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Como todos dizem, o domingo é o famoso dia da ressaca, o dia de ficar em casa assistindo o programa do Fantástico já pensando em uma semana, o horror devassante vai ser e desejando logo a sexta-feira.
O motorista de um Sprinter branco também imaginava que seria mais uma noite de domingo comum, depois de tomar um banho, ficava sentado de uma maneira totalmente desleixada no sofá da casa de sua avó enquanto assistia mais uma matéria sobre os pinguins reis e a foca de crista .
O sono vinha consumindo nosso motorista aos poucos, fechando os olhos e se ajeitando melhor no sofá, talvez dormiria por ali mesmo até o dia seguinte.
De repente foi ouvida uma melodia famosa de “Proibida Pra Mim” do grupo Charlie Brown Jr vinda do celular de Julinho, sabia que era seu toque de chamadas telefônicas. Despertou-se já procurando o aparelho no meio das almofadas cafonas do sofá. Logo que pegou o celular fornecido o contato de quem ligou, trouxe um questionamento.
“Palestrinha” é como salvou o número de Maurílio dos Anjos, seu companheiro de programa no Choque de Cultura. Nesse momento se destacou no celular do motorista, que pensou em ignorar.
Mas ao invés de ter uma briga mental sobre si mesmo do qual motivo de Maurílio estar ligando em um domingo às 23:40, atender o telefone mesmo sem vontade.
— Chora, Palestrinha.
— Julinho… — a voz de Maurílio parece estranha, não pelo motivo de estar em ligação, e sim parecia que tinha acontecido algo, falava lento e embolado — Você atendeu.
— Sim, que voz é essa? — estranhou o comportamento de Maurílio
— Julinho… vem me buscar. — consegui ouvir melhor o som ambiente, o que parecia ser algumas pessoas conversando, uma música de pagode sofrência, alguns barulhos de copos.
— Como assim, dodói? — franziu a testa confusa, tinha uma certeza de que seu amigo estava alterado — Cê' bebeu?
— Alguns copos, mas isso não importa. — a voz muda para um tom mais manhoso, escutava um copo ser colocado na mesa depois de uma pausa de Maurílio — Vem aqui, cara, por favor.
— Onde cê'tá', Maurílio — Julinho começou a se preocupar com seu amigo, não que ele precisasse, ou ligasse, o que era uma tremenda mentira.
Maurílio tinha falado o nome de um bar em Taquara, bairro onde eles moravam, Julinho sabia muito bem onde era aquele bar por conta de suas ondas de Taquara à Castelo.
Mas pensei mais uma vez, porque Maurílio estaria bêbado em um domingo à noite, sabendo que teria responsabilidades no dia seguinte, pensei que realmente iria até o bar ajudar seu amigo bêbado
— Por que cê' não chamou aquele Uber? — Estava de braços cruzados no sofá apoiando o celular com o ombro.
Sabia que Maurílio tinha um outro “amigo” que poderia estar com ele nessa situação
— Não mandei mensagem pra ele — escutava Maurílio respirando fundo — Julinho… — um breve silêncio entre os dois, se não fosse a voz do pagode interrompida.
— O que foi? — Respondeu sem muita vontade
— Eu to' com saudade de você.
Julinho se assusta com a frase vinda do cinéfilo, se sentou no sofá saindo daquela posição confortável agora segurando seu telefone, queria muito mandar o Maurílio para aquele lugar ou mandar ele ir dormir, mas sabia que ele não teria condições nem de conseguir chegar em sua Kombi por inteiro.
O ruivo pensou um pouco, aquela frase veio pra sua cabeça com alguns déjà-vus passados de 2019. Queria muito xingar o moreno ou socar a cara dele depois de falar uma merda dessas.
— Fica aí — Julinho desligou o telefone, ficou sentado no sofá olhando para o chão por breves 5 segundos, mas logo se apelou procurando qualquer camiseta e a chave de sua van.
Depois de cerca de 10 minutos, Julinho estacionou seu Sprinter na esquina do bar, onde não conseguia visualizar por perto uma Kombi branca, estranhou, mas foi até o local.
Ao chegar na porta, era um bar comum, com um pagode na televisão, via que havia poucas pessoas sentadas nas mesas, todas em conjunto de 3 a 4 pessoas, porém apenas um lhe chamava atenção, além de ser alguém conhecido. Maurílio estava sozinho em uma mesa, havia algumas garrafas de cerveja e alguns copinhos de pinga, ainda com um copo de cerveja pela metade em suas mãos.
Quando Julinho foi até a mesa onde Maurílio estava, o moreno abriu um sorriso pro ruivo.
— Você veio! — deixou o copo na mesa já tentando se levantar para ir até ele, conseguiu, mas claro, não com aquela normalidade de alguém sóbrio, sabia que Maurílio tinha tomado uns 8 copos de cerveja observando o local.
O motorista da Sprinter segurou seu amigo que retribuiu com um abraço, estava preocupado como o moreno nessa situação parou, eu precisava levá-lo para a Kombi imediatamente, um trabalho simples, pagar uma bebida, deixá-lo na Kombi e ir pra casa dormir.
— Claro, Dodói, vou deixar cê' nessa situação? — segurou o cinéfilo ao seu lado, deixando o apoiado em seu braço — Vem, paga isso daí e vamo embora.
Maurílio começa a procurar sua carteira em seus bolsos da calça jeans, mas mal conseguiu pegar, o que fez Julinho procurando por si mesmo pegando a carteira e entregando o dinheiro para a moça que estava no balcão, observava na mesa se Maurílio tinha esquecido algo enquanto esperava o troco.
Quando estavam saindo do bar, olharam para os lados procurando a Kombi de Maurílio que não parecia estar por perto.
— Onde cê' estacionou a Kombi? — disse ainda olhando para o horizonte, Já Maurílio não parava de olhar o ruivo, o que o deixa pensativo lembrando da frase dita pelo mesmo no telefone, o que ainda descobriu que era apenas uma bobagem.
— Pro final da rua, eu vim andando. — Maurílio estava com a voz muito mais bêbada do que aparentava no telefone, uma voz embolada.
Julinho respirou fundo, sabia que aquilo estava testando sua paciência, decidiu então levar seu amigo até a Kombi com sua Sprinter, deixando-o sentado ao lado do passageiro.
O ambiente foi consumido por uma trilha sonora baixa de rap vinda de um pendrive conectado, provavelmente com o título de “as melhores do rap nacional de 2015”, mas logo foi cortado por Julinho.
— Oh Dodói, por que cê tá bêbado numa madrugada de um domingo? — Julinho focava na estrada, mas queria entender o motivo de toda essa novela.
— Por nada, cara — o moreno apoia a cabeça em uma de suas mãos enquanto desvia o olhar de Julinho
— Ah mas agora cê' vai me falar, eu não sai do conforto de casa pra cê' me falar que foi nada.
Continuaram em silêncio, Julinho já estava começando a ficar impaciente.
— Responde, Maurílio! — Julinho olhou para Maurílio, o mesmo estava com a cabeça para baixo respirando fundo, Julinho parou a Van de imediato — Cê' tá bem Maurílio? Ta enjoado?
O moreno confirmado com a cabeça, abriu a porta da van tentando sair, Julinho saiu correndo para ajudar Maurílio, talvez pelo motivo de não querer vomito na sua van. Segurou Maurílio até debaixo de uma árvore, e no timing maravilhoso, quando chegou, Maurílio jogou para fora boa parte do que estava dentro de si.
Maurílio permanecia enjoado, porém mais leve, limpou a própria boca com sua camisa e uma ação surpresa abraçou Julinho enterrando seu rosto em seu pescoço e ali respirando fundo, o ruivo sem entender, o abraçou de volta.
— Eu adoro seu cheiro. — o motorista da Kombi pronunciou em palavras emboladas, parecia que o álcool estava colocando tudo pra cabeça no que no peito estava guardado. Julinho nitidamente ficou envergonhado com essa afirmação, ainda lembrando da frase no telefone, talvez Maurílio tivesse algo para falar mas sem coragem.
Algumas buzinas puderam ser escutadas ja que Julinho parou sua van no meio da rua, mas nada que um palavrão não pudesse resolver.
— Vem Maurílio, tamo quase chegando — levou o moreno até a Sprinter já voltando para o motorista — não sei se tem água por aí, acho que no porta luvas — e assim deu partida em procura da Kombi de Maurílio.
Após uns 3 minutos, encontrou a Kombi de Maurílio, que estava estacionada próximo de algumas negociações, era fácil de considerar pela placa e algumas marcas de pedras na mesma, Julinho estacionou seu Sprinter na frente da Kombi.
Julinho ajudou o cinéfilo a sair da Sprinter, procurando as chaves do veículo enfiando a mão em todos os bolsos da calça do moreno até encontrar uma chave cheia de chaveiros estupidos, abriu a Kombi já ligando a luz da mesma. Maurílio estava cansado, foi um alívio ter conseguido achar sua van, que ao mesmo tempo naquele momento era sua casa.
O motorista da Sprinter deixou Maurílio sentado na porta, aproveitando para dar uma olhada no local, tem diversas memórias desse local de 2019 até os dias de hoje, momentos com os outros pilotos e a sós com Maurílio.
Enquanto isso, Maurílio de ajeitava para se sentir mais confortável em sua van, tirando seus sapatos, retirou a calça jeans colocando uma calça de pijama, trocando sua camiseta, Julinho o ajudou a dobrar a calça e a camisa, não ficou com vergonha de ver o moreno se despindo, já lhe viu de outras maneiras, não falamos sobre o carnaval de 2018, onde Julinho nunca mais viu uma de suas camisetas em seu armário.
— Bem, vou indo então, fica em paz. — Julinho já estava quase indo fechar a porta da Kombi, até que escutou Maurílio chamar sua atenção
— Fica aqui, só hoje. — Maurílio se sentou no colchão improvisado que o mesmo montou. O dono da Sprinter virou para Maurílio dando uma risadinha achando aquilo uma piada.
— Maurílio, tá tarde, cê está bêbado, vai dormir, amanhã é outro dia.
— Por favor, só hoje, eu estou bem. — Maurílio estava falando de forma manhosa.
Para Julinho, as peças começaram a se encaixar no que esperava ser a história por trás de todo esse caos de seu amigo bêbado, o que pareceu ser cômico.
— Você brigou com o do Uber, né? Agora faz sentido o motivo de você estar naquele bar bebendo. — O ruivo cruzou os braços olhando para Maurílio, Julinho pode ser idiota, mas às vezes ele tenta pensar.
— O que você está falando, Julinho? Eu não converso mais com o Reinaldo — Maurílio ainda falava de forma lenta, o que cada vez mais irritava Julinho, era realmente uma prova de resistência, quanto tempo você aguenta sem socar a cara de Maurílio dos Anjos.
— Não conversa? Ah vamos lá, vocês devem ter brigado, por isso cê' não mandou mensagem pra ele, daí foi no bar beber e eu ficou bêbado pra satisfazer sua carência e fazer ciúmes para esse tal de Reinaldo comigo, você é realmente patético, Maurílio. — Julinho já estava realmente puto com o moreno, deu uma reviravolta já voltando para sua van
— Porra, Júlio César, me escuta! — Maurílio aumentou o tom de voz, mesmo tonto e cambaleando, saiu da van vendo Julinho se afastar, sabia que o ruivo estava entendendo tudo errado, mas como mudar seu pensamento?
— Eu te amo, seu idiota! — a voz alta de Maurílio ecoa na rua vazia de carros, o que faz Julinho parar e virar para Maurílio — Que inferno, eu odeio te amar, inferno! — Maurílio colocou a mão na cabeça — Eu te liguei porque estava com saudade do que eramos, seu burro, não tem nada haver com a merda do Reinaldo, eu bebi por sua causa!
Julinho anda até Maurílio, que se sentou novamente na van pela tontura do álcool e do esforço, o motorista se sentou ao seu lado.
— Cê'tá com saudade de mim? — o ruivo continuou olhando para Maurílio, que no momento agora estava de cabeça baixa olhando a calçada, mexia no tecido da calça para de acalmar.
— Pode ir embora se quiser, eu sou uma idiota mesmo por gostar de ti. — a voz permanência cansada e evitando olhares à Julinho e demonstrava estar tenso.
Os dois juntos em um silêncio ouvindo apenas o som ambiente, ambos pensativos. Julinho pegou uma caixinha de cigarro junto com o isqueiro, quando abriu a mesma, só tinha um maço, mas era o que tinha para hoje, ascendeu o mesmo já dando uma tragada e oferecendo a Maurílio, o mesmo não recusou.
Maurílio se sentiu muito mais calmo depois de tragar um pouco do cigarro que dividia com Julinho, parecia que o ruivo o entende de vez em quando, esses pequenos detalhes fazem Maurílio cada vez mais gostar do piloto da Sprinter branca, quando entregou o cigarro para Julinho, deitou sua cabeça no ombro do ruivo ficando ali em um silêncio agora reconfortante, Julinho colocou uma de suas mãos na cintura de Maurílio o abraçando de lado.
Depois de várias trocas do cigarro, o mesmo acabou em uma tragada de Maurílio, que logo jogou no asfalto. Maurílio bocejou, estava cansado, tinha noção de que estava próximo da uma da manhã.
— Melhor cê dormir. — Julinho completou, viu o amigo concordando, o ajudou a deitar na cama improvisada, o cobrindo até o peito com um cobertor
— Julinho… — O ruivo fica atento para o cinéfilo que falou um pouco mais baixo — me beija?
O motorista sentou ao lado do cinéfilo, respirou fundo e negou com a cabeça
— Não, você tá bêbado.
Maurílio entende a posição do amigo, ficou um pouco decepcionado, mas faz parte, abaixou a cabeça olhando para algum ponto de sua Kombi esperando o sono o consumir.
Julinho viu a decepção no olhar de Maurílio, descobriu um pouco sobre tudo o que tinha acontecido, Julinho realmente se importou com Maurílio, talvez não saiba demonstrar, mas se preocupa muito com o cinéfilo, o protegendo as vezes, virando até comentário nos episódios de Choque de Cultura.
— Vai pro lado. — Julinho tira o seu sapato deixando no canto da Kombi enquanto Maurílio se afastava um pouco observando o motorista.
Julinho se deita ao lado de Maurílio já o abraçando e fazendo carinho em seus cabelos enquanto sente o cheiro dos fios, breve de álcool mas também de shampoo de bebê. Maurílio, com um sorrisinho, abraça de volta o ruivo, ambos os corpos juntos como se as ações já valessem de tudo para aquele casal ainda preso no passado.
— Boa noite, Maumau — Um sussurro de Julinho pode ser escutado, como se fosse apenas para os dois escutarem, um momento tão íntimo e romântico, voltando para os velhos tempos, finalizando com um beijo na testa de Maurílio, um tempo depois de ambos pegam no sono.
No momento não importava agora as responsabilidades de segunda-feira, todo dia pode ser um dia ideal para um recomeço.
FIM
