Work Text:
Era mais um belo dia ensolarado de novembro, as pessoas passeavam pelas ruas sorrindo e conversando, agitadas. O sol iluminava todos os cantos de sua pequena e simples loja de flores, trazendo calor ao ambiente e às cheirosas e delicadas plantas. Havia muitas delas, espalhadas por todo o estabelecimento, preenchendo e dando cor às diversas prateleiras de madeira e vasos de vidro e cristal, algumas penduradas no teto, outras ainda desorganizadas pelo chão, devido a sua falta de tempo em terminar de arrumá-las. Era primavera, e ele nunca esteve tão ocupado.
Ele sabia que essa época do ano era a mais conturbada, afinal, novas flores chegavam a cada minuto, todos os dias, e suas vendas aumentavam drasticamente — perdendo, somente, para o dia dos namorados. Kaiser sabia que teria muito trabalho pela frente, e admitia que deixar sua funcionária e melhor amiga tirar férias justamente na primavera havia sido uma péssima decisão. Contudo, não tinha mais volta, ele teria que lidar com a correria sozinho. Mas não era de todo ruim, ele sempre fora um amante do tempo solitário, então ficar sozinho com seus próprios pensamentos era bom para relaxar e trabalhar melhor.
Ouviu o relógio-cuco bater, indicando as horas. Assustou-se levemente enquanto levava os olhos castanhos para os ponteiros, escutando o barulho sendo tocado doze vezes. Metade do dia havia se passado, e ele ainda não conseguira tempo para arrumar todos os vasos e encomendas; ao menos pôde suspirar aliviado com o pensamento de que não receberia mais entregas de fornecedores pelo resto do expediente. Massageou levemente as têmporas, apoiando os cotovelos na grande bancada branca que usava para trabalhar e criar arranjos personalizados, além de regar e podar algumas flores que precisavam de maiores cuidados. Passou o olhar para o resto da loja, buscando algo que estivesse fora de ordem.
Aquela loja nem sempre fora totalmente dele, havia antes pertencido à sua mãe, uma mulher doce e gentil que tinha um sonho de abrir uma floricultura. Esse sonho foi realizado, graças aos esforços de sua mãe e seu pai, que também utilizava do salário de dublê de filmes de ação famosos para ajudar a financiar o lugar. Depois de muito tempo e dedicação, a família Cohen conseguiu abrir sua própria loja de flores, infelizmente apenas pouco tempo depois da morte do patriarca da família. Mas mãe e filho, ainda que tristes, não se deixaram abalar, seguiram firmes com a loja, investindo em lindos e diferentes tipos de plantas. O estabelecimento foi ganhando destaque com o tempo, sendo logo reconhecido como o melhor lugar para se comprar flores da cidade. Estavam felizes com o sucesso, porém, a morte precoce de sua mãe mexeu com todas as suas estruturas, o que fez com que ele herdasse todo aquele empório.
Agora Kaiser encarava o lugar: as paredes pintadas em um tom claro de violeta — sua cor preferida e de sua mãe — com algumas flores desenhadas por ele próprio nas mesmas; os detalhes em branco das prateleiras, que sustentavam vários vasos de plástico e de argila com todos os tipos de flores; algumas mesas e cadeiras também brancas postas no canto direito, para que os clientes pudessem se sentar para conversar e fazer grandes encomendas; além de enormes vasos feitos de vidro e de cristal do lado esquerdo, carregados com diversas espécies de flores em unidade que usava para fazer buquês personalizados. Na frente da porta, via-se a gigante bancada com estrutura de madeira lisa, na qual ele se encontrava com algumas flores prontas e sobrepostas para enfeitar; e na parte esquerda da bancada, bem ao seu lado, diversos instrumentos de trabalho, como pequenas pás, alguns fertilizantes, sacolas com adubo, vasos, e muitos caules de flores cortados por uma grande tesoura causava uma leve bagunça, mas era a única em todo o ambiente. Kaiser gostava de manter tudo organizado, depois da morte de sua mãe aquela loja passou a ser sua vida, e ele jamais se perdoaria caso algo estivesse feio ou desleixado.
Após uma longa análise do local, concluiu que deveria apenas terminar de organizar as flores e então estaria mais tranquilo. Suspirou profundamente, dando a volta no balcão e caminhando pela loja. Ao lado da portinhola que ligava o lado de dentro da bancada com o exterior, Kaiser viu de relance a antiga vitrola de sua mãe, parada em uma mesinha debaixo de uma grande janela. Relutou um pouco antes de se aproximar, mas o clima do estabelecimento estava tão silencioso que o fazia se sentir um tanto desanimado. Assim, ele foi em direção ao velho objeto, alisando-o com as pontas dos dedos. Era uma vitrola grande e reluzente, sua madeira pintada em um tom de azul claro brilhava com o toque gentil dos raios solares — que atravessavam o teto de vidro da floricultura —, e o resto dos componentes eram pretos e cintilavam delicadamente.
Já que ele estava sozinho, talvez as vozes dos cantores o fizessem uma boa companhia.
"Um pouco de música não vai fazer mal..."
Desta forma, Kaiser se agachou e abriu as portinhas da pequena mesa, dando de cara com vários discos de vinil empilhados. Pegou um que lhe chamou a atenção, devido ao fato de ser o músico favorito de sua mãe e por fazer muito tempo desde que ouvira aquela doce melodia. Já com a escolha feita, ele se levantou e retirou o disco de dentro da capa, colocando-o no prato giratório e posicionando sutilmente a agulha. Logo, o ambiente foi preenchido por graciosos sons de violinos, seguidos de um harmonioso coral:
Everybody loves somebody sometimes
Everybody falls in love somehow...
Seus olhos se fecharam e todo o seu corpo e sua alma entraram em sintonia com a música; à medida que ia se afastando da mesinha, Kaiser dançava timidamente no ritmo da orquestra. Foi em direção às flores que permaneciam em vasos espalhados pelo chão, mas, naquele momento, era como se todas escutassem atentamente a melodia, balançando com o vento e junto ao ritmo do florista. Ele pegava um vaso com ambas as mãos e organizava a planta em um canto específico das prateleiras, ajeitando as pétalas das flores e suas folhas. Ele fez isso por bastante tempo, mas quando o disco estava quase terminando e muitos poucos vasos desorganizados se faziam presentes em vista — exatamente uma hora e meia depois —, Kaiser ouviu o som de um sino ressoar pela loja, vindo da porta de entrada.
Olhou na direção do som, já sabendo que teria algum cliente para atender. Contudo, a visão que teve o pegou de surpresa; aquela não era uma visita esperada, mas não deixou de abrir um carinhoso sorriso.
— Boa tarde, Arthur — Kaiser cumprimentou de longe, limpando as mãos sujas de terra no avental preto que usava.
— Oi Kaiser! — o menor correu até o amigo, dando-lhe um caloroso abraço, sem medo de se sujar com o toque. — Estava com saudade!
— Eu também — respondeu simples, mantendo o sorriso no rosto e afagando levemente os cabelos castanhos claros do outro.
Ambos andaram até a bancada, onde o florista atravessou para o outro lado da mesma e Arthur apoiou o braço, inclinando-se para mais perto do melhor amigo. Trocaram olhares contentes por alguns segundos, antes do mais velho fazer a cotidiana pergunta:
— No que posso ajudá-lo?
Arthur deu gostosas risadas, mas logo em seguida mudou de expressão radicalmente, tornando-se mais sério e um tanto deprimido. Kaiser viu o guitarrista bater os dedos habilidosos na madeira, encarando-os com o olhar baixo.
— Está tudo bem? — Kaiser perguntou calmo, notando com clareza a mudança de humor do outro.
— Está sim... — respondeu com um fraco sorriso, mas não conseguiu manter o fingimento. — É o Dante, ele acordou bem mal hoje.
— Mal como?
— Estava com febre e bastante tosse, ele fica bem desanimado quando fica doente — Arthur explicou.
— Entendi — Kaiser assentiu levemente, transmitindo-lhe um olhar empático. — E conhecendo você, provavelmente teve a ideia de animá-lo.
Arthur sorriu radiante novamente, trazendo um sentimento bom e acolhedor de felicidade em Kaiser. Ele não sabia exatamente como alegrar as pessoas, principalmente por não conseguir usar muito bem as palavras, desde criança ele nunca desenvolveu esse conhecimento social. Mas os dois amigos se conheciam há tanto tempo, que depois de um certo momento Kaiser aprendera maneiras de ajudar o amigo, e Arthur aprendera a forma de amor e de se expressar do mais velho. Ele também sabia que Arthur era uma pessoa extremamente gentil e que odiava ver as pessoas que amava tristes, por isso tinha certeza de que ele faria de tudo para deixar o namorado contente outra vez.
— Pois é — Arthur levou a mão até o pescoço em uma expressão envergonhada. — Eu queria saber se você poderia me fazer um arranjo pequeno, acho que vai deixar ele um pouco mais feliz.
— É claro, só me diga o que vai querer.
Kaiser saiu novamente do balcão, caminhando pela loja em direção aos grandes vasos de vidro, acompanhado pelo amigo. As flores ficavam dentro dos vasos, mantidas com água e uma boa luz solar para que durassem bastante tempo, mas isso não era uma preocupação: flores em unidade para fazer arranjos geralmente saiam rápido, eram o verdadeiro sucesso da loja. Assim, eles analisaram todas as flores presentes nos vasos, pois havia inúmeras diferentes e eram de diversas cores e formas.
Os dois amigos foram debatendo os gostos de Dante, escolhendo a dedo quais combinariam mais e o deixariam feliz. Depois de alguns minutos avaliando, Kaiser recolheu várias unidades de uma flor e começou a montar o arranjo.
Ele apoiou todas as plantas escolhidas na bancada de trabalho, cortando um pouco do caule de cada uma para que ficassem do mesmo tamanho e juntou uma por uma, de uma forma específica em que as cores estariam em harmonia e as pétalas não se amassassem. Após organizar o arranjo, ele enrolou todos os caules das flores em um pedaço grande de fita azul claro, amarrando-as firmemente e, consequentemente, fazendo com que elas não saíssem do lugar. Ele fez um bonito laço com a fita, semelhante ao de um presente, e finalizou a produção, arrumando as folhas soltas e desentortando algumas pétalas. Feito o serviço, os dois agora encaravam um belo buquê de encantadores cravos brancos.
— E então? — Kaiser perguntou após o término do trabalho. — O que achou?
— Ficou lindo, Kaiser! — Arthur tinha os olhos brilhantes de excitação e um grande sorriso no rosto. — Tenho certeza de que ele vai gostar.
— Espero que sim.
— O que elas significam? — o menor perguntou, erguendo as sobrancelhas em curiosidade.
Arthur sabia que o melhor amigo adorava pesquisar o simbolismo de cada flor existente, era algo que o lembrava de sua mãe e o deixava feliz; por isso, sempre que podia, o guitarrista perguntava o que uma flor em específico significava, deleitando-se com as reações animadas do mais velho.
— Bem, cravos significam amor puro e latente — Kaiser relatou enquanto alisava as pétalas de cada um. — Quando uma pessoa presenteia outra com cravos, ela está dizendo que a ama e mandando boa sorte, energias positivas, essas coisas. Achei que cairia bem como um desejo de melhoras para ele.
Notou as bochechas de Arthur corarem suavemente, mas isso não tirou seu sorriso do rosto. Ele amava muito o namorado e mesmo depois de anos de relação, muitas vezes o guitarrista ainda sentia as borboletas no estômago quando estavam juntos, como na primeira vez em que se conheceram. Arthur faria qualquer coisa para ver Dante feliz, e demonstrava isso em suas atitudes todos os dias. Assim, ele ficou muito feliz de ter a ajuda do melhor amigo para dar um presente tão importante.
O florista, entretanto, foi surpreendido por um gesto rápido do amigo, percebendo em poucos segundos que estava sendo abraçado pelo mesmo.
— Era exatamente o que eu queria, muito obrigado irmão!
Kaiser sorriu de canto, abraçando-o de volta.
— Sempre que precisar.
Não demoraram muito mais, afinal, Arthur estava ansioso para entregar o presente e começava a se preocupar em deixar o namorado tanto tempo sozinho. Portanto, depois de acertarem os valores do trabalho, o florista observou o melhor amigo sair contente pela porta, acenando para si com o buquê em mão e prontamente correndo mundo afora.
Kaiser suspirou outra vez naquele dia, voltando às suas obrigações. Pelo fato de haver poucos vasos faltando para serem organizados, ele não levou muito tempo para finalizar essa primeira etapa. Em seguida, foi até o estoque que possuía, localizado em uma porta atrás do balcão — que somente os funcionários tinham acesso —, e pegou um grande saco com adubo fresco, arrastando-o para fora. Demandou bastante esforço, já que era algo bem pesado, mas com dedicação e paciência ele conseguiu voltar às queridas plantinhas. Depois, pegou uma pequena pá com um cabo de madeira e a parte de aço vermelha e começou a adubar as recém-chegadas flores.
Fez o processo uma por uma, não se importando com o tempo que levasse; esse era um trabalho delicado e que exigia atenção, por isso todo cuidado era pouco para não machucar as flores. Ele pegava um vaso já com um pouco de terra, colocava seu adubo especial já fertilizado e amassava o solo delicadamente com os dedos, deixando a terra suave e macia.
Passados alguns minutos nesse procedimento, Kaiser estava tão calmo e distraído cuidando de suas preciosas que não ouvira o som do sininho da porta, indicando a chegada de um cliente. Foi somente quando uma voz familiar ressoou por seus ouvidos chamando pelo seu nome que ele conseguiu, finalmente, sair do transe:
— Kaiser? Está me ouvindo?
O lojista pulou de susto, arregalando os olhos e apontando sua pá de jardinagem para a nova figura no ambiente. A primeira coisa que viu foi uma expressão igualmente assustada de um conhecido, que com o espanto também se afastou erguendo os braços em forma de redenção. Entretanto, apesar da atitude repentina, a pele negra e os olhos amarelos fizeram Kaiser se acalmar, reconhecendo imediatamente a pessoa em sua frente.
— Luciano? — Kaiser encarou o amigo de cima a baixo, soltando logo em seguida o ar que nem percebera ter prendido. — Desculpa, eu estava distraído.
— Percebi, fiquei te chamando por um tempão.
Após os dois homens se acalmarem, Luciano esticou a mão para o florista, oferecendo ajuda para que ele pudesse se levantar, que aceitou de prontidão. Kaiser caminhou até uma pia que ficava do outro lado da loja, perto das mesas dos clientes, e lavou as mãos, esfregando-as bem para retirar a terra. Assim feito, ele voltou a atenção para Luciano que, apesar de o encarar com uma expressão tranquila, seu corpo demonstrava ansiedade e inquietação. O homem não parava de mexer as mãos e bater os pés, além de ficar andando de um lado para outro, os excêntricos olhos amarelos observando as flores nas prateleiras.
— Está tudo bem? — Kaiser perguntou, ficando levemente preocupado com a reação do outro, afinal, Luciano não era o tipo de pessoa que deixava-se levar pela angústia ou preocupações; quer dizer, apenas quando envolvia alguém em específico.
— Está sim — Luciano respondeu acelerado, fitando os olhos castanhos roxeados do amigo. — Eu... preciso de uma ajuda sua.
— E o que seria? — apesar da pergunta, Kaiser já tinha uma noção do que se tratava.
— Bem...
Luciano voltou a massagear as próprias mãos, enquanto encarava todas as possibilidades de presentes que poderia dar para o marido. Ver aquele tanto de opções o deixava nervoso. Ele sempre tentou ser um homem romântico para Fernando, sabia que o mesmo amava essas suas atitudes mais tenras, mas Luciano muitas vezes se atrapalhava em suas declarações de amor, ou passava horas ponderando sobre qual seria a melhor maneira de agradar o amado. Cada pensamento que passava por sua mente aumentava mais um nível de seu desespero, até as paranoias dominarem sua cabeça por completo. Ele não aguentava mais a sensação de inquietação atrapalhando seus dias, e era exatamente por isso que estava ali, implorando pelo auxílio do amigo.
Kaiser deu-lhe um olhar de incentivo, sorrindo de canto.
— Tudo bem — Luciano suspirou, encostando os braços na bancada branca. — O Fer vai se apresentar hoje, vai ser um show muito importante. Eu queria fazer uma surpresa para ele, algo que o deixasse feliz.
— Entendi, nada melhor do que um buquê para presentear um artista depois de uma apresentação.
— Exatamente, mas eu ‘to completamente perdido — o desespero era visível nas írises amarelas. — Eu já pesquisei, mas não faço ideia de qual flor dar pra ele.
— Isso você pode deixar comigo — Kaiser comentou com serenidade. — O que você quer passar de mensagem para ele?
Viu o homem levar a mão ao queixo, refletindo sobre a pergunta. Depois de um tempo respondeu:
— Bem... — Luciano abaixou os olhos, encarando o chão em uma perceptível expressão envergonhada. — Acho que falar que eu estou muito orgulhoso dele, e que ele é a pessoa mais linda do mundo e que eu faria de tudo para vê-lo feliz e também-
— Tudo bem, já entendi — Kaiser interrompeu, dando risada com a empolgação do outro. — Você quer falar que ama ele.
— Resumidamente, acredito que sim.
Kaiser não disse mais nada, andando até uma prateleira específica da loja e retirando de um vaso exatamente treze unidades da flor vermelha. Ele foi até outro canto da loja e pegou várias florezinhas brancas, que mais pareciam pequenos pedaços de algodão. Caminhando novamente até Luciano, ele depositou lindas rosas vermelhas e diversas gypsophilas, arrumando o buquê na bancada com delicadeza. Depois de organizar e espalhar as flores, Kaiser enrolou-as com um grande laço vermelho feito de veludo em um pedaço de papel de presente preto, entregando-as, em seguida, para o maior.
— O que achou?
Luciano encarava as flores, seus olhos deixavam claro sua ignorância acerca do assunto, mas o brilho de encantamento nos mesmos também foi completamente perceptível. Mantinha a boca semiaberta enquanto admirava o conjunto de plantas, que combinavam tão bem quando as melodias das músicas do marido; era como se estivesse escutando uma linda canção de Fernando. A maneira como as rosas se tocavam gentilmente, amalgamadas com as outras plantinhas que se assemelhavam tanto com nuvens de um céu em um dia ensolarado, era simplesmente fascinante. Um buquê tradicional de rosas vermelhas, mas que fora feito com tamanho amor e carinho.
— Está perfeito, de verdade — Luciano, enfim, respondeu depois de um tempo, ainda perplexo com o objeto em mãos. — O que são essas florezinhas brancas?
— Ah, são gypsophilas, também conhecidas como mosquitinho — Kaiser comentou, ajeitando-as dentro do arranjo. — Achei que elas combinariam com as rosas, dá um toque mais sofisticado.
— Realmente ficou — de repente, Luciano sentiu as paranoias voltarem a atrapalhar seu raciocínio. — Mas não acha rosas muito simples?
Kaiser ficou pensativo, apoiando os cotovelos no balcão e se sentando em sua cadeira de trabalho.
— Bem, elas podem até ser, mas são a maior representação de amor nas flores — Kaiser explicou, encarando os orbes brilhantes como o sol. — Elas têm um significado universal, qualquer um que olhe sabe as intenções ao se dar uma rosa.
Luciano encarava em dúvida o buquê, mas ao mesmo tempo permanecia o resplendor maravilhado em seu rosto. Alisou as pétalas com os dedos, sentindo a maciez de cada uma. Em seguida, aproximou-as do rosto, afundando completamente o nariz no meio do arranjo e sentindo seu perfume doce. Após muito toque e do uso de todos os seus sentidos, Luciano pareceu, por fim, satisfeito com a escolha.
— Tem razão, o Fer também sempre foi bem simples e romântico, acredito que ele vá gostar.
— Tenho certeza de que ele vai amar tudo o que você der a ele feito de coração — Kaiser lhe respondeu com um sorriso e um aperto amigável no ombro.
Luciano devolveu o gesto, agradecendo em seguida e pagando o valor cobrado. Ao terminarem de acertar tudo, Luciano se despedia do florista, quando os dois homens ouviram o alerta da porta ressoar pelo ambiente. Kaiser, na mesma hora, guiou o olhar em direção ao novo estímulo do lugar, reconhecendo, pela terceira vez naquele dia, outro rosto amigo. Contudo, apesar de ser o dono da loja, não fora ele o primeiro a se pronunciar, mas sim a mulher com uma aura dominante, cabelos pretos amarrados e um olhar penetrante; vestia uma calça jeans e uma blusa verde claro, mas o jaleco branco e a pinta no canto da boca eram reconhecíveis a milhas de distância.
— Oi Cesinh- — parou no meio da frase ao notar o outro cliente perto da porta onde ela se encontrava, parecendo pronto para sair. — Luciano?
— Olá, Elizabeth — Luciano cumprimentou de volta, a expressão ficando mais séria.
A mulher examinou-o de cima a baixo, observando suas vestes bonitas e o arranjo de flores em mãos. Ela sabia que ele estaria saindo para algum encontro importante, caso contrário, o militar jamais colocaria uma gravata tão apertada.
— Não sabia que era do tipo romântico — ela deu uma risada debochada.
— Acredito que não seja da sua conta.
Luciano caminhou até a porta, abrindo-a ao passar por Elizabeth, que sorriu falsamente. Quando estava quase atravessando em direção à rua, o homem ouviu a voz dissimulada da cientista:
— Diz ao Fer que desejei boa sorte hoje!
Kaiser apenas conseguiu ouvir um bufar pesado e logo a porta se fechou com o vento, levando a imagem e a presença de Luciano embora. Viu Elizabeth virar-se para ele com um riso simpático, bem diferente do que dera ao outro. Ela se aproximou calmamente do balcão, erguendo a mão para massagear os fios de cabelo do amigo em um gesto amistoso de cumprimento. O florista lhe devolveu o sorriso, mas mantinha uma expressão de repreensão.
— É sempre assim quando vocês se veem — ele comentou com a mulher.
— Não posso fazer nada se ele é tão irritável — Elizabeth respondeu, dando uma franca risada.
Kaiser acompanhou-a com um sorriso, realmente Luciano era uma das pessoas mais irritadiças que já conhecera, mas não falaria isso em voz alta. Por isso, ele apenas puxou um banco alto que guardava de reserva na área de funcionários, e estendeu-o para a amiga, que aceitou de prontidão. Sentaram-se confortáveis por um tempo, encarando um ao outro, até Kaiser finalmente ter coragem de perguntar:
— Não querendo soar rude, mas o que faz aqui?
— Ah, bem... eu... — Elizabeth desviou o olhar para as flores ao redor, claramente desconfortável em tocar no assunto.
Ela permaneceu gaguejando e fazendo sons para distrair o lojista da pergunta, mas Kaiser a conhecia muito bem para dizer que ela não falaria tão facilmente devido ao seu inflado orgulho. Após passarem longos minutos na tentativa de se comunicar, ouviram o ressoar do sino outra vez, revelando a figura de duas pessoas de mãos dadas: uma mulher e seu filho pequeno entravam sorrindo na loja.
Kaiser sustentou o olhar da amiga por um tempo, trocando palavras apenas com suas singelas expressões. Ambos não precisam falar para saber o que pensavam, por isso, Elizabeth apenas sorriu e assentiu com a cabeça:
— Pode ir, eu não to com pressa.
O florista agradeceu com os olhos cansados em uma feição aliviada, deslocando a atenção para os novos clientes. Ele trocou algumas palavras com a mulher, que pareceu encantada com tudo na loja; e o garoto, ainda que não aparentasse gostar muito das delicadas plantas, também ficou satisfeito com os deliciosos aromas e mistura de cores que notava. Após algumas conversas e dicas, a mãe e o filho acabaram levando algumas rosas brancas, amarradas em uma fita prateada. O atendimento não demorou muito, afinal, Kaiser era experiente e sabia bem como ajudar e convencer os clientes.
Porém, enquanto observava a família agradecer e se distanciar, suas memórias foram invadidas por fortes lembranças de quando saia para comprar flores com sua mãe. O jeito como a mulher segurava firmemente na mão do filho, mas não de uma maneira brusca, e sim gentil e protetora, além da aparência física de ambos que era assustadoramente semelhante a ele quando mais novo e a sua querida mãe.
Distraiu-se em recordações, sentindo seu peito apertar com a saudade; porém, conseguiu conter-se e guardar a emoção. Kaiser se recompôs com calma e, quando sentiu que estava pronto, ele pôde então se concentrar na amiga, que ainda o esperava sentada no banquinho ao lado.
Entretanto, quando atravessou a portinhola do balcão, tudo o que encontrou foi uma Elizabeth com o rosto apoiado nas mãos e um semblante extremamente chateado. Os olhos brilhantes e destemidos da cientista agora encontravam-se melancólicos e desanimados. Kaiser sabia que a amiga dificilmente deixava-se abater por qualquer coisa, por isso ele compreendeu que deveria ser algo sério para que conseguisse mexer com suas estruturas.
O florista abaixou a cabeça para que ficasse no mesmo nível do olhar de Elizabeth e, fitando os olhos lacrimejantes, perguntou carinhosamente:
— Quer me contar o que aconteceu, Liz?
A mulher fechou os olhos por alguns segundos, respirando pesado, mas assim que os abriu era perceptível a mudança em seu rosto: agora aparentava mais confiança e tranquilidade.
— Eu briguei com o Thiago — ela disse, aguardando por uma reação do amigo.
— Até aí tudo normal — Kaiser respondeu simples.
Elizabeth revirou os olhos, retirando as mãos do rosto e apoiando-as na madeira gélida; duas marcas vermelhas apareceram em cada lado de suas bochechas.
— Eu sei, mas acho que dessa vez foi pesado.
— E por que vocês brigaram?
— Pelas coisas bobas de sempre — respondeu nervosa, estalando a língua no céu da boca. — O problema é que nós dissemos coisas mais desagradáveis que o normal, eu pensei que tudo ficaria bem no dia seguinte, mas hoje ele acordou sem falar comigo.
O de cabelos pretos balançou a cabeça positivamente, demonstrando que compreendia o que ela queria dizer. Ele levou o punho cerrado ao queixo e segurou-o por um tempo, pensativo.
— Se ele ficou assim, deve estar bem chateado mesmo.
Viu a cientista calar-se instantaneamente, os pares de olhos castanho-escuros e pesados movendo-se para os vasos de argila ao lado. Ela tinha consciência de que ambos haviam passado dos limites, e apesar das recorrentes discussões, ela odiava ficar brigada com o namorado por muito tempo. Mas, afinal, era exatamente por isso que estava ali: Elizabeth gostaria de consertar as coisas, e quem melhor para pedir ajuda senão a pessoa que seu amado considera como irmão?
— Eu sei, por isso eu vim — ela admitiu, suspirando. — Você o conhece, sabe que ele gosta de gestos mais fofos, então pensei em dar umas flores.
Kaiser ficou em silencio, buscava em todos os cantos de sua memória qualquer sinal de algum dia em que o amigo tivesse comentado sobre algum tipo de flor que o agradasse. Acabou por não encontrar nada, por fim. Entretanto, era um conhecedor nato de todos os tipos de flores e tinha uma noção dos gostos gerias de Thiago; dessa forma, ele saiu outra vez de seu banquinho, caminhando por todas as prateleiras e vasos da própria loja. Em um canto, localizadas em um pequeno vaso de vidro, praticamente escondido entre os tantos outros, ele encontrou o que queria. Não eram muito famosas e por isso poucas pessoas compravam, mas Kaiser gostava de ter pelo menos um pouco de cada flor que conhecia, ou que pudesse conseguir.
Assim que pegou seis unidades da flor, ele voltou para a amiga, que o seguia com os olhos repletos de seu natural brilho de curiosidade. Passou pela portinhola e organizou as flores na mesa, colocou todas juntas e depois uniu-as com um laço vermelho de cetim. Feito todo o procedimento, Kaiser mostrou o arranjo para Elizabeth: nele havia belas flores cor-de-rosa, as pétalas bem abertas, como se se exibissem para o sol.
— Elas são lindas, Cesinha — Elizabeth arregalou os olhos, tocando gentilmente em seus ramos e folhas. — O que são?
— Petúnias — ele respondeu com um sorriso. — Significam o esclarecimento de um mal-entendido.
Elizabeth o olhou em surpresa, sem saber o que dizer. Ela sabia das habilidades do amigo, mas sempre acabava se surpreendendo com seu talento em montar arranjos e reproduzir exatamente o que as pessoas sentiam. Não poderia ter escolhido flor melhor para a situação, era uma planta delicada e com um ótimo odor; perfumado, mas nada enjoativo. Sem falar na harmonização que o mais velho fazia e que deixava o buquê espantosamente delicado, além do lindo laço colocado e que combinava de maneira perfeita com todo o arranjo.
A cientista sorriu e, ao fitar o objeto nas mãos do amigo, ela sentiu, pela primeira vez naquele dia, que havia esperanças de Thiago perdoá-la.
— É perfeito, obrigada Cesinha.
Kaiser sentia palavras sinceras da mulher, ficando feliz em saber que conseguiu ajudar o casal de amigos de alguma forma.
— Não tem de quê — ele respondeu com um sorriso modesto e entregou o arranjo para Elizabeth.
Finalizando o serviço, os amigos conversaram mais um pouco e depois a cientista pagou pela ajuda. Despediram-se, mas antes que Elizabeth pudesse atravessar a porta, o florista a chamou:
— Ah, e Liz! — observou a mulher parar bruscamente e se virar em sua direção. — Não se preocupe, conhecendo vocês dois, tenho certeza de que vai dar tudo certo.
Ela sorriu abertamente, os olhos voltando ao brilho natural confiante e poderoso. Assim, deu meia volta e caminhou até a saída, e então tudo o que se foi ouvido por toda a loja foi o som alto do sininho e a colisão da madeira branca com o batente.
Kaiser desfez o sorriso, massageando o pescoço duro pelo cansaço. Aquele dia estava fora do normal, parecia que todos seus amigos haviam escolhido resolver os próprios problemas simultaneamente, e pelo visto sobrara para ele ajudar cada um deles. Mas já estava acostumado, seus dias, em sua maioria, consistiam em auxiliar casais apaixonados, que muitas vezes chegavam para ele desesperados e perdidos.
Geralmente, pessoas compravam flores para comemorações importantes, ou para dar como presentes, ou até mesmo para momentos tristes, como funerais, e às vezes para reconciliações. Nunca uma pessoa entregava flores à outra sem algum motivo, ou apenas porque queria. Kaiser pensava que as pessoas deveriam fazer mais isso: presentear pessoas que amamos com flores simplesmente porque queremos, e não por datas ou eventos.
"Pessoas gostam de serem lembradas, de se recordarem que são importantes para alguém, e as flores são ótimas para isso".
Kaiser aprendera esse lema com sua mãe e o levava para toda a vida. Lembrava-se de como sentia falta de quando a mesma o presenteava com violetas, simplesmente por ser quem ele era. É claro que isso o incentivava a fazer coisas boas, por isso sempre que deixava sua mãe feliz, esperava ansiosamente pelas belas flores. Assim, ela sabia que criava um filho amoroso e gentil para o mundo, e Kaiser era sempre lembrado do quanto era amado. Todos os dias as palavras “você vai sentir falta das flores" passavam por sua mente, e todos os dias ele sentia falta de recebê-las e de lembrar que era querido.
Olhou para as tatuagens de violetas em seu braço direito, que cobriam toda a extensão do membro, desde sua mão até seu ombro, no começo do pescoço. Os desenhos haviam sido um gesto de eternizar esse amor que sentira quando era criança e para nunca se deixar esquecer do que lhe foi ensinado, para tentar sempre ser uma pessoa gentil e acolhedora. Ele deu um sorriso triste, respirando profundamente e forçando-se a voltar ao trabalho.
O florista caminhou para dentro do estoque da loja, pegando um grande regador feito de metal reluzente e levando-o em direção às florezinhas, passando, antes, na pia de porcelana e enchendo o objeto em mãos com bastante água. Após preencher com o líquido até o topo, dirigiu-se para todas as plantas do estabelecimento, regando-as com calma, para que não derramasse demais e acabasse por encharcar as plantas delicadas. Fez o processo com todos os vasos de argila e plástico das prateleiras, tendo que encher novamente para que pudesse regar os outros de vidro e de cristal, que continham as flores em unidade.
Regando todas as plantas, ele se afastou a passos lentos até o seu balcão, andando para trás para que pudesse contemplar seu trabalho. Estava tudo pronto, todas as flores estavam adubadas e fertilizadas, e as que usava para arranjos foram regadas e distribuídas para que não ficassem amassadas e estragassem. Esboçou felicidade ao ver sua loja em ordem, pegando em seu bolso da calça um maço de cigarro pela metade e colocando seu vício na boca. Kaiser andou com tranquilidade até a janela do lado da pia e das mesas dos clientes, mantendo-se afastado de suas amadas flores, e acendeu o cigarro com um isqueiro, tragando o conteúdo.
Ele observava a vista, as pessoas passando por perto, mas sem notá-lo, enquanto soltava a fumaça de seus pulmões para a rua. Agora, com tudo em seu devido lugar, Kaiser pôde sorrir aliviado, contente em avaliar toda a sua dedicação e carinho que colocara em cada pétala, em cada ramo, em cada folha, e até mesmo em cada espinho. Todos os componentes de uma flor eram necessários e contribuíam para deixá-las mais belas e únicas.
Isso incluía as partes mais "feias" e perigosas de uma planta, afinal, até mesmo as mais formosas possuíam espinhos e carregavam algumas ervas daninhas. Kaiser também levava isso para as pessoas: ele acreditava que cada indivíduo tinha suas pétalas macias e seus espinhos afiados, isso fazia parte de ser humano. Reconhecer ambos os lados é o que faz de nós humanos, que falham e que são capazes de coisas fantásticas. O problema é que, muitas vezes, as pétalas e os aromas doces se sobressaem em relação ao conjunto total, o que torna difícil lidar com os espinhos e os machucados que eles causam nas outras pessoas. É uma tarefa difícil, reconhecer nossos próprios espinhos e ervas daninhas. E isso não era diferente para ele.
O florista também tinha dificuldade de aceitar seus espinhos, mas, principalmente, ele não sabia a hora de removê-los. Kaiser sempre crescera cultivando suas defesas e, consequentemente, sem deixar com que as pessoas se aproximassem; ele passou a vida com dificuldades de fazer amigos, negando a própria personalidade por se achar um estorvo, um incômodo para as pessoas ao seu redor. Felizmente, depois que ele encontrara Arthur, Dante, Thiago, Liz, Luciano, todos que hoje ele tem orgulho de chamar de família, Kaiser se sentia muito mais à vontade para ser ele mesmo. Contudo, ainda havia uma coisa que impedia com que ele se aproximasse de uma certa pessoa, devido aos sentimentos intensos que ele possuía por ela. Por mais que batalhasse todos os dias para se deixar levar, para que conseguisse se entregar de corpo e alma, exatamente do jeito que aquela pessoa merecia, ainda era uma guerra que ele fracassava, todos os dias.
Kaiser ainda não se sentia digno de ser amado, mas tinha esperanças de que um dia ele conseguiria expressar todo o amor que sentia pelas pessoas.
Foi assim, perdido em pensamentos, que o alarme tocou novamente na porta, anunciando a entrada de outro possível cliente; este que, entretanto, já era tão frequente na loja que parecia quase morar nesta. Kaiser balançou a cabeça, os cabelos mexendo-se levemente em seus olhos, para afastar as memórias e inseguranças que o perseguiam. Abriu um sorriso gentil, mas, ao perceber, instantaneamente, quem era a pessoa que entrara, sua expressão atenciosa deu lugar a um riso irônico.
— Achei que estaria aproveitando a folga com ela — Kaiser riu ao notar a expressão sedutora do homem de cabelos compridos. Ele apagou seu cigarro e jogou o restante no lixo próximo à janela, voltando ao seu posto no balcão.
— Vim dar um "oi" pra você, lindinho — o homem respondeu, aproximando-se do móvel e apoiando todo o corpo em seu braço direito, as pernas cruzadas e o sorriso tão branco quanto os que passavam nas propagandas de televisão.
— Tenho certeza que sim, Tristan.
Tristan era um homem alto, de cabelos claros e ondulados que batiam em seus ombros, olhos cativantes e um sorriso galanteador; vivia com roupas despojadas, mas que davam um charme em seu jeito de caminhar solto e despreocupado. Por mais que fosse um homem comprometido, Tristan sempre brincava de “flertar” com Kaiser e outros amigos mais íntimos, mas ele adorava, especialmente, fazer isso com o florista, pois sabia que ele sempre ficava envergonhado e exibia reações cômicas.
— Como está a Bea? — Kaiser perguntou, pegando um pano alaranjado e passando na madeira lisa do balcão, para retirar os pedaços de caules das flores que cortara durante o dia.
— Está ótima, curtindo as férias — Tristan respondeu, mantendo a essência ardilosa. — Mas não importa o quanto eu insista, ela continua louca para voltar a trabalhar.
— E eu louco para ter a ajuda dela de novo — Kaiser disse sorrindo, mas com um semblante cansado. — Primavera é sempre uma bagunça.
— Você diz bagunça no trabalho ou no seu coração, meu querido? — Tristan piscou para o florista, que apenas revirou os olhos como resposta.
— Vai me dizer o motivo de ter vindo? Ou vou ter que perguntar pra Bea?
Kaiser havia comentado no sentido de brincadeira, imaginando que o amigo entraria no jogo. Contudo, para sua surpresa, Tristan desfez a cara travessa, seu riso debochado dando lugar à um olhar sério e desesperado.
— Por tudo que é mais sagrado Kai, não faz isso — ele apoiou ambas as mãos na mesa, suor escorrendo pelos cantos do rosto.
O florista também dissipou o tom humorado, fitando os olhos castanhos do outro, que agora entregavam todo o medo que estava sentindo. Viu o amigo tremer levemente, as mãos passeando pelos fios cacheados e rebeldes, em um gesto de ansiedade.
— Tudo bem, não vou falar nada com ela — Kaiser disse com uma voz serena. — Pode ficar tranquilo. Mas o que aconteceu?
Tristan inflou as bochechas, dando-lhe um ar mais infantil. Ele sempre tentava parecer um homem maduro, confiante, mas, muitas vezes — Kaiser sempre se surpreendia com essa mudança brusca de temperamento —, Tristan conseguia ser uma verdadeira criança. Principalmente quando era contrariado, ou quando ficava perdido. Kaiser pensou que provavelmente seria a segunda opção.
Suas suspeitas foram confirmadas quando ouviu um choramingo do amigo, denunciando seu intenso desalento.
— Eu ‘tô ferrado, Kaiser — o mais alto comentou, enterrando o rosto nas mãos. — Eu sou o pior namorado do mundo! Eu não sei como uma mulher maravilhosa e encantadora como a Bea está comigo, de verdade. Eu sou um fracassado e ela é linda, cheirosa, atenciosa, ela é perfeita e eu-
— Tristan! — Kaiser chamou em voz alta, obtendo sucesso em sua tentativa de fazê-lo se calar. — Calma, não precisa desesperar assim.
— Preciso, sim! — Ele passou a mão pelos fios de cabelo, outra vez. Sua voz ficando cada vez mais fina e descontrolada. — Eu sou um namorado horrível que esqueceu de comprar o presente para o aniversário de um ano de namoro, e que veio correndo até a loja onde a própria namorada trabalha para comprar flores, sendo que eu nem mesmo sei as flores favoritas dela!
O silêncio se instaurou no local, assim que Tristan terminara de desabafar. Kaiser ficou em choque por alguns segundos, sem saber o que fazer ou dizer, apenas observando o amigo se encolher nos próprios braços enquanto pequenas lágrimas escorriam em suas bochechas. Ele sempre ficava perdido em situações como essa, mas tentaria de tudo para ajudar o mais alto a se sentir melhor. Desse modo, o florista levou a mão esquerda até o ombro do outro, apertando-o devagar e sem muita força, apenas para chamar sua atenção e mostrar sua presença.
— Isso não é verdade, Tristan — o mais velho disse, mordendo o lábio inferior ao buscar palavras de consolo. — Você é um ótimo namorado, eu sei disso porque a Bea fala isso o tempo todo.
Viu com alegria o amigo erguer a cabeça do meio dos braços, os olhos marejados e o nariz vermelho.
— É sério?
— É claro que sim — Kaiser lhe deu um sorriso gentil. — Ela te ama muito Tristan, disso eu tenho certeza.
Kaiser identificou uma mudança em sua feição, pelo menos, agora ele aparentava estar mais calmo e um pouco mais feliz. Por isso, continuou com o aperto no ombro do amigo, incentivando-o a continuar a relatar seus sentimentos.
— Mas isso não anula o fato de eu ser um péssimo namorado.
— Todo mundo esquece de uma coisa ou outra — Kaiser revirou os olhos, as duas mãos agora penduradas em sua cintura. — Você ainda está aprendendo essas coisas de relacionamento, isso leva tempo, mas tenho certeza de que a Bea enxerga o quanto você está se esforçando.
Ouviu um fungar profundo, os olhos pidões de filhotinho encarando-o com intensidade e esperança.
— Tem certeza?
— Absoluta — Kaiser respondeu, dando a volta na bancada de trabalho e ajudando Tristan a se reerguer. — E você veio ao lugar certo com a pessoa certa, porque eu tenho exatamente a resposta que você procura.
Ditas as palavras, o florista caminhou até um dos vasos de vidro da loja, retirando de um deles diversas unidades de uma flor branca com as pétalas volumosas e os estames alongados. A flor da pureza da alma — conhecia bem o significado desta — tinha um cheiro forte e que fazia presença, mas era agradável ao olfato e à visão. Kaiser rapidamente voltou ao seu posto, caprichando um pouco mais no embrulho dessa vez. Ele organizou as plantas uma do lado da outra, especificamente as nove delas, e cortou os caules para que ficassem na mesma proporção. Assim, ele envolveu-as em um papel fino e translúcido de cor rosa pastel, finalizando com um lindo laço azul de mesma tonalidade. Era um buquê gracioso e completamente sofisticado, tanto pelas flores quanto pelo modo que foi realizado o arranjo.
Kaiser esticou o produto de seu trabalho para Tristan, que o segurou com as mãos trêmulas e com um cuidado muito grande, como se o objeto fosse feito de cristal. Ele ficou atônito, balbuciando palavras desconexas e sem sentido, até finalmente se acalmar e conseguir formular uma frase completa:
— Isso é lindo, Kai — Tristan, que antes possuía os olhos tristes e caídos, agora voltavam ao seu estado natural de alegria e entusiasmo. — Ouso dizer que tão lindo quanto a Bea, mas o que são, exatamente?
O florista aguardava pela estimada pergunta, dando um sorriso travesso que ia de cada ponta de suas orelhas. Recebeu um olhar questionador do amigo, mas que logo se transformou em um conjunto de expressões, ao questionar:
— Qual é o segundo nome da Beatrice, Tristan?
Houve alguns segundos de espera, na qual Kaiser observava com deleite o amigo mudar as expressões de confusão para uma de compreensão, e logo em seguida para uma de extrema surpresa. A boca de Tristan se escancarou de uma forma que o florista pensou que poderia tocar o chão; ele estava extasiado, ao mesmo tempo em que se punia veementemente por tamanha lerdeza.
— Lilian! São lírios! — Tristan gritava aos ventos, segurando forte o buquê e girando com ele em mãos, como se tivesse feito uma incrível descoberta que estava o tempo todo debaixo de seu nariz; o que de fato era verdade.
Kaiser deu risada da reação do amigo, entrelaçando os dedos das mãos na frente do próprio corpo. Após muitas comemorações e euforia, Tristan finalmente se acalmou — do jeito dele, é claro, que consistia em atravessar a bancada do amigo e lhe dar um forte abraço. Kaiser ficou atônito, sem saber como reagir ao ouvir os diversos agradecimentos do galanteador, os musculosos braços esmagando suas costelas. Sentiu, repentinamente, algo molhado tocar-lhe a bochecha, corando intensamente com o ligeiro beijo de Tristan. Empurrou o amigo com todas as forças que tinha, bravejando:
— Tudo bem, já entendi! Você está feliz, agora pode parar — Kaiser conseguiu, com muita dedicação, se desvencilhar dos braços do mais alto. Suas bochechas ainda rubras enquanto alisava a roupa desarrumada pelo outro.
— Eu te devo uma Kai. Pode me pedir o que quiser, qualquer coisa! — Tristan lançou um olhar sedutor e cheio de segundas intenções, mas gargalhou ao receber uma encarada mortífera do florista.
O de cabelos negros apenas sorriu de canto, afastando-o de seu local de trabalho e abrindo com violência a caixa registradora em sua frente. Assim que acertaram tudo, Kaiser desejou boa sorte para a comemoração de aniversário dos amigos e viu, ao longe, Tristan correr apressado pela porta, reclamando do quanto já estava atrasado — e que se não chegasse em casa logo, receberia um bom sermão de Beatrice.
Apesar de manter o riso no rosto, Kaiser lembrou-se de um evento importante com a fala de Tristan, olhando para o relógio-cuco no mesmo instante. Os números indicavam o período das quatro horas e trinta minutos da tarde. Sentiu suas mãos começarem a suar instantaneamente, milhares de pensamentos negativos invadiam sua mente. Ele queria estar errado, queria que todos aqueles pensamentos ruins evaporassem de uma vez, mas eles continuavam lá, vozes martelando em sua cabeça suas maiores inseguranças.
Seu pulmão começava a inflar descompensado, na busca incessante por oxigênio. Entretanto, antes que tivesse mais uma de suas crises de ansiedade, percebeu algo vibrar no seu bolso traseiro da calça, levando a mão esquerda ao objeto no mesmo instante. Segurou firme com seus dedos finos e longos o próprio celular, destravando a tela de bloqueio e dirigindo os dedos ágeis no ícone de mensagens recebidas. Seu coração saltitava como em uma dança carnavalesca, a pouco de pular para fora pela sua boca. Uma mistura de ansiedade e felicidade queriam dominar seus sentimentos, até ele ver o remetente da mensagem.
"Duas mensagens não lidas de Tutu"
Kaiser deixou escapar um murmúrio, lamentando não ser a pessoa que tanto aguardara o dia inteiro. Mas, ainda que um tanto decepcionado, o florista abriu a notificação do amigo, curioso para saber sobre o que se tratava. Quando abriu a conversa com o guitarrista, a primeira mensagem era, na verdade, uma foto tirada por Arthur: nela estava Dante sentado em uma cama de lençóis verdes, atrás dele uma parede repleta de pôsteres de bandas de rock — Kaiser reconheceu imediatamente como sendo o quarto do melhor amigo; na imagem, o homem loiro segurava em mãos um buquê de flores brancas e sorria abertamente, seus olhos fechados enquanto apreciava o aroma dos belos cravos; pelo ângulo da foto, provavelmente havia sido tirada escondida por Arthur, pegando o namorado de surpresa, mas com uma expressão genuína de felicidade.
Kaiser sorriu com a foto, mas seu coração se alegrou mais ainda ao ler a mensagem digitada logo em seguida:
"Ele amou, está muito mais animado!"
O florista digitou velozmente no teclado do celular, apoiando-se na bancada e se sentando outra vez em sua cadeira confortável, ao mesmo tempo em que o respondia.
"Isso são ótimas notícias, amigo"
Preparava-se para guardar o celular quando uma outra notificação apareceu em sua conversa com Arthur. Contudo, o que leu em seguida o pegou totalmente desprevenido, fazendo Kaiser prender levemente a respiração:
"Mas e aí? Ele te respondeu alguma coisa?! Me conta!! <3"
Demorou alguns segundos para processar toda a informação, mas quando conseguiu se recompor, ainda permanecia paralisado e sem saber o que dizer.
Ele estava aguardando pela mensagem referida o dia inteiro. Esta que, com o passar dos sons do relógio-cuco — e que ao decorrer do tempo ficavam cada vez mais insuportáveis para o florista —, acabara por não chegar. Kaiser saiu por alguns segundos da tela em que falava com o amigo, entrando em outra conversa e fitando intensamente a última mensagem que mandara, a qual continha dois tracinhos em cheque ao lado, já azuis. Kaiser havia sido ignorado completamente e, depois desse vexame, desistira de mandar qualquer outra mensagem o dia todo.
Suspirou profundamente, segurando a frustração e a pequena vontade de chorar, enquanto respondia Arthur.
"Ainda nada, desde ontem de noite"
A resposta chegou sem demora.
"Ah... bem, tenho certeza de que ele deve ter tido algum imprevisto! Não precisa ficar preocupado e se remoendo!"
Kaiser sorriu de canto, sempre se encantava com a habilidade do melhor amigo de ler suas emoções, mesmo que não estivessem se vendo.
"Quem disse que eu estou preocupado?"
Recebera como resposta, pouco tempo depois, apenas uma figurinha de um ursinho erguendo uma sobrancelha, desconfiado. Em meio a risadas, Kaiser mandou sua última mensagem, dando fim a sua conversa com Arthur:
"Preciso ir, logo fecho a loja"
Mas não sem antes, é claro, ler mais um dos comentários motivadores do guitarrista:
"Não esquece de usar aquela camisa bonitona! Bom encontro, gracinha <3"
No instante que colocara o aparelho no bolso da calça jeans preta, seus ouvidos foram preenchidos pelo familiar som de clientes entrando no estabelecimento. Contudo, surpreendentemente naquele dia, o florista apenas reconhecera uma pessoa das três que entraram; o mais alto e robusto deles, para ser mais específico. Kaiser não via aquele rosto há alguns anos, por isso sua primeira reação foi, naturalmente, a de genuína surpresa. Viu o homem gigante abrir a porta com tudo, segurando a mesma para que um outro homem bem mais baixo e uma mulher alta e esbelta pudessem adentrar na loja. Logo, todo o ambiente foi ocupado por um tom de voz brando e exagerado.
— Mal-passado! Há quanto tempo que não te vejo! — ele se aproximou a passos largos, dando fortes tapas nas costas de Kaiser.
— É bom ver você também, Balu — Kaiser deu um sorriso fraco, massageando a região agora dolorida pelo toque do mais alto.
Os outros dois foram caminhando até a bancada, mas, diferentemente de Balu, a passos calmos e silenciosos. O homem era bem baixo — "mais baixo que o Arthur", pensara o florista —, ele tinha cabelos cacheados e volumosos de um tom acinzentado, que batiam pouco abaixo dos ombros; sua pele negra não retinta vestia uma camiseta branca com desenhos de flamingos rosas — o que Kaiser achou extremamente elegante —, e pendurado em seu pescoço havia um colar com o mesmo animal. Já a mulher era branca e alta, seus cabelos longos e pretos iam até sua cintura e havia uma mecha neles pintada de azul, suas roupas aparentavam um estilo mais alternativo, bem parecido com o de Kaiser: vestimentas pretas e uma calça de couro; especialmente — ele pôde notar com facilidade — a camiseta de manga curta de mesma cor deixava a mostra as várias tatuagens que tinha em ambos os braços. Ela também usava um colar com um animal, mas este era um grande e dourado leão com a boca aberta, como se soltasse um potente rugido.
Quando estava todos por perto, Balu — também conhecido por Antônio Pontevedra, seu verdadeiro nome —, um homem mais velho e musculoso com um bigode que se destacava em seu rosto amigável, apresentou os companheiros:
— Esses são o Rubinho e a bambina! — indicou cada um com o dedo indicador, seu sorriso largo e os dentes brilhantes.
Kaiser encarou cada um e ergueu uma sobrancelha, como se duvidasse que estes fossem seus verdadeiros nomes; e conhecendo Balu, ele tinha certeza de que não passavam de apelidos. Como se cada um captasse a mensagem mental do florista, o mais baixo disse:
— Rubens.
— E eu sou Carina — a moça se apresentou propriamente, dando um sorriso bonito e educado. — Você tem uma bellissima floricultura!
— Obrigado — Kaiser agradeceu, notando o sotaque estrangeiro da mulher. Em seguida, olhou para as tatuagens e comentou, apontando para elas: — E você tatuagens legais.
— Grazie! — Carina respondeu em italiano, gentilmente. — As suas também são lindas, são violetas?
Ele apenas assentiu, observando os desenhos roxos das flores favoritas em seu braço. Ouviram uma risada alta do homem grande, que a cada momento agia mais como um papai urso. Balu envolveu os amigos para perto de seu peito, juntando-os em um esmagador abraço.
— Fico feliz que estejam virando amigos, mas temos assuntos importantes a tratar — assim que ele soltou os dois, bateu com as mãos no balcão, assustando todos na loja. — A bambina precisa de ajuda de um profissional, Kauser.
A expressão de Balu ficou drasticamente séria, seus dedos se fecharam em punhos firmes. Kaiser também desfez o sorriso, porém, não pelos mesmos motivos.
— Kaiser — ele bufou, desistindo de corrigir o colega e voltando-se para a mulher em sua frente. — Pode me dizer o que é, farei o possível.
Carina se aproximou do florista, uma feição um tanto constrangida acompanhada de um sorriso de canto se fez eminente.
— Ele está exagerando — ela disse com a voz alegre. — Eu estou gostando de uma garota da faculdade, convidei ela para sair hoje e queria dar um presente, mas não sei o que seria mais adequado.
Kaiser suspirou aliviado, lançando um olhar fulminante para o homem ao lado, que deu gargalhadas agudas. Ainda morreria do coração com as brincadeiras de Antônio.
— Bem, acho que posso ajudar nisso — respondeu sereno. — Pode me dizer algumas informações? O nome dela, o que gosta, e o que você quer passar nesse primeiro encontro?
— Ela se chama Clarissa — a moça bonita respondeu, seu sorriso se alargando e os olhos ficando nublados pela paixão. — Ela é bem forte, pode parecer um pouco rude de primeira impressão, mas ela é, na verdade, muito decidida e obstinada.
O florista afirmava com a cabeça, ouvindo atentamente às palavras de Carina. Milhares de ideias passavam por sua mente, uma mais diferente que a outra, mas todas que se interligavam com as descrições da cliente.
— E sobre o que eu quero passar... — Carina fez uma pequena pausa, refletindo meticulosamente acerca de seus sentimentos. Quando se decidiu, ela disse, em voz baixa e visivelmente envergonhada: — Acho que dizer que gosto muito dela já é o suficiente.
— Tudo bem, já sei o que fazer.
Dito isso, Kaiser caminhou pela floricultura, em direção aos vasos com flores em unidade. Parou entre várias delas e avaliou com cuidado, analisando uma de cada vez, pensando sobre qual seria a melhor escolha. Depois de alguns minutos observando, ele pegou oito flores laranjas; suas pétalas eram finas e pequenas, mas juntas pareciam formar uma bolinha felpuda. Ele levou-as até sua mesa de trabalho e, pela quinta vez naquele dia, ele formou mais um arranjo. Tirou todas as folhas e possíveis espinhos da planta, amontoando-as por cima de um pedaço de papel de embrulho preto. Quando terminou de ajeitá-las em uma ordem que ficasse mais atraente aos olhos, ele finalizou com um laço laranja pomposo, do mesmo tom colorido das flores. Entregou o buquê para Carina, que a todo tempo observava o processo com atenção e fascínio.
A mulher pegou o arranjo em mãos com delicadeza, e a única coisa que ouviram foram as risadas animadas de Balu.
— Eu disse pra vocês! Ele é um profissional — Balu tentou bater nas costas do florista outra vez, mas este agora estava mais esperto, conseguindo desviar dos toques.
— Realmente, são muito bonitas — Carina elogiou com um brilho intenso nos olhos. — Muito obrigada, senhor Kaiser.
— Leão — a voz de Rubens ficou perceptível, todos o observavam enquanto o menor apontava para as flores e depois para o colar que a italiana usava.
Carina segurou o objeto referido com as pontas dos dedos, tocando no símbolo do destemido animal. Ela abriu um sorriso quando disse:
— Realmente, as flores são iguais às jubas de um leão — ela se virou para Kaiser. — Este é o brasão da minha família, tem muito valor sentimental.
— Foi uma das minhas inspirações para a escolha da flor — o florista confessou, arrumando o laço do buquê que havia entortado. — Além, é claro, das suas descrições e do significado dela.
— E o que seria? — Carina perguntou, sua expressão refletia curiosidade.
— Crisântemos, eles representam o sentimento de estar apaixonado — ele sorriu enquanto compartilhava seus conhecimentos. — Achei que laranja combinaria, porque lembra um leão e é uma cor diferente. E pelo que você disse, ela não parece ser uma mulher muito comum.
Carina deu uma autêntica risada, aproximando o arranjo do rosto e cheirando as flores.
— De fato, ela não é comum, e eu a amo por isso — suas bochechas coraram ao relatar, em voz baixa.
Carina cursava moda quando encontrou a amada nos corredores do prédio de educação física, ou melhor dizendo, quando trombou com ela, derrubando várias folhas e cadernos no chão. Apesar da cara mal-humorada, surpreendentemente, Clarissa a ajudou a reunir seus pertences. Foi naquele momento que a chama da paixão aconteceu, e depois disso nenhuma das duas conseguiam parar de pensar uma na outra. Carina passou a assistir jogos e treinos de ginástica da loira, esta que também caminhava com mais frequência no prédio dos estudantes de moda. A italiana acabou descobrindo que Clarissa compartilhava de seu gosto pelas roupas, ainda que este fosse um segredo que guardava muito bem trancado. Assim, elas foram se aproximando, até o dia em que Carina foi convidada pela amada para um encontro com o rosto inteiramente vermelho. Ela era perdidamente apaixonada pelos singelos gestos mais fofos da mulher, que demonstrava somente quando as duas estavam juntas. Clarissa era, de fato, uma mulher de características únicas, e aquele buquê representava toda essa sua singularidade.
Foi retirada de seus pensamentos por um abraço de Balu, que fazia típicos carinhos paternais em sua cabeça. Após a troca de gestos amorosos, Carina agradeceu outra vez o florista, aceitando o buquê e pagando o preço pelo trabalho. Assim que terminara de ajudar a cliente, Kaiser perguntou, olhando para os outros dois homens no recinto:
— E vocês? Vão precisar de arranjos também?
Rubens abria a boca para responder, quando foi agarrado pelo amigo mais alto, ficando mudo pela surpresa.
— O Rubinho vai querer! — Balu respondeu pelo outro com um olhar ardiloso.
O de cabelos cacheados encarava-o com os olhos arregalados de desconfiança, mexendo a cabeça de um lado para outro, em um gesto negativo. Tentou se livrar do amigo, mas este era muito mais forte, o que o fez desistir em um determinado momento. Deu um suspiro profundo antes de questionar:
— Por que eu preciso de buquê?
— Ué, você não vai visitar aquele Júnior mais tarde?
A pergunta fez Rubens corar intensamente, seus olhos desviaram para os próprios pés, que se arrastavam no chão gelado, inquietos. Ele abriu a boca várias vezes, numa tentativa de dizer alguma coisa, mas o pensamento de todos o olhando não permitiu que sua voz saísse. Kaiser, captando o desconforto do menor, perguntou em um tom de voz empático e gentil:
— Gostaria de falar quem é esse?
Rubens encarou os olhos castanhos do florista, relaxando mais os músculos ao perceber que não seria julgado. Reunindo coragem, ele disse em voz baixa:
— O nome dele é Johnny... — deu um tímido sorriso. — Ele... é muito importante para mim.
— Pessoas importantes merecem presentes importantes — Balu comentou com uma expressão bondosa, dando tapas no ombro de Rubens, que quase foi de encontro ao chão pela força.
Kaiser deu risada, saindo novamente do balcão e se aproximando do menor.
— Devo concordar com ele dessa vez — ele colocou as mãos nos bolsos do avental, sua postura agora mais largada. — O que esse Johnny significa para você?
— Hum... — Rubens levou a mão ao queixo, pensativo. Havia tantas palavras que poderiam ser usadas, mas nenhuma parecia resumir bem o que ele sentia pelo outro; todas pareciam insuficientes. Depois de um bom tempo refletindo, no qual todos ao redor aguardaram pacientemente, ele pôde, enfim, responder os sentimentos que por tanto tempo martelavam em seu peito: — Ele é todos os meus melhores sentimentos. Ele é meu amor, melhor amigo, família.
O florista ficou surpreso por um momento, os olhos levemente arregalados pela sinceridade do mais baixo. Entretanto, com todas essas emoções descritas em poucas palavras, Kaiser soube exatamente o que tinha que fazer. Ele andou a passos rápidos até os vasos de vidro, ansioso para construir aquele buquê repleto de amor. Pegou em um deles cinco unidades de uma flor muito colorida, suas pétalas eram predominantemente brancas, mas suas pontas eram pintadas de rosa e havia várias pintinhas em amarelo e marrom, transformando sua aparência em algo único e belo. Kaiser reuniu as flores e fez todo o processo de montagem do arranjo, ordenando-as, organizando-as estrategicamente e tomando sempre o maior cuidado ao tocá-las. Assim que terminara, efetuou o último passo de amarrar o buquê com uma grande fita dourada. Realizado o laço do presente, ele entregou sua obra de arte para Rubens, que em momento algum desviou os olhos do procedimento.
Rubens segurou o objeto com delicadeza, observando cada detalhe das flores, principalmente suas pétalas chamativas e diferentes. Ele tocou a flor com seus dedos finos em um misto de desconfiança e interesse, mas quando se acostumou com a textura e com a bela visão que tinha em mãos, seus pequenos olhos brilharam em entusiasmo e um grande sorriso se formou em seus lábios.
— É lindo — ele disse em um sussurro, como se estivesse contando seus segredos mais preciosos. — Muito lindo.
Kaiser agradeceu com um aceno de cabeça e um olhar de apreço. Sua parte favorita do trabalho sempre seria as reações alegres e satisfeitas de seus clientes, mas poderia dizer que sua maior realização como florista era, principalmente, saber que seu trabalho havia representado os sentimentos que as pessoas que o procuravam tanto ansiavam, e que não conseguiam colocar em palavras. Espalhar o amor e o afeto das pessoas era sua maior felicidade.
— E quais são essas, torresmo? — Balu perguntou com seu natural estado de empolgação, abaixando-se para olhar mais atentamente ao buquê.
— Astromélias — respondeu com a voz calma de sempre, ainda que se irritasse com alguns apelidos do maior.
— O que significam? — Rubens perguntou imerso na curiosidade, seus olhos encarando os do florista.
— Elas representam a amizade, a lealdade, a felicidade plena, e o amor — Kaiser respondeu um tanto relutante. Seu maior pesadelo, consequentemente, também era que acabasse confundindo as emoções de seus clientes; ele jamais se perdoaria por isso. — Pensei que fosse a melhor opção pelo o que você me disse, estava enganado?
Rubens via o desespero no rosto do homem, não compreendendo exatamente o porquê. Aquela era a maior representação de seus sentimentos por Johnny Tabasco que conseguia reunir em um único objeto. Ele nunca havia presenteado o melhor amigo, a relação dos dois sempre fora pautada em momentos juntos de felicidade, nos quais aproveitavam a companhia um do outro. Gestos de carinho, abraços, toques delicados, trocas de ações que fariam um ao outro feliz, era assim que eles funcionavam. Mas ambos, mesmo com a relação estabilizada há bastante tempo, não eram muito de dar presentes.
Eles sempre entenderam que o que era de um, também era do outro. Isso funcionava para tudo, como por exemplo: as roupas de Tabasco; a típica blusa verde quadriculada de mangas compridas, a qual usava com regularidade, depois de um tempo passou a ser propriedade do menor. A caneca de flamingos, na qual Rubens tomava café todos os dias, passou a pertencer a Johnny também. Eles não se importavam, compartilhar as coisas fazia com que se sentissem mais próximos. Contudo, depois do trágico acidente do parceiro, o menor passou a valorizar mais os pequenos atos que compartilhavam: a blusa verde não saia mais de sua cintura, porque agora ela o lembrava da presença do amado. Talvez ele tivesse ficado um pouco mais apegado aos bens que pertenciam à Johnny depois da tragédia, mas ele não se importava, qualquer coisa que o ligasse a ele era digna de amor e cuidado.
Por isso, observar o florista criar belos buquês, colocando todo o amor e sentimentos bons em cada detalhe que tocava, fez Rubens perceber que talvez ele devesse se expressar mais com o parceiro. Ele nunca fora muito bom em colocar seu amor em palavras, por isso valorizava as atitudes, e talvez aquele arranjo fosse uma boa demonstração de seu carinho e afeto por Johnny. Afinal, depois de passar por maus bocados internado em coma no hospital, gestos de amor era o mínimo que o Tabasco merecia.
Dessa forma, Rubens deu um grande sorriso para Kaiser, apertando as flores em seu peito e segurando o pingente de flamingo com uma das mãos.
— É perfeito, obrigado.
Um sorriso aliviado e satisfeito cresceu nos lábios de Kaiser, seus ombros podendo, enfim, relaxar, com o pensamento de que havia conseguido ajudar mais um cliente com sucesso. Balu também se empolgou com a reação do mais baixo, batendo palmas de felicidade.
— Tenho certeza de que, com esse presente, o Júnior vai sair bem mais feliz daquele inferno de hospital! — comentou o mais alto de todos, seu corpo tremendo levemente ao falar a palavra referida ao local de pronto-socorro.
Kaiser sabia que Balu — por ser um amigo da família e, consequentemente, conhecê-lo há bastante tempo —, possuía severos traumas com hospitais, por isso achou melhor não tocar no assunto. Entretanto, não conseguiu conter a curiosidade em relação ao outro, desviando o olhar para Rubens e o questionando:
— Hospital?
— Sim... ele sofreu um acidente há alguns meses — Rubens relatava, seus olhos fugindo do contato com o florista. — Ficou em coma, ele sofreu bastante. Mas já está melhor, ele sai hoje.
O de cabelos cacheados deu um fraco sorriso ao contar a última parte, provavelmente tentando se manter positivo frente à difícil situação. Kaiser tentou pensar em algo que consolasse o menor, mas, felizmente, Balu fora mais rápido, e com suas excelentes habilidades de deixar qualquer pessoa feliz, ele disse:
— E nós vamos buscá-lo, entregar essas lindas flores e encher muito o saco dele! — ele deu uma risada aguda que ressoou por todo o estabelecimento.
Rubens e Carina se divertiam com o ânimo intenso do mais velho, o clima ficando cada vez mais ameno e confortável. Kaiser acertou os valores com seu segundo cliente, agradecendo a oportunidade de ajudar os dois com o que desejavam. Contudo, antes de saírem e tomarem o rumo de suas vidas outra vez, o florista foi inteiramente surpreendido com uma pergunta de Balu. Tal indagação que fez seu corpo paralisar, sua voz ficar presa na garganta e seu estômago revirar:
— Mas e você, mal-passado? — ele apoiou a mão direita na bancada de madeira, sua expressão ficando séria e demonstrando preocupação, bem diferente da animada de poucos minutos atrás. — Você vive ajudando as pessoas com seus talentos, mas... quem dá flores pra você?
A pergunta o deixara perplexo, ninguém nunca havia se preocupado ou sequer questionado acerca de sua vida pessoal, ou de suas vontades. Por isso, quando Balu disse aquelas palavras com seu tom de voz sereno e gentil, o florista não soube o que responder. Os minutos se passaram, o tique-taque do relógio-cuco preenchia o vazio que havia se tornado sua mente. Ele deu um sorriso quebrado, numa tentativa de suavizar o clima tenso que havia criado.
— B-bem… — Kaiser gaguejou, sentia o suor escorrer pelas suas costas. — Ninguém, Balu.
A resposta foi instantânea e as expressões do rosto mostravam indignação.
— Como assim?! — Balu colocou as duas mãos na cintura, as sobrancelhas levemente rígidas, como se estivesse dando bronca em uma criança. — O florista também deve receber flores!
Ouviram um concordar de Carina e movimentos assertivos de Rubens. Os três tinham os olhos brilhando, mas Kaiser mantinha sua feição confusa. Ele se sentia perdido, havia sido pego de surpresa e agora virara o centro das atenções por causa de seus problemas amorosos. Queria enterrar a cabeça no asfalto.
Sentiu de repente a pressão corroê-lo por dentro, a ansiedade subir e apertar o seu peito, sua respiração falhar e o coração errar o ritmo. Ele não entendia o rosto estarrecido de Balu, muito menos entendia o porquê daquele assunto parecer incomodar tanto sua mente. Ele não queria falar sobre isso, queria evitar o máximo que pudesse. Mas a pergunta estava feita, e ele sentia a mistura de tristeza, vergonha e ansiedade o dominarem por completo.
— Quem iria querer dar flores para mim? — o florista perguntou, por fim; as palavras enunciadas tão baixinhas que ficara muito difícil de ouvir o que fora dito.
— Deixa disso, você é um bonitão, Kauser! — o mais velho respondeu, sua mão gigante passeando pelos fios de cabelo negros e macios do amigo. — Deve ter alguém interessando em você! Ou que você goste!
O florista parou um instante para refletir, pensando seriamente se confessaria ou não os sentimentos que tinha por uma pessoa em específico — este que parecia querer ignorá-lo o dia inteiro. Kaiser apenas havia comentado de sua paixão para Arthur, que, como o bom melhor amigo que era, prometera não contar para ninguém — nem mesmo para Dante, seu namorado. Ele remexeu a mão algumas vezes, inquieto com a conversa que mantinham. Obrigando-se a responder, ele optou por uma abordagem mais indireta:
— Tem alguém… — disse pausadamente, vendo, logo em seguida, o rosto de Balu se iluminar com a revelação. — Mas não sei se ele também gosta de mim.
— Mas por quê? — dessa vez a pergunta havia sido feita pela moça de mexas azuis. Kaiser sentiu o desespero aumentar, odiava ser o centro das atenções.
— Ele é gentil e amável — o florista desviou os olhos castanhos para o chão, entristecendo a cada pensamento que tinha do assunto. — Mas não tem por que eu ser especial.
O gesto do mais velho surpreendeu novamente o florista, seu cérebro não conseguiu raciocinar de imediato o que havia acontecido, mas quando se deu conta, Kaiser encarava os olhos negros de Balu. E ainda que carregassem seriedade, ele podia ver o carinho que sentia, era como o calor de uma fogueira que te acolhia nos dias mais frios. Balu tinha esse olhar: quente e acolhedor. Por isso, o florista decidiu apenas encará-lo fixamente, os batimentos do seu coração diminuindo o ritmo aos poucos, enquanto as grandes mãos do amigo seguravam seu rosto.
— Tenho certeza de que gosta — ele deu um sorriso gentil. — Você é uma pessoa muito especial, e uma pessoa especial também merece outra pessoa especial.
Kaiser deu risada, seus lábios abrindo num sorriso tímido ao ser finalmente solto pelo maior.
— Obrigado, Balu — agradeceu com sinceridade, sentindo-se mais calmo e alegre. — Você realmente é um cupido. Ninguém te acertou a flecha ainda?
Balu gargalhou copiosamente, colocando as mãos na barriga como se ouvisse a melhor piada do mundo. Ele passou as mãos pelos cabelos repletos de gel, sua expressão completamente presunçosa.
— Não, torresmo — Balu disse, seu tom de voz vaidoso. — Não tem como o cupido se apaixonar.
— Ah não? — Rubens perguntou simples, interrompendo o momento do amigo para provocá-lo. — E o Veríssimo?
— QUE ISSO RUBINHO! — o grito de Balu ecoou pela loja, junto das risadas dos outros três que observavam o rosto do maior ficar extremamente rubro.
Kaiser soltou todo o ar que prendera, aliviado pela mudança de assunto entre eles. Aproveitou a brecha de Rubens para levar a atenção para o amigo, que se envergonhava mais a cada segundo.
— Veríssimo? — o florista deu um sorriso debochado. — Quem é esse, Balu?
— Não sei do que ele ‘tá falando! O Rubinho às vezes não bate bem da cabeça.
— É um colega de trabalho dele — Carina revelou com um sorrisinho animado. — Eles estão flertando há um tempão!
— Até você bambina?!
— Ah é? — Kaiser respondeu curioso, ignorando as reclamações do mais velho.
— É, mas ele não tem coragem de chamá-lo para sair — Rubens comentou com um olhar de repreensão para Balu, ao mesmo tempo em que alisava seu buquê com carinho.
Balu agora cobria o rosto acanhado com as mãos, negando-se a encarar qualquer um deles. O silêncio se instaurou por um tempo, no qual todos esperavam por alguma reação do homem mais experiente. Contudo, essa só veio depois de um longo suspiro, quando Balu endireitou as costas, a mão atrás da nuca e os olhos cabisbaixos.
— Vocês falam isso porque são jovens, já estão namorando, ou já têm um encontro com quem amam — ele disse, referindo-se à Rubens e Carina. — Eu sou velho, não tenho mais jeito pra essas coisas...
Kaiser sentiu que era sua vez de tentar confortar o amigo, e assim ele o fez. Levou a mão direita até o braço forte de Antônio, segurando-o com firmeza, mas com os olhos gentis.
— Isso não é verdade, Balu. Sempre há um jeito de demonstrarmos nosso amor, independente da idade.
Viu com deleite o sorriso do maior crescer em seus finos lábios, sua expressão voltando, aos poucos, ao seu normal.
Ao ouvirem o bater das horas, os três clientes resolveram se despedir e correr para seus afazeres; afinal, ainda tinham que encontrar quem amavam. Após os agradecimentos e troca de palavras carinhosas, eles caminharam alegres até a porta. Entretanto, foram parados por um exclamar de Kaiser chamando por Balu, que corria até um dos vasos com uma tesoura bem afiada em mãos. O florista realizava vários movimentos rápidos de costas para os outros, que o aguardavam pacientemente, mas curiosos. Quando terminara de colocar em prática a ideia que tivera, Kaiser correu a passos largos, parando exatamente na frente de Balu. Cobriu as mãos para que não vissem o objeto, colocando-o no bolso frontal da camiseta extravagante do amigo e dando leves tapinhas no lugar.
Quando Balu abaixou os olhos para ver o que Kaiser havia colocado em seu peito, ele encontrou uma bela flor rosa com os botões bem abertos e redondos. Uma única unidade, linda e singela, como o amor de Antônio por Veríssimo. Ele ergueu os olhos para o florista, sem entender o gesto do menor.
— É uma camélia, ela representa a beleza perfeita — Kaiser disse ao colocar as mãos nos bolsos, observando os olhos brilhantes de Balu. — Talvez esse tal de Veríssimo goste.
As bochechas do homem grande ficaram vermelhas outra vez, mas o sorriso que sustentava seu rosto era impagável. Nunca tinha visto o amigo dar um sorriso tão bonito e verdadeiro como aquele. Isso com certeza deixou o dia de Kaiser imensamente mais feliz, principalmente depois do abraço apertado que recebera do mesmo, junto das doces palavras:
— Obrigado, de verdade.
Assim que se desvencilharam, despediram-se pela última vez, e então Kaiser se viu sozinho. Já era tarde, o sol já se punha do outro lado da loja, e ainda não havia recebido nenhum sinal de vida dele. Os dois haviam combinado de se encontrarem na floricultura especificamente as cinco horas da tarde, para que pudessem sair juntos, porém, quando o florista olhou para o relógio e viu os ponteiros indicarem que faltava dez minutos para as seis, Kaiser suspirou, entristecido. Mas ele não podia ficar deprimido agora, ele tinha obrigações para fazer.
Sendo assim, Kaiser andou até a porta da própria loja, virando a placa que ficava pendurada no vidro, deixando o lado escrito em vermelho "fechado" para que as pessoas do lado de fora pudessem ver. Ele organizou todos os vasos e plantas, deixando-os perto das janelas; em seguida, pegou uma vassoura e um pano e varreu o chão da loja por inteiro, dando uma atenção especial para os lugares que havia sujado de terra sem querer; ele também arrumou as mesas que ficavam no canto da loja e colocou as cadeiras penduradas de ponta-cabeça. Terminado de arrumar o espaço dos clientes, Kaiser migrou para sua bancada de trabalho. Lá, ele jogou fora todas as folhas, caules e espinhos que havia retirado das flores para que pudesse fazer os buquês. Organizou alguns papéis, colocou os instrumentos de trabalho em seus devidos lugares e checou a caixa registradora, verificando o quanto rendera o intenso serviço daquele dia. Terminando tudo que tinha de fazer, ele adentrou na área de funcionários, sentando-se e podendo descansar, enfim.
Kaiser se jogou na cadeira mais próxima, pegando o maço de cigarro de seu bolso e acendendo um rapidamente. Ele tragou o tabaco e soltou a fumaça aos poucos, aproveitando a sensação relaxante que lhe causava. A conversa com Balu e os outros, a falta de respostas e o cansaço havia o deixado extremamente estressado. Kaiser observava cada canto do quartinho, olhando os armários fechados, as cadeiras, a beliche que ficava no canto, até seus olhos repousarem na entrada do banheiro, mais especificamente na pia que ali fazia presença. Reunindo toda a sua coragem, ele se levantou do conforto do assento, arrastando os pés em desânimo até o lugar. Os orbes castanhos subiram lentamente e pararam no grande espelho, no qual o florista avaliou sua condição: ele estava acabado.
Suas roupas e o avental estavam um tanto amassados e sujos devido ao trabalho e a correria, seu cabelo rebelde e despenteado fazia alguns fios pretos caírem em seus olhos. Encarou fixamente a cicatriz do lado esquerdo de seu rosto, odiando-se mais a cada segundo em que olhava o reflexo da própria figura. Odiava aquela cicatriz, odiava seu rosto magro e cansado, odiava seu cabelo desobediente. Mas naquele momento, ainda que Kaiser sentisse uma raiva tremenda, o maior sentimento que invadia seu peito era o de tristeza. Ele se sentia triste, porque sabia que jamais seria digno do amor que tanto desejava. Ele não podia culpar o outro por não ter aparecido, ou por não ter mandado nenhuma mensagem o dia inteiro, afinal, quem iria querer sair com uma decepção? Quem iria amar um fracasso?
Foi com esses pensamentos em mente que o florista deu o último trago na droga e apagou o restante, jogando a bituca no lixo. Ligou a torneira da pia, reunindo as duas mãos e jogando água em seu rosto; não somente para limpá-lo do árduo dia que tivera, é claro, mas também para que as gotas que caíam em seu rosto pudessem levar ralo abaixo as lágrimas que insistiam em escorrer de seus olhos. Segurou diversos soluços que lhe apertavam a garganta enquanto passava as mãos molhadas atrás do pescoço, retirando o suor do corpo. Fechou a torneira com força, apoiando ambas as mãos na pia. Seus olhos observavam, sem vida, a água descer em direção ao esgoto, sentindo que se demorasse muito mais tempo, teria uma verdadeira crise de choro.
Pegou uma toalha branca que estava pendurada ao seu lado, secando o rosto delicadamente. Kaiser voltou para o quarto dos funcionários, abrindo seu respectivo armário e dando de cara com um conjunto de roupas muito bem passado e cheiroso. Havia separado a muda de vestes para que pudesse se trocar para ver o outro, mas naquele momento, depois de tudo o que passara, ele não via mais necessidade de se vestir tão bem. Ainda assim, o florista fitou as roupas elegantes, refletindo se deveria colocá-las, mesmo que fosse apenas para voltar para casa. Decidiu, depois de muita demora, vestir o conjunto escolhido — pensou, principalmente, em Arthur, que havia o ajudado a escolher as peças, ficando com pena de fazer desfeito com a atitude gentil do melhor amigo.
Kaiser vestiu uma calça preta de veludo, afivelando o cinto de mesma cor na cintura; em seguida, trocou a camisa e o avental de trabalho por uma camiseta branca com diversas flores roxas — esta, por ser um pouco maior que seu tamanho, teve um nó amarrado no final de suas pontas, na região da cintura, fazendo com que o tecido de viscose ficasse mais solto, dando um ar de despojado, porém ainda bem arrumado, o que também deixou um pouco da sua pele a mostra na barriga. Kaiser estava morrendo de vergonha, mas confessava ter achado o conjunto lindíssimo; ele só não estava acostumado em usar roupas tão chamativas, mas também não odiava a sensação, muito pelo contrário, pensava que finalmente vestia algo que sempre quis e sentia-se confortável com aquela sua nova aparência. Ele terminou de se arrumar ao passar um pouco de desodorante e um perfume amadeirado no pescoço, calçando, por fim, um par de tênis brancos.
O florista foi novamente em direção ao espelho no banheiro, tirando uma foto de si mesmo com o celular e enviando-a para Arthur, que tanto havia insistido em ver como ficara o conjunto por completo. Aproveitou para arrumar o cabelo o máximo que conseguia, deixando alguns fios soltos caírem em seus olhos no lado direito de seu rosto, e escovou os dentes, terminando, enfim, de se ajeitar. Contudo, ele ainda tinha que terminar de fechar a loja. Por isso, Kaiser guardou rapidamente suas coisas no armário, organizando uma pequena mochila com as coisas que precisava levar para casa, como carteira, carregador e algumas papeladas que ainda teria que assinar. Assim feito, ele saiu do quarto dos funcionários, trancando-o com o molho de chaves do qual possuía todas as chaves da loja — inclusive, a da própria casa.
Dando um suspiro satisfeito, ele analisou a loja, caminhando por todos os cantos e apagando as luzes, trancando as janelas e arrumando algumas flores. Ele foi até sua bancada e trancou a caixa-registradora, pegando um controle remoto de dentro de uma gaveta próxima e fechando o teto de vidro com uma persiana de metal ao apertar de um botão. Desta forma, Kaiser pôde sair pela porta de madeira branca, também ocultando o vidro da mesma com uma cortina fina e branca. Era exatamente seis e meia da tarde quando ele retirou o grande molho de chaves do bolso e trancou a porta, dando por finalizado mais um dia de trabalho.
Entretanto, seu corpo parecia não querer se mover, ele encarava fixamente a maçaneta pintada de dourado e sua mente estava nublada. Kaiser não queria sair dali, pois ele sabia que assim que desse meia volta, não veria a pessoa que tanto esperava, e provavelmente passaria a noite inteira chorando em uma longa ligação telefônica com Arthur. Ele não queria, mas ele tinha que fazer. O florista conferiu, uma última vez, as mensagens em seu celular, entrando em uma conversa específica. Porém, encontrou tudo exatamente do mesmo jeito que estivera o dia inteiro. Sem notificações, sem mensagens, sem notícias.
Sentiu seus olhos lacrimejarem, embaçando sua visão, e foi com muita força que Kaiser retirou a mão da maçaneta da sua amada floricultura, virando-se para o lado esquerdo da rua. Começou a caminhar em passos lentos na calçada, as pessoas conversavam alegremente ao seu redor, os pássaros cantavam em um belo fim de tarde de primavera e o sol ainda brilhava em intensos raios que começavam a se dissipar no horizonte.
Sete passos.
Sete passos foram dados pelo florista até ele ouvir a tão adorada e conhecida voz, clamando a plenos pulmões pelo seu nome:
— KAISER!
Ele parou onde estava, não acreditando em seus ouvidos. Foi quando, ao virar-se de uma maneira bem lenta para verificar que não estava delirando, seus olhos castanhos encontraram a figura alta e alegre, vestida em uma camisa social vermelha com os dois primeiros botões abertos, uma calça jeans escura e tênis de corrida. Ele corria o mais rápido que conseguia com sua respiração de ginasta e segurando uma bolsa e um pacote nas mãos, as características orientais e a cicatriz no lado esquerdo do rosto facilmente reconhecíveis e imensamente charmosas... Kaiser soube que não estava em mais um de seus doces sonhos. Os fios de cabelo lisos e sedosos balançavam com o vento, dando-lhe um ar ainda mais encantador, mas nada superava o lindo sorriso que exibia em seu rosto. Como amava aquele sorriso.
Kaiser não mexera um músculo sequer, esperando que o outro se aproximasse com sua corrida, seus olhos permaneciam mostrando a completa surpresa e o maior estado de choque que tivera naquele dia. Sua feição era inexplicável, estava perdidamente estático com o que via, inerte em seus pensamentos que mais pareciam um turbilhão de sentimentos confusos. Quando finalmente o homem chegou a menos de um metro de distância, apoiando-se nos próprios joelhos para recuperar o fôlego perdido, Kaiser ainda o fitava com a boca levemente aberta devido ao espanto. Sem ter muita consciência de suas ações, o florista proferiu somente uma palavra, um nome, que ansiava em falar o dia inteiro:
— Joui...?
O maior se levantou, endireitou a postura e lhe deu um grande sorriso. Aproximou-se ainda mais do florista com a respiração ofegante e suas bochechas rosadas pelo esforço, mas não somente isso: Joui colocou a mochila no ombro esquerdo e levou a mão até a parte de trás do pescoço, extremamente envergonhado em ver Kaiser na sua frente, usando roupas que lhe caiam tão bem e valorizavam suas belas curvas. Ele pigarreou algumas vezes, um tanto perdido por onde começar, mas disse com empolgação:
— Pronto pro nosso encontro? — Joui encarava os olhos confusos do menor, não entendendo o motivo do estranhamento deste.
— O que? — Kaiser perguntou assustado, suas mãos apertavam a alça da mochila em seu ombro.
— Nosso encontro! — respondeu com simplicidade, mas rapidamente sua expressão alegre transformou-se em uma de chateação. — Você esqueceu...?
Kaiser ergueu uma sobrancelha, incrédulo com as palavras que ouvia. Se tinha uma coisa que o florista ficara pensando o dia inteiro fora no encontro marcado dos dois, mas o fato de Joui não receber e nem responder nenhuma de suas mensagens, ignorando-o completamente, fez ele perder totalmente a esperança dos dois se verem outra vez. Isso era o que Kaiser pensava, mas ele sabia que na verdade o seu histórico, seus traumas do passado, todos os problemas que tivera em manter quaisquer relações sociais, que lhe causaram intensa insegurança e ansiedade, tudo isso era o verdadeiro motivo de seus medos. Afinal, se durante a sua vida inteira ninguém se importou em formar laços com ele, por que Joui iria querer também? Não fazia sentido em sua cabeça. Mas seu coração pensava diferente: ele queria, mais que tudo no mundo, que o amigo compartilhasse de seus mesmos sentimentos.
Ele queria que Joui o amasse, assim como ele o amava; queria que sonhasse com ele, assim como Kaiser sonhava todas as noites; queria receber abraços e gestos afetuosos, assim como gostaria de poder tratá-lo dessa forma; queria dizer o quanto amava sua companhia, o quanto amava ouvi-lo falar por horas sobre diversos assuntos diferentes, o quanto sentia saudade de sua presença, mesmo que tivessem se visto poucos minutos antes. Seu coração queria tanto a reciprocidade, mas as vozes em seu consciente não descansavam em momento algum. Era difícil se livrar delas.
— Não, eu não esqueci — Kaiser respondeu, seus olhos desviando para o chão repleto de pétalas de flores rosas que caiam da árvore acima deles. — Eu... eu só...
Houve um silêncio constrangedor entre os dois homens, no qual o mais velho continuava a encarar o chão e um Joui extremamente confuso permanecia observando o companheiro, ainda sem compreender o porquê dos comportamentos estranhos do florista. Ele aguardou um pouco, mas quando notou a dificuldade em se expressar de Kaiser, achou melhor ajudar com um incentivo.
— O que? — Joui dizia sempre com uma voz doce e suave, como se tudo o que Kaiser dissesse fosse especial e digno de toda sua atenção.
Kaiser amava essa atitude do mais novo, pois se sentia mais livre e confortável em dizer o que sentia, não importando o que fosse. Quando estava com Joui, ele sentia que poderia ser ele mesmo, sem quaisquer tipos de pressões ou barreiras. A voz empática, gentil e encantadora do maior era música para seus ouvidos, elas lembravam as maravilhosas canções que sua mãe colocava no toca-discos quando era pequeno; seus olhos, ainda que um tanto infantis, sempre demonstravam um carinho tão grande pelo florista, além de possuírem sempre um brilho tão intenso, maior do que o céu estrelado no dia mais limpo. Porém, aquele sorriso acolhedor era sua maior fraqueza, Kaiser não conseguia olhar para aquele sorriso sem se contagiar e sorrir também. Joui tinha o poder de mexer com todas as suas estruturas, de virar seu mundo de cabeça para baixo, de deixar seus dias mais iluminados e floridos. Se ele soubesse o tamanho impacto que possuía em sua vida...
— É q-que... — Kaiser gaguejava, buscando palavras que melhor descrevessem seus pensamentos. Mas quando seus olhos, pela primeira vez naquele dia, encontraram os castanhos escuros de Joui, Kaiser sentiu seu peito encher de coragem e de um calor gentil. — V-você não respondeu minhas mensagens... então e-eu pensei...
— Ah! É verdade — deu um sorriso de canto, demonstrando constrangimento em falar sobre o assunto. — Sobre isso, desculpa por não conseguir te avisar. Meu celular começou a parar de funciona do nada! Tudo bem que eu o deixei cair com uma força consideravelmente grande, mas não imaginei que fosse estragar tanto.
— Espera, mas como isso aconteceu? — Kaiser perguntou desconfiado.
— Pois é... — o rosto de Joui ganhou um forte tom de vermelho. — Eu tentei jogar aquele jogo que você tinha dito que gostava, mas não deu muito certo... Digamos que eu sou muito ruim com jogos, celulares, e qualquer outro aparelho eletrônico. Então quando eu o peguei do chão para te responder, o celular apagou!
Ele não queria, mas não conseguiu conter a risada. Para Kaiser era difícil imaginar a cena de Joui ficando bravo com o celular e quebrando-o sem querer, mas seu coração foi preenchido com uma enorme felicidade ao simples pensamento do mais novo se importando com seus interesses, e procurando entender mais das coisas que gostava. Sentia-se um idiota depois de ouvir a explicação inocente do amigo, principalmente por saber que ele falava a verdade. Era completamente perceptível em seus gestos e falas.
— Desculpa de novo, eu queria te avisar que eu ia atrasar um pouco, mas não consegui — Joui continuou, ainda um pouco envergonhado com a confissão que fizera. — Sorte que vim correndo e consegui te encontrar a tempo, mas você parecia estar indo embora...
Desta vez, quem se acanhou foi Kaiser. Crucificava-se mentalmente por ter tirado conclusões precipitadas, mas ele já estava tão acostumado de as pessoas não se importarem com ele ou o abandonarem, que sua reação fora mais por instinto de defesa do que qualquer coisa mais racional. Ele mexeu as mãos, inquieto, morrendo de vontade de acender mais um cigarro. Ele definitivamente precisava parar com esse vício.
— Quanto a isso, eu... — Kaiser tentou se explicar, mas como dizer em poucas palavras anos de abandono e inseguranças? Como dizer a ele que tinha medo do mais novo não corresponder aos seus sentimentos? Que tinha medo de se machucar outra vez? — Eu pensei que... bem...
Joui lhe deu um sorriso empático, assentindo com a cabeça para que o florista continuasse a falar sem medo.
— Eu só... não imaginei que você viria de verdade — conseguiu dizer, por fim. Um longo suspiro escapou de sua boca, sentindo um enorme peso sendo retirado de seus ombros.
— E por que não? — Joui perguntou com genuíno interesse, ainda em dúvida da linha de raciocínio do menor.
— Nunca alguém apareceu antes — Kaiser respondeu, os olhos fixos nos do amigo. Seu olhar mostrava verdadeira sinceridade, o florista realmente estava abrindo seu coração para o ginasta, estava permitindo-se ser lido como um livro aberto por Joui. E apesar de ser uma tarefa extremamente difícil, ele sabia que não havia problema em ter todos os seus segredos mais sombrios descobertos, desde que fosse por Joui Jouki.
De repente Joui entendeu tudo. Aquelas poderiam ser poucas e simples palavras, mas ao mesmo tempo transmitiam tantos sentimentos que lhe atingiram o peito como um balde de água fria. Kaiser estava abrindo seu coração, estava lhe mostrando todos os seus medos, traumas, mas não era só isso: Joui também percebeu um forte sentimento de esperança, como se o florista desejasse com todo o seu coração que o ginasta acolhesse suas qualidades e defeitos, que não desistisse quando os tempos apertarem, que lhe curasse das dores e angústias que sentia. E bem, para Joui isso não seria uma tarefa difícil.
Joui o amava. Amava com cada mínimo pedaço de sua alma. Todos os dias ele se encontrava com os pensamentos bem longe de onde deveriam estar, pensamentos que, por mais que tentasse, sempre voltavam para o florista. Ele passava cada minuto de seu dia pensando no belo rosto de Kaiser, em seus olhos cansados, porém repletos de gentileza e carinho, principalmente pelo seu trabalho. Ele amava ver os olhos castanhos se iluminarem todas as vezes que cuidava de suas preciosas flores, ou quando auxiliava com algum cliente, ou quando falava por horas sobre seus jogos e revistinhas favoritas. Joui amava, porque ele sabia que aquele comportamento era totalmente direcionado a ele. Kaiser não conseguia se abrir facilmente com as pessoas e, por mais que tivesse ótimos amigos, ele ainda possuía muita dificuldade em falar sobre seus sentimentos. Mas Joui sabia que quando estavam juntos, o mais velho abria um sorriso especial que era exclusivamente para si, ele falava de suas emoções, seus pensamentos, e seus olhos brilhavam da mesma forma que acontecia quando estava sob companhia das flores.
Joui amava cada pedacinho do ser belo e sensível que era Kaiser, porque ele sabia que por mais forte que tentasse aparecer na frente dos outros, quando estavam na companhia um do outro, ambos poderiam ser quem verdadeiramente eram. Sim, Joui também se sentia completamente mais à vontade ao lado do florista. Quando estava com Kaiser, ele sabia que não precisava se esconder, que não precisava se preocupar com aparências ou regras, como seu pai o havia doutrinado. Joui era uma pessoa mais livre e feliz ao lado de Kaiser, por isso ele compreendia perfeitamente os sentimentos do menor e faria de tudo para mostrar que ele irá amá-lo independente da situação, dos momentos tensos e difíceis. E, coincidentemente, Joui sabia exatamente o que fazer.
— Então vamos mudar isso — disse o maior com um imenso sorriso.
O ginasta mantivera a mão esquerda escondida atrás do próprio corpo durante toda a conversa, atitude que passara despercebido por Kaiser devido ao choque que levara com a presença do outro. Dessa forma, Joui retirou sua mão com calma, revelando a surpresa que havia feito para o amado: sendo segurado com cuidado por seus longos dedos havia um buquê. Kaiser observou atentamente o lindo arranjo que o ginasta agora estendia em sua direção; ele era pequeno, como um daqueles feitos para noivas carregarem em seus casamentos, os caules estavam cortados perfeitamente para que ficassem do mesmo tamanho, o embrulho era de um elegante preto acompanhado de um belo laço roxo, mas o principal de tudo — e o que fez o coração de Kaiser errar as batidas — eram as flores escolhidas por Joui: pequenas e delicadas violetas.
Se o florista havia ficado sem reação ao ver o amado, agora ele estava completamente perplexo. Ficaram um tempo sem saber o que dizer um ao outro, o ginasta ainda oferecia o presente para Kaiser, aguardando por qualquer movimento ou fala do mesmo. O tempo passava, e assim como para Joui cada minuto pareciam horas, para o mais baixo era como se tudo ocorresse num piscar de olhos. O mundo ao redor de Kaiser parou repentinamente, ele conseguia ouvir sua respiração diminuir e as batidas do seu coração acelerar. Em um misto de diversas emoções, Kaiser conseguiu proferir algumas poucas e quebradas palavras:
— Como você...? O que...?
— Sua tatuagem — Joui apontou para os desenhos no braço do florista. — Você sempre deixa os outros felizes com seus arranjos, imaginei que iria gostar de receber um também.
Aos poucos a ficha foi caindo para Kaiser, que lentamente esticava a mão para alcançar o buquê. Quando suas mãos tocaram nas flores, um pequeno choque elétrico percorreu seu corpo. Sua mente foi invadida por nostálgicas memórias de quando era criança e recebia as flores roxas de sua mãe; depois, foi transportado para o primeiro dia em que seus olhos pousaram nos do ginasta, lembrava da incrível sensação de paixão crescendo em seu peito; recordou-se dos momentos de intimidade dos dois, quando compartilhavam segredos e juras, sem precisarem de palavras, apenas com a troca de sorrisos que revelavam todos os seus sentimentos. Kaiser sentia seu amor por Joui florescer como uma bela violeta na primavera, e todo esse sentimento estava agora naquele singelo arranjo em suas mãos.
Kaiser se aproximou das flores, encostando a ponta de seu nariz e cheirando-as com carinho, sabendo que, estando ao lado de Joui, ele teria todo o tempo do mundo para aproveitar esses deliciosos sabores. O doce aroma tomou conta de seus sentidos, espalhando-se pelo seu corpo como galhos de uma árvore. O sentimento que antes já tinha sua semente plantada no fundo de seu coração, agora crescia mais e mais, criando raízes em toda a sua alma. Kaiser sabia. Ele sabia que agora não tinha mais volta. O amor que sentia por Joui já estava impregnado em suas veias, sua mente, seus ossos, seus pulmões, e em cada pedaço de carne e músculo que formava o seu ser.
Enquanto o menor tomava seu tempo para digerir tudo o que perpassava por seu corpo e alma, o ginasta observava-o com surpresa. O sol já quase se dissipava no horizonte, mas seus calorosos raios batiam nos dois amados, atravessados pelas folhas da grande árvore acima deles. A única coisa que Joui conseguiu pensar vendo a imagem de Kaiser sendo iluminada como se ele fosse uma criatura divina — o que, para Joui, ele de fato era — foi um profundo palavreado — do qual ele não se orgulha de ter pensado —, junto de milhares de elogios que, por melhores que fossem, não poderiam descrever a beleza real do florista.
Em sua visão, Kaiser parecia um anjo. A luz do sol refletia em seus olhos, causando um brilho roxeado lindíssimo, o vento balançava seus cabelos como em um gentil cafuné, as lindas roupas que usava destacavam toda a beleza de seu corpo, e de repente tudo o que Joui conseguiu ouvir foi o som do canto dos pássaros e uma bela sinfonia tocada pelos céus. O tempo havia parado e ele estava apreciando a mais bela obra de arte já criada. Entretanto, a encantadora imagem do amado agora possuía o olhar repleto de lágrimas, como uma chuva delicada de verão.
Kaiser chorava com o rosto entre as flores e seu corpo tremia levemente, mas não o fazia devido à tristeza, e sim por felicidade. Suas lágrimas eram finas e brilhantes como pingos de uma garoa, elas escorriam por suas bochechas coradas e pingavam nas pétalas das violetas. Contudo, quando o florista ergueu o rosto para Joui, seus olhos se fecharam e um grande sorriso nasceu em seus lábios. O que mais lhe chamou a atenção foi que aquele não era um sorriso qualquer: Kaiser havia presenteado o amado com um dos sorrisos mais gentis e sinceros que poderia dar em sua vida.
Joui conseguia enxergar todo o amor, o carinho e a honestidade no sorriso de Kaiser. Porém, ele ainda chorava copiosamente, o que fez um nó na mente do ginasta.
— Está tudo bem? — o maior perguntou, começando a entrar em desespero. Ele se aproximou do florista e o segurou pelos ombros. — O que foi? Eu fiz algo de errado? Eu posso-
Sua fala foi interrompida pelo toque dos lábios de Kaiser nos dele. Não fazia ideia de como acontecera, mas o florista sentira uma instantânea onda de coragem tomando conta de seu corpo. Era um beijo cálido, no qual passaram os primeiros segundos apenas sentido as texturas das peles um do outro, mas que rapidamente se transformou em algo maior e mais necessitado. O mais velho passou as mãos ao redor do pescoço de Joui, trazendo-o para mais perto e fazendo com que aumentasse o contato entre os dois amantes; já o maior desceu os braços para a cintura de Kaiser, segurando firme na região e sentindo a pele lisa exposta pela falta de tecido. Kaiser começou a mexer os lábios, experimentando o gosto doce que era o beijo de Joui, enquanto o outro correspondia rapidamente os movimentos e se deliciava com a maciez da boca do florista.
Para quem olhasse de fora, não diria que havia passado tanto tempo, mas, para os dois, aquele momento parecia durar a eternidade; se pudessem, viveriam naqueles eternos segundos para sempre.
Entretanto, acabaram por se separar depois de um tempo, e lentamente os dois pares de olhos se abriram e se encararam de uma maneira profunda, como se lessem cada linha da vida um do outro. Joui levou a mão direita até o rosto de Kaiser, enxugando delicadamente suas lágrimas com o polegar e deixando um prazeroso carinho em suas maçãs da face. Ambos trocaram sorrisos amorosos antes de se afastarem outra vez.
— Obrigado, por tudo — Kaiser disse com a voz transbordando felicidade.
Joui sabia que eram palavras verdadeiras, que demonstravam uma imensa gratidão e todo o amor que o florista sentia por ele. Sabia que eram palavras ditas pelo coração, e para o ginasta isso era tudo o que importava. Poderia ter sido um gesto simples, mas percebera nitidamente, pela reação de Kaiser, que havia um significado muito maior por trás, e foi nesse momento que Joui chegou à conclusão de que daria flores para o amado todos os dias, apenas para ver aquele lindo e especial sorriso.
— Então... gostaria de me dar a honra de sairmos em um encontro, Kaiser? — ele perguntou em um tom brincalhão, estendendo a mão para o menor.
— Com toda certeza, Joui Jouki.
Sem precisar pensar duas vezes, o florista segurou a mão oferecida com a própria, entrelaçando os dedos e apertando-os com firmeza. Dessa forma, Kaiser e Joui caminharam de mãos dadas em direção ao cinema escolhido por ambos, tendo a certeza de que teriam uma noite inesquecível. Com a mão forte do ginasta de um lado e o buquê de violetas do outro, Kaiser ergueu os olhos para o céu, observando os tons de laranja e rosa sumindo aos poucos de sua vista e dando espaço ao belo azul escuro estrelado. Enquanto trilhavam pela calçada, várias pétalas de flores caíam sobre suas cabeças, atingindo o chão com elegância e colorindo as ruas cinzas da cidade.
A primavera é uma estação de sentimentos, na qual as pessoas exploram seus lados mais sensíveis e veem florescer maravilhosas sensações. É na primavera que os problemas podem ser resolvidos, os amores confessados, as dores curadas, e os corações são unidos como um só. É uma época de amizade, carinho e amor, em que todos podem ser do jeito que quiserem. E se você tiver sentimentos que não sabe expressar, palavras que não sabe como recitar, as flores podem ser uma ótima alternativa. Cada uma delas tem seu significado e que também variam por indivíduo, mas, independente da situação, uma flor sempre trará felicidade àquele que a receber.
A primavera é a estação do amor, e Kaiser pensou que, naquela primavera de novembro, as flores nunca estiveram tão bonitas.
