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Onde As Palavras São Magia

Summary:

Eirdis sempre achara curioso que Brigid fosse chamada de Mãe Dupla. Para ela, a deusa não era tanto a senhora da cura e da morte, mas sim a deusa dos desabafos escutados. Era o que fazia sentido.

Quando sua única amiga, uma raposa de pelos eriçados e curiosidade insaciável, morre subitamente, é para Brigid que Eirdis suplica por um milagre. E contra todas as chances, dos salões do castelo de Brigid, o espírito de Briar é retornado à terra dos vivos.

Mas milagres não vem sem um preço.

A raposa, presa entre o mundo dos vivos e dos mortos, se deteriora cada dia mais e Eirdis não sabe como evitar a perda da amiga uma segunda vez.

Quando mensageiros da capital vem com o convite para ela competir pela chance de se tornar aprendiz de Merlin — o mais poderoso feiticeiro do século — ela não pode dizer não. Não quando pode ser sua única chance de descobrir como salvar Briar e acabar com seu sofrimento de uma vez por todas.

Porém, quando sussurros sobre conspirações enchem os corredores do castelo e inimigos tão antigos quanto a magia que corre em sua veias ameaçam ressurgir de seu banimento e destruir o mundo como ela o conhece, essa mesma compaixão pode ser sua ruina.

Notes:

Essa história é na verdade uma versão reimaginada de vários conceitos e até plot points de uma outra história minha, do meu primeiro livro publicado na verdade.

Eu queria me aprofundar em vários aspectos que eu só abordei de maneira superficial na história original, explorar worldbuilding, sistemas de magia, personagens e tramas mais complexas. Então decidi que iria tentar explorar tudo isso em uma nova história.

Por isso vários dos elementos podem soar familiares pra quem leu o "original", mas ao mesmo tempo espero conseguir tornar a experiência única o bastante para ela se destacar e conseguir caminhar com as próprias pernas.

Tomara que eu consiga. Boa sorte pra mim!

Chapter Text

Eirdis sempre achara curioso que Brigid fosse chamada de Mãe Dupla. Para ela, a deusa não era tanto a senhora da cura e da morte, mas sim… a deusa dos desabafos escutados. Não que fosse um título bonito, mas era o que fazia sentido.

— Se eu tivesse de inventar uma oração oficial pra você… seria algo como: Brigid, aquela que escuta meus desabafos intermináveis sem nunca revirar os olhos. Brigid, a paciente. Brigid, a que nunca suspira de impaciência, nunca cruza os braços, nunca me interrompe para dizer que já ouviu essa história antes…

Ela riu sozinha, a risada curta se perdendo no vento que soprava pelos campos. O trigo balançava como um mar dourado, e além dele, já se erguia a sombra da floresta. O santuário esperava em algum ponto lá dentro.

Eirdis perdeu o fio da oração antes de terminar. Quando se deu conta, já estava chutando um torrão de terra e tentando lembrar em que ponto exatamente tinha parado.

— Ah, tanto faz — murmurou.

No fundo, às vezes se perguntava se aquilo não era um pouco desrespeitoso. Todo mundo trazia oferendas adequadas: punhados de grãos na colheita, rezas sussurradas antes de partos, velas para os mortos. Ela, por outro lado… nada. Nunca trazia nada. Só falava.

Mas falar era pedir? Ela não tinha certeza. Talvez fosse mais o contrário: ela não pedia respostas, só o silêncio dela. E era esse silêncio que a ajudava, um silêncio sem julgamentos, sem as caretas impacientes dos irmãos, sem os suspiros da mãe quando ela esquecia de novo de buscar água ou de amarrar o feixe de lenha direito. O silêncio de Brigid parecia convidá-la a contar tudo, sem medo, sem pressa.

Ainda assim… talvez fosse justo deixar uma oferenda de vez em quando. Afinal, ela escutava todos os dias.

— Eu devia trazer flores, ou pão, ou sei lá… qualquer coisa — falou em voz alta, fechando a mão em volta do pequeno fardo que carregava.

A ideia soava simples. Mas simples nunca era simples para Eirdis.

A parte difícil nunca era o querer. Era lembrar. E ela se lembrava demais das coisas erradas, mas não das coisas úteis. Era frustrante.

Eirdis suspirou, empurrando os cabelos ruivos para longe dos olhos.

— Se eu esquecer, você não leva a mal, leva?

O caminho diante dela estreitava-se conforme se aproximava da floresta. Era feito de lajes de pedra antigas, já afundadas no solo e tão gastas pelo tempo e pelos pés devotos que pareciam ter se tornado parte natural da terra. O cheiro doce do trigo a acompanhava, vindo das espigas maduras que balançavam atrás dela cada vez que o vento virava.

Logo surgiram, erguidos como sentinelas silenciosas, os dois pilares de pedra que marcavam a entrada do santuário. O musgo verde-escuro cobria boa parte da superfície, escondendo quase por completo os desenhos gravados. Os mais velhos sempre diziam que aquelas figuras representavam os sete deuses no momento da criação do mundo. Eirdis, porém, via apenas riscos e contornos apagados, que a chuva e os anos haviam corroído.

Ainda assim, estendeu a mão e tocou a pedra fria com a ponta dos dedos.

— Criadores do mundo ou rabiscos malfeitos, tanto faz. Continuem sendo gentis comigo, está bem?

Deixou a mão escorregar pela superfície e seguiu adiante.

Alguns passos depois, o templo apareceu, discreto e pequeno, entre os troncos. Uma construção simples de madeira escura, com telhado inclinado e uma porta baixa demais para qualquer adulto passar sem se curvar. Quando era menina, Eirdis comentara com a mãe o aparente erro. Ela apenas sorriu e explicou que a entrada baixa tinha propósito: todo aquele que atravessasse para o espaço sagrado de Brigid deveria fazê-lo de cabeça baixa, em sinal de humildade e respeito. Assim ninguém esquece diante de quem está, ela dissera.

Dois degraus largos levavam até a entrada. Eirdis notou que a madeira da escada estava ficando cada vez mais marcada. Talvez fossem as suas visitas frequentes que estavam deixando aquela cicatriz permanente no templo.

Mas, antes de subir, desviou a atenção.

Olhou para os lados, procurando entre as árvores e as moitas baixas. Ergueu o pequeno embrulho de pano que carregava na mão e o desatou, revelando um punhado de carne assada. Estava fria já, e a gordura endurecida brilhava sob a luz que filtrava pela copa das árvores. Ela torceu o nariz. Não parecia muito apetitoso. Mas sabia que para Briar aquilo seria um banquete. Ela nunca recusava.

— Briar? — chamou, erguendo um pouco a carne. — A carne tá um pouco passada, mas eu prometo que é boa.

Esperou alguns segundos, atenta ao farfalhar das folhas, à possibilidade de ver os pelos de um laranja vibrante saltando entre as sombras. Nada. Nenhum som de patas leves no mato, nenhuma cauda faiscando como fogo.

— Se você não aparecer logo eu vou dar sua comida para Brigid! — Mais um momento de apenas silêncio se seguiu. Eirdis suspirou e deu de ombros. — Então tá…

Com o fardo ainda na mão, subiu os degraus. Curvou-se para passar pela porta baixa, já com as primeiras palavras na boca, pronta para mais um desabafo sem resposta.

Mas então parou.

Ali, no chão diante da pequena estátua de madeira escura que representava Brigid, estava a raposa. Enrolada sobre si mesma, a cauda laranja cobrindo parte do corpo.

— Ah, você já tava aqui! Esperando por mim, é? — brincou, avançando alguns passos. — Olha o que eu trouxe hoje… carne de lebre. Foi o Rhys quem pegou ela. Tive que esconder uns pedaços pra você. Achei que ia gostar. Apesar que esse deve ser o tipo de coisa que você come o tempo todo, né? Mais ou menos.

Ajoelhou-se ao lado dela, estendendo o embrulho. Esperou que ela levantasse a cabeça, que farejasse, que se aproximasse com aquela curiosidade quase infantil que ela possuía. Mas Briar não se mexeu.

O sorriso dela vacilou. Inclinou-se mais perto, a mão hesitante pousando sobre o pelo macio, ainda quente do sol que entrava pelas frestas da madeira. Passou os dedos devagar. Nenhum movimento.

— Ei… Briar? — chamou, baixinho. — Vai, não brinca comigo…

Sacudiu-a de leve, primeiro com cuidado, depois com mais força. Nada. O corpo caiu mole contra seus braços, os olhos fechados como se estivesse num sono profundo demais. O estômago de Eirdis se contraiu. Um nó duro subiu à garganta.

— Não… não, não, não…

As lágrimas começaram a descer, borrando sua visão. Ela olhou, em desespero, para a estátua de Brigid. A deusa estava ali como sempre, esculpida em madeira escura, de expressão calma, distante, imutável. Silenciosa.

Eirdis respirava rápido, a voz entrecortada.

— Eu nunca pedi nada pra você. Nunca… eu só falava, só falava e falava… E você escutava, mesmo assim. — Passou o braço ao redor da raposa sem vida, embalando-a instintivamente. — Mas agora eu tô pedindo. Por favor. Ajuda ela. Me ajuda.

Ajoelhou-se mais baixo, quase curvando a testa contra os pés da estátua.

— Eu trago oferendas, eu prometo! Grãos, velas, tudo! Eu vou lembrar, eu juro que vou lembrar! — a voz subiu, embargada. — Eu sei que eu sou um incômodo, eu sei que eu encho seu templo com minhas palavras, mas… mas não me tira ela. Não me deixa sozinha.

Fechou os olhos com força, soluçando.

— Eu faço qualquer coisa… qualquer coisa que você quiser. Só dessa vez, uma vez que seja, ajuda ela...

O silêncio devolveu apenas o som de sua respiração entrecortada, o cheiro da madeira e das folhas secas que sempre estavam espalhadas ao redor do altar. Silêncio, sempre o silêncio.

E, pela primeira vez, Eirdis odiou aquele silêncio.

Uma miríade de sentimentos a invadiu de uma vez só, todos se atropelando dentro do peito, indo e vindo, se sobrepondo mais rápido do que ela conseguia nomear. Primeiro veio a raiva — uma fúria quente, dirigida à deusa imóvel, à sua indiferença, à injustiça de tudo aquilo. Mas quase no mesmo instante a raiva se converteu em medo, um medo gelado que lhe arrepiou os braços: como ousava pensar assim de Brigid? E se ela decidisse castigá-la por tamanha insolência?

Em seguida, a esperança abriu espaço, frágil como um fio de luz atravessando nuvens densas. Talvez, se a deusa visse o quanto ela sofria, o quanto amava Briar, o quanto era verdadeiro aquele amor, talvez ela tivesse piedade. Talvez ela a ajudasse.

Mas bastava sentir sob os dedos o pelo grosso e ainda quente da raposa para a esperança desmoronar em tristeza. O cheiro dela ainda estava ali, misturado ao da carne fria que ela trouxera, e a lembrança veio — dela correndo entre os trigais, da cauda faiscando como fogo ao sol, dos olhos dourados sempre atentos a cada passo dela. Um lampejo de felicidade lhe atravessou o peito, lembrança boa, doce… mas logo foi engolida pela devastação: nunca mais. Nunca mais veria aqueles olhos brilharem. Nunca mais sentiria o peso dela se enroscando em suas pernas, pedindo comida. Nunca mais.

A pior dor era saber que ela se fora sozinha. Ela não estava ali para lhe fazer companhia em seus últimos instantes. Só a deusa silenciosa a acolhera.

Os olhos de Eirdis subiram de novo para a estátua. O rosto esculpido de Brigid permanecia o mesmo de sempre — sereno, gentil, mas distante. Ela esperou. Esperou que algo acontecesse. Um sussurro. Um sopro de vento. Um milagre. Mas nada veio.

O peso da resignação caiu sobre ela.

Eirdis sabia que tinha se deixado levar. Criara, ao longo dos anos, uma fantasia reconfortante: que ela e Brigid eram amigas. Que havia algo de especial entre elas, mais do que uma simples devota e sua deusa. Agora, a verdade se impunha: ela não era especial. Não para a deusa. Não para o mundo. Brigid era uma divindade da cura e da morte, ocupada com coisas maiores. Não seria por uma raposa entre tantas, não seria por uma garota que nunca trouxera oferendas, que se fazia um incômodo com suas palavras sem fim, que ela mudaria as regras imutáveis da vida e da morte.

Ela tentou racionalizar, buscando conforto em pensamentos frios. Em toda Albion, mães ajoelhavam em prantos, pedindo pela cura de filhos adoentados. Aldeias inteiras rezavam por colheitas fartas, ou morreriam de fome no inverno. Centenas murmuravam súplicas para que os espíritos de seus entes queridos fossem guiados com segurança ao palácio da deusa, que fossem bem cuidados, que renascessem logo, para que pudessem se reencontrar um dia.

Diante de tanto, como poderia a oração de uma moça insignificante ter prioridade?

Mas uma voz dentro dela — pequena, teimosa — respondeu: E por que não?

Só porque havia quem sofresse mais, quem desse mais, quem rezasse mais… isso não anulava o que ela sentia agora. Não apagava a dor que a consumia, nem o vazio imenso que Briar deixara.

Ela também sofria. Ela também pedia. Ela também oferecia — mesmo que sua oferenda fosse apenas promessas e lágrimas.

E, egoísmo ou não, ela queria. Queria que seu pedido fosse atendido, agora, aqui, só porque era ela quem pedia. Só porque doía demais.

Ergueu o rosto molhado de lágrimas para a estátua.

— Por favor… — sua voz saiu rouca, quase um sussurro. — Eu não quero nada além dela. Só isso. Só me devolve a Briar.

Seus dedos apertaram o corpo imovel da raposa, como se pudesse, na força do abraço, obrigar a vida a voltar.

— Eu sei que não sou ninguém, que não tenho nada pra oferecer. Mas, mesmo assim… olha pra mim, Brigid. Olha pra mim, só uma vez.

O templo seguiu mudo. Mas Eirdis já não conseguia parar.

— Eu faço tudo que você quiser. Eu aprendo a rezar direito, eu deixo grãos, eu acendo velas, eu passo o resto da vida te servindo, se for preciso! — a voz subiu em um soluço. — Só… não me deixa sozinha.

E, com o rosto escondido no pelo da raposa, Eirdis chorou como jamais tinha chorado antes.

Eirdis colocou a última pedra sobre o pequeno túmulo improvisado. Suas mãos tremiam de exaustão, a pele marcada pela aspereza das pedras que carregara durante mais de uma hora. O montículo agora se erguia sólido diante dela, guardando o corpo de Briar sob a terra e a memória do que tinham sido.

O sol já se despedia. Entre as árvores altas, a luz filtrada desaparecia rápido, deixando a floresta mergulhar em sombras alongadas. O ar assumira aquele tom acinzentado, meio espectral, em que o dia ainda não se fora mas a noite já se anunciava.

Eirdis ficou parada, encarando o túmulo. O coração pesado, os olhos secos demais para novas lágrimas. A confusão que antes a dominara dera lugar a um vazio incômodo, uma dormência estranha. Sentia-se febril, como se estivesse andando na fronteira indistinta entre sonho e vigília. Nada parecia inteiramente real.

E o silêncio… o silêncio era pior do que tudo.

Não havia canto de pássaros, nem vento entre as folhas. Apenas o som distante da própria respiração. Sempre faladora, sempre com a mente cheia de palavras e pensamentos que se atropelavam, agora ela estava vazia. Nada vinha, nada restava. E esse vazio parecia expandir-se a cada instante, tentando devorá-la por dentro.

Um medo visceral se ergueu em sua garganta: e se deixasse esse silêncio tomar conta? O que sobraria dela? Uma casca vazia, um rosto conhecido por fora, mas morto por dentro.

Antes que pudesse se perder nesse abismo, ela abriu a boca. As palavras saíram rápidas, desordenadas, apenas para preencher o espaço, apenas para não sumir.

— Eu trouxe carne de lebre hoje… — disse, a voz embargada, como se Briar ainda pudesse ouvir. — Foi o Rhys quem caçou.

Ela engoliu em seco.

— Acho que já te falei isso antes, não foi? Mas… o que eu não falei é que ele ficou noivo. Caçou uma dúzia inteira pra fazer um manto com as peles, pra dar de presente. — uma risada curta, nervosa, escapou. — Eu aposto que o único motivo de eu ter conseguido trazer tanta carne hoje é porque ele exagerou na quantidade. Senão, a mamãe nunca teria deixado.

Eirdis esfregou os olhos com as costas da mão, sem encarar o túmulo. O ar parecia mais pesado ao redor.

— Eu acho que ela sabe, sabe por que eu venho aqui todo dia. — acrescentou, mais baixo. — Ela finge que não, às vezes até tenta entender… mas eu vejo no rosto dela. Ela se frustra. Ela queria que eu fosse mais como os outros.

Ela mordeu o lábio com força.

— Menos confusa e esquecida. Mais esperta. Boa em alguma coisa. Qualquer coisa.

As palavras começaram a tropeçar, cada uma empurrando a outra, como sempre acontecia quando falava rápido demais.

— Eu sei que ela não fala isso… mas dá pra ver. Sempre dá pra ver. E eu tento, eu juro que eu tento. Só que… — ela respirou fundo, a voz falhando no final — nunca dá certo. Nunca é o bastante.

Eirdis afundou no silêncio de novo, encarando o túmulo de pedras. O peito doía como se estivesse sendo esmagado, mas, ao mesmo tempo, parecia oco.

Ela encolheu os ombros.

— Mas… pelo menos eu tinha vocês duas. — a voz saiu baixa, rouca. — Você e a Brigid.

As mãos se apertaram, e por um instante ela ficou parada, debatendo consigo mesma. O pensamento formava-se hesitante na mente, arranhando para sair. Ela hesitou, incerta se deveria dizê-lo em voz alta. Mas as palavras escaparam antes que pudesse se decidir.

— Eu não sei mais se a Brigid estava mesmo por perto pra me escutar, mas… você estava. Sempre estava. — os olhos se fixaram no montículo de pedras, ardendo. — E agora… agora eu posso dizer com certeza. O único par de orelhas que não doíam de me ouvir por horas a fio… se foi.

O nó em sua garganta quase a fez engasgar, mas ela se apressou em atropelar o breve silêncio com novas palavras.

— Não que você fosse boa companhia só por causa disso, é claro que não! Você tinha tantas qualidades, Briar. Era esperta, era curiosa, e me fazia rir mais do que qualquer pessoa. Talvez… talvez os meus momentos preferidos fossem quando a gente ficava quieto, só os dois, encostados um no outro, ouvindo os pássaros.

Um tremor de voz. Ela fechou os olhos, tentando prender a lembrança, guardá-la em algum lugar onde ela pudesse sempre voltar para visitar.

— Ou quando você corria atrás dos pontinhos de luz que dançavam no chão da floresta. — um sorriso breve e doloroso curvou-lhe a boca. — Você ficava toda concentrada, como se fosse caçar uma presa de verdade… e eu ficava só olhando, achando que nada no mundo podia ser mais incrível.

As palavras se extinguiram nos lábios dela como uma vela sendo apagada. O silêncio voltou a tomar conta, pesado, sufocante. A dormência voltou a se espalhar, arrastando Eirdis para dentro de si mesma, onde só havia vazio.

Ela abaixou a cabeça, a voz quase um sussurro.

— Eu não sei se vou conseguir voltar pro templo tão cedo, Briar… — confessou. — Eu quero vir aqui, quero te visitar, não quero que pense que não me importo mais. Mas… não sei se consigo fingir que nada aconteceu. Não dá pra entrar lá e sorrir como antes. Ter que olhar pras pedras em vez do seu pêlo laranja.

O ar frio da noite que caía lhe arrepiou a pele. Ela respirou fundo, e em seguida olhou de novo para o túmulo, como se pudesse arrancar uma resposta das pedras.

— Você… — a voz falhou, mas ela insistiu. — Você acharia ruim se eu viesse falar contigo só de vez em quando? Quando eu tivesse forças. Não seria como antes, claro. Você não faria mais aqueles barulhinhos agudos, nem os cliques engraçados… nem ia puxar a barra da minha túnica achando que era brinquedo. Mas… sabe… eu ainda poderia falar.

Ela engoliu em seco, estendendo uma das mãos sobre o montículo de pedras, sem tocá-lo.

— Eu só não quero que pense que vou te deixar sozinha agora. Porque eu não vou. Nunca.

Ela ficou ali por um tempo, quieta. Um milhão de pensamentos borbulhavam sob a superfície, prontos para escapar se ela apenas abrisse a boca. Mas pela primeira vez na vida, não havia energia para divagar, para inventar planos impossíveis ou rir sozinha de suas próprias ideias. Não hoje. Talvez fosse a noite chegando com sua escuridão crescente, talvez fosse apenas a exaustão depois de tantas lágrimas, mas ela queria apenas ir para casa, deitar, e dormir até que tudo tivesse passado — até que a dor fosse apenas um sonho ruim.

Ainda assim, algo nela se recusava a terminar daquele jeito. Um túmulo sem despedida parecia incompleto, quase desrespeitoso. Ela respirou fundo, erguendo os olhos para o céu que se pintava de violeta e laranja, e murmurou:

— Eu… vou cantar pra você.

Decidida, como já vira outras vezes em ritos de passagem, ergueu a voz num lamento suave. Sua melodia ecoou entre as árvores, pura e simples, mas carregada de sentimento.

Brigid, Mãe Dupla, escuta meu pranto,
com a foice levas, com o visco curas.
Guardiã dos portais, senhora dos ciclos,
tu que guias a vida e velas a morte.

No berço e na pira tua mão repousa,
no sangue do parto, no sopro final.
Teu castelo acolhe os que partem cansados,
até que retornem em nova manhã.

Nada se perde, tudo renasce,
do grão que morre nasce a colheita.
Da carne que jaz, floresce o pasto,
da sombra da noite desperta o sol.

Assim eu confio, assim eu entrego,
a alma querida ao teu cuidado.
Brigid, recebe, Brigid, consola,
Brigid, renova o que foi quebrado.

Sua voz doce tremia, mas cada verso parecia se enraizar no chão, como se as próprias árvores escutassem. O ar ficou denso, pesado, carregado como antes de uma tempestade. Um cheiro forte de terra molhada se ergueu, mesmo sem chuva, e o vento soprou quente, agitando os cabelos de Eirdis e as folhas secas ao redor do túmulo.

Por um instante, o horizonte brilhou. Os últimos raios do sol, que já deveriam ter se apagado, incendiaram o céu numa claridade súbita, quase sobrenatural. Eirdis cantou até a última palavra e então ficou imóvel, respirando com dificuldade, exausta, as pernas trêmulas como se fossem ceder a qualquer instante.

Foi quando ouviu.

O montículo de pedras se mexeu. Primeiro um tremor quase imperceptível, depois um som claro: o ganido agudo de uma raposa, abafado, aflito.

Eirdis congelou. Seu coração disparou no peito, e por um instante ela acreditou que tinha desabado ali mesmo e sonhava — mas o som se repetiu, mais intenso, cheio de pânico. O choro real de Briar.

— Briar?! — a voz saiu em um grito quebrado, misto de esperança e terror.

Movendo-se por puro instinto, ela caiu de joelhos e começou a arrancar as pedras, duas de cada vez, jogando-as para longe sem se importar onde caíam ou o que atingiam. Seus dedos se machucavam nas bordas afiadas, mas ela não parava, o sangue misturando-se à terra.

Debaixo das pedras, o corpo da raposa se contorcia, tentando se libertar. Eirdis não pensava, só agia. O mundo inteiro tinha se reduzido ao som desesperado dela e às pedras que precisava remover.

Quando finalmente havia espaço o bastante, Briar se debateu e conseguiu escapar do montículo, arfando, chorando alto, os olhos arregalados de susto. Ela girava a cabeça em todas as direções, como se não reconhecesse o lugar, perdida.

— Briar! Sou eu! — Eirdis chamou, a voz embargada, as mãos estendidas.

A raposa ergueu as orelhas ao ouvir o nome e, num só impulso, correu até ela, jogando-se em seus braços.

Eirdis a envolveu contra o peito, apertando-a com toda a força que tinha, sem palavras, sem entender, apenas sentindo. O corpo trêmulo de Briar estava quente e real contra o seu.

Ela fechou os olhos com força, o rosto escondido no pêlo da raposa. Não queria pensar se aquilo era real ou sonho, não queria imaginar a dor de acordar e descobrir que tudo fora apenas ilusão. Por enquanto, só importava o momento.

Sem levantar a cabeça, apenas virou-se na direção do templo que se erguia atrás dela e sussurrou, a voz carregada de gratidão e reverência:

— Obrigada…