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Português brasileiro
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Published:
2024-07-30
Words:
6,833
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1/1
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2
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14
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195

NÃO O SUFICIENTE - Leopika One Short

Summary:

Kurapika finalmente recuperou os olhos de seu clã. Sua vida está uma bagunça. Mas talvez um velho amigo - e também médico - possa ajudar em algumas coisas.

Work Text:

- ⛓️ -

Kurapika acordou com um sobressalto. Havia dormido sobre a cadeira de sua escrivaninha novamente. Ele coçou os olhos, esticando os músculos como um gato e soltando um bocejo preguiçoso. Pela primeira vez na semana (ou talvez do mês), se deu ao trabalho de olhar por volta em seu apartamento. Estava uma zona; haviam papéis jogados por todos os cantos, embalagens de comidas industrializadas sobre o sofá e sobre a mesa, e alguns copos e xicaras de dias que ele não se lembrava bem de ter usado em cima de um móvel que ele usava para guardar documentos e armas brancas. O cheiro não estava dos melhores e, ao reparar em si mesmo, ele também não. Deveria ter alguns dias que ele não saía da mesma posição que estava agora e, ao olhar para a estante de madeira velha, se lembrou o porquê.

Os olhos do povo Kurta o encaravam de volta, como se estivessem vivos, como se pudessem julga-lo por ter fugido do mesmo destino. Ele percebeu que não havia dito uma palavra desde que havia os encaixado ali e, por precaução, fez alguns testes de voz para ter certeza que ainda podia falar. Venceu a necessidade de voltar a olhá-los, porque sabia que passaria mais horas do que podia perder fazendo isso, então se levantou e atravessou pilhas de sujeira até a janela. Ele a abriu, sentindo o vento gelado trazer a familiar poluição da cidade junto dele, e se inclinou para apanhar um cigarro no maço do bolso. Havia se habituado a fumar há muito pouco tempo, e sabia exatamente o que alguns diriam caso essa informação vazasse. Protegeu o isqueiro com uma mão enquanto o acendia, as correntes que sabia estarem ali fazendo um barulho que só poderia ser ouvido dentro de sua cabeça.

Ele tragou uma vez, duas, então se colocou a observar a paisagem. Dali, era possível ver o hospital em que Leorio comentara estar fazendo estágio. Isso tinha uns seis meses. Talvez ele pudesse fazer uma visita, só para espairecer. Bobagem, ele pensou. Não se falavam há meio ano, ele não deveria aparecer dessa maneira, indiferente. Mas na imaginação de Kurapika, não havia outro jeito de aparecer. E sabia que Leorio não se importaria nem um pouco, levando em conta que estava com a mente ocupada demais em todas as suas provas e coisas de médico.

Atravessou novamente o montante de lixo até conseguir alcançar seu celular na mesinha de centro. Estava com pouquíssima bateria, mas considerou dar tempo de fazer uma ligação. Haviam milhões de mensagens de seus companheiros de trabalho, de Gon, de Killua e do próprio Leorio. Bem antigas mas ele não havia visualizado nenhuma. Sentiu a culpa lhe ocorrer novamente mas a escondeu no fundo do estomago ao discar o número do amigo.

Não precisou chamar mais de três vezes até que ele atendesse.

é como dizem, quem é vivo sempre aparece — o fantasma de um sorriso passou pelo rosto de Kurapika. Ele voltara para a janela, tragando rapidamente seu cigarro antes de responder.

— Leorio, como está?

estou ótimo. Eu é que deveria te perguntar isso. Onde já se viu sumir por seis meses dessa forma? Pensei que tivesse morto e seu corpo desovado em alguma vala — o loiro sabia que era uma piada mas, por um instante, a ideia lhe ocorreu e um calafrio percorreu todo seu corpo.

— é, enfim — o que estava para dizer ficou preso em sua garganta, mas Leorio esperou pacientemente enquanto sons de passos eram emitidos do seu lado da linha. — eu queria fazer uma visita. Talvez pudéssemos tomar um café algum dia desses?

Sunshine, o que houve? — oh, ele é um médico, havia me esquecido. Leorio tinha essa habilidade sobrehumana de saber o que as pessoas estavam sentindo ou pensando, mesmo que fosse apenas pela voz passada através de eletrônicos. — se você precisar que eu te pegue em algum lugar, é só me dizer que eu vou.

— não se preocupe, estou em casa — ele deixou a fumaça sair de seus lábios e a observou se esvair no ar — e estou bem, não é nada.

não confio em você.

— nada fora do comum — Kurapika era ruim em piadas, e obviamente Leorio não riu. Um silêncio desconfortável tomou o telefone, e ambos podiam ouvir a respiração nervosa do mais velho — amanhã está livre?

passo te pegar às 20h. Não vou esperar até amanhã. — Kurapika assentiu, e quando se lembrou que ele não podia ver, murmurou em consentimento. — tente não morrer até essa hora.

— farei o possível. — Kurapika desligou primeiro. Ele voltou a atenção ao seu cigarro quase no fim e, quando se cansou, o assistiu cair até o chão à uns 20 metros de sua janela.

- ⛓️ -

Pouco antes das 20h, Kurapika já estava quase pronto para sair, mas não foi mais rápido do que o homem que batia a sua porta. Ele havia tomado um banho que deveria ter durado mais do que ele esperava e vestido um dos trezentos ternos iguais que ainda estavam devidamente pendurados em seu guarda roupa, mas a casa continuava da mesma forma. Leorio teve que bater mais uma vez até que o loiro alcançasse a entrada. Passou mais tempo do que esperava destrancando todas as travas e abriu, encontrando o amigo de braços cruzados e cenho franzido, quase como se estivesse irritado; mas é claro que não estava. Ele hesitou por um instante, e Kurapika percebeu que estava considerando se lhe dava um abraço, um aperto de mão ou um oi bastava. Não fez nenhum deles no final.

— estava quase indo embora — resmungou o homem, ajeitando o óculos no rosto e o loiro deu espaço para que ele passasse.

— não repare a bagunça. Eu andei um pouco...

— cacete Kurapika — ele o cortou, parando longe o suficiente da porta para que fosse fechada.

— não se apegue a isso. Além do mais, passo pouquíssimo tempo em casa.

— você não pega férias não? — Leorio levantou uma sobrancelha enquanto o observava atravessar caixas de pizza até um móvel com espelho.

— eu estou de férias.

— o que quer dizer que vai passar mais tempo aqui. Está pior que o quarto de um adolescente — Kurapika fez cara feia para ele enquanto ajeitava os brincos nas orelhas.

— se está tão preocupado assim, limpe pra mim — Leorio grunhiu, dando uma olhada casual para a bagunça.

— quem sabe eu faça isso. Ei, aquilo na sua janela é bacon? — ele apontou para o prato — está alimentando corvos também?

Kurapika o ignorou, abrindo caminho até ele para abrir a porta e esperou que o mais alto saísse para trancar. O carro de Leorio, o mesmo que se lembrava da última vez que havia estado com ele, estava estacionado do outro lado da rua, em frente a um estabelecimento claramente proibido de se parar. Um homem barrigudo que Kurapika não se lembrava de já ter visto antes gritou com eles por um momento e, depois de os dois entrarem e Leorio pedir mil desculpas, o carro deu um tranco suave e seguiu caminho pela rua escura.

A mente de Kurapika não conseguia parar de pensar nas mil e uma possibilidades de desastres que poderiam acontecer se algo ou alguém fosse atrás dele naquele momento, mas o silêncio durante o percurso, apenas com uma música country no rádio e um cantarolar baixinho vindos do motorista tornaram a viagem um pouco mais interessante. Sentiu os olhos pesarem e pareceu cochilar de um momento à outro.

Quando o carro parou, sua visão demorou um pouco para voltar ao foco, luzes e música vindas do estabelecimento à sua direita o atingindo diretamente. Ele franziu o cenho quando Leorio, que segundos antes estava ao seu lado no banco, apareceu abrindo sua porta do carro e abaixando o rosto para olhá-lo.

— desculpa acordar você, mas chegamos. — ele estendeu a mão por um rápido instante, mas o loiro deve ter feito uma expressão confusa, já que ele se endireitou e levou as mãos ao bolso. Kurapika saiu do carro e fechou a porta atrás de si, observando o local a sua frente. Uma balada mediana, de onde vinha música absurdamente alta, pessoas aos montes e luzes excessivamente claras. Ele franziu o cenho para a visão de mulheres no andar de cima, quase se esfregando na amurada para acenar para eles.

— aqui? — Leorio seguiu seu olhar, tirando da boca um cigarro que Kurapika nem havia visto ele pegar e o jogando no chão.

— o que? Não. Aqui. — ele apontou para o estabelecimento contrário, uma fachada completamente contrária do anterior, com apenas uma luzinha amarelada que indicava estar aberto.

Leorio foi à frente, deixando o amigo passar quando abriu a porta, e Kurapika observou o local. Era um restaurante simples, mas ajeitado. Haviam pouquíssimas pessoas, em sua maioria casais emburrados ou pessoas solitárias em mesas retangulares pretas, mesma paleta de quase toda a decoração. Mais à frente, um pequeno balcão que dava para o bar com apenas um homem bêbado demais para conseguir segurar conversa com o barman franzino. Leorio trocou algumas palavras com o garçom parado perto deles e ele os levou até uma mesa, um pouco afastada de todas as outras, mas perto o suficiente do bar.

Kurapika sabia que, por conta da licença de caçador, eles tinham acesso gratuito a diversos lugares com mais credibilidade que aquele, mas ficava grato pelo cuidado que Leorio havia decidido, já que era claro que o loiro poderia estar passando por problemas com pessoas que com certeza o rastreariam em um lugar mais frequentado. O amigo conversou um pouco com o garçom, aparentemente sobre alguma bebida cara que ele deveria estar esperando a tempos, e ambos pediram seus pratos. O silêncio que se formou enquanto o mais velho analisava o amigo com olhos críticos fez o colarinho do paletó de Kurapika parecerem mais presentes, pinicando seu pescoço.

— pois bem, me conte — ele disse enquanto cruzava os braços, soando como um pai questionando um filho sobre porque suas notas haviam caído. Bom, foi o que presumiu Kurapika. Não havia tido o pai por tempo o bastante para passar pela experiência.

— contar o que? Não há nada acontecendo. — Leorio fez um gesto com a mão, o dispensando.

— não ache que vou acreditar quando me ligou depois de seis meses sem usar o telefone. Parece que perdeu uns 5 quilos desde a última vez que nos vimos. E você está muito pálido. Tem comido direito?

— as vezes me lembro o quão insuportável é o fato de você ser um médico. — Leorio fingiu não escutar e continuou o seu sermão.

— você ainda é jovem demais para ter tantas olheiras. Parece que você não dorme há semanas — bom, isso não era exatamente verdade. Havia momentos em que, sim, Kurapika conseguia dormir, mas não durava muito tempo até que os pesadelos começassem e ele não conseguir mais pregar os olhos durante toda a noite.

— estou bem — a mentira saía tão naturalmente de sua boca que ele quase se surpreendeu. Leorio ia falar mais alguma coisa quando o garçom chegou, trazendo duas taças e uma garrafa de uma bebida que Kurapika nunca havia visto. — você está dirigindo.

— não tem álcool — o amigo respondeu, agradecendo o garçom com um sorriso e balançando o liquido rosé dentro de sua taça antes de dar um gole. Kurapika o imitou, sentindo o liquido gelado amargar sua boca. Tinha gosto de gasolina e creamchesse. — eu até te diria qual é o nome da bebida mas duvido que tenha repertório o bastante para entender do assunto.

— me diga por favor, assim posso evitar de compra-la — o mais velho fez uma careta, dando mais um gole. — e pare de me tratar como criança. Temos dois anos de diferença.

— ser o mais velho sempre significou ser responsável por vocês. É por isso que estou aqui.

— para me lembrar que é o mais velho? — Kurapika experimentou novamente a bebida. O gosto parecia ter ficado um pouco mais suportável.

— porque estou preocupado. — o loiro arriscou olhá-lo, mas a pena em seus olhos era insuportável de encarar. — Kurapika, essa sua busca...

— eu terminei. Eu consegui recuperar todos os olhos — ele o interrompeu, sem olhá-lo. Leorio hesitou antes de continuar.

— isso quer dizer que acabou? Você está realizado agora? — não parecia ser sua intenção mas as palavras soaram um pouco ríspidas. Ele sabia o porquê. Deu de ombros levemente. Leorio soltou um suspiro pesado e esfregou dois dedos nas têmporas. — e o que vai fazer agora?

— viver como uma pessoa normal — Kurapika se endireitou e o olhou — trabalhar excessivamente em um emprego que odeio até ter um burnout e talvez morrer afundando em dividas de um aluguel que não paguei.

— você nunca deixaria de pagar um aluguel — o loiro soltou um ruído de concordância. — mas estou falando sério: se você precisar de qualquer coisa, que eu possa fazer por você, por favor me procure. — o loiro assentiu, piscando devagar.

Ele não iria. Ele com certeza não iria.

— céus, você não consegue nem mentir — ele umedeceu o lábio.

— só não quero te envolver nisso.

— olha, eu não quero te pressionar a nada Sunshine, mas eu quero menos ainda que você suma outra vez. Por favor, só me deixe estar presente nesse momento. — Kurapika havia perdido completamente as palavras, então apenas assentiu.

Seus pratos chegaram e, depois disso, todo o assunto que tiveram foi fútil e trivial. Passava das 22h quando Kurapika foi deixado em frente ao seu apartamento, se despedindo de Leorio com um aceno discreto. Subiu rápido e fechou a porta atrás de si com um estalo. Ele cambaleou até seu quarto, único cômodo não afetado pela bagunça da sala principal, e tirou cada peça de roupa como se pesassem toneladas e não gramas. Vestiu um pijama que encontrou no escuro do quarto e se deitou, o braço cobrindo os olhos. Estava cansado, então dormiu rápido. Naquela noite, sonhou com as aranhas e seu clã, e dentre a pilha de mortos, viu Gon, Killua e Leorio.

- ⛓️ -

Havia passado uma semana desde a última vez que falara com Leorio. Kurapika se deu conta disso quando se pegou olhando novamente para o hospital da janela, da mesma forma que da última vez, o cigarro quase no fim entre seus dedos. Ele considerou mandar uma mensagem, ou talvez ligar, mas hesitou enquanto observava o número na tela do celular. Deve ter passado alguns minutos assim, até que o som de notificação o tirasse de seu transe. Era de Leorio.

: está em casa?

E então:

: estou indo aí.

Kurapika demorou um momento para processar, encarando a mensagem com o cenho franzido. Decidiu não responder, já que sabia que o amigo faria o que bem entendesse independente do que ele dissesse. Demorou pouco menos de vinte minutos para que começasse a bater na porta. O loiro jogou o cigarro fora e atendeu, encontrando um Leorio em seu uniforme de médico com algumas sacolas nos braços e o cabelo levemente bagunçado, além da clássica maleta que nunca se separava dele.

— desculpe vir tão de repente. E vestido assim. Passei no mercado direto do trabalho e trouxe alguns legumes. Vou cozinhar hoje. Posso usar seu banheiro?

Era informação demais. Kurapika tomou as sacolas de suas mãos quando ele as estendeu e indicou um corredor que levava até o banheiro. Leorio franziu o cenho para a bagunça agora pior que antes na sala principal, mas não disse nada enquanto ia até o banheiro. O loiro liberou algum espaço no balcão da cozinha e espiou as sacolas. Haviam alguns legumes, salmão fresco e, em outra sacola, potes de sorvete. Ele os apanhou e guardou no congelador no tempo ideal para Leorio sair do banheiro, agora com uma camisa comum de mangas longas, das quais ele arregaçou enquanto ia em direção a ele.

— acho que não dou conta dessa bagunça sozinho. Posso chamar uma faxineira, certo? — Leorio olhou para dentro das sacolas que havia trazido e voltou ao amigo. — O que você acha de cortar os legumes enquanto eu preparo o arroz? Você tem uma panela pra isso?

— tenho — ele apontou para um armário, e o amigo se dirigiu até lá. — para que uma faxineira? Eu dou conta da minha bagunça. Além de ser arriscado que alguém saiba onde eu moro.

— bom, se você realmente desse conta — disse, ignorando totalmente o segundo ponto levantado por Kurapika —, não estaria vivendo tão normalmente dentro desse lixão. Não sei como consegue dormir aqui dentro.

— não consigo — foi uma resposta tão automática que ele e Leorio ficaram se encarando por um instante.

— certo. — ele voltou para a sala e, no meio do caminho, gritou para que Kurapika o seguisse.

Ele liberou espaço no sofá jogando embalagens no chão e se sentou, o loiro tomando sua frente. Abriu a maleta e começou uma série de perguntas e de verificações chatas, medindo pressão, escutando o batimento, consultando garganta, ouvido e olhos a procura de alguma doença assintomática. Por fim, pediu que Kurapika arregaçasse as mangas da social. Assim o fez, deixando a manga na metade do antebraço, e Leorio segurou seu punho. Seus dedos estavam gelados.

— com licença — ele pediu enquanto puxava ainda mais a manga, até quase chegar em seu ombro, e pressionava os dedos delicadamente em pontos específicos. Kurapika sentiu um arrepio lhe percorrer enquanto ele conferia o antebraço, deslizando o polegar diversas vezes para se certificar de não haver cicatrizes. Arriscou dar uma olhada no amigo. Leorio parecia com um olhar tão profissional que quase o fez sorrir. Ele seria um ótimo médico. Por fim, ele voltou as mangas da social onde estavam antes e suspirou. — você está desidratado e anêmico. Sorte a sua ter um amigo médico E cozinheiro. — ele se levantou, voltando para a cozinha afim de começar o jantar. — venha cuidar dos legumes para mim, senão comeremos só amanhã.

— se eu ajudar, será quase a mesma coisa — Kurapika se juntou a ele para lavar suas mãos na pia — não sou bom com facas.

— para cozinhar, você quer dizer — o loiro deu de ombros, fingindo inocência. — não sei como você sobrevive sozinho.

— tecnicamente você sabe. — ele indicou a bagunça na sala com a cabeça e Leorio grunhiu em resposta.

Eles passaram boas duas horas preparando o jantar, uma à mais pelo tempo que Leorio perdeu ensinando Kurapika a cortar os legumes e temperar o salmão. No fim, eles comeram em silêncio seus pratos, Leorio por vezes repreendendo o amigo por deixar alguns legumes pouco saborosos de lado, e liberaram o sofá para devorarem seus sorvetes enquanto viam um reality show muito chato que arrancou risadas sinceras de Leorio, por algum motivo que Kurapika não entendia.

Terminaram a noite com o loiro sentado no balcão, um copo cheio até a metade – ou com metade vazia – de whisky enquanto observava Leorio lavar a louça – da qual, se deixa registrado, ele havia se oferecido para lavar. Ele contava algo sobre seu estágio no hospital que Kurapika se esforçava para prestar atenção, mas os olhos o traíam toda vez que o olhar se focava nas costas do amigo. Deve ter capotado porque, quando abriu os olhos novamente, Leorio havia terminado a louça e tinha a mão suavemente apoiada em suas costas.

— não queria te acordar, mas estou de saída. Alguém precisa desativar aquelas armadilhas — Kurapika demorou para entender que ele falava das trancas de segurança em sua porta.

Ele se levantou, esquecendo totalmente das regras de cordialidade que sua mãe deveria ter te ensinado em algum momento de sua infância, e começou a destrancar a porta. Antes que Leorio deixasse o andar, ele saiu no hall e disse, baixo, porém sua voz ecoou por todo o local.

— você vai voltar? — Leorio o olhou por sobre o ombro, dando um sorriso gentil.

— se isso foi um convite — Kurapika tentou sorrir, mas duvidava que tivesse sucesso. Não sabia mais como fazer isso. — boa noite Sunshine.

— boa noite.

Aquela noite, os pesadelos demoraram mais para aparecer.

- ⛓️ -

As férias de Kurapika haviam acabado mais rápido do que ele esperava. Duas semanas enfim não pareceram o bastante para esfriar sua cabeça e, depois de um dia cheio de reclamações em seu ouvido, sentia seu corpo todo reagir ao estresse. Assim que parou na porta de seu apartamento, sentiu que algo estava diferente. Ele materializou as correntes em suas mãos antes de entrar, em posição de ataque mas, ao acender a luz, encontrou apenas um apartamento perfeitamente organizado e sacolas de compras na mesa de centro.

Ele olhou para o bilhete junto das sacolas e um sorriso quase cruzou seu rosto ao ler.

“Eu disse que daria um jeito caso você não fizesse nada. Por conta da licença de caçador, o porteiro me permitiu usar a chave reserva. Deixei comida na geladeira, e não esqueça de beber agua!
Leorio :D”

Kurapika pensou que deveria contestar o porteiro por conceder a chave tão facilmente ao amigo. Deu uma volta pelo apartamento, que parecia ter se tornado novo diante da bagunça anterior. O cheiro era de produtos de limpeza suave e todo o lixo e bagunça haviam sumido. Toda a louça fora lavada, todos os cômodos estavam arrumados e não havia uma grama sequer de poeira nos móveis. Kurapika se sentiu profundamente culpado por isso. Leorio deve ter tido um trabalho enorme para fazer tudo aquilo, e ele não tinha a menor ideia de como retribuir. Resolveu ligar, então, assim que terminou de tomar um banho e vestiu roupas quentes. Se dirigiu até o sofá, com alguns potes de comida que havia encontrado na geladeira com post-its coloridos indicando o que os compunha, e uma jarra de agua que ele com certeza não beberia nem um quinto. O amigo atendeu pouco tempo depois.

então você se lembrou da existência do celular? — foi a primeira coisa que disse. Kurapika mastigava uma colherada de arroz morno, então demorou para responder — céus, você está realmente comendo? Eu deveria registrar esse momento, onde pela primeira vez na vida você ouviu um conselho meu?

— não me faça me arrepender de ligar — Leorio riu do outro lado da linha.

tudo bem. Diga o que tem pra dizer.

— você não deveria... — ele se cortou. Sabia que não era isso que deveria dizer. — obrigado. Mas não precisava se preocupar comigo.

vou fingir que você nunca disse a última parte. — um barulho de porta foi ouvido do outro lado e algumas vozes quase sobrepunham a de Leorio. — deixei alguns remédios na cabeceira de sua cama, com os horários certinhos. Pule algum deles e juro que faço você engoli-los a força.

— você trata suas crianças assim também? — ele se referia as crianças de seu estágio.

nenhuma das minhas crianças é tão teimosa como você. — um silêncio se instalou enquanto Kurapika brincava com os talheres em suas mãos — você voltou a trabalhar hoje né? Foi tudo bem?

— nada com que eu já não esteja acostumado a lidar — não era exatamente uma resposta, mas pelo suspiro de Leorio, ele sabia que era tudo o que conseguiria.

vou te deixar descansar. Boa noite Kurapika.

— boa noite Leorio.

- ⛓️ -

Todas as noites depois do estágio pareciam infinitas para Leorio. Não que ele reclamasse de estar com as crianças, de exercer seu trabalho e estar em ação. Isso o fazia se sentir útil, ajudar as pessoas. Como se estivesse seguindo seu propósito. Mas estar feliz não o impedia de também se cansar.

Naquela noite, ele não se dera nem mesmo ao trabalho de cozinhar um jantar. Quem visse de fora o chamaria de hipócrita, já que era o maior odiador de comidas industrializadas, com a justificativa de não serem ‘comida de verdade’. Até porque, não eram mesmo. Ele aceitaria ser julgado por beber demais, e talvez fumar um pouco mais que o casual, mas nunca de comer tantas porcarias. Porém haviam dias especiais que precisavam de um consolo, e eram nesses dias em que ele se rendia aos macarrões com queijo clássicos da cidade e a cerveja da marca mais barata que arranjasse. E essa noite era um desses dias.

Seus membros doíam todos em sincronia quando ele se sentou no sofá velho de seu apartamento para saborear o jantar enquanto assistia seu habitual reality show. Já passava da 01h, uma chuva barulhenta caía lá fora e sua mente processava todos os problemas que ingerir tais alimentos trariam para seu sistema digestivo aquela hora, mas não se demorou muito, porque a campainha soou.

Por conta do horário, Leorio ficou um pouco assustado, mas não hesitou em ir atender. Se fosse algum vizinho precisando de socorro ou os garotos de passagem na cidade vindo fazer uma visita...

Ele ficou genuinamente surpreso ao ver Kurapika ali. Já faziam algumas semanas que haviam se visto pela última vez. Estava usando seu habitual terno e os ombros estavam caídos, assim como o rosto direcionado para baixo. Seus cabelos estavam molhados, e ele pingava agua em seu carpete. Abriu a boca para falar mas, antes que formasse alguma coisa, o loiro levantou o rosto. Sua expressão era pura dor, e ao mesmo tempo, não expressavam absolutamente nada. Seus olhos estavam vermelhos, porém apagados.

— Kura... — o loiro o surpreendeu ao envolver os braços em sua cintura, selando seus corpos como um só. Kurapika havia crescido relativamente desde o exame Hunter, e Leorio teve de erguer o rosto para que a testa dele não colidisse com seu queixo. A surpresa da ação fez o mais alto perceber que, na verdade, Kurapika nunca havia o abraçado; ou talvez, não havia abraçado nenhum deles. Sem saber bem como reagir, e sentindo a roupa úmida do amigo gelada contra sua barriga, ele deixou as mãos caírem sobre seus ombros. — o que foi que aconteceu?

Kurapika apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, o apertando ainda mais. Leorio tentou andar um pouco para trás, afim de fechar a porta, e assim que o fez, a voz do amigo soou abafada contra seu peito.

— não pergunte nada. Só esteja aqui.

— eu estou.

Para não fazê-los se mover muito, Leorio apoiou as costas na parede e escorregou até estar sentado. Kurapika ainda estava firmemente agarrado a sua cintura, agora apoiando a cabeça em seu colo, enquanto emitia o que parecia ser um choramingo. O mais velho deixou uma de suas mãos acariciarem gentilmente as costas do amigo enquanto a outra afagava os cabelos úmidos. Kurapika se aninhou ainda mais perto dele, sinal que o mais velho julgou ser um tipo de consentimento para continuar.

Leorio observou o macarrão intocado e a cerveja apoiados na mesinha de centro, a TV ainda emitindo o som dos comerciais antes do começo do programa, que quase era abafado pela chuva lá fora, tal qual só engrossava. Kurapika se levantou pelo menos meia hora depois, se sentando de frente para ele. Leorio havia se esquecido de toda a dor que sentia até aquele momento, quando levantou uma mão para levantar o rosto do amigo e afastar o cabelo dos olhos. Ainda assim, ele não o olhou.

— não vou perguntar. Eu te prometo que não vou. — ele assentiu, finalmente o encarando. Leorio se levantou, esticando o corpo, e ofereceu uma mão para Kurapika — agora, eu preciso de roupas secas e você, de um banho. Vou arranjar algo para comermos.

— eu deveria ir embora. — Leorio fez uma careta.

— você não vai a lugar nenhum. — ele cruzou os braços, ato que expressava estar pensando em algo — fique aqui pelo menos essa semana, para eu poder ficar de olho em você.

— não posso. É perigoso.

— não me importo — Kurapika franziu o cenho. — olha o seu estado. Que me persigam então, mas você não vai sair desse apartamento.

— tenho que trabalhar amanhã — mas Leorio já estava negando com a cabeça.

— não se preocupe com isso. Eu sou médico, lembra?

— em treinamento.

— ainda assim. Deixe que eu falo com seus superiores. Digo que você pegou uma doença infecciosa ou algo assim.

— isso não vai contra seu código de ética? — ele estava tentando ser descontraído, mas Leorio não cairia nessa.

— não quando um paciente meu está doente de verdade, mas não assume. Olha, para quem está tão mal, você está bom para discutir. — Kurapika soltou um suspiro. — me desculpe. Só não se preocupe com isso. Vai logo tomar um banho ou terei que te arrastar até lá?

— você é quase pior que um pai. — Leorio deu de ombros.

— não vou te contradizer. Nunca conheci o meu.

- ⛓️ -

Kurapika sentiu que havia demorado muito no banho, mas era quase impossível sair da agua quente quando sabia o que o esperava do lado de fora: um conforto e cuidado que ele não se sentia capaz de suportar. De merecer. Se secou com a toalha emprestada e vestiu roupas largas demais para ele em uma velocidade excessivamente lenta. Sentia todo o seu corpo exausto, mesmo sabendo que aquilo não era, de forma alguma, físico. Não conseguia tirar forças nem mesmo para secar os cabelos, que pingavam pelo caminho que ele percorreu até a sala, onde Leorio falava ao telefone. Só pegou uma parte da conversa, enquanto se arrastava até o balcão para se sentar.

— sim, é isso mesmo. Sou o médico dele, sei o que estou falando. É muito sério, sua senhora corre o risco de... — ele estalou a língua — isso. Assim que ele melhorar, irá voltar. Dentro de uma semana, é provável que os sintomas passem. Sim, tudo bem. Muito obrigado. Tenha uma ótima semana. — ele desligou, voltando a atenção para o loiro. — bom, você tem uma semana de folga.

— deveria agradecer ou te matar? — Leorio grunhiu, o ignorando, e foi até a cozinha.

— não deve ser o mais apropriado mas, no estado em que está, pensei que devorar uma pilha de waffles seria mais interessante que macarrão com queijo. — ele atravessou a sala com dois pratos com, literalmente, pilhas de waffles, e teve de fazer mais duas viagens para levar os acompanhamentos, apoiando tudo em sua mesinha de centro. — venha comer, venha.

Kurapika hesitou antes de se levantar, tentando seguir uma linha reta até o sofá, e falhando quase no último instante, caindo de joelhos sobre o carpete entre a mesinha e o sofá. Leorio correu para levanta-lo, apoiando-o no assento.

— cara, você está pálido.

— talvez eu não tenha comido nada hoje — sua voz saiu mais fraca do que esperava. Leorio pareceu alternar entre a raiva e a preocupação e saiu da sala novamente, voltando com um copo de agua, uma cartela de remédios e um sanduiche natural embalado em plástico. Ele ofereceu para o amigo, que virou o rosto.

— você tem que comer... — ele negou, e Leorio suspirou — pelo menos beba um pouco de agua.

Kurapika aceitou o copo, dando dois dolorosos goles, e entregou novamente ao amigo. Leorio deixou tudo sobre a mesinha, encarando toda a comida que havia trazido, e suspirou.

— tudo bem. Sem waffles então. Mas o sanduiche vai estar aqui, se quiser. — o loiro assentiu, assistindo com culpa o amigo retirar todos os doces da mesa novamente, apenas parando para abocanhar um dos waffles sem acompanhamentos. Quando voltou, espiou por um instante a sala, entrou no quarto e voltou com um secador de cabelo nas mãos, que apoiou no sofá. Ele afastou a mesa de centro para mais perto da TV e ajeitou algumas almofadas no chão, indicando que Kurapika sentasse. Ele se sentia tão cansado que não discutiu. Uma coberta foi posta sobre seus ombros antes de Leorio se sentar no sofá logo atrás dele e entregar o controle remoto em sua mão. — pode escolher o que quiser.

Mas não fazia diferença assistir algo diferente do reality que passava. Leorio não pediu permissão quando ligou o secador no quente e começou a soprar sobre os cabelos de Kurapika. Nem quando seus dedos começaram a navegar pela sua cabeça, fazendo o loiro sentir arrepios. Não pediu porque não precisava. De alguma forma, aquilo era permitido para ele. De alguma forma, Leorio sabia que era. Assim como sabia sobre entrar no apartamento dele para limpar. Ou lhe acariciar as costas enquanto chorava. Com Leorio, as coisas sempre pareciam diferentes.

Quando os cabelos de Kurapika estavam secos o bastante ao gosto de Leorio, ele desligou o eletrodoméstico e pode-se ouvir que a chuva também havia parado. Se estivesse mais consciente, talvez tivesse perguntado ao amigo porque ele havia ligado um secador de cabelo perto das três da manhã, mas estava muito concentrado em se apegar aquele momento, aquele conforto que as mãos dele mexendo em seus cabelos lhe traziam. Nesse meio tempo, também, o loiro havia abocanhado o sanduiche três miseras vezes, mas pela expressão feliz de seu anfitrião, havia sido o suficiente.

— está bem, que tal você dormir um pouco agora? Parece que não tem uma boa noite de sono há meses. — isso era, com certeza, verdade.

— tudo bem. — Leorio se apressou em levantar antes dele, sumindo na direção do quarto, e voltando alguns instantes depois.

— deixei um travesseiro limpo para você. E cobertas. Não se preocupe com amanhã, vou deixar um café pronto e volto antes do horário de almoço.

— eu posso dormir na sala.

— sim, você pode — mas Leorio já estava ajeitando a si mesmo sobre o móvel.

— não é justo — mas Leorio não entendia ao certo o que ele queria dizer. Queria dizer que não era justo que ele fosse tão bom se Kurapika não poderia retribuir da mesma forma. Mas o sorriso tão genuíno no rosto do amigo fez um turbilhão de emoções passar pelo estomago do loiro – talvez uma delas fosse fome.

— vá dormir, Kurta. Amanhã resolvemos os conceitos éticos sobre nosso acordo.

E ele foi.

Naquela noite, Kurapika sonhou com seu clã. E sonhou que Leorio havia morrido com eles.

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A manhã seguinte foi notada por Kurapika apenas por conta do sol adentrando das janelas no quarto de Leorio. Ele se espreguiçou, como de costume ainda sentindo o habitual cansaço, e se levantou. O apartamento, como esperado, estava vazio, mas havia café e chá na mesa, ao lado de pães frescos e acompanhamentos, e também um bilhete implorando que o loiro comesse pelo menos alguma fruta. Kurapika optou por uma xicara de café enquanto via o jornal abandonado em cima do balcão. Quando Leorio voltou, pontualmente na hora do almoço, Kurapika estava na janela com um cigarro em mãos.

— céus, quando penso que não pode piorar, você me surpreende.

Dali, Leorio tomou o cigarro de suas mãos, jogando pela janela, e o forçou a ajuda-lo com o almoço. Eles comeram enquanto Leorio contava algo sobre seu dia, assistiram um filme juntos e foram dormir o mais cedo que conseguiram. O dia seguinte prometia a mesma programação mas, no meio da noite, Leorio percebeu a presença de Kurapika na sala, de pé em frente ao sofá com um travesseiro nos braços, os olhos vermelhos brilhando feito safiras.

— Kurapika? O que acon... — ele não conseguiu terminar. Kurapika estava em cima dele, lhe apertando a garganta antes que dissesse alguma coisa. Ele tentou se soltar, mas seus dedos estavam firmes, e sua expressão era movida pelo puro ódio.

— vocês não vão fugir — sua voz estava distante, e os olhos não estavam exatamente focados nele.

O aperto ficou mais forte e Leorio sentia sua consciência quase se perdendo. Ele apertou os punhos do amigo, tentando afasta-lo, e com a falta de métodos limpos, lhe deu uma cotovelada na bochecha. O aperto afrouxou enquanto seus olhos se amenizavam e ele piscava rapidamente. Quando percebeu o que estava fazendo, afastou as mãos, assustado, observando a expressão preocupada que Leorio emitia.

— eu... me desculpa. — seus olhos se encheram de lágrimas. A luz do luar vinda da janela tornava seus traços angelicais, inocentes. Leorio imaginou – algo irônico de se pensar segundos depois de ser asfixiado – que ele parecia um anjo caído: adorável, mas despedaçado. As lágrimas caiam sobre o rosto de Leorio como pequenas pérolas geladas. Kurapika apoiou a cabeça em seu peito, soluçando — eu sinto muito. Céus, eu... — os braços de Leorio o puxaram para mais perto, em um abraço desajeitado, e Kurapika encaixou o rosto em seu pescoço, retribuindo entre um soluço e outro.

— está tudo bem — sua voz saiu um pouco rouca. — eles se foram. Eu estou aqui agora.

Aquela noite deve ter sido o começo de alguma coisa. Depois dela, eles começaram a dormir juntos, na cama suficientemente grande de Leorio, as costas, mãos ou testas se tocando para que Kurapika não tivesse a chance de se sentir sozinho. Não é como se os pesadelos tivessem parado por conta disso, mas a qualidade de seu sono ficou relativamente melhor. Agora, quando ele acordava sobressaltado no meio da noite, Leorio o puxava para mais perto, o aninhava sobre seu peito e acariciava seu cabelo até que ele dormisse de novo. Isso, porque ele podia. Por algum motivo, ele podia.

Nas noites em que ele estava de plantão, Kurapika se sentia incrivelmente vazio e desamparado. Nessas noites, ele não conseguia nem mesmo pregar os olhos. Tinha de esperar até o amanhecer, quando Leorio se juntava a ele na cama e o abraçava contra si, como se pudesse protege-lo de tudo aquilo que o ameaçava desde o começo de sua vida. Ele não podia, mas a sensação acalmava todos os nervos de Kurapika.

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Em um dia pouco especial, Leorio voltou mais cedo para casa. Ele tinha passado na farmácia comprar algumas vitaminas para Kurapika e um doce da padaria em frente ao hospital que ele havia adorado da última vez que o moreno havia trazido. Era o último dia de férias dado à ele, mas Leorio estava considerando ligar para Melody e pedir mais tempo, nem que fosse só mais uma semana. Como médico, ele acreditava que alguns encontros durante a semana seriam o suficiente para acalmar a mente conturbada de Kurapika, pelo menos na parte da noite. Como amigo – ou algo desse tipo -, ele não tinha ideia de como seria sua vida se não pudesse deitar em sua cama com o loiro ao seu lado.

Leorio não sabia mais como existir sem a presença de Kurapika em sua rotina conturbada.

Ele destrancou a porta com um pouco de pressa, o coração palpitando um pouco mais rápido, algo que acontecia com frequência nas últimas semanas, e adentrou no apartamento silencioso. Silencioso demais.

— Kurapika?

Sua voz ecoou por toda a casa. Ele deixou as sacolas sobre o balcão e encontrou uma carta com o seu nome. Não. Não, não, não.

Ele fez uma procura rápida por toda a casa, procurando pelo amigo por todos os cômodos, mesmo sabendo que não o acharia ali. Por fim, apanhou a carta endereçada a ele e se sentou no sofá para ler.

“Leorio,
Me angustia te deixar essa carta ao invés de me despedir de você adequadamente. Todo o restante de caráter que eu pensei poder conter se tornaram nada a partir do momento em que escrevi seu nome nessa carta.
Acontece que estou fugindo; de novo. Grande parte da minha vida fiz isso. Fiz enquanto perseguia as aranhas, porque era mais fácil fugir da culpa enquanto ocupava a mente com forma de mata-los. Fugi da ideia de me apegar a vocês quando nos conhecemos no exame Hunter. Fugi da culpa de não ter estado lá quanto aconteceu. De não ter morrido com meu clã.
Os olhos estão comigo mas as coisas não acabaram ainda. Eles estão mortos mas ironicamente, eu também estou. Pensei que, após tudo isso, eu finalmente encontraria a paz. Finalmente teria a chance de ser feliz de novo. Bobagem minha. Sinto como se fosse errado ser feliz. Como se fosse errado estar bem quando eles não estavam. Parece errado até sorrir.
No exame Hunter, você, Gon e Killua fizeram com que eu me sentisse de uma forma que eu não me lembrava de ter sentido antes. Me deram algo que eu nunca, de fato, mereci ter: uma nova família. Pessoas em quem confiar, com quem se preocupar e para amar. E receber tudo isso de volta. E nesse tempo em que estive com você, quase me fez acreditar que eu era capaz de voltar a sentir isso. Que eu merecia essa paz, um final feliz, e que de baixo de todo o ódio que cultivei por toda a vida, eu pudesse ser capaz de sentir outra coisa, uma coisa bonita. Mas eu não fui feito para isso. Não é justo que eu bagunce sua vida dessa forma, não depois de tudo o que aconteceu. Eu não me perdoaria.
Por isso lhe deixo essa carta. Como última despedida que ouvirá de mim. Não irei mais incomoda-lo.
Leorio, você foi incrível. Obrigado por me amar – e desculpe por não ter sido o suficiente. Por favor, não me procure. Eu não conseguiria manter essa promessa caso estivesse de frente para mim.
Com amor,
Kurapika”.

Leorio não percebeu que estava chorando até uma lágrima cair no dorso de sua mão. Ele dobrou a carta, os dedos tremendo, e limpou o canto do olho. Tirou os remédios da sacola e encarou o doce na outra. Caminhou na direção do quarto, jogando os remédios em uma gaveta, e se sentou na cama, levando o travesseiro até o rosto. Tinha o cheiro dele.

Leorio teria de reaprender a viver sem Kurapika; de novo.

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N/A: essa é minha primeira vez publicando no AO3, por isso me perdoem qualquer erro ou falta de informação!