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Nostalgia (Haikaveh)

Summary:

“Se eu pudesse te encontrar agora, as coisas seriam melhores…”
O Idol Kaveh se vê numa enrascada quando acaba num programa de variedades juntamente com a banda de seu ex-namorado, com quem teve um término complicado antes da fama. Pego de surpresa por não estar atualizado com as tendência do rock desde aquela época, ele presencia — através de uma tela antes de subir ao palco — o momento em que Alhaitham fala abertamente sobre o último álbum, o de maior sucesso da banda, ser sobre esse ex de quem ele sente saudades e com quem gostaria que as coisas tivessem sido diferentes.

Notes:

ALOOOOO
Então nós chegamos tão rapidamente aos 200 seguidores no Spirit Fanfiction e eu só tenho que agradecer a todos vocês leitores mais lindos da plataforma que tornaram isso possível. Portanto, venho trazendo aqui essa fic de presente. O casal da vez (outra vez) é Haikaveh por motivos de que eu sei que a maior parte dos leitores aqui giram em torno dessa fanbase. O AU foi escolhido por meio de votação no Wattpad, já que eu coloquei pra vocês aqui também mas acho que ninguém viu kkkk
De todo modo, boa leitura a todos.

AH! A propósito, aproveitando o clima musical da fic, ela foi inspirada na música Ocean Avenue, da banda Yellowcard, e eu recomendo ouvir a música durante a leitura se possível. Inclusive, algumas frases que dão tom à fic foram tiradas diretamente dessa música.

Work Text:

Kaveh adorava a vida pública, adorava os fãs, mas odiava quando os dias eram lotados demais e a agenda não lhe dava tempo sequer para meditar. Nunca pensou que a vida de Idol seria fácil, mas também não pensava que seria tão infernal ter no mesmo dia sessões de fotos, entrevistas e apresentações ao vivo. Fora as extensas horas de treinos sem fim, a exaustão física. Por isso até que gostava da vida depois de anunciar a saída do grupo para seguir carreira solo e focar mais em sua nova paixão: atuação.

Tinha poucos meses desde que começara a atuar, o primeiro papel tinha sido interpretar a si mesmo num drama cômico para a televisão, onde a protagonista acidentalmente se tornava a nova agente do grupo do qual Kaveh fazia parte na época, e, desde aquele momento, tudo o que ele mais queria era atuar em filmes, séries e novelas.

Estudara teatro na adolescência, mas nunca investira naquele caminho. Tinha tantos talentos artísticos diferentes que podia escolher entre eles: desenhava, compunha, cantava, dançava e atuava. Sua primeira composição a fazer sucesso pela voz de outro grupo tinha sido vendida pela internet, e lhe rendera um bom dinheiro a ponto de que ele cogitara viver daquilo, de sua música. No início ele só compunha para a banda do namorado na época, mas quando eles terminaram as coisas mudaram bastante. Não pensava muito nisso agora, mas naquela época tinha sido terrível. Apesar do sofrimento, então, este que foi descontado em composições românticas e dolorosas, uma nova oportunidade apareceu. Quando foi apresentar uma nova composição na tentativa de vendê-la para uma gravadora, seu rosto e sua voz chamaram a atenção de um produtor, que o convidou para tentar algo novo. Algo novo era exatamente o que Kaveh precisava.

O grupo caiu como uma luva; fazer amigos novos no trabalho, conviver com os amigos, e até mesmo as longas horas de treino e trabalho lhe fizeram muito bem para esquecer a tristeza de um coração partido.

Quase seis anos depois de seu debut, Kaveh agora deixava o grupo para seguir sua carreira solo e voltar a atuar… como na época que conhecera Alhaitham.

Nem eram adolescentes quando Alhaitham se mudou para sua vizinhança. Ele era um garoto meio quieto, Kaveh entendia, ele tinha perdido os pais recentemente, os dois de uma vez, e agora morava com sua avó. Kaveh entendia sobre a dor da perda, também tinha perdido seu pai quando era criança, e, sendo dois anos mais velho que Alhaitham, se sentia responsável por ele. Não era difícil, de fato, lidar com Alhaitham, mas Kaveh e ele gostavam de perturbar um ao outro propositalmente. Era uma linguagem de carinho que a maioria das pessoas não entendia, mas o loiro adorava passar o dia brincando com o melhor amigo na praia, andando de skate com ele na avenida ou ensinando-o a surfar. Alhaitham também entrou para o teatro, muito mais por insistência de sua avó que tinha medo de ele se tornar antissocial do que por vontade própria; ele odiava. Chegava a ser engraçado ver como o loiro amava atuação, enquanto o acinzentado parecia um gato rabugento e sempre conseguia ser colocado como personagem de apoio ou ficar pendente apenas para cobrir se alguém faltasse ou tivesse um acidente — ele era péssimo. 

Acordou de seu transe quando ouviu a risada conhecida. Os olhos carminos ergueram-se sob a cortina de cílios dourados mirando o aparelho televisivo na parede do estúdio. Estava esperando sua vez de entrar no programa de variedades, e eles estavam entrevistando uma banda de rock que Kaveh desconhecia. Ele não era muito chegado no estilo musical desde que se afastara daquela tribo no fim da adolescência — após o término com Alhaitham —, por isso jamais esperaria aquela situação.

“...Então, eu estive voltando recentemente à cidade onde passei minha adolescência e a inspiração para o álbum simplesmente me pegou. O mar realmente trás essa sensação esquisita e nostálgica, né?”

Ele disse com o olhar voltado para a apresentadora do programa. Estava mais velho, maior, malhado, diferente, mas era ele. Não tinha como ser outra pessoa. Aquele era Alhaitham no programa de variedades onde Kaveh entraria em alguns minutos. Um pânico esquisito lhe subiu como se seu sangue fervesse. Não estava pronto para aquilo, não esperava aquela sensação. Que merda era aquela?

“É um álbum que definitivamente passa um tom nostálgico, com letras que falam muito sobre saudades, arrependimentos, letras muito emotivas. Algo aconteceu naquela cidade que justifique todos esses sentimentos? Algum amor que ficou no passado, sentimentos não resolvidos…”

A entrevistadora era bem direta, Alhaitham riu nervosamente e coçou a nuca. Direcionou o olhar para um dos colegas de banda como se pedisse socorro, mas, encurralado, teve que responder à pergunta por si mesmo.

“Eu me mudei pra lá porque perdi meus pais, e saí de lá porque perdi minha avó. Mas havia alguém lá que eu queria que tivesse ido comigo pra onde quer que eu fosse. Aquela pessoa implorou para que eu não fosse embora naquele dia, mas eu não a ouvi. Isso foi há vários anos, mas quando pisei lá de novo foi como se todas as emoções voltassem. Como se eu estivesse de volta ao dia que dissemos adeus.”

Merda! Teria mesmo que entrar naquele palco em alguns minutos e fingir que nada daquilo era para ele? Teria que fingir que não conhecia Alhaitham e que não queria pular no pescoço dele e esganá-lo por expor todas aquelas informações sem pensar em como se sentiria? Que desgraçado! Que azar!

“E se você reencontrasse essa pessoa hoje em dia? O que faria? Faria como nas músicas e tentaria fugir com ela?”  — a apresentadora riu escondendo levemente o rosto envergonhado atrás dos cartões.

Alhaitham desviou o olhar para a câmera, envergonhado, rindo um pouco, mas tentando manter a compostura.

“A letra é romântica, é sobre o que gostaria de fazer num mundo ideal. Claro, no fundo todos queremos fugir para algum lugar melhor com a pessoa que gostamos. Mas na vida real há diversas questões pertinentes. Essa pessoa pode ter um trabalho, ela pode estar em outro relacionamento, ela pode ter esquecido quem eu sou, pode ter mudado. Foram muitos anos, muitas águas rolaram. Não é porque eu sinto saudades que significa que ela também sente. Às vezes ela pode ter sido minha vida, mas eu posso ter sido apenas um momento na vida dela. Isso faz parte da realidade, e mesmo eu tenho que saber lidar com isso.”

“Uau! Ele sempre é realista e sofrido desse jeito?” — a apresentadora perguntou em tom de brincadeira ouvindo diversas respostas e piadas dos membros da banda.

— A senhora não imagina o quanto… — Kaveh riu baixinho e resmungou para si mesmo. O rosto corado. Que bom que sua agente Dori não estava prestando atenção nele.

“E vocês estarão em turnê a partir do próximo mês em várias cidades do país com o álbum novo, não é? Quem for a esses shows deve esperar muita nostalgia e romantismo das performances?” — a entrevistadora perguntou em tom divertido.

“De nós, sim…” — começou outro membro da banda, Kaveh se lembrava daquele rosto, daquela voz. Cyno era amigo deles da época da adolescência. Era incrível que ele e Alhaitham ainda estivessem juntos, na mesma banda e tudo mais… — “Mas eu diria para não esperar nada do Alhaitham. O romantismo dele fica todo nas letras das músicas, mas o cara é uma pedra!”

Todos riram novamente. A luz de vinte segundos se acendeu na parede. Kaveh se levantou sendo cercado pelas assistentes que vieram rapidamente checar seu microfone e dar os últimos retoques em suas roupas.

“E, juntando-se à nossa conversa sobre romance e nostalgia já que o dia dos namorados se aproxima…” — a apresentadora iniciava a chamada. Kaveh estava pronto, próximo à entrada. O microfone estava pronto e funcionando. Ele tentava tomar coragem, pois precisaria de muita para encarar o ex-namorado. Estava rezando para que Alhaitham tivesse a decência de não expor a vida dos dois ali mesmo aproveitando o gancho do programa de fofocas. — “Ele que está bombando como protagonista do drama mais popular do momento; o ator e cantor, Kaveh!”

O loiro aproveitou a deixa, vestiu seu melhor sorriso e entrou no palco acenando para a platéia e para as câmeras, parando antes de chegar aos sofás que compartilharia com os outros convidados do programa, curvando-se educadamente para todos e para a apresentadora num cumprimento respeitoso, e depois sentando-se quando ela indicou que o fizesse.

— É uma honra estar aqui de novo, Nilou! Obrigado por me convidar. Da última vez que vim aqui foi junto com os meninos da Mehrak, faz um bom tempo! Achei que dessa vez fôssemos só eu e você, mas você me chama um monte de homens mais bonitos que eu pra apagar meu brilho? Me ajuda a te ajudar, amiga! — o loiro brincou.

Kaveh era conhecido entre seus fãs por seu bom humor, pelas piadas que fazia nas entrevistas e pelo carisma inigualável. Ele certamente não seria ofuscado por ninguém, mas isso não significava que não era capaz de ofuscar os outros.

Alhaitham estava vidrado desde que seus olhos pousaram sobre a figura esguia e bonita do ator. Aquilo só podia ser uma brincadeira de mau-gosto.

 

♦♦♦

 

“If I could find you now things would get better”

— Eu estava pensando… — Kaveh enfiou os dedos dos pés sob a areia, levantando em seguida para ver a areia branca escorrer entre seus dedos. Ele olhava para o horizonte com um olhar perdido e sonhador, Alhaitham o achava a coisa mais linda do mundo, não tinha por-do-sol que valesse o brilho daqueles olhos vermelhos. —...um dia eu vou ter que me mudar para uma cidade grande se quiser viver de música. Quando isso acontecer, eu espero que a gente possa estar juntos. Espero conseguir dinheiro o bastante como compositor…

— E o teatro? — Alhaitham perguntou levando os dedos até o rosto do loiro e colocando uma mecha de seu cabelo para trás de sua orelha. 

Kaveh lhe sorriu um sorriso triste, desanimado, mas logo sacudiu a cabeça e colocou a língua pra fora.

— Seria uma merda explicar pra uma fanbase inteira que eu sou gay e que isso não me faz menos talentoso ou apto; prefiro viver nas sombras, mas viver com você, do que ter os holofotes em cima de mim e ter que esconder meu amor do mundo. 

— Nada disso! Você não vai desistir do seu sonho por causa de mim, Kaveh. Eu não tenho problema algum de ficar no sigilo pra você construir sua carreira, você merece realizar seus sonhos. — Alhaitham insistiu e beijou o rosto do namorado. — Eu amo você e só quero a sua felicidade acima de tudo.

— Para com isso, seu bobo! — Kaveh sentiu o rosto esquentar e riu, virando-se para o de cabelos acinzentados. O vento em seu cabelo o fazia parecer ainda mais lindo, se é que isso era possível. — A minha felicidade tá todinha em você. Se eu pudesse, eu pegava você e fugia correndo por essa praia, ia embora pra qualquer lugar sem passagem de volta. Você é meu passaporte para a felicidade.

 

♦♦♦

 

— Estamos de volta à nossa conversa especial de dia dos namorados sobre romance e nostalgia. O tema é inspirado pela série do momento, na qual nosso adorado Kaveh interpreta Nicholas, um jovem fotógrafo na década de 90 que acaba se apaixonando por uma garota chamada Max que ele conhece no metrô. Um romance que parece bem raso na premissa, mas que aos poucos vai mostrando as camadas conforme ele vai conhecendo mais sobre a vida da personagem, e nós, telespectadores, vamos conhecendo a vida dele também. Diga-nos, Kaveh, você que é um dos solteiros mais cobiçados de Sumeru, talvez até do mundo todo, já teve algum amor assim, inesquecível? Do tipo que até hoje te traz alguns suspiros?

A apresentadora era articulada, carismática e amigável, mas ela não sabia como suas perguntas estavam atingindo bem onde doía. Aquela era a última pergunta que queria responder diante de seu ex que tinha assumido ali, há poucos minutos, que ainda sentia falta dele. Kaveh suou frio. Precisava vestir o personagem, ser o ator, e sair daquela enrascada como conseguia.

— Um homem que nunca viveu um grande amor pode dizer que viveu de fato uma vida, Nilou? — uma boa saída, devolver uma pergunta com outra. Uma ótima forma de não responder diretamente, deixar aberto ao público o entendimento, e não mentir diante das câmeras e de Alhaitham.

— Uau! Isso que é resposta! — ela brincou. — Nossos amigos da Sacred Curse recentemente lançaram um álbum que fala sobre nostalgia e nós estávamos conversando sobre isso antes de você chegar. Nesse gancho, Alhaitham acabou se delatando pra nós e se abrindo sobre um tema muito polêmico: saudades de ex. Kaveh, — “Pelos deuses! Não, Nilou!” Ele implorou internamente, já sentindo vontade de chorar ao ver que os olhos de Alhaitham estavam sobre si. — você é do tipo que quando bebe liga pra ex?

Kaveh soltou o ar que não notou ter prendido e riu com a apresentadora, a plateia e os outros membros da banda de rock de Alhaitham — exceto pelo acinzentado, que continuava sério.

— Eu… podemos pular para a próxima pergunta? — brincou arrancando mais risadas de todos. — Bom, todo mundo sabe que eu gosto de beber… Então meu agente fica perto de mim com o meu celular pra garantir que eu não faça nada que eu vá me arrepender quando estiver sóbrio, dessa forma você pode entender que eu não ligo pra ex, mas não porque eu não quero. Até porque quando estou bêbado eu viro uma amoeba chorona, certamente ligaria para toda a lista de contatos em busca de carinho.

— Awn! — exclamou Nilou. — Ele não é uma gracinha? — ela falou para o público e para as câmeras. — Se você fosse meu ex, Kaveh, eu com certeza atenderia as suas ligações, e tenho certeza que a maioria das pessoas aqui também, não é mesmo?

Ela brincou e a plateia concordou vocalmente, os membros da banda afirmaram com a cabeça. Kaveh soou frio. Alhaitham disse algo, mas o microfone não captou, e Cyno tinha um sorriso sacana no rosto e cutucou Alhaitham discretamente.

— Até eu, se tivesse um ex bonito como Kaveh, atenderia às ligações dele. — Alhaitham disse com um sorriso travesso no rosto. Aquilo era ideia de Cyno. Alhaitham não diria algo como aquilo por livre e espontânea vontade. Ele não era nem louco!

— Woooooooow! — a ruiva bateu as mãos na bancada e riu divertidamente. — O amor está no ar, pessoal! Então aproveitando o clima, vamos fazer um jogo!

Os assistentes de palco entraram com as bancadas móveis para iniciar o jogo interativo. Kaveh tinha a sensação de que aquilo daria muito errado.

Aquela provavelmente tinha sido a participação televisiva mais desconfortável de sua vida, mas finalmente o programa estava acabando, e, para encerrar o show, Alhaitham e sua banda cantariam uma de suas músicas do novo álbum ao vivo para a plateia. Já nos primeiros acordes, Kaveh se sentiu levado de volta para o passado.

 

♦♦♦

 

“We could leave this town and run forever…”

— É assim, ó! — o loiro ajeitou o violão e pousou os dedos pressionando as notas, fazendo um acorde sob o olhar e ouvidos atentos do mais novo. — E depois assim… — e outro acorde.

A música original que compusera na noite anterior ganhava vida nas cordas do violão,  brincando aos ouvidos do mais novo que observava sob efeito de encanto. E então o loiro começou a cantarolar junto com a melodia das cordas, balançando a cabeça de um lado para outro. Quando terminou de tocar sua música, orgulhoso, Kaveh sorriu para o menor.

— Você pode cantar ela com a sua banda no festival da escola se quiser.

— Seria incrível, é muito boa, de verdade, mas temos menos de um mês até o festival e seria impossível montar todo o arranjo nesse tempo. De todo modo, se não se importar, eu gostaria de tentar. Talvez pro ano que vem, quem sabe. — Alhaitham sorriu para o loiro que sorriu de volta, corado. 

— C-certo… — Kaveh estava tão feliz que poderia explodir. — A música é sua, de toda forma. Eu fiz para você. Só vai ficar boa de verdade na sua voz, é grave demais pra mim. — um sorriso tímido se seguiu.

Alhaitham pegou o violão das mãos do loiro com cuidado e tentou repetir os acordes tocados por ele anteriormente enquanto cantarolava.

 

♦♦♦

 

Kaveh jamais esperava escutar aquela melodia novamente. Por bem, as câmeras já não pegavam onde ele estava, e o público estava focado demais na banda para notar como ele tremia. Contava os segundos para correr para o camarim. Aquelas sensações eram terrivelmente assustadoras, a nostalgia chegava a ser dolorosa. Queria chorar, queria se jogar no chão e chorar feito uma criança. Queria se arremessar contra o peito de Alhaitham e chorar feito uma criança. Que merda! Estava morrendo de saudades do ex e nem estava bêbado, e a porcaria do ex estava a poucos metros dele, e ainda assim terrivelmente inalcançável.

A gravação mal terminou e Kaveh correu para o camarim sem sequer cumprimentar a apresentadora, os colegas de palco ou os produtores — como normalmente faria. Dori estranhou o comportamento do astro, mas não foi atrás dele. Se ela também desaparecesse sem cumprimentar aqueles que lhes ofereciam contratos, patrocínio e dinheiro, seriam definitivamente vistos como ingratos, mas se apenas o ator fizesse, poderia inventar que ele estava passando mal naquele dia ou tinha uma dor de barriga.

Dori, entretanto, estranhou quando o outro convidado, um moreno que era da banda de rock, correu atrás de Kaveh pouco depois e se enfiou no camarim dele antes que a porta fosse fechada. Ela então se preocupou e correu até lá, colando os ouvidos à porta para ter certeza que sua fonte de dinheiro estaria segura e intacta.

— Kaveh!

— Não, você está me confundindo. É outra pessoa. — o loiro mentiu descaradamente, ficando de costas para o mais baixo que suspirou pesadamente e negou com a cabeça.

— Puta que pariu, Kaveh! Para com isso, na moral! — Cyno o puxou pelo braço e o virou para si, abrindo um enorme sorriso em contraste com o rosto choroso do loiro. — Que saudade que eu tava de você, seu louco! E você sai correndo sem nem cumprimentar a gente?!

Antes que Kaveh pudesse dizer qualquer coisa, Cyno o abraçou apertado e afagou seus cabelos gentilmente.

O loiro desabou. Kaveh abraçou o rapaz de pele bronzeada e cabelos brancos, escondendo o rosto em seu ombro e chorando feito uma criança sem sequer se preocupar se molharia a roupa do baterista da banda de Alhaitham ou se borraria a maquiagem.

— Me desculpa, me desculpa por tudo! — choramingou entre soluços, agarrando o tecido da roupa dele em seus dedos.

Cyno manteve os afagos suaves e beijou carinhosamente o ombro do loiro.

— Vai ficar tudo bem, Kav. A gente sentiu uma puta falta de você, ninguém tá com raiva, eu só estava brincando… Eu só queria conversar com você por alguns minutos, será que tudo bem?

Kaveh afastou-se um pouco e limpou as lágrimas do rosto, afirmando com a cabeça. Sabia sobre o que Cyno queria falar, e não tinha certeza se estava pronto para ter aquela conversa, mas era melhor fazer isso com ele do que com Alhaitham.

Os dois se sentaram no sofá que havia no camarim, na parede contrária à penteadeira. Kaveh odiava como parecia patético no espelho, mas, desde que não olhasse para lá, estaria tudo bem. Cyno estava preocupado com o bem estar do loiro, mas tentava ser gentil, por mais que soubesse que tocaria em assuntos que talvez ele não quisesse de fato conversar.

A verdade é que ele, que conhecia Alhaitham e Kaveh desde a época que os dois namoravam, e que era um dos melhores amigos de Alhaitham desde aquela época, ele sabia o quanto o término dos dois tinha afetado a vida de ambos, sabia como Kaveh tinha mudado depois do término, pelo menos por um tempo… Depois de um tempo Kaveh acabou se mudando da cidade também, e, por fim, Cyno tinha ido morar na capital também e perdeu todo o contato com o loiro. Cyno sabia que a primeira fuga de Kaveh depois de terminar com Alhaitham tinha sido o alcoolismo, sabia que aquilo tinha causado muitos problemas no relacionamento entre ele e a mãe dele, mas depois da mudança tinha perdido os sinais do que estava acontecendo na vida do loiro. Torcia para que ele continuasse compondo e para que algum dia o encontrassem por meio da música e que ele estivesse bem.

Kaveh estava levando uma vida muito mais glamourosa do que Cyno esperava inicialmente, mas definitivamente a pessoa à sua frente não parecia estar bem.

— Como tem sido a sua vida desde que saiu de Porto Ormos? — Cyno perguntou amigavelmente, segurando uma das mãos do loiro entre as suas, olhando-o com carinho e preocupação.

— Ah… Eu me juntei a um grupo de Idols por um tempo, mas faz alguns meses que optei por sair em carreira solo… Eu nunca pensei realmente em ser cantor, queria atuar, acabei cantando, por sorte, mas nunca me encontrei no canto depois de… — ele interrompeu sua fala e respirou fundo.

— Depois que o Alhaitham foi embora?

— Sim. — o loiro mordeu os lábios. — Vocês continuaram com a banda… eu achei que tinha acabado quando ele foi embora.

— Tecnicamente acabou mesmo. — Cyno deu uma risadinha. — Quando eu me graduei, me mudei pra Sumeru e acabei encontrando o Alhaitham por lá. Ele estava na mesma faculdade, num outro curso, então a gente montou outra banda e aqui estamos nós. Foi uma puta luta pra chegar até aqui, mas acredito que vamos muito mais além ainda. — O moreno deu um sorriso caloroso. — Você devia ir nos visitar quando tiver tempo livre. Eu imagino que seja difícil encontrar tempo na sua agenda, já que você é um dos atores mais populares do momento, mas eu ficaria radiante de jogar um carteado contigo como antigamente.

Kaveh deu uma risadinha baixa, triste, nostálgica.

— Eu adoraria… mas sei que não é sobre isso que você quer falar, Cyno. Vamos direto ao ponto, por favor.

Cyno suspirou e prensou os lábios em uma linha fina, estalando a língua antes de rir nervosamente e começar a falar.

— Alhaitham jamais superou o término de vocês. Conversa com ele, por favor. Ele se culpa até hoje por ter sido ele quem terminou quando você não queria, e se arrepende amargamente de ter ido embora da cidade antes de se formar…

Kaveh suspirou e pendeu a cabeça para trás, segurando as lágrimas.

— Foi ele quem terminou comigo. Ele quem foi embora sem me ouvir. Eu nunca quis deixá-lo, eu implorei pra ele ficar, Cyno, implorei. — a voz voltava a se embargar no tom choroso; a confusão e a saudade apertando o peito do ator.

— Eu sei, Kav. Ele sabe também, mas… Porra! Ele compôs um puta álbum só… na esperança que um dia você ouvisse. Pelo menos conversa com ele. — Cyno apertou os dedos ao redor da mão do loiro, aflito.

— Ele sabia que eu viria aqui nesse programa hoje, Cyno? — Kaveh desviou o assunto. Precisava pensar.

O moreno mordeu o lábio inferior e negou com a cabeça.

— Eu pedi pro agente não falar pra ele quem seriam os outros convidados, então ele só sabia que seríamos nós e um ator popular, mas não sabia que esse ator seria você. Eu sabia, me desculpe, mas eu também sabia que ele não conseguiria se soltar e falar honestamente sobre o álbum se soubesse que você estaria ouvindo. Você o conhece, sabe como ele consegue ser tímido.

— Então você nem sabe se ele vai querer falar comigo, Cyno. Talvez ele não queira. Talvez pra ele eu seja essa nostalgia e só. — Kaveh insistiu.

— Por tudo o que é sagrado, Kaveh! Você ouviu da boca do próprio homem que ele largaria tudo pra fugir com você! Ele só não foi atrás de você ainda porque não sabia onde você estava. Alhaitham não ouve música pop e não assiste tv. Ele é o mesmo esquisito que você conheceu… — Cyno suspirou numa pausa antes de continuar. — Eu sabia que você estava num grupo Idol, mas eu não contei pra ele por que ele sairia da banda pra ir atrás de você, e nós finalmente estávamos tendo algum destaque… Mas então quando acabamos a última turnê ele juntou as coisas dele e disse “Vou para Porto Ormos. Preciso saber como Kaveh está”. Eu me senti um merda por não ter dito a ele que você estava em Sumeru… e então ele voltou duas semanas depois com esse álbum inteiro escrito… Ele disse algumas coisas que me deixaram preocupado, Kav. Eu me sinto um monstro, mas não queria que ele abandonasse tudo. Ele precisa ouvir de você como você está e o que você sente, não pode ser o que eu digo, tem que ser você. Por favor…

Parecia ter um nó enorme na garganta do ator, como se as palavras se embolassem ali com a saudade e o vazio, com o medo e a ansiedade. Ele queria fugir, só desaparecer. Não sabia como encarar o ex-namorado. E se Alhaitham estivesse apenas usando um eu lírico e tentando se mostrar popular com os fãs alimentando os sonhos deles e Cyno estivesse confundindo tudo? Isso era bem comum entre músicos… Não. De todo modo não tinha como tirar conclusões precipitadas. No fim, se Alhaitham sentia ou não aquelas coisas, só uma conversa entre os dois poderia clarear as incertezas e acalmar o coração ou sufocar toda aquela dor.

— Certo. Mas não é bom que seja aqui. Minha agente pode tentar vender informações da nossa conversa pra movimentar meu nome e eu não quero isso.

Kaveh levantou-se e respirou fundo, limpando as lágrimas. Foi até a penteadeira e pegou na bolsa que estava pendurada na mesma um caderno e uma caneta, então anotou um endereço e um telefone, rasgando a folha e entregando-a na mão de Cyno. O rosto vermelho numa vergonha profunda.

— Você pode p-pedir pra ele ir nesse endereço mais tarde? Eu vou esperar por ele lá. E… esse é o meu número. Salva também, pra a gente marcar aquele carteado. — o loiro se esforçou para desenhar um sorriso em seus lábios.

Cyno lhe sorriu e, levantando-se, abraçou o loiro mais uma vez. 

— Ele vai estar lá. Obrigado, Kaveh. Serei eternamente grato pela sua compreensão. — ele se curvou educadamente em agradecimento após interromper o abraço. — Espero poder te apresentar ao resto da banda com calma e também ao meu esposo qualquer hora…

— Esposo? — Kaveh se surpreendeu e sorriu. — Você casou?!

Cyno riu e coçou a nuca. 

— Pois é… eu o conheci na faculdade também; longa história. A gente saiu por um tempo, eu o pedi em namoro e ele disse que não namoraria um “rockstar”, então eu o pedi em casamento…

— E ele aceitou? Assim? — o loiro riu limpando o rosto outra vez.

— Não, claro que não. Ele perguntou se eu estava louco e bateu a porta na minha cara. — o moreno riu de si mesmo. — Mas, como eu disse, é uma longa história. Vai ter que vir jogar cartas comigo se quiser ouvir por inteiro.  — ele sacudiu a folha de caderno. — Por agora eu tenho que levar isso aqui pro Ratão. — e ele piscou um olho para o loiro. — Vou te mandar uma mensagem pra você salvar meu contato.


 

♦♦♦

 

“Let your waves crash down on me and take me away”

— Eu não posso continuar nessa cidade, nem posso pedir que venha comigo, sendo que você tem seus próprios planos, Kaveh. Por isso, infelizmente, acredito que seja melhor a gente terminar.

Alhaitham evitou olhar o rosto de Kaveh, desviando seu olhar para o chão sob seus pés. Já era difícil olhar para os olhos das pessoas normalmente, mas quando elas estavam tristes ficava infinitamente pior.  Seu coração estava apertado dentro do peito; ele não sabia se estava fazendo a escolha certa, mas não se sentia no direito de segurar Kaveh com ele, podar suas liberdades, e não sabia como seria o futuro, Sumeru ficava longe, era uma cidade grande e Kaveh era ciumento. Por mais que Alhaitham não tivesse olhos para outras pessoas, sabia que o loiro sofreria muito com um relacionamento à distância. Não daria certo. Não tinha como dar certo.

— Isso é mentira, não é, Hayi? — a voz do loiro estava embargada pelo choro. Alhaitham não olhava seu rosto, mas sabia que ele estaria vermelho como um camarão, pois sempre ficava assim quando chorava.

— Não. Eu estou indo embora pra Sumeru. Vou completar meus estudos lá. Não consigo ficar naquela casa sem a minha avó e você sabe disso. Eu não aguento mais perder as pessoas, Kaveh. — Alhaitham tentava manter a compostura, continuar sério e resistente, mas sabia que não era nem um pouco inabalável como tentava parecer. Kaveh era seu ponto fraco, a única pessoa que não podia aceitar perder… por isso não via outra forma de seguir em frente se não desistir dele antes de perdê-lo.

— E então vai abandonar tudo assim? Vai me deixar? Você pode ficar aqui em casa, a minha mãe não negaria te acolher, Hayi… Depois que terminar o ensino médio, aí nós vamos juntos pra Sumeru… Eu vou trabalhar e juntar um dinheiro enquanto isso, pra que a gente possa viver lá.

— Não, Kaveh.

Alhaitham respirou fundo e olhou para o rosto do loiro após juntar coragem. Reforçando com o olhar nos olhos dele o quanto estava sério quanto a sua decisão.

— Eu estou terminando com você. “Nós” não vamos a lugar algum. Eu preciso aprender a viver sem você, sem ninguém. Estou indo sozinho, da mesma forma como vim a esse mundo, sozinho. Um dia, quem sabe, alguma hora, a gente se encontra por aí.

Kaveh fraquejou. Seus joelhos se dobraram involuntariamente. Ele estava ao chão, segurando a mão de Alhaitham com medo de perdê-lo, mas sentindo que ele escapava entre seus dedos como areia, como água.

— Não me deixa, Hayi… eu imploro… não vá…

 

♦♦♦

 

Kaveh tomou um banho ao chegar em casa. Limpou a maquiagem borrada. Dori gritava pelo viva voz do celular, infernizando a respeito de seu sumiço após o programa e sobre a questão da relação passada com Alhaitham — e o porquê ela não sabia que ele era gay, porque ele não tinha contado para ela a respeito daquele detalhe importantíssimo. Fez sua rotina de cuidados com a pele, secou o cabelo e vestiu uma roupa confortável. Ainda pensava a respeito de tudo, tudo o que aconteceu no passado, tudo o que aconteceria a partir dali. Era como se a caixa de Pandora estivesse se abrindo desde o momento em que ouviu a voz de Alhaitham na sala de espera ao lado do palco mais cedo naquela tarde. Aquela noite tinha altas chances de terminar em tragédia e sofrimento. Ele não sabia o que Alhaitham faria, nem sequer se ele realmente apareceria. De todo modo, quando fosse por volta das oito ele se arrumaria um pouco mais. Queria estar bonito caso o ex aparecesse. O mínimo que podia fazer era mostrar que estava bem, mesmo sem ele.

Antes que pudesse concluir seus pensamentos, entretanto, o interfone tocou. Kaveh foi até lá atender e o porteiro do condomínio informou que um jovem chamado Alhaitham solicitava permissão para entrar. Kaveh tremeu. Ainda não era nem seis horas! Autorizou a entrada dele. Tinha menos de dez minutos até Alhaitham estar na porta de sua casa, então precisava se arrumar tão rápido quanto fosse possível.

Tropeçou, caiu, correu, saltitou para caber na calça bonita que valorizava suas pernas, trocou o moletom por uma camisa bonita, fresquinha — e que não precisasse ser passada, por tudo que era mais sagrado! Não dava tempo de se maquiar, passou apenas perfume. A campainha tocou. Droga! O tempo tinha acabado!

O coração estava a mil, a ansiedade fazia o ar faltar, suas mãos tremiam. Ele abriu a porta sentindo o coração entalado na garganta. Alhaitham estava a menos de dois metros, menos de um metro. Olhos nos olhos como não era desde antes de terminarem; as palavras sumiram.

— Nilou disse que você é um dos solteiros mais cobiçados de Teyvat… — Alhaitham quebrou o silêncio.

Kaveh engoliu seco.

— E-eu sou…

— Então está solteiro.

— S-sim.

Alhaitham não esperou um convite formal. Todas as palavras tinham sumido de toda forma, de que adiantava falar qualquer coisa? O quanto conseguiria expressar com suas palavras que não poderia expressar por meio daquele beijo que tanto desejava há tantos anos?

Empurrou Kaveh para dentro de sua própria casa e abraçou-o pela cintura, tomando seus lábios num beijo urgente, cheio de saudades, de nostalgia, de desejo. Fechou a porta colocando o corpo do loiro contra ela, segurando com ambas as mãos sua cintura fina e bonita.

Kaveh se surpreendeu quando sentiu a boca do outro na sua, mas não hesitou em corresponder. Internamente sabia que queria tanto aquilo quanto ele. Sentia falta do sabor daquela boca, dos toques daquelas mãos, do timbre daquela voz e do cheiro de seu shampoo. Envolveu o pescoço do mais alto com seus braços e acariciou-lhe a nuca deixando que ele o devorasse, que devorasse seus lábios, que chupasse sua língua, que apertasse sua cintura.

Beijaram-se como se nada mais importasse no mundo. Quando finalmente interromperam o beijo, depois de vários minutos, Alhaitham encostou sua testa à do loiro, mantendo seus olhos fechados por um período, aproveitando o breve silêncio quebrado apenas pela respiração de ambos.

Kaveh tinha medo de soltá-lo e perceber que aquilo era apenas um sonho. De sentí-lo evaporar por entre seus dedos, desaparecer no por do sol. Não queria que ele fosse embora outra vez de sua vida. Escorregou as mãos até o rosto bonito do mais novo e o acariciou gentilmente, vendo seus olhos esverdeados se abrirem sob as cortinas acinzentadas de seus cílios.

— Vai embora e vai sumir da minha vida outra vez? — a voz do loiro saiu baixa, hesitante.

Alhaitham roçou os lábios aos dele gentilmente.

— Errar é humano, mas cometer o mesmo erro duas vezes é burrice. — arrancou uma risada baixa do loiro. — Eu me expus ao declarar meu amor por você em rede nacional, o mínimo que pode fazer é reconhecer o fato de que eu ainda te amo mesmo depois de todo esse tempo sem que eu precise repetir essas palavras, não acha?

Kaveh sentiu suas bochechas queimarem, tendo a certeza de que estava vermelho como uma pimenta.

— Idiota. Eu gosto de ouvir você dizer isso, sempre gostei… Então, se não for um problema, eu gostaria de te ouvir dizer mais uma vez, só pra que eu possa ter certeza mesmo de que não estou me enfiando numa fria ao me permitir te amar na mesma intensidade outra vez.

Alhaitham riu baixinho e beijou os lábios do loiro mais uma vez.

— Ouça com atenção, Kaveh. — ele aproximou seus lábios da orelha do loiro e disse com a voz baixa e clara: — Eu te amo, Kaveh.