Work Text:
O quarto tem uma energia diferente quando está cheio de gente dormindo.
Samira fica olhando para o teto por mais tempo do que deveria, contando as respirações ao redor como se fosse possível somá-las e chegar a alguma conclusão.
Hoje a respiração está errada desde o começo.
Samira levanta devagar, os pés no chão frio, e espia a cama de casal. A Milena não está lá.
A Ana Paula dorme virada para a parede, abraçada ao próprio travesseiro, completamente alheia. O buraco no colchão onde a Milena deveria estar parece grande demais.
Samira vai atrás de Milena.
∗ ∗ ∗
O jardim tem essa luz estranha de tarde do interior, não é dourada nem branca, é aquela coisa entre as duas que faz as sombras ficarem gordas e lentas. As câmeras giram com preguiça. A piscina está limpa, ninguém nadou hoje. As espreguiçadeiras estão dispostas em fila e a Milena ocupa a última, a mais afastada.
Ela não está dormindo. Está de costas, olhando para cima, com os braços cruzados sobre o peito como quem se abraça e não sabe que está fazendo isso.
Samira para na entrada do jardim por um segundo só. Só pra olhar.
A Milena tem esse jeito de ocupar silêncio que é diferente de todo mundo. Não é quietude, é mais como pressão atmosférica, aquela coisa que você sente antes de chover mas que não consegue ver. Samira passou semanas inteiras tentando não notar isso e não conseguiu. Passou semanas do outro lado da casa fingindo que era mais fácil assim e também não conseguiu.
Vai até ela.
"Você não tava dormindo."
A Milena não se assusta. Apenas move os olhos, primeiro para o lado, depois para cima, até encontrar o rosto de Samira acima dela. Não diz nada por um segundo. É o tipo de silêncio que Samira aprendeu a não preencher na pressa.
"Você também não."
Samira senta na espreguiçadeira do lado. Não pede licença porque nunca pede. A Milena tampoco esperava que pedisse, Samira viu isso nos ombros dela, no jeito que não fecharam.
"Tô com aquele negócio no peito," Samira diz, puxando os joelhos para o corpo. "Sabe? Aquele peso que fica antes de coisa importante."
A Milena vira a cabeça para olhar para ela de verdade, agora. Samira aguenta esse olhar. Já aprendeu a não desviar dele, mesmo quando queima um pouco.
"É o paredão," a Milena diz. Simples. Factual. Como se nomeando resolvesse.
"Não é só o paredão."
Mais silêncio. O jardim está tão quieto que dá pra ouvir o zumbido distante do ar-condicionado da área interna e o som das câmeras movendo. Alguém vai acordar em algum momento, vai aparecer aqui com o cabelo bagunçado e esse momento de calma vai acabar. Samira sabe disso. Sente urgência em aproveitar antes que acabe.
"Você acha que vai sair?"
A pergunta sai mais direta do que pretendia. A Milena pisca. Cruza e descruza os braços, um gesto que Samira traduz como: não quero pensar nisso mas estou pensando em outra coisa a cada segundo.
"Não sei. Pode ser."
"Eu sei que você sabe calcular. Você sempre sabe."
A Milena dá um som meio curto pelo nariz que não é bem uma risada. "Então calcula você pra mim."
"Você fica," Samira diz. Sem hesitar. "Eu sei que você fica."
A Milena não responde. Mas os ombros descem um milímetro, ou dois.
Samira conta isso como vitória.
∗ ∗ ∗
Elas ficam assim por um tempo, lado a lado, olhando o jardim que não tem nada de mais interessante do que qualquer outro jardim mas que hoje parece existir como um intervalo, um parêntese fora da casa.
A conversa vai e volta. É desse jeito com a Milena, você não puxa ela, você deixa as coisas chegarem no tempo delas, e quando chegam, chegam de verdade. Samira teve que aprender isso do jeito difícil. Antes ficava forçando a porta, até perceber que com a Milena isso não funciona. Com a Milena você fica parada do lado de fora até ela abrir por dentro.
Falam do grupo. Do Jonas, que a Milena não suporta com uma intensidade que vai além do jogo, há algo pessoal no modo como ela aperta o queixo quando o nome dele aparece, e na maneira com que o chama de idiota. Falam da Ana Paula, do jeito que ela ainda tem aquela energia que transborda pelas costuras quando a situação aperta. Falam de estratégia com a leveza de quem está fingindo que está falando de estratégia e não de medo.
Então a Milena diz, olhando pro nada: "Saudade de casa."
E aí a conversa muda de temperatura.
"De que parte?", Samira pergunta.
"Das crianças," a Milena diz. "Do trabalho, sabe? De ter o que fazer de manhã. De saber pra onde eu tô indo."
"Você não tem família em casa esperando?"
A Milena faz aquela coisa com o canto da boca que não é sorriso e não é careta, é um gesto que ficou preso no meio. "Não é bem assim comigo."
Samira sabe disso. Sabe mais do que a Milena acha que sabe. Mas não força. Deixa o silêncio ficar.
"Tem coisa que você queria ter feito antes de entrar aqui?", Samira pergunta. É uma pergunta sem dente, dessas que você faz só pra conversa continuar. Mas a Milena fica quieta de um jeito diferente, não é a quietude de quem está pensando, é a quietude de quem chegou perto de algo que não esperava encontrar.
"Várias," ela diz, baixinho.
"Tipo?"
A Milena demora. O sol faz uma coisa nela, ilumina de lado, pega no ângulo do rosto que a deixa parecendo mais nova do que é, ou talvez mais velha. Samira nunca consegue decidir qual dos dois.
"Nunca me apaixonei," a Milena diz, e fala isso como quem declara um fato climático. Não tem peso de confissão. É só informação.
Samira sente o coração dar um tranco que ela disfarça ajustando a posição na espreguiçadeira.
"Nunca?"
"Nunca. Sempre tava trabalhando. Não tinha tempo pra essas coisas, não tinha... espaço."
A palavra espaço fica no ar entre elas como objeto. Samira a deixa existir por um momento antes de continuar.
"E já beijou?"
A Milena não responde de imediato. Samira olha pra ela, o perfil, o nariz, aquele cabelo cacheado, os cílios que ela nunca faz questão de apontar mas que existem assim, à toa, como a maioria das coisas bonitas na Milena.
"Não," a Milena diz. Baixinho. Como se dissesse uma coisa pouco importante. Como se não fosse exatamente isso.
Samira ouve isso e precisa de um segundo inteiro para não deixar o que está sentindo aparecer na cara. Ela sabe que a Milena sabe que ela sabe disso, já foi dito lá dentro antes. Ainda assim, ouvir nesse momento tem um peso diferente.
Vinte e seis anos. Uma vida inteira trabalhando para os outros, cuidando de todo mundo, sendo o ponto fixo de crianças que não eram dela. E nunca ninguém parou o suficiente pra cuidar de volta.
Samira sente aquela coisa familiar no peito, não é pena, ela odeia pena, a Milena odiaria ainda mais ser olhada com pena. É outra coisa. Mais quente. Mais inconveniente.
"Você tem medo?", Samira pergunta.
"De quê?"
"De beijar. De não saber como."
A Milena ri. Uma risada pequena, quase surpresa de si mesma. "Que pergunta, Samira."
"Não tô fazendo gracinha. Pergunto de verdade."
A Milena fica olhando pro jardim outra vez. Depois: "Talvez. Acho que qualquer coisa que você nunca fez dá um medo. Não quer fazer errado."
Samira sente a ideia surgir antes de ter tempo de avaliá-la direito. É assim que ela funciona, primeiro o impulso, depois a consideração, na maior parte das vezes tarde demais para mudar alguma coisa.
"Se você quiser praticar," ela diz, "pode praticar comigo."
Fala como brincadeira. Fala com a leveza que usa quando não quer assustar, quando sabe que se avançar demais a Milena fecha tudo e some atrás de uma piada ou de um 'vou fazer o almoço'. A leveza é estratégia. A leveza é o único idioma em que a Milena consegue ouvir certas coisas sem entrar em pânico.
A Milena olha pra ela. Samira aguenta o olhar. Não sorri demais, não desvia.
E a Milena não nega.
Não fala nada. Só olha, e o silêncio dela tem textura diferente de todos os outros silêncios, não é recusa, não é escândalo, não é aquele risinho nervoso que ela usa quando quer mudar de assunto. É apenas silêncio. A Milena deixa a frase existir sem destruí-la.
Samira sente o coração na garganta.
"Milena."
"O quê?"
"Vem cá."
∗ ∗ ∗
A Milena franze o cenho. "Ir pra onde?"
"Confia."
"Samira."
"E se for o seu último dia aqui?"
Há uma pausa. A Milena avalia, Samira consegue ver o momento exato em que ela decide, não pela expressão, mas pelos ombros, pelo jeito que a tensão migra de um ponto pro outro e desaparece.
Ela levanta.
Samira também levanta, e por um segundo ficam de pé uma de frente pra outra no jardim vazio. A Milena é menor que ela, tem esse jeito de estar no mundo que ocupa menos espaço do que deveria, como se tivesse aprendido desde cedo a não tomar muito lugar. Samira sempre fica com vontade de falar: você pode. você pode tomar mais lugar que isso.
Mas não fala. Apenas começa a andar.
A academia fica no lado externo da casa. É cercada de vidro, transparente em todos os lados, sem cortina nem véu, iluminada artificialmente mesmo durante o dia porque a luz natural não basta. Tem câmeras lá dentro como tem em todo lugar, mas a academia é de longe o espaço menos frequentado da casa. As pessoas usam de manhã cedo ou não usam. Nesta hora de tarde pesada, está completamente vazia.
"Por que aqui?", a Milena pergunta na entrada.
"Porque é o lugar mais vazio que tem agora."
A Milena olha em volta, os equipamentos, o espelho comprido na parede do fundo, aquele quadro com todos aqueles rostos, o cheiro de borracha e de ar climatizado. Ela entra.
A porta se fecha atrás delas. O som da casa some quase por completo.
Elas ficam de pé no centro da academia por um momento que parece durar tempo demais. A Milena está com os braços cruzados outra vez, aquele abraço automático que ela não percebe que faz. O espelho devolve as duas: a Samira de pé, os cabelos ainda meio bagunçados do sono, e a Milena ao lado dela, um pouco menor, um pouco mais rígida, olhando pro espelho como se estivesse tentando entender o que está fazendo ali.
Samira vê o reflexo dela e pensa: você sabe o que está fazendo aqui. É exatamente por isso que está com medo.
"Então," a Milena diz. "Como funciona."
Não é uma pergunta. É mais uma constatação de que a situação é real e que ela está disposta a continuar dentro dela, o que já é mais do que Samira esperava.
"Primeiro a gente conversa sobre isso," Samira diz, mantendo o tom leve. Didático, quase. Como se fosse mesmo instrução. "Beijo não é técnica, sabe? Mas tem coisas que ajudam."
A Milena olha pra ela com aquela expressão que significa: continua.
"Postura, por exemplo. A maioria das pessoas fica travada, tensa assim," Samira demonstra, enrigecendo os próprios ombros de propósito. "E aí fica esquisito. Tem que respirar. Tem que... deixar o corpo saber o que tá acontecendo antes da cabeça decidir."
"Você tá descrevendo como se fosse uma prova de natação."
Samira ri. A Milena também, pequena, contida, o canto da boca cedendo um pouco. A tensão baixa meia volta.
"Tô sendo pedagógica."
"Você. Pedagógica."
"Posso ser pedagógica."
"Quando?"
"Agora, por exemplo." Samira dá um passo em direção a ela. Só um. "Você pode descruzar os braços?"
A Milena olha pra baixo para os próprios braços, como se não soubesse que estavam ali. Depois, devagar, os solta. Ficam caídos ao lado do corpo. Ela parece levemente exposta assim, não de um jeito ruim, mais de um jeito que é honesto.
"Bom," Samira diz.
Dá mais um passo.
∗ ∗ ∗
A academia tem esse cheiro particular, borracha, metal, o ar circulando sem natureza nenhuma. Samira sempre achou esse lugar frio demais, mas agora ele parece certo de um jeito que ela não esperava. Neutro. Como se nada aqui pertencesse a ninguém ainda, como se pudessem fazer o que quisessem com ele sem deixar marca.
A Milena não recuou quando ela se aproximou. Isso importa.
Importa mais do que deveria, e Samira sabe disso, e sabe que sabe, e é exatamente isso que torna tudo mais complicado do que qualquer 'praticar' consegue disfarçar.
"Tô perto demais?", Samira pergunta. Pergunta de verdade.
A Milena considera. "Não."
"Pode falar se tiver."
"Eu sei que posso."
Isso é outra coisa que Samira foi aprendendo sobre ela, a Milena não fica em lugar nenhum que não queira ficar. Não por timidez, não por excesso de educação. Se quisesse ir embora, já teria ido. O fato de estar aqui, de pé no centro dessa academia de vidro com o sol da tarde chegando em ângulo oblíquo lá de fora, significa que ela quer estar aqui.
Ou pelo menos que não quer não estar.
Às vezes com a Milena é isso, o melhor que dá pra ter é a ausência de fuga. E Samira descobriu que isso é suficiente. Que é até mais precioso do que uma abertura deliberada.
"O que você mais tem medo que aconteça?", Samira pergunta.
A Milena franze o cenho levemente. "Nesse sentido?"
"Beijo. Você falou que tem medo de fazer errado. O que seria errado?"
A Milena olha pro espelho por um segundo, não pra Samira, pro reflexo. Como se fosse mais fácil responder de lado.
"Não saber o que fazer com as mãos," ela diz. "Ficar parada igual estátua. Ser rígida."
"Essas coisas acontecem com todo mundo no começo."
"Não me ajuda."
"Não era pra ajudar. Era pra você saber que não é só você."
A Milena vira o rosto de volta pra ela. Olha direto agora. "E com você aconteceu?"
"Com certeza."
"Quando?"
Samira pensa no primeiro beijo que teve, naquele internato religioso, aos quinze anos, atrás do ginásio da escola, com uma menina de cabelo preso que depois fingiram as duas que não tinha acontecido. O coração dela batendo tão forte que ela achava que a outra conseguia ouvir. As mãos que não sabiam onde ficar, que tocaram o ombro e depois o pescoço e depois ficaram paradas no ar como idiotas.
"Primeira vez que beijei alguém que importava de verdade," Samira diz. "Fiquei tão nervosa que esqueci de respirar. A menina teve que parar e perguntar se eu tava bem."
A Milena olha pra ela. Tem uma expressão que Samira não consegue catalogar direito, não é surpresa, não é curiosidade, é algo mais quieto e mais fundo.
"Menina," a Milena repete.
"Menina," Samira confirma. Não desvia.
Mais silêncio. Do bom, do tipo que não precisa ser preenchido.
"Você sabe o que eu penso sobre isso," a Milena diz por fim. Baixinho. "Sobre mim também."
"Eu sei," Samira diz. "Você falou."
A Milena fica olhando pra ela por um tempo que se alonga. Depois: "Você presta muita atenção."
"Em você, sim."
O ar entre elas tem uma densidade diferente agora. Samira sente isso na pele, no ritmo da própria respiração que ela precisa controlar conscientemente pra não deixar aparecer o quanto está afetada. A Milena está parada. Não fechou. Não abriu uma piada. Está parada, presente, olhando pra Samira com aquele olhar que é como uma mão que segura sem apertar.
"As mãos," Samira diz, voltando. Precisa voltar pra algo concreto ou vai perder o fio. "Você falou que não sabe o que fazer com as mãos."
A Milena pisca. "Sim."
"Você pode colocar aqui." Samira pega, devagar, uma das mãos da Milena, pela palma, sem segurar com força, só guiando, e leva até o próprio ombro. Deixa lá.
A mão da Milena fica no ombro dela como objeto esquecido. Depois, muito devagar, os dedos se fecham um pouco.
Samira sente isso em cada centímetro do próprio corpo.
"Ou aqui." Ela move a mão da Milena para o lado do rosto, a palma contra a própria bochecha. A mão da Milena está quente. Ela não resiste, não afasta.
"Você pode fechar os olhos se quiser," Samira diz. "Não precisa olhar pra mim se for difícil."
"Não é difícil," a Milena diz. A voz saiu mais baixa do que de costume. "Olhar pra você não é difícil."
∗ ∗ ∗
Samira pensa: não mente. Nunca mente sobre as coisas que importam. É só sobre as coisas que tem medo de querer que ela fica em silêncio.
Elas estão muito próximas agora. O ponto entre elas é quase nada, uma decisão, um centímetro, uma respiração.
"Posso?", Samira pergunta.
A Milena não responde com palavra. Fecha os olhos.
E isso, Samira percebe, é o sim mais completo que a Milena sabe dar.
O primeiro contato é suave. Samira se move devagar, dá tempo, não quer assustar, quer que seja algo que a Milena consiga segurar sem se machucar. Os lábios dela são quentes e ficam absolutamente imóveis por um segundo, como se o corpo precisasse confirmar que a informação era real antes de saber o que fazer com ela.
Então a Milena responde.
É pequeno, um movimento mínimo, quase imperceptível. Mas Samira sente porque estava esperando, porque passou semanas inteiras na pele desse tipo de atenção e sabe distinguir resistência de resposta, sabe a diferença entre corpo que tolerou e corpo que chegou.
A mão da Milena no ombro dela aperta um pouco mais.
Samira afasta. Só um pouco. Só o suficiente pra abrir espaço.
"Tá bem?", ela pergunta, baixo.
A Milena abre os olhos. Tem uma cor diferente nela agora, não exatamente vermelha, mais aquecida, como se a temperatura interna tivesse subido um grau. Ela olha pra Samira com uma expressão que não tem nome fácil.
"Tô," ela diz.
"Boa?"
A Milena faz aquele som pequeno pelo nariz. "Samira."
"Perguntei de verdade."
"Eu sei."
Um silêncio. O tipo que não precisa ser preenchido mas que elas preenchem assim mesmo, com o próprio peso de estar ali.
"Você falou que eram as mãos," a Milena diz por fim. "Que não sabia o que fazer com as mãos."
Samira pisca. "Falei de mim. De quando eu era nova nisso."
"Mas você disse que pode colocar aqui." A mão da Milena sobe, devagar, cada centímetro uma decisão, e pousa no lado do rosto de Samira. A palma dela está quente. "Eu posso colocar aqui?"
A voz saiu quase sem som. Pergunta genuína. Milena pedindo permissão para algo que ela mesma iniciou, porque é desse jeito com ela, mesmo quando abre, confirma, pede licença, precisa saber que pode.
"Pode," Samira diz. Não reconhece a própria voz. "Pode sempre."
A mão da Milena fica ali. Firme. Os dedos não tremem.
E aí a Milena se aproxima.
Desta vez é ela que inicia.
Não é o beijo de alguém que nunca beijou, ou talvez seja exatamente isso, exatamente a honestidade de quem não tem hábito e por isso não tem performance, que beija como respira, com o mesmo cuidado involuntário que coloca em cada coisa que faz sem querer que ninguém note. A Milena não sabe que é bela fazendo isso. Nunca soube de nenhuma das coisas belas que faz.
Samira coloca uma mão na nuca dela, leve, só presença, sem prender. A Milena não recua. A Milena inclina a cabeça e aprofunda um pouco, como quem descobriu uma técnica por conta própria e decide testá-la no mesmo instante em que a formula.
Samira pensa: Uma vida inteira chegando até aqui. e eu sou a primeira.
Não como orgulho. Como responsabilidade. Como algo sagrado que não escolheu ser sagrado mas que é assim mesmo.
Elas param. Ficam de testa com testa por um segundo. A Milena está de olhos fechados, respirando devagar.
"Samira."
"Hm?"
"Para de sorrir."
"Não tô sorrindo."
"Tá."
"Tô um pouco."
A Milena abre os olhos. Olha pra ela de perto, de uma distância que ninguém mais viu a Milena permitir, provavelmente. Tem algo em aberto no rosto dela que Samira nunca tinha visto antes: não exatamente alegria, não exatamente medo. É aquela coisa que fica quando você tira a armadura e ainda não sabe se o terreno é seguro mas decide ficar de pé mesmo assim.
"Achei que ia ser mais estranho," a Milena diz.
"Não foi estranho?"
"Não foi estranho."
Samira quer perguntar mil coisas. Quer perguntar o que ela está sentindo, se o coração dela está tão fora do ritmo quanto o seu, se ela entende o que isso significa, se quer continuar entendendo. Mas não pergunta nada disso porque sabe que a Milena só consegue chegar num lugar de cada vez, e ela já chegou longe hoje.
Por enquanto, o suficiente é esse, as duas de testa com testa, na academia de vidro de um reality show em uma tarde de terça-feira, enquanto o resto da casa dorme.
∗ ∗ ∗
O tempo dentro da academia tem uma qualidade suspensa. As câmeras estão lá, claro, sempre estão. Mas as duas pararam de pensar nisso em algum momento. Não foi uma decisão; foi um esquecimento gradual, como quando você para de ouvir o ar-condicionado porque ele sempre está lá.
Elas sentam no banco comprido perto da parede, não onde estavam antes, um pouco mais distantes, o espaço de segurança reinstalado naturalmente. Mas as mãos delas ficam no banco entre elas, perto demais pra ser acidental.
A Milena está olhando pro próprio reflexo no espelho do fundo. Tem esse jeito dela de olhar pra si mesma como se estivesse tentando identificar a pessoa que vê, não com desgosto, não com aprovação, com aquela neutralidade séria de quem faz inventário.
"Você pensa muito," Samira diz.
"Eu sempre penso muito."
"Você pensa sobre o que acabou de acontecer?"
A Milena considera. "Não da forma que você acha."
"Como você acha que eu acho?"
"Que eu tô arrependida ou confusa ou assustada."
"E não tá?"
A Milena vira o rosto pra ela. Olha direto. "Não. Não tô arrependida. Tô... processando. É diferente."
Samira assente. Deixa o processamento existir. É capaz de ficar quieta quando precisa, não é seu estado natural, mas com a Milena aprendeu que silêncio às vezes é o maior presente que você pode dar.
"Você já tinha feito isso antes?", a Milena pergunta. "Com alguém... assim. Aqui dentro."
"Não."
"Por que eu?"
Samira olha pra ela. A pergunta é tão direta que precisa de uma resposta direta, a Milena não aguenta evasiva, é a pessoa menos compatível com evasiva que Samira já conheceu.
"Porque desde o primeiro dia você era a única pessoa nessa casa que eu queria perto de verdade. Não por estratégia. Não pelo jogo."
A Milena não responde de imediato. Fica olhando pra Samira com aquela expressão que parece avaliação mas que Samira já aprendeu a ler diferente, não é julgamento, é a Milena guardando uma coisa em lugar seguro dentro dela.
"Você lembra que teve uma fase que a gente mal se falava?", a Milena diz.
"Lembro."
"Você sabe por que aquilo aconteceu?"
"Você forçou."
A Milena pisca. "Você sabia naquele momento?"
"Sabia que não era natural. Você não é do tipo que afasta pessoa sem motivo."
"O motivo era você," a Milena diz. "Era que se você ficasse perto eu não conseguia guardar nada direito. Você é um buraco no meu plano."
Samira sente uma coisa esquentar no centro do peito. "Isso é a coisa mais bonita que já me disseram."
"Não era elogio."
"Eu sei. Ainda assim."
A Milena olha pra ela por um longo tempo. Depois, muito devagar, como quem atravessa uma linha que sabe que não vai conseguir apagar depois, ela move a mão no banco e deixa os dedos tocar os de Samira. Não agarra. Só toca. A ponta dos dedos encontrando a ponta dos dedos.
Samira não se move. Mal respira.
"Eu nunca soube direito o que fazer com você," a Milena diz. "Ainda não sei. Mas não acho que é pecado."
Samira engole alguma coisa que subiu sem aviso. "Não é."
"Você acredita nisso."
"Eu tenho certeza."
"Eu não sei..." a Milena diz. E depois: "Obrigada. Por... por tudo hoje. Por ter tido paciência."
"Você nunca foi trabalho, Milena."
"Eu sempre sou trabalho."
"Não pra mim."
A Milena franze o cenho levemente, aquele frênzio que ela faz quando recebe um elogio e não sabe onde colocar. Desvia o olhar, olha pro espelho, olha pro chão. A mão dela não sai dos dedos de Samira.
∗ ∗ ∗
Elas não falam sobre o que aquilo significa. Samira não pergunta, a Milena não oferece. Existe um acordo tácito de que nomear agora seria forçar uma forma num objeto que ainda está sendo moldado, e nenhuma das duas quer ser responsável por forçar.
Ficam ali. O banco é duro mas elas não reclamam. Samira conta uma história sobre o Lindolfo, a primeira semana depois que o resgatou, quando ele latia pra tudo e destruiu dois pares de sapato e ela amou ele com mais força a cada coisa destruída. A Milena escuta sem interromper, com aquela atenção dela que é física, que você sente no jeito que ela para completamente quando está ouvindo alguém de verdade.
"Você vai ver ele quando sair daqui," a Milena diz.
"Vou. Você vai ver...", Samira começa, e aí para. "O que você vai ver quando sair?"
A Milena pensa. "Espero que minha irmã, minha mãe e as crianças."
"As crianças, elas sabiam que você viria pra cá?"
"Sabiam. Umas ficaram bravas comigo." A Milena sorri, de verdade, agora, um sorriso que vai até os olhos. "Disseram que iam me votar fora pra eu voltar logo."
Samira ri. É uma coisa simples, essa imagem, crianças pequenas com celular votando pra eliminar a tia preferida. Mas tem algo nela que aperta de um jeito bom.
"Você é boa nisso," Samira diz. "Em ser a pessoa que as crianças ficam esperando na porta."
"É o que sei fazer."
"É mais do que isso."
A Milena olha pra ela com aquele olhar oblíquo, de lado, que ela usa quando não quer deixar aparecer que algo chegou. "Você fica me elogiando."
"Você fica merecendo."
"Para."
"Não paro."
A Milena suspira. Mas a mão não sai.
O sol lá fora mudou de ângulo, já não entra na academia da mesma forma, ficou mais amarelo, mais horizontal, o tipo de luz que significa que o dia está descendo para outra parte de si mesmo. Alguém vai acordar logo. O Tadeu vai aparecer. O paredão vai acontecer.
Por ora, nenhuma das duas se move.
"Você realmente acha que eu fico?", a Milena pergunta. Não é mais sobre estratégia agora. É outra coisa.
"Acho," Samira diz. "Mas mesmo que não fique..."
Ela para. Milena espera.
"Mesmo que não fique, isso aqui aconteceu," Samira conclui. "Ninguém tira isso."
A Milena olha pra ela por um tempo longo. Depois: "Você é muito dramática, você sabe disso?"
"Completamente."
"É irritante."
"Totalmente."
"Você poderia ser menos."
"Mas aí não seria eu."
A Milena para. Olha pra ela. "Não," ela diz. "Não seria."
E Samira entende que isso não é reclamação.
∗ ∗ ∗
A voz vem do alto-falante com aquela qualidade de anúncio de aeroporto, neutra, ligeiramente mecânica, perfeitamente incapaz de sentir o que está interrompendo:
"Atenção: evento em instantes. Todos para a sala."
As duas ficam imóveis por um segundo.
Depois a Milena solta um ar comprido, lento, como se estivesse descomprimindo alguma coisa que tinha ficado presa. Seus dedos soltam os de Samira. Ela levanta, olha pro espelho uma última vez, acerta o cabelo com a mão.
Samira levanta também.
"Pronta?", Samira pergunta.
A Milena olha pra ela. "Não. Mas vou assim mesmo."
"Isso é o suficiente."
A Milena vai até a porta. Abre. O som da casa volta, vozes lá dentro, passos apressados, o movimento coletivo de quem acabou de acordar com propósito. O ar de fora da academia tem cheiro diferente, mais vivo, mais denso de outras pessoas.
Elas caminham pelo corredor lado a lado. A casa está em movimento ao fundo, luzes acesas, gente se arrumando, o espelho do corredor sendo disputado. Ninguém notou que elas sumiram ou, se notou, não foi longe o suficiente pra investigar.
No meio do caminho entre a academia e a entrada da casa, Samira sente algo tocar o dorso da mão.
Ela olha pra baixo.
A mão da Milena está ao lado da dela. Os dedos dela encontram os de Samira, não agarram, não seguram com força, só tocam, só confirmam que o outro corpo está ali. A mesma coisa que a Milena fez no banco, mas agora do lado de fora, no corredor onde qualquer um poderia ver, onde as câmeras estão e o mundo existe além delas.
Samira retribui o toque. Envolve os dedos da Milena com os seus, leve, sem apertar.
Elas continuam andando.
Não se olham. Não precisam.
∗ ∗ ∗
A casa as engole de volta com sua lógica de barulho e câmeras e paredão que vai acontecer daqui a pouco. A produção chama. Alguém pergunta onde elas estavam. Alguém nota que a Milena está com o cabelo diferente e faz uma piada sobre o vento. A Milena responde com a voz normal, o rosto normal, a Milena-de-sempre.
Mas quando senta com Samira naquele sofá cheio, deixa o braço roçar o dela. Só isso.
Só isso, e é o mundo inteiro.
