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“Para começo de conversa, eu disse que não acho isso uma boa ideia”, Kenma diz se jogando em sua cama, a voz ficando abafada por conta da pressão no travesseiro, o que dava mais ênfase naquele seu habitual tom monótono. “Talvez seja bom ficar assim, apenas a admiração unilateral.” Ele virou seu rosto para Hinata. Talvez, se fosse alguma outra pessoa e não Kuroo, Hinata deixaria para lá e seguiria normalmente, só que havia um entretanto: essa possibilidade deixava de ser uma desde que Kenma já tinha dado todas as evidências de que era provável que o sentimento era mútuo.
Kenma já tinha dito com todas as letras que estaria disposto a entrar em um relacionamento com Kuroo, caso ele sentisse o mesmo. Tudo que ele estava falando agora era fruto do medo de perder alguma coisa, se ele tivesse entendido as coisas erradas.
“Para começo de conversa,” Shouyou o imita com o mesmo tom de voz, fazendo-o soltar um muxoxo escondendo o rosto no travesseiro novamente. “Nós combinamos que eu vou observar vocês…”
“É estranho quando você coloca assim.”
“E confirmar ou não se isso é só a sua cabeça ou tem alguma coisa acontecendo de verdade”, ele concluiu, unindo as mãos com uma palma audível que fez com que um silêncio surgisse. Kenma o encarou com as sobrancelhas arqueadas e Hinata devolveu isso com um grande sorriso mostrando os dentes. “Não tem como dar errado.”
“Isso vai dar totalmente errado.”
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O primeiro ano de Hinata Shouyou na Karasuno foi um grande marco em sua vida. Era a primeira vez que tinha um time para chamar de seu. Eles conseguiram ir para as nacionais — mesmo que não tivessem ganhado, ele ainda tinha muito tempo para conquistar isso — e, uma das partes mais importantes, fez amigos que com certeza levaria para o resto de sua vida.
Hinata era muito grato por isso, as coisas tinham melhorado tanto naquele ano.
Era por isso que ele sempre estava tentando auxiliar nas coisas que conseguia, um pequeno favor ali, uma ajudinha aqui. Hinata nunca explicava o porquê de ser tão prestativo, as pessoas simplesmente ligavam isso ao fato dele ser naturalmente extrovertido e conversador e Hinata não queria explicar que não era só por isso, tudo bem as pessoas não saberem de tudo.
Talvez tudo tenha começado com Yachi no início do ano, quando ela percebeu que nunca teria coragem de falar com Kiyoko sobre o crush que tinha nela, ainda mais quando Tanaka já parecia estar interessado nela há tanto tempo. Então, quando ela comentou com Hinata sobre uma menina bonita do segundo ano, o garoto tomou a tarefa de ajudá-la a conseguir o número da menina como sua principal prioridade.
Fazer planos sobre como Yachi poderia abordá-la durou a semana inteira, mas foi uma grande satisfação quando descobriu que elas iriam para um encontro naquele mesmo fim de semana.
Então depois, quando Yamaguchi deixou escapar sobre seu interesse em Tsukishima durante uma conversa. Ajudá-lo demandou um tempo, mas Yamaguchi era centrado o suficiente para continuar depois de um pequeno empurrão.
Quando duas de suas estratégias funcionaram bem daquele jeito, ele passou a procurar os outros com mais frequência, tentando ajudar em relacionamentos ou coisas assim. Afinal, Hinata tinha um olho afiado quando se tratava de interpretar outras pessoas, para compensar o que ele não conseguia fazer na sua própria vida, ele pensava.
Com Kenma não foi diferente, mesmo que eles estivessem a quilômetros de distância, as conversas pelo telefone fluíam tão naturalmente como se estivessem de frente um para o outro; ele gostava de pensar que tinha uma amizade bem estabelecida com ele. No momento em que Kenma tinha confessado que sentia algo a mais por Kuroo, foi o momento perfeito para ajudar seu amigo, mesmo que aquela confissão viesse seguido de uma explicação sobre o aspecto assexual que Kenma se enquadra.
De qualquer forma, ele explicou o suficiente para Hinata entender que, se alguma coisa viesse a acontecer, o relacionamento deles seria diferente em algumas partes em comparação aos outros — Não que Hinata pudesse opinar nesse quesito, quem tinha que fazer isso era Kuroo e ele com certeza não veria problema nisso.
O real problema é que ele tinha um certo impasse maior quando se comparava Kenma a outras pessoas que ele ajudou.
“Aqui, finja que eu sou o Kuroo.”
Kenma girou a cabeça em um ângulo estranho da onde estava parado, apenas para olhar Hinata com total descrença e revirar os olhos, voltando para o celular.
“Eu não vou fazer isso.” Sua voz era monótona, não tinha raiva nem nenhum outro sentimento por trás daquilo, era apenas sem nenhuma emoção, como se ele nem tivesse considerado o pedido de um momento atrás.
“Mas Kenma!” Shouyou movimentou os braços exasperadamente. “Como você vai fazer funcionar se nem tentar?”
Somente com essa frase que ele conseguiu uma reação genuína de Kenma, ele preferia não ter falado nada.
O loiro virou para ele, a carranca em seu rosto certamente seria cômica se não tivesse sido direcionada para Hinata. Ele suspirou, como se estivesse muito cansado de tudo aquilo e Hinata sentiu o peso da culpa cair em seus ombros. “Eu já te expliquei: eu só vou dar uma explicação curta, nada muito elaborado. Não quero que ele se sinta mal caso a resposta seja não, até porque eu não vou.”
Um segundo se passa. Shouyou desvia o olhar colocando os ombros para trás e se encosta totalmente na cadeira de Kenma. Talvez tenha sido uma ideia ruim ele ter vindo aqui, ele tinha esquecido o quão calmo Kenma era em algumas situações, com certeza não combinava com a personalidade explosiva e falatória que era a dele.
Hinata não gostava nem um pouco daquela sensação que ficou presa em sua garganta em resposta a estar agindo de maneira tão insuportável com Kenma. “Desculpe…”, ele murmurou, colocando a mão no pescoço. “Eu só fiquei um pouco animado com tudo. Vou parar com isso.” Isso pareceu tirar um pouco a tensão nos ombros de Kenma.
Quando se trata de Kozume, Hinata sabe que é um livro aberto, então ele notou o quão chateado o ruivo estava. Kenma expirou audivelmente e recomeçou a falar: “Isso não significa que você tenha que parar de pensar em tudo.” Ele deu de ombros, foi a vez dele desviar o olhar quando Hinata voltou o seu olhar para ele esperançoso. “É só… deixe essa parte comigo, tudo bem? Você pode me ajudar de outra forma.”
Hinata não sabia de que maneira ia ajudar sendo que a única forma que ele fazia isso anteriormente era falando dos sentimentos dos outros, agora com um bloqueio tão grande seria difícil tentar fazer uma coisa. Mas Hinata gostava de desafios, e ele foi liberado para ajudar com qualquer outra coisa.
Ele tinha percebido que aquele ‘acordo’ só existia porque Kenma não queria deixá-lo mal. Uma pontada em seu peito doía quando teve essa percepção. Aquela era a forma de Hinata ajudar, ele não sabia fazer de outra maneira.
“Obrigado”, ele disse, por fim. “Eu vou tentar maneirar na minha animação e ajudar só no que você precisa de ajuda.”
Eles voltaram para o silêncio anterior que estava no quarto, cada um fazendo suas coisas.
Hinata não notou o olhar que Kenma lhe mandou, muito menos pôde notar seu significado.
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A verdade que todos sabiam era que Hinata podia fazer amizade com uma pedra se ela pudesse falar.
Foi por isso que sua amizade com Kenma funcionou tão bem, ele conseguia surgir com vários assuntos e nunca deixava a conversa morrer logo naquele início estranho.
Fato é que Kenma tinha se tornado uma pessoa muito importante para Shouyou, tanto que não se imaginava conversando as mesmas coisas que conversavam se não com ele. Até os fatos mais levianos viravam tópicos e Kenma sempre tirava um tempo em sua semana para ensinar Hinata a jogar algum jogo online — as chamadas demoravam o suficiente para ele ter problemas em acordar no horário no dia seguinte.
As coisas foram um pouco diferentes com Kuroo.
Com Kenma, elas foram rápidas, o primeiro encontro deles naquela vez em que Hinata tinha se perdido já trouxera os números trocados. Com Kuroo, ele só conseguiu fazer isso depois do acampamento de treinamento.
Ele era muito diferente de Kenma, mesmo que trouxesse um sentimento parecido quando Hinata parava para pensar, deve ser por isso que ambos eram tão amigos. De qualquer forma, eles não conversavam tanto quando Hinata conversava com Kenma por mensagem, mas ele tinha seu diferencial.
Kuroo tinha o costume de fazer vídeo chamada sempre que cozinhava, algo sobre ele conseguir fazer as coisas melhor quando estava conversando. Hinata sempre aceitava de bom grado quando isso acontecia, foi isso que os aproximou.
Era por isso que Shouyou tinha certeza que Tetsurou era o par perfeito para Kenma. Sem dúvida nenhuma.
Foi apenas para ele tirar a conclusão com os próprios olhos — e dar um pouco de certeza para Kenma — que ele planejou aquela ida ao cinema antes de Kenma confessar qualquer coisa.
“Olha se não é o camisa dez do Karasuno.” É a primeira coisa que Kuroo fala quando o vê, e Hinata vira rapidamente para onde ele vem chegando, acenando tão freneticamente que sua mão estala com a velocidade.
“Kuroo! O formando do ano!” Ele devolve da mesma forma. Kenma balança a cabeça em reconhecimento quando Tetsurou direciona o sorriso para lhe comprimentar.
“Não me lembre que eu me formei.” A dramaticidade pisca em seus olhos quando eles voltam para Hinata. “A ansiedade das notas dos vestibulares está me matando.”
Kenma bufa de maneira divertida, não sendo a primeira vez que viu aquilo. “Oh, formado”, ele brinca, zombando com a cara de Kuroo. “Vamos comprar nossos ingressos antes que acabe.”
Os três olham para a enorme fila se formando para comprar os ingressos. Aquele filme aleatório de terror psicológico valia aquilo? Não, nem um pouco, mas esse não era o motivo pelo qual ele estava aqui hoje.
“Acho melhor nós nos dividirmos.” Hinata conclui antes que eles avancem para a fila. “Alguém na pipoca e outra pessoa comprando os ingressos.”
Essa era uma oportunidade para deixar Kenma e Kuroo sozinhos, não que algo fosse acontecer agora, mas era bom para Shouyou observar a interação deles de longe. Seria a situação perfeita.
Não era mais, pois aparentemente Kenma não tinha percebido os seus planos. “Eu fico aqui comprando os ingressos.”
“Tudo bem.” Tetsurou concordou enquanto colocava as mãos nos ombros de Hinata, não deixando outra opção. “Hinata vem comigo para ajudar a carregar as coisas.”
Não! Ele gritou internamente, todavia ele não conseguiu agir rápido o suficiente com uma desculpa antes que fosse arrastado para uma fila da pipoca que estava igualmente grande à dos ingressos.
“Que merda”, Kuroo reclamou, vendo as voltas que a fila dava. “Pelo menos a gente chegou cedo.”
Disso ele tinha razão, Hinata teria tempo o suficiente para analisar os dois, era apenas o começo do passeio, ele podia se concentrar em conversar sobre alguma coisa com Kuroo agora que estavam há tanto tempo sem se ver pessoalmente.
Ele colocou o habitual sorriso no rosto e se dirigiu para Tetsurou. “Não acho que vá demorar muito também, eles costumam ser bem rápidos nos atendimentos.”
Kuroo juntou as mãos em uma prece olhando para os céus, uma brincadeira com um quê de verdade. Com o rosto virado para Hinata novamente, ele admitiu. “Na verdade, eu estou bem feliz que você veio passar as férias aqui, mas foi um pouco aleatório. O que te fez vir pra cá?”
Com a resposta na ponta da língua por que ele sabia que alguém ia perguntar sobre isso, ele respondeu dando de ombros: “Eu e Kenma já estávamos conversando faz um tempo, e eu também queria conhecer muito Tóquio.” Hinata faz uma pausa, falando com toda a sinceridade dessa vez. “Sem falar que é uma forma de passar o tempo com vocês aqui, já que a gente dificilmente se encontra.”
Um sorriso provocante logo se faz presente nos lábios de Kuroo. “Oh, você é um fofo.” Seu tom era brincalhão, feito apenas para provocar, mas ele ainda se deixou afetar sem querer, pintando suas bochechas de vermelho.
“Ei! Idiota.”
Kuroo ri colocando a mão na boca. Aproximando e encostando o corpo em Hinata, ele apoia o braço em sua cabeça, causando apenas mais consternação vinda do mais baixo. “Mas sério, que bom que você veio, a gente pode até marcar de jogar vôlei com o resto do time de Nekoma.”
Hinata se anima com qualquer possibilidade de vôlei, esquecendo completamente sobre qualquer outro assunto anterior ou que o braço, anteriormente em sua cabeça, foi fixar-se em seus ombros e continuou lá até que chegasse sua vez na fila.
Eles eventualmente se encontraram com Kenma e se juntaram para ir até a sala de cinema. As suas suspeitas só se concretizaram quando olhou um pouco para o lado na metade do filme, e conseguiu ver Kuroo despojado em sua cadeira com a cabeça totalmente deitada no ombro de Kenma. Ele sorriu largo e com o coração pesado pelos dois, esse era o seu casal.
Kuroo não estava mais lá para ver o olhar que Hinata direcionou para Kenma e nem para ouvir qualquer justificativa para o rosto corado do loiro.
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Hinata, como já dito anteriormente, era a primeira pessoa que colocava seus próprios sentimentos de lado. Às vezes por não saber como lidar com eles, outras por não saber o que ele estava sentindo de verdade com tudo aquilo. Era por isso que ele gostava apenas de ser a audiência do que quer que estivesse fazendo, mexer uns pauzinhos aqui e ali para facilitar as coisas.
Era por isso também que, quando surgia alguma imprevisibilidade com o que seu coração estava sentindo, ele compensava sendo dez vezes mais animado e se jogando em alguma coisa para fazer esquecer. Geralmente era vôlei, dessa vez era Kenma e Kuroo.
Então, quando ele acordou naquela manhã de segunda-feira com um grande aperto no peito e um bolo preso na garganta, ele fez o máximo possível para focar sua atenção em Kenma, para que tudo desse certo em sua confissão.
(Ele ainda não conseguia enxergar o porquê dessa ação fazer aquele sentimento se agravar assustadoramente.)
Ele passou a manhã toda repassando lentamente em sua própria cabeça o que iria acontecer, todo o trabalho duro que tinha feito para ajudar estava sendo colocado em prova no dia de hoje, ele não sabia como as coisas podiam ser a partir dali, nem se Kenma iria reagir tão indiferente, como ele estava falando, com isso acabando de maneira ruim. Se a situação fosse tão extrema assim, tudo que ele tinha que fazer era ser a base de apoio para seu amigo.
O dia passou rápido, tão rápido na espiral de ansiedade que Hinata nem sabia que estava. Quando faltava meia hora para o horário marcado, ele entrou no quarto e viu Kenma deitado na cama, olhando para o teto.
Entrando totalmente no quarto, ele fechou a porta. “Ei…” A lentidão que a palavra foi dita não impediu que Kenma se assustasse com elas. “Você sabe que não precisa ficar nervoso com tudo isso, nós já conversamos antes.”
“Estou com uma sensação estranha no fundo da garganta, acordei assim.”
Shouyou encarou ele por um, dois segundos. Valia a pena comentar que tinha acordado da mesma forma? Com um misto tão grande no peito que fazia até sua barriga se comportar de um jeito estranho? Não, aquilo não era nada.
“Você está com ansiedade, é normal, vocês são amigos de infância.” Outra coisa se fez presente quando ele disse isso, não foi a emoção calorosa e receptiva que quase fazia gostar dela; não, era uma estranha que o fazia ficar com os ombros tensos.
“Já está quase na hora.” Ele engoliu em seco, mudando o foco dos olhos para encarar qualquer coisa, como se aqueles olhos âmbar fossem cavar seus segredos apenas com uma curta espiada.
“Eu sei é só que…”
“Eu posso te dar um abraço?”, Shouyou sussurra, surpreendendo até ele mesmo com seu pedido tão repentino, mas que quando ele parou para pensar fez sentido. “Quando a minha irmã se sente perdida ou com medo de alguma coisa ela sempre me pede um abraço, é bobo, mas talvez você se sinta melhor.”
A distância é fechada em menos de 3 segundos, com Kenma atravessando todo o quarto apenas para se aninhar nos braços estendidos de Shouyou. Ele era mais alto, talvez sua coluna doesse para esconder o rosto da forma em que estava escondendo no pescoço de Shouyou, todavia nenhum tipo de reclamação foi dita, tudo que conseguia ouvir era a desregular respiração que Kenma deixava abaixo de seu ouvido.
E então Shouyou se sentiu estranhamente aquecido, aquela pontada em seu coração pareceu se alastrar, mas não doía, era uma sensação eclética; ao mesmo tempo em que parecia que seu coração fosse sair pela boca a qualquer momento, era calmoso, como uma brisa que o fazia nunca sair daquela posição.
Sentimentos eram… tão estranhos.
Talvez tenha sido um erro passar a vida toda deixando que os sentimentos prevalecessem sobre os seus, talvez assim ele conseguisse entender o que tinha de errado consigo.
Também tinha aquela sensação de que estava faltando algo, como se tudo estivesse quase lá, mas ainda não era a perfeição.
“Eu nem sei mais do que eu estou com tanto medo assim”, Kenma disse, tirando-o da espiral e lembrando-o o porquê daquilo ter acontecido em primeiro lugar. “Eu já sei como vou falar, ele nem precisa realmente gostar de mim de volta, eu só não quero perder uma amizade assim.”
“Kenma”, Shouyou entoou, decidido e forte, segurando seus ombros enquanto o afastava levemente para olhar dentro dos seus olhos. Quando enfim os castanhos encontraram o âmbar, um pouco da respiração de Shouyou ficou engatada nos pulmões. “Kuroo não vai fazer nada de ruim, mesmo que não seja recíproco, tenho certeza que ele entenderá.” A seguinte frase vem fácil, nem passou pelo filtro da sua cabeça antes que ela fosse totalmente pronunciada. “Se fosse comigo, as coisas com certeza não mudariam, ainda que eu…”
Shouyou eletrificou-se, a frase incompleta deixada no ar que nem ele mesmo sabia o que era o ainda que.
Ainda que…? A resposta estava bem na sua frente, tinha certeza disso, por que diabos ele era tão alheio?
As mãos de Shouyou continuavam nos ombros de Kenma, paradas bem onde ele tinha deixado. Kozume pareceu também ter noção disso agora, as mão em sua cintura, impedindo-o de se movimentar, em um movimento pessoal e caloroso. Hinata tinha certeza que mesmo Kenma não tendo-o segurado, ele conseguiria fazer qualquer coisa além de observar hipnotizado os olhos encarando fixamente os seus.
“Ainda que…?” A mão da cintura subiu ligeiramente, em um aperto calculado o suficiente para lhe causar arrepios que iam da base da coluna até o pescoço. “Shouyou, eu acho que…”
O que quer que ele achasse foi impedido de falar graças ao toque retumbante do celular de Shouyou, bem mais alto do que aquelas palavras sussurradas que estavam trocando antes, fazendo cada um pular para o lado em seu próprio desespero.
Shouyou virou de costas, perturbado o suficiente para não saber que tipo de expressão tinha no rosto e não queria que Kenma adivinhasse para ele. Tirando o celular do bolso, ele checou por mais segundos do que o necessário, apenas para acalmar-se do que tinha acabado de acontecer, mesmo que nem sequer ele próprio tenha entendido.
“É Kuroo. Ele já deve estar a caminho.” O silêncio é quebrado pela voz baixa de Hinata. “Não vou atender para ele não suspeitar quando você aparecer sozinho.”
“Você tem certeza disso?” A maneira incerta de Kenma falar quase o fez ficar com dúvidas. Quase.
“Sim, tenho.” Não, ele não tinha. “Eu vou então, você pode me mandar mensagem caso aconteça alguma coisa.”
Kenma se mexe de um lado para o outro, nervoso. Nem ele próprio tem certeza se é pelo o que aconteceu antes ou para o que ainda ia acontecer. “Sou eu quem deveria estar falando isso.” Kenma sorriu, pequeno, mas bonito.
Ele saiu pela porta com apenas mais um acenar de cabeça, deixando apenas Shouyou sozinho naquele quarto.
Na verdade, com as batidas errantes de seu coração e pupilas dilatadas, foi que ele percebeu o fato que estava tão bem escondido que o fizera demorar tanto assim para notar: aquelas vezes em que ficava corado falando com Kenma ou quando Kuroo o tocava sem aviso prévio, não era por qualquer motivo bobo que tinha inventado na época, ele estava apaixonado; tão apaixonado quanto Kenma estava por Kuroo e vice versa; tão apaixonado que fazia sua mão suar enquanto sentia que o seu coração podia pular pela boca.
A percepção tardia o fez ficar tonto, lutando contra a forte batida em seu peito enquanto tentava organizar, em vão, seus pensamentos que corriam cada vez mais rápido.
Não, não poderia ser verdade. Poderia?
Ele nem pensou duas vezes antes de sair correndo pela porta. Era cedo o suficiente para alcançar Kenma.
“... não está se sentindo bem.” A porta se abre com um rangido, fazendo a voz de Kenma terminar. Shouyou corre até o fim do corredor e se surpreende com o que vê.
Kuroo estava parado no batente da entrada principal, sua roupa combinava perfeitamente com a ocasião marcada sendo um restaurante famoso de Tóquio. Não era para ele estar aqui, eles marcaram de se encontrar no restaurante.
Shouyou corou agora com a nova percepção de seus sentimentos e sendo observado pelas duas pessoas que gostava. Sem contar que seu plano não tinha um roteiro além de ‘ir atrás de Kenma’.
Ele travou enquanto era observado pelos dois, nenhum deles tinha entendido bem o que aconteceu nesses poucos segundos.
Hinata respirou fundo, ele sabia como fazer isso depois de orientar tantas pessoas com seus próprios sentimentos. Ele olhou para Kenma, com as sobrancelhas franzidas em um claro pedido de desculpas antes de pegar toda sua coragem e falar rapidamente:
“Eu gosto de vocês dois!”
O choque correu pelos dois rostos, em um nível bem similar mesmo com ações diferentes. Kenma ergueu as sobrancelhas, olhando pelo canto dos olhos para Kuroo ao seu lado, este, por sua vez, levou as mãos para tapar a boca que tinha aberto de surpresa.
Hinata gaguejou com a falta de palavras dos dois: “Eu não sabia! Acabei de perceber isso.” A sinceridade é transparente em sua voz. Seus filtros acabaram, ele começou a explicar com nervosismo. “Eu tinha planejado com Kenma sobre ele se confessar para você, Kuroo.” Ele começa, engolindo em seco quando Kuroo troca olhares cada vez mais perplexo com o que estava ouvindo. “Mas então ficar esses dias com vocês me fez perceber que eu realmente gosto de vocês. Romanticamente!” Nenhuma dúvida poderia ser deixada com isso, não havia como ele ser mal interpretado. “Me desculpa muito. Kenma! Eu não quis roubar sua confissão, eu só-”
“Espere aí…” Kuroo o interrompe antes que ele possa continuar o monólogo, olhos arregalados de surpresa. “Você tá me dizendo que você — ele aponta para Kenma e em seguida aponta para Hinata — e você, gostam de mim?”
A voz sumiu da garganta de Shouyou, não tinha sido uma boa ideia ter saído daquele quarto sem nenhum plano.
“Eu digo por mim”, Kenma fala pela primeira vez depois de toda revelação. “Eu estava planejando contar que eu gosto de você no fim do dia, se tudo corresse bem.” Sua voz chega ao fim, mas a expressão no seu rosto diz que ele não terminou de falar. “E você… Eu… Hmm…”
A hesitação de Kenma fez o coração de Hinata parar, mas ele se força a dizer do mesmo jeito: “Não tem problema se você não-”
“Eu não planejei nada para falar”, Kenma fala, elevando sua voz acima da dele, forçando-o a parar. “Mas os dias recentes me fizeram perceber que eu não gosto de você só como amigo. Eu gosto de você, romanticamente falando.” Ele imita a tão patética declaração que Hinata fez com a mesma frase. A expressão sorrir com os olhos nunca fez tanto sentido quando Hinata olhou para Kenma.
“Eu não acredito”, Kuro fala estupidamente depois de um segundo, ainda com apenas aquela reação sem saber como organizar as frases na espiral de emoção que aquilo havia se tornado.
Kenma toma a frente mais uma vez. “Kuroo, eu ia te explicar isso quando me confessasse.” Ele envia um olhar com o canto dos olhos para Hinata que acena em concordância. “Se você não se sentir assim, eu não quero que a nossa amizade mude. Está tudo bem não ser recíproco.”
“Sim, sim!”, Shouyou concorda, ainda acenando com a cabeça. “Comigo também, desde que não mude a nossa amizade.”
Tetsurou fica calado por mais um momento, levando uma mão ao bolso e tirando uma pequena caixa de lá. “Eu não acredito porque eu ia chamar vocês dois para namorar comigo hoje.” Ele abre a caixa, mostrando três pulseiras douradas e é a vez de Hinata cobrir a boca com as mãos. “Era um presente mais simbólico, mas agora eu acho que deveria ter comprado os anéis.”
Kenma solta um palavrão antes de se interromper. “Eu não acredito que isso aconteceu, na verdade, está acontecendo.”
“Shouyou, Kenma, vocês querem namorar comigo?”
Hinata pula em um abraço em Tetsurou antes de responder: “Sim! Com certeza sim!”
Shouyou sente dois braços em volta de si, um claramente de Kuroo e outro que reconhecia do abraço minutos atrás. “Claro que sim”, Kenma sussurra, abafado.
Eles demoram um momento no abraço e outro quando Kuroo faz questão de colocar as pulseiras em cada um, ela eram simples, mas as pedras nas cores marrom, âmbar e avelã deixavam-nas inexplicavelmente bonitas.
“Acabei de perceber que meu namorado ia me dar bolo no nosso primeiro encontro”, Kuroo disse, colocando a mão no rosto, certamente para impedir aquele sorriso idiota de se formar, enquanto fazia uma expressão de choque tão inacreditavelmente falsa.
Kenma, para a surpresa de ambos, também colocou a mão no rosto, impedindo a própria risada soar alta.
O rosto de Shouyou ficou tão vermelho que rivalizava com o tom de seus cabelos. “Ei, seu idiota, o plano era você terminar o dia com um só namorado, não dois.”
Tetsurou abaixou a mão que ainda tapava o rosto e com um movimento tão ágil quanto pôde, enlaçou cada braço em um namorado, apertando os três em outro abraço esmagador. “Eu estou tão feliz que esse plano foi duplicado.”
“Eu estou só pensando o quão idiota nós fomos por ter demorado tanto para perceber, essa ansiedade toda poderia ter sido evitada”, Kenma disse, franzindo a testa, mas logo um sorriso marcou seu rosto.
Hinata sentiu uma mão com uma tímida carícia na base de seu cabelo. Foi realmente idiota. De qualquer forma, tudo terminou bem no final, então estava tudo bem.
Shouyou não sabia como faria, mas tinha certeza de que não desistiria fácil assim desses dois.
“Kageyama vai ficar com tanta raiva quando souber que eu comecei a namorar, não uma, mas duas pessoas antes dele.” A risada que os dois deram foi o suficiente para saber que não era o único que daria tudo de si.
Ele sempre teria Kenma e Kuroo ao seu lado.
