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Esta é uma história antiga. Não do tipo que começa com “era uma vez”, mas com “eu ouvi dizer.” Eu a ouvi há muito tempo, ainda nos meus tempos de garoto — e, acredite, também permanecerá com você. Algumas histórias grudam na gente como cheiro de chuva em terra seca. Ficam. E é por isso que eu escrevo. Para que você conte depois. Para seus filhos, netos, ou amigos numa noite qualquer, perto da lareira, antes de dormir, quando o silêncio é demais.
É uma história sobre uma casa, uma mentora, um corvo, sete crianças peculiares e seus poderes extraordinários. Mas nossa história não começa aí. Começa bem antes da casa, antes das crianças e até mesmo do corvo.
Devemos voltar ao começo da humanidade.
Desde que o mundo é mundo, as pessoas tentam explicar o que não entendem. Luzes no céu. Vozes no vento. Coincidências boas demais para serem coincidências. Chamavam de deuses. De espíritos. De destino. Era mais fácil apontar para o alto do que olhar para dentro.
Mas a resposta nunca esteve apenas no céu. Estava dentro, fazendo parte de nossa essência.
Com o tempo, demos nomes: superpoderes, dons, habilidades especiais. Milagres. Peculiaridades. Nem todos nasciam com elas — e talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão raro. Tão… mágico.
Os superpoderes nunca avisam antes de chegar.
Nunca seguiram fila, nunca bateram à porta com aviso prévio. Eles simplesmente… aconteciam. Num dia comum, numa família comum, nascia uma criança comum. No outro, o fogo obedecia aos seus dedos. Ninguém sabia quem seria o próximo. Nem quando.
A maioria das habilidades tinha algo que se assemelhava à própria natureza.. Fogo, água, luz, sombra… como se os elementos tivessem escolhido representantes humanos, embaixadores do caos e da beleza do mundo. Outros dons mexiam com o corpo: voar além das nuvens, correr mais rápido que a luz, erguer toneladas com só uma mão.
E havia os mais raros. Aqueles que dobravam a mente e a forma. Aqueles que podiam entrar na mente alheia com um sussurro — hipnose. Ou ouvir pensamentos como escutar uma conversa através da parede — telepatia. Alguns conseguiam mudar a própria forma, dobrar a aparência, tornar-se outra coisa. Outra pessoa. Outro alguém.
Por muito tempo, convivemos com eles assim, quase naturalmente. Estavam nas vilas, nas cidades, nos campos. Alguns se tornaram líderes de nações — e é curioso pensar quantas decisões históricas talvez tenham sido influenciadas por algo além de estratégia e política. Outros usavam seus dons no cotidiano: facilitavam colheitas, protegiam vilarejos, resolviam pequenos conflitos. Havia aqueles que eram vistos como deuses. E havia aqueles que precisaram se esconder para não serem tratados como monstros.
A humanidade nunca soube exatamente o que fazer com o extraordinário. Às vezes admirava. Às vezes temia. Às vezes fazia as duas coisas ao mesmo tempo.
Mas algo mudou.
Não foi de uma hora para outra. Mudanças raramente são dramáticas no começo. Foi ali, por volta da segunda metade do século XVIII, quando o mundo já fervilhava com revoluções, que começaram a surgir figuras diferentes.
Eram os chamados “heróis”.
Pessoas que decidiram — ou talvez sentiram que precisavam — usar seus poderes para combater o crime, para proteger cidades, para agir em nome da justiça. Não eram perfeitos. Longe disso. Mas se tornaram necessários. Criaram símbolos, uniformes, reputações.
Foi quando os dons deixaram de ser apenas peculiaridades individuais e se tornaram papéis sociais.
E, como em toda boa revolução, o mundo nunca mais foi o mesmo.
