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Uma música suave tocava, vinda da vitrola. Era como o som das ondas quebrando e os ventos balançando os cristais dos mensageiros dos ventos nas janelas, tudo isso entrelaçado com os acordes de um piano suave.
Está chovendo a exatamente três dias, sem descanso. As plantas na estufa estão lindas, mas parecem tristes, sentindo falta do sol e seu calor.
César não consegue se importar o suficiente com a falta do sol, no entanto.
Todos os dias da última semana, ele fez de tudo para se manter ocupado naquela pequena ilha. Limpou os ninhos de aranhas dos cantinhos escuros, reorganizou o depósito de sementes, limpou toda entrada da estufa até a costa cheia de pedras e até podou todas as plantas da estufa — que não eram poucas.
O rapaz estava quieto, concentrado demais em terminar de tirar as folhas secas que estavam soltas escondendo as raízes da pequena planta carnívora para notar a presença fantasmagórica e brilhante se aproximando por trás com um sorriso suave.
“Você já está tão bom nisso.”
Ele soltou um grito, espetando o dedo em um espinho da planta.
— AI! Mãe!
Carrancudo, ele se virou para encarar sua mãe com um beicinho irritado. A planta em suas mãos abriu a boca cheia de dentes e começou a gargalhar e ele revirou os olhos.
— Você não pode aparecer assim… Eu podia ter derrubado sem querer. — ele bufou, cansado, se afastando da mesinha para subir até as prateleiras mais altas. Os ramos do chão se animaram com sua aproximação e formaram folhas grandes o suficiente para que ele subisse, como uma pequena escada florida, — Mas sim, estou bom nisso. Quase tão bom quanto você, né?
Ela o acompanhou, os seus cabelos tremulando como uma trilha de neblina matinal atrás dela, cintilando em alguns pontos, e ficou observando seu filho trabalhar. Quase translúcida, ela se debruçou sobre a pilha de vasos de cerâmica organizados por cores enquanto o homem de cabelos compridos organizava as prateleiras de plantas carnívoras de forma meio obsessiva.
Espectros não falavam muito, como era de sua natureza, mas com o tempo se esgotando, ela vinha falando cada vez menos para a tristeza do homem. Quando ela morreu, ela se lembrava de quanto tinha sido difícil, ter que ver seu filho lidar com tudo sozinho. Ela era apenas uma brisa fraca, comparada a si mesma em seus dias de glória.
— A senhora devia parar de fazer isso e poupar suas forças…
A ampulheta de pedras preciosas pendurada no alto perto do teto translúcido de cristal da estufa estava quase em seu fim. Um lembrete inconfundível de que assim como a vida, a existência também era um sopro curto incapaz de durar para sempre.
Ele parou, olhando para cima. Queria gritar aos quatro ventos, amaldiçoar as estrelas, quebrar a ampulheta, fazer qualquer coisa por mais tempo com sua mãe.
Às vezes, quando ela desaparecia para passear na enseada, ele ficava pensando: as tesouras de prata eram compridas e afiadas o suficiente para cortar até raízes profundas. Se ele as usasse em si mesmo, se cortasse ao meio o fio sutil de vida que o mantinha preso naquele corpo, será que as estrelas o permitiriam acompanhar sua mãe naquela travessia? Ele tinha a impressão que já sabia a resposta.
De qualquer forma, não importava. Ele era um garoto num corpo de um homem, covarde demais mesmo para morrer. Não queria viver sozinho naquela ilha minúscula rodeado apenas por ondas calmas e plantas com vida própria.
— Já tá quase na hora… Vou posicionar as oferendas.
“Cesar.”
— Eu sei, eu sei. Fiquei adiando isso tempo demais e você precisa das suas coisas para fazer uma travessia tranquila. Merda…
Ele pegou o cesto perto do Poço de águas risonhas, ignorando as bolhas que flutuavam naquela parte da estufa sempre rindo das piadas que borbulhavam umas para as outras e começou a recolher os objetos pessoais da sua mãe.
Ele era um filho horrível, terrível.
Espectros sem oferendas feitas a tempo da travessia tinham uma viagem difícil e triste. Ele sabia disso e mesmo assim, deixou tudo para última hora — a caixinha de música dela ainda estava suja, as velas estavam espalhadas de qualquer jeito em lugares que ele nem lembrava direito, a coroa de flores que ele trançou estava incompleta e meio murcha. Ele faria sua mãe sofrer ainda mais, só porque era infantil e não estava pronto para deixar ela ir. Ela ia o odiar para sempre, e nunca ia o visitar em seus sonhos depois que chegasse ao Plano superior e talvez até se esquecesse dele e-
“César.”
Ele parou. Em meio a sua crise, ele acabou quebrando algumas velas e amassando algumas das violetas da coroa de flores, mas ele olhou para trás, de onde sua mãe o chamava há provavelmente bastante tempo.
Com uma expressão preocupada, ela se aproximou.
— Desculpa, mamãe.
Ela assentiu, dando todo tempo que ele precisava para chorar.
Quando conseguiu respirar direito de novo, segurou o cesto com as duas mãos e suspirou. Sua mãe não o odiava. Era a pessoa mais bondosa e paciente que ele já conheceu. Mesmo que César fosse um filho horrível, ele sabia que ela preferia não acreditar nisso.
— Eu… Eu não tô pronto pra isso ainda.
A chuva lá fora começou a fraquejar, pois as gotas de chuva estavam mais suaves, sem fazer tanto barulho contra o vidro.
Cláudia sabia de tudo, mesmo antes que seu filho dissesse. Quando ele tomou coragem o suficiente para terminar de recolher os materiais da oferenda e sair da estufa, ela o seguiu logo atrás.
Sua figura violeta suave se manteve flutuando acima de sua cabeça sob a chuva fraca e a neblina do início do cair da noite durante todo caminho até a encosta. Lá embaixo, perto de onde as ondas quebravam e se desfazia em espuma brilhante, as Faíscas eram como pequenas criaturas nas cores do arco-íris, pulando as ondas alegremente — outro sinal de que o tempo estava passando, pois as criaturinhas alegres eram as almas dos não nascidos e dos animais, que vinham acompanhar os novatos na Travessia.
No meio da areia branquinha, as ruínas de um gazebo de pedras brancas se destacavam. Muitas flores cresceram ali naquela estação, o que fez os besouros brilhantes ficarem voando ao redor delas, dançando em pares.
César se ajoelhou na frente da bandeja de cristal. Posicionando as velas, ele se ocupou em arrumar o pequeno altar — um porta retrato de sua mãe o segurando no colo, a caixinha de música dela, quatro moedas de bronze, sementes de violetas, pequenas margaridas e o relicário encantando de sua mãe que nunca abria. Tudo que ela precisava. No fim, ele colocou a coroa de flores ao redor de tudo.
Não teve forças para se levantar ou erguer a cabeça, com medo demais de como seria no futuro, de como sua mãe estaria olhando para ele agora como se ele não fosse um homem crescido.
“Você não vai estar sozinho, César.”
— Esse papo de que você sempre vai estar comigo não vai funcionar…
Ela sorriu, balançando a cabeça. Ao lado dele, ela se abaixou e beijou sua testa. Ele quase conseguiu sentir o toque dela, como um fantasma, mas era apenas sua mente miserável o consolando. As lágrimas voltaram com tudo outra vez, caindo como a chuva ao redor dele.
Um trovão forte o fez estremecer. Era a hora, ele sabia.
— Eu te amo, mãe.
Ela assentiu e sorriu, sem precisar de palavras para que seu amor fosse sentido.
As Faíscas se animaram, rodeando as oferendas, a figura oscilante de Cláudia e invadindo o gazebo. Um vento forte os envolveu, espiralando até que um feixe de luz cortasse as nuvens negras.
Com um aceno, ela se afastou e subiu — suas oferendas flutuando junto com ela até que ela sumisse. As nuvens se fecharam de novo, restando apenas o vazio no peito de César e o frio agarrando seus ossos.
Ele ainda ficou encarando o ponto no meio das nuvens. Como se a qualquer momento, ela fosse voltar.
O cabelo de César ficou completamente molhado.
E ela ainda não tinha voltado. Ela não ia voltar. Nunca.
O vento uivou mais alto enquanto ele tropeçava em direção a beira do mar, seus soluços mal sendo ouvidos sob o barulho do céu em sua tristeza.
No entanto, um movimento na água foi tudo que ele precisou para se levantar com tudo. Algo boiava na água — não, não algo. Alguém.
Entrou nas águas geladas, lutando contra as ondas com os pensamentos agitados.
Era impossível sair daquela ilha de barco, então ele acreditava que o mesmo se aplicava ao chegar. Afinal, os ventos nunca empurravam as embarcações e as ondas tinham o hábito de engolir os navegantes atrevidos como punição. Aquela figura, quem quer que fosse, iria morrer, porque chegar ali boiando era nada mais do que um milagre depois de um ato de imprudência.
— Ei!
Ele cuspiu toda água que entrou na boca enquanto ele nadava até lá, os dentes batendo de frio. Agarrou o corpo na água pelas roupas, se esforçando para o levar até a costa, já que ele não era tão forte quanto gostaria de admitir.
Fora da água, o corpo que ele arrastou para fora ficou dez vezes mais pesado. Exausto, ele se jogou na areia ao lado dele por alguns minutos enquanto recuperava o fôlego e então só depois pôde, finalmente, encarar quem ele trouxe até lá.
Era um rapaz. Um rapaz tão bonito que, por um instante, César teve a impressão de estar diante de um dos anjos das histórias que sua mãe lhe contava — mesmo com as roupas reduzidas a trapos encharcados, a barba curta e desalinhada cobrindo o queixo, os cabelos negros grudados à testa.
Uma cicatriz em forma de X cortava sua bochecha, e isso bastou para despertar a preocupação de que ele estivesse machucado em algum outro lugar. Ainda assim, quando César encostou o ouvido em seu peito, encontrou o que mais precisava: uma respiração fraca, mas constante, e um coração que, embora lento, continuava batendo.
A chuva começou a diminuir, conforme os pensamentos confusos dentro da cabeça de César aumentavam. As pessoas não simplesmente apareciam do nada, mas aí estava esse cara, uma prova incontestável de tudo que ele pensou ser impossível.
O rapaz abriu os olhos lentamente e tossiu a água para fora dos pulmões com um chiado doloroso. César se inclinou para ampará-lo e, no instante em que seus olhares se encontraram, um brilho multicolorido reluziu por um breve segundo.
Foi então que ele viu.
Pendurado no pescoço do rapaz de feições gentis estava o relicário encantado de sua mãe.
Quando ele tomou o pingente nas mãos, delicadamente, o fecho se abriu. Em um pequeno bilhete rabiscado com uma caligrafia delicada que ele reconheceu imediatamente, as palavras fizeram seus olhos começarem a transbordar de novo.
“Você nunca estará sozinho, eu prometo, César.”
