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Natalie só via duas explicações, sonho ou alucinação. Não seria estranho ser a segunda coisa, pode ser que finalmente ela ficou louca de verdade, se rendeu as fantasias mais infantis da sua mente de uma época que ela deveria ter ganhado carinho. Provavelmente ela bebeu demais ou alguma coisa nesse sentido, mas mesmo assim ela ainda conseguia sentir o toque gelado das lajotas do banheiro, ela nem sabia como tinha parado ali, ou a quem aquele banheiro pertencia. Apesar do chão não ser nada reconfortante Natalie não conseguiu mexer um musculo sequer, os braços formigavam e suas pálpebras foram ficando mais pesadas do que elas deveriam ser. Ela não sentia dor alguma mas sabia que se ousasse mexer as pernas seria um desconforto considerável. Assim, a ideia mais lógica para Nat naquele momento era ficar da maneira que estava, e por alguns minutos depois de fechar os olhos e abri-los novamente ela teve certeza que acabou dormindo. Natalie estava tão, mas tão cansada que não havia outra maneira de explicar se não fosse vivendo em seu corpo.
Em algum momento, quando deixou as pálpebras caírem novamente e os cílios encostarem na sua bochecha, Natalie teve certeza que ouviu a voz de Lottie vinda de algum lugar. Ela definitivamente estava dormindo e aquilo era um sonho. Não havia outra explicação para a voz grossa e encorpada, cheia de confiança, estarem ecoando pelos cantos daquela casa e da sua mente. Nat não conseguiu controlar o riso frente a situação patética que os confins do seu inconsciente a proporcionavam. Era obvio que que não havia formas daquela voz existir ao mesmo tempo que Lottie estava do outro lado do mundo.
Natalie não conseguia compreender uma palavra que a Lottie de seus sonhos proferia, a não ser que fosse seu nome. Era música para os ouvidos de Natalie seu nome ser pronunciado por Lottie, uma honra, próximo de uma benção divina. Era puro tom de reconhecimento, de carinho, de amor. Natalie poderia deixar passar todas as palavras do mundo enquanto Lottie falava, menos essa.
Mesmo com as mãos formigando Nat sentia, pelos tremores do chão, passos apurados se aproximando cada vez mais, e apesar da vulnerabilidade ela não sentiu medo algum. Natalie estava tão cansada de viver com medo de tudo, se defendendo até de sua própria sombra que ela já não se importava mais. A voz de Lottie, que antes era distante demais, subitamente se corporificou de uma forma impossível de ignorar e Natalie pode jurar que se aproximava cada vez mais. Se aquele sonho realmente trouxesse Lottie para perto dela novamente seria simplesmente o melhor sonho de seus dezenove anos de vida.
Se era impossível confundir a voz de Lottie, confundir seu toque seria irreal. Dois joelhos entraram na sua linha de visão ao mesmo tempo que o toque quente em seu pulso. Quantos deuses ela teria que agradecer por essa ilusão Nat não sabia, mas tinha certeza que rezaria para todos eles se necessário.
Sentindo o contraste do gelado do chão com o novo quente em sua pele, ela não conseguiu impedir de fechar os olhos e simplesmente degustar da sensação. Os braços de Charlotte a cobriam por completo enquanto Nat sentia a pele de seu rosto encostar nas roupas da outra menina, e ali ela teve certeza que ela estava simplesmente no colo do seu amor. Era inacreditável, mas Natalie se recusou a se distrair com essas inquietações sobre a realidade porque elas eram de uma importância ínfima comparado ao que Lottie a fazia sentir. Muito antes delas conhecerem a harmonia que era estarem juntas, Natalie e Charlotte lutavam como dois cachorros selvagens, era uma dinâmica sanguinária por vezes. Apesar disso, Natalie deixou de se importar com isso há um tempo. Todas as batalhas tinham levado elas ao que eram agora, e isso sim era o que importava de verdade. Natalie latia demais e atacava bem menos e, apesar de colocar medo em muita gente, não existia muita confiança nos sons que fazia, o que era completamente o oposto de Lottie. A outra menina era contida, mas era feroz na forma que tinha certeza no que falava, era certeira no que sabia e quando mordia Natalie de volta o fazia com uma postura implacável.
Natalie sabia que Lottie gostava daquela dinâmica estranha de atração e disputa. Sabia que Lottie gostava quando era mordida, e sorria de canto para deixar isso muito claro. Provavelmente a entretinha de alguma forma. Nat deveria odiar ainda mais a garota por isso, mas, para a infelicidade do seu orgulho, tudo naquela dinâmica só ficava cada vez mais tentadora de se manter.
Quando Lottie finalmente deu a mordida final, cravando os caninos na jugular, tudo que gritava dentro da cabeça de Natalie se extinguiu e deu lugar a um silêncio pacifico que a garota nunca havia experimentado antes. Ao contrário do esperado, o sangue de Natalie saindo de seu corpo, pingando dos caninos de Lottie em direção a sua garganta, não trouxeram nem uma ínfima dor ou sofrimento. Natalie não ligava para o sangue na neve ou nos pelos, e ligava muito menos por sentir como se Lottie estivesse devorando seu coração. O fato da outra menina agora conhecer o gosto de seu sangue, saber sobre cada glóbulo vermelho de seu corpo e entender cada canto da sua mente perturbada, eram a coisa mais reconfortante que já havia sentido. Então isso era sentir carinho? Essa era a sensação de se sentir amada?
Muito provavelmente aquele era um elixir que Natalie não deveria ter provado.
Lágrimas de alegria começaram a nascer nos olhos de Nat, deixando um rastro em seu rosto antes de serem absorvidas pela roupa de Lottie. Natalie queria tanto se fundir ao ser que Charlotte é, virar uma só no colo da outra garota e poder viver a paz que Lottie a dava de forma tão altruísta. Eram sensações demais para Natalie controlar, soluçando na busca de ar tentando focando nos cochichos de Lottie em seu ouvido. Era o pedido de silencio mais amoroso que Natalie já teve o prazer de ouvir seguido de uma certeza, a de que ficaria tudo bem. Nat pensou que depois da quarta repetição a outra garota já deveria estar cansada, entretanto, nunca houve desalento enquanto Lottie quebrava o silencio ao mesmo tempo que limpava o sangue de seus dedos e que já se acumulavam na sua cutícula.
Natalie acreditou em cada palavra naquele momento, como um mortal que recebe um sonho divino. Lottie nunca errava.
