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O sangue escorria pela lâmina afiada e escura, pingava no chão sem um padrão específico. Nem se incomodava com a sujeira extra, era ínfimo em comparação com a quantidade de líquido manchando as paredes, e ainda vazando do corpo frio abaixo de seus pés. Ele observava a cena sem muita reação, havia virado comum ter aquelas criaturas brancas de coletes chamativos serem reduzidas a um pedaço sem vida por suas próprias mãos. Eram peças em um jogo maior, moldadas em uma válvula de escape para toda sua mágoa acumulada.
Não tinha medo de matar, muito menos repulsa, incômodo. Mataria muitos mais sem um pingo de remorso, sinceramente. Tudo foi tirado de si. Brincaram com seu coração, dilaceraram seu espírito, mexeram com sua família. Se a vingança viesse de tirar algumas vidas para causar receio à federação, então continuaria nesse mesmo caminho.
Gostava do que via, sinceramente, não conseguia enxergar como algo ruim. Era o que eles mereciam de qualquer forma, depois de todas as torturas e sequestros, de toda dor que causaram repetidas vezes para muitos daquela ilha, algumas mortes não chegavam a lascar nem a superfície. Destruir a existência de alguns sem rosto não chegava nem perto de tudo que causaram para eles, de todo trauma, terror e angústia que despejaram em suas costas todos os dias. Finalmente chegaram no limite, era o estopim de sua loucura. Eles haviam pedido por isso, procuravam uma guerra a tanto tempo, pensando que sempre abaixariam a cabeça no fim, porém nem conseguiram começar a entender com quem se meteram de verdade.
Às vezes se punha a pensar se era alguém insensível. Se dor e sofrimento desregularam seu cérebro ao ponto de danificá-lo permanentemente, o cegando quanto a como tais atos deveriam ser repudiados ao invés de admirados. Nem sabia se realmente os admirava de verdade, apenas não era impactado para com eles igual outras pessoas normais. Normais… sentia um nó ser feito em sua garganta, apertava a arma com mais força ao ponto de deixar seus dedos brancos. Elas não eram normais, elas só não entendiam o suficiente.
Poucos entendiam. Poucos realmente souberam o que era ser atormentado, reduzido a uma casca vazia depois de ter sua alma cortada em pedaços, costurada de volta e desmantelada novamente. Poucos absorveram a realidade de estarem sendo controlados como marionetes para o entretenimento sádico alheio. Uns se mantiam ignorantes à realidade, outros nem sabiam de verdade. Mas ele sabia. Ele e seu marido sabiam. Ele e seu marido viveram na pele as cicatrizes profundas marcadas por risadas altas e traição profunda, por lutas profundas e destrutivas. Ele e seu marido sabiam que isso não era uma resposta exagerada, era a resposta necessária.
Se mantiveram complacentes demais, pacientes demais. Tentaram jogar de forma mais planejada, pensando mais do que agindo. Arquitetaram um longo jogo de xadrez, tomando tempo valioso em cada uma de suas ações, fazendo de tudo para estarem sempre um passo à frente. Porém existiam limites. Todos tinham limites. Tantas coisas aconteceram de uma só vez, a ilha virou de cabeça para baixo dentro de alguns dias. Agora, semanas depois, tudo estava reduzido ao caos. Difícil era achar quem se mantinha são de verdade, pois tudo era reduzido a mentiras, a ataques de loucura escondidos nas sombras, a investigações sem destino aparente. Só restavam dúvidas e mais dúvidas, estavam perdidos, deixados no escuro mais uma vez. Dessa vez, por tempo demais, não existia concerto. Esperaram demais, aguentaram demais.
Então, que paguem o preço.
Paguem o preço de tudo já feito. De todos os ataques, sequestros, torturas, zombarias. Das missões sem sentido, das manipulações, ameaças. Das falsas esperanças, das angústias, da raiva. A federação brincou com eles por meses. Craftaram essa realidade perfeita até que finalmente começaram a mostrar sua verdadeira face através das frestas. Se parasse para pensar, eles foram os impacientes. Pulando na primeira oportunidade de poder mostrar suas garras, mostrar seu controle acima de todos alí. Pensavam ter todos em suas coleiras, acorrentados em gaiolas para serem apreciados como bichos em zoológicos. Eram brinquedos, testes, eram criaturas vistas como inferiores, vistas para serem maltratadas para agradar um bando de bestas sem nome específico.
Se a federação pôde perder o controle, era a vez deles perderem também.
E pouco a pouco perderam. Ao ponto de serem drogados ao silêncio, drogados para virar bonecos mais agradáveis, bonecos que seguissem as ordens e regras impostas. Foram presos num mundo no qual não podiam saber da verdade, não podiam lutar por ela. Eram obrigados a sorrir ao mesmo tempo que queriam gritar, chorar, se libertar. Presos a um vício sem saída. Bem, imaginavam ser sem saída, até que a ordem conseguiu a cura para salvar aqueles que se perderam no meio dos medicamentos. Como sempre, era eles por eles mesmos para se resgatarem. Senão, quem os salvaria? Ninguém. A resposta era ninguém.
Estava cansado. Cansado de ver quem amava sofrer. Ver sua família se desfazendo na frente de seus olhos e não conseguir fazer nada para ajudar. Ele também estava se desfazendo. Mesmo tentando mentir, se manter o mais são possível pelos outros, mas não dava mais. Não conseguia mais perder ninguém, não conseguia mais continuar perdendo a si mesmo. Fez seu melhor, porém tudo tinha sua gota d'água. E, há alguns dias, havia recebido a sua.
Subiu as escadas do castelo sem muita pressa. Tinha que pensar, talvez armar um plano para algo desconhecido - impressionante como isso tornou-se rotina. A visão dos concretos pretos espalhados fazia um gosto amargo escorregar em sua boca. Mordeu sua língua, deixou o gosto metálico surgir para nublar o anterior, substituindo a vontade de chorar de tristeza pela vontade de chorar de frustração. Quando as coisas se tornaram tão sem sentido? As cores do mundo foram arrancadas tão rápido, restando apenas uma escala desanimadora de cinzas.
Afundava-se em suas lamúrias, escondendo-as, mantendo-se o mais ocupado possível. Trabalhava dia, tarde e noite, evitava dormir como se fosse uma praga, querendo evitar os pesadelos, querendo evitar dormir tranquilo para acordar em um pesadelo. Chegava ao ponto de sentir seu corpo ceder a pressão da fadiga, suas pernas perdendo forças e fazendo-o ir ao chão de uma só vez. Ficava parado sem conseguir se mexer, sua cabeça começando a sentir como se submergida em água, flutuando numa imensidão sem som, turva e sem definição. Apagava e nem sabia quando, tudo ficava escuro e logo ficaria claro novamente, um espaço sem nada no meio de um intervalo indeterminado. Sempre acabava estando sozinho no fim, tempo não importava.
Sentia-se entristecido de dormir longe de seu amado, de não sentir seus beijos, de acordar sem seus abraços. O que mais queria era correr para seu amparo, de sufocar-se em seu amor, prender-se em seu carinho e ignorar todo resto do mundo por algum tempo. Mas não conseguia. Não queria atrapalhá-lo. Também, bem no fundo, tinha consciência do seu medo de se abrir sobre seus sentimentos, de incomodá-lo com os pensamentos por trás de suas olheiras, de admiti-los em voz alta - isso os faria ser realidade. Ele queria se manter ignorante, seguir adiante como se nada estivesse acontecendo. Porém se visse o olhar carinhoso do outro direcionado a si, saberia que iria dizer a verdade, que iria derrubar nele mais coisas para se preocupar, não podia fazer isso. Ele tinha que ser sua fonte de alegria, sua âncora, não podia ser fraco.
Quando se abriu para o outro, foi aliviante, foi torturante. Tentou esconder, não havia funcionado, então só foi sincero. Receber as palavras encorajadoras, o apoio, o amor alheio era como um cobertor quente em um dia frio. No fim de tudo, mesmo quebrado e destruído, sabia que tinha um abrigo, tinha alguém ali com paciência o suficiente, que se importava o suficiente para remontá-lo pedaço por pedaço. Mesmo pensando estar sozinho, ele não estava, não mais. Quando tudo parecia perdido, sabia que tinha com quem contar. Estavam juntos, contra o mundo. Nada mais importava além disso.
Se fosse para queimar tudo, se fosse para destruir a ilha, se fosse para matar tudo e todos, estariam juntos.
Mesmo com o coração na mão, ainda evitava se desesperar. Sua cabeça tinha que se manter o mais estável que pudesse em caso de emergência - caso fosse uma emergência, o que poderia muito ser. Checou seu quarto, a cama de casal estava intacta ao ponto de ser um acumulado de pelos dos gatos em cima dela. Era claro como o local não era usado a dias, ambos evitando se entregar aos encantos de Morfeu de forma convencional. Um caindo desmaiado enquanto construía uma cidade e o outro enquanto focava em investigar. Doía não saber se sequer ele desmaiava, se obteve o mínimo dos mínimos dos descansos em todos esses dias. No fim, nem tocaram nesse assunto e era difícil de engolir.
Ver o cômodo tão intocado fez seu estômago cair, era mais um sinal ruim. Faziam horas sem receber nenhuma notícia do outro e saber que não estava descansando, mesmo sendo notável o quanto precisava disso, era um tanto alarmante. Desde quando foram forçados a se separar por aquele urso branco inconveniente - e, aparentemente, brasileiro? -, tinha uma sensação estranha no fundo de sua mente, uma sensação ruim. Seus instintos remexiam de forma protetora, ele tentou fazer a criatura ir embora, estavam num momento familiar importante! Porém aquilo invadiu, entregou sua mensagem e arrancou o híbrido de gato do momento pacífico. O ar de que algo estava errado, de que seu marido podia ser sequestrado novamente era asfixiante. Infelizmente, só podia esperar até saber da verdade.
Respirou fundo, um tanto trêmulo. Coçou os olhos antes de visualizar o quarto novamente, dessa vez um pouco mais sério. Não era o fim do mundo. Nem era comum encontrar o outro em seu quarto de qualquer forma, principalmente nestes últimos dias. Apesar do comunicador do outro estar offline, podia só significar que ele estava dormindo em outro lugar, não que havia sido desativado por estar preso numa prisão da federação. E se estivesse preso, se tivesse sido capturado mais uma vez, ele iria resgatá-lo sem nem pensar duas vezes. Então tinha que manter a calma por agora. Respirou profundamente mais uma vez, relaxando seus ombros. Tudo bem. As coisas ainda estavam bem.
Pensou em ir olhar ao redor do castelo, ele podia estar em alguma outra torre ou até na área das plantações. Descartou a ideia rapidamente, seu amado parecia cansado demais para planejar qualquer outra coisa. Talvez fosse difícil até dele estar na ordem, apesar de ser sua segunda melhor opção. Antes, iria checar o lugar mais frequentado do mais velho. A sala do medo. Era seu escritório particular, sua sala mental, como se fosse um contato direto com seu cérebro e pensamentos - pelo menos os lógicos e viciados em enigmas. Sabia da existência das questões mais obscuras da mente do outro, não só por algumas terem sido reveladas a si, mas também via em seus olhos, em seus comportamentos. Havia muito que não sabia sobre ele, sobre toda dor, todos os traumas, nem conseguia começar a imaginar. Depois de ouvir sobre como ele ficou preso em uma espécie de conjunto de jogos similares a uma guerra, que, quando era apenas uma criança, tinha que matar para sobreviver mais um mísero dia.. Nem soube processar a informação corretamente. Era tão fora do esperado, tão fora de sua própria situação que.. Era de partir o coração. Era assustador.
Assustador não porque o outro era um assassino desde novo; que teve que comer carne e beber sangue ao ponto de se viciar; que foi preso e fugiu de uma das prisões mais protegidas do mundo. Não. Essa não era a parte assustadora. Ele teve que passar por tudo isso, foi retirado de sua família para passar anos de tortura ao ponto de ser visto como um monstro, tudo isso desde quando era uma criança. Ele era apenas uma criança. Mesmo que fosse um adulto, ninguém merecia esse destino. Era crueldade demais. E pior, sem motivo. Nada convenceria o mexicano de que existia um motivo justificável para alguém passar por isso. Muito menos um garoto, por volta de 13 anos.
Admirava o homem com quem casou. Havia passado por tanto, porém se mantinha consciente, são o suficiente para não ceder completamente à desesperança, à loucura, à dor. Para outros, ele era visto como o detentor das respostas. Ninguém via sua agonia, poucos notavam sua crescente exaustão. Infelizmente, não era parte desses poucos. Sua própria exaustão, seu turbilhão de pensamentos negativos e ter que constantemente mentir sobre como se sentia havia o deixado ignorante ao estado do seu amado. Sabia que o outro estava mal, todos estavam. A perda dos ovos somado a ter que salvar seus amigos de pílulas alucinógenas, além de ser a pessoa na qual contam que tenha as respostas para resolver tudo, era só muito para um só. Se parasse para tentar enxergar com mais clareza, veria a quantidade absurda de peso nas costas alheias, no quanto seus olhos haviam perdido seu brilho, o quanto seu espírito parecia pisoteado em maneiras nunca antes vistas por si.
Ao conversarem sobre a questão de Bagi ser sua irmã e do meio felino estar a ignorando, pode enxergar o quão perdido o outro estava. Mal conseguia o olhar nos olhos sem perder o foco, sem parecer distante, vendo um passado distante, porém como se estivesse tão próximo. Parecia sem vida, sem ter mais nenhum pingo de esperança para nada. A quanto tempo estava se afogando sozinho? Pedindo silenciosamente por ajuda sem ninguém notar. O ouvir contar sobre suas épocas torturantes quando mais novo, sobre como não conseguia ver sua irmã sem pensar na vida que perdeu.. Era de partir o coração. Ele nem se lembrava do que perdeu, só lembrava de todas as memórias terríveis de seu passado, e só conseguia ficar com as dúvidas, com os porquês sem resposta. Para alguém apaixonado por descobrir sobre tudo, aquilo parecia ter sido o enigma mais destrutivo de todos. Ele era uma criança, tirada de casa para ser jogada em uma guerra. Por que? Essa era a grande questão. Uma questão que serviu como a gota d'água. Parando de fingir estar bem, parando de ter algum mísero estímulo para continuar.
Por isso tinha medo do que aconteceu depois do urso o requisitar. O quão mais poderiam desmantelar alguém já caído ao relento? Se existia alguma sombra de esperança no outro, o que faltava para quebrar por completo? Com ele tão perdido, sem motivação, o quão fácil seria pegá-lo para torturar, para usar como experimento só porque tinham esse poder?
Isso o assustava mais do que deveria. Se tivesse estado lá mais vezes para seu marido ao invés de estar apenas se lamentando e evitando contato com outros a todo custo, o quanto teria ajudado a evitar este declínio? Poderia ter usado suas incríveis habilidades de psicólogo para guiá-lo a uma melhora! Mesmo mínima, já seria algo melhor. Sempre podia contar com o outro, então era horrível sentir como se o outro não pudesse ter contado com ele. Ele se deixou ser inacessível. Seu amado estava respeitando seu espaço enquanto carregava tudo sozinho. Havia deixado ele sozinho.
Não mais.
Se tivesse sido levado, iria salvá-lo e grudar nele para nunca mais acontecer. Ia conversar, dar ajuda, ia estar lá para ser seu pilar de apoio pelo resto de seus dias. E se não tivesse sido, iria fazer a mesma coisa. Se fosse só para dar carinho, café, companhia, se fosse… Se fosse para matar em prol da felicidade do seu amor, faria sem uma gota de remorso. Eram família no fim de tudo. Assim como não foi abandonado, não iria abandonar. Não estava mais sozinho e não ia deixar o mais velho ficar sozinho também. Não mais.
Com a cabeça fervilhando de diversos cenários, gritando diversas palavras agressivas e despejando lamúrias incompreensíveis, se encontrou em cima do símbolo tão conhecido. Deixou seu corpo cair, a sensação fria envolvendo seu corpo, seu estômago embrulhando como se tivesse sido virado do avesso. Esperou a gravidade se ajustar, a cabeça pinicando levemente de dor. Logo quando viu-se estável, observou a imensidão escura à sua frente. Acostumado com o ambiente, se moveu pelo caminho tão conhecido, a sala sendo algo confortante ao invés de intimidante como na primeira vez que entrou no local.
Se pôs a pensar em um novo plano caso seu marido não estivesse alí. O ponto mais provável seria a Ordem, ainda que tivesse a impressão que seria o último lugar que ele gostaria de estar no momento; informação demais. Talvez estaria com BadBoy, eram bem próximos e se conheciam a mais tempo - desde os jogos, como lhe foi dito anteriormente -, então deveriam se entender melhor sobre certas questões; também compartilhavam do gosto de investigar, seria a pessoa mais capaz de estar com ele no momento. Certeza que continuaria evitando sua irmã, não tão de propósito, mas ainda sabia ser difícil os dois ficarem grudados tão cedo. Entre os outros moradores ainda acordados - ou não desaparecidos - , não existiam muitas opções para checar. A menos se tivesse sido mandado a um local novo para investigar algo a pedido da federação, tendo desativado seu comunicador para evitar distrações. Se fosse isso, iria bater nele por o preocupar nesse nível, só para encher ele de afeto em seguida.
Parando no último elevador, este no meio dos belos pilares dourados e pretos, a única luz no meio daquela escuridão, tal como um oásis perdido num deserto, cerrou suas pálpebras e deixou-se descer mais uma vez. Nessas horas, notava o quanto precisava dormir direito, pois quase caiu, ficando tonto e com mais dor retumbando na frente de sua cabeça, quase parecendo vir de trás de seus olhos humanos. Grunhiu pelo incômodo, usando suas mãos para cobrir suas pálpebras, evitando a luz de transpassar, como se fosse aliviar a situação. Esperou um pouco até abrandar suficientemente, então deixou-se observar o local.
Ainda estava como se lembrava, um local escuro lotado de informação trancafiada, com algumas poucas decorações. A única coisa destoante era o fogo perto dos quadros feitos por Richarlyson - seu coração apertou ao ver, sentia muita falta de seu filho -, apesar de ter visto mais cedo, continuava a ser algo esquisito, como se não devesse pertencer ao local. Não gostou da maneira como o mais velho ficava se virando ao fogo toda vez que se perdia em suas memórias sombrias, ficava a dúvida do que realmente ele estava vendo, do que realmente tinha presenciado durante todos esses anos. Aquele fogo tinha um significado maior, não era coincidência ser posto justo nesses dias onde o outro perdia-se mais com as teorias, com as perdas e pensamentos, com todas as dúvidas sem resposta. Poderia teorizar sobre as explicações para aquilo, porém tinha receio de se aventurar nessa colina. De qualquer forma, se via pronto para saber, para ajudar no que fosse necessário. Era seu papel como psicólogo; era seu papel como marido.
Demorou para ver outro ponto destoante no ambiente, logo quando viu, não soube esconder sua surpresa. Caminhou lentamente até o amontoado embaixo das cobertas na cama, sendo cuidadoso para evitar fazer muito barulho. Chegando mais próximo, pode ver os cabelos castanhos em desordem em cima do travesseiro, era a única parte descoberta. Suspirou, seus ombros perdendo a tensão. Ele estava bem, estava em casa, só estava dormindo. Um pensamento cruzou sua mente de querer bater nele por o preocupar dessa forma, indo embora logo em seguida; não foi feito por mal. Nem conseguia prever o que aquilo lhe disse, talvez tenha drenado suas forças ao ponto de nem ter conseguido pensar em se comunicar antes de apagar. Sinceramente, ele merecia desligar o cérebro, mesmo tendo deixado o mexicano temeroso quanto a sua situação, agora ele estava bem, era o importante.
Foi chegando uma de suas mãos para fazer um cafuné nos fios alheios quando notou como os óculos dele estavam posicionados de forma estranha. Na verdade, era familiar. Ele os usava assim nos primeiros dias da ilha, sempre suspeitou do porque deles ficarem para trás daquele jeito, pensava só ser um estilo comum no Brasil. Com o tempo, soube ser para esconder suas orelhas de gato, as prendendo firmemente debaixo de seus cabelos, evitando qualquer reação abrupta podendo revelá-las. Quando soube, indignou-se bastante e argumentou o quanto aquilo era perigoso, o quanto deveria machucar. Foi triste saber o quão anestesiado àquela dor o brasileiro estava, ver as cicatrizes da marca do óculos serem tão profundas nas orelhas que nem pelo na área crescia mais. Era por vergonha, também por sobrevivência que ele o fazia, não entendia a segunda parte, mas definitivamente entendia a primeira - era um híbrido de aranha, afinal, já teve muitos comentários negativos em sua direção desde novo.
Desde sua aproximação, fazia o outro não restringir suas orelhas sempre que possível. Os dias foram passando e, depois de se tornar mais confortável ao redor das pessoas, ele sempre as mantinha soltas, assim como sua cauda. Ainda era capaz de ver dias em que seu amado queria por tudo às escondidas, se segurando para não prendê-las por debaixo do acessório. Deveria ser estímulo demais, diferente demais ter elas sempre soltas, poder ser livre sem julgamentos. Mas, analisou, que sempre queria as esconder quando se sentia ameaçado. Sabendo de suas condições de vida, de suas confissões sobre seu passado, era compreensível o motivo. Pelas cicatrizes nelas, pelas cicatrizes em sua cauda, era possível ter alguma ideia do porquê de sempre as esconder.
Era difícil entender o motivo para tapá-las agora. Várias vezes o ouviu dizer como gostava de dormir com elas soltas, como era tão mais confortável. Tanto que, mesmo caindo de sono, sempre retirava os óculos e largava em qualquer lugar. Deveria estar cansado passado dos limites de sua própria compreensão, logo desmaiando na cama depois de se cobrir, nem lembrando da peça incômoda. Negou com a cabeça, um sorriso triste em seu rosto vendo a cena. Aproximou sua mão para ir com cuidado tirar o acessório quando sentiu garras a prender centímetros de seu objetivo.
Segurou a respiração, a tensão voltando a seus ombros. Havia o acordado? Engoliu seco, chateado por ter atrapalhado o sono do outro dessa forma. Ficou parado esperando mais alguma reação ou só esperando que ele se acalmasse e o soltasse. Se fizesse movimentos bruscos, poderia o assustar e piorar a situação. Sabia ser paciente pelo seu amor. Deixou-se respirar normalmente, músculos perdendo a tensão enquanto aguardava pacientemente, sem soltar um pio.
O cobertor foi abaixado revelando os olhos diferenciados em seus tons de azul variado, esses encobertos de vermelho em seu entorno, as pupilas estouradas em um sinal de pavor. Pode notar o rubor ao redor do rosto, parecendo estar bem vivido na área do nariz também, pelo pouco que podia perceber. A mão o segurando tremia, e podia ouvir a respiração descompassada do outro. Certamente foi uma visão difícil de ter. Ver seu marido chorar era raro. Ele era sensível, porém sabia segurar suas lágrimas, sabia disfarçar que estava bem. Sempre percebeu quando uma camada de brilho parecia passar em suas íris, quando retirava lágrimas antes de sequer deixá-las descerem. Quando o viu chorar foi quando perdeu seu pequeno Bobby, vendo o quanto ele se importava com o pequeno que mal conhecia - ele haveria sido um ótimo pai para o dragãozinho.
- "¿Gatinho.. ¿por qué lloras?¹" - Sua voz saiu baixa como um sussurro, desacreditado.
Ele não o responde, parecendo processar quem estava na sua frente. Por algum tempo, ficaram assim, até ele notar como segurava a mão do mais novo. O soltou devagar, a mão tremendo mais do que antes. Ele olhava o pouco do sangue do híbrido de aranha em algumas de suas garras, lágrimas ameaçando cair com a constatação.
- "Me desculpa.." - Fechou os olhos com força, deixando as lágrimas escorregarem por seu rosto rosado.
- "No, no. No hay nada de qué disculparse, cariño.²" - Sentou-se logo na cama, puxando o corpo do outro para sentar-se e ficar dentro de seus braços.
- "Me desculpa." - Pode o ouvir engasgar com sua saliva, o corpo tremendo, dando espasmos esporádicos.
- "No te desculpes. No hiciste nada malo. Te lo juro.³" - Continuou a falar baixo.
Abraçava-o com dois braços, outro esfregava suas costas e o último foi até as mechas claras, retirando os óculos de lá e pondo em algum lugar da cama, para logo se afundar no cabelo alheio em um carinho calmo. Chorava bastante, era dolorido como parecia tentar segurar para não explodir em uma pilha de soluços e gritos. Queria só que ele se deixasse sofrer, parasse de guardar tudo como ainda tentava fazer. Era hipócrita de sua parte, querer algo do outro que não conseguia fazer de volta. Sabia que, em um momento assim, talvez chorasse em seus braços e deixaria todas as partes mais difíceis de seu coração escaparem. Confiava muito no seu gatinho, sentia-se confortável demais ao redor dele. Porém ainda não gostaria de ser um estorvo. Talvez Cellbit pensasse o mesmo em vice-versa.
Murmurava palavras carinhosas sem cessar os carinhos. Encorajava-o para deixar tudo sair, mantinha-se resistente para mostrar que não iria o abandonar, estava ali por ele. Beijou sua cabeça, seus murmúrios ficando mais abafados. O mais velho tossiu um pouco, claramente engasgando-se novamente, então deu tapinhas em suas costas para auxiliar na limpeza da sua entrada de ar. Quando ele fungava mais do que soluçava, percebeu como ele parecia tentar parar suas lamúrias a qualquer custo, sendo majoritariamente em vão.
- "Eu tô tão cansado, guapito.." - Sua voz saía arrastada, rouca, arranhada.
Engoliu seco, inspirando entrecortado. Evitou falar algo, deixando livre para ele se abrir mais em seu próprio tempo. Seu gatinho sempre foi uma figura forte, imponente, então vê-lo tão pequeno e frágil fazia seu interior remexer de forma não agradável. Podia perceber seu veneno querendo descer, ser injetado em algo por pura raiva. Haviam ferido seu marido para além do físico, abalando seu sentimental como nunca viu nesses meses todos. Gostaria de nunca ter visto. Alguém que passou por tantas dificuldades deveria não passar mais por momentos assim, momentos de questionamento sem fim que só acarretavam em choro e vontades obscuras. Entendia bem essas sensações, conseguia identificá-las a quilômetros e odiava passar por elas, porém, se fosse para nunca mais ver o outro dessa forma, arranjaria até uma forma de transmitir aquela tristeza dele para si. Queria até rir imaginando a situação, ambos brigando para tirar a tristeza um do outro, sacrificando seu bem estar em prol do alheio. Era estranho saber de alguém que iria passar dos limites pela sua felicidade, aquecia seu coração sempre que era lembrado.
- "Eu queria tanto ter sentido algo quando roubamos o projeto daquele urso filho da puta." - Riu sem humor. - "Ver ele perder pelo menos uma vez deveria ter sido uma das melhores sensações do mundo… mas eu só não senti nada." - Conseguiu ouvir dele algo como se fosse um rosnar baixo, um arranhar profundo da garganta. - "E eu tentei tanto sentir, me esforcei tanto todos esses dias pra me… pra ficar fodendo estável!"
Raiva despejava de seu tom, era uma frustração crescente moldando-se em algo mais palpável. Já experienciou isso. Quando tantos sentimentos de insatisfação, melancolía, injustiça se acumulavam numa pilha constante, uma que nunca diminuía e só aumentava, não importava quantas vezes tentava ao ponto de virar apenas frustração, ao ponto de se transformar em ódio. Ódio por tentar e tentar mudar, tentar mentir, se auto manipular, tentar fingir que estava tudo bem enquanto batalha dia após dia para se manter minimamente normal. Normal para os outros, nunca normal para si. O seu normal era nojento, era visto com maus olhos. Era empurrado e empurrado para o penhasco, tentando voltar a segurança na medida que continuam a te por bem na ponta, no aguardo para que caia. Chegava o ponto onde se cansava de tentar se salvar, de tentar agarrar na terra na falsa esperança de que tudo ia ficar bem. Chegava o ponto em que retirava suas forças para empurrar de volta. Ele não tinha que ficar na ponta, os outros que deviam cair no seu lugar.
Era cansativo o ciclo de cair e voltar, cair e voltar, cair, ficar na borda e voltar.
-"Parece que nada adianta! Eu escondi tudo dentro de mim por tanto tempo. Por tantos anos. A terapia era para ter me consertado, mas parece que não adiantou de porra nenhuma!" - Sua voz ficava mais grave, ofegava bastante como se estivesse perdendo o ar com a força emitida para deixar seus sentimentos saírem. - "Eu fiquei bem, sabe? Eu tinha o Felps, eu tinha meus remédios, depois tive Pac e Mike, quem poderia esperar?" - Soltou uma risadinha baixa, não suas comuns de segurar suas gargalhadas, uma mais sinistra, incrédula.
Pac e Mike estiveram com ele na prisão. Pelo o que sabia, não havia sido algo muito amigável. Os rumores eram de que ambos tinham medo do meio felino, até que se odiaram em algum ponto. Era estranho imaginar isso, eram tão amigáveis entre os três. Brincavam, conversavam, eram família. Será que tiveram terapia em grupo para se resolver? Ou o tempo só fez eles se perdoarem? Poderiam ter memórias no meio disso que nem se lembram mais, de suas reconciliações, de suas conversas. Da construção de uma bela amizade entre eles três - quatro, caso Felps também estivesse presente. Talvez até conhecessem o Forever antes de tudo, antes da ilha tirar partes de suas vidas embora, por seja lá qual o motivo - não existia motivos para tirar memórias boas a não ser tortura, não fazia sentido ter. Se existia bom, era retirado, aparentemente era essa a resposta com relação a Quesadilla, não é?
- "Nem sei como caralhos chegamos nessa ilha. O que a gente tava fazendo num barco? Vindo da Austrália? O que isso significa?" - Suspirou. - "Não importa. Não agora." - Respirou fundo. - "Aqui eu tive mais pessoas, algo que nunca esperei ter. Reencontrei o Bad depois de 9 anos, mal lembrava dele e foi um choque. Ele continua exatamente como eu me lembrava - bem, com menos sangue no rosto." - Riu.
Bad esteve na guerra com ele. Uma criança encontrando um demônio na guerra disposto a o ajudar, disposto a trilhar o caminho de dor e sangue do seu lado. Teria sido algo bom? Será que a criatura teria o mantido mais estável ou teria auxiliado no seu caminho de loucura? Será que a separação de ambos pesou tanto em Cellbit ao ponto de piorar seu estado? E por que teriam se separado? Eram muitas perguntas, muitas poderiam nem ter respostas. Às vezes as pessoas só seguem caminhos diferentes, sem muitas explicações. Não significa que não doa. Imaginar a figura encapuzada cheia de sangue era estranho. Ele lutava bem, certamente tinha prática, mas parecia gentil demais, anti-violência, inofensivo. Bem, muitos achavam Roier inofensivo também. Os frascos mais inesperados contém os ácidos mais nocivos.
- "Eu tive o Forever, uma surpresa tão gigante, nem sei explicar. Parecia o conhecer a tantos anos, como se realmente fossemos casados e divorciados de verdade." - Soltou arzinho pelo nariz. - "Penso, às vezes, que a gente se conhecia sim, mas tiraram isso da gente. Eles sempre tiram tudo de bom da gente no fim…" - Sentiu o outro finalmente o abraçar de volta, apertando-o como se fosse sumir a qualquer segundo. Não hesitou em apertá-lo de volta na mesma intensidade.
Bile ameaçou a subir sua garganta com o pensamento. Pensar que teriam retirado seu marido de si mais uma vez foi o motivo para quase ter enlouquecido enquanto o procurava no castelo. Se não tivesse o achado em lugar algum, quanto tempo faltaria até que quebrasse por completo? Já estava destruindo de tantas formas, seu marido era a única coisa mantendo os pedaços juntos, impedindo-os de se espalhar e quebrar em mais dezenas. Já haviam tirado tudo deles, mas não iam tirar seu amado de si. Não agora, não mais. Só por cima do seu cadáver, e ele ia resistir muito antes de sequer se tornar um.
- "Aí tinha o Richarlyson.. Como uma criança poderia ser uma luz tão incrível?" - Era possível ouvir o sorriso em seu tom, esse ficando mais leve do que antes. - "Todas as crianças, na verdade, eram luzes tão lindas, sabe? Como seres tão pequenos podiam ser tão essenciais? Tão especiais?" - Fungou. - "Eu nunca esperei ter um filho. Muito menos esperava gostar de crianças. Mas aí é que tá, eu não gostava delas, eu amo elas. Elas eram - elas são família."
Falar no presente… como se elas ainda estivessem ali. Como se fossem acordar em mais um belo dia e poder brincar com os pequenos dragões humanóides, fazer suas missões e ir dormir confortáveis todos abraçados mais um dia. 'Voltaria a acontecer' é o que gostaria de pensar, porém era difícil ter esperança. Esperança trazia ilusões, trazia quebras de expectativas, trazia memórias ruins de acreditar e depois chorar por dias em uma piscina só aguardando nunca mais voltar. Acreditar que morreram não sanava sua alma, mas era a única coisa impedindo ela de ser mais desmantelada. Brincar sobre as mortes era fingir para si mesmo e para os outros que estava tudo bem, que não importava que elas não voltassem. Importaria muito, sempre importaria.
- "E depois.. veio você." - O mais novo apertou mais o outro em um abraço, sentindo-o relaxar em seu conforto, quase como se fosse ronronar como sempre fazia quando estavam dessa forma. Foi meio decepcionante quando não aconteceu. - "Você e Bobby foram uma dupla que não pensei que me apegaria. Mas, meu deus, como me apeguei." - Suspirou melancólico, aconchegando-se mais no abraço. - "Não confiava em você, seu filho maltratava o meu, não fazia sentido gostar tanto assim de vocês dois. E depois, tudo fez total sentido. Passar o dia com vocês, conversar coisas bobas, só ver vocês era o suficiente. Até que não era e eu só queria ter uma desculpa pra sempre ficarmos próximos."
Entendia o sentimento. Ficava magoado ao saber da desconfiança do brasileiro, pensou que teriam uma possível rixa por conta das brigas entre seus filhos na época. Logo se tornaram tão próximos, as fotos na Base Guapita™ eram fotos de uma família de anos junta. Parecia ser destino, como se tudo indicasse um final com todos eles tendo a mesma casa, o mesmo sobrenome e vivendo dia após dia lado a lado. Como alguém com problemas no amor no passado, pensava ser uma fantasia idiota. Flertava com todos sem compromisso, não tinha motivo para se envolver - se envolver significava se machucar. Mas, desde o início, com o mais velho, parecia só querer tentar. Sentia-se temeroso de avançar muito, ia devagar testando as águas no tempo alheio, mesmo que sua intensidade implorasse para que só se jogasse de vez. Pareciam estar em sintonia, dançando um ao redor do outro em passos lentos, esses comunicando mais forte que quaisquer palavras. Pertenciam um ao outro sem nem ter algo específico, eles entendiam isso sem precisar se rotular, sem nem terem se beijado! Descobriram depois serem abençoados pelas divindades do romance, ambos com suas tatuagens nas costas indicando as flechadas conectando-os. Era para ser assim, perfeito. Todos juntos, felizes. Nem todos, aparentemente.
- "Aí tudo começa a desmoronar, pedaço por pedaço." - Ele o aperta mais, suas garras ferindo levemente o tecido do casaco vermelho e macio do outro. - "Aqueles putos sem rosto, aquilo , todos estavam prontos para mostrar suas cores de verdade. Foi assim quando fui torturado, foi assim com Bobby." - Fungou ao dizer o nome do pequeno, segurando suas lágrimas teimosas de descerem novamente. - "E mais e mais eles mostravam o quanto eles não ligam pra felicidade de ninguém além da deles mesmos. O quanto eles são desprezíveis." - a voz rosnada retorna, grave, cruel. Carregava uma bagagem desconhecida para todos, um sentimento de ira e loucura misturados em um só. -
"Mais sequestros, mais torturas. Tivemos até drogas no meio. Drogas!" - Bufou de raiva. - "Eles drogaram as pessoas por sofrerem pela perda de seus filhos ! Esses que eles estão tentando substituir com essa porra desses clones ridículos!"
Usou seus olhos de sua parte aranha para ver o pequeno ? sentado perto da bandeira com seu rosto, este com uma cicatriz no olho esquerdo. Tinha receio de saber o que havia acontecido, apesar de já ter uma ideia sobre. Eram algo que a federação iria usar para auxiliar em seus projetos. Agora eram deles, cópias pequenas iguais a si, como se fossem suas versões crianças, porém com mais branco em seus cabelos e olhos. Certamente eram bizarros, suas próprias versões como experimentos da Federação. Nunca seriam os ovos.
- "E eu tive que aguentar tudo isso sem me perder por um mísero segundo. Tive que ficar são pelo bem dos outros, para não enlouquecer ninguém, para não tirar a sanidade de mais ninguém, enquanto a minha só ia indo embora a cada dia." - Voltou a rir daquela forma insana, sem se tornar uma gargalhada, porém como se estivesse caminhando para ser. Estava sendo restringida; até agora ele ainda se restringia. - "Buscam por mim para terem respostas, para resolver tudo, enquanto metem pra mim, enquanto desconfiam de mim, enquanto falam mal de mim." - Ofegava mais forte, ouvia seus fungares também, indicando as lágrimas caindo. -
"Eles acham que eu não sei, mas, ah, como eu sei." - Riu. - "Sempre tive esses olhares para cima de mim. Eu sei notar a desconfiança, o nojo, a repulsa. Eu sei ver quando tentam me enganar. Odeio que me enganem." - Sua cadência descia, bem mais grave do que rouca. - "Mas, mesmo assim, ainda vinham atrás de mim para respostas, para manter a paz. Tive que ser presidente 2 vezes - ainda sou, né?" - Tsc. - "E todo esse tempo eu nem pude sofrer a perda do meu filho. A perda dos meus amigos. Tive que ficar me perdendo em trabalho para me manter consciente, pra mostrar que as coisas iam melhorar. Eu sou o cara dos enigmas, eu tinha que ter as respostas. Mas eu não tenho nada!" - Esbravejou alto, ecoando pelas paredes vazias. -
"E eu tava bem, guapito.. Eu estava me controlando bem. Tendo recaídas, claro, bem mais pesadas do que outras, mas eu ainda estava bem ." - Respirou fundo. - "Mas tudo pode piorar. Tudo sempre piora."
Ficaram um tempo em silêncio. Roier com medo de quebrar aquela bolha envolvendo os dois, podendo desencadear algo desastroso. Alguns ficariam com medo tendo uma pessoa descendendo a loucura em seus braços. Roier não fazia parte desses alguns. Ele só conseguia sentir raiva. Raiva de todos aqueles que ajudaram seu amado a chegar nesse estado. Frustração por não poder ter ajudado mais. Ódio por todo esse acúmulo. Seu gatinho estava destruído, chorando, esbravejando, se machucando por conta de ter se perdido tanto ao se controlar que agora tudo só estava transbordando de uma vez só. O quanto ele precisava falar sobre isso? Por quanto tempo? Por que ele teve que guardar tanto? Ele não merecia. Não era justo.
- "...Ela apareceu… Era para ser mais uma para ficar presa nesse fim de mundo. Era pra ser só isso." - Disse depois de um tempo, cortando todo o silêncio com sua voz baixa e cansada. - "Uma brasileira dessa vez, era interessante ter mais uma pra fazer parte da Favela, mais uma para ser do grupo." - Engoliu profundo. - "Era estranho o quanto éramos parecidos. Até o cabelo sendo a inversão um do outro. Era para ser só isso, coincidências. Íamos nas mesmas lojas, só isso, que latinos não gostam de uma promoção?" - Soltou um ar pelo nariz, sendo acompanhado pelo híbrido de aranha. - "Não eram coincidências." - Apertou mais o mais novo, suas garras espetando levemente sua pele. -
"Uma irmã…" - Riu alto. - "A porra de uma irmã gêmea. Eu tinha uma irmã!" - Ria mais. - "Eu tive a porra de uma família normal nessa porra dessa ilha!" - Sua garganta soava arranhada como nunca, como se fosse sangrar a cada grito, a cada vez que era forçada além de seu limite. - "E eu não lembro de nada! Eles não me deixam lembrar de nada!" - Soluçou forte, tendo um espasmo segurado pelos braços alheios. - "Eles tiraram tudo de mim! Minha felicidade, minha infância, meu filho! Eles tiraram a minha família outra vez!" - Soluçava forte, ofegava, seu choro molhando mais e mais o casaco vermelho em que repousava. - "E eu tentei ficar bem, tentei ignorar, mas não dá! Não dá mais! Eu cansei!" - Tossiu, engasgou com o grito, soando dolorido, estridente, metálico. -
"Eu cansei de fingir! De aguentar! De me controlar! Eu não consigo tomar café, eu não consigo dormir, eu não consigo mais me manter normal!" - Gargalhou. Aumentando a intensidade, o volume até ser psicótico, completamente psicótico. Misturado a um choro de dentro de seu âmago. Foi o suficiente para estraçalhar o coração, o espírito do híbrido de aranha. - "Eu só quero fazer eles sofrerem! Sofrerem o que eu sofri . O que nós sofremos . Sangrarem o suficiente pra manchar toda essa ilha. Eu quero nadar na dor deles, beber seu sangue até não sobrar nada . E depois queimar. Queimar como nunca . Queimar ao pó cada mísero grão de existência dessa porra desse inferno." - Tentava recuperar seu ar, tentava continuar. Parecia estar se desfazendo tão rápido sem chances de voltar.
Ele não precisava voltar.
- "Eu sei como você está. Eu vi. Eu estou perdendo você também, guapito. Eu não consigo fazer nada pra ajudar." - Nessa o mais novo segurou o ar, sentindo seus pulmões falharem e mais lágrimas descerem por seu rosto, esse molhado a tanto tempo que nem lembrava quando começou. - "Eles também tiraram tudo de você. Eles também machucaram você. E eu vou fazer eles pagarem por cada dor que te causaram. Vou fazer eles se arrependerem de ferirem você. Eu prometo." - Ele o apertou mais, sendo retribuído mais ainda. Como se pudessem se moldar em um só.
Quando que teve isso? Alguém disposto a batalhar pela sua felicidade, a batalhar por sua dor. Disposto a destruir tudo que lhe causou mal, que lhe causava mal, só para trazer justiça. Só para se vingar no seu nome. Era uma promessa. Algo mais profundo do que só palavras jogadas ao vento, essas tinham peso, pois sempre foram verdade. Ele sempre fazia o que prometia, fazia o que pregava. Haviam casado e se prometido amor eterno, na felicidade e na tristeza, na saúde e na doença. Na sanidade e na loucura . Seu amor era gigante, era eterno. Quebrava barreiras do considerado comum. Do considerado normal. Eles não eram normais. Seus "te amos" não eram vazios. Seu apoio, seus carinhos, tudo era real. Como conseguiu alguém tão incrível assim? Alguém tão como ele?
Eram almas gêmeas.
- "Eu não posso perder você também, guapito…" - Suspirou pesado, falava mais leve, mais derrotado. - "Mas eu preciso fazer com que a Federação pague. Com ou sem você." - Ficou em silêncio por um tempo. - "Eu realmente gostaria se fosse com você."
- "Está bien.⁴" - Não hesitou nem um segundo em dizer.
- "Hm?"
-"Si quieres destruir la Federación. Si quieres matar, queimar tudo, ok. Yo estoy contigo.⁵" - Beijou sua cabeça, úmida por suas lágrimas. - "Lo apoyo, 100%. Se quieres matar, mate. Si quieres que yo mate, mataré.⁶"
Se afastou o suficiente para poder segurar o rosto do outro, para encarar seus belos olhos azuis heterocromáticos. Encarou-o com seus dois pares de olhos, ligando profundamente suas almas, mostrando sua seriedade.
- "Yo mataré contigo. Estaré contigo. Mataré por ti.⁷" - Encostou suas testas. Sussurrava rouco, sem desviar nenhuma vez o olhar. - "Nosotros contra el mundo, gatinho. Para siempre.⁸"
- "Para sempre, guapito."
Selaram seus lábios num beijo calmo, com gosto de sal. Era uma promessa. Suas promessas não eram vazias. Não eram pequenas, não eram bobas. Se fosse para o mundo queimar, que queimasse. Estariam de mãos dadas vendo o fim do mundo, juntos, como família.
Com os dias passando, com mais e mais mortes e enigmas deixados. Eles deixavam sua mensagem se espalhar. Se tivesse que manipular para pensarem que só seu marido enlouqueceu, estava tudo bem. Não precisavam saber de tudo, não agora. Não teria graça entregar tudo de mão beijada. Também não escondia seu apoio, seu amor. Se quisesse não ver, não era seu problema. Era óbvio, porém sempre ignoravam os frascos inofensivos, como sempre. Era melhor assim. Mais divertido assim.
Estaria lá para ajudar na limpeza, nas escritas. Ouviria as histórias, sentiria a mesma dor e raiva do outro. Estaria ali para servir de apoio todo o caminho. Se fosse para deixar tudo virar pó, tudo bem. Se fosse para nadarem numa piscina de sangue da Federação, não via nada de ruim nisso. Ambos gostavam de vermelho, afinal, estava tudo bem.
Eles iriam pagar. Todos eles iam pagar.
Mal veriam o que lhes atingiu no fim.
