Chapter Text
1 - Gatos
Andrew Joseph Minyard não era um clichê.
Ele se recusava a fazer parte das massas de pessoas que caiam nesses conceitos genéricos onde todos se viam envolvidos pelos mesmos gostos e comportamento.
Ele era diferente das outras pessoas.
Era um adolescente de quinze anos que se recusava a ser um clichê.
Ele havia gastado o dia inteiro se concentrando em arrumar seu novo quarto, e desfazer as malas da mudança, tentando colocar parte de sua personalidade na nova casa.
Ele não se importou tanto assim por precisar mudar de cidade no meio do ano letivo. Havia reclamado, mas não era como se alguém esperasse algo diferente dele.
Apenas era difícil lidar com mudanças, mas agora havia aceitado completamente o fato de que a mãe havia conseguido uma oferta boa de emprego em outro lugar e eles precisaram se mudar para um lugar diferente.
A casa nova deles era bonita, e havia um quarto só para ele.
A perspectiva de não precisar continuar dividindo um quarto com Aaron havia feito o humor dele se atenuar depressa, e a mãe deles percebeu isso.
Deu total liberdade criativa na decoração dos quartos, e os meninos haviam se empenhado nisso. Andrew tinha as paredes quase inteiras cobertas por posters de suas bandas favoritas, e prateleiras organizadas de livros. Havia sido prático em guardar as roupas e pertences nos lugares certos, e agora estava apenas posicionando seus itens colecionáveis e importantes em lugares que fizessem qualquer um saber quem ele era.
Tinha decidido, com a mudança, incorporar um novo eu de sua personalidade, e continuar fugindo das idiotices clichês que o cercavam.
Ele se virou para o chão ao ver uma sombra passar depressa, enquanto terminava de organizar seus livros, sentado no tapete do quarto, e viu o grande gato branco de pelagem comprida se aproximar de si.
Andrew não era um clichê estútpido, mas ele tinha um gato.
Não era apenas um gato. Era um reflexo de sua própria existência. Era sua família, aquele que o entendia e compreendia acima de tudo e todos.
Os dois tinham histórias de vida parecidas.
Andrew estava no parquinho, e teve uma briga terrível com Aaron sobre quem era o melhor em escalar a casa da árvore. Ele saiu furioso para a caixa de areia, e foi lá que encontrou esse pequeno filhote um pouco machucado e abandonado. Quase morto, soterrado de sujeira.
Ele não era um menino dramático. Odiaria ser considerado um estereótipo de garoto gay de quinze anos como os outros.
Ele não era dramático porque era gay, de jeito nenhum.
Mas, ainda assim, era um pouco… exagerado.
Talvez fosse a palavra certa.
Andrew era exagerado.
Então achava que aquele gato branco e abandonado parecia muito consigo. Uma criatura pequena, incompreendida e abandonada.
Bem, ele não tinha complexo sobre ter sido adotado. A mãe deles sempre foi sincera sobre isso, e realmente não chegavam a ter memórias sobre o assunto.
Aaron e Andrew foram adotados por Bee quando ainda eram pequenos bebês, e não tinham nenhum tipo de trauma gerado por esse processo.
Mas Andrew era exagerado, certo?
O fato é que o gato nunca gostou de Aaron. Assim que Andrew correu para a mãe com o animalzinho, e eles o levaram para cuidar, ficou automaticamente decidido que era apenas de Andrew e mais ninguém.
Aaron tinha os amigos do parquinho. Andrew tinha o amiguinho gato.
E o fato do gato ter mordido Aaron e lhe feito levar dois pontos no dedo apenas fizeram o gêmeo gostar ainda mais do animalzinho.
Então ele tinha aquele gato bonito desde os sete anos, e o amava. Era seu companheiro, que estava sempre ao seu redor. Ele era quem cuidava, quem dava banho, quem alimentava e limpava a bagunça. Tinha um senso de amizade e lealdade com aquele que era seu companheiro.
Andrew não estava preocupado ou com medo. Havia pego o gato no colo apenas para fazer carinho sem qualquer pensamento de nervosismo.
Não ligava que fosse começar na escola nova no dia seguinte, onde não conhecia ninguém. E nem que houvesse sido claro para a mãe que gostaria que as pessoas soubessem sobre sua sexualidade. Até então era um segredo apenas deles, mas agora ele se sentia confortável para ser sincero.
Não tinha problema com as outras pessoas sabendo que era gay, e ele tinha um chaveiro com as cores da bandeira em sua nova mochila para provar esse ponto.
Ele respirou fundo enquanto se erguia do chão, bocejando cansado e erguia os olhos para a visão de sua janela, que tinha uma sacada grande. Ele não iria até lá, porque odiava altura. Mas era uma boa visão, de onde estava. O pôr do sol era alaranjado no horizonte, e o fez sentir um pouco de tranquilidade…
Por poucos segundos.
Havia alguém lhe encarando da janela vizinha.
Andrew, que definitivamente não era um clichê, jamais teria se sentido constrangido de perceber que ele provavelmente tinha um vizinho ruivo muito bonito morando no apartamento ao lado.
Ele estava jogado na pequena sacada do quarto, o celular entre os dedos e parecia ouvir música. A posição era toda torta, e ele vestia moletom vermelho. Parecia curioso, porquie encarava Andrew, que ainda estava parado em pé abraçado ao gato gigantesco, lhe encarando com uma expressão completamente idiota.
Descobrir que havia um vizinho bonito, que provavelmente tinha sua idade, no mesmo dia em que havia feito questão de pregar uma bandeira na janela do quarto era definitivamente uma péssima ideia.
Ele quis marchar até a mãe e repreendê-la por ter dado toda aquela liberdade na decoração do quarto.
Andrew apenas deslizou depressa para trás da parede, com a expressão cheia de susto, ignorando a surpresa divertida no rosto do vizinho quando ele simplesmente esticou o braço e puxou a cortina abruptamente, soltando gato que se afastou dele com ar de confusão.
Foi uma atitude idiota. Andrew só não queria olhar para um garoto bonito agora, porque embora estivesse decidido a ter uma nova personalidade imbatível, bem…
Ele ainda era um garoto gay de quinze anos.
– Ei – Aaron disse, e Andrew ergueu os olhos para ver ele recostado na porta de seu quarto, segurando um pacote de bolachinhas que mastigava de um jeito largado – Você acha aquele cara bonito?
– Não – Rosnou, irritado ao atirar um travesseiro na direção de Aaron, para impedi-lo de cruzar a porta. Estava decidido a ser o único Minyard a pisar naquele território.
– Você é gay. Deveria dar em cima dele. – Continuou a dizer, irritante. Ele repetia essas coisas o tempo todo para testar a paciência de Andrew, e parte para processar.
Parecia não esperar que o irmão fosse realmente querer sair do armário.
–... Até onde eu sei, para ser gay você precisa beijar caras. Você não beija cara nenhum.
– Aaron, deixe seu irmão em paz! – A voz da mãe deles veio ao mesmo tempo que o gêmeo era agarrado pelos ombros, e Bee colocou a cabeça para dentro do quarto, apenas para conferir – Terminou de arrumar tudo?
– Sim – Reclamou, vendo ela arquear a sobrancelha.
– Abra essa janela, Andy. Precisa deixar um pouco de ar entrar.
– Tenho ar suficiente para hoje, obrigado – Reclamou, agradecido por ela apenas lhe encarar sem entender e dar de ombros, partindo para o quarto ao lado.
– Aaron! Não vou mandar guardar essas roupas outra vez!
Isso fez ele desencostar da porta do irmão e ir suspirando até o próprio quarto, deixando Andrew livre para ter uma nova crise de identidade outra vez.
Se encorajava e perdia a coragem muito depressa a cada vez que pensava nos prós e contras de decidir vir para uma nova cidade já assumido para evitar ser preso em julgamentos diferentes dele.
Andrew respirou fundo várias vezes, tentando manter a calma. Com sorte, o vizinho não percebeu seu momento de confusão. Não havia sido nada demais.
O encarou como um idiota, e fugiu de um jeito mais idiota ainda.
Mas ele tinha um gêmeo. Sempre poderia jogar a culpa em Aaron. Dizer que ele era o garoto gay por trás da janela.
Desde que Aaron se mantivesse calado, poderia funcionar.
Andrew já havia se convencido que estava tudo bem, quando ouviu alguma comoção que o fez sair do quarto, caminhando apressado na direção da sala, sentindo Aaron lhe seguir.
Havia uma mulher ali, na entrada. Conversava animadamente com a mãe deles, que estava fazendo aquela aura simpática exagerada.
–... Muto obrigada! Ah, meninos! Venham! – Ela disse ao ver os dois no corredor, gesticulando para ambos – Essa é nossa vizinha. Abigail. Esses aqui são meus meninos – Disse, ainda com os braços abertos, e os dois caminharam até ela, deixando-a pousar cada mão sobre o ombro de um deles. Era automático se apresentar assim – Andrew, e Aaron.
Os olhos da tal Abigail eram simpáticos, e seu sorriso aumentou com animação.
– Você tem dois rapazes! Vou apresentar os meus! Os meninos podem se dar bem! David! David, chame os meninos.
– Onde você está mulher? – A voz de um homem se ouviu dentro do apartamento, e ela revirou os olhos, gesticulando para eles esperarem enquanto sumia pela porta ao lado.
– Eu fui nos apresentar!
– Deixe os vizinhos novos em paz!
– Não seja rabugento! Meninos, venham até aqui! Kevin! Neil!
Aaron começou a sorrir maldoso antes mesmo das quatro pessoas aparecerem na porta, e Andrew travou, piscando devagar ao ver a mulher retornar com o que deveria ser um marido grandalhão, um garoto magro e alto que parecia entediado ao segurar o celular…
E o ruivo.
Parecia ainda mais ruivo de perto. Andrew estava começando a se sentir enjoado, e ignorou a cotovelada do irmão em sinal de provocação.
– Esse é David. Meu menino mais velho, Kevin. E nosso caçula, Neil – Disse, indicando cada um deles, e Andrew fez o que pode para manter os olhos bem abertos e longe de contato visual com qualquer um daquela família.
– Eles são uns merdinhas irritantes, mas são bons meninos. Se precisarem de ajuda, os deixe saber - David disse para os gêmeos, rindo ao ser beliscado pela esposa – O que? São irritantes mesmo!
– Eu vi você na janela com um gato – O ruivo disse, dando um passo adiante, encarando Andrew de um jeito completamente espontâneo, e o irmão dele suspirou.
– Não devemos encarar os outros como um psicopata pela janela, Neil.
– Deve ser por isso que os antigos vizinhos se mudaram – Ele disse em um tom cômico ridículo, e nada engraçado.
Não tinha sido engraçado, e ficou óbvio na cara de absolutamente todos ali. Foi uma piada tão monótona que não deu para rir forçado.
Andrew ainda era um adolescente gay de quinze anos.
Então ele riu.
Foi pior.
Teria sido muito menos constrangedor se ele não houvesse rido, mas ele riu, e então todos olharam para ele. O pânico saltou pelos olhos amendoados, enquanto ele engolia seco. Felizmente, ele tinha seu espírito animal para lhe salvar, então o gato entrou em cena neste momento, tomando a atenção de todos,.
– Você não vai querer assunto com esse bicho. Ele é um selvagem – Aaron interrompeu o silêncio para dizer a Neil, encarando o animal –Vamos, mãe. Diga.
– Ele é um gato bravo – Ela admitiu, rindo sem graça – Um pouco arisco e morde. Mas não é violento.
– Estamos falando do gato ainda? – Ele perguntou, encarando o irmão de canto, e ela fingiu não ouvir.
– Acabei de tirar um bolo do forno. Vamos, venham.
Houve aquele momento de adultos, de negações constrangidas e ‘eu insisto’, que nenhum dos mais novos prestava atenção porque Andrew continuava congelado encarando o ruivo, que continuava olhando para o gato com interesse.
Kevin apenas mexia no celular com concentração, e pelos movimentos parecia jogar algum tipo de jogo.
– Ele morde? – Neil questionou para ninguém em especial, e Bee sorriu.
– Só tenha cuidado. Brincamos que ele tem a personalidade de Andrew. É o irritadinho da casa.
Andrew se orgulhava disso. Ele era bravo, irritado. O gato refletia sua personalidade. Eles se entendiam e um sempre confiava no outro.
Por meses, depois de adotá-lo, ele fingia para Aaron que se transformava no gato durante a noite e por isso o bicho lhe mordia o pé quando deitava com a perna para fora da cama.
Era um gato sério. Desconfiado. Não se rendia por qualquer coisa, e precisava de muito para confiar.
Então por isso Andrew se sentiu tão traído quando ele se aproximou o suficiente dos pés do ruivo, e deitou ali. Não bastou mais que poucos segundos para o ruivo se ajoelhar e esfregar os dedos na barriga dele, que soltou um miado longo.
Andrew ficou completamente vermelho encarando a cena, e Aaron segurou uma risada ao ver o ruivo se distrair com o gatinho, que costumava ser a muralha do irmão gêmeo.
– Você é adorável! – Neil choramingou, jogado na entrada fazendo carinho no gato, esticando os braços para puxá-lo para o colo.
O traidor foi de boa vontade, se aninhando sobre as pernas dele de forma confortável, e Andrew se sentia cada vez mais envergonhado.
Se gabara a vida inteira que não havia nenhuma decisão que o gato tomava que ele não tomaria, e Aaron parecia se lembrar perfeitamente disso, porque arrancava o irmão com muita maldade.
– Até seu espírito animal tem mais atitude do que você – Murmurou baixinho para o irmão, que o fulminou com os olhos, ainda sem saber como reagir.
Deveria ir até lá arrancar o gato dos braços daquele ruivo estúpido?
Ele apenas continuava sorrindo ao passear os dedos pela cabeça do gato, que miou baixinho e manhoso antes de simplesmente começar a ronronar no colo do cara.
– Você só finge ser bravo, não é mesmo? – O ruivo continuava falando com o gato de Andrew, o bichano traidor.
– Retiro o que disse. Você parece mesmo muito gay agora – Sussurrou para ele, fugindo de uma cotovelada.
–… Você é tão manhosinho! – Neil ergueu ele na altura do rosto, esfregando a bochecha contra o pelo macio e branco, e Andrew queria desaparecer para sempre do universo.
Viu a própria mãe dando um sorrisinho ao guiar os vizinhos para a sala para sentarem na mesa para comer bolo, e sentia completamente envergonhado.
– Meninos, venham comer bolo – Bee insistiu, para todos ali. Aaron se moveu de imediato na direção da mesa, mas Andrew continuava congelado ali sem saber o que fazer.
O garoto Kevin foi, mas Neil permaneceu no chão fazendo carinho no gato idiota de Andrew.
– Eu não gosto de doces – O ruivo disse, em uma justificativa plausível para continuar ali, e isso fez o loiro torcer o nariz e obrigar as pernas a se moverem na direção da cozinha. De jeito nenhum iria ficar atraído por um ruivo estúpido que não gostava de doces.
Ele se sentou para comer, agora irritado. Aaron continuava lhe encarando daquele jeito esquisito, porque desde que Andrew revelara ser gay para ele, o irmão ficava procurando as interações dele com qualquer cara para fazer piadas.
Ele ficou quieto, comendo o bolo delicioso. Ele sempre gostou mais de chocolate, e Aaron gostava de chocolate branco. Bee criou uma receita de bolo que levava metade de cada sabor, para deixar os dois felizes.
– Vocês gostam de exy? – Kevin finalmente perguntou, se inclinando na direção dos gêmeos.
– Andrew jogava na antiga escola, como goleiro – Bee se intrometeu, orgulhosa – Aaron joga de vez em quando, mas nunca foi muito fã.
– Ele perguntou se nós gostamos de exy. Eu odeio exy – Andrew resmungou, vendo a mãe revirar os olhos.
– Ele é contraditório assim mesmo. Piorou um pouco depois que veio com essa história de ser gay – Aaron disse, e Andrew arregalou os olhos muito depressa, já virando o rosto na direção da mãe dele, que se esticou para beliscar o ombro do outro loiro.
– Aaron! O que é isso?! – Reclamou, enquanto Andrew continuava congelado na cadeira, sem saber como reagir.
– O que? Nós somos gêmeos. E duvido que eles não iriam notar aquela porcaria de bandeira que você pendurou na janela. Eles precisam saber que o quarto com aquilo é o seu! – Rebateu para o irmão.
– É, nós vimos a bandeira – Kevin disse por fim, olhando por trás da cabeça deles, e Andrew se virou lentamente, só para comprovar que Neil agora estava na porta da cozinha em pé, ouvindo a conversa, com o gato dele nos braços.
Os pais deles pareciam não saber o que dizer, e absolutamente todo mundo estava se esforçando para não olhar na direção onde Andrew estava.
– Perguntei para Kevin de qual time era – Neil interveio, e o irmão dele apenas bateu a palma da mão na testa, suspirando inconformado.
O silencio esquisito se rompeu com a gargalhada estranha de Aaron ao ver a expressão do ruivo, um pouco lívida ao admitir que pensou ser sobre exy. O quão desligado alguém precisava ser para achar que aquela bandeira listrada colorida era sobre times? Sobre esporte?
Bee também não aguentou, e começou a rir. E no instante seguinte, todos eles – menos Neil e Andrew, estavam gargalhando.
Neil esperou paciente o silêncio sobre cair novamente no ambiente, ainda com o gato enrolado em seus braços.
– Qual o nome dele?
– Gato – Andrew disse, sério.
– Gato? O nome do gato de vocês… é gato? – Ele perguntou confuso.
– Ele não é nosso gato. É o gato dele – Aaron se meteu, apontando para Andrew – E, vamos lá, irmãozinho. Porque não diz o nome completo?
É claro que Aaron havia nascido exclusivamente para irritar Andrew, então se ele se atrevesse a pedir para ele não falar, é que ele falaria.
– O nome que ele recebeu quando foi adotado é Amiguinho Gato Miaurrrd – Disse, em uma imitação porca do Andrew de seis anos e sua idiotice.
Andrew decidiu que iria tirar a bandeira, e atirá-la pela janela. E se atiraria junto com ela.
– Nós somos Minyards – Bee esclareceu diante da expressão confusa deles, e Andrew continuava querendo desaparecer conforme o ruivo idiota abriu um sorriso grande demais.
– Não sei porque não podemos ter um gato – Neil disse para os pais, erguendo o Gato como se exibisse algo – Olhe para isso! Porque não podemos?
– Você sabe que seu irmão é alérgico! – David exclamou, revirando os olhos.
– Eu não teria problemas em trocar Kevin por um desses. Daria menos trabalho. Comeria menos comida. Reclamaria menos.
Todos riram. Andrew não viu graça alguma.
Não entendia porque as pessoas ficavam rindo das coisas que ele dizia. Porque o gato dos outros ficava querendo o carinho dele.
Neil apenas deu de ombros, ainda segurando o Gato com firmeza, e Andrew empurrou o prato de bolo para longe de si, sem vontade de continuar comendo.
Iria ficar encarando ele até ficar desconfortável e soltar o gato.
Andrew poderia ir lá arrancar dele, e mandá-lo ficar longe do que era seu. Não tinha medo de um baixinho ruivo estúpido.
Mas a mãe dele estava ali e ele realmente não queria ficar de castigo logo na primeira semana na cidade nova.
Então fez a pior expressão que pode e a jogou em cima do ruivo, como se ele fosse o causador de todas as tragédias existentes do universo.
– Vocês precisam de alguma ajuda? Para organizar, carregar algo, ou montar móveis? – Abigail perguntou com um sorriso gentil.
– Ah, não. Estamos apenas terminando de acertar tudo, mas estamos bem. Obrigada – A mãe deles respondeu automaticamente, vendo eles começarem a se levantar.
– Nós vamos deixar vocês em paz. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em chamar! E você vai precisar me passar a receita desse bolo, qualquer dia desses!
As duas riram, e pareceram gostar uma da outra. Não era uma simpatia forçada que os gêmeos viam sua mãe fazer em situações chatas. Ela realmente havia achado os vizinhos legais.
Andrew odiava todos eles, e os queria fora de sua casa imediatamente.
– Neil, largue esse gato – David reclamou baixo para o garoto, que seguia os pais até a porta, ainda carregando aquele traidor.
Ele suspirou, mas se abaixou e colocou o animal no chão, que imediatamente correu até Andrew e se enrolou entre as pernas dele, que se recusou a sorrir ou fingir simpatia.
– Ei – O ruivo parou, se virando para ele com um olhar azul demais – Posso vir ver ele de vez em quando?
Andrew queria dizer sim. E também queria dizer não. Queria chutar aquele cara para longe de seu gato e trancar a porta.
Mas ele ainda era um ruivo muito bonito de olhos azuis.
– Tanto faz – Foi tudo o que conseguiu elaborar, vendo ele expandir o sorriso ainda mais.
– Eu gostei dele. Acho que vamos nos dar bem – Continuou a falar, e Andrew estava examinando ele mais de perto, agora. Ele parecia ser muito baixinho de longe, mas é porque estava perto do irmão alto demais.
Era mais alto do que Andrew.
Andrew totalmente não era o tipo de pessoa que se atraia por ruivos mais altos do que ele, com olhos azuis idiotas, incapaz de fazer uma piada decente e que gostava de gatos.
Não. Andrew era muito melhor do que isso!
– Dizem que os animais refletem os donos – Neil disse, já perto da porta, encarando o loiro mal humorado diante de si, sem saber da crise interna que estava causando.
Andrew não fazia ideia do que ele queria dizer com isso. Apenas se abaixou e acolheu o gato no colo, encarando sério o cara ruivo, vendo ele acenar com um sorriso aberto e seguir o resto da família pela porta.
Andrew não conseguiu nem mesmo fingir responder educadamente. Apenas ficou quieto ali perto da porta, vendo a mãe fechá-la atrás de si.
– Gostei deles! – Ela anunciou imediatamente, e só quando se viu fora do mesmo ambiente que aquele ruivo tóxico, é que Andrew voltou a respirar normalmente.
Colocou o gato no chão, vendo ele se afastar, e seguiu de volta para a cozinha. Precisava terminar de comer o bolo, não deixaria para Aaron comer tudo sozinho.
– O que achou dos novos vizinhos, manhosinho? – Aaron disse provocativo para Andrew ao seguí-lo, e correu quando o gêmeo fez menção de ir para cima dele.
– Mãe! Aaron está sendo homofóbico de novo! – Gritou, vendo ele congelar no meio da cozinha, revirando os olhos.
– Sério? Sério mesmo? Tudo o que eu fizer contra você, agora é homofobia? – Exclamou irritado, vendo a mãe dele aparecer com a expressão fechada ali na cozinha.
– Eu não te criei assim, Aaron Minyard. Vá terminar de arrumar seu quarto, e depois nós vamos conversar! – Ordenou, apontando séria para a porta, e ele suspirou ao sair dali, ignorando o olhar de triunfo do gêmeo.
Com a maior tranquilidade do mundo, ele cortou outro pedaço de bolo para si, vendo a mãe sorrir e ir até a geladeira, tirando uma vasilha de lá, que fez seus olhos brilharem.
– Fiz calda extra. Como uso dois sabores, sobrou um pouco de chocolate – Disse, deslizando a embalagem para ele, que a pegou animado para virar mais calda sobre o bolo, enquanto ela recolhia os pratos e levava para a pia.
Ele tinha a melhor mãe do mundo. Bee fazia os melhores bolos. Tudo, para ela, era motivo de ‘fazer um bolinho’. Até mesmo no dia que Andrew a chamou para conversar e contar sobre ser gay… Havia gerado um bolo de celebração.
Ela quem comprou a bandeira de Andrew, e também o chaveiro que tinha pendurado na mochila.
– Ele não é homofóbico de verdade. Só… parece – Se viu dizendo ao ir levar o prato para a pia, onde ela lavava as louças em silêncio.
– Eu sei. Mas parecer homofóbico já é ruim o bastante. Vou conversar com ele sobre sua privacidade e sobre as piadas idiotas. Obrigado por não ter feito um escândalo quando ele disse aquilo na frente dos vizinhos.
– Só porque eu sou gay, vou sair fazendo escândalos o tempo todo? Que homofóbica – Reclamou, rindo quando ela espirrou água em seu rosto, revirando os olhos.
– Amaldiçoo o dia em que você descobriu a palavra homofobia, Andrew – Ela reclamou, embora sorrisse – De qualquer forma, Aaron vai ser castigado por aquilo. Não foi uma atitude correta.
– Ele nem sabe que fez algo ruim.
– Não defenda ele, Andy. O que seu irmão fez foi ridículo.
– Não estou defendendo. Estou dizendo que ele é burro demais para entender. Ele não faz ideia onde é o limite entre ser um irmão idiota e parecer homofóbico na frente das pessoas.
– Vamos trabalhar isso, eu prometo.
Andrew suspirou, mas deu de ombros. Aaron não era homofóbico. Não tinha reclamado quando entendeu sobre a sexualidade do irmão, e nem parecia fazer aquilo por uma maldade direcionada condicionada por sua orientação sexual.
Ele falava idiotices porque era um irmão maldoso. Eram coisas diferentes.
– Mas, já que estamos falando sobre coisas que não são, mas parecem muito… – Ela disse, fechando a torneira – O que achou do vizinho ruivo?
Ele parou por um instante, erguendo os olhos para ela de forma desconfiada.
– Porque está perguntando isso?
– Só queria saber o que achou dele.
– Achei ele ridículo. Abraçando o gato das pessoas sem perguntar se pode, e sendo estúpido. Você deveria ter colocado ele para fora quando recusou um pedaço do seu bolo. E vermelho é uma cor ridícula demais para ter na cabeça.
– Uau, são muitas primeiras impressões – Disse divertida ao ver ele disparar a falar, rindo em seguida – Ok, então. É que por um minuto, pareceu que você teve uma… como os jovens dizem? Uma queda?
– Um crush! – Aaron berrou da sala, e os dois se viraram para lá, e Andrew bufou irritado.
– Oh! Sim! Um crush!
– Eu vou vomitar – Alertou para ela, e Aaron apareceu ali, cruzando os braços.
– Ninguém te ensinou a não espiar a conversa dos outros? – Ela perguntou a ele, que não respondeu. Apenas encarava o gêmeo com a sobrancelha arqueada.
– Até a mamãe concorda. Você totalmente tem uma queda pelo vizinho. Mãe, diga para ele! Para ser gay ele precisa, no mínimo, beijar um cara!
– Aaron, pelo amor de Deus. Cala a boca, garoto – Ela disse, mas riu da expressão de Andrew, completamente ultrajada.
– Eu vou vomitar – Repetiu, vendo eles reviraram os olhos.
– Rainha do drama! – O gêmeo implicou.
– Claro, só porque eu sou gay, sou uma rainha do drama – Reclamou outra vez, marchando para fora da cozinha – Homofóbico!
Andrew ouviu os dois rindo, é claro. Deu um sorrisinho mínimo para isso, entrando no quarto, mas fez questão de bater a porta para parecer irritado.
O Gato estava deitado na cama dele, e se levantou ao ver o dono.
– Eu não quero conversar com você hoje – Alertou, chutando os sapatos para fora dos pés – Nada de Miau! Não quero saber – Reclamou com o miado do bicho, se jogando na cama.
Revirou os olhos quando ainda assim o animal se enrolou entre suas pernas, e suspirou pesadamente, olhando para o teto do quarto, se lembrando de Neil olhando para ele, com aqueles olhos azuis tão bonitos.
Ele totalmente, indubitavelmente, não tinha uma queda por aquele idiota.
De jeito nenhum.
