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Faixa não lançada

Summary:

Franco levanta a cabeça – e se perde por um instante. Aqueles olhos grandes, castanhos e absurdamente expressivos o capturam, e sente, com desagradável clareza, que poderia compor algo só com o jeito que ele o olha – um solo inteiro, longo, cheio de espaços e respirações.

Notes:

FANFIC SOBRE A RESENHA DESSES FOFOS!!!

W

(Com certeza volto pra arrumar umas coisas posteriormente, mas por enquanto tomem essa versão)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Franco detesta Eloy. Pelo menos agora, neste exato instante. Ele e Kemi estão sendo tão—ugh… constrangedores com suas insinuações e…

Ele avança devagar pelo perímetro da casa abandonada, passos medidos, atento a qualquer farfalhar na vegetação que pareça mais vivo do que deveria… ou algo assim. O guitarrista não está com medo – claro que não, seria ridículo. Eloy jurou que sempre há alguém de vigia no andar descoberto, geralmente a mercenária com seu binóculo; mas desde que Franco chegou, não viu ninguém, nem ouviu nada. E ele ouve bem… por enquanto, pensa, quando uma tosse inesperada lhe rouba todo o ar do peito. Ele tenta abafá-la, temendo atrair atenção indesejada – sem ter certeza se conseguiu.

Sério – qual é a dificuldade do Eloy em fazer as coisas por conta própria? Franco tem quase certeza de que aquels dois foram além de um beijo, então por que toda essa… essa hesitação ridícula!? Eles continuam dançando em volta um do outro como se estivessem num jogo que ninguém quer terminar.

E aí, claro, sobra para ele resolver—

Então, um estalo.

Dentro da casa.

E em seguida—POW!

Franco reage na mesma hora: dispara até a base de uma janela e se abaixa, o coração martelando, tentando respirar fundo para reorganizar os nervos. Não que tenha se assustado, é claro. Quer dizer… obviamente não foi susto.

Recuperando o fôlego, Franco ajeita a guitarra nas costas e tateia o cinto solto da calça para confirmar se a máscara ainda está presa ali. Está. Ele inspira profundamente, recompõe a postura e se ergue o suficiente para espiar pela janela. Logo encontra a provável origem do estrondo.

Ele franze o cenho. Não reconhece o garoto estirado no chão – pele morena, cachos escuros interrompidos por uma mecha loira inesperada, roupas tão deslocadas quanto as dele próprio.

Kemi, Dalmo, Aguiar, Jae, La… Labirinto? E o sacrifício deles. A conta não fecha. Na verdade, as descrições não fecham.

O sacrifício, pelo que Franco sabe, seria fácil de reconhecer – o estigma chamativo, a postura espalhafatosa, todo aquele pacote que, aparentemente, é impossível de ignorar. Pelo que Kemi e Eloy disseram, seria o tipo de pessoa que você identifica a metros de distância.

Então… quem diabos é esse?

Com mais firmeza nos passos, Franco contorna a parede externa até avistar uma porta lateral escancarada de forma quase displicente. Ele se endireita e observa com cautela. Lá dentro, o invasor está sentado no chão, o rosto jovem parcialmente escondido por olhos marejados. Ele aperta o tornozelo com força, fazendo uma careta de dor. Ao lado, um degrau de madeira partido ao meio denuncia o acidente.

Deve estar doendo bastante… Mas pensando bem, ninguém mandou ele invadir.

Franco inspira, deixando que sua decisão se solidifique. Vai fazer um favor aos aliados: eliminar o intruso.

Com o lança-chamas apontado – embora sem a menor intenção de dispará-lo; o lugar já parece prestes a desmoronar sem a ajuda dele – Franco cruza a soleira da porta e tenta anunciar sua presença.

Tenta.

Porque o sujeito o percebe antes que qualquer palavra saia, soltando um grito que ecoa pelo salão vazio. Ele se arrasta para trás às pressas até bater as costas em uma pilastra, o susto transformando-se em desespero. Franco avança em passos duros, determinados. O garoto tenta se erguer, mas o máximo que consegue é se apoiar na madeira, o corpo tremendo. Uma mão segura a pilastra e a outra cobre o lado da barriga, como se protegendo algo. O tornozelo direito está… ruim. Definitivamente torcido.

“P-por favor, não me machuque! Eu não… Não tem nada aqui!”, ele implora, a voz embargada. As lágrimas, antes represadas, finalmente escorrem pelas bochechas.

“Ah, é? E o quê, você já levou tudo então?”, Franco retruca, aproximando-se até que sua sombra o alcance. “Nome e equipe!” Ele tenta transmitir a mesma firmeza que Eloy carrega naturalmente, ou aquela postura despreocupada de Cindy, mas não é nem grande como um, nem inconsequente como a outra. A simples força que imprime na voz faz o peito arder; uma tosse ameaça escapar, subindo como fogo pela garganta. Franco a engole seca – não vai demonstrar fraqueza agora.

O desconhecido balança a cabeça com tanta força que os cachos castanhos sacodem desordenados, alguns fios grudando na testa úmida de suor: “Não, não, não! Eu não sou ladrão!”, ele dispara, a voz quase falhando. “Eu estou com os assassinos! Os mascarados!” Ele se encolhe ainda mais quando Franco dá mais um passo. Se continuar daquele jeito, vai acabar se fundindo à parede. “Meu nome é Pomba!”, ele continua, o desespero acelerando as palavras. “Minha família—equipe foi m-massacrada pelos vampiros! Os assassinos só me acolheram por enquanto, eu juro…” As lágrimas caem sem controle agora, acompanhadas de soluços curtos e irregulares.

Franco interrompe a aproximação a menos de um braço de distância. De perto, o menino parece menor que ele – embora, pela expressão mais definida e pelas linhas do rosto, Franco suspeite que esse tal de Pomba seja um ou dois anos mais velho.

E que tipo de nome é “Pomba”, para ser honesto?

“Hum. Sei… certo”, ele tenta soar convincente, mas sua voz sai mais neutra do que imponente.

O que os outros fariam agora? Franco não tem a menor ideia – nunca foi responsável por nada desse tipo.

Caio usaria o tom grave e cortante, intimidaria sem esforço. Eloy contaria apenas com a altura e a força bruta. Cindy e Alê bem, cada uma aterroriza à sua maneira: Cindy é imprevisível ao ponto de ninguém saber se vai rir ou quebrar alguma coisa, e Alê… com ele, basta encarar nos olhos por tempo demais para se arrepender. 

Franco, por sua vez… É por isso que não sou eu quem lida com o público.

“Você… você vai me matar?”, Pomba questiona, puxando Franco de volta do turbilhão de pensamentos.

“Não.” Franco respira fundo, tentando parecer firme. “Mas vou ficar aqui até alguém da equipe voltar. Preciso fazer algo, de qualquer forma.” Ele meio que se esqueceu o que é esse "algo"… Mas uma hora a memória volta!

Franco vê o alívio imediato escapar dos ombros tensos de Pomba – e, antes que aquilo se transforme em confiança demais, Franco ergue a guitarra e encosta a cabeça no queixo dele, obrigando-o a erguer o olhar: “Se tentar alguma coisa… se estiver mentindo…”, a voz dele sai mais baixa, mas carregada. “Vou queimá-lo até que não reste nada. Entendido?”

Pomba engole seco e acena, o movimento curto, limitado tanto pela guitarra quanto pelo medo.

O guitarrista devolve o aceno e recua, ainda com a arma apontada. Nada no jovem muda – ele apenas desliza pela pilastra até sentar-se no chão, soluços mais fracos agora, mas ainda presentes.

Franco torce a boca, desconfortável com a cena. Andando de costas até senti-las tocarem a parede próxima à porta de entrada, observa o salão: a escada quebrada à sua frente e, à direita, uma mesa com um grande mapa completamente aberto.

Ele se aproxima, desviando só o suficiente para manter Pomba no canto do olho, e examina o papel. A localização de todos eles está marcada. O circo da banda aparece ao norte e um desenho do rosto do Caio o representa com precisão duvidosa.

“Quem fez isso?”, pergunta, confuso. Os assassinos não parecem… sorrateiros. Nem rápidos. Nem organizados o bastante para mapear a área em—

“Eu”, Pomba responde, a voz mais calma agora. “Quer dizer, mais ou menos. Tive ajuda. Sou cartógrafo.”

Franco vira-se de volta para a mesa e tira a guitarra do pescoço, apoiando-a sobre o tampo com cuidado. Se precisar, tem seus maçaricos, as facas espalhadas nos bolsos… ferramentas suficientes caso a situação mude.

Por enquanto, ele vigia.

Pomba parece prestes a desmaiar de nervoso enquanto tenta, desajeitado, recolocar o tornozelo no lugar – Franco realmente espera que esteja apenas deslocado e não quebrado. Pomba pressiona o próprio pé e solta quase no mesmo instante, um gemido curto escapando antes que ele consiga reprimi-lo.

“O que exatamente você fez para isso acontecer?”, Franco questiona, inclinando a cabeça para o lado, inquisitivamente.

“Eu…” Pomba ergue o rosto para responder – e Franco desvia o olhar por um segundo, fingindo não reparar o quanto ele é… bonito. As lágrimas só deixam o rosto mais expressivo, o que é um problema por si só. “Ouvi um barulho. Uma tosse.” Ele respira fundo, os dedos tremendo ligeiramente na pilastra. “Eu não ia abrir a porta pra conferir, então pensei em subir. Ser discreto, sabe? Ainda mais se alguém tentasse invadir. Mas…” Ele faz uma careta. “Acabei me desequilibrando.” Mal termina a frase e uma tosse forte o atravessa, dobrando seu corpo para frente. A mão vai direto para a lateral da barriga, protegendo-a com um gesto instintivo de dor.

Franco sente uma pontada de empatia – involuntária, mas real. Problemas pulmonares ele conhece bem demais; um incômodo constante, culpa exclusiva dele e daquela ideia… um tanto estúpida. Ainda que, convenhamos, todo o conceito continue sendo muito irado.

“F-Franco?”

“Como… O quê?”

“Seu nome… não é?”, ele pergunta, a voz um pouco estridente pelo nervosismo óbvio. “Quer dizer… eu acho que é.”

“É. É isso mesmo”, a resposta sai leve, como de costume, mas com uma aspereza involuntária. “Como sabe?” Franco não tem certeza se soa impaciente… ou se é claro que ele também está completamente nervoso.

Pomba se apressa em explicar – rápido demais, tropeçando em palavras – que sua família tinha juntado informações sobre todas as equipes logo no primeiro dia. Além disso, Kemi e Dalmo deram um pequeno relatório sobre a primeira exploração… o dia em que conheceram a banda.

Franco não gosta da ideia de terem sido observados. Seus ombros tensionam num reflexo involuntário. Mas… todos eles estão mortos agora. Não faz diferença. E, de qualquer forma, quem tem acesso a essas informações atualmente são aliados. É o que importa. Além disso, se for completamente honesto consigo mesmo, a banda possui figuras públicas (Alê nem tanto), tentar esconder qualquer coisa nunca foi exatamente uma opção.

Franco apoia uma das mãos na beirada da mesa, tamborilando os dedos num ritmo distraído. A poeira levanta a cada toque, dançando no ar iluminado por frestas irregulares do teto quebrado. Ele observa Pomba por alguns minutos, tentativa de análise que acaba se transformando em outra coisa.

“Então vocês ficaram… anotando coisas sobre a gente.” Não é uma acusação, mas a frase trás peso.

Pomba balança a cabeça depressa, como se pudesse espantar qualquer mal-entendido: “Não era nada ruim! A gente só… precisava saber quem estava por perto. Quem era uma ameaça, quem não era. Normal, certo?” Ele engole em seco. “E, bem… vocês são meio difíceis de ignorar.”

“É, a gente costuma ser”, Franco admite com um meio sorriso curto.

Silêncio.

Um silêncio estranho, tenso, mas não exatamente hostil.

Pomba parece buscar coragem antes de continuar: “Olha… eu sei que parece suspeito. Eu sei. Mas eu não estou mentindo. Os assassinos só me deixaram ficar porque… porque eu realmente não tinha mais ninguém. E eu acabei sendo um pouco útil, então…”

Franco pigarreia, tentando limpar a garganta e, ao mesmo tempo, ganhar um segundo para organizar o próprio caos interno: “Vamos… não sei, esperar aqui. Até… sua galera aparecer? Sim, isso mesmo. Sendo assim, relaxa, está bom?” E enquanto as palavras saem – tortas, frágeis, estranhamente conciliadoras – Franco sente imediatamente a necessidade de desviar o olhar. Ótimo. Muito convincente. Isso soou exatamente como alguém que sabe o que está fazendo. Ele queria parecer seguro, firme, talvez até intimidador… mas tudo o que consegue transmitir é um tipo peculiar de gentileza nervosa. Caio e Eloy teriam dado risada. 

Eu definitivamente não nasci para essa parte do trabalho.

Ainda assim, mantém o rosto na direção de Pomba, tentando vender a ideia de que tem controle da situação – mesmo que por dentro esteja tão inquieto quanto o homem à sua frente

“Obrigado.” Pomba relaxa contra a pilastra, exausto demais para esconder isso.

Franco quase responde “não agradeça ainda”, mas não tem energia para mais ameaças dramáticas. A tosse sobe na garganta como uma brasa querendo inflamar. Ele a sufoca, desviando o rosto.

Pomba observa, a sobrancelha arqueada num misto de curiosidade e preocupação: “Você está bem?”, ele pergunta, voz suave, hesitante.

Franco fecha os olhos por um segundo. Respira fundo: “Estou”, mente descaradamente, seu coração parecendo que vai saltar do peito. 

Pomba observa Franco por um instante longo, a expressão hesitante se transformando em algo mais decidido – ou simplesmente derrotado. Ele respira fundo, arfando discretamente quando o ar atravessa a garganta: “Está tudo bem se você… não estiver bem.” A frase soa cuidadosa, mas firme o suficiente para não parecer apenas um consolo vazio. Ele enxuga o rosto com o antebraço, ainda que as lágrimas insistam em voltar. “Porque eu também não estou.”

Franco ergue o olhar, desconfiado de que aquilo não se trata apenas do tornozelo: “Como assim?”

Pomba solta uma risada curta e amarga, que imediatamente se desfaz num gemido abafado de dor: “Eu acho que não vou durar até o último dia.”

As palavras pousam entre os dois como algo intenso demais para ser ignorado.

“O quê?”, em um sussurro, pergunta Franco.

“É sério.” Pomba inspira com dificuldade. “Só restou eu da minha equipe – e o sacrifício se foi. Agora… parece que estou amaldiçoado com uma doença. Algo que está me corroendo por dentro.” Sua mão desliza pela região dolorida, o toque cuidadoso. “O tornozelo até me ajuda a ignorar essa outra dor por enquanto.”

Franco tenta dizer algo, mas nenhuma palavra parece adequada. Sua mente corre, inquieta, entre preocupação, incredulidade e uma irritação incômoda por sentir qualquer coisa além de cautela.

Por favor! Todos aqui (menos a banda) vão morrer em algum momento! Ele não deveria… não deveria…

Pomba continua, com a voz tão baixa que quase se confunde com o eco oco da casa abandonada: “Às vezes eu sinto que não deveria estar vivo. Que tudo simplesmente se acumulou para dar errado.” Ele fecha os olhos, o rosto apertado em frustração e cansaço. “Essa dor… não para. E eu estou exausto. Cansado de estar sozinho, cansado de correr, cansado de tentar sobreviver.” Um sorriso fraco e torto tenta surgir, mas desaparece antes de se firmar. “Então… se você também não está bem, está tudo bem. De verdade. Eu não vou julgá-lo.”

Franco sente o estômago revirar – como se aquela sinceridade tivesse mais impacto do que qualquer ameaça, qualquer trama, qualquer arma.

Qualquer desejo—Não! 

Não. 

Franco respira mais fundo do que deveria, o ar entrando nos pulmões com um ardor incômodo. Ele desvia o olhar por um instante, tentando recuperar o que quer que seja que sempre o manteve firme… mas a presença frágil e honesta de Pomba corrompe qualquer máscara que tente vestir.

Ele decide falar, ainda que a voz saia baixa, quase rouca: “Você não deveria desistir tão cedo.”

Pomba solta uma risada curta – não irônica, apenas cansada: “Não estou desistindo. Só estou… constatando. Constatando fatos.”

Franco sente um incômodo no peito, algo que não sabe nomear. Cruelmente, lembra-lhe seus próprios limites, sua própria doença queimando devagar; a inevitabilidade é dolorosa. 

Ele se afasta da parede, dando dois passos em direção a Pomba – não o suficiente para invadir o espaço do outro, mas o bastante para que o som de sua respiração seja audível para ambos: “Deixe-me ver esse ferimento”, diz, tentando manter o tom impessoal. “Há alguém na minha equipe que talvez possa ajudar.”

Pomba hesita, surpreso: “Está tudo bem. Eu consigo me virar. E não—”

“Claramente consegue”, ironiza Franco, olhando o tornozelo inchado e roxo.

Pomba respira devagar, vencido. Ele move a mão que protegia a lateral do corpo, revelando a área inflamada sob a camisa amassada, que é… escura, profunda e em espiral. Franco se agacha ao lado dele – devagar, porque a tensão em suas próprias costas protesta – e aproxima a mão, mas não toca.

“Posso?”

Pomba assente.

A ponta dos dedos de Franco toca a pele… morta, senão podre. O contato é mínimo, mas suficiente para Pomba prender a respiração. Não é dor – ou não só dor. Franco sente o tremor leve dele, sente o corpo retesado sob sua mão.

“Isso é… a doença?” É estranho. Lembra um pouco todas aquelas coisas que Alê faz.

Porém, ao contrário do que esperava, Pomba solta uma risada – curta, fraca, mas surpreendentemente genuína. Ele leva a mão à testa, balançando a cabeça como se achasse graça da própria situação: “Não. Não, isso não é a doença. Tentei te explicar.”

Franco pisca, confuso: “Então o que é isso?”

“Isto? Kemi.”

“Kemi”, repete Franco, sem acompanhar o raciocínio.

“Sim.” Pomba aponta a área escurecida. “Ela me deu um tiro quando me viu pela primeira vez. Eu estava correndo e gritando. Achavam que eu era uma ameaça.”

Franco o encara por um momento, absolutamente atônito: “A mercenária atirou em você.”

“É.”

“E você sobreviveu.”

“Por incrível que pareça.”

“E… está fazendo piada disso?”

Pomba dá de ombros – ou tenta, já que o movimento dói e ele reprime uma careta.

“Kemi realmente tem um jeito… caloroso de lidar com desconhecidos”, Franco comenta, lembrando-se claramente da precisão assustadora dela no jogo de tiro-ao-alvo.

Pomba ri de novo, mais leve dessa vez: “Isso é o que ela chama de aviso amistoso.”

Franco passa a mão pelo cabelo, profundamente dividido entre incredulidade e um respeito relutante pelo sobrevivente: “Se esse é o aviso amistoso dela…”, diz, cruzando os braços, “eu nem quero imaginar o aviso agressivo.”

Pomba o observa com um brilho quase travesso no olhar, apesar da dor – da situação toda.

Franco quebra o contato visual e desliza os dedos um pouco mais para cima, examinando a área com cuidado quase delicado demais para alguém armado minutos atrás. Pomba o observa, tentando não encarar o rosto concentrado do outro – mas falhando miseravelmente. Logo ele desvia o olhar do ferimento antigo também, tentando recompor a neutralidade que perdeu pouco a pouco desde que entrou na casa. O silêncio se estende, denso, quebrado apenas pela respiração irregular de Pomba, pequenos soluços e fungadas depois de muito choro.

Franco sente uma pontada estranha no peito – não chega a doer, mas provoca um calor inquietante. Do tipo bom. Ele pigarreia, tentando cortar o momento: “Acredito que… deveríamos resolver o tornozelo”, diz, sem olhar diretamente para Pomba, sentindo-se constrangido de repente. 

“O quê?” Pomba o encara, assustado e confuso ao mesmo tempo.

“O seu tornozelo. Você tentou colocá-lo no lugar e quase desmaiou.” Franco aperta os braços cruzados, depois desfaz o gesto porque percebe que está parecendo estúpido. “Eu posso fazer isso.”

Pomba arregala os olhos: “Você… pode?”

“Sim.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

“Tem experiência com isso?”

Franco hesita por meio segundo – o suficiente para Pomba soltar um pequeno gemido desesperado.

“Tenho o suficiente”, responde afinal. A banda vive tendo acidentes – todos eles aprenderam a se consertar depois de várias torções (por mais que sobre para Caio e Alê resolverem isso na maioria das vezes). “E se não fizermos nada, você não vai conseguir ficar de pé nem quando sua equipe chegar.”

“Isso vai… doer?” Pomba morde o lábio com força.

“Sim", ele responde distraído.

“Muito?”

Franco levanta o olhar e pensa um pouco. Poderia mentir. Deveria mentir. Mas não mente: “Muito.”

Pomba fecha os olhos, como se estivesse prestes a receber a sentença de um juiz: “Eu… não sei se consigo. Talvez o Aguiar… talvez, quando ele chegar—”

“Você consegue”, afirma Franco, a firmeza inesperada na voz o surpreende tanto quanto Pomba. “Pode confiar em mim.”

O silêncio que segue é quase palpável. Uma tensão elétrica percorre o ar, fina e difícil de ignorar. Pomba respira fundo, tremendo, enquanto cada músculo de seu rosto denuncia medo, exaustão… e uma estranha confiança que ele não sabe justificar.

“Tudo bem”, diz ele, enfim, num suspiro derrotado. 

Franco se aproxima, ajoelhando-se junto ao tornozelo inchado. Ele toca o chão para se estabilizar, mas seus dedos acabam roçando a perna de Pomba – um toque mínimo, porém suficiente para o garoto prender a respiração.

“Vou colocar sua perna na posição certa”, diz ele, a voz baixa, quase rouca. “Depois, eu puxo. Será rápido.”

Pomba engole em seco, as lágrimas já se acumulando no canto dos olhos: “Rápido… é bom.”

Franco sorri, os anéis prateados do snake bites destacando ainda mais o contorno dos lábios: “Sim. Rápido é ótimo.” Ele pisca para o rapaz, arrependendo-se no exato momento em que o faz – não pela provocação, mas pelo calor que sobe de imediato ao rosto. Para disfarçar o rubor, baixa a cabeça e foca no que precisa fazer. Segura o tornozelo de Pomba com firmeza, e o contato faz o outro soltar um soluço involuntário, mesmo sem que Franco tenha iniciado qualquer movimento. “Respire fundo”, ele orienta.

Pomba tenta. Mas falha.

“De novo.” Franco levanta a cabeça – e se perde por um instante. Aqueles olhos grandes, castanhos e absurdamente expressivos o capturam, e sente, com desagradável clareza, que poderia compor algo só com o jeito que ele o olha – um solo inteiro, longo, cheio de espaços e respirações.

Porra.

Pomba inspira; uma lágrima escapa, lenta, desenhando um rastro quente pela bochecha.

O ritmo do coração dele certamente faria parte da melodia.

“Agora.”

Pomba expira—Franco ajusta o pé – e o rapaz solta um grito engasgado, os dedos agarrando a camisa na altura do peito, o corpo inteiro se curvando enquanto o choro rompe de vez, descontrolado.

Franco não gosta de ver dor. Não desse tipo. Mas ver Pomba se agarrando a ele – vulnerável, aberto, tremendo – causa um efeito que o faz apertar os dentes. A dor do outro garoto, paradoxalmente, desperta algo nele que ele não sabe se deveria sentir nas circunstâncias atuais.

“Calma”, murmura, segurando o pé com firmeza. “Ainda não foi. Isso foi apenas a posição.”

Pomba solta um riso desesperado entre lágrimas: “Se eu não fosse tão—”

“Ei, ei, ei. Vai passar.” Franco aproxima um pouco o corpo, sem perceber. “Mas eu preciso que fique parado.”

Pomba respira fundo, mas sua voz treme ao responder: “Eu… eu confio em você…” A frase sai trêmula, marcada pelo som cru de alguém desistindo mais por falta de alternativas do que por verdadeira segurança. E, mesmo assim, mesmo sabendo que “confiar” ali dentro não tem o mesmo significado que teria em qualquer outro lugar… ainda toca.

As palavras o atingem como um de seus muitos acidentes ardentes.

Franco sente o corpo reagir antes mesmo de entender por quê – o estômago se contrai, o ar prende na garganta, e um calor estranho percorre sua coluna, incômodo e vergonhoso. Ele não está preparado para isso. Para ser visto assim. Para ser depositário de confiança de alguém que mal conhece. E, principalmente, não está preparado para o fato de que uma parte dele… gosta.

“Certo”, diz, quase em sussurro. “Três.”

Pomba aperta os olhos.

“Dois.”

Franco aproxima ainda mais o rosto, de forma instintiva – para falar mais baixo, para que Pomba ouça, para que ele não se perca na dor.

“Um.”

Ele puxa.

Desta vez, Pomba grita.

Mas o grito se desfaz no meio do caminho, quebrando em um choro trêmulo – quente, desesperado, sem qualquer resistência. Pomba se dobra contra ele, cedendo totalmente ao impacto da dor, e Franco é obrigado a segurá-lo pelos ombros para impedir que desabe de vez.

Pomba emite um riso frágil, quase sem ar – um som que é pedido de desculpas e agradecimento misturados, confusos e inseparáveis. Aos poucos, ele se afasta do peito de Franco, mas o movimento é lento demais, íntimo demais e no final seus rostos acabam perigosamente próximos.

Perto demais.

Olhos ainda marejados.

Respiração quente.

A boca entreaberta pela exaustão, pela dor e por algo que Franco se recusa a analisar mais profundamente. Porque, honestamente, tudo isso (Hexatombe) em que os dois acabaram se envolvendo já é ruim o bastante. Complicar ainda mais – tentar interpretar sensações, emoções, intenções – seria pura burrice. Simples assim. Não há espaço para isso. Não deveria haver.

Pomba mesmo admitiu que provavelmente não viveria por muito mais tempo e isso é… lamentável.

Injusto.

Uma espécie de erro grosseiro do universo.

Cada um faz suas escolhas, mas… Ele parece deslocado demais para esse tipo de provação – diferente dos que, como a banda de Franco, navegam pelo caos com uma familiaridade quase confortável. Pomba não tem essa dureza, essa adaptação enraizada, essa… disposição para sobreviver como se fosse um jogo. Ele parece frágil, sim, mas também estranho demais para pertencer a esse cenário – como se tivesse caído ali por acidente, um acidente cruel que o mundo não pretende corrigir.

Franco sente tudo isso como se tivesse engolido ar quente demais. Como se estivesse respirando fogo por dentro.

Injusto.

“Vou fazer uma coisa. Se não gostar… pode me dar um soco”, avisa Franco, abruptamente, como se a decisão tivesse escapado antes de ele conseguir pensar direito.

Pomba arregala um pouco os olhos: “O que—?”

Franco não deixa a pergunta terminar. Fecha os olhos num gesto rápido, respira fundo como se mergulhasse em água gelada… e avança.

O beijo acontece firme, contido, mas intenso o suficiente para que Franco sinta os próprios piercings latejarem contra a pressão. É um toque de lábios fechados, sem ousadia técnica, mas com uma coragem crua, quase desesperada. Ele só percebe o quanto estava tenso quando se afasta, um pouco ofegante, escutando a respiração profunda e instável que não sabe distinguir se é sua ou de Pomba.

Pomba – Pombinha, pensa Franco involuntariamente, como um apelido que já se entranhou sem permissão – pisca. Uma, duas vezes. Aqueles olhos grandes, absurdamente expressivos, parecem brilhar por um instante antes que ele simplesmente assinta, devagar, como se estivesse aceitando algo inevitável. Então ele ergue as mãos e segura o rosto de Franco pelas bochechas, puxando-o com uma delicadeza surpreendente para outro beijo. Esse é mais lento, mais consciente, mas ainda trêmulo. Franco sente o sorriso pequeno que surge entre os lábios de Pomba – um sorriso triste, frágil, mas real.

“Não se esforce muito”, murmura Franco ao ouvir o gemido que escapa de Pomba – um som pequeno, mas cheio de uma dor que ele reconhece de imediato, porque não há nada de prazer nele.

“Queria dizer que não é como se eu estivesse morrendo, mas eu estou.”

 

 

A distância entre eles vibra como uma corda recém-dedilhada – tensa, trêmula, prestes a estalar ou a se transformar em música.

Franco solta uma risada curta, nervosa, surpreendido pela honestidade quase absurda.

“Demais? Desculpa”, diz Pomba, baixando os olhos, como se pudesse recolher a fala.

“Não. Só… me assustou um pouco.” Franco inclina o rosto – um gesto mínimo, quase instintivo – e sua voz sai baixa demais, como se temesse que ela mesma pudesse quebrar o momento. “Mas tudo bem.”

Pomba prende o fôlego, como se tentasse guardar aquele instante dentro de si: “Tudo bem”, repete, suave.

A respiração dos dois se encontra no espaço estreito entre seus rostos.

Quente.

Curta.

Pesada.

E, desta vez, nenhum dos dois se afasta.

Algumas coisas são apenas muito injustas. 

Notes:

"Essa narração sobre o tornozelo está errada" provavelmente. Pra falar a real eu não pesquisei, estava com essa história pronta e dei os retoques finais com as informações novas de ontem, então é isso

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