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Talvez, apenas talvez, Nath não deveria ter vindo de salto alto para um acampamento, e talvez, só talvez, ela não deveria estar correndo e se escondendo da merda de um assassino enquanto pisava em terra. Será que iria custar muito se ela tivesse corrido para a mansão e não para a merda de uma trilha que levava para lugar nenhum?
Malditos saltos, ela podia desfilar com eles da forma mais incrível possível, ela podia ser facilmente confundida com uma modelo enquanto estivesse andando neles, mas cada vez que seu pé afundava em um pouco de terra, Nath sabia que não tinha um pingo de graciosidade em seu andar. Ela precisava desesperadamente ficar viva, principalmente se Nath queria dar belos tapas em Jorel mais tarde.
Ela não podia morrer ali, ela não podia, tinha vivido tão pouco, havia tantos lugares para ir, tantas comidas para experimentar, tantos livros para ler, tantas bocas para beijar. Por isso, em meio a lágrimas de desespero e esperanças perdidas, Nathalia fez uma promessa a si mesma: Quando tudo isso acabasse ela mandaria o próprio pai se ferrar e depois iria convidar Lila para sair, não necessariamente nessa ordem.
Seus pulmões gritavam pedindo para que Nath só parasse de correr, que ela só desistisse, e às vezes ela pensava nisso, apenas durante alguns segundos. “E se ela só deixasse que o homem a matasse assim como ele matou o Rogério? Provavelmente seria rápido, talvez indolor”. Mas, na mesma velocidade que esses pensamentos cruzavam sua mente, eles sumiam. Ela precisava viver, só mais um dia, Nath precisava viver só mais um dia, ver o sol nascer só mais uma vez, abraçar seu amigo de novo. Só mais um dia.
Uma mão agarrou a sua e durante milésimos de segundos, o mundo de Nath parou. Tudo ficou em silêncio, desde dos batimentos cardíacos que ecoavam em seus tímpanos até aquela voz interior que gritava "corra como se a sua vida dependesse disso!”, tudo ficou em câmera lenta, seu corpo parou de funcionar e Nath teve uma única certeza:
Ela iria morrer.
Mas, por algum motivo, isso não a assustou, pelo menos havia acabado, não é? Tudo iria parar de doer e ela não teria que lidar mais com a dor de ver seus amigos morrendo, com a dor da traição do seu melhor amigo.
Nath iria morrer ali, e isso podia, pelo menos, dar mais tempo para os outros.
Ela fechou os olhos, aceitando o inevitável, quando o mundo de repente voltou a funcionar em velocidade mortal e quem a segurava a puxou com tamanha força que Nath pensou que iria cair. E então, ela de alguma forma não morreu. E quando Nath abriu os olhos, lindos olhos verdes a encaravam fixamente, foi só quando ela percebeu no escuro e apertado lugar que ela estava.
Lila ainda segurava sua mão com força e a olhava de forma assustada. Elas estavam tão perto que ela conseguia ver as lágrimas de dor e desespero nos olhos de Lila, sabendo que tinha lágrimas iguais nos seus olhos, jesus, Nath conseguia sentir o coração de Lila batendo fortemente contra o seu.
Instintivamente, ela juntou suas testas, tentando não respirar alto demais, mesmo que seu sistema respiratório precisasse urgentemente de ar.
Ela não morreu.
Ela não morreu.
Nath estava viva e Lila tinha a salvado. Não era a hora de dizer adeus para o mundo, ainda não.
Lila respirava de forma pesada perto de seus lábios, alto demais, necessitada demais de ar e no mesmo instante Nath levou sua mão livre aos lábios da outra, colocando um dedo nos seus lábios, a calando. Agora elas estavam tão próximas, tão próximas, era um espaço tão pequeno e um mísero barulho iria matar ambas.
Em momento nenhum Nath deixou de olhar para os olhos verde esmeralda. Talvez fosse a adrenalina, talvez fosse o seu corpo querendo apenas alguma coisa antes de morrer, porque quando Lila fez um barulho estrangulado, precisando de mais ar do que apenas o seu nariz pudesse oferecer, Lila retirou seu dedo e seus olhos desceram até a boca de Lila, vendo ela se abrir para puxar mais ar.
— Nós não vamos morrer — Nath sussurrou tão baixo que se Lila a escutou era porque seus rostos estavam colados.
— Se.. se ele me pegar... eu quero que você fuja, Nath — Lila implorou, lágrimas e suor caindo entre elas.
— Pa–pare! A gente não vai morrer, Lila — Ela sussurrou de volta, agarrando a nuca de Lila com força. Não, não era a hora delas, elas não podiam morrer. Não era a hora, não era a hora, não era a hora, não era a hora
— Se ele vier atrás de mim, me prometa que vai fugir, Nath, por favor. Viva por mim, assim como eu viveria por você — Implorou ela novamente, urgência derramava de sua voz que não passava de um sussurro.
— Eu não vou deixar você sozinha — Rebateu Nath, puxando a cabeça de Lila para mais perto, até que seus lábios se encostassem.
Não havia malícia, era apenas… algo que parecia com uma despedida, mas que não podia ser uma. Não era, não era. Nath jurou a si mesma que não aquele não iria ser o último beijo delas, não podia ser.
Quando Lila separou seus lábios, uma de suas mãos fazia carinho no rosto de Nath — Se.. se eu morrer, dê um adeus para o Lê por mim.
— Luta comigo, Lila. Jure pra mim que você vai tentar ao máximo ficar viva — Quando ela não respondeu, a voz de Nath deixou de ser um sussurro quase mudo — A gente vai tentar até o final, entendeu?. E quando sairmos daqui eu vou te levar em um jantar, eu prometo
Lila quase riu, e mesmo com o som não tendo saindo, o coração de Nath falhou por alguns segundos — Eu vou lutar até o final, eu prometo, Nath
Apesar dela estar na maior perseguição da sua vida, estar lutando contra a morte e contra um maldito que queria caçar ela e seus amigos, uma gota, apenas uma gotinha, de alivio caiu em seu coração acelerado. Tudo iria dar certo, elas iriam ficar vivas, o Jorel, o Leandro e a Shanyqua iriam ficar vivos e todos eles iriam lembrar desse dia, e eles iriam honrar o Ronaldo, indo em jogos de basquete e torcendo pelo Ahnidras como malucos. Eles iriam sair dessa vivos e bem, tudo iria ficar bem. Nath iria ficar bem.
Tava quase acabando, o sol quase estava nascendo, o louco lá só caçava de noite, então tudo estava próximo de ficar bem. Elas iriam sair dali, iriam pegar o carro e ir na merda de uma delegacia e depois voltariam para suas casas e nunca mais iriam pisar em um acampamento. Ela iria levar Lila para um bom restaurante e elas iriam rir a noite toda, com sorte, no final, Nath iria poder beijar Lila adequadamente. Tudo iria dar certo.
Até que Lila cometeu o pior erro do mundo, ela deu um passinho para o lado, colocando sua cabeça para fora do local que elas estavam, e quando o fez, um grito aterrorizante e doloroso saiu de seus lábios. Lila caiu instantaneamente para frente, gritando tão alto que até mesmo os pássaros voaram para longe. Esse som iria ficar gravado na mente de Nath para sempre, o grito de dor e terror, o grito que iria condenar suas vidas.
Ela não queria olhar para baixo, realmente não queria, mesmo que as palavras de Lila soassem parecidas com pé
Mas, Nath era curiosa, ela gostava de saber das coisas, Jorel dizia que a curiosidade dela era ao mesmo tempo entusiasmante quanto aterrorizante.
Então, ela olhou para baixo e viu a pior visão da sua vida, a coisa mais assustadora do que estava lá fora e dos inúmeros livros de terror que um dia já leu.
Uma armadilha de urso estava fechada no pé de Lila.
