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O Parnaso e a Musa

Summary:

"Gostaria de saber como me pareço dentro de ti", era um murmúrio quase inaudível do garoto disposto entre os lençóis desarrumados, "seria semelhante às flores que me deu de presente? De que maneira é a imagem de Lee Felix na mente artística de Hwang Hyunjin?"

Ou Hyunjin pinta um quadro sobre Felix para expressar seu amor.

Notes:

COISAS QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE LER:
Na mitologia grega, as musas de Apolo eram 9 seres musicais que viviam no monte Parnaso e inspiravam os mortais nas artes e ciência. No Arcadismo brasileiro, as musas tanto podiam ser as da mitologia quanto pessoas reais. Os poetas usavam desse artifício para ser a inspiração dos poemas, podendo clamar por ela algumas vezes durante o poema.

Sugestão de música para ouvir enquanto lê: Carinhoso - Pixinguinha e seu conjunto

Work Text:

Os fios de algodão cru, perfeitamente entrelaçados que compunham a tela em branco, encaravam Hyunjin pelo tempo imensurável que os dois estavam ali, um diante do outro. A ausência de cor e detalhe deviam representar o novo, a possibilidade de criação, o nada; contudo, ele pensava em sua história, em quantas mãos passaram pelos mesmos fios de algodão que agora sensibilizavam seu tato, na fábrica onde houve o nascimento do objeto que repousava delicadamente sobre o cavalete de madeira que adornava um canto de seu quarto. Por que ele havia escolhido aquela tela entre todas as outras? O que a tornava especial? Gostaria de desenhar olhos e boca naquela infinidade nívea na esperança de que suas perguntas fossem respondidas, mas sabia da impossibilidade da prosopopeia em algo tão real como a vida cotidiana.

Suspirou, trazendo à tona o objetivo de sua estadia ali em frente àquele item inanimado. Gostaria de saber como me pareço dentro de ti , era um murmúrio quase inaudível do garoto disposto entre os lençóis desarrumados, seria semelhante às flores que me deu de presente? De que maneira é a imagem de Lee Felix na mente artística de Hwang Hyunjin?

Era incapaz de lembrar se fazia uma semana ou um mês desde que Felix entrou em seu quarto, declarou que precisava de pelo menos uma hora longe do processo criativo de Changbin e fez da cama de Hyunjin a sua própria. Ele estava no mesmo lugar de agora, mas a tela era viva de cores e silhuetas, seu corpo havia o arrastado até ali após um drama nacional que assistiu e trabalhava por vontade própria no quadro… Bom, isto é, até o momento em que Felix decidiu que sua cama era o melhor lugar para espairecer as ideias, porque Changbin era incansável quando produzia música.

Enquanto ele usava as duas mãos, pequeninas e enfeitadas de anéis nos dedos, para mexer no celular, Hyunjin acertava a tela com pinceladas insípidas, o fogo que conduz sua inspiração resumido a centelhas. As palavras ditas, talvez sem valor, ao vento, pairavam sobre sua mente, uma névoa disforme e inconclusiva.

O pensamento era insistente e perdurou até o presente instante, quando finalmente cedeu à obstinação. Todavia, a névoa continuava disforme e inconclusiva, impedindo-o de pintar. Deveria ele clamar às ninfas do monte Parnaso para iluminar sua arte? Não funcionaria, pois a sua musa era quem iria retratar. Se pudesse, declamaria a mais formosa lira para receber o encanto da inspiração.

Apesar de não ter pressão ou expectativas para aquela tela, sua mão suava e seu pé descalço balançava rapidamente contra o piso laminado, a ansiedade o consumindo. Poderia tentar outras vezes se não gostasse do resultado, poderia manter o segredo dentro da privacidade de seu quarto, poderia, poderia…

Por fim, fechou os olhos, buscando na memória lembranças de Felix. Surpreendeu-se quando apenas a menção interna do nome estrangeiro, que até sem passar por sua língua era difícil de pronunciar, não trazia imagens, mas sentimentos. Estes eram: quente, aconchegante, contente - a forma como se sentia quando estava junto dele. Amarelo, laranja, dourado, marrom e definitivamente não vermelho - era quente demais para ter a alegria confortável que almejava.

Abriu os olhos e procurou as bisnagas de tinta a óleo que precisaria, depositando o conteúdo na paleta de madeira junto do solvente para misturar as cores até chegar no que havia imaginado. A bagunça de tons era um pôr do sol abstrato e sorriu ao chegar à conclusão de que essa era sua definição pessoal do garoto: o último raio de sol do crepúsculo que antecede as noites de verão.

Felix não era como as musas de Apolo. Tinha a graça da música, da mesma maneira que elas; era motivação para Hyunjin dançar, como Terpsícore; contudo, ele era mais. Carregava a grandiosidade de Calíope, foi Érato quando escreveu os versos de Red Lights . Ele era a musa que inspirava as musas. E, no entanto, lá estava Hyunjin, horas sem fim em frente à tela, incapaz de materializar o sentimento.

O primeiro contato do pincel contra o algodão foi impulsivo, sem rumo e desprovido de ressentimento. Não era uma das cores que havia planejado, as cerdas estavam sujas de um azul escuro qualquer e se apresentava como uma listra de alívio no topo daquele branco que, de tanto encarar, doía seus olhos. Riu sozinho, surpreso que aquilo foi o bastante para encorajar suas ideias. 

Conhecia as tintas melhor que a si mesmo, então não foi um problema achar a que deixou um vestígio na tela e logo ele estava colorindo a parte superior da mesma cor. Era gratificante dar o primeiro passo rumo ao que supunha ser a sua obra-prima, mas não foi suficiente para impedi-lo de morder o lábio inferior quando repousou o pincel na paleta, contemplando o que faria a seguir. Assim como suas ideias, sua insegurança era uma névoa disforme e inconclusiva.

Faz a imaginação de um bem amado, que nele se transforme o peito amante; daqui vem, que a minha alma delirante se não distingue já do meu cuidado. – recorreu aos neoclássicos num clamor pela inspiração. Talvez funcionasse se aquela imensidão, agora azul, fosse versos de um soneto italiano, com rimas interpoladas e uma métrica invejável. Suspirou, incapaz de contar quantas vezes já tinha feito isso desde que sentara ali.

Numa tentativa de controlar a frustração, pegou um novo pincel e dedilhou os pelos artificiais, concluindo que aquele tinha sido lavado previamente. Era maior que o primeiro que havia escolhido, denso e usava-o para colorir o fundo antes dos detalhes. Era isso! O passo inicial seria pintar o fundo e os próximos deixaria o destino decidir enquanto a tinta secava.

Uma vez aquela tela foi pura e límpida, como todas as outras que residiam a prateleira de sua loja favorita de arte, a cor genérica e indiferente entre aquelas do mesmo gênero. Agora, era azul, amarelo, marrom e verde - ainda amorfo e, de certa forma, vazio, porém, para Hyunjin, era como se já estivesse pronto. Ele estava confiante. 

O tempo que havia passado entre o dia que começou e o dia de hoje era apenas isso, um substantivo abstrato regado de imprecisão. A única indicação da passagem dos instantes, para ele, foi o contato com a musa, substancializado novamente dentro das quatro paredes de seu quarto. Seus olhos curiosos passeavam devagar nos detalhes (ou na falta deles) daquele quadro que secava imóvel perto da janela e, de onde estava, o campo de visão de Hyunjin era um amontoado de cabelos loiros em meio à paisagem bucólica que imaginava ser aquela tela. Tê-lo ali, o sol dourado da tarde beijando sua face de maneira tão delicada e as cores que escolheu para representá-lo como plano de fundo, era inspiração suficiente e foi obrigado a enxotá-lo educadamente para continuar seu trabalho.

Então, ele estava ali de novo, a chama da inspiração e do amor era a mesma, e ele realmente gostaria que fosse eterna enquanto durasse. Repreendeu-se pela falta de fé na capacidade da nem tão pequena ninfa, que encantava seus pensamentos, de iluminar sua arte como fazia com outros aspectos da sua vida.

Iniciou pelo o que julgou ser o mais simples: adicionar estrelas e nuvens sutis, levemente desbotadas, nos tons de azul que se fundiam do mais escuro para o mais claro. Sua interpretação da hora que antecede a noite era irreal, contudo, irrelevante para o artista, seu objetivo era que a beleza fosse similar a de sua musa. A constelação era esparsada e cada uma minúscula, porém, juntas, carregavam o esplendor de um céu decorado. Essas eram as sardas de Felix, um pontinho somente era comum e cotidiano, mas o conjunto final era lindo.

Em seguida, o último suspiro do sol, bem longe no horizonte e em um único raio longo, que dava o ar da graça apenas para despedir-se do dia. Ainda era a segunda camada, portanto, não tinha uma definição precisa e os retoques para transformá-lo em algo próximo da realidade viriam futuramente - após a tinta secar pela segunda vez. Olhar para a tela inacabada já trazia os mesmos sentimentos de estar com Felix - quente, aconchegante, contente.

Sabia que a chama não era imortal e não poderia desperdiçá-la contemplando o inacabado. Por consequência, trocou de pincel e tornou o borrão verde num gramado primaveril, no entanto, não se apressava ao revisitar a paleta e adicionar ou misturar as tintas, pensando bem no que iria tornar o tecido belo, digno de sua musa. 

No embalo, também deu profundidade à beira do monte Parnaso, diferenciando assim o céu da terra. O que havia além daquela montanha era escuro, caminhando para o fim da tela, onde o sol não ousava tocar. Sentia-se assim com o que o menino dourado escondia dentro de si, todos os segredos eram guardados atrás de sorrisos radiantes. Gostaria de um dia poder jogar-se naquele penhasco e acender o bréu com o fogo de sua paixão.

Foi difícil admitir que não havia mais nada que pudesse pintar sem prejudicar o que já estava ali. O brilho do óleo já possuía a consistência molhada que, pela experiência, indicava para Hyunjin que era hora de parar.

O tiquetaquear do relógio, girando os segundos, minutos e horas, movimentava-se lentamente na perspectiva do artista, o barulho enlouquecedor durante a espera interminável para a tela secar. A chama tornara-se ansiedade já que não podia pintar e nem mesmo a composição de inúmeras canções em homenagem à musa foram capazes de acelerar o tempo, arrastava-se em cada instante de todos os dias longe de sua obra-prima.

Eventualmente, ele pode se sentar em frente ao cavalete e sentir o cheiro característico de tinta a óleo e solvente - a combinação mais reconfortante possível para acalmar seus ânimos. Quase derramou lágrimas de emoção, de finalmente estar ali, mas reservou estas para quando finalizasse de fato o quadro.

Durante esse tempo (agora, um substantivo muito mais concreto que da última vez, pois sentiu cada milésimo passar e, se perguntassem a ele, saberia dizer com precisão matemática a quantidade de horas que levou para a tinta secar), fez um passeio com o dono de seus pensamentos para ver as flores "enquanto a estação ainda estava quente", palavras dele para convencer Hyunjin, e teve mais uma ideia para a pintura. Era difícil conter-se na presença daquele ser místico que amava a natureza e emanava uma felicidade contagiante ao rodear-se pelas flores coloridas. Os olhos brilhavam, não como o óleo opaco da tela que secava em seu quarto, eram cintilantes e carregavam a curiosidade que seus lábios expressavam em forma de perguntas sobre os tipos de flores. Hyunjin conhecia um pouco sobre botânica e tentava acompanhar as dúvidas, que eram rápidas e desenfreadas. Ele achava adorável o jeito frenético que falava quando estava empolgado e decidiu que aquele lado de Felix não podia faltar em um quadro sobre ele.

De volta ao presente, seu olhar era crítico ao papel que tinha em mãos. A pequena fada desenhada era um rascunho do que ele queria na tela e duvidou se conseguiria, com o pincel, dar a ela o mesmo primor do lápis. Suspirou e deixou a experiência guiá-lo pelas pinceladas finas e delicadas que deram vida ao ser que brilhava na tela seca. 

Ela era estonteante, sentada no pico do monte Parnaso, as asas tocando levemente a grama de aparência macia, uma mãozinha erguida em direção ao raio de sol. Era possível ver apenas uma pequena parte do rosto, os tons amarelados para mostrar que ela recebia a luminosidade efêmera que estava prestes a desaparecer para dar lugar à lua. Mesmo pequenina, Hyunjin fez questão de pontuar a cintilância dos olhos, curiosos assim como os de sua musa. Pensou na ambiguidade que a ação dela teria a quem contemplasse a obra, estaria a ninfa querendo alcançar o grande astro que rege sua existência ou estaria ela dando adeus ao último raio de sol?

Deixaria a resposta para os espectadores, pois seu foco era na parte que menos gostava de pintar: pontuar luz e sombra. E novamente o relógio se arrastava durante o árduo trabalho de Hyunjin sobre a tela.

Levou mais alguns dias, estes que passaram indiferentes pois o principal já estava ali, para fazer o acabamento. Podia enfim deixar que corressem por suas bochechas as lágrimas de emoção, havia finalmente concluído a coisa mais linda que havia pintado em toda a sua carreira artística. A grandiosidade do quadro definitivamente fazia jus a sua musa.

Sem dar importância para as tardisissímas horas em que estava deixando o conforto do apartamento pelas ruas frias de Seul, fez o caminho até o prédio em que os outros membros moravam e mais uma vez ansiedade pesou seu estômago. Apesar de satisfeito com o resultado, não era corajoso o bastante para entregar o presente diretamente para Felix. Suspirou, pensando em uma solução enquanto ainda estava no elevador.

Por fim, repousou cuidadosamente o quadro contra a porta do apartamento e voltou para o elevador. Entristecido de não poder ver sua reação, sacou o celular do bolso e enviou-lhe uma mensagem, ciente da enorme probabilidade de ele ainda estar acordado.

Perguntou-me um dia como era a imagem de Lee Felix na mente artística de Hwang Hyunjin.

Abra a porta e descobrirá.