Chapter Text
Andrew Minyard tem um problema.
Correção: Na verdade, Andrew Minyard tem dois problemas (jogue para debaixo do tapete todos os traumas e sequelas da infância, não é sobre isso que falaremos aqui).
Andrew é uma pessoa prática e pragmática, o que significa que ele passa muito tempo ignorando situações que não estão ao seu alcance imediato e enterra no fundo da sua mente, trancando-as dentro de algum cofre ao qual ele não se preocupa em saber a senha.
Não é a primeira vez que ele faz algo assim – ignorar algo até que eventualmente o problema se resolva, ou pare de existir, sem ele ter mexido um único dedo. Experiências anteriores provam que sentar e esperar é um método excelente em situações como essa. O desdém e a indiferença são os maiores aliados de Andrew: nada pode atingi-lo se ninguém souber que ele pode ser atingido. Ninguém é capaz de perceber quando algo perturba Andrew e é assim que deve ser, Andrew é uma muralha impenetrável que mantém todos os segredos guardados para si (no entanto, há Neil, que sempre parece saber mais sobre Andrew que ele próprio, mas isso não é sobre ele. Ou é. Quem sabe?).
Está tudo bem até que nada mais está: o problema que Andrew guardou dentro de si por tanto tempo, aquele que foi jogado de escanteio para ser esquecido, começa a apodrecer e o corroer por dentro de tal modo que se torna impossível ignorar a coisa asquerosa.
Andrew não é uma pessoa inclinada ao drama, mas ele sente que essa situação está começando a matá-lo. Chegando num beco sem saída ao perceber que, dessa vez, as coisas não vão se resolver por si mesmas, ele se vê obrigado a destrancar a droga do cofre e ver o que tem dentro. Spoiler: não é nada bom.
É essa a razão dele estar no consultório de Bee numa segunda-feira de manhã, ao invés de terça à tarde: é uma questão de vida ou morte.
— Me aponte o problema que você vê nisso. — É o que Bee diz quando Andrew conta tudo a ela.
— Já tenho merda o suficiente para resolver, não preciso de mais problemas para lidar agora — respondeu Andrew.
Bee cantarola em compreensão, mas não em concordância. Andrew a observa adicionar leite ao seu chá – ele jamais a perdoará pela cultura britânica remanescente nela – enquanto tenta conter a própria agitação, ao notar o ritmo em que suas unhas batem contra a porcelana da xícara que tem em mãos.
— Por que você nomeia isso como "mais problemas"?
— Como se você não os conhecesse.
Ao debruçar o problema sobre a mesa, Andrew está dando o direito a Bee de analisar as faces dele com uma lupa e cutucá-lo com pinças. Andrew se arrepende imediatamente (isso não é verdade. Andrew confia mais que a própria vida à Bee: ele confia nas seus conselhos para conseguir conduzir essa vida que lhe foi conquistada, isso é muito mais significante).
Mas terapia é uma merda e ele está de mau humor: a enxaqueca que o acompanhará pelos próximos dias já está dando o ar da graça, como sempre acontece quando ele decide "fazer avanços" na terapia e se estressar ao ponto de uma combustão espontânea. Ele começa a sentir seus próprios batimentos cardíacos pulsarem na têmpora e sua própria pele começa a incomodá-lo, o que faz Andrew se fechar em si, calando a boca e decidindo encerrar o seu lado da conversa até semana que vem, mesmo que tenha sido ele a aparecer no escritório dela 29 horas antes da sua sessão real e dito que precisava falar com Bee.
Bee compreende bem o suficiente a variedade de silêncios de Andrew para saver que ele não está se sentindo avesso a ela continuar a terapia, então ela engata em um monólogo, sem nunca esperar pela contribuição de Andrew. Sua voz soa como uma melodia suave tocando em segundo plano pelos próximos 20 minutos. Ela em momento algum faz perguntas a Andrew ou nunca solta frases motivacionais prontas, como "você merece ser feliz" ou "não sinta vergonha por querer algo", o que ele aprecia imensamente, porque Andrew está a dois passos de cometer alguns crimes sérios contra a humanidade.
Apesar disso, todos os conselhos são inúteis. Andrew a escuta em segundo plano porque há um discussão acalorada acontecendo com ele consigo mesmo em primeiro plano. Ele não consegue entrar em um consenso sobre o que fazer com seu infortúnio, mesmo que saiba que deve cortar o mal pela raiz (mas ele não sabe se ainda for possível, pode ser tarde demais). Isso porque, apesar dele apreciar os esforços de Bee, Minyard não pode acreditar que ela propôs a ele a tarefa de gastar uma parte do seu dia para fazer uma lista de prós e contras sobre Kevin e Neil.
Honestamente, isso beira ao ofensivo quando ela sabe muito bem que Andrew foi abençoado (haha) com uma memória eidética. Não é como se ele precisasse tornar suas dúvidas palpáveis para avaliar a situação, tudo o que ele precisava saber já estava lá, armazenado em gavetas na sua cabeça pela eternidade, ele nunca poderia esquecer, nem mesmo se quisesse, os mínimos detalhes dos dois jogadores.
E não é necessário gastar papel e caneta e remoer seus problemas para que ele saiba que só há contras em querer algo com qualquer um deles.
Não é como se ele não tivesse tentado. Andrew já teve uma prova de como seria ter algo com cada um dos dois e olhe no que deu: apenas mais sessões de terapia e um estágio avançado de ansiedade e loucura generalizada.
Claro, ele não poderia dizer que teve Kevin um único dia de sua vida, mas Andrew chegou a ter uma pequena amostra do que poderia ser: uma única noite, em que Kevin disse a Andrew que gostaria de saber como era estar com um cara – por uma questão filosófica, entende? , o estupido disse – e Andrew se ofereceu em sacrifício.
Kevin não falou sobre o que aconteceu no dia seguinte. Não seria Andrew a tocar no assunto.
Por outro lado, ele teve Neil por completo. Foram quase seis meses inteiros da coisa mais consistente e real que Minyard teve em toda a sua vida, ele se sentia bem e invencível, até que seu cérebro começou a ecoar insistentemente a palavra “real” como um tambor na sua cabeça e o sonho febril se tornou denso o suficiente para esmagá-lo. O compromisso e a vulnerabilidade a que Andrew teve que se submeter para ter isso, somado ao que ele ainda sente por Kevin, se tornou muito, demais. E obviamente sua reação foi a pior possível. Andrew passou dias muito irritadiço, nervoso e inseguro .
Neil, é claro, notou que algo estava errado, algo que não era de seu ofício, e deu espaço a Andrew – espaço demais: eles não se falam há duas semanas e contando.
Então não , Andrew não precisa reavaliar todos os aspectos dos seus relacionamentos e dos seus (urgh) sentimentos para saber que é demais para ele lidar, que ele tem problemas maiores para lidar – seu irmão, Nicky, a faculdade, todos os traumas etc –, que ele não precisa de mais responsabilidades e, acima de tudo, ele não deveria querer nada disso, não é assim que ele é.
(Em defesa de Bee, ela nunca falou, nem remotamente, sobre Lista de Prós e Contras ou algo do gênero, tudo o que ela disse é que Andrew poderia pontuar suas dúvidas e tentar respondê-las aos poucos, para pôr a cabeça no lugar e organizar suas ideias em um papel. Foi 100% Andrew que decidiu deturpar tudo o que foi dito e resumir a uma lista infantil.)
Andrew bufa ao destampar uma caneta preta, rasgando a última folha do seu caderno e escrevendo na parte superior do papel:
Lista para os motivos que devo fazer as listas
- Aparentemente, sou um maníaco controlador.
- Nicky apareceu e estou fingindo fazer algo importante para ele não começar a falar.
- Há um momento, quando se chega ao fundo do poço, onde você faz qualquer coisa por desespero.
- Talvez eu odeie Kevin tanto quanto odeio Neil.
- Às vezes, também não o odeio tanto quanto odeio todo mundo, assim como acontece com Neil. Muito, muito raramente.
- Nicky ainda está tentando chamar minha atenção.
- Talvez eu queira manter Neil por perto. Permanentemente.
- Talvez, não apenas ele.
Andrew observa o número oito. É algo que ele vem remoendo há algum tempo, essa coisa por Kevin Day.
Ele aceitou que Neil ficasse por perto porque as coisas com o ruivo eram fáceis (tirando toda a história da máfia, sequestro e tortura) de uma forma que parecia uma mentira bem contada. Tudo entre eles era surpreendentemente descomplicado como nunca foi com mais ninguém: era simples, sem rodeios ou drama. Eles se entendiam sem precisar de palavras e respeitavam-se mutuamente sem a necessidade de maiores explicações.
Era essa a única forma de relacionamento que Andrew aceitava para si mesmo: respeitar seu espaço era um critério indispensável. No entanto, mesmo sendo um pouco (bastante) contraditório e egoísta, Andrew não tinha tempo e nem disposição para pisar em ovos para lidar com os problemas e sentimentos de alguém, mesmo assim, (e Andrew ainda não entende como) Neil aceitou suas condições sem nenhum problema. Foi por esse mesmo motivo que Roland e Andrew se deram bem por tanto tempo também, a principal diferença entre as duas relações era a intensidade da coisa que Andrew sentia por Neil.
Mas Neil é Neil e, mesmo que seja assustador pensar nisso, Andrew conseguiu passar por cima dessas questões para tê-lo, algo que ele jamais poderia fazer por Kevin, porque esse é o grande defeito de Kevin: ele não é Neil.
Pior que isso: ele é Kevin Day.
Nada é fácil com Kevin, ele é complexo como a moral e complicado como a justiça. Kevin sempre quis muito de Andrew: ele queria seu jogo, sua atenção, sua proteção e seu coração. Quando se conheceram, Andrew ofereceu a ele apenas uma única coisa dentre essas quatro (e tudo saiu do seu controle, porque Kevin ainda assim conseguiu reivindicar um pouco das outras também) e deveria ser mais que o suficiente.
Andrew jamais permitiria alguém forçá-lo a fazer qualquer coisa e é por esse motivo que Andrew sempre foi tão inflexível a qualquer planejamento e metas que Kevin idealizava para a equipe.
Entretanto, Andrew cometeu o erro de nunca ter dito um "não" enfático a Kevin. Tudo o que ele fez foi ignorar ativamente qualquer coisa idiota e irritante que saía da boca bonita de Kevin, à espera do dia em que o jogador compreendesse que Andrew jamais daria algo à Kevin sem que ele pedisse com educação primeiro.
A verdadeira surpresa de Andrew foi perceber que ele estava disposto a esperar que Kevin se desse conta disso.
É pela frustração que sente ao compreender a situação – e a situação é: ele está disposto a não apenas ser fodidamente vulnerável com Neil, mas com Kevin Day também – que Andrew decide continuar com o lance estúpido das listas.
Contras – Motivos Que Tornam Kevin Day Abominável
- Exy atrofiou seu cérebro de uma maneira irreparável.
- Traumas o suficiente para transbordar uma piscina, os quais eu não posso lidar.
- Foi ele quem jogou meus Snickers no lixo. Ele negou, mas conheço um mentiroso quando vejo um.
- Kevin é barulhento.
4.1. e uma má influência. Neil parece estar cada vez mais entusiasmado em gritar com ele pelos corredores, como se isso fosse normal e tolerável.
- Sua cara (sinto vontade de socar a cara dele até nos dias bons. Não culpo Neil por arranjar briga o tempo inteiro com ele).
- Ainda me olha como se estivesse certo de que posso dar a ele tudo o que ele quer.
É uma boa lista. Com argumentos sólidos. Ele poderia continuar por mais duas horas se tivesse tempo e disposição o suficiente para isso, porque Kevin é a pessoa mais detestável que ele conhece e, para seu infortúnio, seu cérebro há muito tempo decidiu reparar e catalogar cada coisa irritante que Kevin faz e, mesmo que queira, Andrew não consegue fugir disso. Até a maneira como Kevin Day lixa as unhas faz Andrew sentir um desejo de morte.
Mesmo contrariado e desgostoso com a ideia, ele se obriga a terminar o exercício (avisando novamente: Bee não tem nada a ver com isso), fazendo a lista de prós ao lado direito do papel:
Prós – o Porquê da Encruzilhada
- É inteligente quando quer (ele quase nunca quer).
- Mesmo passional e impulsivo, nunca ultrapassou meus limites (mas ultrapassa os seus, o que é autodestrutivo e o imbecil vai acabar se matando). Isso deveria estar na lista dos contras*
- É confiável.
- Sente empatia.
- Tem um bom pau.
- Cumpre suas promessas. Nunca quebrou nenhuma delas.
- É a pessoa mais verdadeira que já conheci.
- Me perdoou.
Andrew não gosta de como leva menos de dois minutos para fazer a lista de prós – e ele tenta ignorar o fato da segunda lista ter ficado maior e mais objetiva que a primeira para o bem da sua própria saúde mental.
É uma merda, realmente. Andrew odeia ficar remoendo sem parar e ele acha que deseja falar com alguém na mesma proporção que sente ânsia de vômito em apenas pensar falar novamente sobre isso em voz alta.
A candidata ideal para ouvi-lo é, sem sombra de dúvidas, Renee, mas Andrew conhece o mínimo de normas sociais para ter noção de que estará abusando da boa vontade dela caso decidisse despejar nela, novamente, como se não tivesse sido terrível o suficiente em despejar todo o seu colapso mental – intitulada A Grande Depressão Josten por seu próprio cérebro – no que se estendeu por longas semanas de monólogos infindáveis e vergonhosamente gays sobre Neil. Não. Andrew não falará com Renee, Renee já teve o suficiente das lamúrias de Andrew para duas vidas inteiras, ela merece descanso e paz agora.
O que o deixa sem opções. Porque, além de Renee e Bee, a única outra pessoa que Andrew não se importaria de falar sobre isso seria Neil, e Andrew não tem certeza que falar sobre seu profundo interesse pelo outro colega de equipe seja a melhor forma de iniciar uma conversa com o cara que você dormiu durante a última metade do ano e atualmente está dando gelo.
— Ei, você. — Renee o cumprimenta com um sorriso, sentando-se a uma distância confortável de Andrew.
O loiro dá apenas um grunhido de reconhecimento. A lista mais recente está em suas mãos, mas ele está em um nível muito deplorável para esconder qualquer coisa de Renee, então Andrew não guarda o papel, ele continua olhando fixamente para ele como se a tinta pudesse queimar se ele desejasse com toda a sua fé (infelizmente, ele é ateu, então não funciona).
— Ocupado?
Andrew comprime os lábios em uma linha fina, ainda sem tirar os olhos do papel, ele destampa a caneta e adiciona, colocando uma força desnecessária na caneta, mais dois motivos:
- Seus olhos.
- O sorriso de merda que dá quando encara o placar no fim de um jogo.
Andrew para. Dez é um bom número, ele não vai adicionar mais que isso (ele se nega a dar mais qualidades ao maldito).
Renee está sentada ao lado dele na arquibancada e poderia facilmente ler por cima do ombro de Andrew o que ele está escrevendo, ao invés disso, seus olhos estão focados na equipe que corre de um lado para outro na quadra abaixo deles porque essa é Renee e ela nunca bisbilhota as coisas de Andrew e nem de ninguém.
Isso não está no topo das melhores qualidades dela, se perguntar a Andrew agora. Porque isso faz com que ele tenha que criar uma força descomunal para pigarrear e jogar a lista na direção dela, fingindo desinteresse e mantendo seu olhar distante para não ver a expressão da garota ao ler suas merdas.
Renee pega o papel com muito cuidado e lê os 16 tópicos com atenção. Andrew sabe que Renee nunca o julgaria, mas ainda assim ele está esperando que ela acabe rindo dele e da forma infantil que está lidando com isso (talvez ele seja mesmo um grande melodramático, no final das contas) e é por esse motivo que a tensão em seus ombros diminuem consideravelmente quando ela diz apenas:
— Você fará algo sobre isso? — Ela pergunta e entrega a lista ao goleiro.
Andrew apenas dá um zumbido em resposta, não é um sim nem um não.
Eles observam a equipe dar voltas em torno da quadra. Nicky diminui a velocidade da corrida e Kevin grita com ele no mesmo segundo como se seus pulmões fossem de aço enquanto Renee toma água em sua garrafa de My Little Pony e Andrew come uma barrinha de cereal na arquibancada – Andrew machucou o ombro e Renee deslocou um dedo no último jogo.
— Neil e você ainda estão brigados? — Renee pergunta e Andrew a encara um pouco, Renee não é de fazer perguntas.
— Não brigamos. — É a vez da garota dar um zumbido em resposta.
— Tudo bem então, — Renee dá uma pausa, pensativa — acho que você precisa avisar a ele então. Neil anda bastante aéreo nos últimos treinos. "Frustrado" seria a melhor palavra, eu acho.
Andrew não diz mais nada e nem Renee. Eles ficam em silêncio até o treino acabar e se encaminham para fora do estádio para voltarem aos dormitórios.
Andrew tem esperança de que dormirá assim que deitar sua cabeça no travesseiro, mas ele se sente agitado e está silencioso demais para dormir – Neil achou melhor dormir no quarto de Matt ou Kevin, Andrew não sabe, enquanto o espaço é dado –, nada parece distraí-lo o suficiente, então ele acaba fazendo a coisa mais previsível que poderia fazer:
Lista de motivos pelo qual Neil deve ficar
- É como Renee.
- É engraçado. (listar no Contras também)
- Para ele, tudo é um "não", até que seja "sim".
3.1. E com ele, tudo é um "sim" até que seja "não".
- É a pessoa mais inteligente que conheço.
- Lindo pra caralho.
- Suas mãos.
- Consegue pacificar até o inferno (Palmetto).
- Ele luta por quem ama.
- É real (mesmo com todas as identidades falsas etc).
Andrew fica muito ocupado pela próxima semana, assim que seu ombro melhora e Kevin decide que Andrew deve compensar as horas que passou vegetando no banco.
Ele nunca pensou que poderia ter algum sentimento positivo com qualquer coisa relacionada ao exy mas, surpreendendo a todos e a si mesmo, Andrew encontra uma profunda paz interior ao descontar toda a sua frustração nos tornozelos de Neil e Kevin durante os treinos noturnos.
Ignorando os rosnados em sua direção vindo de ambos os atacantes, parece haver um mutualismo bastante saudável entre os três, onde os dois o têm em quadra por algumas horas e Andrew tem seu momento terapêutico (mais uma vez: Bee e nenhum profissional da saúde aprovam os métodos de Andrew) enquanto atira as bolas cada vez mais forte em direção a eles.
Andrew acha que está tudo bem e que está sendo perfeitamente sutil sobre estar descontando seus problemas no treino, até que Neil, ao invés de tentar encontrar alguma brecha na defesa de Andrew para fazer um gol, larga sua raquete no chão e vai embora da quadra.
Andrew apenas o acompanha com o olhar, inexpressivo como sempre.
Kevin, ao invés de gritar como sempre faz, caminha na direção de Andrew e respira fundo antes de falar qualquer coisa. Hm. Isso é novo. É isso que faz Andrew reagir, ao erguer uma sobrancelha em curiosidade com a ação mais civilizada que ele já viu de Kevin em campo.
— Olha, não faço a menor ideia do motivo pelo qual você está tão irritado ultimamente e eu não vou perguntar — Kevin enxuga o suor com a camisa e Andrew não olha para a pele brilhante de suor exposta da barriga do outro porque certo, ele até pode ser inegavelmente gay mas, acima de tudo, Andrew é um guerreiro e tem seus princípios. — Até porque não ligo de desviar das bolas que você joga nos meus pés, desde que você continue jogando, mas o que quer que tenha acontecido está atrapalhando o jogo de Neil também. Ele errou mais passes nos últimos treinos que durante todo o campeonato de primavera.
Andrew sente uma vontade irracional de agarrar a camisa de Kevin e gritar com ele até que tudo exploda.
Há um motivo pelo qual o primeiro de todos os "contras" de Kevin seja a sua mente atrofiada por exy, mas nunca deixa de ser surpreendente e revoltante a forma que todos os pensamentos do homem são condicionados ao exy e Andrew precisa se controlar como nunca antes para não deixar um rosnado escapar.
Mentalmente, Andrew escreve novamente o primeiro contra no final da lista, e acha que poderia adicionar ela mais cinco ou seis vezes, porque essa merda é demais para ser contabilizada somente uma única vez:
- Exy atrofiou seu cérebro de uma maneira irreparável.
- Exy atrofiou seu cérebro de uma maneira irreparável.
- Exy atrofiou seu cérebro de uma maneira irreparável.
- Exy atrofiou seu cérebro de uma maneira irreparável.
- Exy atrofiou seu cérebro de uma maneira irreparável.
- Exy atrofiou seu céreb-
— Neil faltou três aulas semana passada, acho que você sabe disso.
A boca de Andrew fica amarga, Kevin pegou baixo ao mencionar isso: que Andrew está afetando o desempenho acadêmico de Neil.
O ódio cegante que ele está sentindo por Kevin se dilui um pouco e Andrew se sente quase desorientado, nenhuma resposta esperta e afiada surge para atacar o mais alto. Era essa a razão pela qual Andrew nunca quis nada com ninguém, essa dependência não pode ser saudável, essa culpa que ele sente por reações alheias não deveria existir. Ele não tem tempo pra isso.
— Não é problema seu.
— Você não pode ditar o que é ou não meu problema.
— Não. É. Problema. Seu. — Andrew enfatiza.
Kevin não se encolhe com a hostilidade no tom de Andrew e nem se afasta, o que é um verdadeiro progresso, levando em consideração tudo o que aconteceu no ano anterior, e Andrew não deveria se distrair pensando em como Kevin merece parabéns por sua evolução, mas é isso o que acaba acontecendo.
— Só… Se resolvam. Neil não merece ficar no escuro. — Kevin abaixa o tom para algo mais cordial quando percebe que Andrew não se moveu para encerrar a conversa. — Eu sei que não parece, mas você pode falar comigo, eu… — Andrew solta uma risada seca, pega Kevin de surpresa.
Andrew dá as costas e vai em direção ao vestiário. Ele está ficando cansado pra caralho de toda essa merda.
