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Pelo Olhar Dele
Hoje é mais um daqueles dias em que eu me pergunto o que eu fiz de errado para merecer tanto motivo para não querer existir. Certo, eu sei que fiz algumas coisinhas sim, mas não acho que foi motivo o suficiente para meus pais, depois de longas noites de conversa — por telefone, já que ambos se detestam — decidirem me matricular num internato. Sim, no século vinte um ainda existem pais que não aguentam lidar com os próprios filhos e os colocam em escolas internas para que não tenham que enfrentar a culpa de não terem simplesmente usado uma camisinha.
Eu sou um desses filhos. Que vida, não?
Mesmo depois de passarem quase duas horas conversando, a diretora e o orientador do colégio acompanharam meu pai até o carro na frente dos portões, onde ainda papeavam sobre como vão tomar conta do seu filho e fazer de mim um "jovem decente e respeitoso", não, não quero debochar dessa expressão, já foi a milésima do tipo. Cansado desse blábláblá todo, encaixei os fones na orelha colocando minha playlist e ainda mascando o chiclete de menta, embora agora já estivesse sem gosto há algum tempo.
Meus olhos voltaram para a fachada do colégio. A grafia metálica no muro de tijolos vermelhos dizia simplesmente: "Teohai School". Esperava mais para um lugar como esse.
Espiando entre as árvores e a estrada de pedrinhas pelo qual eu piso também aqui fora, posso avistar uma grande construção e um campus maior do que eu imaginava. Apesar de ter pensado em estruturas mais antigas e religiosas como se espera de colégios internos, sinto que esse lugar passou por algumas reformas recentes, e, ao contrário do que idealizei, é até bem moderno.
— Temos uns 30 minutos antes do intervalo terminar, depois acontece a última aula, daí os alunos se dividem em atividades recreativas ou simplesmente retornam aos dormitórios. — Posso ouvir o orientador dizer enquanto troco de música.
— Então é melhor ir se preparar, Donghyuck. — Meu pai olha para mim.
— Ah, então você já vai, né? — Tiro um dos fones o encarando de volta. Ainda que eu possa ver que seus olhos carregam algum arrependimento, não pretendo perdoá-lo.
— Eu volto para te ver uma vez no mês, lembre-se disso.
— Três vezes mais do que quando eu morava em Jeju, que recorde! — Finjo surpresa.
— Sem sarcasmo hoje, filho, lembre-se de se comportar, não vai poder mais ligar para sua mãe ou para mim atrás de ajuda.
— Como se eu precisasse... — Resmungo puxando a alça da mala ao ter arrumado a mochila preta nas costas — Boas férias para você também, Deuk-su, te vejo no próximo verão. — Ironizo ainda sorridente. Ver sua face se transformar enquanto procura respirar fundo para se acalmar parece o suficiente para mim.
Sou acompanhado portões adentro pela a autoridade e o orientador enquanto ouço meu pai entrar no carro e dar a partida antes mesmo do porteiro fechar o colégio. Ainda que não me surpreenda, sinto-me meio decepcionado. Dezessete anos e mais uma oportunidade descartada do homem que me colocou no mundo — eu diria até que injustamente —, se aproximar de mim.
Mas, por outro lado, Deuk-su preferiu se livrar de mim por alguns meses prometendo me dar um carro se eu cooperasse e me formasse nesse internato (já que um carro foi motivo do estopim da minha adolescência para os meus pais). Eu vou ter tempo de contar isso depois.
Aceitei sua proposta achando que fosse brincadeira, afinal, como ainda existem internatos na Coréia do Sul?
Agora me sinto sem saída. Minha mãe está do outro lado do país dizendo estar mal mesmo achando ser a coisa certa a fazer por mim, pelo que conheço dela, não vai aguentar e vai me tirar daqui o mais rápido possível. E assim eu espero.
No primeiro momento, o ambiente parece um tanto acolhedor. Ao caminhar um pouco pelo gramado do campus, fui levado até a área escolar, na sala da direção. Não demorou até que me sentisse entediado com a conversa da diretora e seu ditar de regras intermináveis que também estavam impressas numa pasta a qual eu provavelmente não vou ler.
Lá fora é possível ouvir gritos de diversão de alunos pré-adolescentes jogando queimada enquanto aqui dentro eu me distraio com a parede de diplomas e certificados. A decoração também me dá um pouco de sono junto à voz da diretora Daihyun, que sentada atrás de sua mesa, insistia em continuar lendo em voz alta com pequenas confusões de palavras causadas provavelmente pelo grau ruim de seus óculos. Quando finalmente abrem a porta após dois toques, sinto-me grato por estar finalmente livre daquilo.
Ao abrirem um dos lados da porta, o aluno que esteve aqui agora há pouco avisa que não encontrou a pessoa que a diretora pediu para chamar. Ele era mais baixo do que eu. Usava o uniforme preto e laranja, cores oficiais da escola e tinha o braço destacado por uma braçadeira dourada. Acredito que seja o ajudante do mês, ou algo assim. Bem, ao menos já sei que cargo eu não quero concorrer até que saia daqui.
Sendo assim, a senhora de curtos cabelos lisos e óculos pontiagudos me entrega uma chave, avisando que as portas são trancadas apenas durante as aulas e a noite. Dou de ombros recolhendo minhas coisas enquanto o garoto que se chama Renjun me leva até o outro lado do campus, onde ficam os dormitórios. A caminhada requer um pouco de esforço, mas por estar observado o local pela primeira vez, nem me importo muito do meu braço estar cansado de puxar a mala pesada.
Provavelmente pelos alunos estarem em horário de aula, esse lado do internato está mais monótono e vazio. Alguns adultos passam para lá e para cá, parecendo estar se preparando para uma segunda maratona. Não deve ser fácil lidar com jovens cheios de hormônios, aliás, lembro-me de notar a presença de algumas alunas no corredor de espera para a enfermaria, ainda na área escolar. Me pergunto como as regras devem ser rígidas ou em como eles confiam nessa juventude para não acreditar no que os alunos fazem quando sozinhos por aí. Imagino que eles sabem sim, sempre souberam.
Renjun me guia até um prédio, dizendo ser o lado dos meninos. Na entrada tem um inspetor e ele explica que existem mais três para cada andar do dormitório. Tenho mais segurança pelas meninas terem um espaço exclusivamente delas do outro lado do campus. Por elas, é claro. O garoto sobe as escadas até o último andar me dando apenas explicações necessárias, nada mais. Sinto vontade de lavar seu cabelo engomado por gel e desabotoar um pouco seu uniforme. Essa aparência de correto quase me corrompe, mas respiro fundo e prossigo.
— Quer ajuda com a mala? — O pequeno rapaz pergunta enquanto eu encaro a porta com os dígitos 302 e encaixo a chave na fechadura.
— Relaxa, você já me trouxe até aqui... Obrigado.
— Certo, até depois. — Responde virando-se e indo embora.
A porta do quarto se abre e de cara eu posso ver duas camas naquele quarto. A de cima está apenas com o colchão e a debaixo está devidamente organizada.
— Ei, Renjun, espera!— Tenho sua atenção — Você sabe quem dorme aqui?
— Ah, um aluno também do último ano, o Mark. Ele costumava dormir sozinho e ia terminar a escola com esse título, mas agora tem você. — Diz a última frase forçando um entusiasmo, em seguida dando de ombros e preparando para voltar.
— Mais uma coisa!
— Sim? — Ele se vira e responde tão pacientemente que me faz imaginar que foi isso que o levou a ser esse ajudante. Mesmo assim questiono:
— Você não se importa de perder seu intervalo para ficar à disposição da escola?
— Não.
— Sei lá, você poderia estar fazendo amigos, fumando escondido, pegando alguém... — Posso ver seus olhos se encherem de uma surpresa desagradável e isso me faz rir um pouco — É apenas brincadeira, relaxa... Obrigado por me trazer.
Entro ainda cuidadoso no cômodo por ser totalmente algo novo. Nem eu acredito direito que realmente estou aqui, tendo que passar por isso.
O quarto é muito melhor do que eu estava pensando. O beliche é o mais legal que já vi. A parte de cima fica na horizontal e a parte debaixo na vertical. Posso ver algumas roupas na cama inferior deduzindo que a superior esteja livre para que eu faça o que quiser. E não tem problema meu pequeno medo de altura já que em poucos segundos tornou-se minha favorita a ponto de enfrentar o medo de cair de madrugada. A grade ao lado deve me conter.
O quarto ao todo tem uma decoração nem tão minimalista, ou maximalista. Se há um meio termo, aqui se encaixa bem. Os móveis são novos, os tons de branco e cinza que se espalham pelo quarto me fazem pensar que não irão sair de moda nunca. Na mesa de estudos em frente à janela há algumas coisas espalhadas. Não posso deixar de notar posters científicos, como a imagem de Nicolas Tesla e outro cartaz sobre o sistema solar. Em meio aos troféus e medalhas da prateleira ao lado, há uma estátua de dinossauro e uma bola de basquete no chão.
Sou filho único, nunca tive que dividir o quarto com ninguém. Mas ter que dividir com um nerd, aí já é sacanagem. Muito obrigado mais uma vez, Deuk-su, a vida vai te recompensar, pode esperar!
Largo a mochila ao lado da cama enquanto me aproximo devagar dos porta-retratos também na prateleira, quando o sinal toca ao longe, me assustando um pouco. Lembro-me das palavras repetidas da diretora Daihyun dizendo para eu vestir o uniforme e ir para a última aula depressa. Deixo um suspiro pesado escapar dos pulmões e sacudo o envelope na cama do meu colega, para retirar de lá a roupa escolar.
...
Custou um pouco até eu conseguir me achar no meio daquela multidão de alunos. Acabei indo parar na aula de canto, no refeitório e até na sala do zelador que me orientou a encontrar a sala correta para a próxima aula: inglês, com uma professora chamada Nayoon. Por sorte, cheguei antes do início.
Nunca fui um aluno nota 10 que sentava na frente e sabia a resposta de tudo. Ao invés disso, optei pelo equilíbrio. Sabia algumas respostas, mas fumava com os mais desinteressados. No entanto, os mais desinteressados dessa escola parecem meio diferentes. Tem grupinhos compostos por meninos e meninas que conversam pacificamente enquanto outros jogam algo. Não há celulares. E isso se espalha de formas parecidas pelo restante da sala. Ninguém grita ou fala muito alto, ou faz babaquices como jogar bola dentro da sala, ou batem uns nos outros, o que é bom. Assim posso prestar mais atenção no meu livro esperando minha primeira aula começar.
Após alguns parágrafos a porta se abre, mas não é a tal Nayoon, são alguns meninos. Noto não por olhar, mas por sentir a presença de vozes mais profundas. Ignoraria ainda mais se não estivesse sentindo um deles cada vez mais perto da minha direção. Minha mente só consegue pensar no motivo de eu estar aqui ainda. Estou desapontado com meus pais e não sei se quero interagir tão cedo.
— Com licença? — Ouço uma voz meio profunda e firme falar próximo de mim, mas não me importo de sequer levantar o olhar — Ei?
— Sim? — Respondo baixo, relutante quando finalmente ergo os olhos colocando-os no dono daquela voz e sentindo uma pequena surpresa apertar dentro de mim. Não esperava que fosse me deparar com um par de olhos tricolores e delineados encarando diretamente os meus. Nem com aquele visual atlético e os cabelos num degradê lindo de preto azulado e escuro. Consigo ver muitos detalhes por ele estar bem próximo de mim, com isso travei levemente, mas logo vou retornando da hipnose.
— Este lugar é meu. — Avisa com um sorrisinho nos lábios rosados e inteiramente lubrificados.
— Sim... — A palavra deixa minha boca esboçando minha falta de esforço. Talvez fosse pelo fato dele ser um dos meninos mais bonitos que já vi na vida, digo isso com toda tranquilidade.
Em partes porque entendi o que estava acontecendo aqui e como disse não estou a fim de interagir, tão pouco mudar de lugar quando já me acomodei. Tem tantas carteiras vazias por aí.
— E o que espera que eu faça?
— Então, você pode sair, por favor? — Diz de um jeito cuidadoso, um sorriso ainda tão gentil que quase me persuadiu.
— Por que eu faria isso? — Uso ainda o mesmo tom que antes, vendo seus lábios se fecharem.
— É que tenho miopia, acho que os óculos denunciam... — Ele ri fraco ao argumentar, mas já estou cansando — Consigo enxergar melhor porque sempre sentei aí.
— Agora não senta mais. — Pisco tentando usar um tom humorado, mas isso não parece divertido ao outro, que apenas assente e joga sua bolsa na carteira atrás da minha.
Penso no silêncio de seus dois outros colegas que há muito tempo sentaram-se na fileira ao lado e apenas volto meus olhos ao livro, mas a conversa ao lado tem minha atenção mais do que as linhas que insistia em reler mesmo sem prestar atenção.
— E então, o que o Renjun queria?
— Queria avisar que o rumor do menino novo era real e ele chegou essa manhã. — Ouço a voz dele respondendo e isso acende algo dentro de mim — A diretora queria que eu o levasse até o dormitório porque ele vai ser meu colega de quarto, mas eu estava na natação.
— Isso quer dizer que você não é mais o lobo solitário. — O mais baixo diz olhando-se no espelho enquanto arruma o cabelo minuciosamente.
— Não brinca. Quer dizer que eu perdi toda a minha privacidade!
— Fica frio, ás vezes é bom ter um colega de quarto.
— Vocês dois dormem juntos desde o nono ano, são suspeitos pra falar.
— Nós dormimos juntos? — Posso sentir seu amigo vaidoso sorrir.
— Não no sentido literal, vocês entenderam!
— Você se dá bem com todo mundo. Não te imagino nem xingando. — O outro tenta argumentar.
— Exceto quando invadem demais meu espaço! — O garoto de trás torna a reclamar e eu procuro conter o riso.
Nem ele e nem seus colegas se deram conta de que sou um rosto novo por aqui e saíram falando o que realmente pensam da ideia.
A porta de correr é puxada mais uma vez e agora uma mulher com um coque amarrando seus cabelos e uma saia florida entra. Por todos os outros se calarem imediatamente e começarem a se organizar, deduzo que seja a professora.
Fecho o livro que lia sem saber bem o que fazer depois disso. Estou há duas semanas atrasado do que os demais. Bem, agora nem pedir ajuda ao garoto de trás eu posso, imaginando que esse lugar realmente precioso a ele foi roubado por mim, assim como seu quarto.
A ideia de já ser desgostado não me abala. Mesmo sem nem me conhecerem. São minhas primeiras horas aqui.
A Senhorita Nayoon dá início à aula sem rodear muito. Escreve um título na lousa, mas não vejo ninguém copiar ou nada do tipo. Ela explica algo como o tema da discussão da vez e isso já me faz pensar que o modelo de suas aulas seja algo parecido com uma palestra. Me animo pela ideia de não precisar ficar anotando.
— Okay... — A mulher inicia — Antes de tudo eu quero que conheçam uma pessoa. — Senta no centro da mesa agarrando a borda com as duas mãos enquanto aponta o olhar diretamente para mim. Abaixo a cabeça por um instante e a levanto em seguida. Mudei de escola algumas vezes, essa parte não é mais novidade.
— Lee Donghyuck, certo? — Pergunta com um olhar entusiasmado, sorrio leve acenando com a cabeça, sentindo todos os olhares voltados para mim. Isso me faz soltar ainda mais o sorriso. — Quer falar um pouco sobre você?
— Não, obrigado. — Respondo simplista.
— Sei que chegou hoje a muito pouco tempo, deve estar sendo uma mudança e tanto, não é?
— Um pouco, sim... — coço o olho.
— Bem, espero que se dê bem e faça amigos, aqui todos ajudam todos. — Assinto compreendendo, cruzando os braços por cima da mesa, ouvindo-a se exaltar — E hoje você está com sorte! O meu ajudante semanal é também o seu colega de quarto.
— O que? — O rapaz de trás questiona confuso, quando ela prossegue:
— Mark, hoje vou pedir apenas para que você apresente o campus inteiro ao nosso calouro, tudo bem?
— Tudo bem. — Responde.
— Então, agora podemos começar. Abram seus livros na página 15.
. . .
O sinal toca anunciando o encerramento da aula e a sala se esvazia rapidamente, enchendo os corredores. Enfio minhas coisas dentro da mochila pensando em voltar direto ao dormitório e jogar esse uniforme o mais longe de mim. Tudo por causa das etiquetas que me provocaram algumas coceiras perto da nuca e na cintura o tempo todo.
Mark finalmente se levanta falando algo com seus amigos e se vira para mim, meio hesitante. Pode ser que já esteja pensando na conversa anterior sabendo que foi toda ouvida por mim.
— Eu posso começar te apresentando a escola, depois nós podemos...
— Eu me viro. — Respondo por cima colocando a mochila no ombro e deixando-o simplesmente.
Não me sinto muito à vontade com ele tendo que se aproximar forçadamente, já está claro que não está muito feliz em saber que iremos dormir no mesmo quarto a partir de agora.
Além do mais, eu acredito que vou sair daqui tão rápido quanto cheguei. Deve ser por isso que não me sinto impressionado com os aposentos e a diversidade discreta — mas ainda assim presente nas pessoas. Nem mesmo me impressiona a serra que rodeia o lugar o fazendo parecer como uma vila.
Pretendo estar longe da Teohai School o mais breve possível, e tornar tudo o que vivi hoje apenas lembranças insignificantes.
Durante o almoço, me deparei com um ensopado de carne e um belo suco de fruta, com maçãs verdes de sobremesa. Já vi que não deve existir alguma espécie de bancada vegetariana a qual eu faça parte. E se existe ela provavelmente passa fome. Mas não vejo como problema, por não estar com fome exatamente.
Sinto que no refeitório, onde todas as turmas se encontram, tenho duas vezes mais olhares em cima de mim. Olhares curiosos e interessados em saber quem era a nuvem de indiferença pairando sobre os cantos de cada lugar que eu ia.
Cheguei a pesquisar alguma coisa ou outra sobre o colégio e sei que existem pelo menos 300 pessoas morando aqui, incluindo professores e empregados. Está aí o motivo de reconhecerem facilmente um rosto novo.
Deixo o refeitório antes que algumas meninas que conversavam baixinho enquanto lançavam olhares indiscretos para mim viessem falar comigo. Caminho pelo campus sem rumo, de um jeito que foi muito fácil cada vez mais alunos ficarem para trás. Aproximo-me do muro gradeado ao ir por trás do prédio da escola. As janelas são altas e estreitas me fazendo pensar que talvez seja o vestiário ou algo assim. Na grade consigo ver uma parte violada perto de uma árvore. Tinha espaço o suficiente para passar uma pessoa ainda que desse um pouco de trabalho para não acabar se machucando.
Do outro lado tinha um barranco contido por outro muro de grades metálicas, acho que bem mais resistente. Na grama havia poucas pessoas. Um grupinho se falava enquanto um casal ao lado namorava como se não houvesse amanhã. Odeio héteros e odeio não poder fazer o mesmo.
Afastei os passos encostando-me à grade. Tirei do bolso um maço de cigarros ainda cheio. Não sou de fumar muito, mas acho que hoje mereço me acalmar um pouco. Olho para o lado preocupado se um desses me denunciar, mas acho que nenhum de nós deveria estar aqui.
Apenas acendo, enchendo de ar quente os meus pulmões, suspirando em seguida pela tranquilidade imediata. Fiquei mais perto do outro lado da grade, tendo visão do campus. Mas não muito alcance. Pude ver uma quadra a céu aberto onde uns meninos jogavam basquete. Nos cantos havia somente meninas assistindo o jogo enquanto conversavam.
Reconheci a bola de basquete azul de longe ao ser a mesma que vi no meu quarto. Em seguida, Mark surgiu no meio deles recebendo e indo para o próximo passe. Parecia ser bom jogador. Quando o fez, correu alguns passos para trás de forma que seus cabelos balançavam. Sua atenção estava inteira no jogo, e a minha estava nele.
— Lee Donghyuck! Não pode fazer isso aqui! — Ouço uma voz reconhecível atrás de mim e quando viro me deparo com Renjun me encarando. Suas sobrancelhas tensas. Penso em questionar como ele chegou aqui, mas me recordo que estou aqui em menos de um dia, enquanto o outro deve estar a vida toda — Por favor, tire isso da boca e apague!
Deixo o ar escapar dos meus pulmões fazendo uma nuvem de fumaça branca.
— Quer tirar pra mim? — Sorrio sugestivo, mas as orelhas do menino rapidamente se enrubescem e não parecia ser de acanhamento.
