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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-03-25
Updated:
2026-04-06
Words:
11,353
Chapters:
2/3
Comments:
19
Kudos:
96
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7
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2,997

estudo de caso

Summary:

"Macedo!", passos rápidos, urgentes, obedientes. Como devem ser, quando seu dono chama. Como os de Zenilda se tornaram. Como os de Leonardo são. Como os de Lorena nunca foram.

"Pois não, doutor?"

"Pegue o carro. Tenho uma tarefa pra você."

OU

Santiago Ferette é um covarde narcisista e Eduarda Fragoso é um problema.

Notes:

Isso começou com a gringa me perguntando sobre um headcanon sobre a novela e me atormentando dias e noites pra escrever isso aqui. Todos os erros são exclusivamente meus, mas se for pra reclamar, a culpa é dela pq eu não sou escritor!

VALE NOTAR: favor considerar tudo que aconteceu na novela até a vernissage de Bagdá (que foi quando eu comecei a escrever). O evento em si nunca aconteceu aqui.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter Text

São Paulo à noite é como se fosse uma cidade nova. Ou talvez apenas uma outra versão de uma mesma coisa. A cacofonia dá lugar a um murmurinho, mas nunca ao silêncio; o céu impossível de ser visto em meio a toda luz artificial que forma, em si, uma constelação própria; cada sala, quarto, cômodo, vida uma estrela diferente, sempre se recriando, refazendo, mudando sem a necessidade de uma supernova.

Não que Santiago Ferette tenha a capacidade de apreciar ou sequer de entender o que está diante de seus olhos. Não, São Paulo é uma ferramenta, como tudo em sua vida. Uma ferramenta rica e poderosa, como ele. Uma cidade tão grande tão cheia de gente tão cheia de coisas é o palco perfeito pro império que ele construiu com muita calma e sede, mas que sempre lhe foi devido. Algumas pessoas nascem para reinar e ele não tem qualquer dúvida de que ele é o maior dos merecedores.

O mundo é dos espertos e se tem uma coisa que ele é, é esperto. Algumas mãos molhadas, algumas mãos amarradas, algumas mãos decepadas. O que for necessário para que ninguém destrua o que é dele por direito.

Mandíbula travada sem nem perceber, ele lembra da cena que colocou tudo em rota de risco. Aquele maldito momento em que Lorena resolveu jogar lama no nome dele. Nome que ele passou tantos anos construindo, sinônimo de poder, de uma família perfeita: filhos bonitos e educados, esposa linda e obediente, sem escândalos, com homenagens, eventos, dinheiro, admiração. Claro, Lorena cabeça dura, cheia desses ideais ridículos, mas nunca publicamente. Ele consegue lidar com alguns chiliques aqui e ali até ela cumprir sua função nesse mundo e lhe dar um neto, um legado, a perpetuação de seu nome. Até que aquela nanica petulante chegou como uma afronta direta a ele.

"Vaca", murmura, copo colado nos lábios, olhos vidrados à frente, a constelação São Paulo imperceptível em meio à nuvem de laranja e marrom que inunda sua visão. Não consegue evitar pensar que tudo começou a dar errado no momento que a policialzinha intrometida chegou como um tornado destruindo tudo por onde passa e deixando tempestades em seu rastro de destruição secundária, indireta. Isso já foi longe demais.

"Macedo!", passos rápidos, urgentes, obedientes. Como devem ser, quando seu dono chama. Como os de Zenilda se tornaram. Como os de Leonardo são. Como os de Lorena nunca foram (para sua sorte, o vidro do copo é resistente -- ou talvez ele apenas seja tão pateticamente fraco em força quanto é em caráter -- e sua onda de ódio pelo pensamento não causa danos).

"Pois não, doutor?"

"Pegue o carro. Tenho uma tarefa pra você."

-----

Ser policial sempre foi um sonho. Aquela ideia romântica do bem contra o mal, de poder, justiça, adrenalina. Fazer o que é certo e, de brinde, trilhar seu próprio caminho, fazer de Fragoso seu nome por motivos além de herança. Eduarda cresceu cercada de amor e apoio, de entendimento, carinho, afeto, nada que justifique uma necessidade de afastamento. Não. Não se trata de afastamento. Se trata de uma necessidade diferente. Ser. Existir. Mostrar que o sobrenome que carrega é tão seu quanto de seu pai. Que é tão inteira quanto Henrique e Violeta.

Mas o privilégio existe e nunca deixará de existir. Não importa quão livre de preconceitos sua criação possa ter sido. Não importa que tenha o entendimento a nível visceral de que nenhum ser humano é menos merecedor de respeito e educação por sua cor, credo ou classe social, o mundo real é muito diferente do que ela achava, como o choque de realidade ao pisar pela primeira vez no hospital público com Paulinho há o que parece ter sido vidas atrás lhe mostrou. A realidade se revela camada por camada a cada dia, a cada plantão, a cada nova peça que encaixam no nojento quebra-cabeças que é a Fundação Ferette.

Eduarda ama cada segundo. Não pelo que estão descobrindo, que dá náuseas e revolta até mesmo delegado Jairo, há mais tempo na polícia que ela tem de vida. Mas porque cada peça os deixa mais perto de finalmente conseguir parar Santiago Ferette de uma vez por todas. E se o privilégio dela puder ajudar a garantir que seu sogro apodreça na cadeia pelo resto da sua miserável vida, bem, ela vai usar cada gota.

Ser policial sempre foi um sonho. Mas um turno de 12 horas já é sacanagem. Olhando rapidamente pro celular e confirmar o horário, ela sorri. Pelo menos esse horário permite que ela chegue ao bar perto do fim do turno de sua princesa. No que dependesse dela, poderia ficar lá por horas a fio, mas ela sabe que seria uma distração pra Lorena e poderia causar problemas no emprego que ela acabou de conseguir.

Sorriso nos lábios, um universo novo se formando em seu peito de orgulho ao lembrar de Lorena se observando no espelho, uniforme no corpo, cabeça erguida, olhos brilhando, pela primeira vez na vida se reconhecendo, amor entrando na mistura quando seus olhares se encontraram no reflexo, Eduarda entra no carro.

Cinto afivelado, retrovisores verificados, seu dedo para no botão de ignição ao ouvir a notificação no celular no console.

"Falando nela...", cenho franzido, acessa o chat com o número desconhecido. E sente seu mundo começar a girar num ritmo errado, sem sentido, o ar lentamente deixa seus pulmões.

No chat, apenas uma foto. Paulinho com a mesma roupa que usou o dia todo chegando em casa o que ela sabe que aconteceu umas duas horas antes, já que ele chegou mais cedo que ela na delegacia. Ainda com a foto aberta, sente o celular vibrar com mais uma notificação.

É meio difícil crescer com uma família do interior de Minas e não ter fé. Aliás, por muitas vezes é um sacrilégio muito maior do que muitos dos crimes que ela vê no dia-a-dia, por mais torto que isso possa parecer. Ser lésbica? Tudo certo! Ateia? Inadmissível! A fé mineira é herança genética, obrigação inevitável. E no momento, é tudo a que ela se agarra.

Dedos tremendo, cabeça e peito cheios de preces, ela abre a nova foto. E dessa vez seu mundo para de girar de vez.

Lorena. Bloco de papel e caneta nas mãos, olhando concentrada pro casal na mesa, atenção totalmente neles (uma parte de sua mente não consegue evitar de pensar que Lorena se tornará a garçonete favorita de todos os clientes que atender. Olhos nos olhos, sorriso sincero, carisma).

Eduarda estudou muito para o concurso da polícia. Teoria e prática. Filmes, seriados, cursos, documentários. São apenas alguns poucos meses de distintivo no peito, ainda lutando pra tirar o brilho. Tempo mais do que suficiente para reconhecer o cano da arma aparecendo no canto da foto. Apontado diretamente para a personificação de todo o seu universo.

A primeira lágrima desce quando a notificação chega.

"Você é intocável. E eles?"

Inspira pelo nariz. Segura. Expira pela boca. De novo. De novo. De novo, de novo, de novo. Olhos abertos, mãos mais firmes, ela envia o print pro Paulinho, respira fundo mais uma vez e começa a gravação.

"Preciso ligar pra Lorena e depois te ligo. Repasse pro delegado... Paulinho." fecha os olhos de novo, busca uma âncora e encontra na raiva, na violação. No distintivo ainda pendurado no pescoço, um peso confortante, uma promessa, um destino que ela mesma escreveu e traçou. Medo pode esperar. "Tome cuidado."

Satisfeita com a resposta imediata em forma de reação, leva o celular ao ouvido, coração disparado, medo arranhando, tentando cravar suas garras.

"Oi, meu amor! Eu tava justamente pensando em você... É sincronia que fala?"

Ela está bem. Ela está bem. Ela está bem, ela está bem, ela está bem, obrigada meu Deus, obrigada. É como se o mundo tivesse levantado um pouco de cima de seu peito e ela consegue respirar de novo, mesmo que falhando, mesmo que engasgado.

"Amor? Duda, você tá aí? Fala comigo, tá tudo bem?"

"Oi, linda. Tá.. tá sim." Não. Não ouse! Cada um de seus átomos parece gritar para ela. Nós éramos um na Grande Explosão. Passamos infinitas eternidades nos buscando. Você não vai fazer isso agora que nos encontramos. Você não tem esse direito.

Ser policial sempre foi um sonho e ela sempre soube que algumas coisas fazem parte do pacote. Sabe que terá momentos em que não vai poder compartilhar totalmente os acontecimentos do seu dia com aqueles que ama, sabe que vai precisar pisar em alguns calos, arranhar alguns relacionamentos. Omitir detalhes, relevar pequenas mágoas, deixar de lado sentimentos em prioridade a justiça. Se é policial 24 horas por dia é o que Paulinho lhe disse. Mas não assim. Nunca assim.

"Não.. Não está. Desculpa, eu não devia ter falado que estava. Aconteceu uma coisa que eu não posso contar agora por telefone. Mas eu vou contar assim que te encontrar. Não precisa se preocupar! Não aconteceu nada comigo. Eu não me machuquei, prometo."

"Você tá me deixando preocupada, meu amor. Você tá vindo? A gente já finalizou aqui, só estamos terminando a limpeza e de fechar o caixa. Você quer que eu te encontre em algum lugar?"

"Não! Não... Não sai daí, eu já to indo. As portas tão fechadas?"

"Sim... Tá tudo fechado aqui... Duda, o que tá acontecendo? Você tá em perigo? Espera... você disse que não foi com você..."

"Eu já to indo, ok? Vai ficar tudo bem, eu prometo. Eu vou garantir que vai ficar tudo bem. Eu te amo. Eu já to indo."

"Eu também te amo. Muito. Te espero aqui. Vou avisar o pessoal pra abrir a porta pra você. Tome cuidado. Vem com cuidado. Cuida do meu amor, meu coração tá com você."

Com o coração um pouco mais leve, respiração um pouco mais controlada, mãos firmes, mundo um pouco mais no eixo, sai devagar da garagem da delegacia. Paulinho atende no segundo toque.

“Tá tudo limpo por aqui. Não achei nada. O delegado vai aumentar a patrulha tanto no bar quanto aqui e já pediu pro pessoal buscar as câmeras dos arredores do bar. Se tiver algo, vão achar. E o número?”

Protocolo. O maior escudo de um policial. Foque no que consegue controlar, no que consegue fazer. Não permita que a situação te controle, não perca a cabeça. Encontre tudo que puder segurar e segure. Cabeça focada não tem tempo de sentir medo.

“Não aceita ligações, todas as mensagens foram apagadas a partir da origem pouco depois que eu tirei o print. Nenhuma das mensagens que tentei enviar chegaram ao destino.”

“Merda. Muito provavelmente pré-pago, sem registro.”

“Paulinho…”

“O chip já deve ter sido destruído a essa altura, mas pedi pra buscarem no sistema mesmo assim, nem se for só pra documentação.”

“Paulinho.”

“A gente precisa do que a patrulha achar no bar, mas talvez valha a pena eu voltar pra delega-”

“Paulinho!! Me desculpa…”

“Juquinha, me escuta bem”, se é policial 24 horas por dia, mas não agora. Não agora. Essa não é a voz de um policial, Eduarda entende com um nó no peito, amor fraterno se expandindo ao redor dele, “isso não tem nada a ver com você. Ferette, e a gente sabe muito bem que ele que tá por trás disso, me quer morto por ser policial, por estar investigando a sujeira dele, ok? Ele viu nisso a oportunidade perfeita pra te desestabilizar, pra te machucar. O alvo na minha cabeça não tem o seu nome.” mas o dela tem, não é dito, mas fica preso no ar entre eles. Não dito, mas evidente tanto quanto o autor de tudo isso. Ela não sabe se ama ou odeia Paulinho por não falar. “Eu não vou permitir que aquele vagabundo me use pra te machucar.”

“Seu pai, Paulinho…”

“Meu pai não estava esperando. Ele não sabia quem queria a morte dele. Eu sei. Eu estou esperando. Eu não vou dar mole, Juquinha. Se algo de bom pode sair dessa situação é que agora a gente vai ficar muito mais ligado nesses caras. A gente agora sabe pra esperar por eles. Eles vão pagar por isso, a gente vai pegar eles. Ok?”

“Tá... Tá, ok.”

“Você tá indo pro bar? Como que Lorena tá?”

“To sim. Ela tá ok. Ficou assustada, como de se esperar, mas..”

“Você contou pra ela? Por telefone?? Juqui-”

“Claro que não, Paulinho!! Eu não dei nenhum detalhe e ela não é burra. Sabe que aconteceu algo, eu vou explicar pra ela quando chegar lá, mas me garantiu que está tudo bem. Já fecharam as portas, ela tá segura lá dentro.”

“Você tem certeza que vai contar pra ela, Juquinha?”

“É claro que eu vou!

“É um caso de polícia, Juquinha.”

“É a vida dela, Paulinho. Não cabe a mim decidir nada sobre a vida dela por ela. Eu posso ser a policial e eu entendo perfeitamente o que isso significa, mas eu nunca vou usar isso pra passar por cima da autonomia dela. Ela acabou de sair de uma prisão, o pai dela tentou a vida toda controlar a narrativa, as decisões, o futuro dela. Eu não vou fazer o mesmo. Nunca.”

“Ok. Ok, desculpa. Você tá certa. As câmeras do bar… quando você foi lá antes dela começar a trabalhar… E nem vem com essa porque eu sei muito bem que você foi! Se não tivesse ido, eu estou perdendo meu tempo te ensinando. E eu não gosto de perder meu tempo.” pela primeira vez desde que esse inferno começou, ela sorri.

“É claro que eu fui.”

“Pois então. Você lembra das posições das câmeras? Alguma pode ser útil?”

“Lembro e não. Nenhuma pega o outro lado da rua. São muitas internas, por todo lado menos nos banheiros, é claro, e toda a fachada e nos fundos por onde chega o carregamento. Todas as câmeras são focadas no bar em si, não na rua. Eu posso tentar sondar os seguranças, mas por ora eu prefiro evitar. Se eles ficarem desconfiados, pode ser que fiquem com receio de manter Lorena lá. O delegado já vai aumentar o patrulhamento lá, né?”

“Sim. Ele garantiu que a patrulha das redondezas vai aumentar e o intervalo que vão passar diretamente pelo bar vai diminuir. Você acha que ela aceitaria sair do bar? Até a poeira baixar?”

“Lorena? Se esconder? Mais fácil o delegado largar Morena e fazer voto de castidade!”

No silêncio, eles aceitam o momento de paz, de leveza que por alguns segundos faz com que ela quase acredite que está tudo bem. Quase.

O carro da patrulha está lá quando ela dobra a última esquina, entra na rua do bar e tão rápido quanto chegou a ilusão se vai. É real. É tudo real.

“Cheguei. Preciso ir. A gente se fala amanhã. Te aviso quando eu chegar em casa.”

“Tudo bem. E, Juquinha… a gente vai dar um jeito nisso. Vai ficar tudo bem.”

“Boa noite, Paulinho. Obrigada.”

Mandíbula travada, estaciona atrás da patrulha e, com olhar fixo no local de onde a foto foi tirada, sai do carro.

“Boa noite, meninos.”

“Boa noite, Juquinha. Pode contar com a gente pro que você precisar. Mexeram com uma família, isso não vai ficar barato.”

“Muito obrigada. Vocês já olharam os estabelecimentos? Câmeras?”

“Considerando o ângulo da foto, só aquela loja ali pode ter alguma coisa pra gente, mas já estava fechada quando o delegado entrou em contato. Deixei avisado pro pessoal da manhã pra pegar as gravações. Delegado já tá agilizando um mandado caso se recusem inicialmente.”

“Ok. Não tem como retornar aqui, né? Eles só poderiam ter seguido nessa direção?”

“Isso. Ainda temos esses outros dois prédios aqui que podem ter alguma coisa nas câmeras, vamos pegar essa parte também. Se não for a dianteira, talvez a traseira. Mas a gente já sabe de quem é o carro, né.”

“É. Mas a gente tá lidando com um safado pra lá de escorregadio. Toda e qualquer evidência que a gente conseguir vai ajudar a amarrar esse caso.”

“De acordo. A gente passou umas três vezes por aqui. Não encontramos nada. Nenhum movimento estranho. Daquele lado só tem lojas, basicamente. Nada fica aberto depois das 20 horas. Tudo indica que tiraram a foto na hora que enviaram. O bar estava movimentado, sempre está, um carro parado não chama atenção de ninguém.”

“É… Obrigada de novo. Se notarem algo, por favor avisem o delegado imediatamente.”

“Sem problema. A gente vai ficar aqui até vocês irem embora.”

Quando ser policial era apenas um sonho, ela sempre soube que alguns pontos eram exageros da ficção – uma propaganda, uma forma de aumentar o romantismo sobre o tema (e parte dela desejava que fosse tudo completamente verdade, romântica da raiz dos cabelos aos dedos dos pés). Mas em pouco tempo como estagiária, antes mesmo do resultado do concurso, antes do distintivo ainda nos treinamentos com armas, nas aulas de defesa pessoal ela notou que uma coisa não era exagero: a lealdade quase incondicional (para o bem ou para o mal).

Emocionada, ela assente com a cabeça e se afasta do carro em direção à porta dos fundos.

“Ei, Juquinha! Boa noite. Lorena tá nas mesas perto do bar te esperando.”

“Obrigada, André. Boa noite. A gente já vai sair, não quero atrapalhar.”

“Imagina! Eu ainda tô finalizando o caixa, o dia foi bem movimentado. Parece que nossa nova garçonete tá fazendo sucesso.”

“Ah, é?” um puxão no fio da alma e seus olhos encontram os dela. E o tempo para como na primeira vez naquela galeria, como em todas as outras. Ela está aqui, nós estamos aqui. O que mais pode importar mais que isso? Ela sabe o que está escancarado em seu rosto, em seus olhos. Medo, mas muito além disso: amor, devoção. Seus joelhos ameaçam ceder, um desejo, uma necessidade de cair sobre eles e pela enésima vez em sua vida, jurar serví-la como sua única deusa, sua única verdade. Se seu nome está tatuado no coração de Lorena, o dela está em sua alma. Resistente ao tempo, transcendente à vida, eterno. Lorena levanta, olhos grudados nos dela – um reflexo perfeito dos dela, apenas num tom diferente – caminha até ela, um beijo no canto da boca, sua mão automaticamente envolvendo a cintura da divindade que lhe permitiu o privilégio, a dádiva de tocá-la livremente. Lorena esconde o rosto em seus cabelos, lábios tocando a parte de trás de sua orelha. Eduarda sorri. Elas estão em casa. “Vou precisar fazer hora extra como segurança pessoal?? Garantir que todas as mãozinhas ficarão bem longe da minha garçonete favorita??”

“Jamais!! A casa nunca faturou tanto! Além do mais, Lorena mostrou plena capacidade de cortar qualquer tentativa de flerte. E tão elegante que até agora não teve uma mesa sequer que não pagou os 10%. Mas vocês não precisam se preocupar que o pessoal da segurança é treinado pra lidar com qualquer situação que possa fugir do controle. Bem. Eu preciso ir terminar meu trabalho e correr pra casa. Boa noite, meninas. Até amanhã, Lorena.”

Eduarda fecha os olhos quando os lábios de Lorena encostam em seu pescoço de novo e a puxa pra mais perto, a abraça pela cintura. Respira fundo seu perfume e se permite ficar ali alguns segundos, completa, em paz.

“Oi, meu amor. Eu tava com saudade de você.”, as palavras sussurradas junto ao seu ouvido têm efeito imediato: todas suas terminações nervosas entram em estado de alerta, seu corpo pulsa em resposta. Ela nunca foi careta, mas nunca experimentou drogas pesadas. Não apenas por crescer cercada de pessoas conscientes que sempre conversaram com ela abertamente sobre os perigos reais do mundo e da sociedade, mas também porque crescendo num mundo tão privilegiado, tão rico, tão intocável, histórias trágicas nunca faltaram.

Ela tem certeza que nenhuma droga que ela pudesse experimentar causaria sequer uma fração do efeito que Lorena causa em seu sistema. Quando chegar minha hora, que seja de overdose de você.

“Saudade já nem parece abrangente o suficiente pro que eu sinto quando não estou com você. Vou precisar inventar uma palavra nova só pra tentar verbalizar o que eu sinto por você.”

“Hum…”, Eduarda sorri da imagem mental de um gato ronronando satisfeito, “você é incrível, sabia? Nunca deixa de me surpreender”, Lorena diz com os lábios colados nos dela. Dois, três, cinco beijos. Sorrisos incontroláveis atrapalhando ou talvez tornando tudo muito mais especial. “Vamos? Eu tô desesperada por um banho e ficar de chameguinho com minha namorada.”

Eduarda a puxa para mais um abraço, rosto escondido no pescoço dela, deposita um beijo em seu pescoço e sente a pulsação através de seus lábios.

“Vamos.”

-----

Lorena é uma sonhadora e sabe disso. Nunca viu isso como algum motivo de vergonha ou como infantilidade. Como poderia, quando seus sonhos são de um mundo melhor, mais justo, mais colorido, respeitoso, livre? Lorena não é inocente, porém. Ela sabe que é muito mais fácil ter ideais fortes, convicções firmes quando se está num mundo de privilégios. Quando não precisa roubar para comer, quando não precisa matar para sobreviver.

Grades de ouro, alpiste orgânico, água mineral, porém, não fazem da gaiola onde cresceu menos gaiola. Sempre observando, nunca vivendo, nunca participando do mundo. De que adianta ter asas, se não podia voar, ser livre?

Eduarda? Eduarda cresceu livre. Pés no chão, peito estufado de orgulho, cercada de afeto e o mesmo privilégio que ela. Privilégio compartilhado, herdado, nada pedido em troca além de sua felicidade.

Eduarda cresceu livre, com acesso a tudo, uma celebração, uma bênção. Eduarda cresceu com privilégio nas mãos, liberdade nas veias, amor nos olhos, paciência na alma.

Não, Lorena não é inocente. Lorena é observadora. E sabe muito bem que seu relacionamento com Eduarda progrediu completamente no ritmo que ela, Lorena, ditou. Nunca pressionada, nada pedido em troca, apenas paciência, carinho, amor. Lorena está aprendendo a voar e cada segundo com Eduarda ao seu lado fortalece suas asas.

Eduarda sempre dá. Espaço, tempo, amor, carinho, paixão, um porto seguro. Lorena se pergunta diariamente se Eduarda sabe pedir algo, se colocar em primeiro lugar. Logicamente, sabe que sim. Afinal, ela lhe disse com todas as letras que fingir ser sua amiga quando queria gritar para o mundo inteiro que era sua namorada era muito difícil. Mas ainda assim a respeitou, entendeu, aceitou. Ela nunca se sentiu tão mal quanto naquele dia. Prometeu a si mesma que pelo resto de seus dias faria de tudo para que ela nunca mais se sentisse insegura.

Quando entram no carro, ela sabe que Eduarda ainda não está pronta para a conversa que precisam ter, para explicar o que aconteceu, para compartilhar. Não importa que ela esteja com medo, que saiba que o assunto é sério e que a conversa será difícil, ela sabe que naquele momento, Eduarda precisa de tempo, de espaço, de paciência. Então ela engole todas as suas perguntas e, no lugar, enche o espaço entre elas de palavras.

Fala sobre seu dia. Sobre clientes. Sobre colegas. Fala sobre as músicas que tocam ao fundo, sobre livros que quer ler, sobre filmes que quer ver, sobre a vida que quer viver com ela.

Lorena cresceu presa numa gaiola, sem saber voar, cheia de ideais e sonhos. Mas no momento que os ombros de sua maior personificação de liberdade se tornam menos tensos, quando seu riso se torna mais alto, quando o brilho volta aos seus olhos e rubor às suas bochechas, Lorena entende que trocaria a infinidade do céu que estava aprendendo a desbravar pela certeza de que Eduarda seria amada tanto quanto ela própria ama.

Eduarda estaciona o carro na porta da galeria, mas não faz menção de sair. Lorena espera, dá a ela o tempo que precisa para organizar o que tem a dizer. E tanto por ela quanto por Eduarda, pega sua mão e entrelaça seus dedos e as leva até os lábios. Eu estou aqui, leve o tempo que precisar. 

“Eu…” Eduarda limpa a garganta, umedece os lábios, tenta de novo, “vem pra casa comigo hoje? Eu… Eu quero poder dormir com você nos meus braços. E está tudo bem se você não quiser, se preferir ficar aqui. Não quero que se sinta press–”

Dedos em seus cabelos, Lorena a silencia com beijo. Primeiro porque ela é completamente viciada nos lábios de Eduarda Fragoso e segundo porque não faz qualquer sentido ela achar que Lorena não aceitaria o convite.

“Eu só preciso pegar uma muda de roupas e algumas coisinhas por aqui e a gente já vai, ok? Entra comigo? Não quero você aqui fora sozinha a essa hora.”

“Claro! Claro, vamos sim. Mas é sério, se você não quiser, não tem problema nenhum.”

Lorena dá um beijo em sua sobrancelha, mão ainda em seus cabelos, polegar correndo seu rosto. Leve, cheio de significado.

“Não tem nada que eu queira mais na vida do que estar com você. Sempre. A todo momento.”

Ela sente antes de ver quando o sorriso de Eduarda se abre a ponto de encontrar seus dedos. Os corre por seu lábio inferior antes de beijá-la novamente. Com mais calor, mais língua, mais dente, mais intenção. Ficam ali alguns segundos respirando o mesmo ar, olhos fechados, bochechas coradas, corações acelerados. Puro estado de pertencimento.

Dentro da galeria, Lorena rapidamente pega o que precisa para uma noite fora. Por ser tão tarde, é um raro momento em que ninguém mais está acordado, nem mesmo Kasper, que ultimamente passa mais tempo no escritório do que na própria pele, normalmente sentado na cadeira de frente para o computador como um fantasma perdido num plano qualquer. Envia uma mensagem para Maggye ler ao acordar explicando a situação, fecha e tranca a porta atrás de si. Mãos dadas com Eduarda, volta para o carro e partem. Casa, Lorena sabe, é onde quer que Eduarda esteja.

-----

Eduarda nunca levou Lorena ao apartamento que mora com os pais. Não queria parecer emocionada demais, não tinha clima quando Lorena foi expulsa, muito drama, não queria parecer que a estava pressionando a algo que ainda não era hora de acontecer. Argumentos não faltam, mas a verdade é que sem Henrique e Violeta lá, o lugar parecia grande demais, cômodos cheios de ausência, mesmo com suas paredes pintadas de amor e conforto. Não era o lugar que Eduarda queria que Lorena conhecesse, mas as pessoas que fizeram de um imóvel um lar. Deus, como ela sentia falta deles! E, veja bem, ela nunca disse que não era uma filhinha de papai. E tendo um pai como Henrique Fragoso, era impossível sentir qualquer embaraço pelo sentimento.

Mas lar ou imóvel, aquele lugar era dela tanto quanto deles. E mesmo eles não estando lá para preencher os espaços, ela queria a presença de Lorena misturada com a deles. Queria lembranças dela lá, um tom novo nas paredes, um cheiro novo no ar. Mais completo, mais dela. Mais delas. Mais de todos eles. Uma família de verdade.

Quando seus olhos se encontraram pela primeira vez, Eduarda se lembra perfeitamente do que viu: força, curiosidade, reconhecimento. Mas também viu esgotamento, solidão. Uma pintura renascentista cheia de significados ocultos e mensagens subliminares. Linda, inteligente, justa, triste.

Naquele dia, ela jurou para si e para quem mais pudesse ouvir seus pensamentos que Lorena Ferette nunca mais voltaria a ser aquela casca vazia silenciosamente implorando para que alguém a notasse por completo.

Nada mais apropriado do que vê-la agora em meio às obras de arte que seus pais elegantemente espalharam pela casa. Ela sendo, de longe, a mais preciosa.

“Às vezes eu esqueço que algumas pessoas ricas possuem bom gosto, sabia? Tudo bem que minhas referências são Dr. Ferette e Dona Cobra, um mais incapaz de apreciar arte que o outro, mas ainda assim”, Lorena, de mãos dadas com ela, sempre se tocando, como se a mera ideia de existir num mesmo espaço sem estarem em contato permanente fosse uma ofensa pessoal, parece tentar absorver tudo ao seu redor. Os quadros nas paredes pintadas em tons pastéis misturados com fotos deles em diversos momentos da história. Sofás macios com almofadas caoticamente coloridas, aparentemente sem qualquer padrão, uma manta de crochê decorando o encosto. Tapete macio, piso de uma madeira clara, janelas enormes que convidam a cidade do lado de fora com seu caos, luzes, cores e sons a fazer parte viva da decoração ali dentro, “tudo aqui é lindo! Elegante, sem exageros. E me passa uma sensação muito gostosa. De afeto, carinho.”

“Dona Violeta tem excelente gosto pra tudo que envolva arte, mas tem dedo do meu pai aqui também. A maior parte dos quadros, ele que escolheu e ela fez com que eles fizessem sentido.”

“Uma parceria. Hum… Acho que isso ajuda a explicar como você se tornou essa pessoa maravilhosa que você é.”

Eduarda vive a vida com o coração nas mãos, pronta para entregá-lo. Não a qualquer uma, não para a primeira que passar pela frente, não é isso. Eduarda sempre quis amar, romântica em todos os sentidos. Não mentiu quando disse a Paulinho que nunca havia se apaixonado e descobriu que estava completamente certa ao afirmar que seria bom pra caramba. Mesmo que “bom pra caramba” nem começasse a explicar o que estar com Lorena a faz sentir. Talvez não consiga nunca colocar em palavras. E talvez por isso toda vez que ela é inundada pelo sentimento, ele transborda de seus olhos. Colocando de forma bem simples: amar Lorena faz dela uma enorme de uma chorona.

O abraço é leve, mas o significado dele nunca é. Obrigada, ela diz com a alma, por querer se encaixar aqui comigo. Por me mostrar que mesmo cercada de arte e carinho, você é meu mais belo afeto.

Lorena beija o canto de seu sorriso, quase com reverência. O privilégio de te amar é o único que eu jamais abriria mão, “qual deles é o chorão?”

(Mesmo tendo ouvido aquela gargalhada incontáveis vezes, Lorena sente o orgulho se expandindo dentro do peito por ser capaz de trazer leveza para Eduarda.)

“Meu pai. Aliás, muito da minha personalidade vem dele.”

“Hum… Dizem o mesmo sobre mim. No meu caso, porém, fico feliz de não ter herdado o caráter também.”

“Isso só reforça que Santiago Ferette poderia ser um homem muito respeitável se ele tivesse uma mínima parte da sua ética e caráter. Ele pode ter te expulsado e tentado te humilhar, mas a verdade nua e crua é que você é o que ele jamais será. Você é a única coisa certa que ele fez na vida. E o dia que a gente conseguir colocar ele atrás das grades, ele vai ter muito tempo livre pra talvez entender isso.”

“É… E talvez já não seja relevante mais, se ele entender.”

Por mais que ainda tenha alguma parte de Lorena que se importe com o que o pai pensa, Eduarda sabe que ele é a única pessoa que sai perdendo por não ter a filha em sua vida.

“Ele fez por merecer. E você merece estar cercada de pessoas que te celebrem. Sempre mereceu. Agora, vamo finalizar o tour antes que fique muito tarde. Você deve estar cansada também.”

Ao entrarem no quarto, Eduarda senta na beirada da cama e deixa Lorena livre para observar tudo no seu ritmo. A luz era baixa, condizente com o momento. O suficiente para ver detalhes, mas não o suficiente para afastar o clima de intimidade e cumplicidade que apenas a noite consegue criar.

Eduarda rodou o mundo. Nas paredes, nas prateleiras, nas mesinhas de cabeceira, por todo canto Lorena consegue reconhecer souvenirs de diversos lugares do mundo. Não apenas os típicos destinos europeus. Lorena consegue reconhecer objetos de distintas culturas africanas e asiáticas e gravuras da polinésia. E por mais que tudo devesse parecer caótico, muita informação em um espaço curto, tudo se encaixa, contando uma história com início e meio, mas ainda em construção. Livros em pelo menos 3 idiomas, de ficção a biografias, alguns empilhados com diferentes tipos de marcadores de páginas.

Ao lado da cama, mais uma vez portas de vidro do chão ao teto, dando acesso a uma pequena varanda. Pequena o suficiente para um pequeno sofá e uma mesinha. As portas abertas deixando a cidade entrar, uma companhia familiar em seu anonimato. Parte do lugar. Claramente, os Fragoso amam São Paulo. Fazem da cidade parte da família.

Lorena consegue claramente imaginar Eduarda ali na companhia de um livro e uma xícara de café, fazendo crochê, observando a cidade, vivendo. E se imagina junto dela. Compartilhando qualquer pedacinho de vida que conseguirem.

Não se surpreende quando, ao se virar de volta pra cama, encontra Eduarda olhando exclusivamente para ela. Se Lorena estava ocupada absorvendo o mundo que Eduarda criou para si, Eduarda observava a peça que faltava para completá-lo. Ver Lorena ali é ao mesmo tempo familiar e completamente novo. Como quando se viram pela primeira vez. Aí está você. Eu guardei seu lugar por muito tempo. Pegue tudo, mude tudo, é tudo seu.

“Eu amei seu quarto”, voz baixa. Lorena ama aos berros, mas às vezes, ama aos sussurros. Só para elas, “amei seu mundo.”

“Meu mundo é você.”

Ela se ajoelha entre as pernas de Eduarda, mãos em suas coxas. É raro ela estar em desvantagem de altura, ter que olhar para cima para encontrar os olhos que lhe servem de guia, brilhando como faróis em meio ao mar.

“Eu estou correndo risco?”

(A forma como Eduarda puxa o ar, como se tivesse tomado um golpe no peito, machuca. Mas ela precisa perguntar e Eduarda precisa responder.)

“Sim.”

“Agora, neste momento?”

“Não. Não aqui.”

“Tem algo que eu possa fazer, ou você possa fazer, pra resolver esse problema agora, neste momento?”

“Não.”

“Então, por hoje, por ora, isso não importa. Ok? Olha pra mim, meu amor”, medo nunca deveria aparecer nos olhos dela. Lorena ama o tom que eles têm. Chocolate rico, puro. Uma imensidão que parece prendê-la toda vez que seus olhares se cruzam. Hipnotizantes em seus brilhos, inteligentes, brincalhões, amorosos. Medo é algo que nunca deveria refletir neles. E Lorena toma como um objetivo apagar qualquer resquício dele. Mesmo se só por uma noite. “Hoje, agora, só aqui importa. Só nós. Ok? Fica comigo aqui. Eu te amo. Com tudo que há em mim.”

Ela não consegue responder. Não com palavras. Então deixa que suas ações falem por si. Mãos no rosto, puxa Lorena para um beijo. Dessa vez, com intenção. Mais intenso, mais direto, morde o lábio inferior e, apesar de apenas entreabertos, vê o momento exato que o verde dos olhos dela some quase que completamente. Fogo, fome, tempestade de verão. Exatamente o que Eduarda precisa.

Mãos firmes, olhos nos olhos, Lorena puxa a regata que Eduarda usa para trabalhar e descarta ao lado. Se não estivesse ocupada com outras prioridades, poderia escrever poemas e sonetos e odes sobre ela. E talvez não possa com caneta e papel, mas pode com dentes e lábios e língua. Seu pescoço, ombros, peito a tela perfeita que ela precisa. E quando a respiração dela se torna irregular, deixa suas mãos agirem.

Aproveita da posição que está e desamarra e tira suas botas e meias. Empurra de leve para que ela se deite na cama para conseguir desabotoar a calça distribuindo beijos e mordidas à medida que a desce com as mãos.

Quando novamente se ajoelha sobre os calcanhares para tirar a própria blusa, tudo que vê nos olhos dela é amor e desejo.

Levanta e estende a mão, “quando a gente se deitar de novo nessa cama, tudo que eu quero na minha pele é você.”

De mãos dadas, Lorena as guia para o banheiro.