Chapter Text
Sinto o meu corpo lutar desesperadamente para puxar o ar de volta para os meus pulmões, enquanto tenho a sensação de estar a cair de um precipício. Quando recobro a consciência estou a olhar para o teto do meu quarto, que possui uma pintura inspirada no palácio de versalhes, cujo os anjos no momento não refletem de todo o meu estado de espírito.
Levanto muito mais cansada do que quando me fui deitar. São quase sete e meia, já devia ter levantado para arrumar-me para as aulas a trinta minutos atrás. Continuo a ter esses sonhos estranhos em que tudo parece tão real e ao mesmo tempo nada tem sentido nenhum. Dessa vez todos os patos tinham dominado o mundo e eles eram seres racionais que tinham uma sociedade à semelhança da humana, ser perseguida por patos é muito difícil tendo em conta que eles também voam. Olho para o espelho e consigo ver o cansaço nos meus olhos, se essas noites de sono mal dormidas continuarem vou ser confundida com um panda e ser levada pelo governo da China. Vou ao banheiro do meu quarto me arrumar para a escola.
Desço as escadas da mansão Wayne para ir ter com os meus pais à cozinha ver o que há para comer, no meio do caminho encontro o Jason tudo suado sem camisa só com uma toalha pendurada no ombro esquerdo enquanto morde uma maçã, aceno com a cabeça sem vontade nenhuma de criar uma conversa, mas é claro que isso não é um desejo compartilhado.
— Ei! E essa cara? — disse enquanto tentava passar a mão pelo meu cabelo, que já estava a sofrer com a falta de tempo que tive para o arrumar. — Andaste à luta com os lençois, Caspar?
— Para quem morreu só para ter um visual igual ao meu, estás com muita opinião.
— Wow! Se acalma ai pirralha, não fui eu que te empurrei da cama. — olho para ele cansada e peço desculpas de uma forma murmurada. — Então, estás bem? Seriamente?
— Sim, sinto muito. Não deveria ter… é só… deixa para lá, ou eu vou-me atrasar.
Ele não disse nada, mas estava bem claro que não ia deixar passar aquilo. Continuei o meu caminho para a sala de pequeno almoço, pensando sobre a minha atitude. Nós dois fomos adotados ao mesmo tempo, e provavelmente eu não deveria pensar sobre isso, mas ele é o meu irmão preferido. Ele ter morrido foi fudido.
Entro na sala de pequeno almoço e me deparo com Bruce Wayne, meu pai, sentado enquanto lê o jornal físico como se estivessemos em mil e novecentos, me aproximo e beijo a sua testa enquanto sorrio. Olho para frente e do outro lado da ilha da cozinha esta Clark Kent, meu outro pai ou papá, fazendo panquecas com ovos e bacon enquanto Alfred e todo o seu ar britânico o julgam até a alma por isso, já estamos nisso a anos pensei que ele tinha superado quando descobriu que ele põe açúcar no chá.
— Bom dia pai, papá e Alfred — todos responderam em uníssono, enquanto me aproximava do papá para lhe dar um abraço, Alfred foi servir o meu chá sem açúcar, só porque ele ainda não descobriu que eu, para seu desgosto, também gosto dele doce. Estendi os braços para papá Clark e ele me deu um abraço unilateral enquanto continuava a prestar atenção à comida no fogo. — Pai, preciso de trocar a pintura do teto do meu quarto.
— Sim, podemos ver isso no fim de semana. — Bruce disse sem tirar os olhos do jornal.
— Bruce querido, você precisa parar de mimar Chloe assim. — papá se vira para mim — Na última quinta vez que você reformou o seu quarto não tinhas dito que era a última vez e que segundo as tuas próprias palavras “eu preciso de um teto com a estética do palácio de Versalhes se não eu vou morrer”, ou estou enganado?
— Pai, não escutes o papá! Eu vou morrer agora se eu voltar a acordar com falta de ar e ter que olhar para anjos querubins todos de bem com a vida — fiz cara de coitada e passei um dos meus cachos brancos para trás da orelha. — Tinham patos superinteligentes me perseguindo, patos! Os patos tinham armas de fogo pai, está cada vez mais real e eu não aguento mais.
— Achei um motivo bem plausível.
— Pelo amor Bruce você teria aceitado qualquer coisa que ela tivesse dito. Deixa isso para lá. Você voltou a ter pesadelos? — Ele parou de prestar atenção à comida no fogo para fazer contacto visual.
— Eles nunca pararam, quer dizer os pesadelos sim, mas esses sonhos lúcidos super vividos dos quais eu não consigo sair são sempre constantes. E eu realmente não aguento mais olhar para o meu teto então por favor? — fiz a minha melhor cara de cão sem dono para fazer papá mudar de ideias.
— Não, mudar a decoração do teu quarto não vai fazer você parar de ter pesadelos, tens certeza de que não queres voltar a falar com o Dr.Nozick?
— Não! Se eu voltar a ouvir aquele homem sugerir que os meus pesadelos são trauma de abandono eu vou me atirar no rio Gotham e ficar por lá. — vou me sentar ao lado de Bruce a revirar os olhos, enquanto ele finge não achar engraçada a minha piada depreciativa — Como é que patos raivosos assassinos se relacionam com o facto de eu ter caído do espaço aos cinco anos?
Clark suspirou para demonstrar que não queria discutir sobre isso e voltou a sua atenção para a frigideira. Comeco a me servir quanto o silencio volta a ser preenchido
Onde está Damian? Ele nunca acorda tarde. — por falar no diabo, Damian entra pela porta e me olha de cima abaixo com o tom mais julgador que consegue e eu já tento me preparar mentalmente para qualquer ataque.
— Sabes que faz mais ou menos uns 95 anos que os corretivos existem não? — disse cheio de deboche apontando para as minhas olheiras.
— Sabes? Para uma criança arabe estás a ser completamente racista, tendo em conta que só fazem uns seis anos que tem para a minha pele. — estreitei os olhos enquanto erguia uma sobrancelha e dava um sorriso de canto de boca.
— Mas existem, não existem?
Ele deu o golpe final, parti para cima dele o empurrando contra a parede, quando ele ia se defender, o Papá Clark entrou no meio e nos obrigou a ficar longe um do outro. Enquanto isso Bruce só olhava e fingia decepção.
— Chega! O que eu disse sobre vocês brigarem? — ele manteve os braços estendidos nos separando porque o Damian ainda queria a sua vez, e eu ainda estava com muita raiva. — Querem saber, nada de pintura nova para a Chloe e nada de ida ao Zoo para o Damian. E isso não está aberto a discussões.
— Mas isso não é justo — eu grito — Foi ele que começou!
— É ela que não sabe lidar com criticas construtivas e surtou. Não é justo PARA MIM.
— Olha a audácia!
— Se o vosso pai disse que chega é porque chega.Vamos peguem numa maçã, parem de gritar e vão já para o carro, o Alfred já vai vos levar para a escola. — Bruce finalmente decide intervir, Damien pega numa fruta e vai andando para fora da sala de pequeno almoço, gritei de frustração e sai sem pegar a porcaria da fruta.
— Filha espera leva…
A última coisa que eu senti antes de começar a cair em queda livre foi a mão de papá nas minhas costas.
