Work Text:
Espreguiçar-se o fez grunhir entre dentes.
— Tudo bem? — Yosano perguntou.
— …Quase. — Doppo largou a cabeça no travesseiro. — Achei que vinha uma cãibra.
— Quer água?
— É bom.
Ela tateou na bolsa atrás das garrafas. Perguntou:
— Cãibra onde?
— Panturrilha esquerda. Ainda sinto um pouco. — Ele afastou o lençol do peito. — Precisa desse aquecedor ligado?
— Marcando dezoito graus, no momento. — Yosano entregou a garrafa. — Que calor todo é esse?
Ele não evitou uma risada. Gracejou:
— Achei que soubesse o motivo.
Se bobear, quer mais. Sentado na cama, secava a garrafa d’água.
Yosano se abrigava ao lado, numa toalha atirada aos ombros. Sempre tinha sido friorenta. Conferia as unhas a esmo, curtas e sem esmalte; exigências da profissão. Meus olhos podiam tirar fotos.
— Gostou do quarto? — ele perguntou.
— Não é o mais caro que a gente já veio?
Isso não é resposta.
— Não tenho certeza. Teve aquele da cadeira impressionante…
— É, deve ter sido aquele. — Ela sorriu como quem relembrava a data. — Uma cadeira boa.
— E bem impressionante. — Cada coisa que dava pra fazer.
— Pois é. Ainda quer essa luz acesa?
— Quero.
Enfim, ela desistiu de ficar sentada. O cabelo se espalhava, contrastando na fronha clara. A toalha exibia um decote, e embaixo dela, mais nada.
Vou até pôr os óculos.
— Posso perguntar uma coisa? — Yosano disse.
Doppo olhou para ela. Voltou a garrafa d’água ao lugar.
— Não precisa pedir.
— É que é meio idiota. — Ela o afagou na coxa, sobre o lençol. — Tá preocupado com alguma coisa?
Entendo. A resposta é sempre “sim”.
— Não — ele disse. — É só que hoje não bebi.
— Não sei dizer se você tá falando sério.
Doppo sorriu e disse:
— É brincadeira. Por que a pergunta?
— Parece um pouco…
— Não precisa desse rodeio.
— “Distraído”, acho que é a palavra. — A mão dela estacionou do carinho que fazia. — Além do normal.
Ah. Então, pareço?
— E o convite foi repentino — Yosano completou. — Fiquei com isso na cabeça.
É porque foi, mesmo.
— Eu posso perguntar uma coisa? — ele disse.
— À vontade.
Doppo ajeitou os óculos sobre o nariz.
— Não tenho mais com quem falar disso. — Por um instante, parou de apreciar a boa vista. — Tenta não interpretar errado.
A frase consumia o oxigênio do quarto.
Vai. Fala, idiota.
— Eu diria logo, se fosse você — ela sugeriu. — Senão, interpreto errado, mesmo.
É o tipo de coisa que só acontece comigo. Yosano o encarava atrás da resposta.
Saco.
— Acho que gosto de alguém. — Doppo fechou os olhos. Fez-se relaxar, ou explodiria. — Como posso ter certeza?
Pode julgar. Eu mereço.
— Ah… Não tem fórmula mágica. — Ela rolou na cama, o topo da cabeça tocando o quadril dele. — Eu teria que pensar um pouco.
Penso sem parar faz quase uma semana. Ainda não faço ideia.
— Sem pressa — ele disse.
Quando se deu conta, mexia no cabelo dela. Não podia exagerar, ou ela acabaria dormindo.
— Hmm… — Yosano arrastou o som, procurando as palavras à meia-luz. — “Gostar” em que estágio?
— Não sei. No começo? Potencialmente?
Sem nem ter noção se é o caso, ou se pode ser…?
— É… confortável — ela disse. — Ao mesmo tempo que é um pouco estressante.
Nesse aspecto, a resposta é “sim”. Mas sempre foi desse jeito.
— Como assim? — ele perguntou.
— A mente fica inquieta.
Nunca tive a mente quieta. Nem por um dia na vida.
— Você pensa na pessoa mais do que o habitual. Repara mais nela. — Pensar mais, sim. Reparar? Não sei dizer. — Tenta passar tempo com ela. Ou quer passar, se não pode. — Passo tempo com ele todo dia. Não é questão de querer. Ela olhou para cima. — Por que a pergunta?
Não dá pra pular essa etapa?
— …Não sei se quero falar disso — Doppo respondeu.
— Espera. Você gosta de alguém?
— Não sei, acabei de falar.
— Sério isso? — O tom dela era risonho. Ah, começou. — Se tem que tirar a dúvida…
— Não é tão preto no branco.
— Por acaso, eu sei quem é?
— Não vai arrancar a resposta de mim. — Doppo olhou torto.
— Não vou mesmo?
— Pode ir parando.
Ela o mordeu na cintura, perguntando:
— O que eu tenho que fazer?
— Ei. — Doppo se contraiu inteiro. — Faz cócegas.
— É só o começo… — A mão dela investigava sob o lençol. Cuidado! — Panturrilha esquerda?
Nem pense nisso!
— Você vai rir da minha cara — Doppo reclamou.
— Juro que não.
— É sempre assim.
— Que história é essa de “sempre”? A gente nunca falou disso.
Nem com você, nem com ninguém. Isso é parte do problema.
— Por favor — ela pediu. — Vai fazer mistério?
— Vou.
— Não devia ter me deixado curiosa…
— Até parece que é só uma fofoca.
— E não é? — Yosano se deitou no colo dele. — O que mais, então? Pegadinha? Mentira?
Doppo suspirou. Maldita cara de piedade.
— O assunto não sai daqui. — Pousou a mão no ombro dela e olhou para qualquer lado vazio. — Promete?
— Prometo.
— Mesmo?
— Ai, que coisa. Precisa disso tudo?
Como resolver, se ela não souber?
— Tá, tá — ele concordou. — Não precisa.
Ao menos, digo que não é você. Se isso ajuda um pouco.
— Como eu disse, não tenho certeza — Doppo começou —, é um talvez.
Adeus, reputação. Foi bom te conhecer.
— É o Dazai — ele confessou.
O aquecedor murmurava. Yosano não ria.
Até começar.
— Eu sabia — Doppo disse.
Ela gargalhava.
— Não acredito — ela disse, sem fôlego nenhum. — Impossível.
Doppo bateu a mão na própria testa.
— Não foi por mal. — Ela tentava, mas voltava a rir. — Juro.
Yosano se perdia naquilo. Sem começo, sem hora de parar. De bruços, balançava as pernas, chutando a cama.
— Chega, né? — Pôs a mão nas costas dela. — Já tá bom.
Ela esperava? Não esperava…?
— Fazendo favor? — Doppo insistiu.
— Desculpa…
Só me mata logo.
— Não sei se quero saber qual a graça — ele disse. Ou se chega de passar vergonha.
— Ai, sei lá. — Ela forçava a respiração a um ritmo, intercalando risadinhas fugitivas. — Essa me pegou desprevenida.
Compartilho do sentimento.
— Quer dizer… Desprevenida, nem tanto. — Yosano se virou para cima. Permanecia usando a coxa dele de travesseiro. — Não é bem isso.
— Já insinuaram isso de nós dois antes. — Doppo torceu a boca. — Mas não foi você.
— Não, não. É outro esquema. Nem sei se você vai confirmar ou negar.
— Confirmar ou negar o quê?
— Minha vez de passar vexame. — Ela sorria, num resquício do acesso de riso. — A gente tinha uma aposta. Eu e o Ranpo-san.
— Oi?!
Aposta do que raios?
— Eu precisaria dos detalhes — Yosano disse. — Só assim, pra saber quem ganhou.
— Por que vocês apostaram num assunto desses? — E apostaram o quê?
— Em minha defesa, foi ideia dele.
— E que detalhes?
— Quem se declarou pra quem?
— Ninguém se declarou pra ninguém. Não entendi qual é a de vocês.
Se houvesse declaração, eu não viria pedir ajuda.
— Tá, que seja. — Ela abanou a mão. — Teve iniciativa? Quem beijou quem?
Pulando os detalhes, porque não vem ao caso…
— Foi ele — Doppo admitiu.
— É, perdi a aposta. — Ela suspirou. — Mas o que eu esperava?
Ele espremeu os olhos. O que quer dizer? Que não tomo iniciativa? Disse:
— Justo você, com essa opinião?
— A minha é a mais qualificada… Ou tem outra?
De fato, não saio com mais ninguém.
— Enfim — ele disse. Não vou discutir as minúcias da ofensa. — Ainda não sei se gosto ou não.
Nem se vou, ou não vou gostar.
— Ele te propôs alguma coisa? — Yosano perguntou.
— Sugeriu.
— E você aceitou ou recusou?
— Deixei pendente. — Porque não sei o que fazer. — Mas não quero que fique pendente.
— Faz bem ter isso claro.
Você fala como se tivesse um relacionamento.
— Espera. — Ele ergueu uma sobrancelha. — Você gosta de alguém?
Ela riu baixo e devolveu:
— O que você acha?
— Por que nunca me disse?
— Porque nunca importou.
— Não quero atrapalhar.
— Não atrapalha, de nenhuma forma. É uma relação um pouco estranha. Como explico? — Yosano se deitou de lado na perna dele; não se decidia. — Digamos que não é exclusiva.
— Isso existe? — No passado, sei que existia…
— Existe.
— Isso pode?
— Não é crime.
— Não foi um julgamento. Perdão.
Concluo que não entendo absolutamente nada, de coisa nenhuma.
— Não faz mal — ela disse. — Confesso que é meio raro de ver.
— Ahã…
— Não quer saber quem é?
— Não é caso de “quero” ou “não quero”. — Doppo voltou a mão ao cabelo dela. — Achei que já teria contado, se quisesse.
— Bom. Ele não se importa, e nem eu. — Ela fechou os olhos, agradada. — É o Ranpo-san.
— Ei. Sério?!
— Não dá pra notar?
— Prefiro não especular essas coisas. — Faz um tanto estranho de sentido. — Desde quando?
— Desde que a gente se conheceu. É o tipo de coisa que… — Yosano hesitava um pouquinho. — Não enxergo tendo fim. Entende?
— Na prática, não.
— Por exemplo… Sua amizade mais antiga. O Katai, não é?
— Impressionante que lembre.
— Só me ocorreu. — Ela guardou o elogio com modéstia. — Não tem objetivo. É estar porque querem. E não se veem parando de querer.
— “Fim” de conclusão, e “fim” de objetivo…
— Sim, acabam sendo a mesma coisa.
Isso, sim, é um pouco esclarecedor.
— Vocês são amigos, então — Doppo disse. — Com um quê de romance.
— Eu não daria esse nome.
— Um casal…?
— Não exatamente.
— Almas gêmeas? Formação de quadrilha? Não sei do que chamar.
— Eu e ele somos eu e ele. Nunca existiu parâmetro antes. — Yosano se cobriu melhor. — Creio que prefiro assim.
Diga pra ele que é um cara de sorte. Creio que é minha única opinião.
— Vocês nunca tiveram problemas? — Doppo perguntou. — Entre vocês, no caso.
— Já, sem dúvida.
— Tudo bem se me der um exemplo?
— Você quer saber do começo, certo? — ela disse. — Teve uma coisa, vez ou outra até esqueço.
— O quê?
— Eu me perguntava se… Sabe aquela história? “O rapaz salva a moça, e o troféu é ficar com ela.”
— Um milhão de contos de fadas assim.
— É. Foi o que achei por um tempo. Minha “forma de agradecer”. — Isso é um pouco triste. — E eu não queria falar disso com ele, de jeito nenhum. Eu tinha quinze anos. Imagina? — A risadinha dela foi saudosa. — Acabei me conformando de que não… não era por “prêmio”.
— Nem consigo te imaginar fazendo isso.
— Também não é pra tanto. Mudei de ideia por outro motivo.
— Sendo ele?
— Se eu agisse como um “prêmio”, o Ranpo-san saberia. Ele nunca ia aceitar.
Naquela manhã, aceitei, também.
— Acho que… — Doppo disse. — É uma situação parecida.
— De todos os conselhos pra te ajudar, justo esse?
— Acontece.
Nunca se sabe onde fica a solução dessas coisas.
— Tive muito medo — Yosano disse. — Foi pavoroso.
— Imagino.
— Já teve uma crise de pânico?
— Já.
— Parece que você tá prestes a morrer. Só que em plano de fundo, e o tempo todo.
— Não tenho medo de morrer.
— Mas dá medo quando tem a crise, não dá?
Tem razão.
— Também não tenho medo de morrer — ela continuou. — Medo nenhum. Esse tipo de medo não é de morrer.
É a epifania de estar vivo… ou seja lá o que for.
— Resolveu seu problema? — Yosano olhou para ele.
— Não.
Gosto dele? Não gosto? Não faço a menor ideia.
— Já que você não sabe… — Ela se ajeitou, ainda de lado. — E se a gente pensar por outro ângulo?
— Dedução a essa hora? O expediente já acabou.
— Cadê sua moral pra dizer isso? — ela brincou. — Não teve declaração, afinal. De lado nenhum.
— E daí?
— Ele gosta de você?
Doppo abriu e fechou a boca. Mordeu o lábio por dentro, antes que se complicasse. Não sei. Admitiu:
— Não cheguei a perguntar.
— O que te faz suspeitar que sim?
Não é “suspeitar que sim”. É um “pode ser”. Igual a tudo nessa história. “É uma intuição” seria mentira.
Tem partes daquele dia que ficam naquele dia.
— Não tenho resposta pronta pra isso — ele disse. — Ele só deu a entender.
— Igual ele faz com muita coisa.
Típico. Não sei por que tô surpreso.
— Foi algo que ele disse? — Yosano perguntou. — Algo que fez?
— O conjunto da obra.
— Vamos supor que ele goste. Isso te incomodaria?
— Não exatamente.
— Qual seria o problema, então? — Ela o presenteou com silêncio. E se eu corresponder? — Você tem medo?
A resposta faltava.
Tenho.
— O que poderia acontecer de tão ruim? — ela disse.
Doppo trincou a realidade com um riso sarcástico. Respondeu:
— Sério que preciso listar?
— Não. Foi mal. — Ela riu junto. — Conheço bem a peça.
— A pergunta é bem-vinda.
— “O pior cenário possível”… né?
— Meu eterno inimigo. — Doppo recostou a cabeça na parede atrás dele. — Antes estar pronto do que não estar.
— Em termos de vida, o pior cenário possível…
— …É que a gente morra. Falamos disso agora.
Não é esse meu medo.
— Ele mesmo tá tentando sem sucesso — Yosano comentou. — Já faz um tempinho.
Riram, juntos e do mesmo jeito. É engraçado porque é verdade.
— E eu atrás, limpando a bagunça. — Doppo suspirou. — Toda santa vez.
Na terceira edição, Yosano riu sozinha. Ele perguntou:
— Qual a graça?
— Você percebe como ele pega no seu pé em específico?
— Difícil não reparar. Por quê?
— Os motivos devem ser vários. Não me peça pra adivinhar, mas…
— Mas…?
— A tal da aposta que comentei. — Yosano batia o indicador na coxa dele. — Em parte, é por esse comportamento.
— Não entendi o que tem a ver.
— Ele surta quando você ignora. Cutuca até você reagir. Quer atenção.
— Olha… — Doppo calculou a polidez da frase. — Não sei por que discutir o óbvio. É claro que é por atenção.
— Então, você sempre soube? — Ela parou de bater o dedo e o olhou de esgueira. Sempre soube do quê? — Por que é um problema só agora?
A epifania, então, era de outra coisa.
Sério?
— Não, eu nunca soube — a frase escapou dele. — Nunca. Quando—
— Hã… Escuta. “Quando começou a gostar”, não faço ideia. Mas me parece que faz tempo.
Será que é desde o começo?
— Ele sempre arrumou trocentos namoros — Yosano disse. — Quase um por semana.
— Sim, mas…
— Se era pra te fazer ciúme, não funcionou. E não acho que era.
Mais provável ele só fugir de compromisso.
— Mas não é bem isso que quero dizer. — Yosano se sentou, puxando o cobertor até os ombros. — Ele não esconde com quem namora. Nem que fica te orbitando.
Que ele joga nos dois times, de fato, eu sempre soube.
— Sou muito burro — ele disse.
— Não é pra tanto.
— Sério. Sou um inútil. O cara mais burro do mundo.
— Para com isso.
— É um estágio do luto. Só deixa passar.
— Ah, vai ficar o resto da noite chateado? — Ela inclinou a cabeça no ombro dele. — Poxa, vem cá.
— Não precisa ficar com pena.
Mereço amargar minha idiotice.
— Não vai sentir saudade? — ela sussurrou. — Nem um pouquinho?
— Não sei o que vai rolar. — Nem o que quero, nem o que vou fazer. — Não sei de nada.
— Nem eu.
É verdade. Pode dar tudo errado. Ou certo. Ou…
Encararam-se, como quem sabia o que vinha. E veio, no mesmo encaixe do rosto, da mão, da boca.
Eu meio que sempre soube. Era pra ter fim.
Não me deixa pensar.
