Chapter Text
Todas as Raposas estavam no ônibus voltando de mais um jogo exaustivo fora de casa. Depois de mais uma vitória árdua, o clima entre os atletas era leve, embora instável. Talvez aqueles fossem os únicos momentos de paz entre o bando de pessoas problemáticas.
Andrew aproveitava o silêncio e o escuro da noite para tirar um cochilo. Logo ele chegaria na sua própria casa, em uma fuga desleixada dos dormitórios, e voltaria para o seu... A palavra que queria falar ficava amarga na sua língua, azedava qualquer lembrança sem dor que tivesse. Nomear uma casa de lar parecia demais com um sonho esperançoso de uma criança órfã, mas era preciso o suficiente para que outro termo não pudesse substituí-lo.
Então, sim, faltavam poucas horas para que Andrew chegasse ao seu lar, mesmo que ninguém mais soubesse. Ninguém mais precisava saber.
Naquele lugar escuro, no meio da estrada, o celular de Andrew tocou aquela música sobre fugitivos que fazia o seu coração dar uma tamborilada.
"É o Neil", a voz soou no som fraco de seu telefone. O peito de Andrew tremeu com uma diversão mal contida. Não importava quantos anos se passassem, Neil sempre responderia a uma chamada de celular da mesma maneira.
"Oi, viciado." Para qualquer um, aquele seria um tom de voz normal, mas Andrew sabia que Neil conseguia identificar a onda de carinho esmagadora que arrepiava o seu corpo sempre que eles podiam se comunicar.
"Eu estou no hospital com o Michael.” A mão de Andrew se contraiu no encosto de braço do seu banco. Ele tentou controlar a respiração e ouvir o resto das coisas que Neil tinha a dizer. “Ele encontrou a sua gaveta de doces na cozinha, comeu tudo e acabou passando mal. Eu não sei como ele conseguiu subir pra abrir, acho que ele escalou os armários.”
Michael era um garotinho agitado de três anos e Andrew, mesmo sendo pai, não tinha muito conhecimento sobre crianças. A única coisa que sabia era que bebês de três anos eram, de certa forma, muito malignos. Ou apenas pestes, o que era o caso de Michael.
“Enfim, ele começou a vomitar e eu trouxe ele pro hospital. Eu vim de carro, mas uma velha coroca rebocou ele por estar em uma vaga para idosos ou algo assim.” O desprezo que Neil colocou ao falar da velha foi tão visceral que Andrew podia sentir sua presença ao seu lado. “Michael já está bem, ele pode ir embora. Só liguei pra avisar que, como vamos voltar a pé, você pode acabar chegando primeiro.”
“Não precisa, onde é? Eu passo aí.”
“É o hospital mais na entrada da cidade, sem ser o com aquele médico.”
Neil já era naturalmente averso a hospitais, ele só ia se fosse extremamente necessário ou por causa de Michael. Por isso, mesmo no primeiro ano de vida do garoto, Neil vetou mais de três deles na cidade devido aos médicos. Andrew não contestaria a sua decisão, ele também não gostava de hospitais e nem daqueles profissionais. Mas a desvantagem de ter achado um hospital bom com médicos respeitáveis era que ele ficava a uma hora de sua casa.
E era meio da noite, como Neil poderia pensar em ir a pé? Bem, ninguém podia negar que isso era a cara dele.
“Ok.” Andrew respondeu em tom de finalidade.
Um silêncio confortável se instalou entre eles, mas como Neil não se despediu ou encerrou a ligação, Andrew sabia que tinha mais coisa por vir.
“Você tem certeza que vai buscar a gente de ônibus?”
“Sim, por quê?”
“Você sabe o porquê. Seu irmão já sabe?”
“O que ele precisa saber?”
A pergunta vinha de horas de discussões que ficaram no passado, horas de tentativas de tentar entender melhor seu relacionamento com o resto da família de sangue, horas infrutíferas de conversas que sempre davam em becos sem saída.Neil suspirou, deixando isso de lado.
“Vou deixar Michael lidar com ele.”
Como se deixar uma criança de três anos lidar com a sua cópia mal feita fosse uma decisão madura ou inteligente.
“Eu aceito isso.”
“Certo, desligando.”
E, fácil assim, a ligação foi cortada.
Sem perder mais tempo, Andrew se levantou e foi até Wymack, que lutava para permanecer acordado, e Abby, que estava dirigindo.
“Ei, treinador!” Andrew se jogou no banco ao lado de Wymack, o despertando do seu estado semi-consciente.
“Suma daqui”, foi a sua resposta rouca.
“Antes de entrar na cidade nós vamos passar no hospital perto da estrada”, Andrew avisou.
“Não vamos, não.” Wymack sequer abriu o olho. “Não temos que levar ninguém pro hospital a essa hora.”
Andrew não se dignou a responder, ele se pendurou no banco do motorista e encarou Abby.
“Vamos passar no hospital antes de entrar na cidade.”
Abby, que já esperava por isso quando Wymack o dispensou, disse: “Andrew, não precisamos levar ninguém ao hospital.”
“Ainda bem que não vamos fazer isso, vou buscar alguém.”
Andrew pôde sentir o exato momento em que Wymack abriu os olhos e o encarou. Abby também prendeu um pouco o fôlego antes de questionar: “Quem?”
“Não importa, vamos para o hospital.”
Andrew voltou a se sentar ao lado de Wymack pela próxima meia hora e só relaxou quando eles perderam a entrada principal para a cidade e seguiram a estrada mais fácil para acessar o hospital. Ele fechou os olhos pelo resto do caminho e aguardou pacientemente até o local.
Demorou mais longos 30 minutos para chegarem ao hospital. Andrew já estava em pé antes mesmo do ônibus estacionar. Com o automóvel parado, a maioria das raposas acordaram, pensando ter chegado aos dormitórios.
“Ei, essa não é a Torre das Raposas.” Nicky foi o primeiro a notar. “Onde estamos?”
“No hospital”, Abby o respondeu e abriu a porta para Andrew.
Um homem nunca foi tão rápido. Ele saltou do ônibus já abrindo o celular e ligando para Neil.
“É o Neil”, atendeu ao telefone.
“Já cheguei, pode sair.”
“Dois minutos.”
Em dois minutos exatos, Neil saiu do hospital carregando uma bolsa preta cheia de coisas e com uma criança envolvendo seu pescoço. Mesmo no escuro, dava para ver o cabelo dourado do menino enrolado em cachinhos amassados. Os olhos azuis de Neil ficaram ainda mais azuis quando encontraram os de Andrew.
Ele não poderia estar mais fascinado com a leveza contente e o riso contido na fala de seu marido.
“Oi.”
“Oi.”
“Sim ou não?”
“Sim.”
Antes mesmo de dar a resposta, Neil já estava se inclinando em sua direção. Eles deram um breve beijo de boca aberta; poderiam se engolir e se devorar. Era o beijo de boas vindas, o beijo de cumprimento, era o “oi, estava com saudade, que bom que você ainda está vivo e aqui, obrigado por voltar”. Eles nunca diriam uma coisa dessas, palavras como “saudade" e “obrigado por voltar" eram fortes demais para serem ditas em voz alta. O consolo do casal era ter aquele nível de entendimento um sobre o outro.
Eles se casaram, droga. Andrew nunca imaginara conhecer outra pessoa como conhecia a si mesmo, nunca imaginara gostar da ideia de ter uma casa, um novo sobrenome e o status de marido. Era insano e Andrew não pensaria mais naquilo.
Ele deu um passo para trás antes que o sentimento de pertencimento o devorasse vivo.
Michael tinha levantado o rosto e olhava para Andrew com um sorriso aberto.
“Sim ou não, papai?”
Andrew não sorriu. Nem em mil anos.
“Sim, vem aqui.”
Andrew mal teve tempo de estender a mão antes de sentir o pequeno corpo do seu filho sendo jogado contra o seu peito. Michael enrolou as pernas no seu quadril e os braços no seu pescoço, deu beijinhos em seu rosto e sorriu para ele. Andrew também deu alguns beijos na bochecha e na testa do filho, mas foi só para ensiná-lo sobre trocas justas. Afinal, carinho se respondia com carinho.
“Boa noite, papai. Nós assistimos o seu jogo.” Andrew revirou os olhos. “Você tava muito legal no gol, e tava muito legal no meio da quadra também.”
Ele e Neil ainda não tinham explicado a Michael que Andrew tinha um irmão gêmeo e que, na verdade, não jogava em duas posições ao mesmo tempo. Era meio cruel, Andrew podia admitir, mas, quanto mais Michael perdesse o encanto em Exy pela falta de sentido, melhor para ele.
Mais ou menos. Toda a situação era meio fofa.
“Não deixe seu pai te influenciar pra esse mau caminho.”
“Mas Exy é divertido, papai. Pai, fala pra ele.”
“Exy é divertido, Drew.”
Andrew se virou para andar até o ônibus. Michael, esperto como era, notou na mesma hora.
“Papai, cadê o nosso carro?”
“Foi rebocado.”
“O que é rebocado?”
“É quando você estaciona no lugar errado e algumas pessoas levam o seu carro pra uma garagem gigante, aí você paga para tirá-lo de lá.”
Michael alongou o seu pescoço e olhou para Neil.
“Pai, por que você estacionou no lugar errado?”
“Porque você estava vomitando, agora volte a dormir.”
Mas Michael nunca voltaria a dormir daquele jeito. Ele herdou a paranoia de Neil — talvez a condição fosse puramente genética ou talvez fosse consequência de ser afetado pela paranoia constante que Neil sentiu durante a gestação — e estava prestes a andar em um automóvel que nunca havia entrado com pessoas que nunca tinha visto em um horário que não costumava estar acordado. Era uma bomba prestes a explodir.
“Então como a gente vai pra casa?”
“No ônibus do time”, Andrew respondeu com enorme pesar.
Michael se agitou em seu colo, a boca aberta de animação e os olhos azuis arregalados de forma cômica.
“O ÔNIBUS DO TIME?! Pai! Pai! Nós vamos andar no ônibus do time, pai!”
Andrew não conseguiu segurar a criança por mais tempo. Michael viu a porta aberta, percebeu que estavam indo naquela direção e correu para lá — o que era ridículo, já que faltavam apenas poucos passos para chegarem.
“Que porra de criança é essa?”, Alisson gritou do meio do ônibus.
“Papai, a moça feia gritou comigo!”, Michael exclamou lá dentro.
Ele falava, na verdade, com Aaron, que estava em cima do banco, com medo do garotinho.
“Eu não sou seu pai.” A resposta dele só fez Michael rir.
Neil entrou no ônibus atrás de Andrew, mas com uma criança no meio do corredor, ninguém prestou atenção nele.
“Tudo bem, papai.” Michael seguiu rindo. Ele deu um passo para frente. “Sim ou não?”
“Não.”
Michael aceitou bem a recusa e apenas se virou para continuar explorando o ônibus. Ele encarou Andrew, que estava no final do corredor, e depois se virou para Aaron, que estava no início do corredor. Seu olhar foi de Aaron para Andrew e de Andrew para Aaron e de Aaron para Andrew novamente.
Andrew conhecia aquela postura. Uma criança cansada e recém saída do hospital estava muito confusa. Michael olhou de novo para Aaron e começou a chorar.
Ele abriu o berreiro, o choro do bebê de três anos engolindo todo o silêncio do ônibus. Quem estava dormindo, acordou e quem já estava acordado, entrou em alerta.
Andrew viu tudo como uma cena dividida por quadros; as raposas acordando, Wymack levantando de seu lugar, o desespero de cada um.
Eles deviam ter medo de criança.
Neil passou por Andrew, se colocando em evidência e já se agachando para pegar o seu filho.
“Pai!” Michael se jogou nos braços dele e chorou ali. “Por que o papai são dois papais?”
Neil acariciou o seu cabelo enquanto dava uma resposta — a pior possível.
“Porque o FBI clonou ele para nos fazer infelizes, é por isso que não confiamos neles.”
Andrew não riu, mas ele soltou um grunhido e um sopro pelo nariz.
“Me desculpe, Andrew, era esse alguém que você precisava buscar no hospital?” A voz de Wymack fez Michael parar de chorar na mesma hora.
Ele pulou do colo de Neil e subiu no banco.
“Sim! Eu comi os doces do papai, aí eu passei mal, aí colocaram uma agulha em mim, mas eu não tenho medo de agulha, aí entrou um soro, foi o que o pai falou porque eu tava dormindo, mas agora eu tô bem, então eu não tô mais no hospital.”
Wymack com certeza não esperava por aquela explosão de palavras. Ele poderia ter dito alguma coisa, se as Foxes não tivessem gritado do final do ônibus.
“Andrew, você tem um filho?! E quem é esse cara?” Aaron estava esganado no meio do coro de vozes.
“Eu sou tio?” Nicky estava recém acordado e em pé.
“Como assim o Andrew reproduziu?” Alisson era, de longe, a mais irritante e Andrew decidiu que não prestaria atenção em mais uma palavra dela, nem mesmo quando continuou: “Que nojo! Que nojo! Quem transaria com o monstro?”
“Andrew, desde quando você tem um filho?” Aaron continuava a exigir.
“Michael, quantos anos você tem?”, a pergunta veio de Neil.
Michael olhou para Aaron, com um pouco de medo, mas o encarando mesmo assim, levantou três dedos e sorriu.
“Eu tenho isso tudo aqui de idade.”
“Michael?” Aaron se sentou lentamente no banco do ônibus bem no momento em que Abby deu a partida no veículo. Andrew nunca havia encontrado em sua vida um homem tão pálido.
Neil foi rápido em pegar Michael nos braços e sentar na frente, mais perto de Wymack do que do resto do time. Ele escolher se sentar perto de um homem mais velho ao invés de mais próximo ao irmão gêmeo de Andrew foi um sinal muito preciso sobre a distância que Neil queria naquele momento.
Não que alguém fosse saber disso.
Aaron não se deixou abater. Ele caminhou pelo corredor e se sentou atrás de Neil, Andrew e Michael. Depois do que pareceu uma onda de sussurros das outras Raposas, Dan também foi, com Matt a tiracolo — provavelmente para tirar a limpo algumas apostas pendentes.
Aaron parecia pronto para voltar ao seu interrogativo infrutífero com Andrew, mas Michael se apressou em fazer suas perguntas.
“Como você se sente sendo o clone do papai? É diferente de ser uma pessoa própria?”
Aaron estava visivelmente irritado, mas decidiu entrar no jogo.
“Não sou um clone, sou o irmão gêmeo dele. Quem é a sua mãe?”
“Eu não tenho mãe, eu tenho o pai e o papai. O que é um gêmeo?”
“Então você foi adotado?”
Michael, que sempre inventava e entendia rapidamente jogos novos, não responderia a pergunta de Aaron até que a sua fosse respondida. Ele estava com os pés nas coxas de Neil, pendurado pra frente para conversar com Aaron — e, eventualmente, com Dan e Matt.
Em uma rápida olhada para o seu marido, Andrew soube que ele estava se divertindo tanto que não iria interromper o fluxo da conversa. Andrew se limitou a revirar os olhos pela enésima vez na noite e olhou pela janela.
“Um gêmeo é quando você está na barriga da sua mãe e já tinha um irmão lá dentro com você. Vocês são feitos juntos, nascem juntos e têm a mesma aparência. Então, você foi adotado?”
“Eu não sei o que é adotado.” Michael pareceu finalizar aquela parte antes de olhar para Neil. “Pai, por que eu não tinha um irmão comigo quando eu tava na sua barriga?”
A resposta de Neil teve o coro de um som estrangulado de Aaron.
“Foi decisão do papai.”
Neil nem foi discreto ao sorrir para Andrew, deixando toda a responsabilidade nas suas costas.
“Papai?”
“Porque o dobro de bebês é o dobro do tamanho da barriga e o pai precisava entrar em casa.”
Michael gargalhou de jogar a cabeça para trás e voltou com um dedo balançando na frente do rosto de Andrew.
“Papai, seu bobinho, não se diz coisas assim sobre o tamanho das pessoas.”
“Como você tava na barriga do seu pai se ele é homem?”
Aquela era uma pergunta que Neil adorava responder. Com um toque extraordinário de sarcasmo, as suas exatas palavras foram: “Foi gravidez psicológica.”
Dan tomou a dianteira naquele momento, aproveitando o estado atordoado de Aaron para conseguir as suas respostas. Ela havia ficado calada por mais tempo do que Andrew esperava.
“Onde você mora, Michael?”
Michael se animou com a atenção voltando para si, ignorando o aborrecimento cada vez maior de Aaron pelo seu nome.
“Na minha casa.” Depois de dois segundos, Michael arregalou os olhos e olhou desesperado para Andrew e Neil. “Vai todo mundo pra nossa casa?” Eles balançaram a cabeça em negação. Satisfeito, ele voltou a encarar Danielle. “Quem é você?”
Dan segurou uma risada antes de responder: “Dan Wilds, capitã do time-“
“CAPITÃ DO TIME DO PAPAI?!”, Michael a interrompeu, se deleitando com a nova informação.
Infelizmente, o seu grito voltou a chamar a atenção de todo o ônibus, que, por algum motivo, se resignou a ficar à distância.
“PAI, É A CAPITÃ DO TIME DO PAPAI! Capitã, o papai é goleiro, ele fica no gol com uma raquete diferente, não é uma raquete de atacante. Ele venceu o jogo hoje, você sabia? Eu vi tudo pela TV. Quer dizer, tudo é muita coisa, eu tava passando mal, por isso eu tava no hospital, porque é lugar de tratar doenças, você sabia? Foi o pai que me contou tudo isso, ele é muito inteligente! E às vezes ele joga de atacante com o papai no quintal de casa e eu posso ser o defensor. O defensor é quem defende, sabia?”
As raposas, mesmo de longe, pareciam engolir cada palavra do garoto. Andrew sabia que aquela seria a única oportunidade deles saberem da sua vida pessoal e era bom para Michael ter pessoas novas para conversar, que não fossem as crianças da creche.
“Mas eu não gosto muito, talvez eu seja armador quando eu crescer um pouco mais. O pai que fez a minha raquete, porque não tem raquete pra atletas da minha idade, sabia? Vocês deviam ir lá, porque vocês são um time completo, aí a gente jogava um jogo completo.”
“E o papai gosta de ficar no gol?” A provocação miserável e indiscreta de Matt não seria perdoada.
“SIM! Papai é um goleiro muito bom, o pai só consegue acertar três bolas no gol quando a gente joga.”
“Três…” Dan levantou uma sobrancelha, olhando intrigada para Neil.
“Sabe, Michael, eu sou o Matt, defensor. Eu gostei da sua ideia de irmos jogar no seu quintal.”
“Matt defensor? Oh, o pai fala que você sempre tropeça quando vai pra esquerda.”
Matt, que não esperava por isso, deixou o seu queixo cair e ficou como um bobo de boca aberta.
Michael deu um enorme bocejo e tombou a cabeça no ombro de Neil.
“Vamos deixar mais perguntas para mais tarde, a criança precisa dormir.” Neil dispensou quem quer que estivesse ao redor, hiperconsciente do olhar das outras Foxes e da presença tensa de Wymack.
Matt foi o primeiro a reagir, se colocando de pé com cuidado no ônibus em movimento. Ele puxou Dan pelo braço, mas antes de ir, se virou para encarar os olhos semicerrados do bebê.
“Só mais uma pergunta, se me permite.”
Lutando contra um bocejo, Michael assentiu.
“O papai volta todos os dias pra casa?”
Matt teria uma morte violenta e sem piedade, seu corpo seria jogado em uma vala e não haveria salvação para sua alma condenada.
“Claro que sim, quem mais vai proteger a gente?” O sono não foi o suficiente para impedir a indignação de Michael, que já estava irritado por ficar tanto tempo acordado, sonhando com o seu beijo de boa noite em sua cama de carro.
“Boa noite, Mike”, Matt sussurrou antes de sair de vez.
Aaron pareceu considerar a suas opções; ele até poderia ficar ali, mas a que custo? Ver o seu sobrinho dormir nos braços de um homem desconhecido e ser ignorado por seu irmão gêmeo? Não, ele não passaria por isso depois de uma noite exaustiva de jogo. Talvez no dia seguinte. É, isso poderia dar certo.
Depois que Andrew viu Aaron se mandar, ele entrelaçou o seu tornozelo no de Neil e deitou a cabeça ao lado da de Michael, tanto enterrando o seu nariz no pescoço do marido, quanto pressionando a sua bochecha na de seu filho. Andrew adormeceu até sentir Neil se mexer, e então falar alguma coisa e começar a se levantar. Sem questionar, Andrew foi atrás, saindo do ônibus sem dizer nada ao resto da equipe.
Neil tinha pedido para Abby parar na esquina da rua da casa deles, que de alguma forma era caminho para o dormitório. Michael permanecia em seu colo, ainda adormecido.
Eles caminharam lado a lado a passos curtos e lentos, aproveitando o frio da noite e o silêncio da rua. Neil olhava para as estrelas e Andrew olhava para ele, cada vez mais encantado com os seus olhos brilhantes e a sua expressão de paz. Andrew se contorcia por dentro de sua pele em momentos assim, em que sentia que poderia pintar aquele instante com uma tela e tinta, pegar uma câmera e tirar fotos.
“Drew, você sabe fazer um churrasco?”
Se Andrew fosse outro homem, ele teria rido.
“Claro, eu sou uma pessoa muito sociável.”
“As pessoas fazem isso, né? Tipo, no aniversário de uma criança? Quando não se quer festa?”
Andrew sabia o que Neil estava pensando. Dois desajustados sociais querendo o melhor para o próprio filho, querendo fazer as suas vontades. E Michael tinha chamado o seu time para uma partida no quintal de casa.
“Ele sabe aceitar um não, é só a gente dizer que não.”
“Sinta-se à vontade para dizer não para ele.” Neil sorriu. Não um sorriso com dentes à mostra ou o que esticava a pele e formava verrugas no canto dos olhos. Era o do tipo suave, que demorou anos para aparecer assim, natural e sem medo. “Talvez um almoço”, Neil decidiu.
Fácil assim, eles entraram em casa, arrumaram o filho para dormir, deram beijinhos de boa noite em sua testa e foram para cama deles. Apesar do cansaço de longas horas de viagem e de um jogo exaustivo, Andrew não queria dormir.
Ele se remexeu na cama e cutucou o braço de Neil antes de sussurrar: “Eles não vieram pra cima como um enxame de abelhas desesperadas.”
“Então temos que mudar isso.”
Eles iriam. Andrew não podia acreditar, talvez Michael pudesse distrair 10 adultos crescidos sem ter que responder perguntas intrusivas.
Que coisa patética era aquele sentimento de esperança.
