Não sejam tímidos e abracem a destruição que logo se fará presente.”
Olhou para seu reflexo no grande espelho lindamente adornado e repleto de detalhes — e poucas rachaduras leves — no quarto de aparência precária. Seus olhos dourados ignorando sua figura notável e os três servos que ajustavam sua armadura metálica e a moça que cuidava de sua grande capa rubra e negra ao fundo do cômodo, os orbes sérios focando-se unicamente em si próprios, era apenas ouro contra ouro — quase uma tempestade que ninguém nunca notara. Em sua cabeça, exclusivamente um único pensamento prevalecia. “É hoje. Sim, o perfeito dia chegou... Aquele em que os miseráveis e exilados de quaisquer divícias irão tomar seu lugar ao topo.”
— E hoje as cortinas escarlates como o sangue, encher-se-ão de chamas vagarosamente ao abrir-se para apresentar aquele que trouxera a destruição como espetáculo.
Escutou vindo de algum canto isolado, com apenas um movimento gracioso de sua mão direita enluvada, dispensou aqueles que o arrumavam para seu pequeno — na realidade, grande — show que se aproximava. Virou-se para aquele a quem somente ele era capaz de enxergar, sua única companhia desde muito tempo em sua vida — apenas uma alucinação como bem sabia — e como esperado, lá encontrou o homem de pele clara e longos cabelos platinados sentado com uma graça da realeza numa das cadeiras de madeira barata daquele local, em uma mão um livro dourado e na outra, uma taça frágil contendo algum álcool.
Aquela fora uma bela citação, embora totalmente imaginária — como tudo que envolvia aquele ser apático tanto de aparência quanto sentimentos– assim como muitas coisas, apenas algo que sua cabeça criara. Seria por querer que seus dias possuíssem um toque mais lúdico? Não soube dizer. Mas no momento, a frase contida no livro irreal coube como uma luva para a situação atual. Afinal, foram anos e anos planejando o dia de hoje cuidadosamente, manipulando a todos caprichosamente, escondendo meticulosamente cada detalhe de seu passado, mascarando seu verdadeiro eu. Tudo preparado para desencadear o caos e seus derivados a esse majestoso anfiteatro que chamava com desgosto escondido, de lar.
Supunha que no momento, os tolos que acreditaram em suas falsas palavras de amizade e lealdade, que como planejado sorveram de suas falácias e afogaram-se nelas sem perceber, estariam agora preocupados com seu repentino desaparecimento. “O quão idiotas são...” riu ele com arrogância contida enquanto levava aos lábios finos a bebida amarga contida numa pequena garrafa de metal.
— Oh! Meu soberano. Disse o poderoso guerreiro com desdém. Eu nunca estou em perigo, mas sim, sou aquele quem o traz para vos. — aleatoriamente, o albino citou novamente uma passagem do exemplar fictício em suas mãos. Sua voz de barítono soando tão monótona como sempre.
Deixando o livro grosso solitário em seu colo, o albino inexpressivo apoiou a parte de seu rosto coberta por seu tapa-olho negro em sua mão direita elegantemente, e ficou a observar com seu único olho de uma coloração incomum, o homem que lhe dera a vida dentro de sua mente conturbada, figurativamente ficar bêbado na sensação da futura vitória que já podia sentir entre os dedos em suas mãos, chegando a quase afogar-se na sensação, antes de recompor-se o máximo possível e sair do quarto escuro rumo ao palco preparado diligente e especialmente para ele por anos.
Suspirou cansado, minutos depois voltando para o inconsciente do moreno ocupado que revia agora seus planos de ataque contra a nobreza, com seus milhares de soldados fieis — certamente cegos pelas promessas — a ele.
“Hoje chega finalmente o epílogo daquele império embrulhado numa fina camada de honra já há muito desgasta e inicia-se o prólogo daquele que secretamente traz a destruição.”
