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Veríssimo.
Como um mantra, Labirinto repetia essa palavra até que ela parasse de fazer sentido em sua mente. Quem era Veríssimo? Ele o odiava? O amava? Era seu herói? Ou o que tinha destruído sua vida? Ambos? Teria como ser ambos?
Sentado na beira do “segundo andar” e com as pernas para fora, Laby tentava entender o que acontecia consigo, nem o labirinto que ele mesmo fez com o seu sangue o conseguia tirar da sua mente. Ele faria coisas horríveis para descobrir quem era, para descobrir aquela parte que faltava em si mesmo. Seu corpo, sua mente, eram preenchidos pelos únicos pensamentos que importavam naquele instante, seus amigos, Veríssimo e a Ordem. Laby já sabia que estava condenado, não importava o quanto pensasse, sua mente sempre bateria em uma parede que o impediria de lembrar do passado.
Nada era relevante o bastante para o tirar de seu devaneio, nada iria o distrair. Mesmo que o fim sempre fosse o mesmo, ele não iria parar de tentar.
— Labirinto, vamo’ dormir, porra — Ah, tirando ele. Aguiar estava começando a conseguir se infiltrar na mente de Labirinto e o tirar do ciclo infinito que era sua mente. Provavelmente ele era o único com a capacidade de fazer isso.
Um suspiro escapou da boca dele e Labirinto teve que se segurar para não instantaneamente olhar para Aguiar, ele tinha receio que se olhasse por muito tempo, o delegado iria descobrir todos o seus mais profundos segredos, mesmo que nem ele próprio soubesse deles — Aguiar… — ele usou toda sua força de vontade para que o outro homem não percebesse que sua voz tremia — você sabe o que está te esperando fora daqui? — Labirinto continuou olhando para frente, tentando se perder no mar de areia.
Aguiar não o respondeu instantaneamente, parecendo pensar na resposta —Tudo o que eu me lembro… só me traz mais dor — Uma pausa quase grande o bastante para que Laby ousasse cogitar a ideia de olhar para Aguiar — às vezes, até medo. Quer dizer…
— Eu… — Ele tentou o interromper, mas isso só resultou em Aguiar se sentando ao seu lado, quase perto demais para que Laby pensasse em se afastar.
— Se eu topei vir pra cá, — O homem olhou para o deserto infinito — o que eu vivi lá fora.. não deve ter sido tão diferente.
Então Aguiar virou seu rosto para Labirinto, e não havia forças no mundo capazes de impedir que Lab olhasse para ele, e durante um instante – talvez longo demais – ele apenas o encarou. Será que Aguiar estava consciente de como ele se parecia? Ele queria ficar impossivelmente mais perto, mas não podia, não agora, não ali. Por isso, Laby tentou desviar o olhar, mas ele não conseguia, Labirinto era fisicamente incapaz de parar de olhar para Aguiar. Mesmo que o outro estivesse sujo de sangue, barba por fazer e cabelo despenteado, ele não conseguia.
— Eu… não, esse corpo ‘tá me deixando um pouco desesperado, — Labirinto deixou escapar — então, eu preciso falar com alguém sobre o que eu vi — Ele torcia para que Aguiar não notasse a esperança rouca em sua voz.
O delegado não sorriu ou o olhou com pena, apenas aproximou-se de Labirinto — O que você viu?
Ele voltou a olhar para frente, sua mente iria ter um curto-circuito se continuasse a olhar para Aguiar — Por enquanto, não fala para ninguém, — Pediu — porque é uma coisa minha — Labi já se sentia mais sóbrio por não olhar para o homem ao seu lado, sóbrio o bastante para que soubesse que queria desesperadamente que Aguiar contasse algo de si mesmo também — Por garantia, eu peço que você conte algo de volta.
“Egoísta, egoísta.” O consciente de Labi gritava para ele. Ele não podia oferecer um pensamento seu em troca de um pensamento de Aguiar, ele sabia que o homem era confiável. Ansiedade brotou nas suas veias, correndo por debaixo da sua pele, ele não saberia o que fazer se Aguiar negasse, se Aguiar não lhe escutasse. Ele se surpreendeu quando Aguiar disse com rouquidão:
— Prometo.
Ele se viu virando o rosto para o olhar novamente, as palavras já saindo da sua boca e sua mão se estendendo sozinha — Fechado.
Aguiar agarrou sua mão e Labirinto agarrou a dele de volta. Um vazio se instalou no seu peito quando eles se soltaram um segundo cedo demais. Ele reprimiu toda a sua vontade de se agarrar novamente a Aguiar, fechando os olhos e torcendo para que o homem não percebesse a imensidão de sentimentos que borbulhavam dentro de Labirinto.
— Olha, o nome “Senhor Veríssimo” ou Verissimo bateu tão forte na minha cabeça porque… aparentemente… ele… — Labirinto teve que respirar fundo, ele odiava não ter suas memórias, ele odiava não saber. Laby se contorceu, deixando o tique sair pela sua espinha — … é que… ele matou minha família… ou os meus amigos, ou… — Assim que as palavras sairam de sua boca, Laby percebeu o quão idiota ele soava, como ele poderia culpar alguém se ele nem mesmo sabia o que essa pessoa fez? Ele se apressou para tentar se corrigir, para tentar salvar o seu resto de dignidade — Ele matou alguma coisa importante pra mim, eu não sei — Sua fala saiu rápida e quando ele abriu os olhos, Laby não soube dizer se Aguiar o entendeu ou não.
Todos os dias, Aguiar o surpreendia; na verdade, a cada segundo Aguiar o surpreendia. Labirinto queria se segurar nele como se ele fosse sua tábua de salvação — Você acha que isso é uma memória… sua como agente da ordem ou do Labirinto — Mesmo com os olhos ainda fechados, Labirinto sabia no fundo do seu coração a forma como Aguiar gesticulava ao falar, ele sabia que o homem apontava pra ele e mexia as mãos.
Outro tique saiu, mas dessa vez pelo seu pescoço, Labirinto se contorceu novamente e um arrepio subiu pela sua espinha. Laby odiava seus tiques e se sentia envergonhado toda vez que se contorcia ou piscava de forma estranha, ele sabia que seus… colegas não ligavam, sabia que Aguiar não se importava, mas ele ligava.
Ele balançou a cabeça negativamente — Não parecia ser… — outro tique — desse corpo — outro tique e Laby estava começando a se irritar profundamente com isso. Ele abriu os olhos e encarou diretamente o rosto de Aguiar, seu próprio rosto manchado de desespero e medo — É… era… muito real… eu… eu.. minha voz não saia, não… era nada…— Ele balbuciava, só se relembrar o lampejo de memória fazia com que Labirinto se sentisse aterrorizado, as palavras agora saiam em uma torrente, Lab não tinha mais como parar — Minhas memórias estão incrustadas no Labirinto, e o que eu me preocupo é: a gente se submeteu a isso, mas, o que tem lá fora? — Labirinto encarou os olhos de Aguiar, tentando mostrar tudo que preenchia o seu cérebro — O que tem depois do Hexatombe? — Ele engoliu seco, finalmente deixando um pouco de toda a sua raiva sair — A gente quer tanto ficar vivo, mas pra que se a gente não sabe o que quer fazer?
— A gente tem que acabar com essa merda — Aguiar parecia tão raivoso quanto ele, isso era um alívio, Laby não estava sozinho.
— E você? — Ele se viu perguntando. Agora que tinha começado a falar, começado a liberar tudo, Labirinto não conseguia mais se impedir de revelar todos os seus segredos para Aguiar e querer que Aguiar revelasse todos os seus segredos para ele.
— Eu não confio em nenhuma dessas equipes de malucos psicopatas e seja lá o que a porra da coroa de espinhos garante a eles — Aguiar quase rosnou, Laby conseguiu perceber isso. O delegado estalou a língua, também irritado, também com raiva, também frustrado com a merda do Hexatombe.
— O que que… o que que você viu? — Outro tique, outro arrepio, novamente seu pescoço se contorcendo de uma forma impossível.
O silêncio se estendeu por eles e Labirinto sentiu seu ar sendo roubado quando Aguiar fechou os olhos, pensando, refletindo. Ele ficava ridicurlalmente belo daquela forma, olhos fechados, boca meio aberta, parecendo que fazia um esforço para buscar a memória no fundo de sua mente, banhado pelo luar. Se Labirinto fosse um pouco mais ousado ou um pouco menos covarde, ele deixaria sua mente voar para longe com a ideia de ser o único a ver Aguiar assim. Verdadeiro, vulnerável, apenas dele.
Aguiar ofegou e outro arrepio chegou à espinha de Laby, mas dessa vez, não por causa de um tique nervoso.
O homem abriu os olhos e encarou suas mãos, juntando seus lábios em uma linha tensa — Eu sei que eu era jovem, — Ele levantou o olhar para Labirinto — muito jovem — Aguiar respirou fundo, ele parecia estar sofrendo e inconscientemente, Labirinto ergueu sua mão e agarrou a de Aguiar, no instante em que seus dedos se tocaram, Aguiar o segurou com força — Eu sei que a Ordem chegou muito tarde, — Ele murmurou em um misto que parecia ser de raiva e tristeza — muito, muito, muito tarde.
Labirinto apertou a mão de Aguiar, desejando poder fazer mais, poder destruir quem quer que tivesse o machucado, poder o consolar de uma forma melhor, mas ele não o fez, ele não fez nada além de olhar Aguiar e segurar sua mão. Labirinto não sabia como ajudar o seu amigo que morava em seu coração e era o dono de seus pensamentos.
— E ainda sim, eu to nessa merda — Ele esbravejou, sua mão livre se fechando em um punho — Você…
Antes que Aguiar conseguisse terminar a frase, Labirinto o interrompeu — eu…
Aguiar balançou a cabeça e apertou mais a mão de Laby — Você acredita em Deus? — Ele disse, encarando Labirinto como se conseguisse enxergar até seu último pedaço de alma. Os olhos dele estavam nublados, turvos, Aguiar parecia quase necessitar ele.
Quando Laby não respondeu, Aguiar usou sua outra mão para levantar o seu rosto, que ele nem mesmo tinha percebido que havia se virado para outro lado. O toque dele era… doce, carinhoso, até. Ele cuidadosamente fez com que Labirinto o olhasse nos olhos e isso foi o bastante para que vermelho subisse por suas bochechas, a sombra de um sorriso surgiu na boca de Aguiar e segundos depois sumiu, sua expressão voltando a ficar séria — Labirinto… — Aguiar pediu.
A questão era que nesse momento, tudo havia desaparecido para Labirinto, não existia mais passado, futuro ou presente, apenas Aguiar segurando seu rosto e o olhando como se ele fosse uma divindade. Ele não respondeu porque não sabia o que responder, a pergunta e a resposta tinham sumido de sua mente e tudo que Labirinto conseguia identificar era seu sangue batendo em suas veias e artérias de forma forte e rápida; as pupilas de Aguiar dilatadas e tanto a respiração dele, quanto a de Labirinto, ofegantes, como se o ar não fosse mais o bastante para alimentar seus pulmões – mesmo que eles estivessem em repouso. Ele preferiu acreditar que seu corpo estava reagindo assim por causa da raiva, mesmo que soubesse que era mentira.
Labirinto sabia que em sua volta estava um silêncio constrangedor, sabia que Aguiar esperava uma resposta, mas ele não lembrava a pergunta, e achava que mesmo que lembrasse, não seria capaz de responder.
Ele fechou os olhos e se inclinou para o toque de Aguiar, fugindo da intensidade do momento como o covarde que ele era. Assim, Laby conseguiu colocar seus pensamentos no lugar, movimentando as engrenagens de seu cérebro para processar a resposta que ele sabia que tinha que dar. Propositalmente, Labirinto ignorou todo o resto da situação que estava envolvido, ignorou sua mão agarrada na mão de Aguiar, ignorou seu rosto sendo segurado por ele, ignorou o olhar de mil sóis que sabia que estava sendo direcionado para si.
Respirando fundo, ele abriu os olhos e sentiu seu coração falhar em manter o ritmo ao ver o rosto de Aguiar, mesmo que eles se vissem todo o dia, o tempo todo, mesmo que segundos atrás ele estivesse olhando para Aguiar, ainda era uma surpresa, ainda fazia um frio subir pela sua barriga, ainda fazia um suspiro sair de seus lábios — Acho que no momento, não.
O rosto de Aguiar se iluminou e Labirinto se amaldiçoou por não ter mais tempo com ele — Eu também não acreditaria, — ele afirmou, seu polegar se movimentando lentamente contra a maçã do rosto de Labirinto — mas se tem tanta coisa horrível do outro lado, se tem tanta dor, tanto medo, tanto diabo… tem que ter alguma coisa boa — Aguiar parecia implorar, seu semblante mudando de algo que Labirinto não queria reconhecer para algo parecido com raiva, e depois mudando novamente para outra coisa que parecia com… devoção.
Labirinto sentia suas mãos suadas — Eu quero… — o que ele queria? Ficar mais perto de Aguiar? Deixar suas mãos viajarem para o cabelo dele? Se inclinar mais para o seu toque e prometer que sempre estaria ali? Fugir para longe e abandonar a ideia de impedir o Hexatombe? Ele não sabia, a única coisa que Labirinto sabia era que ele queria algo, só não sabia o que. Outro tipo de fome arrepiava sua espinha.
— E se não tiver.. que essa porra seja a gente — Aguiar soltou suas mãos, levando a outra também para o rosto de Lab. Agora ele segurava Labirinto entre as suas mãos firmemente. Eles estavam tão próximos que Labirinto precisaria apenas se inclinar alguns centímetros para encostar suas testas, para poder encostar em outra coisa. Ele usou toda sua força de vontade para não baixar seu olhar para a boca de Aguiar, ele sabia que se fizesse isso, não conseguiria impedir outras coisas.
Labirinto pensou que talvez, apenas talvez, não era só ele que via o outro como sua tábua de salvação, porque a forma que Aguiar o olhava, como se ele soubesse todas as respostas do mundo, como se Labirinto fosse a coisa mais mágica do universo, indicava que talvez fosse mútuo, talvez Aguiar também o visse como se ele fosse a coisa mais próxima de Deus que poderia existir.
— Olha… — Labirinto respirou fundo, finalmente conseguindo controlar sua respiração, ele se inclinou mais para o toque de Aguiar — E-eu… eu… eu entendi também… quando você falou “rubra”... é.. minha primeira experiência foi com isso — Ele sabia que estava fazendo pouco – ou nenhum – sentido, Labirinto apenas jogava as palavras e esperava que Aguiar entendesse, mas Aguiar sempre o entendia.
O rosto de Aguiar se contorceu em horror mais puro, ele tentou disfarçar, mas Labirinto percebeu instantaneamente — Rubra?
— Rubra… eu perdi amigos pra’ a rubra — Ele explicou, tentando segurar um tique para não interromper aquele momento. Infelizmente, Labirinto não conseguiu segurar seu tique por muito tempo, lembrar daquilo, de como os seus amigos se perderam para a droga, fazia com que ele quisesse chorar, Laby contorceu seu pescoço e piscou um olho só. O delegado continuou ao o segurar entre as mãos, suavemente o bastante para que Labirinto pudesse ter seus tiques sem se importar.
Aguiar suspirou aliviado por não ser ele o viciado em rubra, mas ele ainda estava claramente abalado, Labirinto se perguntou quantas pessoas doentes por causa de drogas ele já havia visto em suas memórias de policial — Sabe, — começou — quando a gente tava no show do Psikolera e eu vi as pessoas… viciadas, eu senti uma repulsa, um ódio — Aguiar encarou Labirinto, uma de suas mãos deslizando pelo seu rosto e se agarrando a sua nuca, um arrepio surgiu ali e Labirinto se contorceu novamente. O toque de Aguiar era tão delicado, tão doce, ele se agarrava a Laby como se ele fosse a coisa mais preciosa de todo mundo — E foi… eu só não sabia explicar…não sabia… eu só fiquei com muita raiva deles — Ele destacava cada palavra com uma aperto leve na pele de Labirinto, a mandíbula de Aguiar estalou.
Um pensamento surgiu na mente de Labirinto, e se – apenas “e se” – Labirinto fosse o viciado em rubra, não seus amigos? Aguiar ainda estaria o segurando daquela forma? Ainda estaria tão perto dele? Ainda o olharia daquela forma? Seu peito esquentou, mas logo o calor de medo sumiu quando as unhas de Aguiar rasparam seu pescoço e outro tique surgiu, ele não soube identificar se tinha se arrepiado por causa dele ou por causa do tique, Laby não queria descobrir.
Os dedos de Aguiar dançavam pela sua pele carinhosamente, não deixando um segundo passar sem fazer uma carícia no rosto de Labirinto ou em seu pescoço, e isso foi o bastante para que ele se acalmasse. Não havia espaço para ansiedade ou medo ali, havia espaço apenas para eles.
— E às vezes tem algumas outras coisas que me trazem esses sentimentos bizarros… é… é… eu não consigo explicar direito, eu ‘to morrendo de sono — Aguiar riu, fitando-o de uma forma que Labirinto não identificava, mas parecia fome — Mas, é cada coisa que eu vejo e… são migalhas que vão se juntando.. — O rosto dele voltou a ser sério — me lembrando de quem eu era.
Labirinto não sorriu, e em um lapso de coragem e emoção, permitiu-se um segundo de satisfação, colocando um fio de cabelo de Aguiar atrás de sua orelha — Eu entendo — E ele realmente entendia. Sua mente atualmente era um quebra-cabeça de memórias que Labirinto tentava encaixar, ele só queria descobrir quem era, e faria de tudo para que isso acontecesse.
Ele sabia que ainda estava corado, mas ficou feliz ao ver que vermelho também surgia nas bochechas de Aguiar.
Outro tique escapou de Labirinto, esse sendo segurado por Aguiar. Dessa vez, quando Labirinto piscou, sentiu suas pálpebras demorando um segundo extra para se abrirem, sono estava começando a dominar ele. Labirinto queria bocejar, mas ele não podia estragar o momento tão raro naquele caos.
— Vamo’ dormir — Aguiar pediu, ainda segurando Labirinto.
— Vamo’ — Ele confirmou.
Nenhum dos dois fez um único movimento para se soltar. Eles continuavam parados ali, sem mexer um músculo para ir dormir. Labirinto teve que segurar o sorriso diante daquela situação quase patética que estava vivendo. Ele era um assassino, um adulto, mas se sentia um adolescente agora. Corado, confuso, e pedindo aos céus que não deixassem que Aguiar se separasse dele.
Ele precisava comprar mais tempo, ele precisava ter mais tempo com Aguiar, sua boca começou a falar antes que ele sequer terminasse o raciocínio — A última coisa é… — Labirinto se desesperou por alguns segundos, tentando buscar alguma assunto para que a conversa não acabasse ali — a gente vai achar isso… essa coisa positiva que você falou, mas.. o mais importante.. a gente saber… que a gente tem que fazer… e o que tem do outro lado esperando a gente… a gente precisa ficar vivo.
Honestamente, Labirinto não fazia a menor ideia do que estava balbuciando, ele tinha quase certeza que suas palavras fariam algum sentido se ele se esforçasse o bastante para construir a frase. Mas ele estava ligeiramente desesperado para que Aguiar continuasse ali e sua mente estava vazia sem ideia de como continuar a conversar.
Aguiar sorriu fracamente, concordando com ele com a cabeça, e então, lentamente, puxou suas mãos para si mesmo com um deslize. Ele parecia tão decepcionado quanto Labirinto — Boa noite.
Com um suspiro, tentando mascarar suas emoções, Labirinto balançou a cabeça — Boa noite — Respondeu se levantando em um movimento só.
Como o covarde que Labirinto era, ele se afastou da forma mais rápida possível, dando passos longos e indo para o canto do telhado. Ele definitivamente não queria dormir no primeiro andar, sentia que acordaria no meio da noite com Henri ou Kemi fazendo alguma coisa de errado, e como Laby não era um bicho do mato, não dormiria lá fora. Bom, quem diria que dormir sob as estrelas seria algo que Labirinto faria? Ele avistou tapetes que pareciam ser confortáveis o bastante para dormir se ele os dobrasse da forma certa.
Ele deixou sua antena de canto e se abaixou, tentando organizar sua cama improvisada. Labirinto escutou som de passos e torceu para que isso significasse que Aguiar estava descendo e lhe daria a dignidade de poder se afundar em sua própria mente sozinho, mas os passos se aproximaram e Labirinto conseguiu ver de canto de olho Aguiar levantando uma mesinha que tinha ali
— O que ‘ce ‘tá fazendo? — Labirinto virou o rosto para Aguiar, que agora colocava a mesa em um canto longe e voltava com passos profundos.
Aguiar fez uma careta em confusão — To me ajeitando pra dormir…? — Labirinto não fazia ideia se isso era uma afirmação ou uma pergunta, e imaginava que nem Aguiar saberia responder isso.
O silêncio entre ambos gritava para que um deles quebrasse o silêncio, felizmente, Labirinto lembrou que tinha uma voz — Você…vai dormir… aqui? — Outro tique, suas palavras eram cautelosas, Laby não queria quebrar o que quer que estivesse entre eles. Ele olhava para Aguiar com choque, Labirinto não sabia se o seu coração seria capaz de bater normalmente se Aguiar dormisse ali, com ele.
A confusão adorável de Aguiar se retorceu e virou algo que Labirinto nunca mais queria ver, Aguiar deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco nas costelas, seu lindo sorriso se retorceu em uma linha dura e seus olhos que antes pareciam como as mais brilhantes esmeraldas se apagaram — E-eu.. eu posso descer — Ele sugeriu, e nem um segundo depois balançou a cabeça — Eu vou descer — Ele se corrigiu.
Aguiar queria dormir junto dele e Labirinto não sabia como lidar com isso, só sabia que tinha lidado da forma errada, porque Aguiar agora se virava e ia em direção à escada. Laby queria que Aguiar ficasse ali? Ele estava preparado para esse tipo de intimidade, quer dizer, ele já tinha lançado basicamente todos os segredos que tinha, Laby tinha basicamente aberto sua mente para Aguiar. E estava frio.
Sim, ele queria pra caralho que Aguiar dormisse com ele.
Um som que parecia com uma palavra saiu de sua boca e Aguiar parou de andar, virando-se lentamente para observar Labirinto. Laby esperava que Aguiar tivesse entendido o que ele queria dizer, mas o homem não se aproximou nem se afastou, ele não fazia a menor ideia do que Labirinto tinha falado.
Ele coçou sua garganta, respirando fundo para procurar uma gota de coragem em seu peito — Você pode ficar — Nem Labirinto acreditava que estava dizendo essas palavras, muito menos Aguiar, que ergueu uma sobrancelha.
— Como? Você pode repetir? — Ele sorriu maliciosamente, ameaçando dar um passo para trás.
Raiva borbulhou nas veias de Labirinto, ele estalou a língua — Vem pra cá, filho da puta — Sua voz não era nada mais do que um sussurro irritado.
Sem pensar duas vezes, Aguiar se aproximou quase correndo de Labirinto, um sorrisinho envergonhado em seus lábios que combinava perfeitamente com suas bochechas coradas — Sim, senhor — E então ele se abaixou, sentando-se no chão e Labirinto explodiu por dentro.
Ele fechou os olhos, deixando seu pescoço se contorcer. Aguiar, Aguiar, Aguiar. Sua mente se tornou um vazio que era apenas preenchido pelo homem ao seu lado que o obedeceu sem hesitar. Ele sabia que estava paralisadoo, mas também sabia que se ele se mexesse, se arrependeria. Por isso, Labirinto não se importou em deixar que Aguiar arrumasse os tapetes ou terminasse de tirar os móveis de perto para que eles tivessem mais espaço.
— Você acha que o Pomba pode tentar machucar o Henri? — Aguiar pergunta, quebrando o paradoxo que a mente de labirinto tinha virado em poucos segundos em silêncio.
— Como? — Naquele momento, para Labirinto, só existiam duas pessoas no mundo, ele e Aguiar. Ele não tinha a menor ideia do que o outro estava falando.
— Sei lá, vai que ele é um espião dos vampiros e só quer matar o nosso sacrifício? ‘Tá todo mundo dormindo a essa hora seria fácil cortar o pescoço do Henri — Ele continuou, dobrando uma parte do tapete para fazer um pequeno travesseiro.
Labirinto piscou. Aguiar, o Delegado, estava falando de espionagem e entrando numa espiral de ansiedade, tal qual Labirinto segundos atrás — Ele ‘tá muito machucado para isso… — um tique — se ele sequer tentar se levantar… vamos ouvir — Tranquilizou Laby, porque aparentemente ele o racional que era uma bolha de ansiedade e desconfiança fazia isso para acalmar seus amigos, ou, mais especificamente, para acalmar Aguiar.
Aguiar riu e finalmente se sentou na cama improvisada. Labirinto não podia deixar de notar que ele só tinha feito uma cama, seu coração quase saiu pela boca com as implicações disso — Desculpa, eu ‘to com sono, — ele coçou a garganta — sono é igual a noia.
A voz de Labirinto tremeu — Então dorme — ordenou.
O delegado suspirou e se deitou nos tapetes, colando suas costas na parede e ficando de lado. Naquela posição, Aguiar era gigante, Labirinto tinha certeza que o homem conseguiria cobrir todo o corpo dele com o seu, mesmo que Laby fosse mais alto, Aguiar era claramente mais forte. Ele segurou seu olhar, recusando-se a olhar mais para baixo, a explorar o corpo do amigo com os olhos.
— Você não vem? — Aguiar indagou, franzindo a testa daquela forma que fazia o estômago de Labirinto se revirar com borboletas.
Ele engoliu seco, desviando o olhar para alguns metros dali — Posso dormir para lá, não tem problema — O seu peito batia tão rápido que Laby tinha quase certeza que aquilo era um infarto.
— Não… digo.. por que nós não… — Aguiar tossiu e isso foi o bastante para Labirinto voltar a olhar para ele — eu usei todos os objetos confortáveis daqui… a gente pode… é.. ficar junto’, não é?
E assim, de forma tão simples e com tão poucas palavras, todos os neurônios de Labirinto se explodiram. Ele não sabia mais falar, não sabia mais pensar, não sabia mais nada. Um olhar de choque morava em seu rosto e ele não sabia como o tirar dali. A expressão de Aguiar era em uma parte confusa e em outra parte esperançosa, formando uma carranca adorável, um gosto familiar ficou na língua de Labirinto e ele percebeu e naquele momento, Aguiar parecia mais consigo mesmo do que como um agente da ordem, com uma careta confusa e impaciente em seu rosto somada com um brilho nos seus olhos que Labirinto se arrepiava só de lembrar que ele estava assim por ele.
Aguiar se mexeu, desviando o olhar para o céu noturno. Ali eles estavam longe da poluição, logo, lindas estrelas podiam ser vistas do céu. Laby demorou um pouco para entender que Aguiar estava esperando uma resposta. Ele puxou ar, tentando acalmar sua respiração, em pouquíssimos segundos, Aguiar tinha o deixado sem ar só conversando.
Era Aguiar ali, ele era seu amigo, eles estavam no meio do nada. Não tinha nada o que temer naquele momento.
Era só Aguiar.
Labirinto piscou lentamente, seus pensamentos nublados por causa do sono — Tudo bem.
A boca de Aguiar – que Labirinto definitivamente não estava encarando – se repuxou no que parecia ser um sorriso — Qual lado ‘ce quer?
Labirinto fechou os olhos novamente, já se preparando mentalmente para responder “qualquer um”, mas algo o impediu. Seu peito apertou com horror da ideia de alguém invadir a mansão, ele era o suposto líder, tinha que ficar de olho, tinha que estar na linha de frente. Ele exigiu a verdade de Aguiar mais cedo e contou as suas, qual era o ponto de mentir agora? — Quero ter visão da escada… só pra… caso aconteça algo.
O delegado murmurou em reconhecimento das vontades de Labirinto — Então eu fico onde eu ‘to… — ele apontou para o resto do tapete que ele não estava ocupando — e ‘ce fica aqui, beleza?
Ele confirmou, sendo necessário alguns segundos antes de Labirinto se ajoelhar cautelosamente ao lado de Aguiar, ele ainda estava tentando descobrir exatamente como ficaria. Então, ele se viu pensando sobre mais cedo, a forma cautelosa que ele abriu aquele caixão e a criatura aterrorizante que havia saído de dentro dele. Labirinto sabia que logicamente falando, isso tinha sido a algumas horas atrás, mas, em sua mente privada de sono, ele sentia como se fizessem semanas. Parecia que aquele evento e o presente tinham décadas de distância, ele estava tão longe que Laby mal lembrava a sequência dos acontecimentos.
— Você se lembra de mais cedo? — Outro tique — quando a gente brigou com o… bicho dentro do caixão?
— E alguns minutos depois aquela mina chegou pra dizer que algum de nós tinha morrido? — Aguiar respondeu tão prontamente que Labirinto tinha a impressão que ele também pensava nisso. Uma risada quase escapou dele, eles estavam conectados. Claro, esse pensamento rapidamente foi justificado pela premissa que era o sono falando e pensando por Labirinto.
— Parece que faz tanto tempo, — Laby continuou — mas… isso deve ter acontecido ontem.
— Não tem um elemento aí do paranormal que mexe com o tempo?
Labirinto abriu os olhos com dificuldade — Sim, morte.
— É a morte mexendo com a nossa cabeça.
De repente, a história – o medo, o carinho e o comentário de Aguiar, “mexendo com a nossa cabeça” – ficaram familiares demais para Labirinto. Se ele concentrasse o bastante, Laby torcia para conseguir se lembrar de onde aquela familiaridade viria. Quando a memória não chegou em sua mente, Labirinto desviou o olhar, e sabia que Aguiar também pensava o mesmo. Havia algo ali que dizia que gritava “isso já aconteceu antes!”, de uma forma que nenhum dos dois podia ignorar e não saber o que era matava Labirinto por dentro.
Ele engoliu seco, finalmente encontrando a coragem de se deitar. Devagar, Labirinto inclinou o corpo, pouco a pouco, até que seus ombros se encostassem na superfície quase macia o suficiente do tapete. Laby tinha a impressão que Aguiar conseguia ouvir o desespero de seu coração que parecia que sairia do seu peito, que Aguiar conseguiria sentir o suor de suas palmas ou ver o vermelho de seu rosto.
Deitado de costas para o chão, Labirinto sabia que ele não precisava ser um gênio para saber que os dois estavam tentando fingir estar confortáveis com o silêncio. Não era só o tapete frio que era desconfortável, ou o silêncio que gritava mais do que mil palavras, eram os malditos cinco ou seis centímetros de espaço entre eles que Labirinto tinha a impressão que tinham se tornado setenta metros.
A covardia de Laby se tornou mais evidente para ele quando ele virou as costas para Aguiar. Quanto mais impessoal aquilo fosse, melhor seria para ambos os lados. Ele realmente tentou ignorar o calor do seu peito ou a necessidade de olhar para Aguiar, de tocar em Aguiar.
Labirinto tentou dormir, fechando seus olhos com a intenção de cair na doce canção do sono. Mas assim que o fez, um pânico suave e sem sentido chegou em Labirinto. De olhos fechados, virado para a escada e em silêncio, Laby não conseguia identificar Aguiar. Ele sabia que o homem estava ali, sabia que Aguiar estava a poucos centímetros de distância dele, mas mesmo assim, Labirinto teve que lutar contra o impulso de tatear o tapete até encontrar alguma parte de Aguiar.
Por isso, ele fez a segunda coisa menos covarde, ele falou em voz alta apenas para escutar Aguiar responder — Você sabia que… — no exato momento em que as palavras deixaram sua boca, Labirinto se arrependeu profundamente delas — o sertão é… hum… — outro tique — o sertão é frio a noite por causa da umidade do ar? O ar não consegue… reter o calor acumulado durante o dia.
Aguiar se mexeu, provavelmente virando-se para Labirinto, mas ele ainda estava de olhos fechados, ainda de costas — ‘Ce ‘tá com frio, Labirinto? — A voz dele era rouca e baixa, causando um arrepio na espinha dele.
Certo, talvez, apenas talvez, Labirinto possa ter – sem querer – aberto uma margem para a interpretação de que estava com frio. Sua boca respondeu antes dele — Sim… — não — eu… to com frio — Labirinto não sentia nem uma gota de frio.
Labirinto quase, quase se arrependeu da mentira. Ele já havia se exposto tanto, falado tantas verdades, mas não havia chance dele se arrepender daquela mentira, porque assim que ouviu que Labirinto estava com frio, ele se aproximou, e com o cuidado de quem mexe com uma flor, tocou no ombro de Laby, testando as águas. Seus dedos eram delicados, apenas um toque, uma pergunta.
Não havia como Labirinto dizer não — Prossiga — ele mandou, e Aguiar instantaneamente o obedeceu.
Ele segurou o ombro de Labirinto, apenas por alguns segundos, e devagar foi deslizando sua mão pelo seu braço com cautela, garantindo que não passaria de nenhum limite. Seus dedos eram suaves contra a sua pele e no momento em que Aguiar encostou na mão de Labirinto, ele esqueceu de tudo. Ele entrelaçou os seus dedos com os de Laby e agora Labirinto conseguia sentir cada calo da mão de Aguiar, cada rachadura, cada machucado que ele tinha por ser um policial que também era um assassino.
Labirinto deixou que Aguiar guiasse suas mãos juntas até seu peito, e quando isso aconteceu, ele puxou Labirinto para o mais perto possível, os cinco – ou seis – centímetros de distância se tornando milímetros. Um suspiro escapou de sua boca quando suas costas se encontraram contra o peito de Aguiar.
A outra mão de Aguiar foi de forma lenta se entrelaçando contra sua cintura. E assim que Labirinto percebeu, Aguiar estava o abraçando por completo, sua cabeça em seu ombro, sua boca respirando em seu ouvido. Labirinto era fraco, porque ele se entregou aos toques do amigo sem nem pensar duas vezes, apoiando-se nele e apertando sua mão cada vez mais.
— Melhorou? — Aguiar sussurrou em seu ouvido, Labirinto se contorceu em um arrepio. Mais, ele pensava, por favor, mais.
A sombra de um sorriso atravessou o rosto de Labirinto, sim, tudo está incrivelmente bem, mas não pelo motivo que você imagina.
Ele se sentia em êxtase, como se Labirinto tivesse transformado a si mesmo em um fogos de artifício e Aguiar tivesse o acendido. O Hexatombe não importava mais, nada importava mais, não com o Aguiar o segurando tão gentilmente e respirando no seu ouvido, Labirinto sabia que Aguiar conseguia sentir seu coração acelerado, mas isso não era um problema, porque Labirinto também conseguia sentir o coração de Aguiar batendo loucamente contra suas costas.
Nessa posição, Labirinto finalmente conseguiu sentir o sono terminando de dominar seu corpo. Mesmo de olhos fechados, ele se sentia prestes a adormecer. E apesar do chão duro, ele sabia que não tinha como ficar mais confortável do que estava ali.
Ele seguiu a canção do sono, se preparando para ceder e adormecer profundamente. Até que algo o cutucou, Aguiar ainda esperava uma resposta. De forma letárgica, Labirinto levou suas mãos entrelaçadas até sua boca, e pressionou um, apenas um, beijo nos dedos de Aguiar, deixando que o seu sussurro morresse entre suas mãos
— Sim… melhorou.
Não era só o suposto frio que havia supostamente sumido. Era tudo. Tudo que Labirinto conhecia ficava ainda melhor com a presença de Aguiar. Não importava como, o homem era o responsável por deixar Labirinto confortável o bastante em sua pele, por mandar os outros calarem a boca para que ele pudesse falar, aquilo era a amizade mais especial que Labirinto tinha.
Enquanto se entregava ao sono, Laby pensou que talvez, apenas talvez, não fosse apenas amizade.
