Work Text:
O que era para ser um dia de mudanças e memórias reformuladas, tornou-se numa maldição quando Juntae adentrou aquela mansão.
Ele não deveria ter feito isso. Não deveria ter aceitado a escritura, não deveria ter mexido naquela mobília velha e, acima de tudo, não deveria ter encostado naquele livro.
Agora, preso num porão escuro e empoeirado, ele estava cercado entre um acordo fúnebre e contraditório, e uma criatura instável que, a cada segundo, parecia almejar mais e mais da sua alma.
A noite nunca esteve tão escura como hoje na capital sul-coreana. O céu limpo de estrelas refletia as luzes azuis e artificiais dos prédios e estabelecimentos acordados que movimentavam a noite cheia, incentivando cada vez mais a população a se acumular pelas ruas.
Para melhorar, era véspera do final de outubro, dois passos longe do penúltimo mês do ano, e um dia antes do feriado querido pelos peões que rondavam Seul naquela noitada — o Halloween.
A multidão juntava-se pelo asfalto gasto com seus sorrisos e gargalhadas, esbanjando momentos de alegria e animação pré-feriado com seus entes queridos e amigos ao lado. As lojas chamavam à atenção com as decorações especiais, decoradas a vinco e ao pormenor, disputando silenciosamente entre si pela atenção das pessoas ansiosas por um pouco de diversão visual.
Num ótimo resumo, Seul se movimentava com fervura naquela madrugada de outubro, hipnotizada pelo entusiasmo e o anseio de criar mais um ano de boas memórias.
Bom, mas talvez nem todos estivessem tão ansiosos pelo feriado. Mais especificamente, se espremermos os olhos pela multidão sorridente, era possível identificar um rosto melancólico. Não tão triste como já havia estado, mas definitivamente cansado de toda a barulheira da cidade após passar a semana inteira cercado de desânimo e palavras de consolo.
Esse rosto tinha nome, uma história triste e um pedaço de papel amarelado apertado na mão.
Seo Juntae, esse é seu nome. Com seus vinte e cinco anos nos ombros, uma graduação em História e um funeral recém-finalizado, o homem caminhava pelas ruas da capital com uma mala de rodinhas e a única herança do seu pai enrolada nos seus dedos.
Um maldito pedaço de papel, essa foi a única coisa que ele havia deixado para atrás. Um papel velho, meio sujo, amarrotado e sem graça.
“Pelo menos deixou alguma coisa”.
Ele tentava se convencer, tentava se enganar ao criar significados bonitos para aquilo. Mesmo sabendo que sua relação com o mais velho era das piores, mesmo tendo consciência que seu pai não estava nos seus melhores dias há um bom tempo.
“Será que era para mim mesmo?”
Que pergunta boba.
Seo era filho único, fruto de um relacionamento onde sua genitora não suportou o peso de uma criança tão cedo e escolheu o deixar com um pai que mal tinha noção do que era uma fralda.
Talvez o erro já tenha sido aí, quando dois imaturos decidiram se envolver e criar algo que mais tarde viraria arrependimento.
Um peso, uma pedra no caminho, um empecilho, um maldito erro.
Enfim, que seja, não tinha mais idade para lamentar seu ciclo de vida.
Estava mais preocupado em encontrar a morada marcada no papel a letras claras e escuras. Pela rua citada, a residência situava-se num lugar alto da cidade, talvez até um pouco luxuoso. Mas, não queria supor nada, só de ter ganhado a escritura de uma casa como herança já mostrava que não tinha motivos para reclamar, afinal, nem sabia que seu pai tinha dinheiro para coisas assim. Sempre pensou que o velho estava demasiado focado naquele trabalho esquisito de pescador para lembrar que juntar dinheiro era importante.
Bom, talvez no final ele tenha realmente colocado a cabeça no lugar antes de partir de vez.
O caminho continuou acompanhado das rodinhas da mala que, vez ou outra, emperravam no caminho ou ameaçavam se soltar, e da multidão extravagante de sorrisos e alegria.
Sendo sincero, durante os últimos dias, Juntae não sabia se situar quando o assunto eram seus sentimentos. Estava feliz? Triste? Enraivecido?
Realmente não sabia descrever, mas, se o tivesse que fazer, talvez diria que estava no meio disso tudo. Um meio-termo entre: a tristeza da perda, a alegria de ter sido lembrado nos últimos momentos e a raiva de nunca ter notado que seu pai havia adoecido e não ter feito nada.
Muito se deve ao fato que o homem rejeitava fortemente qualquer ajuda do filho. Uma das coisas que mais detestava era quando Juntae enviava uma porção do seu salário como agradecimento de ter sido criado bem, apesar do pai não ser dos melhores. Nas palavras dele, nada disso importava, que esse dinheiro não valia muito e que, mais tarde, um dia desses, Juntae seria realmente capaz de o pagar por tudo de volta.
Seo nunca entendeu o que ele quis dizer com isso. Quando seria “um dia desses” ou “mais tarde”? O quão tarde seria? Tarde ao ponto de Juntae já ter criado família ou ao ponto dele não conseguir mais mexer os braços de velhice?
Nunca teve a resposta para as suas perguntas, mas, talvez hoje, elas pudessem ser respondidas. Vai ver essa escritura fosse a razão de tudo e agora era o momento de ouro para Juntae.
Apesar da sua mente não parar de trabalhar a cada segundo, os pés de Seo já haviam encontrado o caminho correto após tantas ruas e atalhos atravessados. As pernas mexiam-se em simultâneo com os olhos que, a cada segundo, checavam o GPS ativo no seu celular. A pequena seta guiava o homem com uma precisão firme, indicando e escolhendo as melhores e menores rotas para que Seo alcançasse seu destino no menor tempo possível.
Após longos minutos de caminhada, Juntae começou a se aproximar de uma ruazinha estranha. Aqui, a multidão já não existia, ela havia se dispersado há muito tempo. Nesse pequeno bairro, existiam apenas algumas pessoas andando por ali e um conjunto de casas grandes e extravagantes. Apesar de todas se destacarem fortemente, no final da rua, como um chamado interior, Juntae sentiu algo diferente.
Parecia que estava sendo atraído para aquela casa em específico. Ela possuía uma estrutura robusta, imponente, como se tivesse mais história do que todas aquelas mansões ao redor, impondo um poder fora de órbita que Juntae não sabia descrever.
Ele parou assim que o portão alto e ornamentado bloqueou o seu caminho. Ele não só era alto como parecia atuar como portal para um ambiente totalmente diferente que se desenrolava dentro da propriedade.
Juntae engoliu seco inconscientemente, as mãos se apertaram em ansiedade e o barulho do papel amarrotado foi o que lhe acordou daquele quase devaneio. Nesse milésimo de segundos, num estalar de dedos, outro pedaço de papel caiu da parte ainda dobrada da escritura — é, Juntae estava tão apático com tudo o que aconteceu que não se deu ao trabalho de abrir a escritura por completo para notar que havia outro papel dobrado lá dentro.
Até teria pensado em rir da sua idiotice se a letra marcada nesse pequeno papel não fosse tão familiar. Entre várias linhas tortas e sílabas quase inelegíveis, Seo entendeu que não se tratava de um simples pedacinho de papel.
Não, era algo muito mais impactante.
Era uma carta escrita à mão pelo seu falecido pai. Um bilhete não muito extenso que havia sido escondido entre as dobras resistentes daquela escritura.
Juntae estranhou, fechou o rosto em antecipação e desdobrou o papel, preparando-se para começar a ler.
“Juntae, meu filho, creio que, se estiver lendo isso aqui antes da data marcada, meu tempo realmente chegou ao fim. Sei que uma carta do seu pai imprudente não será a mensagem mais apelativa que você já recebeu, mas, por favor, dessa vez, preste atenção no que estou te contando.
Não entra nessa casa.
Essa mansão enorme é basicamente um labirinto mental que vai acabar com você. Não entra nessa merda, entendeu?
Sei que parece contraditório ler algo assim após receber a escritura de uma casa dos sonhos, mas esse inferno é um pesadelo. Toda aquela decoração estranha, as histórias macabras contadas pela vizinhança e… aquela merda de porão, são tudo jogos para chegar até ele.
Acredite no que quiser, nada lá dentro é normal e isso é porque tudo é controlado por aquele desgraçado. Ele é estupidamente poderoso. Ao ponto de eu ter perdido a porra da minha vida inteira e parte da minha sanidade para esse merda.
Não entra, Juntae.
Não mexa nas coisas, não pergunte nada ao vazio e, principalmente, não..”
A carta acaba aqui, com uma gota, quase poça, de sangue cobrindo o restante do texto. Mesmo Seo se esforçando, era impossível decifrar o que estava ali escrito, como se a tinta preta de caneta tivesse sido apagada com facilidade por uma borracha, disfarçada em seguida pela gota vermelha.
Era estranho, muito peculiar, mas talvez não ao ponto do homem desistir de adentrar a casa. Afinal, o que uma carta escrita há anos atrás poderia influenciar no presente? Provavelmente foi escrita quando seu pai perdeu a cabeça no meio do mar, embriagado pelas horas excessivas de trabalho, pela solidão marítima e pelo cheiro forte de peixe.
Que seja, também já estava em frente da residência, andou um bom bocado, não iria voltar tudo de novo só por uma carta velha. Vai ver era o total contrário, na realidade, a mansão escondia uma fortuna, uma piscina de dinheiro que o velho Seo almejava manter para o seu espírito — do jeito que era conhecido como mão de vaca, Juntae nem mesmo duvidou dessa possibilidade.
Enfim, era hora de entrar, afinal, não caminhou tanto para nada.
No momento que alcançou a tranca do portão e empurrou ligeiramente, as portas grandes de metal se abriram com facilidade, como se esperassem pela visita de alguém. O leve ranger das dobradiças enferrujadas anunciaram a chegada de Seo, que foi recebido pelo quintal mal-cuidado da mansão e pelo caminho de pedras que levava até a porta principal.
Juntae andou pelo caminho com cautela, além de estar intimidado pela atmosfera sombria do lugar abandonado, ele temia que as pedras do percurso pudessem se soltar com a menor força. Enquanto andava, passo por passo, ele observava a natureza tomar conta do exterior da casa, a grama alta e bagunçada, as flores murchas e sem vida, as árvores sem folhas pela estação esbanjando seus galhos secos e as trepadeiras que subiam pelas paredes altas da mansão, decorando-a com seu charme cinza e opaco.
Ele achou bonito, mesmo parecendo tudo tão frio e sozinho. Talvez pudesse se identificar um pouco.
Quando finalmente ficou de frente para a porta frontal, ele sentiu um arrepio subir pela sua espinha, como um sussurro estupidamente baixo que o recebia como cumprimento de boas-vindas. Decidiu ignorar, pensando se tratar apenas de mais um detalhe do clima de outono de Seoul. Pousou a mão na maçaneta e, com a mesma postura meio confiante do portão, a porta principal abriu com um leve ranger, abrindo os braços para Juntae adentrar aquele espaço escuro. O homem tateou a parede próxima em busca de um interruptor, confiante que aquela residência abandonada ainda tivesse um resquício de eletricidade o esperando.
Óbvio que não havia, era até estúpido pensar algo assim.
Por isso, com muito esforço, Juntae retirou seu celular do bolso do casaco e ligou a lanterna, esperando que o resto de bateria que lhe restava servisse para o ajudar a explorar tudo o que queria da casa.
Quando finalmente iluminou os seus arredores, percebeu que estava de frente para a sala de estar com um grande e enorme salão o recepcionando logo de cara. Havia uma lareira robusta num dos lados, rodeada por um conjunto de poltronas cobertas por um pano branco, assim como todas as outras mobílias presentes naquele espaço. Era como um mar de panos brancos, todos escondendo dentro dos seus corpos um pedaço precioso da história.
Como bom curioso e historiador que era, Juntae não hesitou em se aproximar de tudo o que podia, interessado em saber e tentar adivinhar em que ano e época aquele mobiliário havia sido colocado. Isso sem contar com o papel de parede escuro complementado com a madeira do mesmo tom, os suportes de vela distribuídos pelas paredes que aparentavam ter sido a fonte de energia do local por alguns anos e os vários quadros de homens que, a cada ano marcado, pareciam não mudar de aparência, como se fosse a mesma pessoa vivenciando épocas que nunca poderiam se cruzar.
Completamente bizarro e arrepiante, mas que aos olhos de Juntae, faziam seu peito estremecer de animação em estar num ambiente tão estranho e curioso.
— Como pode esse velho esconder essa joia rara de mim. Isso é incrível — ele sussurrou enquanto subia o pano de um aparador perto da grande escadaria que dividia a casa.
Era claro que era impossível explorar tudo naquele dia, então Juntae decidiu de última hora apenas adentrar os cômodos que estava mais curioso, e esses eram: a sala de estar, a cozinha e uma porta misteriosa situada abaixo da escadaria.
Sem perder tempo, após passear por todos os móveis daquela sala, o homem seguiu para a cozinha, caminhando com um pouco mais de animação pelos caminhos da casa.
A cozinha não estava tão diferente com sua bancada e móveis protegidos pelos mesmos panos brancos. Ele explorou a decoração rústica com entusiasmo, abrindo e fechando armários como uma criança cheia de energia, analisando os mínimos detalhes do mármore puro instalado na bancada e da pintura meticulosa dos móveis fixos.
Nada de mais, apenas uma cozinha arrumado e vazia.
Em seguida, ele voltou para a sala apenas para se deparar com a escadaria de novo. Antes de se deslocar até a porta estranha situado ali embaixo, ele deu uma vista de olhos para o que conseguia enxergar do andar superior. O caminho das escadas era decorado por um tapete protegendo a madeira do chão e os mesmos quadros das mesmas pessoas expostos nas paredes, seguindo o caminho até o primeiro piso.
Ele se arrepiou do mesmo jeito que sentiu antes de entrar, como se pudesse ouvir um sussurro soprar atrás do seu ouvido. Virou-se para trás por precaução, um pouco mais intimidado pelo momento estranho, mas não viu nada além da mobília protegida da sala.
Suspirou, alto e claro, e seguiu de novo para a porta do que pensou ser o porão. A mão pesou na maçaneta por um tempo até a confiança de abri-la finalmente chegar.
A primeira coisa que recebeu daquela entrada misteriosa foi um lance de escadas que descia e uma névoa de poeira subindo até o seu nariz.
Involuntariamente, ele espirrou numa frequência alta, acabando por espantar uma família de morcegos que se abrigava naquela penumbra tenebrosa. O grupo de bichos passou voando por Juntae com pressa e medo, guinchando levemente como se temessem permanecer mais um segundo ali dentro.
Seo se abaixou com rapidez, mais assustado pela doença transmissível dos animais, do que com o motivo de tanto espanto. Ele aguardou tudo voltar ao silêncio para voltar a se levantar e começar finalmente a descer.
Degrau por degrau, Juntae desceu o lance de escadas com cautela e a lanterna apontada para o chão, meticuloso ao extremo para evitar possíveis acidentes. Afinal, se caísse ali agora e se machucasse, não haveria ser humano que pudesse o ajudar. Todo o cuidado era pouco.
Quando chegou ao final do caminho, encontrou outra porta, essa de aparência um pouco mais robusta e resistente, como se guardasse algo importante. E, novamente, o mesmo sussurro e arrepio o atingiu, ao ponto de Juntae jurar poder começar a se acostumar.
Ele ignorou, de novo.
E voltou a girar outra maçaneta com a postura confiante, adentrando outro ambiente com demasiada curiosidade.
Mas, diferente das outras vezes, quando Juntae jurou só precisar apontar a lanterna para ver o espaço, algo estranho e totalmente fora da realidade aconteceu. O grupo de velas espalhadas ao redor do ambiente acendeu por conta própria, como se tivessem sido programadas para tal ação. A iluminação alaranjada do fogo permitiu visão total do espaço instantaneamente, permitindo que Juntae pudesse se localizar naquele cômodo.
Então, ele entendeu o que foram os avisos sussurrantes que o atingiram.
Juntae estava de frente para um altar. Não um bonito ou feito de calmaria. Pelo contrário, era macabro. Havia um livro posicionado no meio, ele estava aberto numa página específica que informava sobre uma “maldição” sem cura. No meio das folhas cheias de informação, havia uma faca cravada com brutalidade, como se tivesse sido colocada ali num momento de raiva e descontrole. Ao redor, crânios, rosas sem vida, alguns crucifixos quebrados e velhas já derretidas estavam espalhadas pelo restante da mesa, dando um ar bagunçado aquele ambiente rodeado de paredes de pedra.
Juntae se aproximou, mesmo sua mente o tentando impedir. Juntae tocou no livro, mesmo suas mãos tremendo em puro medo. Juntae leu aquelas palavras esquisitas de idioma desconhecido, mesmo sua língua se enrolando sem motivo.
Juntae ajudou aquela criatura a acordar.
Não havia mais volta, o selo foi quebrado.
No momento em que ele tocou as páginas, no momento que ele inalou o cheiro das velas e rosas, no momento em que os crânios o olharam de volta, e no momento que ele ousou tirar o punhal daquele livro.
Maldita hora que não escutou seu falecido pai.
Numa movimentação rápida e imprevisível, as paredes traseiras do cômodo expuseram o sono de uma criatura que pensou nunca mais voltar. O caixão escondido entre as pedras abençoadas daquele porão emergiu do chão, provocando um chacoalhar na estrutura antiga.
— Q-que porra? O que tá acontecendo? — Juntae se perguntou, apavorado por toda aquela situação que havia acontecido numa questão de segundos.
Ele tentou voltar e abrir a porta para fugir, mas estava trancada, bloqueada à chave mesmo não havendo abertura para uma fechadura.
À medida que tentava se concentrar em sair dali, ele se distraía mais com seus arredores, o que só tornou o medo ainda maior.
Mas não havia volta. O caixão já havia emergido, o cadeado foi quebrado e, dentro daquele cubículo, a criatura já havia acordado.
Um bocejo.
Juntae congelou, afinal, não era ele que estava expondo sono naquele momento apavorante.
Uma voz.
— Que sono maravilhoso esse, hein. Até que valeu a pena ser caçado por aqueles desgraçados.
Juntae se virou. Havia uma pessoa dentro do caixão.
No momento que os dois cruzaram olhares, eles souberam, entenderam, que aquele encontro, não foi uma coincidência. Foi como um arrepio predestinado, uma batida fraca de um coração congelado que viveu por tantos anos, uma memória de uma promessa quebrada substituída por uma maldição.
Ele sorriu, aquela criatura, expondo os dentes brancos levemente afiados.
— Você veio. — Ele disse, tirando o ar de Juntae. Com um cuidado e lentidão casual, ele saiu do seu caixão, arrumando no caminho as suas roupas elegantes que mal pareciam tocadas. — Quando seu pai me jurou um ente-querido, eu não pensei que realmente fosse verdade. Parece que aquele maldito realmente perdeu a cabeça.
Juntae caiu no chão, sem forças e tomado pelo medo. Incapaz de sequer formular uma palavra que não fossem gaguejares.
O vampiro riu, dessa vez, de forma anasalada.
— Parece que ele não te contou, tudo bem, eu posso me dar a esse trabalho. Preciso me acostumar a mexer o corpo depois de um século adormecido.
— Q-Q… Qu-Quem é vo-o-ocê? — Juntae perguntou, encolhido e tremendo em pavor no canto da porta.
— Você realmente quer saber? — Ele se abaixou à altura do Seo e arrastou o dedo pelo queixo tremulo do homem. — Sabe que tudo tem preço, não é?
Juntae engoliu seco, uma, duas, três vezes, até as lágrimas descerem pelo seu rosto.
— Eu sou o que seu pai escondeu de você. Seu novo dono, seu… novo senhorio. — Ele gargalhou, mexido pelas próprias palavras. — Inferno, esse velho maluco realmente não te contou nada. Incrível. Egoísta e paranoico até morrer, assim como eu havia avisado.
Ele se levantou e voltou a ajeitar as roupas, como se temesse por um só mau detalhe. Quando encontrou um lugar confortável para falar, ele cruzou os braços e começou:
— Primeiro, se você realmente não sabe, precisa saber meu nome primeiro. Eu me chamo Hyuntak, Go Hyuntak. E se você ainda não entendeu — ele abriu levemente a boca e subiu o lado direito do lábio, expondo sua presa afiada. —, eu sou um vampiro, entendeu? Não quero me gabar muito, mas, posso dizer que um dos mais influentes que já assombrou essa cidade. Enfim, fui trancado nesse porãozinho faz um tempo por causa de um bando de vizinhos intrometidos que acionaram os caçadores, mas, antes de tudo virar silêncio, eu fazia vários acordos pela cidade. Alguns vendiam uma porção de sangue por trabalhos pequenos, outros já me ofereceram membros do corpo por trabalhos mais pesados, isso sem contar com os idiotas que me procuravam para oferecer devotação barata que não durava um jantar inteiro. Contudo, no topo de todos que já encontrei, havia aqueles que ofereciam seus maiores bens pela proteção atemporal. E, seu pai, coelhinho, foi um deles.
Juntae ofegou, um pouco pelo medo de se comunicar com aquela criatura, e a outra metade pelo pavor daquilo ser real.
— Ele estava com uns problemas na época devida a umas merdas que ele cometeu e veio me procurar para encontrar ajuda. Claro que como bom morto que sou, eu ajudei ele. E, sendo sincero, não pedi nada de mais, no final, foi ele quem se ajoelhou aos meus pés e jurou me entregar aquilo que ele mais presava naquele tempo – seu queridinho filho. Um pequeno ser humano acabado de nascer que mal tinha consciência e já havia sido prometido ao pior.
— E-Ele não faria isso! — Seo interrompeu, gritando com os olhos lacrimejados para o vampiro relaxado. Hyuntak não mexeu um músculo, apenas jogou algumas
fotografias nos pés do homem.
— Se não acredita em mim, pode acreditar nessas fotos. Foram tiradas um dia antes do pacto. Era uma… quinta-feira? Não me recordo, só sei que depois disso, no dia seguinte, ele fechou o acordo comigo. Nessa mesma sala. Ele ofereceu meia garrafa de sangue, alguns fios ralos da criança e uma promessa que entregaria o futuro do filho nas minhas mãos assim que morresse.
Juntae olhou as fotos enquanto ouvia o vampiro falar, encarando a figura do seu pai segurando a mão de Hyuntak num ambiente casual na sala que explorou anteriormente, como dois parceiros de negócio fechando um contrato. O seu contrato, a sua vida.
— E aconteceu mesmo! — Go bateu palmas, comemorando a ocasião. — Finalmente o grande dia chegou. Finalmente vamos nos entender de vez, Juntae.
— Eu não vou fechar acordo nenhum com você, seu imundo! — Seo vociferou, rasgando as fotografias com remorso e decepção. — Vocês são dois nojentos, malditos, desgraçados, desprezíveis.
— Ora, não precisa se exaltar. Não é como se você tivesse escolha.
Juntae congelou, os olhos arregalados e a boca trêmula.
— O quê?
Hyuntak riu do espanto do outro.
— Ainda não entendeu? Ainda não percebeu a sua posição nesse momento? — O vampiro desencostou da mesa e se moveu num piscar de olhos, colocando-se de frente para o homem. — Você só tem uma resposta para o acordo que eu vou te oferecer, seu mortal estúpido.
— C-Como a-a-assim?
— Nesse acordo que fechei com seu pai, ele me prometeu algo. Energia vital e companheirismo sem fim. Você entende? — Hyuntak agarrou o pescoço de Juntae com uma certa brutalidade. — Eu te ofereço um acordo, Juntae. Fique comigo para sempre e sirva como meu companheiro imortal. Não há opção de recusar, e sempre que sua hora final chegar, irei te reviver e rejuvenescer. Vai ser o nosso ciclo amaldiçoado, um infinito perfeito para ambos.
Seo expirou pela boca descontroladamente, apavorado pelas palavras pavorosas daquele vampiro. Quanto mais ele tentava encontrar sua razão principal e sanidade que o fez viver até ali, mais ele sentia Hyuntak entrando no seu cérebro, penetrando suas entranhas, o possuindo por completo com seu poder mental e olhos vermelho brilhante.
O vampiro agarrou o pulso de Juntae com a mão livre e o levou à boca, amordaçando o local com uma força cruel e fria. Ele bebia o sangue do jovem enquanto mirava nos seus olhos, hipnotizando Seo com seus lábios fechados no seu pulso, sugando sua energia vital até ele começar a esbranquiçar.
Foi só então que Hyuntak largou a mão de Seo e mordeu os lábios com uma força grotesca, abrindo um corte profundo e sangrento no local. Em seguida, com uma lentidão que praticamente matava Juntae, ele se aproximou e grudou os lábios nos de Seo.
— Beba — Hyuntak ordenou, o timbre frio e medonho.
Juntae, que já havia perdido aquela batalha mental há muito tempo, cedeu às ordens com rapidez, puxando e sugando o que conseguia daquele pequeno corte nos lábios do vampiro.
A certo ponto, aquela sede de sangue se tornou grotesca, macabra, Juntae ficou
possuído por uma sede irreal que o fazia arrastar a boca de Hyuntak na sua, tudo em busca de mais e mais sangue. O rosto dos dois estavam completamente manchados de vermelho, sujos pelo cheiro metálico do líquido viscoso carmim que pareciam os acender numa chama amaldiçoada de fervor e promessas.
— Você precisa aceitar minha oferta, Seo.
— E-Eu aceito, dane-se tudo. Eu aceito essa porra de maldição.
Juntae mal se deu ao trabalho de medir suas palavras, afinal a única coisa que rodava sua cabeça era sangue, sangue, sangue e mais sangue. O sangue doce de Hyuntak, daquele vampiro que, agora, havia virado seu criador.
Que seja assim, não se importava mais com o medo, o temor, o remorso, a raiva ou a tristeza. Havia sido prometido aquele momento, seu destino praticamente realizado. Não havia volta num contrato imoral feito com uma criatura que preza por seus acordos e ganâncias. Quando aquele ciclo de sangue foi inserido no caminho de Juntae, ele já deveria ter aceitado que não havia volta a dar.
Afinal, foi feito para isso, para aceitar e se perder nessa maldição eterna.
FIM.
