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intermitências de loucura

Summary:

Hamlet lamenta o estado de delírio a que sucumbiu.

Work Text:

Estou cego de todos os sentidos. Já não sei que faço ou que fiz, falo e não sei mais que digo; estou fora de mim—de mais maneiras que uma. Não sou mais dono de meu corpo, nem da mente nem da visão. As paredes do castelo fixam os seus olhos em mim, e eu vejo-me através deles. Vejo-me agir como se a ação não me pertencesse—como um estranho alheio ao violento ímpeto que a rege e à tepidez do sangue de outrem secando naquelas mãos (minhas mãos! embora não as reconheça como tais). Estou cansado. Cansado, mas não durmo. No breu do meu leito, ouço um murmúrio a falar-me—esta voz que tão bem conheço, vinda da alcova onde agora dormem Claúdio e a rainha, mas que a nenhum deles pertence. Esta voz, desde sempre tão querida por mim, que não deixa porém de me apavorar. E por ela vou-me corroendo, noite seguida de noite, até não sobrar já nada de mim. Noite seguida de noite em que, tapando os ouvidos e encolhendo-me ao fundo da cama, tento esconder-me de ti, escapar a esta tortura. Noite seguida de noite em que tuas súplicas me alcançam através dos lençóis. Noite seguida de noite—tenho medo de ficar sozinho. Todas as noites, sem ninguém que me acuda, fico só, só com esta tua voz que não sei se de ti vem, com os uivos do mar que com todas as suas forças se arremessa contra as muralhas do castelo, com a ténue melodia do luto do povo (pobres almas piedosas! parece que só eles choram a tragédia que tanto me aperta o coração), que ainda não sabe que não te foste (ou será que sim? falo-te como se me pudesses ouvir, mas só Deus sabe se serás apenas fruto da minha enfermidade), só com este fardo que me encarregaste de suportar. Só com tudo isto, e com a loucura! Esta loucura que se me acerca, que vem tornando a minha Elsinore numa prisão—uma prisão! A cada passo que dou, sinto os seus olhos em mim; o castelo que outrora me serviu de refúgio agora restringe, sufoca-me com suas paredes. E Cláudio, Polónio (não, ele já não—a sua morte, embora recente, está-me débil na memória), a rainha e todos os seus servos, que em mim se fecham como rapinas. Até Rosencrantz e Guildenstern, que desde o berço me acompanham, me vêm espiando a pedido do rei e de minha mãe. Vê-se que todos suspeitam já desta minha mazela; vigiam-me dia e noite em busca de sinais de doença, de desculpas para de mim se livrarem. Não há um suspiro que dê sem que alguém o oiça, nada que diga que não haja de ser usado contra mim. Sempre alguém por detrás das cortinas, sempre alguém à escuta, à espera para me denunciar. Mas por mais que reconheça estas ciladas, por mais receio que tenha deste perigo, não me consigo abster de falar. As palavras fogem-me da boca contra a minha vontade, por obra desta insanidade, de um contínuo descuido, ou de uma força superior. Provocações que não consigo deixar de fazer, um mínimo de atrito contra quem meu pai matou… Insolências que me são perdoadas graças à doença que me ataca o juízo, acusações que não fazem mais que manter meu tio alerta, assustá-lo até que se lembra que não sou eu que as faço. Pobre substituto da vingança que meu pai exige. Mas é tudo o que me atrevo a fazer. Não sou homem de confrontos; não sirvo para agir tão drasticamente assim—não sirvo, de verdade, para agir de modo algum. Sou indeciso, irresoluto, as mãos tremem-me e recusam o crime que delas imploro. Covarde demais para por minha própria mão pôr fim a este tormento (quer vingando meu pai quer escapando-me dele—tanto em Wittenberg como no mais profundo dos infernos, da culpa (perene demónio que tanto me assombra!) não poderia esconder o encalço); sigo condenado a esta ambiguidade, a este limbo de quases e talvezes, em que não morro nem mato, mas vejo meu corpo fazê-lo por mim. Meu pai, peço o teu perdão. Peço que me desculpes esta fraqueza do espírito, que me forma raízes nos pés e me paralisa na hora de levar avante esta justiça. Peço que, apesar dela, me confies o que meu é e que me deixes em paz. Peço-te, pai, que me devolvas as minhas mãos! Por covardice minha ou falta dela mas tiraste, e ocupas meu corpo em meu lugar, mas eu sou fraco. Fraco, confuso, irrequieto. Dominado por esta neurose de não já saber se minhas mãos agem a meu mando. Vejo-as cobertas de sangue e já não sei se fui eu que o lá pus. Vejo-as tremer e pergunto-me se serás tu a lutar pelo seu controlo—pergunto-me (Deus me perdoe!) o quão mais hei-de aguentar esta fissão, o desencontro entre a vontade do pai e a fraqueza do filho, juntas num corpo prestes a romper. Pergunto-me a que ponto é que estas mãos passarão a ser tuas. A que ponto é que deixarei de lhes poder regressar. Meu pai, deixa-me, imploro-te. Levanta esta maldição, esta enfermidade que me apodrece a razão! Ages por mim—nem eu sei que fazes—, mas sei que sou eu que o fiz. O desvario maldito apodera-se de mim, toma-me as mãos e o juízo por seus e age em meu nome; e eu chamo-o de pai. Não foste tu, afinal, quem acordou em mim esta demência?—tu que a manténs viva incitando-me a matar? Tu que mataste Polónio—ou eu… Eu que matei Polónio… Eu que sentenciei seus filhos à miséria a troco de nada… Pobre Laertes, condenado como eu a morrer travando as batalhas póstumas de seu pai; pobre Ofélia, a quem impus a mesma ruína que sobre mim recaiu. Tornas-me cruel, meu pai. Fazes de mim algo que nunca antes fui. Até Horácio se assusta com a ádvena fúria que vê em mim. Horácio, com quem jazem os poucos resquícios de sanidade que me restam; Horácio, que me cobre os ouvidos e fita por horas a porta de meu quarto para me apaziguar a alma, se assegura de que meu pai não me vem assombrar; Horácio que, conhecendo o meu receio da solidão, se senta a meu lado na alvorada para que possa dormir. Horácio, que me surge como um único amparo nesta mazela que me aflige a alma. Ele que se apieda de mim e me resguarda a dignidade, que nunca censura estas minhas neuroses; ele que sempre me aquiesce a todos os pedidos, que me chega a tratar com ternura—ternura! Ele não sabe, claro, o que me consome; não o pode compreender. De mim meu pai reclamou sigilo, e essa é uma promessa que não me atrevo a quebrar. E, no entanto, tanta paciência me digna, tão prontamente se resigna a tal omissão! Angustia-me o pensar que também ele sofre com esta minha desgraça. Não me preocupa já o meu destino quando tudo isto acabar—se Deus quiser, já não cá estarei para o suportar—, mas Horácio! É ele que terá de viver quando todos os outros tiverem partido, ele sobre quem este pesar há-de inevitavelmente recair. Dever odioso o seu! Melhor teria sido que nunca me tivesse conhecido! Melhor—que minha mãe não me houvesse parido em primeiro lugar. Amaldiçoado o dia em que fui expulso de seu ventre, atirado às mãos cruéis da sorte! Oxalá tivesse lá morrido, na paz aconchegante da inexistência, sem nunca ser sujeito às tribulações e angústias do mundo… Sempre ouvi que quase morri à nascença; mas o destino recusou-se a largar a presa! E que destino! Minhas mãos afogam-se no sangue de meu sangue; sobre mim recai este pecado, tão grave que me nem importa se o é! Seja ele culpado ou não—que tenho eu com isso? Mesmo que Deus me admita este crime, eu não o consigo aceitar. E, no entanto, a mão que matou Polónio, foi meu pai que a guiou. Estaria ele errado?—Como posso eu acusá-lo? Mesmo estes raros instantes de lucidez (será lucidez? Quem o sabe?—decerto não eu: homem que é louco não tem como saber se o é) de nada me servem senão para ver com mais nitidez esta neblina que me cerca: para reconhecer por fim a extensão da cegueira que se apodera de mim. De verdade, nada sei. Tão depressa me desfaço em prantos como em gargalhadas (nem conheço mais a diferença entre si!); perco-me neste frenesim desenfreado a que meu corpo sucumbiu, que faz parecer a histeria hígida por comparação. Dia e noite (se é que o sol não se fartou ainda de nascer), não já os vejo. Não há mais mão amiga que me acuda, nem luz que me venha salvar. Estou surdo dos olhos e cego do juízo. Meu pai, digo-te que nada sei. Confio em ti a minha vida—que a tua vontade seja feita.