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Meia-verdade

Summary:

Nathaniel desejava tudo o que não podia ter. Por muito tempo, sonhou com o inalcançável, com uma vida grandiosa. Mas em um piscar de olhos, estava sozinho, e em questão de dias, desejava mais que tudo, se tornar Neil Josten.

Neil tinha tudo.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

   Nathaniel Wesninski nunca foi alguém. Foi muitos nomes, muitas profissões, muitos cursos, muitas nacionalidades, muitas personalidades. Já foi um filho. Mas nunca alguém.

 

  Nathaniel nunca pertenceu. Nathaniel existiu apenas em memórias manchadas demais para serem esquecidas.

 

  E Nathaniel passou a desejar ser Neil Josten.

 

  Neil era, em palavras de Andrew, um caso perdido e um mentiroso compulsivo. Ele era inventado. Apenas mais uma porta de emergência, daquelas que ficam nos fundos e possuem uma plaquinha vermelha em cima. Foi um erro ter usado ela desta vez.

 

  Nathaniel deveria ter usado outra porta. Talvez se trancado na área dos funcionários até que alguém o encontrasse, ou apenas ter saído pela porta da frente, mesmo que isso significasse morrer completamente sozinho em um canto qualquer do mundo.

 

   Neil Josten era confortável demais para ser real. Neil Josten era um sonho lúcido, daqueles que fazem você desejar adormecer eternamente. Neil Josten era tudo e ao mesmo tempo, nada. Neil Josten era uma mentira, mas ao mesmo tempo, a maior verdade que Nathaniel já havia contado.

 

  Nathaniel foi rejeitado pelo mundo. Mas Neil foi acolhido em meio ao caos, mesmo que sua vida inteira fosse uma farsa.

 

  Neil tinha tudo o que Nathaniel sempre sonhou em ter. Neil tinha um lar, um time, uma torcida. Neil tinha amigos. Neil tinha Andrew.

 

  Andrew olhava para Neil como se ele existisse, como se ele pertencesse ao seu mundo. Andrew o beijava como se sua boca fosse a única coisa que o segurasse ali.

 

  De repente, Neil Josten não era mais uma mentira bem contada.

 

  Não era mais um gosto amargo e metálico. Não mais um embrulho doloroso no estômago. Não mais o aperto violento que maltratava seu peito.

 

  Nathaniel passou a sua vida inteira sonhando com Neil. E agora Neil sonhava com Andrew.

 

  Andrew era real. Nunca uma mentira, apesar de ser uma grande omissão.

 

  Uma verdade enterrada em uma cova funda, num terreno distante, sufocando sem que ninguém pudesse escutar.

 

  Andrew existia, de fato. Mas era um monstro. Um lunático. Um sociopata incapaz de sentir empatia, afeto ou tristeza. Era só um poço de puro sadismo.

 

  Andrew era tudo, menos um humano.

 

  Andrew era tudo o que Nathaniel detestava. Andrew era tudo que Nathaniel havia visto em sua vida.

 

  Mas Andrew era, na verdade, tudo o que Neil enxergava.

 

  Andrew era quebrado, e não queria que ninguém juntasse seus cacos. Cacos de vidro são afiados e letais, e Andrew poderia usa-los por si mesmo.

 

  Mas para Neil, Andrew nunca foi um vidro quebrado. Andrew era um quebra-cabeça difícil de montar.

 

  Mas Andrew facilitou para ele. O ajudou a encontrar as peças certas. Eles montaram juntos, em uma dupla improvável.

 

  A imagem ia se formando enquanto Neil ia se encontrando. E era linda.

 

  Não existia monstro. Não existiam cacos de vidro. Não existia hostilidade.

 

  Existia um garoto.

 

  Alguém mais real que tudo o que Neil já presenciou em sua vida miserável. Existia uma pessoa motivada pela esperança de algo que parecia inalcançável.

 

  Existia Andrew Minyard.

 

  Existia um lar.

Notes:

curtinho pq eh apenas um devaneio. Espero ter passado o sentimento que queria, beijoss!