Chapter Text
Abel está andando em um momento de reminiscência sem ao menos perceber a chuva que está por vir. Ele continua pensando em um passado que já não existe e em um futuro que pode não acontecer, quando finalmente as primeiras gotas começam a cair e o despertam de suas fantasias efêmeras. Ele olha para o céu com uma expressão surpresa, que logo muda para simples contentamento.
"Eu não esperava que fosse chover...", ele disse consigo mesmo ao lembrar que não havia trago o guarda-chuva.
Ele olha ao redor apressadamente, e avista uma pequena livraria onde poderia esperar a chuva passar. O sino acima da porta toca, mas o som é abafado quase que completamente pela forte chuva que se intensificou. Abel suspira aliviado por ter encontrado um abrigo a tempo, ele caminha até uma das estantes e finge estar procurando algo apenas para passar o tempo.
"Religião......Ficção......Biografia......", ele murmura consigo mesmo, olhando atentamente como se estivesse procurando a verdade através da neblina.
Após muitas fileiras de obras triviais, ele se permite vagar novamente em pensamentos. É apenas uma livraria comum, é claro. O que mais ele poderia encontrar? Um livro ensinando 5 passos simples de como preparar carne humana? Abel ri com a própria piada. Depois de olhar mais algumas estantes sem encontrar nada que lhe despertasse interesse ele olha novamente para fora, apenas para ver que ainda estava chovendo, um temporal intenso e interminável. Ele suspira novamente, pensando em ter que fingir olhar as estantes de livros mais algumas vezes, até que se escuta o barulho abafado do sino da loja. Ele se vira para ver quem entrou, e se depara com uma jovem garota completamente encharcada. Ela olha ao redor languidamente, e então seus olhos se encontram com os dele. Ela sorri e começa a andar em direção a Abel. Ele mantém o contato visual, esperando-a estar próxima o suficiente para dizer algo.
"Eu não esperava encontrar você aqui, especialmente em uma situação como essa", ela diz, ainda com um sorriso amigável no rosto.
"...Que coincidência! Eu também não esperava encontrar você aqui. Quem é você?"
Ela olha para ele com surpresa, como se não tivesse previsto essa resposta, ou mais precisamente, como se aquela situação fosse impossível de estar acontecendo. Em seguida, seu rosto se transforma em um sorriso, mas desta vez, menos amigável.
"O que você quer dizer com 'quem é você?'. Eu pensei que você fosse o tipo de pessoa que se lembra dos seus amigos. Ao menos dos mais próximos..."
Abel definitivamente não conhecia aquela garota, bem, talvez conhecesse? Ele não tem uma memória na qual se possa confiar, e é comum que ele esqueça das pessoas. Mas não de uma "amiga próxima", isso é totalmente diferente.
"Talvez você esteja me confundindo... com outra pessoa?"
"Não, eu não estou. Sinto-me ofendida por você não se lembrar de mim, Abel. É bastante descortês de sua parte."
"Ah- Você sabe meu nome... isso é interessante. Como você sabe o meu nome? De qualquer forma, sinto muito, mas eu realmente não lembro quem é você. Você já sabe o meu nome, mas qual é o seu nome?"
A jovem continua olhando para ele sorrindo, mas ele pode ver que há algo mais em sua expressão. Depois de alguns segundos, como se ela estivesse pensando se deveria ou não revelar um grande segredo, ela fala tranquilamente.
"Elise. Meu nome é Elise Wotton."
"Elise!.... Elise.......", Abel repete o nome de Elise, tentando descobrir algo que, no entanto, se mantém desconhecido.
"Você se lembra agora?"
"De forma alguma."
"Bem, acho que eu nunca lhe disse o meu nome, exceto hoje, é claro", ela ri.
Abel olha para ela confuso. Como ela esperava que ele se lembrasse dela se nem ao menos havia lhe dito seu nome? Como eles poderiam ser próximos nessa condição? Isso não faz sentido algum.
Ele olha para Elise como se esperasse uma resposta adequada para suas dúvidas, mas ela continua o encarando com o mesmo sorriso no rosto. Não, não era o mesmo sorriso. Era completamente diferente. O sorriso de agora era como se ela estivesse se divertindo com a situação, se divertindo com a confusão que estava fazendo na sua cabeça. Ou será que esse sempre foi o seu sorriso desde o início? Talvez o fato de ela estar completamente encharcada e suas roupas levemente transparentes o distraíram desse fato. Talvez eles nem sequer se conhecessem e essa garota estava apenas brincando com ele. Mas ela sabe o nome dele. Ela claramente o chamou de Abel, então eles se conhecem. Mas isso também torna as coisas ainda mais estranhas. Logo ele percebe que Elise o encara intensamente, seu rosto evidenciando claramente que ela está se esforçando para conter o riso.
"Não pense tão seriamente sobre isso. Foi bom ver você novamente, Abel. Eu fico realmente feliz que tenha começado a chover tão de repente", diz Elise enquanto se afasta, com a intenção de ir embora.
"Aonde você está indo? Continua chovendo forte lá fora..."
Elise dirige seu olhar em direção a ele, e sua expressão, permeada por uma serenidade palpável, transmite uma tranquilidade que se reflete o completo oposto da atmosfera ao seu redor.
"Eu não me importo com a chuva, eu já estou encharcada mesmo", ela ri. "Eu tenho algo que preciso fazer. Algo trivial, mas importante por esse mesmo motivo."
"Eu não compreendo..."
"Não é necessário que você compreenda, na verdade, é melhor que você não saiba", Elise diz, ainda com o mesmo sorriso estampado no rosto.
"....Eu gostaria de saber", Abel diz, um pouco relutante. "Você irá me contar?"
"Talvez. Você realmente gostaria de saber? É sua última chance de desistir", ela diz essa última frase com um tom diferente, quase como se quisesse colocar ênfase.
"Claro", concordou Abel, seu tom um tanto indeciso, mas a curiosidade nitidamente pintada em seus olhos, ansioso para descobrir ao que a jovem se refere.
"Então me siga, Abel", Elise diz o nome de Abel de forma doce, quase forçada, ou talvez ela apenas estivesse tentando brincar com ele.
"......Nessa chuva?"
"Essa é uma parte crucial do processo", ela ri. "É apenas um pouco de água, bem, bastante água. Você vai ficar bem."
"Eu não teria tanta certeza..."
"Essa é a parte divertida da vida, ou uma delas, ou talvez não haja nenhuma. O que você acha?"
"Acho que essa conversa está ficando confusa demais para mim."
"Ah, mas essa é uma conversa muito simples, Abel", ela ri novamente. "Tremendamente simples."
"Tenho que discordar."
"E eu mantenho o meu ponto."
Abel permanece em silêncio, seus lábios cerrados enquanto seus olhos expressam uma mistura de pensamentos e curiosidade contida.
A jovem o olha com uma expressão séria. "Você não deveria pensar tanto, faz mal para a sua pele", ela volta a sorrir. "Muito mal."
O olhar de Abel fixa-se nela com seriedade, seus lábios permanecem cerrados em um silêncio denso, moldando a atmosfera com a mesma densidade.
Elise inclina a cabeça levemente. "Faz mal para o seu cérebro também", murmurou suavemente, como se o peso da frase pairasse no ar.
Abel franziu a testa. "Então eu deveria...parar de pensar?"
"De forma alguma! Você deve pensar o quanto puder, mas apenas em coisas interessantes e belas."
"......Eu...realmente não entendo."
A sala parecia estagnada, como se os dois estivessem em um impasse. Abel continua refletindo sobre as palavras da garota que está a sua frente, o olhando de forma amável, quase como uma professora ensinando seu mais querido aluno. As palavras de Elise pairavam como borboletas em um jardim eterno, deixando Abel completamente perdido, e igualmente encantado.
Ela apenas o olha e sorri, e retorna a caminhar em direção a porta.
