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Promessas.
Promessas são… complicadas. Têm peso. Cobram. São dívidas que exigem entrega – e, às vezes, mais do que alguém está disposto a dar.
No Livro dos Salmos, Jasper lembra de um trecho que diz:
Não violarei a minha aliança
nem modificarei as promessas dos meus lábios.
Para a maioria, isso é fé. Para ele, é servidão.
Jasper, não pela primeira vez, se pergunta se deveria ter deixado Henri morrer. Se deveria ter permitido que a barreira de espinhos o consumisse quando o cerco se fechou. Deixar morrer, afinal, era sua única opção, já que matá-lo é uma impossibilidade gravada em sua própria natureza.
Ele baixa o olhar para as mãos. Estão pálidas, quase translúcidas se comparadas ao que eram dias atrás. A memória da dor ainda pulsa – a sensação terrível de sentir a própria carne queimando e a pele derretendo como cera ao fogo. Naquele momento de agonia, o pensamento não foi um clamor por socorro, mas uma constatação de: "Ele vai me matar?", e não "Ele está me matando?". Há uma diferença abissal entre as duas perguntas.
Doeu.
Doeu muito.
Seus cabelos brancos caem sobre o rosto, turvando sua visão das mãos, do horizonte, da vastidão instável que se estende sob seus pés. Jasper não entende onde estão. O mundo parece quebrado: em um instante, prédios se erguem ao redor e no seguinte, montanhas; depois, apenas o vazio sobre um mar vermelho.
O trono está próximo – e, ainda assim, inalcançável. A escadaria encurtou… mas continua longa demais. Perto e distante ao mesmo tempo, como tudo ali.
Há um agente da Ordem à sua frente, alguém que ele reconhece apenas de relance. Ainda assim, o homem parece perigosamente próximo à lâmina de sua foice.
Jasper já brincou, uma vez, dizendo que era a própria Morte, com sua aparência espectral, vestes negras e foices em punho.
Eles não gostaram de sua piada.
Você é sangue. Sempre foi, Filho da Dor.
Um sorriso breve, quase involuntário, atravessa o rosto de Jasper ao lembrar. Ele consegue ouvir a voz de Juan: aquele tom aborrecido, quase musical, que esconde um rosnado animal logo abaixo da superfície.
Filho da Dor.
Ele se move antes que o pensamento termine. Desvia de um ataque vindo por trás com precisão instintiva e, em um gesto fluido, lança a outra foice, a corrente sibilando no ar. Quando sente o peso, puxa – e a lâmina rasga o corpo do inimigo, abrindo-o da coluna até se cravar na nuca.
“J-Jasper—”
Jasper se vira em direção a voz moribunda.
Diante dele está um rosto conhecido, um garoto com quem dividiu missões no passado. O agente tosse, o sangue manchando seus lábios enquanto cambaleia.
Sangue.
A visão daquele rubro escorrendo traz Juan de volta. Seu… Juan era mais bonito quando sangrava; havia uma estética sublime no sofrimento dele – e no que ele causava.
Jasper deseja, por um segundo, ter deixado que ele morresse.
Contudo, as promessas são dívidas. E, em nome dele, mais uma cabeça rola pelo chão, separada pelo arco preciso de sua lâmina.
Tudo por ele.
Agora, o terreno abaixo se reorganiza mais uma vez, assumindo a forma de uma vila.
Uma vila familiar.
O reconhecimento vem imediato, como um reflexo… e junto dele, uma pontada incômoda no peito. Jasper a ignora, como tem feito tantas vezes ultimamente. É mais fácil assim.
“Nós… Eu gosto muito de você”, diz o Diabo, girando distraidamente a guia presa à coleira no pescoço de Jasper com uma de suas quatro mãos. “Sabe disso, né? Você sabe que eu gosto de você.”
Jasper ergue os olhos, semicerrando-os por causa da luz. Tanta coisa mudou – tanto aconteceu – e, ainda assim, certas coisas permanecem exatamente as mesmas.
De repente, é noite.
A escuridão cai como um véu suave, e dessa vez Jasper não precisa forçar a visão. Seus olhos sensíveis finalmente descansam.
“Eu sei. Eu também gosto de você.” Jasper sorri, sincero.
Agora ele consegue ver melhor a figura diante de si – imponente, entronada acima dele. A pele vermelha marcada por sigilos dourados que parecem pulsar com vida própria, quatro braços, pernas que terminam em patas de bode e chifres que se curvam com elegância ameaçadora.
E, ainda assim… Juan está ali.
Apenas um pouco diferente.
As feições continuam reconhecíveis, presas entre o humano e o monstruoso. O cabelo castanho, ainda indomável. Um único olho brilhando como uma aliança de ouro. E o sorriso – largo demais, afiado demais.
Como eu não poderia?
“Tem alguma atualização dos nossos amigos?”, Juan pergunta, puxando levemente a guia, trazendo Jasper para mais perto de suas pernas.
“Amigos amigos ou amigos amigos?”, Jasper responde, distraído, já se acomodando, apoiando a cabeça contra um dos joelhos do ser.
“Os inimigos primeiro.”
“Executados. As criaturas já estão dando conta sozinhas… e, com a Aniquilação…” Jasper vacila quando sente garras deslizarem por entre seus fios.
Naquele toque, um redemoinho de sensações colide em seu estômago: medo, desgosto, uma raiva latente e uma vergonha corrosiva. Mas acima de tudo, há paixão e uma devoção cega. Estar ali é como voltar para uma casa em chamas; um lugar terrível, mas o único que ele conhece. Não há para onde fugir. Não mais.
Jasper baixa o olhar para as próprias mãos. Uma memória diferente o invade dessa vez; ela também queima, a diferença é que a energia elétrica fez isso. Se olhar com atenção suficiente, quase consegue ver as marcas ainda ali, avermelhadas, fantasmas de dor que o corpo de Aguiar sentiu. Isso é o resultado de segurar uma antena paranormal preparada para lançar algo caótico… contra alguém de quem ele gosta.
Gosta muito.
Como eu não poderia?
“Ainda pensando nisso?”, as vozes vêm sobrepostas, múltiplas, ecoando dentro e fora ao mesmo tempo. “Deixe o idiota do Remi viver como o egocêntrico que é. Que diferença faz um assassino a mais entre tantos?”
“Ele tentou te matar”, a voz de Jasper falha levemente. Ele fecha os punhos, engolindo em seco.
“Que sacrilégio, não é?”, o Diabo responde, em tom quase divertido.
Algo dentro de Jasper estala, se levantando de repente, a irritação rompe a superfície. Seus olhos encontram o dourado brilhante – encaram ele.
“Eu prometi te proteger!” A frustração explode, crua e incontida. O silêncio pesa por um instante; Jasper respira fundo. “Prometi…” Ele se aproxima. A mão sobe até o rosto da criatura – quente, estranho, familiar demais. Seus dedos deslizam pela pele vermelha, com cuidado. “Prometi te proteger”, repete, mais baixo, como se tentasse convencer a si mesmo.
Ele sabe que são um só.
Mas… às vezes, não parece.
“Eu sei.” O orbe dourado o observa, confuso, de um jeito que Jasper reconhece imediatamente.
Juan.
Sempre foi assim. Lento para certas coisas. Rápido demais para outras. Impulsivo, precipitado… humano, apesar de tudo.
“Só de pensar em te perder por um segundo, eu sei que isso é o fim do mundo. Não me importo se você chama isso de Apocalipse; o fato de eu estar ao seu lado faz disso o Paraíso.”
Você gosta dele.
Jasper fecha os olhos por um breve segundo.
Como eu não poderia?
