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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-04-20
Words:
4,565
Chapters:
1/1
Kudos:
4
Hits:
75

Almost

Summary:

Algumas histórias não terminam.
Alguns amores nunca acabam.
Porque nunca começaram.
E, ainda assim, eles vivem - nos olhos, nos gestos, nas palavras que ninguém nunca teve a coragem de dizer. E, no meio disso, vidas inteiras parecem caber num eterno "quase".

Notes:

Olá, pessoal! Espero que todos estejam bem!

Voltei com mais um Rossi e Prentiss, num estilo um pouco diferente dessa vez.

Eu não gosto de fazê-los sofrer - muito - mas isso surgiu porque eu tenho pensado muito na relação canonica desses dois, e em como certas coisas podem ter sido apenas subjetivas entre eles. Será que, mesmo na série, existe algo mais ali? Algo que nunca saiu da fantasia porque mudaria tudo, tanto entre eles quanto com a equipe?
É isso, fiquei triste e "Almost" aconteceu.

Espero que vocês gostem - e não queiram me matar por isso.

Como de costume, a história foi revisada, mas erros ocasionais podem aparecer. Ignorem, por favor.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

                                                                 A primeira vez que David Rossi viu Emily Prentiss de vermelho, ele não estava esperando

Emily respirou fundo, levando a taça à boca mais uma vez, um suspiro triste e resignado escapando antes que o líquido escuro tocasse seus lábios.

Havia algo diferente naquela noite. Um ar melancólico e espesso, aquela típica exaustão quase dolorosa que sempre vinha depois de um caso difícil e que a fazia pensar demais. Ela engoliu com dificuldade, o nó em sua garganta apertando ao ponto de fazer aquele simples gesto parecer algo quase impossível.

01:37 am. Tarde demais para quem deveria estar de volta ao escritório às oito, mas Emily era experiente demais – realista demais – para acreditar que conseguiria algum descanso se deitasse naquele momento. Não. Sua cabeça estava cheia demais, pesada demais com todas aquelas cenas horríveis a que foi exposta durante a última semana. Mas, se ela fosse ser honesta, não eram apenas as imagens dos corpos mutilados que a perturbavam naquele momento.

Seria tão mais fácil se fosse.

Havia algo. Um sentimento tão forte que era quase esmagador. E ela podia sentir a falta de ar aumentando a cada segundo que se concentrava nele.

Emily estava acostumada com a morte. Acostumada com dor e violência, por mais frio que dizer isso pudesse parecer. Mas ela não estava acostumada com aquele turbilhão de emoções que – quase – a dominavam quando tudo parecia demais para que ela pudesse suportar e seus pensamentos vagavam. Era como se sua mente traidora tentasse aliviar uma dor com outra, mesmo que aquele tipo de dor fosse completamente diferente. Era tragicamente bonito, ela tinha que admitir. Ainda que aquele aperto em seu peito doesse a cada dia um pouco mais.

Era todo aquele peso da possibilidade, ela sabia. A dúvida que pulsava em sua mente quando ela achava que tudo o que havia restado eram certezas. Era o “E se?” que nunca havia se tornado uma realidade. Algo que ela – nem ele – nunca teve coragem de expor e que, ainda assim, parecia longe de ser um segredo. Era palpável demais para se manter escondido.

E mesmo assim, a linha nunca havia sido atravessada.

Mais um suspiro, audível dessa vez.

Flexionando os dedos, Emily aliviou a pressão na taça, devolvendo as cortinas para o lugar antes de se afastar da janela em passos lentos. A cidade lá fora estava silenciosa, o bairro inteiro parecendo dormir enquanto o caos reinava no pequeno espaço de seu quarto.

Um reflexo de seu próprio inferno interior.

Ela olhou em volta, cansada. Havia uma jaqueta largada sobre a poltrona ao lado da porta, suas botas caras jogadas de qualquer jeito pelo chão. Uma mala meio aberta, meio desfeita no pé da cama. Bem, aquilo era um problema para ser resolvido em um momento melhor, ela considerou. Emily não tinha condições de se preocupar com aquela bagunça quando estava lutando desesperadamente para manter sua tão frágil sanidade.

Crianças mortas. Assassino que escapou. Paixões avassaladoras por colegas de equipe.

Prentiss soltou uma risada baixa, com o último pensamento involuntário, mas não havia nenhum resquício de humor. Completamente exausta, ela se sentou na beira da cama, os ombros curvados, o cabelo solto caindo para a frente como uma cortina de proteção.

Mas de quem, exatamente, ela precisava se proteger ali, além dela mesma?

Seus olhos estavam distantes quando ela voltou sua atenção para o vinho novamente. Não era do bom. Era barato, mas tinha sido muito difícil encontrar algo que prestasse depois das 23h, e a bebida que cheirava mais a álcool do que vinho propriamente dito, parecia atender suas expectativas para aquela noite deprimente. Depois daqueles dias, Emily só queria relaxar um pouco – esquecer um pouco. E, bem, se ela precisasse estar embriagada para que isso acontecesse, então valeria a pena a ressaca que certamente a estava esperando nas próximas horas.

Na mesinha de cabeceira, seu celular vibrou. Era uma mensagem no grupo da BAU, ela viu pela barra de notificações. Abrir significaria que ela teria que responder a uma Garcia excepcionalmente preocupada em se assegurar que seus companheiros estavam bem, e Emily não estava exatamente no clima de conversa. Exceto, é claro, se fosse com um certo agente grisalho e insuportável.

Ele a entenderia, ela sabia que sim. Ele sempre a entendeu, mesmo sem esforço. Mesmo quando ela não queria que ele fizesse.

Quase involuntariamente, seus dedos rolaram pelo histórico de conversas, procurando de forma inconsciente pelo contato que ela sabia que encontraria com facilidade. O nome dele estava ali, claro que estava, e por um segundo, seu dedo hesitou sobre a foto de Dave.

Uma inspiração longa e um balançar de cabeça foram suficientes para fazê-la desistir. Mais uma vez.

Em vez disso, Emily apoiou a taça, agora perigosamente vazia, sobre a mesinha, abrindo a gaveta com uma mão enquanto puxava um velho moleskine de dentro dela. Era vermelho e desgastado, com vários adesivos em sua capa e que ela teve vontade de arrancar um milhão de vezes, mas sempre se conteve. Lentamente, ela o abriu, folheando através das folhas preenchidas até encontrar uma vazia e suspirar, alcançando uma caneta antes de começar a escrever em uma caligrafia apertada.

 


 

Abril 13, 2012. Washington DC, VA.

 

Há dias em que é mais fácil. Dias em que eu quase esqueço. Esqueço o quanto ele me olha, e como o peso desse olhar faz parecer como se ele pudesse ver através de mim. Como se esse simples gesto fosse muito mais forte do que qualquer palavra que tenhamos dito ou poderíamos dizer. Mas hoje não é um dia fácil, nem de longe. E é nesses dias que eu me pego pensando nele mais do que em qualquer outro momento. Muito mais do que seria seguro. É o tipo de dia – ou noite – que quase me faz esquecer o motivo pelo qual o “quase” ainda é o território mais seguro para nós.

Mas é que às vezes ele me olha como se estivesse esperando por uma resposta que eu não sei dar, e talvez nunca saiba.

Rossi tem esse jeito, esse olhar intenso, como de um predador que hipnotiza sua presa. A fala mansa, o tom rouco e baixo que, quando me chama – o “Em” que ele tanto diz gostar – me deixa arrepiada e que faz parecer que é muito mais do que apenas uma forma carinhosa de me chamar. Como se o apelido, essa pequena e simples abreviação, fosse um segredo nosso, uma forma dele me dizer que conhece – e entende – certos pedaços de mim que eu mesma mal consigo entender. De dizer que ele sempre vai estar aqui, não importa o que aconteça.

Talvez seja isso o que as pessoas costumam chamar de amor. Mas se for mesmo amor – como parece – então por que nunca nos permitimos viver isso? Por que, sempre que parece ser o momento certo, nós nos afastamos, como se sentir tudo isso fosse algo errado, proibido?

Nada nunca aconteceu entre nós. E mesmo assim, isso ocupa um grande espaço dentro de mim e que, mesmo ocupado inteiramente por ele, ainda permanece vazio. Escuro e frio.

É difícil saber exatamente quando foi que comecei a pensar tanto nele. Quando David deixou de ser um simples colega de trabalho para se tornar aquele a quem eu viria orbitar. É quase certo que tenha sido aos poucos, tão lentamente que eu nem consegui perceber até que fosse tarde demais. Algo que foi crescendo entre um olhar e outro, entre os silêncios sempre tão confortáveis. Ou mesmo naquelas vezes em que ele sabia exatamente o que dizer para me puxar de volta, como quem entendia tudo o que eu estava sentindo sem que tivesse que traduzir.

Nunca houve nada além de olhares, ou toques propositalmente acidentais. Aquele abraço apertado que talvez tenha durado um pouco mais do que deveria. Nunca houve um beijo. Nunca houve uma noite de paixão avassaladora. Nada, absolutamente nada, que justificasse esse nó que se aperta em meu peito sempre que ele entra no mesmo espaço, ou quando ele se despede com um leve e característico aperto em meu ombro. Mas meu corpo sabe. E, silenciosamente, anseia por mais.

Às vezes eu me pergunto se teria sido mais fácil se um de nós tivesse cedido. Mesmo que apenas uma vez. Só pra saber. Para poder dizer: “Ei, não era isso o que eu queria. O que eu esperava”, e então nunca mais olhar para trás.

Mas isso nunca aconteceu. E, no fundo, não foi apenas medo. Foi uma escolha que nós dois fizemos. A escolha de manter o que já temos – e que é tão bonito – intacto. A escolha de não correr o risco de perder algo que é tão difícil de encontrar. De não deixar as coisas mais complicadas do que precisam ser. Só que essa escolha teve um preço. Um preço alto que eu pago toda vez que o vejo sorrindo, e me pego pensando em como seria o toque dele – no meu cabelo, na minha pele. Na minha alma.

Não é apenas uma paixonite adolescente. Não é aquele tipo de desejo que te faz perder o juízo e não pensar nas consequências, arriscando tudo por alguns pequenos momentos de prazer. Não. É algo mais calmo, mais lento, mas que ainda queima. Aquele tipo de sentimento profundo e que não precisa de nenhum rótulo. Algo que simplesmente está ali. Que sempre esteve ali.

E Então eu me pergunto... Será que ele também sente isso? Será que ele está pensando em mim agora, como eu estou pensando nele? Será que ele também bebe um vinho barato para esquecer, para aliviar o aperto no peito, enquanto deseja ter coragem para atravessar essa última linha que nós mesmos inventamos, e que ainda nos separa?

Mas é em noites como essa, onde o silêncio pesa mais do que qualquer outra coisa, que as lembranças dele me atingem com mais força. A última vez em que ele esteve perto – da última vez em que nós quase... quase... – e então eu me questiono. Porque se isso for realmente amor, então não faz sentido manter todo esse sentimento guardado, escondido como se fosse algo sujo. Não é justo com nenhum de nós deixar algo tão bom assim, tão certo, passar sem ao menos dar uma chance.

Porque se for mesmo amor, então não vai passar só porque tentamos não pensar nele. Porque algo tão forte assim fica. Se molda. Respira. Cresce, mesmo quando o ignoramos. Ele continua aqui. Com ele. Comigo.

E se não for amor... Bom, se não for amor, então é algo perigosamente parecido.


 

Emily largou a caneta, tentando enxergar através da vista embaçada enquanto esfregava os olhos inchados e molhados com as costas das mãos. Escrever aliviou um pouco. Sempre aliviava. Era quase como se, ao admitir tudo aquilo, fosse finalmente fazer doer menos.

O primeiro – e pequeno – passo para a cura.

Sufocando um último soluço, ela fechou o caderno devagar, ignorando as pequenas manchas que suas lágrimas deixaram na folha recém escrita. Ela se sentia crua, esfolada, completamente vulnerável quando finalmente fechou os olhos e se deixou cair encolhida sobre o colchão, sem saber que longe dali alguém também estava pensando nela com a mesma dor e intensidade.

 

DR/EP—

 

David estava sentado em seu escritório naquela noite. Cadeira de couro confortável, copo de uísque ao lado do bloco de papel. A tela do computador acesa, o cursor piscando na página em branco enquanto ele raspava os dentes contra o nó de deu indicador, a boca apoiada pelo punho fechado. Ele queria revisar suas anotações do caso, terminar aquilo antes que uma nova tragédia o fizesse esquecer dos detalhes, daquelas pequenas crianças, mas ele não conseguia, por mais que tentasse. Já estava há muito tempo ali, então era hora de admitir a derrota e parar de tentar fingir. Mesmo que apenas para ele mesmo.

A casa estava silenciosa, apenas os sons de sua respiração podiam ser ouvidos, o leve bater de seus dedos distraídos contra o teclado e um gole ocasional em sua bebida. Ele estava sozinho, como sempre, as luzes no aposento um pouco baixas. A garrafa de uísque já estava pela metade, mas Dave não estava bêbado a ponto de culpar o álcool pelas palavras que simplesmente não vinham. Isso não queria dizer, é claro, que ele estivesse completamente sóbrio. Era mais como se Rossi estivesse preso naquele meio termo entre a lucidez e a loucura, aquele doce ponto em que os sentimentos que ele tentava desesperadamente manter escondidos conseguiam escapar com muita facilidade entre as frestas da razão.

Rossi tentou mais uma vez, piscando para se concentrar no caso, os dedos pairando sem objetivo sobre o teclado quando o rosto de Emily de repente apareceu por trás de seus olhos cansados mais uma vez, como em um pequeno frame de um filme que ele jamais se cansaria de assistir.

Ele deu um sorriso fraco, balançando a cabeça para a imagem inconsciente e fora de hora. Era quase cômico o modo como ela o afetava, mesmo de longe. Como ele parecia obcecado por cada pequeno detalhe dela, e em como o mundo parecia girar diferente quando ela estava por perto. Ele nem mesmo conseguia se concentrar na porra do seu trabalho sem pensar no maldito sorriso dela a cada cinco minutos.

Deus, por que é tão difícil tirar essa mulher da minha cabeça?

Cansado – e talvez um pouco irritado – ele suspirou, finalmente desistindo. Ele queria ligar para ela, mandar uma mensagem. Apenas para checar se ela estava bem. Porque ele tinha visto como a última semana a tinha afetado. Como tinha deixado seus lindos e expressivos olhos um pouco mais mortos. Mas, então, havia tido aquela mensagem de Penelope e que Emily não havia respondido. Tudo bem, já era tarde, afinal de contas. E, talvez, o cansaço tivesse vencido qualquer outra coisa que a estivesse incomodando e ela tivesse simplesmente dormido. Pelo menos, era nisso que David queria acreditar. E era a única coisa que o estava impedindo de alcançar suas chaves de seu carro e atravessar a cidade apenas para ter certeza de que nada havia acontecido. De que ela estava bem e segura em sua cama. Quente e confortável.

O amanhã logo chegaria. Em breve, eles estariam juntos novamente e então David poderia ver que ela estava tão bem quanto se podia esperar naquela situação, sem parecer tão desesperado, mas, por enquanto...

Ah, aquelas horas que se arrastavam...

Ele inspirou, respirando forte pelo nariz, inclinando-se para o lado para alcançar, dentro da gaveta trancada, o caderno de capa preta. Aquele velho caderno de rascunhos em que ele despejava seus segredos mais profundos e que ninguém mais tinha acesso, onde ele guardava os pedaços dele que não cabiam em nenhum de seus livros. E em nada mais.

No fim, tudo em Dave gritava sobre precisar escrever. Não sobre crianças mortas ou casos que deram errado, mas sobre algo muito mais bonito e, ainda assim muito triste, que ocupava sua mente. O emaranhado maravilhosamente trágico que era sua vida.

Talvez, só talvez, a única coisa que ele precisava naquele momento era tirar Emily de seu sistema antes de continuar.

Mesmo que parecesse impossível.

 


 

Abril 13, 2012. Washington DC, VA 

 

Existem certas coisas que a gente só aprende a reconhecer com o tempo. A força de um olhar. A ausência constante e que machuca, mesmo quando aquilo que mais queremos está do nosso lado, na distância de apenas alguns passos. Aquela paixão nunca vivida. O desejo nunca explorado. E, claro, aquele tipo de amor silencioso, que não faz alarde, mas que permanece quando tudo ao redor se desfaz.

Emily Prentiss.

É engraçado pensar em como Emily entrou na minha vida alguns anos atrás. Naquela época, eu tinha prometido a mim mesmo que não cometeria os mesmos erros de antes, que não deixaria meus impulsos falarem mais alto que a minha razão. Eu estava mais velho, mais experiente. E precisava provar para mim mesmo que podia fazer meu trabalho sem me distrair com um belo par de pernas.

Foi lindo na teoria, e parecia que podia dar certo. Por algum tempo. Mas então, Emily aconteceu. Devagar, não intencional. E, ainda assim... tão forte que ainda me deixa tonto, só de lembrar. É que alguns sentimentos a gente simplesmente não escolhe. Não controla. Eles apenas vão se instalando, sem se tornar evidentes, até o dia que você percebe que já estão ali há tempo demais para ignorar. Até que você esteja completamente perdido.

Emily foi minha colega, antes de qualquer coisa. Naqueles primeiros meses em que eu ainda estava me adaptando e ela não desistiu de mim. Depois, quando tudo parecia muito sombrio e incerto, ela foi minha amiga. E agora... bom, agora é outra coisa. Eu não sei exatamente quando aconteceu, mas algo no meio do caminho fez o curso das coisas mudarem de uma forma muito drástica e definitiva. Sem me dar qualquer chance de escapar.

Mas o fato é que nada aconteceu entre nós. Não oficialmente, pelo menos. Nunca houve um beijo roubado, um toque menos inocente ou aquela noite em que o mundo inteiro parece parar por algumas horas.

Não por falta de interesse, claro que não. Não há absolutamente nada nesse mundo que eu tenha desejado mais nos últimos anos do que Emily Prentiss ao meu lado. Mas, não. Eu a admiro muito para tentar qualquer coisa. Pensar em como eu posso tão facilmente estragar tudo me dá náuseas.

Ainda assim, em alguns momentos mais insanos, eu costumo me flagrar imaginando se não teria sido mais fácil se tivesse acontecido algo. Uma única vez, pelo menos, só para tirar essa dúvida que me corrói aos poucos. Ou, quem sabe, para ter certeza de que tudo isso que carrego comigo é real.

Mas entre nós... mesmo que nunca tenhamos avançado, ah, é fácil perceber aquele “quase”, aquela coisa que vai além da simples amizade. Existe muito cuidado para ser apenas respeito – de ambos os lados – E muitos segredos e momentos compartilhados para ser apenas coleguismo.

Com Emily sempre foi assim, intenso, quase irracional. Todas aquelas coisas que nunca foram ditas, mas que sempre pesaram – e importaram – mais do que qualquer conversa que tenhamos tido. E nós tivemos muitas. Cuidadosas, medidas, sempre com aquele tipo de contenção que apenas quem sente demais – que teme demais – entende como necessária.

Se fosse coisa de apenas uma noite, então seria fácil controlar. Esquecer. Mas não. É algo infinitamente mais profundo e que me deixa muito inquieto. Consciente demais de cada toque contido. Daquelas palavras ditas apenas com o olhar. De tudo aquilo que não fizemos. Do que sempre evitamos fazer.

É inegável que existe algo mais entre a gente, todo esse carinho que implora para ser expressado em voz alta. Esse tipo raro de reconhecimento entre duas almas semelhantes. E, talvez por isso, eu a conheça melhor do que deveria. Eu sei a forma como ela sorri quando está feliz, despreocupada. E sei como ela tende a se isolar quando está desmoronando. Sei quando ela precisa de espaço e quando precisa de companhia, mesmo que seja orgulhosa demais para pedir. E eu sei que ela me conhece também. Talvez até demais. Mas eu não tenho medo disso; da entrega. Não mais.

Nós nunca cruzamos essa linha – do físico, carnal – E acho que parte de mim está orgulhosa disso. Do respeito que construímos, da amizade sólida. Mas existe aquela parte... a outra parte que sente, e sempre vai sentir, falta de algo que nunca aconteceu. E, honestamente, que tipo de pessoa consegue sentir falta de uma coisa que nunca existiu fora de pensamentos?

É que parece amor. E quando algo parece amor por tanto tempo, você começa a se perguntar se já não é – mesmo que não tenha sido exatamente exposto e nomeado como tal.

Às vezes, sinto como se ela também me amasse. E que nós estamos apenas esperando o momento certo. Outras vezes, acho que esse momento já passou, perdido em algum lugar do passado, em que nós dois fomos covardes demais para agarrar. E então, em noites como essa, eu fico sentado aqui, sozinho, um copo de uísque como companhia e a cabeça – e o peito – cheios dela. Mais uma vez.

Pode ser que nunca nada aconteça. E eu acho que tudo bem, ainda que doa – ainda que me mate, lentamente. A vida está cheia desses quase-amores que deixam essas cicatrizes profundas dentro de nós e nos marcam para sempre. Mas, se for realmente amor– e, comigo, essas coisas não costumam mentir – então é uma pena. Porque seria bonito. Seria sincero. Seria tudo aquilo que nós dois passamos a vida inteira fingindo que não queríamos – ou que não merecíamos.

Mas, eu me pergunto, agora, se é mesmo amor, então como diabos conseguimos continuar fingindo que não é?


 

Rossi deu um suspiro pesado, encostando a caneta na beirada do caderno quando acabou, sentindo-se muito leve e pesado ao mesmo tempo. Com olhos distantes, ele observou a cadeira vazia em frente à mesa – aquela mesma cadeira onde Emily já havia se sentado algumas vezes, compartilhando uma bebida em um momento de descontração, rindo das coisas bobas que ele tinha falado enquanto enrolava o cabelo no dedo e mordia o lábio inferior, como costumava fazer quando estava nervosa. Oh, ele sentia a falta dela, como se Emily pertencesse àquele lugar, como se fosse uma parte intrínseca da casa. Dele. Como se sua ausência ali gritasse a plenos pulmões, implorando para que alguém parasse e escutasse o quanto parecia errado. Mas Dave sabia. Ele sempre soube. 

E ainda assim, nunca fez nada.

Covarde.

Franzindo o cenho, David soltou a respiração pelo nariz, dando um sorriso triste em resposta ao pensamento enquanto fechava o caderno com uma calma que ele dificilmente sentia, antes de tomar o último gole de seu uísque, parado em silêncio. Apenas ele e a lembrança de algo que nunca aconteceu, mas que sempre esteve com ele – e sempre estaria.

 

– DR/EP –

Ainda era muito cedo quando Emily entrou no saguão pela manhã, um copo de café em uma das mãos e o rosto muito sério, cansado. Havia bolsas embaixo de seus olhos opacos, manchas escuras que denunciavam um choro recente e poucas horas de sono. Mas aquilo não importava, ela decidiu. Emily não estava em condições de se preocupar se alguém acharia estranho ou que aquilo pudesse levantar mais questões do que ela gostaria de responder.

Naquele momento, ela não ligava.

Uma coisa de cada vez. Um passo de cada vez. Um dia após o outro. Tinha sido o acordo que Prentiss fizera consigo mesma naquela manhã, enquanto deixava o jato quente do chuveiro lavar as lágrimas pesadas que insistiam em continuar caindo antes que ela finalmente conseguisse algum controle – ainda que fraco – sobre suas próprias emoções. Foi só então que ela se sentiu segura para deixar o ambiente confortável de seu apartamento e enfrentar o dia que estava em sua frente.

Ela deu um gole em seu café, franzindo o nariz levemente com o sabor um tanto desagradável, mas o copo estava quente, cheio, e ela precisava desesperadamente manter suas mãos ocupadas com alguma coisa, então decidiu mantê-lo.

Os primeiros raios de sol começaram a surgir no horizonte, lentamente, como se ele estivesse com preguiça demais para se erguer naquela manhã, e ainda havia poucas pessoas transitando pelo prédio quando ela caminhou na direção dos elevadores, se arrastando como se uma grande bola de metal estivesse presa em seus pés, olhando para o chão como se fosse aquilo única coisa que a estivesse mantendo de pé e a impedisse de correr de volta para casa.

Só mais um passo.

Erguendo um pouco o braço, ela apertou o botão do elevador, concentrando-se nos números que piscavam acima dele, balançando um pouco o corpo para frente enquanto esperava. Não demorou muito até que ele chegasse e as portas se abrissem. Lentamente, e ainda com os olhos baixos, Emily apertou o botão que a levaria ao andar da Unidade de Análise Comportamental, encostando-se pesadamente contra a lateral do elevador antes de inspirar fundo.

Então, naqueles segundos finais em que as portas se fechavam, uma mão as impediu.

Emily não precisou levantar os olhos para saber quem era. O cheiro característico daquele perfume a assombrava há tempo demais para que ela não conseguisse reconhecer, e Emily sentiu seu corpo enrijecendo de repente.

Dave.

Ele pareceu hesitar por um instante, o barulho suave de seus sapatos entrando em contato com o piso de madeira enquanto ele entrava em silêncio. Emily arriscou um olhar, observando a maneira desleixada como seu paletó estava preso no braço, o mesmo que segurava a pasta de couro, a barba por fazer despontando impiedosamente através da pele macia. Ele parecia cansado, assim como ela, o olhar desfocado, como se estivesse voltando de um lugar onde ele tinha visto de mais e não desejasse voltar. Emily estremeceu com a imagem, e foi só então que Rossi pareceu perceber que estava sendo observado, olhando para ela com um brilho nos olhos que oscilava entre tristeza e alívio.

“Ei”, ele disse, por fim, sem sorrir. Um tom tão dilacerado e estranho nos lábios de Rossi que Emily sentiu um arrepio subir por sua espinha, “Bom dia.”

“Bom dia”, ela respondeu, olhando para o rosto do homem por um momento a mais do que seria apropriado.

Dave não percebeu, parecendo ficar novamente perdido demais em sua cabeça para notar qualquer coisa ao seu redor enquanto o elevador subia em silêncio. Não era desconfortável, mas aquele tipo de silêncio tenso e conhecido, que eles haviam aprendido a respeitar durante os últimos anos – aquele mesmo tipo de silêncio que sempre acontecia depois dos casos e dias mais difíceis.

Com os dedos trêmulos, Emily intensificou o aperto em seu copo, agora segurando-o com as duas mãos, mas ela não voltou a beber mais daquele café horrível. Em vez disso, ela apenas se concentrou nos movimentos quase mecânicos de Dave enquanto ele ajeitava a manga da camisa, como se estivesse nervoso demais para ficar parado.

No fim, foi ela quem quebrou o silêncio, sussurrando:

Noite ruim?”

Ele hesitou, olhando para frente antes de deixar seu olhar deslizar para ela. E então apenas balançou a cabeça afirmando, um longo e pesado suspiro escapando pelo nariz.

“Algo assim”, ele finalmente respondeu, a voz baixa, arrastada.

Emily assentiu, desviando os olhos. Dave apenas abaixou o queixo, como se quisesse muito dizer algo, mas estivesse se controlando para não fazer isso. Ela mordeu o lábio, como se tivesse tido o mesmo impulso. Foi quase imperceptível, mas o suficiente para que ele pudesse perceber.

E então as portas se abriram. E eles se olharam mais uma vez, em silêncio, antes de saírem juntos e caminharem lado a lado, quietos, tensos. Como se, mesmo que quisessem, nenhuma palavra pudesse sair de suas bocas. Como se nenhuma delas fosse a certa. Aquelas que eles queriam realmente dizer e não podiam. Mas tudo neles parecia sincronizado, apesar da hesitação. Os passos, as batidas dos corações. Os gestos e as respirações.

Emily largou a pasta sobre a mesa, suspirando. Dave subiu pelas escadas em passos arrastados, mas, antes de entrar em seu escritório, ele lançou um último olhar em sua direção. A sombra de um sorriso finalmente curvando o canto de sua boca, fazendo com que Emily também sorrisse, incapaz de se conter. Como se aquele pequeno gesto tivesse sido capaz de colorir seu dia tão cinza.

Um passo de cada vez, Emily refletiu, ainda sorrindo.

Talvez aquilo fosse o máximo que eles conseguiriam por enquanto. Mas já era um começo.

E não era pouco, mesmo que pudesse parecer.

 

FIM

Notes:

Bem, é isso por hoje.
Digam-me o que acharam e o que querem ver daqui pra frente. Feedbacks são muito importantes para que eu possa melhorar.

Um abraço e até a próxima.