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i shouldn’t crave this (yet i do)

Summary:

O pesadelo acabou. Hawkins está se reconstruindo. Dustin, Lucas, Mike, Will, Max e Jane são convidados à festa de formatura da Stacey e podem agir como adolescentes normais pela primeira vez em muito tempo: dançar, beber e tomar decisões das quais vão se arrepender na manhã seguinte. Will Byers, que não parece ser a mesma pessoa de horas antes, aparece com uma marca avermelhada logo abaixo da mandíbula. Marca da qual Mike Wheeler quer se livrar com próprios dentes.

ou

Will ganha um chupão e Mike enlouquece.

Notes:

Oioi! Essa é a minha primeira fanfic nesse site e espero estar fazendo um bom trabalho. Sugestões e correções são muito bem-vindas sempre! Perdoem os erros de gramática e coerência, sou principiante na escrita. Encontrei muito conforto nas milhares de fanfics que li por aqui depois de quase enlouquecer com o final de Stranger Things, e então decidi escrever algumas ideias que tive. Espero que apreciem!

Chapter 1: Fire in My Heart

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

 

O portal pulsa como uma ferida recém aberta. Não é só a luz vermelha ofuscante ou a brisa gélida que grunhia em uma frequência inaudível, mas a pressão esmagadora que dobra o ar e faz Hawkins parecer pequena demais para o que aconteceu ali dentro. 

 

A batalha final foi tão aterrorizante quanto o esperado. Enquanto o grupo desestabilizava o Devorador de Mentes com tiros e bugigangas caseiras, Will e El travavam uma guerra mental direta com o próprio Vecna. O garoto enfraquecia Henry durante a briga com Eleven, o impedindo de usar a parte de seus poderes que foram divididos com ele e fazendo com que os ataques da irmã fossem vezes mais efetivos. Mesmo assim, os dois foram drenados à exaustão. A ajuda do grupo foi significativa na medida do possível, já que a criatura composta de material interdimensional quase não reagia a golpes físicos comuns. Robin, Steve e Jonathan lançavam garrafas explosivas enquanto Nancy e Hopper manuseavam armas como soldados treinados, afastando todas as variantes de Demogorgon do resto do pessoal. Lucas e Dustin botaram para jogo uma das invenções mirabolantes de Dustin, uma espécie de dardo que enviava descargas elétricas de alta tensão. Essas surtiram maior efeito. Mike permaneceu ao lado do corpo físico de Will do início ao fim, segurando a ânsia de vômito quando os olhos esbranquiçados e as feições normalmente tão serenas dele reagiam a dor incessante. Foi preciso muito estômago para assistir Will gritar e contorcer, sentindo cada ataque dos amigos direcionado ao enorme monstro devido a Mente Coletiva enquanto lutava para controlar os poderes recém adquiridos. Mike tremia incontrolavelmente, mal respirando, como se alguém estivesse esmagando seu coração com as duas mãos. Foi uma tortura observar Will ser torturado. Ele nunca se sentiu tão impotente. Tudo que podia fazer era permanecer ali e o manter no lugar, sussurrando — mais para si próprio que para Will — que tudo ficaria bem e que a dor iria passar logo. Que ele não iria morrer. Ele não podia morrer. 

 

Steve segura o pulso de Dustin enquanto é puxado para fora do caminhão. Jonathan e Nancy mantêm as mãos entrelaçadas enquanto ela grita algo sobre não ousarem tocar nas crianças. Os militares ignoravam qualquer apelo, avançando violentamente sobre o grupo enquanto rosnavam ordens e solicitavam reforços que os cercavam em carros blindados. Hopper se posiciona em frente a Joyce como um urso, apesar de desarmado, impedindo a aproximação de qualquer soldado. Ela, por sua vez, apertava Will e Jane em seus braços, estabilizando seus corpos no lugar. Lucas suspirava aliviado, com as mãos fixas sobre a cabeça.

 

Eles conseguiram. Eles atravessaram o portal vivos e, porra, derrotaram o Vecna.

 

Quando a agulha que risca ‘When Doves Cry’ atingir a espada do bravo paladino, todo o Mundo Invertido será reduzido às cinzas de um pesadelo distante. Daqueles que te fazem acordar com os lençóis molhados de suor e gritando pela sua mãe, mas nada reais.

 

Eles ainda teriam muito que enfrentar após a explosão. Burocracias super-entediantes que envolvem uma série de acordos de sigilo e interrogatórios sem fim, provavelmente. Na melhor das hipóteses, uma babá-soldado para acompanhar cada um deles até o túmulo. Afinal, é um grupo de adolescentes que sabem demais, viram demais, se envolveram demais. E ainda tinha Eleven, a garota com super poderes que despertava muito o interesse da Dra. Kay e sua equipe de cientistas lunáticos.

 

Mas nada disso importa agora. 

 

Mike sente a adrenalina queimar seus sentidos a ponto de o fazer gargalhar histericamente enquanto um militar pressiona um fuzil em suas costas, o rosto colado na lataria do caminhão. Robin e Steve — que de alguma maneira se encontraram em meio ao caos e igualmente prensados no veículo — acompanhavam com risadas ainda mais histéricas, fazendo Dustin reclamar de más lembranças com sorveteiros drogados. 

 

‘Nós vencemos. Estamos todos bem. Porra, nós vencemos.’ 

 

Ele repetia reafirmações para se manter são. Dessa vez era definitivo. Dessa vez, ele poderia voltar para casa, tomar um banho quente e dormir na sua cama de infância sem temer pelos próximos passos de um monstro interdimensional. Poderia reunir seus amigos no seu porão e jogar Dungeons and Dragons por horas como antigamente. Ou fazer festas do pijama e sessões de filme. Poderia conversar com Will. Uma conversa de verdade, dessa vez. Poderia finalmente se desculpar por ser um péssimo amigo. Por ter dito aquelas palavras. Perguntar o porquê ele estava chorando na vã e se desculpar por ter fingido não perceber. Consertar as coisas entre eles. Mike encontra os olhos do garoto entre a multidão agitada, cansados e doloridos, mas inundados por uma doçura que ele conhece tão bem. Uma cumplicidade reservada a eles e apenas a eles. Deus, ele sente que vai enlouquecer, perdido naquele rosto de maneira nada discreta. O aperto do cano metálico em suas costas se torna sufocante. Tudo que Mike consegue fazer é desejar às estrelas refletidas nos olhos de Will que eles enlouqueçam juntos. 

 

 

 

 

O céu estava claro e a brisa cheirava ao início do verão. Mike segura o programa da formatura como se fosse um mapa. Os nomes impressos ali parecem normais. Permanentes. Autorizados a existir. Ele ainda não estava completamente acostumado com isso. A normalidade. Faz dezoito meses desde que o Vecna ou Henry ou Um ou Senhor Fulano — como ter tantos nomes não causou uma crise de identidade? — foi derrotado. Que eles explodiram o Mundo Invertido e destruíram todos os monstros que vagavam por lá. Pouco mais de um ano desde o fim do surto apocalíptico interdimensional e tudo já estava completamente diferente. O vento passava despreocupado pelo gramado muito verde da escola, balançando as folhas das árvores. Hawkins seguiu em frente. É o dia da formatura. O grupo finalmente termina o ensino médio depois de recuperar o tempo perdido durante os confinamentos por “abalos sísmicos” e poluição do ar. É desconfortante pensar que ninguém além deles sabe o que realmente aconteceu naquela cidade minúscula. Mike não consegue decidir o que o irrita mais: as hipóteses científicas sem fundamento algum, as desculpas esfarrapadas do exército ou as teorias da conspiração sobre aliens, demônios e maldições. 

 

Eles estão espalhados pelas cadeiras distribuídas no campo externo, cercados por dezenas de outros estudantes. Os antigos membros do Hellfire permanecem juntos nos fundos. O time de basquete ainda parece transtornado, especialmente o capitão. Eddie provavelmente apavorou os ossos deles. O pensamento faz Mike sorrir ironicamente. Em uma das fileiras do meio, Max e Jane cochicham algo sobre as roupas patéticas fazerem todos parecerem laranjas. Ou abóboras. Bem na frente, Dustin bombardeia Lucas com seu nervosismo. Afinal, ser o orador da turma e estar prestes a causar um escândalo é um tanto amedrontador. Na arquibancada, Steve e Robin aplaudem dramaticamente, como se o grupo estivesse a segundos de ganhar um Nobel. Os Sinclair conversam com a sr. Henderson enquanto a mãe de Mike discute animadamente com a sra. Byers e Hopper sobre o casamento. Nancy e Jonathan estão perdidos um no outro, nas nuvens desde que assumiram o noivado. A ausência de seu pai é incômoda, mas não estranha. Mesmo que ele tivesse se recuperado e recebido alta, ele só estaria ali fisicamente. Ted Wheeler sempre foi assim. Presente e ausente ao mesmo tempo. Quase discreto demais para chamar atenção, está Dr. Sam Owens. Terno simples e postura de quem já foi mais importante. Ou mais culpado. Ele não olha para ninguém por muito tempo. Só observa. 

 

Mike lembra de uma das noites em que dormiu na cabana após a destruição do Mundo Invertido, quando ele e a sra. Byers se recusaram a deixar Will sozinho por um segundo que fosse e se revezaram em turnos ao lado dele. Os adultos estavam fazendo acordo atrás de acordo com o governo americano e Hopper voltou mais tarde do que o normal do laboratório de Hawkins. Lembra da conversa abafada na pequena cozinha sobre uma das reuniões com Owens, na qual Mike e Will se esgueiraram para ouvir palavras como “encerrado”, “transferência de arquivos”, “classificação permanente”. Lembra do silêncio depois. Ninguém anunciou nada oficialmente. Apenas uma mudança quase invisível: homens que não aparecem mais, telefones que não tocam, portas que deixam de ser vigiadas. El livre para ser Jane Hopper, longe de militares e cientistas loucos. Mike guarda uma certa implicância silenciosa com esse homem pela forma que ele tratou Will quando eram crianças. Como um experimento, um aparelho de testes ao invés de um paciente. Como insinuava que tudo estava apenas na cabeça dele e nada era real. Mas era real. Muito real. Apesar disso, Mike não podia ignorar o que ele fez por El. Por Jane. Mesmo que eles tenham terminado logo após voltar para Hawkins, eles se importam muito um com o outro. Ver ela feliz, superando seu passado e descobrindo quem ela é além de seus poderes — e dele — é incrível. 

 

Bem ao lado dele, na segunda fileira, Will fita todo o espaço com os olhos brilhantes. Ele sorri incansavelmente um sorriso radiante e cheio de dentes. Mike luta contra o instinto de encarar, desviando o olhar para qualquer outra coisa. A relação deles estava estranha a um bom tempo. Desde aquela briga estúpida na chuva quando Mike falou…aquilo, Will parece pisar em ovos perto dele. Pensar muito antes de falar ou agir. Para completar, ele não escreveu nem ligou nenhuma vez mesmo depois de Will garantir que não substituiria o grupo E foi um completo idiota em Lenora. Mike absolutamente se odeia por isso. 

 

Principalmente porque, mesmo depois de tudo, Will ainda olha para ele com os mesmo olhos cheios de admiração e carinho. Porque, mesmo depois de tudo, ele achou que Mike merecia saber do seu maior segredo tanto quanto a sra. Byers e Jonathan. Se odeia por não conseguir perguntar quem é a “Tammy” de Will. O que diabos é uma Tammy. E ainda mais por temer que não seja ele. Ou que seja ele. As duas opções são aterrorizantes. Faz um tempo que Mike começou a…reparar mais. A pensar e repensar. E, pior, a imaginar. As imaginações dele estavam atravessando limites inesperados e isso estava deixando ele louco. Will esbarra o ombro sobre o de Mike, o despertando de seu transe.

“Dustin vai subir no palco. Você tá bem?”

Mike limpa a garganta e se endireita na cadeira, tentando não reparar muito no tom preocupado na voz do melhor amigo.

“Sim, claro. Eu- eu só me distraí. Tudo certo.”

Will concorda com a cabeça e eles levantam para aplaudir o amigo, prestes a matar o diretor de vergonha. 

 

 

A casa de Stacey, grande ao ponto de parecer deslocada em uma cidade tão pequena, vibra com passos, risadas e o grave insistente que faz o carpete tremer levemente sob os tênis. A música que ecoava das caixas de som pulsava pelas paredes e podia ser ouvida do jardim. Na sala de estar, as luzes principais estão apagadas. Abajures espalham um brilho âmbar que mistura sombras nos cantos, enquanto fios de luzes coloridas espalhados pelo teto criam uma atmosfera neon. O sofá parece um território disputado, lotado até os braços, e pessoas dançam por toda parte com seus copos vermelhos em mãos. Na cozinha, a claridade é mais cruel. A luz branca revela refrigerante derramado na bancada e um grande bowl de ponche onde o gelo já começa a derreter. Risadas ecoam mais altas ali e conversas se cruzam abafadas. 

 

Mike nunca esteve em uma festa assim antes. Nenhum de seus amigos esteve, para ser sincero. Eles passaram a vida inteira sendo considerados esquisitões, aberrações e adoradores do diabo, por isso nunca foram convidados para nada. Não até Stacey se encantar com a performance irada de Dustin como orador da turma e convidar ele e seus amigos para a festa de formatura dela. Isso explica o porque todos se dedicaram mais que o normal nas roupas, apostando em acessórios e maquiagem. Jane e Max tinham as pálpebras brilhantes e os lábios pintados, Lucas usava correntes e um jersey novo enquanto Dustin parecia ter saído de um comercial de xampu. O próprio Mike tinha feito esforço para se adequar ao ambiente: usava uma camiseta preta recém comprada por baixo de uma jaqueta de couro nunca usada, sua calça menos surrada e até um cinto de espinhos. Foi o melhor que pode fazer e rendeu um elogio de Steve, então ele está no caminho certo. 

 

Apesar de tudo, nenhum deles parecia pertencer tanto ao lugar quanto Will. Nem de longe. 

 

Ele ficou indisponível a tarde inteira, praticamente desaparecendo com Robin e Nancy por horas. O que fez sentido assim que Will encontrou os outros no portão de Stacey há alguns minutos atrás. Quando ele saiu do carro de Jonathan, se desculpando pelo atraso, Mike sentiu as pernas vacilarem. Ele ficou boquiaberto por tanto tempo, tentando pensar em algum elogio à altura da visão que não o fizesse parecer tão pateticamente desnorteado, que Max teve que o trazer de volta à realidade. O grupo inteiro pareceu chocado e com todo o direito. Will assumia um novo corte de cabelo, saindo do bom e familiar bowl cut para um mullet curto que fazia seu rosto parecer  mais maduro, além de ter furado a orelha esquerda, ainda um pouco vermelha ao redor de onde pendia uma mini argola prateada simples. Até a camiseta de banda e a jaqueta preta surrada — que ele provavelmente pegou do irmão mais velho — parecia espetacular demais nele. Era como se Nancy e Robin tivessem conspirado e o substituído por um dos atores de The Lost Boys. 

 

Will estava surreal. Irreal. Como um ser místico que não deveria coexistir com meros mortais. Um feiticeiro. Foi como se Mike tivesse voltado no tempo, repetindo o momento em que ele o salvou do Demogorgon. Os olhos deles presos um no outro. Tudo ao redor era um grande borrão e Will parecia um sonho após uma série de pesadelos. Jane brincou com o cabelo picotado de Will, sentindo a rebeldia dos fios com os dedos. Dustin reclamou que estava procurando a pessoa errada para transformações todo esse tempo, o que fez Lucas rir de doer o estômago. Mike lutou para manter a boca fechada, desviando o olhar a cada dez segundos para evitar ser pego encarando descaradamente. Só depois de uma longa sessão de elogios, que fez Will enrubescer do queixo às orelhas, o grupo se dirigiu à casa. Max agarrou os pulsos dos dois irmãos, os arrastando para o meio da multidão e desaparecendo entre um mar agitado de pessoas e luzes piscantes. Os que ficaram para trás logo encontraram um lugar na cozinha para começar a noite. 

 

 “Somos só nós três agora.”

Lucas diz, afundando um copo vermelho dentro do ponche vibrante demais para ser inofensivo e estendendo para Mike. Ele aceita e se arrepende imediatamente, tomando um gole longo que o faz engasgar e tossir incontrolavelmente.

“Que merda é essa? Ela quer matar a gente?”

Dustin ri e Lucas enche mais dois copos. Uma sensação desconfortável queima pela garganta de Mike. O gosto de refrigerante de cereja misturado a algum tipo de álcool exageradamente forte não combinam nada na boca. Ele a limpa com as costas da mão. Essa é a primeira vez que eles têm a oportunidade de serem adolescentes normais. Ir a festas, beber e tomar decisões idiotas das quais vão se arrepender na manhã seguinte. Sem monstros interdimensionais, portais para mundos alternativos, gênios do mal obcecados por relógios e definitivamente sem pensamentos estranhos com a imagem de seu melhor amigo dançando no cômodo ao lado. Ele toma mais um gole, dessa vez bem menos dramático, sem desviar o olhar. Dustin aparentemente não está mais na cozinha, atrás de alguma garota para flertar.

 

“Ele tá bem diferente. Sabe, depois de tudo. Não parece, tipo, o nosso Will.”

Lucas solta uma risada entre goles, como se tivesse acabado de ler a mente de Mike. O Will que eles conhecem, que tenta ser invisível ou se camuflar no cenário, que pensa muito sobre qualquer coisa e dificilmente está confortável ao redor de estranhos, não se parece nada com o cara dançando como se o mundo fosse acabar a alguns metros deles. Ele parece muito mais confiante, livre e, porra, super atraente com um sinalizador de artificio queimando entredentes e um copo de plástico na mão. The Cure ecoa pela sala. Will pula com Max e Jane pelo carpete acompanhando o ritmo da música, interagindo com desconhecidos eufóricos até ser erguido e colocado sobre o ombro de um outro cara, derrubando um pouco da bebida. Mesmo parecendo surpreso, a nova compostura não vacila enquanto pessoas gritam e vibram como se ele fosse algum tipo de atração da festa. 

 

Mike já está no quinto ou sexto copo. Nem ideia. Ele deduz pelo embaçar dos sentidos, pela leveza do corpo que parece flutuar e pela urgência de arrancar Will daqueles braços. Quem aquele cara pensa que é? Um “parceiro de festa” ou alguma merda do tipo? Até parece. Eles nem são próximos e Will não é uma criança para ser erguido assim. Todo esse contato físico com um estranho deve estar o deixando incomodado. Talvez Mike devesse realmente o tirar de lá. Se livrar daquele maldito brinco e implorar para que ele volte a usar o corte de tigela. Segurar aquele rosto impecável mesmo suado e avermelhado com as duas mãos, o impedindo de desviar o olhar. Tirar o sinalizador da boca de Will com a dele. 

 

Oh.

 

Oh.

 

Puta merda. Mike quer beijar Will. Mike Wheeler quer beijar Will Byers. Seu melhor amigo de infância. O Will dele. Quem quer que seja esse novo Will. Toda e qualquer versão dele. 

 

A realização o atinge como um soco no estômago e ele sente todo o álcool subir o caminho para o cérebro. Não é a primeira vez. Não é a primeira vez que ele imagina Will próximo o suficiente de seu rosto para sentir sua respiração. Não é a primeira vez que ele imagina o sabor dos lábios dele. Não é a primeira vez que ele imagina Will dizendo que precisa dele. Não é a primeira vez que ele se imagina convidando Will para subir em sua cama durante as noites do pijama. Ele enterrou todos esses pensamentos confusos e desconcertantes nas partes mais profundas e inacessíveis de sua mente. Mike fez de tudo para que seus desejos mais sombrios nunca, jamais vissem a luz do dia. Mas foi preciso só um pouco de bebida e um brinco idiota para eles voltarem dos mortos mais vivos do que nunca. 

 

E Mike se lembra de tudo. 

 

De como Mike sempre deu mais atenção a Will que aos outros. De como sua voz suaviza ao falar com ele. De como seu estômago dói quando eles brigam. Como a ausência de Will o incomodava mais que a de sua namorada. De como ele não conseguiu escrever ou ligar depois que reconheceu isso. De como dizer que amava El parecia errado. De como o abraçar no aeroporto foi difícil. De como ele sempre foi atraído pelo melhor amigo como cargas negativa e positiva. Como satélite natural e planeta. De como as opiniões de Will sobre as campanhas dele sempre importam mais. De como ele se sentiu aliviado quando descobriu que Will mentiu sobre a pintura. Que não foi comissionado por El. Que não havia nenhuma garota em Lenora. Que ele sequer gostava de garotas. Da esperança que sentiu quando soube da “Tammy”. Da dor que o preencheu logo em seguida com a possibilidade de não ser ele. Ou de ser ele e Will já ter superado e seguido em frente. De como ele desejou ter morrido ao lado de Will quando seu corpo foi retirado do Lago dos Amantes. 

 

“Tudo bem ai, cara?”

Lucas toca o ombro de Mike, parecendo tão bêbado quanto ele.

“Seu rosto tá, tipo, muito pálido. Mais que o normal. Você viu alguma coisa? A gente precisa ir atrás das nossas fantasias de Os Caça-Fantasmas?”

Ele ri da própria piada, mesmo que Mike continue sério. Rígido. 

“Puta merda.”

É tudo que ele consegue dizer. O amigo parece prestes a perguntar algo quando Max e Jane surgem na cozinha de braços dados, pescoços suados e cabelos uma bagunça. Lucas enrosca os braços no quadril de Max e a puxa para perto antes de começarem a trocar sussurros e sorrisos nojentos como recém-casados. Jane, que estava rindo da cena melosa, para assim que os olhos encontram os de Mike. Ela contorna o balcão, se colocando ao seu lado.

“Mike? Tá tudo bem?” 

Como responder a isso sem parecer um idiota afundando na própria bagunça cerebral? ‘Sim, El, claro. Por que não estaria?’ ou algo parecido não a convenceria. Ela o conhece bem o suficiente para perceber a mentira no instante em que sair de seus lábios. E amigos não mentem. Mesmo que ele não tenha sido nada fiel a essa regra antes, prometeram ser sinceros um com o outro sempre. Mas El também é sua ex. E Mike não vai assumir para sua ex que precisa desesperadamente beijar o irmão dela. Ou qualquer outra de suas fantasias. Nunca. Sem chance. Ele precisa de um meio termo.

“Eu não sei.”

Ele diz finalmente, e é verdade. Mike não faz a mais vaga ideia.

“Eu acho- Talvez eu queira muito fazer algo que eu não possa fazer. Quer dizer, até possa, se conseguir ficar bêbado o suficiente para desmaiar logo em seguida e- Enfim, eu não posso fazer. E eu não deveria querer fazer. É estúpido e estranho e repulsivo e destruiria tudo. Mas parece ter algum diabinho no meu ombro, sabe? Como os dos cartoons e quadrinhos. Tenho quase certeza de que eles aparecem em alguns filmes também. Não importa. O que quer que seja essa voz dentro de mim diz que vai ser a coisa mais incrível que eu vou experienciar na merda da minha vida inteira. Mas- Eu não posso. Isso não é normal, El. Deve ter alguma coisa errada comigo. Eu não deveria, mas eu quero. Eu acho que nunca quis tanto-“

“Mike!”

Jane corta o monólogo, pousando a mão cheia de anéis coloridos no ombro do garoto. Ele relaxa no conforto do gesto e consegue soltar o ar que não sabia estar prendendo. Isso é patético. Ele se sente patético, perdido, idiota. Errado.  

“Devagar. Eu não consegui identificar o que tá te incomodando. Nem entender, na verdade. Se você quer tanto fazer algo, porque só não faz?”

A pergunta é tão inocente que o faz se arrepender de ter falado tanto. El não sabe. Se ela soubesse, não teria dúvidas. Ela imediatamente acharia uma televisão ou rádio, vendaria os olhos e invadiria sua mente para consertar o que quer que esteja errado lá dentro. O que, pensando bem, parece uma ótima ideia. Promissora, até. Talvez ele deva realmente pedir para que ela faça isso. Alguns passeios por suas memórias e essas fantasias desapareceriam de uma vez por todas. Mas isso significa El dentro da sua mente, com todas as insanidades que ela anda imaginando. Só a possibilidade disso acontecer faz Mike arrepiar por completo. Péssima ideia. Sem chance. Sua respiração está pesada e o copo de bebida vibrante treme em sua mão esquerda, quase vazio.

 

Só então ele repara que algo está faltando. Alguém, na verdade.

“Cadê o Will?”

Ele não estava mais pulando com a multidão na pista de dança improvisada. Não havia sinal algum de seu mullet castanho perfeitamente desalinhando ou de seu sinalizador de festas vermelho. Nem de seu rosto corado e olhos esverdeados. Nada. Jane parecia insatisfeita com o desvio da pergunta, mas responde mesmo assim: ”Will conheceu um garoto. Acho que estão no quintal. Ele disse que demoraria um pouco mas que não tínhamos que nos preocupar.” Mike se desprende do balcão em um movimento tão rápido que faz sua cabeça girar, lutando para se manter de pé diante da garota. Isso não faz nenhum sentido. Nada está fazendo sentido agora. Que garoto? O idiota grandalhão que o levantou no ar? Ridículo. Por que ele demoraria? Will não tem nada para falar com esse tipo de cara. Ele sente uma pontada no peito que o deixa tonto.

“O que ele foi fazer no quintal com um desconhecido? Colocar o papo em dia?”

A reação de Mike faz surgir uma careta no rosto suave de Jane, sua confusão cada vez mais evidente.

“Eu não sei, Mike. Max disse que eles estavam flertando.”

 

O estômago de Mike se move de maneira estranha e ele sente o intestino se amarrar em nós. Mais uma vez, a bebida ultra-alcóolica de cereja sobe a garganta ao ponto de quase sair por onde entrou. Max é uma ignorante que só fala merda, disso ele sabe. Ela está sempre deduzindo coisas sobre todo mundo como se fosse dona da razão. Foi por isso que ele parou de pedir conselhos a ela. Não é porque o Will assumiu que é… que gosta de garotos que ele estava flertando com um. Ou está, nesse exato momento, no quintal. Ele pode simplesmente estar fazendo novos amigos. Amigos como Dustin e Lucas. E como ele, obviamente. Amigos. Mike e Will são amigos. Melhores amigos. E daí que Will gosta de garotos? Ele ainda é o Will do Mike, que ama DnD, filmes de terror e bandas barulhentas. Mesmo que ele esteja um pouco… diferente, ainda é o Will e não flertaria com qualquer um. Desde quando ele sabe flertar? Ele provavelmente só revira os olhos, da esbarrões no ombro e ri de forma tão angelical que causa frios na barriga. Ou escuta em silêncio, encarando com aqueles olhos atenciosos e brilhantes que mudam de cor dependendo da iluminação. A essa hora, lá fora, eles devem estar bem castanhos com alguns raios verdes ao redor da pupila. É muito fácil se apaixonar por aqueles olhos. 

 

Merda.

 

“Eu tenho que ir.”

 

 

Notes:

As duas primeiras partes do capítulo servem para me deixar em paz de espírito. A batalha final foi uma das coisas que mais me incomodou na última temporada. Ela foi tão negligenciada, tão simples e tinha tantos furos de roteiro que sequer causou apreensão. Por isso, quis reescrever com algumas modificações, mesmo que só para contextualizar. Além de, obviamente, dar um final digno e coerente para nossa garota Jane.

Espero que tenham gostado do capítulo. Provavelmente será uma fanfic curta, mas pretendo continuar produzindo. Boa noite :)

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