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COMPUTER GIRL (Barbelie)

Summary:

Amelie é uma streamer muito famosa. Conhecida pela sua personalidade extrovertida e seu sotaque francês bem carregado, ela é destaque na plataforma, com diversos fãs! Bárbara é uma moça simples que veio para a cidade grande com o sonho de compartilhar seu conhecimento sobre plantas na internet, depois de seu melhor amigo, Milo, viralizar com um vídeo seu tocando.

Mas existe algo que, um dia, a tantos anos atrás, uniu as duas moças tão diferentes; em uma viagem à ilha reclusa onde Bárbara cresceu, a Amelie Florence adolescente lhe deu um beijo e a prometeu um final feliz para o romance de verão.

Bárbara é uma das únicas pessoas que sabem que o tal sotaque é falso, e Amelie é a única que sabe sobre os maiores medos e inseguranças dela.

(social media/streamer au+songfic, bárbara!centric, barbelie, minor milovier)

Notes:

essa fanfic se situa no mesmo universo que a minha fanfic samuaiser, REAL(mas antes dos eventos!). tava com essa ideia aqui incubada na minha cabeça a mó cota(mais ou menos desde outubro do ano passado), tinha que botar p fora!!

essa história é sobre aceitação, ondas do mar, fama, e taylor swift.

playlist: https://open.spotify.com/playlist/14iojz7PIB8YPDnLXk6knb?si=44debb3325f8454e

boa leitura!

Work Text:


capas:

 

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Bárbara olhou bem para o perfil brilhando na tela de seu celular; Claro que a moça já não tinha os cabelos castanhos com mechas roxas, mas de resto, as semelhanças estavam todas ali, os olhos brilhantes, o sorriso contagiante e o nariz grande. O nome não a ajudava a se enganar, estava escrito perfeitamente, com todas as letras, "AMELIE FLORENCE". A paixão de adolescência de Bárbara, o primeiro beijo dela, o primeiro questionamento dela, e agora, seu maior arrependimento.

— Milo… É ela… — falou, olhando para o amigo que sorria enquanto teclava, ele tomou um sustinho, olhando para a amiga com seus olhos arregalados, surpreso e curioso.

— Que? Tem certeza? É essa a menina que você beijou quando tinha 14 anos?? — Olhou para a tela do celular, incrédulo — Ela tá meio diferente! E tipo… famosa!? Ela não tinha uma irmã?

— Irmã… Florence… — Deu uma olhada nas pessoas que ela seguia — Ué, nada aqui… Estranho… De qualquer forma. Agora eu sei como achar ela.

Olhava orgulhosa para a tela de seu celular.

— Como? — perguntou — Será que ela leria sua DM?

— Hmm… — Pensou — Provavelmente não. Gente famosa não faz isso…

— Não faz? Como tem tanta certeza?

— Oxe, Milo, cê' que é o famosinho! Deveria saber!

— Eu tô' só começando… Eu não sei como essas coisas funcionam… ainda. Se bem que a Ordo me chamou pra'um evento deles… Um baile de máscaras… Vai ser muito legal, eu vou tocar e vai ser perfeito.

— Se você não tocar alguma da loirinha eu juro que acabo com você, Castello. Mas… Ordo não é aquela organização de gente que joga jogo?

— Eles ajudam streamers e criadores de conteúdo de todos os tipos… O ‘management’ — Falava engraçado, tentando forçar as sílabas. Bárbara soube que ele havia treinado horas como se falava essa palavra assim que o ouviu — deles que me ajudou com o apartamento, sou um agente promissor, aparentemente. A gente podia ir junto, talvez isso dê uma ajudinha pro seu engajamento…

— Nem me fale… Meus primeiros vídeos 'floparam' demais…

— Já tá falando igual a essas blogueiras.

— Mais de um mês tentando entender essas coisa'… Tem que servir pra algo!!

     Milo já voltava a mexer em seu celular.

— …Cê' viu o exposed da Clarissa??

— Quem?

— Aquela moça que fazia vídeos de comédia na academia. De uns tempos pra cá, ela se separou das amigas dela… e aí esse outro blogueiro… de moda, aparentemente, ficou sabendo da briga e expôs tudo.

— Credo, Milo, o quê que ela fez??

— Olha, esse cara… Gal… vazou um áudio da Samantha, uma das amigas dela, falando que a Clarissa tinha traído a confiança dela… Hm… Sei lá. Sinceramente, parece meio falso!

— Como que conseguem fazer essas coisas assim? Por fama…

— Ah… Sei lá… Sabe que até seria bom você se envolver em uma briga assim?

— Milo! Que isso?

— Que foi? Não precisaria ser de verdade…

— Milo!!!??

— Eu tô brincando! Usar o mesmo plot duas vezes é baixo demais…

A menina se levantou. 

— Eu não faço a mínima ideia do quê cê’ tá falando… Mas de qualquer forma, agora que eu consegui arrumar todas as coisas das minhas redes sociais… eu vou tomar alguma coisa naquela cafeteria e floricultura que a gente passou na frente mais cedo. Cê vai?

— Hmm… Acho que não, preciso arrumar o meu quarto, montar alguns dos móveis que chegaram… Mas compra algum doce pra mim, por favor! — Disse.

— ‘Tá certo, então — Pegou sua bolsa e logo já estava descendo as escadas do prédio simpático onde Milo e Bárbara começavam a dividir os gastos de um apartamento pequeno mas bonito, decorado com plantas e discos que Milo havia conseguido comprar. 

 

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Amelie estava tão linda que doía, seu cabelo tingido voando pelo vento enquanto as ondas batiam contra a areia, usava um vestido roxo e tinha um brilho em seus olhos que era impossível de compreender por completo.

Nunca me esqueceria do olhar dela e como ela ria, serena. 

 

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Às 4 horas da tarde, as ruas com pessoas ocupadas pareciam engraçadas para Bárbara, não conseguia entender bem essa arte da cidade grande ainda, havia recém chegado e tudo parecia novo. Viu uma fonte em uma espécie de pracinha, e decidiu, então, fazer uma parada.

Aos olhos dela, o tempo estava perfeito, o céu azul e as poucas nuvens que o adornavam davam um aspecto tão bonito para o grafite nas construções e os jovens entusiasmados e tão sonhadores quanto a mesma. Segurou uma moeda prateada entre seus dedos e fechou seus olhos. “Que eu consiga achar Amelie Florence”, desejou, silente, enquanto soltava a moeda e ouvia seu estalar em contato com a água. 

Andou mais algum tempo ouvindo o doce som de alguma música da Taylor Swift em uma bonita boutique, com uma vitrine cheia de vestidos leves e bonitos. Gostava das músicas da loira, Milo havia a mostrado com animação ao deduzir que ia gostar, e, de fato, a melodia havia a agradado. Tanto que, de fato, havia se viciado nas melodias.

A cafeteria que havia brevemente passado na frente quando Milo precisava ir às compras era mais bonita quando vista com atenção. Tinham trepadeiras pelas paredes do lado de fora e do lado de dentro uma música calma tocava e algumas pessoas estavam sentadas, cada uma delas fazendo suas próprias coisas. Chamava atenção uma menina com uma câmera, animadamente falando algo e conversando - aparentemente sozinha. Bárbara se aproximou do balcão, vendo uma moça da sua idade arrumando algumas flores. Ela tinha cabelos longos castanhos e sardas em seu rosto. 

— Boa tarde!

— Boa tarde, qual vai ser o seu pedido?

— Hmm… Eu nunca vim aqui então… eu não sei exatamente o que pedir…

— Ah! Certo. Qual o seu nome?

— Bárbara Lima… Você me parece meio familiar…

— Olha, Bárbara, eu sou a Beatrice. Eu meio que tenho um canal no youtube. Na verdade, o Café Realitas é, em parte, financiado pela Ordo.

— Oh! Que coincidência, eu… Estou começando a trabalhar com isso, também, não sabia disso, só passei aqui na frente mais cedo com um amigo e… Enfim. Desculpa, eu sou um desastre.

— Relaxa, olha… Você vai perceber com o tempo, mas esse bairro é um bom lugar ‘pra isso, a sede da Ordo é atrás do café, a entrada é pela rua de trás, enfim… Muitos criadores de conteúdo vem morar mais perto… — Ela sorri — Olha, no menu a gente tem alguns chás e cafés, e alguns doces e salgados, olha — Me mostrou um cardápio.

— Eu vou querer um chá de… Lavanda! E dois cookies tradicionais, também — Não fazia a mínima ideia do quê era um cookie, mas soava muito gostoso.

— Certo. Qual o seu arroba?

— Você vai anotar isso no meu pedido?? É assim que fazem as coisas por aqui? — Perguntei, metade brincando, metade em confusão.

— Não, eu só quero te seguir! Manter contato… 

— Ah! É @BarbaraFlorLima.

Milo havia me dito que meu user era muito longo, eu achei perfeito.

— Perfeito, o meu é @Beanari, me segue de volta! 

 

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— Milo, você não me falou que tem 3 criadores de conteúdo a metro quadrado nesse lugar!! — Deixou as chaves em cima da mesa, olhando para o amigo, que procurava por um dos parafusos da estante que queria montar.

— Achei que tinha deixado subentendido… Eu falei que o Prédio da Ordo era perto daqui… 

— Falou??

— Falei, sim. Você provavelmente não prestou atenção porque ‘tava muito ocupada vendo os outros prédios.

— Na minha defesa, são muitos prédios.

        — Foi na cafeteria?

        — Sim, comprei uns “Cu-sei lá o quê”…

— Hmm, amo “Cu-sei lá o quê”! — Pegou o biscoito e deu uma mordida — Os Cookies da Bea são os melhores.

— Você conhece ela?

— Sim, você não falou que era minha amiga?

— Não, mas ela pegou o meu arroba… Vai descobrir.

— Foi uma boa interação social?

— Um 7/10, eu diria, ainda prefiro plantas.

— Pra ser justo, ela provavelmente concordaria contigo.

— É normal as pessoas conversarem com suas câmeras em todo lugar??

— Aqui, meio que é… Viu alguém streamando “IRL”?

— Sei lá, acho que sim… Uma menina ruiva.

— Ou é a Erin ou a Dara.

— Você conhece todo mundo? — Disse, boca ainda cheia do biscoito saboroso.

— Não, eu conheço os afiliados da Ordo, que são as pessoas que mais frequentam o comércio por aqui… 

— Isso é um worldbuilding bem fraco… — Murmurou.

— Isso é uma fanfic de au, Bárbara, tudo é possível.

— A-O quê?? — Perguntou, jogando o saquinho dos cookies já comidos fora.

— Esquece, já foi quebra de quarta parede o suficiente para um capítulo só.

— Eu vou tomar banho e depois olhar pro twitter até cair no sono.

— Lembra que a gente tem que acordar cedo amanhã. Comprar roupas novas.

 

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Toalha no cabelo loiro úmido, vento entrando no quarto e batendo nas cortinas floridas, se encontrou stalkeando a moça de cabelos tingidos ao som de uma música que Milo havia a apresentado.

 

“Amelieflorence: Midnights tá me dando vontade de beijar mulher”

     “Olivierflorence responde: taylor swift só tem esse efeito em mulher, aparentemente.”

        “Amelieflorence responde: vai me dizer que vc não quer dar um beijasso numa menina muito bonita na praia enquanto toca lavender haze?”

            “Olivierflorence responde: isso me parece familiar…”

                “Amelieflorence responde: não tinha lavender haze na época”

 

Percebeu uma tintura rosada alcançar suas bochechas, enquanto percebia: era sobre ela que falavam. descia para os comentários e via fãs comentando coisas como:

 

“catlover: o storytime do beijo mais inesquecível da amelie é um dos meus clips favoritos da vida inteira”

     “skyynotfound: juroooo, ela precisa achar essa menina”

 

Ela estava procurando Bárbara. Ela ainda pensava nela. 

 

De todas as pessoas, Amelie Florence, sua iniciação lésbica e sua descoberta mais bonita, seu romance pré-adolescente, seu primeiro beijo, seu primeiro amor. Amelie Florence ainda se lembrava de si.

 

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Na manhã seguinte, acordou junto com os galos (não existentes) da cidade grande. estava eufórica, queria gritar e jurar amores pela menina que não via há uma década, mas tinha de esperar. 

E foi o que fez, os dias passavam-se com certa demora, Bárbara avidamente trabalhando no seu conteúdo. E isso não a recompensava tanto quanto gostaria.

Um dia antes do esperado Baile de Máscaras da Ordo, cujo Milo havia lhe contado absolutamente tudo sobre, uma postagem chamou sua atenção:

 

“Amelieflorence: infelizmente não vou para o baile da ordo nessa edição, estive tremendamente doente nesses últimos dias </3”

 

Seu coração se sentiu pisado e descartado enquanto as mais simples notícias arruinaram suas chances com o amor da sua vida- dentro da sua dramática mente, pelo menos:

— Milo, o que eu faço??

— Não é o fim do mundo, juro! — estendeu seu mindinho para ela, que aceitou. Os dois entrelaçaram seus dedos em um voto de confiança — Vá comigo para o baile, esqueça seus problemas com música boa e muita diversão!

— Óbvio que você diria algo assim… Não é o amor da sua vida que você está em busca!

— Confia em mim, Barbie… 

 

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Bárbara não deveria ter confiado.

 

O ar tinha cheiro de riqueza, tinha vidro e brilho por todo lugar, estava tudo decorado tão bem que até as plantas de plástico pareciam reais. As máscaras bem decoradas combinando com cada roupa deixavam Bárbara deslocada, um vestido de veraneio branco e uma máscara simples no meio de tantas pessoas coloridas, mas opacas. 

Milo estava lá, claro, cantava rente ao microfone enquanto o som fazia seu coração vibrar e bater mais rápido. Estavam dançando, rindo, conversando, e Bárbara não conseguia falar com ninguém, até ver um borrão de roxo pelo canto de seu olho. 

Vestido com mais brilho do que havia visto na sua vida inteira, e a própria luz refletia de forma diferente perto dela, ao seu redor, orbes de luz se formavam, era como um disco refletor em uma festa agitada, um cd quebrado sob o sol. Ela parecia a lua, em toda sua glória. Era divina, celestial. E meu senhor… como Bárbara Lima estava apaixonada. 

A mulher, de cabelos cinzas longos, com uma máscara metálica, parecia se segurar, contida, enquanto um homem segurava uma câmera, logo atrás dela. Se encostou na parede, com uma taça em mãos, bebia um gole de cada vez, seu batom brilhante no cristal delicado. Era tão perfeita que, por mais que o batom tivesse a aparência de um gloss, não conseguia ver traços da cor no copo. 

— Tudo bem? — Perguntou, olhos atentos e ansiosos.

— Hm? — Ela perguntou, parecia ansiosa também, tinha muito barulho por todos os lados. Mal conseguiam ouvir uma à outra.

— Eu perguntei se ‘tá tudo bem!

— Sim… Não!... Quer dizer- talvez. Eu estou muito bem, obrigada por perguntar. Só um pouco confusa e… com o nariz entupido — Ela olhava para a câmera e para as pessoas ao seu redor com um certo desconforto, um sotaque carregado entregava sua possível nacionalidade, tinha jeito europeu e lábios franceses. Bárbara pensava em beijos franceses enquanto a ouvia falar, toda caótica e desorganizada — Você é?

— Bárbara Lima, ‘tô acompanhando meu amigo ali no palco, Milo Castello!

— Oui, oui, ele é bom! Muito legal, meu nome- é… — Parecia suar enquanto suas pupilas andavam pelo ambiente, junto a música - Bárbara, adorei o seu sotaque, viu, me lembra de uma menina que eu conhecia… 

— Eu também gostei do seu sotaque, é francesa? — Sentia suas bochechas se esquentarem.

— Sim, sim… — Ela pronunciava como “Bárbarra”, e isso fazia a menina de cabelos dourados sorrir — Essa menina que eu conhecia vivia em uma ilha.

— Oi?

Não havia jeito algum de estar ouvindo certo. Ilha?

— Ela morava em uma ilha, muito bonita, por sinal — Não sabia se estava falando da menina ou da ilha. Seria alguma forma estranha e francesa de flertar? — Era exótica…

— Que coincidência, eu vim de uma ilha — A mulher quase cuspiu o champanhe que bebia — Não era nem um pouco bonita, entretanto. Exótica, talvez… ‘cê ainda não me disse seu nome…!

Ela tossiu e segurou sua mão, parecia passar mal.

— Nossa que alergia terrível!

— Credo, o que ‘ocê tem, hein? — Usou o momento como desculpa para colocar sua mão na máscara bonita da moça, tentando sentir sua temperatura corporal pela sua testa, mesmo que coberta.

— Alergia a moça bonita, acredito! — Falou baixinho e começou a tossir, e Bárbara recebeu a deixa de tirar ela dali. Talvez fossem as penas em alguns dos vestidos mais decorados, significavam, no entanto, um momento a sós com a moça misteriosa sem nome.

— O que ‘cê disse?

— Isso- Não, não me tira daqui- Sim. Sim — Parecia fazer sinais para o homem com a câmera, que, olhando mais de perto, parecia muito com ela(pelo menos o que conseguia ver por cima das máscaras), por mais que fosse mais pálido e tivesse olhos verdes bem claros, assim como um cabelo mais normal. 

— Onde ‘cê quer ir? Devíamo’ ir 'no banheiro?

— Não, só- Porra, Olivier — O homem continuava às seguir. A moça mostrou o dedo do meio para ele e voltou a falar com ele — J'essaie de parler à l'amour de ma vie, si tu ne me laisses pas tranquille dans 5 secondes, je vais écraser ton visage dans l'asphalte et te retourner le cou!! Je vais dire à maman que tu es homophobe avec moi…

Parecia brava, mas aos olhos de Bárbara, era tão linda falando francês. Tinha consciência que provavelmente xingava o moço, mas isso não tinha importância alguma. Via algumas pessoas virando o pescoço para olhar para eles. Isso fez ela imediatamente começar a andar mais rápido para seja lá qual direção estavam tomando. O importante é que acabaram sozinhas em uma sacada. 

E estavam próximas, e a mulher francesa não parava de falar palavras rápido demais para o pobre cérebro da florista entender. Estava com suas mãos em sua máscara, ameaçando a tirar, quando uma figura foi vista na porta. Esguio e corcunda, um óbvio gamer, com seu cabelo longo e preto, uma espécie de máscara de gás com leds, esperava por ela na porta:

— Nem pra dizer um ‘oi’? Achei que você nem vinha… Já foi mais simpática A-

— Cala a boca, Kaiser, depois eu falo com você, eu estou severamente passando mal e não sei se ‘ you are’ vendo isso daqui, ‘ but’ têm uma ‘ girl’ cujo eu ‘ am’ extremamente ‘ interested in’ que está ‘ hablando’ comigo ‘ right fucking now’ . Entende em inglês? ‘ It’s Her’ — Pronunciava as palavras com certa força e parecia cortar a pele dele com os olhares que lançava.

Ele imediatamente recuou e voltou para a festa, enquanto Bárbara só conseguia rir de nervoso. O que diabos estava acontecendo ali? Não conseguia entender uma única palavra que saia dos lábios bonitos da menina exótica.

— O que ‘cê quer me dizer? E-Eu nem sei seu nome, eu…

— É- É que… Merda, hoje é o pior dia pra isso, desculpa, Bárbara — Bárbara podia ouvir a voz dela falhar e em algumas palavras, o sotaque não estava tão aparente mais — Só… Muita coisa na minha cabeça… Meu nome é… Flora Mencelie.

Até sobre seu próprio nome ela estava incerta.

— Prazer, Flora! — Bárbara sorriu, docemente — Eu trabalho com planta’, na verdade… Meio que sou florista. Engraçado.

— Que coincidência, eu… Totalmente não sabia — Olhava para os cantos.

— Se senta, Flora, acho que ‘cê deve estar passando um pouco mal. Quer uma água com açúcar? Tenho certeza que posso arrumar uma pro’cê!

— Valeu. Só… Muita gente, eu acho… Desculpa pelo chilique todo… Eu preciso me acalmar.

— Isso. Quer falar sobre? Eu também estava me sentindo meio fora de lugar…

— Por quê?

— Bom, eu… Eu vim de uma ilhazinha bem pequena, né… Então nem energia a gente tinha direito. Tudo isso daqui é novo pra mim, e eu queria muito poder compartilhar coisas sobre essa vida mais simples e sobre botânica… Então o meu amigo ‘tá me ajudando, já que veio morar pra cá depois de ficar mei’ famoso… 

Flora olhava para ela como alguém olha para a lua. O que era no mínimo engraçado, afinal de contas, dentre todas as pessoas na festa, ela parecia a mais diferente. 

— Isso é muito legal, Bárbara, de verdade. Espero que você consiga tudo que quer. Eu acho que você merece. Tipo-... Mais que qualquer outra pessoa aqui. 

— S-Sério?

— É, é como se você tivesse um propósito de verdade, sabe? Metade das pessoas aqui ganharam todo esse prestígio do nada e por nada. Tem uns que só ricos são… Se sentem insignificantes porque não tem algo assim… Por isso se prendem a histórias do que poderia ter acontecido… E de pessoas… como você. Não, iguaizinhas a você, Bárbara, você é a única com personalidade de verdade nesse lugar todo.

Bárbara estava perplexa. Não sabia se beijava os lábios da mulher, se perguntava se ela havia bebido antes do evento ou se deveria levar ela a uma consulta com um psicólogo.

Flora deu o primeiro passo, entretanto, beijou a florista com uma paixão bem conhecida pela moça. Tinha gosto de paixão. Tinha cheiro de Lavanda.

 

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Amelie Florence tem o melhor beijo do universo, mesmo que eu só tenha beijado mais 2 pessoas, eu sei disso. Ela estava tão bonita naquele dia que ela me prometeu um final feliz. 

Mesmo que estivesse mais bonita ainda no dia em que partiu, nunca vou esquecer a beleza arrebatadora dela.

 

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— Para a próxima e última música, eu quero que, especialmente, minha melhor amiga, Bárbara Lima, — Procurava pela plateia com seus olhos desfocados pela luz em seu rosto — cante comigo. Vou cantar uma versão acústica de Gorgeous, da Taylor Swift, então, se você sabe as letras, ‘tamo junto!

 

“You should take it as a compliment

That I got drunk and made fun of the way you talk

You should think about the consequence

Of your magnetic field being a little too strong

 

And I got a boyfriend, he's older than us

He's in the club doing I don't know what

You're so cool it makes me hate you so much

(I hate you so much)”

 

Bárbara estava longe de querer cantar alguma música da Taylor Swift, mesmo que ultimamente, estivesse absolutamente obcecada pelas músicas da loirinha. Ouvia a voz abafada de Milo, distante, lá dentro da bagunça, junto a algumas vozes que cantavam em coro. Flora se soltou de Bárbara por um segundo para sorrir e cantar um único verso. Beijar usando máscaras plásticas podia ser complicado, mas Bárbara estava tentando aprender a manha aos poucos, sentindo a pele macia do batom caro da francesa e rindo levemente quando ouvia o barulho do plástico se batendo. Mãos em cinturas e dedos passando por cabelos de uma fibra bem cuidada e brilhosa. Nunca havia visto um cabelo assim. Nunca havia visto alguém assim.

 

“Whiskey on ice, Sunset and Vine

You've ruined my life by not being mine

 

You're so gorgeous

I can't say anything to your face

'Cause look at your face

And I'm so furious

At you for making me feel this way

But what can I say?

You're gorgeous”

 

Tinha de ficar na ponta dos pés, já que a moça pela qual havia se interessado tinha 1,90, e, naquele momento, estava com um salto, se não fosse o bastante. A mulher estava curvada enquanto a segurava contra a parede.

 

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A música acabou, Milo saiu do palco, e Bárbara não estava em lugar algum. Procurou ela pelos cantos e ninguém a conhecia. Decerto que estivesse longe de todo o barulho e pessoas que ela não conhecia; Afinal, achou-a atacando os lábios de uma moça na sacada. Revirou seus olhos e pigarreou:

— Bárbara, posso te roubar por um segundo?

A moça se afastou e, com um sorriso, acenou sua cabeça. Parecia hesitante em sair, e nenhuma das duas conseguia tirar os olhos uma da outra. 

— O que diabos foi isso? - Ele perguntou.

— Apenas os melhores beijos da minha vida, depois dos que a ‘Melie me deu na praia — Esclareceu, sorrindo como boba.

— Qual o nome dela?

— Flora Mencelie, bonita, né?

             — Bárbara… Olha… Eu normalmente não sou muito de julgar, mas me parece que tem algo de estranho nessa situação toda. Tenho um pressentimento. Minha intuição diz que algo não está sendo revelado.

— ‘Ocê e a sua intuição, Milo…

— Pois saiba que ela já me salvou muitas vezes, mocinha!

— ‘Cê precisa aprender a aceitar e respeitar as paixão’ lésbica que existem por aí.

— Você ‘tá me chamando de homofóbico?

— Estou falando que é de muito mal gosto não valorizar essas relações lindas entre mulheres.

— Sabe, Bárbara, eu até tentei defender alguns dos seus crushesinhos. Mas agora, estar perdidamente apaixonada por uma pessoa que você acabou de conhecer…? Isso é demais. — Sorriu envergonhado e começou a falar baixinho: — Odeio lembrar que em relacionamentos lésbicos, o tempo passa diferente.

— É natural, Milo, a gente encaixa!

— Ah, eu vi vocês encaixando um pouco demais até!

— Estou dizendo que a gente combina muito, não é como se eu estivesse completamente e perdidamente apaixonada…

— Eu queria muito curtir o resto da festa, mas eu estou morrendo de cansaço e sinto que se a gente não for para casa agora, a gente nunca mais vai voltar…

— Sua intuição dá umas voltas estranhamente cruéis, não?

— Vai junto ou não?

— Definitivamente, todos os meus músculos faciais doem.

— Ah, vai se fuder, Bárbara. Se for para falar o quanto você beijou na boca hoje, eu te deixo em uma boca qualquer. E eu aposto que você nem sabe o que isso significa.

 

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Flora Mencelie não existe em lugar algum da internet. Bárbara procurou por horas, em todas as redes sociais possíveis, sem resultado algum. O pior de tudo é que parecia que o mundo inteiro estava tentando a impedir de pesquisar, notificações a mil apenas a deixavam mais nervosa quando tudo que queria fazer era contatar a mulher pelo qual havia se enamorado tão rapidamente.

— Você ‘tá a manhã inteira no seu celular e ainda não viu o quê tá acontecendo, Bárbara?

— O que? A Flora não existe em lugar algum, isso é impossível.

— É óbvio, Bárbara, afinal de contas… Porra, ouve o áudio que vazaram… — Deu play em um vídeo completamente preto, com apenas o áudio rolando.

Tinham vozes abafadas no fundo, e então, o áudio parecia cortar:

“Esse sábado eu fiz uma loucura. Vocês sabem que eu adoro eventos, principalmente da Ordo, mas quando eu tive uma crise alérgica, tudo que eu queria fazer era pular esse. Mas eu melhorei, e veio uma ideia na minha mente; Eu vou fingir ser outra pessoa em um baile da Ordo! Essa é a oportunidade perfeita, já que é um baile de máscaras! Espero que gostem do vídeo, eu realmente não sei o que pode acontecer!!” Aquela voz era igual a de Flora, e Bárbara sentia seu coração bater mais forte contra seu peito.

“Você tem certeza, Melie?” Essa voz pertencia àquele moço com a câmera, tinha certeza.

 

— Não, isso é impossível.

— Espera, Barbie…

“Absoluta, Oli, essa ideia é perfeita” Assim que o sotaque foi deixado cair como um véu, Bárbara entendeu tudo. Aquela voz era de Amelie. Não entendia, ainda sim, por qual motivo.

“Certo, vamos…” Uma barulho de elevador abrindo. Risadas.

“Certo, gente, acabamos de chegar aqui no prédio da Ordo, e o baile tá acontecendo aqui!” Dava para escutar a música e o burburinho. “Estou com medo que me reconheçam!”

Uma porta se abria. Pessoas falavam, música alta soava pelo ambiente, música do Milo, inclusive. Passos, tintilar de taças de cristal.

“Tudo bem?” A voz de Bárbara.

“Hm?” 

“Eu perguntei se ‘tá tudo bem!”

“Sim… Não!... Quer dizer- talvez. Eu estou muito bem, obrigada por perguntar. Só um pouco confusa e… com o nariz entupido… Você é?” A voz dela parecia incerta, tinha certeza disso. 

“Bárbara Lima, ‘tô acompanhando meu amigo ali no palco, Milo Castello!” Ouviram também um ruído de surpresa vindo do homem segurando o microfone.

“Oui, oui, ele é bom! Muito legal, meu nome- é… Bárbara, adorei o seu sotaque, viu, me lembra de uma menina que eu conhecia… “ Ela riu de nervoso.

“Eu também gostei do seu sotaque, é francesa?” Ouvir a conversa estranha que tiveram novamente era um pesadelo, Bárbara só conseguia se culpar pela situação extremamente improvável pelo qual os eventos ocorreram.

“Sim, sim… Essa menina que eu conhecia vivia em uma ilha.” Estava sendo maravilhosamente óbvia. 

“Oi?”

“Ela morava em uma ilha, muito bonita, por sinal. Era exótica…”

“Que coincidência, eu vim de uma ilha” Amelie quase cuspiu o champanhe que bebia “Não era nem um pouco bonita, entretanto. Exótica, talvez… ‘cê ainda não me disse seu nome…!”

Ela tossiu.

“Nossa que alergia terrível!”

“Credo, o que ‘ocê tem, hein?”

“Alergia a moça bonita, acredito!” Falou baixinho e começou a tossir.

“O que ‘cê disse?”

“Isso- Não, não me tira daqui- Sim. Sim” O microfone tinha um ruído que batia nas coisas, e podia até ouvir o barulho das peças da câmera se mexendo. Olivier estava extremamente confuso.

“Onde ‘cê quer ir? Devíamo’ ir 'no banheiro?”

“Não, só- Porra, Olivier” Barulho de cabos se desconectando e algo quebrando, Olivier soltou um xingo. “J'essaie de parler à l'amour de ma vie, si tu ne me laisses pas tranquille dans 5 secondes, je vais écraser ton visage dans l'asphalte et te retourner le cou!! Je vais dire à maman que tu es homophobe avec moi…”

Imediatamente ele ficou parado, e pelo áudio, era perceptível a confusão que se encontrava: “Que?” Barulho de pessoas andando e conversando entre si, fofocando sobre a moça que gritava, decerto. “Merda, acho que isso não foi uma boa ideia… E a câmera quebrou, agora… Só o microfone tá funcionando…” Falava quieto, para si mesmo. 

Mais um corte, passos, agora estava mais quieto, a não ser pelo barulho dos saltos da Amelie.

“Tá gravando certinho ainda?” Perguntou.

“Sim, mas não sei se só a imagem do vídeo tá quebrada… Talvez tudo esteja quebrado.”

“Não fala isso. Isso aí foi um rim pra comprar.”

“Nem me fale… Como foi o encontro?”

“Poderia ter sido melhor. E quais as chances??? Eu realmente não queria falar pra ela quem eu sou, realmente… ia melhorar tudo mas… Eu fiquei tanto tempo pensando sobre o reencontro que eu não queria destruir tudo fazendo isso em um ambiente como aquele. Absolutamente nada estava me ajudando. Bárbara Lima deve ser a mulher mais paciente do mundo.”

“É, foi meio caótico.”

“Eu me arrependo tanto, Oli… Agora ela nunca vai saber que foi a Amelie Florence, a menina que prometeu um final feliz pra um romance de verão há décadas atrás, que beijou ela. E o pior de tudo é que eu estava morrendo de medo de falar sem o so-” O áudio tinha muito ruído. “E se as outras pessoas descobrissem?”

Silêncio.

“Você viu o Milo?”

“Vi.”

“Você acha que ele lembra de mim?”

“Não sei… Por que a pergunta?”

“Será que ele ainda me reconhece?”

“Aposto que não. Naquela época você era mais emo que agora, super estranhinho.” Risada. “Quer dizer, ele parece meio gay, talvez você ainda tenha chances.”

“Estou morrendo de medo. Odeio ter que sair do armário pra gente que eu não vejo há milhares de anos.” Falava baixo. “Hm, Amelie, parece que o problema aqui é que só não tá captando a imagem, mesmo.”

Um baque e estática.

 

Bárbara olhou para a tela, perplexa. Como assim?

— O que? — Era tudo que conseguia dizer.

— Pois é, Bárbara. Era ela. E meio que a irmã era um irmão… E ele… Enfim… — Estava vermelho.

— Como que isso foi vazado, Milo?

— Aparentemente, o cartão de memória da câmera deve ter caído, e algum curioso pegou, ouviu tudo que estava dentro, e postou nesta conta.

— E os fãs dela?

— Em absoluto pânico, não sei se você viu, mas é só sobre você que estão falando. 

— Cristo, Milo, não era assim que eu queria ganhar reconhecimento.

 

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Amelie Florence

“oi”

“desculpa por tudo”

“a esse ponto vc já deve saber o que aconteceu”

“estou disposta a discutir e falar sobre o assunto”

“na verdade eu queria ter um reencontro melhor”

“e descobri que você gosta da taylor swift então…”

“tem essa praça perto do prédio da ordo realitas, muito bonita”

“acho que piqueniques são uma boa ideia para encontros”

 

Bárbara Lima

“Sim”

“Aceito”

“Quando?”

“Estou livre .  a todo mommento toda, hora todos os dias.”

 

Amelie Florence

“é bobo dizer que eu queria te ver mais que tudo?”

 

Bárbara Lima

“Se for verdade, eu,,  acho que não .”

“E també, m to assim kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk”

 

Amelie Florence

“então você poderia hj a tarde?”

“lá pelas 3h??”

“vamos fazer um piquenique hihiihihi”

 

Bárbara Lima

“Hihihihihihi ok linda”

 

— Parece que vocês duas estão na mesma frequência o tempo inteiro — Milo estava com seu violão na mão, sorrindo.

— Nem sei o que pensar! Eu tenho uma sorte fudida, Milo!!

— Definitivamente.

 

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“We were both young when I first saw you

I close my eyes and the flashback starts

I'm standing there

On a balcony in summer air

 

See the lights, see the party, the ball gowns

See you make your way through the crowd

And say: Hello

Little did I know”

 

Enquanto caminhava, uma cesta pesada em seus braços e vestido longo flutuando pelo ar graciosamente, se sentia em uma história de contos de fada. Entretanto, estava na vida real, e ouvia música em fones de ouvido do século 21, andando pelas ruas perigosas da maior cidade do Brasil, então segurava sua cesta com medo de ser roubada, por mais que apenas tivesse comida, flores, e seu celular (um motorola com a tela quebrada que Milo vive querendo trocar por um modelo mais novo). Seu vestido atrapalhava seu andar, que precisava ser corrido, e começava a se arrepender por ter se arrumado tanto.

Lembrava-se da primeira vez que se viram, na ilha, e como Amelie parecia antipática e mesquinha. De fato, era, mas logo se mostrou uma pessoa mais profunda que isso ao desabafar com Bárbara durante uma tarde que passaram no jardim da mansão onde estava hospedada. 

“So I sneak out to the garden to see you

We keep quiet 'cause we're dead if they knew

So close your eyes

Escape this town for a little while, uh, oh”

 

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— Ah, Bárbara, se você soubesse o que eu tenho que aguentar… — Estavam olhando para o horizonte, sentadas em um banco, enquanto Bárbara fazia coroas de flores. 

— Pois me fale! ‘Ocê me fala o que te chateia que eu te falo o que me chateia — Disse, sorrindo. Estava se esforçando para não xingar a menina. Afinal de contas, tinha que ser legal com os outros, e nunca tinham visitas na ilha.

— Minha família é terrível! Eu faço de tudo pelo meu pai… Tudo pra ele gostar mais de mim e se sentir orgulhoso de verdade, mas nada! Você sabe como é se esforçar tanto pra receber um tratamento de silêncio?

Bárbara olhou para o chão, acenando sua cabeça. Talvez, não fossem tão diferentes assim.

— E o meu irm- Minha irmã. Ela… faz tudo certinho, mas meu pai ainda reclama de tudo e é um… Um preconceituoso! — Ela se embolava nas próprias palavras e começava a chorar — Se eu pudesse mostrar pra ele, Bárbara… Se eu pudesse ensinar pra ele, se eu pudesse entregar os meus olhos… Eu faria tudo, tudinho. 

— E minha mãe tenta… Tenta demais! Ela tenta ser mais rigorosa, mas nada é suficiente. Meu pai diz que temos que ir pra frança. Estudar lá. E eu quero, mas minha mãe não quer sair de Porto. É o lar dela, eu entendo mas… Talvez assim eu possa mostrar pro meu pai que eu sou mais que uma menina tola.

— Você não- — Se embolou nas suas próprias palavras também, confusa de como reagir.

— O quê?

— ‘Ocê não precisa provar nada ‘pra ninguém, ‘Melie. 

— Mas e…

— É difícil, eu sei… Mas se tem algo que eu aprendi vivendo com dona Lívia é que nunca vai ser o suficiente pra algumas pessoas mesmo… E eu acho que o importante é você se sentir bem. ‘Cê ainda pode fazer isso.

— Você não entende. Meu pai é muito importante pra mim e… Desde que ele descobriu, não… Ele não vai me amar! Isso me faz sentir bem, eu quero ser amada. Será que um dia eu vou conseguir ser amada??

— Descobriu o quê, Amelie?

— Ele leu uma cartinha que eu fiz ‘pra uma menina que eu gostava… Ele descobriu que eu gosto de… Eu gosto de menina.

Bárbara parou, de repente. A cesta de flores caiu no chão, e Amelie escondeu seu rosto. Segurou as mãos geladas com esmalte brilhante azul para olhar no rosto dela. Levou suas mãos para limpar as lágrimas, e estavam próximas. Bárbara deixou um beijo na boca de Amelie Florence.

— Bárbara! Não- O que você ‘tá fazendo?? Não brinca comigo desse jeito, eu-

— Desculpa! Eu não ‘tô brincando. Eu ‘tô te mostrando!

— Mostrando o quê?

— Que você pode ser amada, sim!

 

---

 

O parque era bonito, com grama verde e flores silvestres. Ipês e o som de passarinhos… Se sentia feliz, esperançosa e via Amelie sentada sobre a grama, mexendo em seu celular. Estava linda, e agora podia ver com clareza os cabelos platinados e tingidos, a maquiagem… E as tatuagens. Sentia seu coração palpitar enquanto se aproximava.

— Amelie…?

— Bárbara! Digo- Bárbara! — Ela corrigia seu sotaque, sorrindo docemente. 

— Como é bom… Digo… É bom te ver… Denovo, eu acho! — Percebia que não estava tão preparada quanto achava, se confundiram na hora de se comprimentar, não sabiam se apertavam a mão uma da outra ou se abraçavam-se… Acabaram por dar ‘oizinhos’ com as mãos, Bárbara se sentou ao seu lado, Amelie rindo, tão nervosa quanto ela — Desculpa, a- a gente pode começar do começo?

— Certo… Hm… Oi, meu nome é Amelie Florence.

— Não, tipo… o reencontro. A gente meio que fudeu tudo na última vez.

— Ah, é, desculpa por aquilo… Eu estou feliz de te ver… Sinceramente, eu achei que nunca mais te veria… Eu estava com tanto medo de ir para a ilha novamente e você não estar mais lá… Quando veio?

— Faz pouco tempo, na verdade… O Milo ficou me dando ideias para vir para cá e… Eu acabei vindo. Fugi da minha mãe e tudo mais.

— Fugiu? C-Como a Dona Lívia estava?

— A gente não andava conversando muito… Ela é complicada. Como… O seu pai está?

As duas riram. Era realmente esse o primeiro assunto? Pais ruins e meio abusivos?

— O Montel ‘tá na frança. Meus pais se divorciaram a alguns anos atrás e… Enfim. Estamos bem melhor assim.

— E o seu irmão, como ele está? Eu estava pensando em como numa das primeiras vezes que a gente conversou ‘ocê falou sobre ele e alguma coisa de preconceito do seu pai… ‘Cês sabiam desde aquela época?

— O Oli sempre confiou muito em mim… Por mais que a gente brigasse o tempo inteiro. Mas é… Foi difícil pra ele, mas agora ‘tá tudo bem.

— Que bom… — Sorriu — Olha, eu trouxe algumas coisas para a gente comer… Alguns sanduíches e… Uns cupcakes e… Suco de uva natural!

— É daqueles que tem gosto de vinho?

— Hmm… Eu acho que sim.

— Perfeito, amo vinho mas ‘tá cedo demais pra beber! — Riu — Ah, que música você ‘tá ouvindo?

Perguntou enquanto Bárbara guardava o fone. Sorriu e pegou seu celular.

— Lavender Haze… Da-

— Taylor Swift — Falaram ao mesmo tempo. Sorriram, e Amelie tomou a oportunidade para roubar um beijo.

E um beijo se tornou dois beijos. E os dedos atrapalhados da Bárbara tentavam deixar a música soar. E Amelie sorriu enquanto segurava a moça. 

— Você viu o meu tweet.

— Eu vi o seu tweet — Um selinho. Uma pausa para cantar junto as letras.

 

“I feel the lavender haze creeping up on me

Surreal

I'm damned if I do give a damn what people say

No deal

The 1950s shit they want from me

I just wanna stay in that lavender haze”

 

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— O quê aconteceu na festa? — Bárbara foi quebrar a cantoria depois de uma música ou outra, curiosidade tomando conta de si.

— Você já deve ter ouvido o áudio mas… Eu tinha ficado doente de verdade, quando eu postei que não ia pro baile… Mas então… Eu melhorei, e o Oli teve essa ideia de fingir ser outra pessoa… E deu tudo errado, porque eu percebi que não tinha um plano e você tirou completamente o meu foco. Quando eu te vi, eu me distraí do vídeo, e quando você falou comigo, eu comecei a perceber que era você… Mas como ele estava gravando e eu estava perto de muita gente, eu não sabia se fazia o sotaque ou se-

— Qual é a do sotaque, inclusive?

— Então… Sempre foi meio que parte do personagem, sabe? Antes dos meus pais se divorciarem, eu tive essa fase louca de querer provar pro meu pai que eu sou mais parecida com ele do que achava, mas… Nada… Por essa época eu comecei a criar conteúdo, e comecei a ser conhecida pelo meu sotaque… Virou uma bola de neve imensa. Na verdade, eu não me importo tanto em fazer o sotaque, sabe? Acho que eu criei memórias melhores atreladas a ele.

— Certo. Eu acho muito charmoso e engraçado…

— Meu charme está funcionando… que sorte a minha… — Inclinava sua cabeça para beijar a amante, enquanto ela sorria.

Bárbara colocou seu indicador nos lábios dela, a parando.

— Continua o que você estava falando antes.

— Ah… Certo — Ria — Eu fiquei super confusa com o sotaque, e o meu irmão não ‘tava entendendo que não era para gravar e… Flora Mencelie é o meu nome embaralhado…

— Eu descobri. Tentei procurar pela tal Flora e… Nada.

— Eu acabei com uma ideia perfeita para um vídeo.

— Mas ganhou um encontro.

— Ganhei um encontro! — Um selinho — Que coincidência estranha, ‘cê não acha? As estrelas meio que se alinharam pra gente nessa…

— Eu na verdade fiz um desejo numa fonte… De te achar. Eu normalmente não acredito muito nessas coisas mas-

— Mas funcionou — elas começaram a rir — E agora…

— E agora o quê?

— E agora é o final feliz pra nossa história de amor adolescente. 

Bárbara segurou a mão dela forte. Testas se encontraram e por um segundo, silêncio. O mundo inteiro tinha calado a boca para aquele único momento bonito.

— E agora você é amada. 

 

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