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Naquela manhã, a Ordem tinha convocado ele e alguma parte do pessoal para lidar com etapas burocráticas de relatórios de missões.
Não tinha nada de novo nisso, honestamente.
Kaiser estava na mesa, gerando novas combinações de evidências com o sistema. Era uma boa forma de testar a nova atualização que ele fez ontem, agora que novos relatórios das missões que alguns novatos — bem, aqueles que sobreviveram — entregaram naquela manhã.
Ao lado dele, o namorado estava organizando informações de novas criaturas de missões em lugares completamente opostos, o que era algo incomum demais por ser uma criatura única e que aparecia em circunstâncias paranormais específicas que não foram respeitadas desta vez. Agora, apareceram quase ao mesmo tempo em lugares diferentes e eles precisavam entender o porquê e quais seriam suas fraquezas.
Joui não era exatamente um gênio, mas ele ótimo em analisar esse tipo de informação. Ele só não gostava de ter que consultar ocultistas da base às vezes, quando ficava difícil demais resolver sozinho.
No momento em que o programador estava prestes a abrir sua terceira lata de energético, Joui recebeu uma ligação.
Isso sim era novo.
Joui mal respondia suas mensagens, imagine atender o celular. Às vezes, Kaiser acreditava que o jeito mais efetivo de falar com ele seja apenas pessoalmente, mas surpreendentemente o ginasta conferiu o número e atendeu.
— Hum? Moshi moshi…
A curiosidade fez o hacker se erguer um pouco, ajeitando a coluna dolorida para ouvir melhor mesmo que ele não entendesse porcaria nenhuma que Joui estava falando em japonês.
Nos primeiros trinta segundos ele só ouviu, tenso. Depois, o homem se levantou e começou a assentir, pálido, enquanto dava respostas curtas em sua língua materna. O barulho dos passos de Joui para lá e para cá deixou Kaiser ansioso.
Se ele estava conversando em japonês significava que era a família dele. Além da irmã, Joui nunca falava muito de sua família e Kaiser estava tranquilo com isso — se o silêncio deles deixava o namorado feliz, e ele consequentemente também ficava. Costumava ser assim: Joui mal falava com eles e eles mal lembravam que Joui existia.
— Jou?
Meio perdido, Joui ficou parado na frente da mesa depois que a ligação terminou, em silêncio. Parecia estar encarando algo além dos papeis espalhados por ela. Kaiser se levantou e foi até ele, com um toque suave em seu ombro.
— Oi.
Ele arqueou uma sobrancelha. Joui soltou um longo e exausto suspiro.
— Desculpa. É um problema de família.
— …Muito pessoal?
— Tenho que pegar o próximo vôo para o Japão. O irmão mais novo do meu pai acabou de falecer.
— Oh.
Cada coisa que ele considerou fazer soava como uma ideia pior que a outra. Tentar consolar Joui parecia uma piada, não só porque Kaiser era terrível nisso, mas porque o ginasta não parecia triste. Talvez chocado, definitivamente nervoso, mas não exatamente triste ou de luto. Depois, perguntar se estava tudo bem também parecia uma pergunta idiota, por que alguém da família dele tinha literalmente morrido.
— Desculpa por deixar mais trabalho pra você cuidar sozinho, Kai.
— Tentando se livrar de mim? Eu vou a qualquer lugar com você.
— Mas… Meus pais são complicados. E está no final do verão, é quase outono. E se você ficar com muito frio? Tem certeza que pode deixar tudo aqui e viajar comigo?
O rapaz mais velho deixou a mente de Joui vagar. Suas preocupações tinham um pouco de fundamento, é claro — mas pensando sobre isso, Kaiser não conseguia ficar nervoso por agora, sabia que era ele que precisava oferecer apoio. Ele desligou o computador, cobriu o teclado, colocou a cadeira no lugar e vestiu o casaco antes de se aproximar de Joui, com as mãos nos ombros dele, uma de cada lado.
Joui interrompeu seu monólogo ansioso por um instante e olhou para o namorado com preocupação resignada.
— …Tem certeza que é isso que você quer?
— Tenho. — ele murmurou, fechando os fechos do casaco do outro com uma casualidade praticada — Vamos. A gente manda uma mensagem pro Arthur no caminho pro aeroporto.
— —
Durante o voo, Joui passou quase todo o tempo cochilando. Kaiser, por outro lado, aproveitou para terminar Zelda: Tears of the kingdom no seu Switch e assistir a um musical ruim que encontrou no catálogo da pequena televisão embutida na poltrona à sua frente.
— Você devia dormir… Ainda vai ter que lidar com o jetlag, você sabe…
O japonês abriu os olhos cansados só para espiar o namorado sentado na janela ao lado dele, apertando um monte de botões naquele negócio barulhento azul e vermelho dele. Pelas suas contas, em seis horas eles finalmente iam pousar em Yokohama onde seu tio vivia e cerimônia seria feita, então ele achou melhor tentar convencer ele de guardar o videogame e descansar.
— Cê tem tão pouca fé em mim assim?
— Seu idiota, você vai ficar morrendo de sono…
— Não vou não.
Quando saiu do avião, Kaiser quase desmaiou de sono e acabou esbarrando numa senhora na fila de despachante das malas. Ele ficou envergonhado e comprou o café mais forte que conseguiu encontrar no aeroporto antes de irem.
Joui riu tanto daquilo durante o trajeto de táxi que chegou a chorar. Kaiser sabia que ele jamais o deixaria esquecer aquilo.
— —
O clima só ficou estranho mesmo quando chegaram à residência dos Jouki. Ele sabia que a família dele tinha uma vida confortável, afinal, ele tinha alguns costumes estranhos com etiqueta e muita formalidade quando estava lidando com pessoas estranhas fora das missões, mas isso era diferente. A casa era enorme, toda murada com aqueles muros de telhados azuis bonitos que ele já viu em alguns filmes.
Uma senhora de vestes escuras e olhar evitativo surgiu assim que eles desceram do carro, como se estivessem esperando por ele logo do outro lado do portão de entrada. Ela e um homem cabisbaixo, levaram as poucas bagagens dos dois depois de um cumprumento formal em japonês que o homem mais velho não entendeu nada.
— Joui, essa casa é enrome… Por que dabos você não disse que sua familia era assim?
— Tecnicamente, é a casa de verão da minha tia. É um pouco menor do que a casa normal deles em Tokyo…
Kaiser escondeu o rosto nas mãos para soltar um suspiro frustrado e Joui inckinou a cabeça com um sorriso suave ao trazer ele pelos ombros para finalmente entrar na casa.
O jardim estava como Joui se lembrava — o lago cheio de carpas, as árvores bem podadas, o caminho de pedra cortando o espaço pelo meio da grama baixa e a pequena ponte de madeira sobre o lago pintado com detalhes em azul como os telhados. Quando criança, ele veio ali algumas vezes para passar tempo com os primos durante as comemorações de ano novo, mas eram memórias distantes demais aquela altura.
— Meu Deus, tem peixinhos vivos aqui, Jou… É lindo.
Kaiser parou no meio da pequena ponte, apontando a câmera dele para a água antes de tirar uma foto. Joui fez uma careta.
— Kai, é melhor guardar a câmera um pouco. Isso pode soar um pouc—
— Joui.
Uma mulher surgiu do quase absoluto nada, assustando os dois com uma saudação nada calorosa. Ela começou a falar com Joui, ignorando Kaiser como se ele fosse um fantasma mesmo sem entender nada do que ela dizia em japonês, Kaiser se sentiu constrangido de ter sido pego tirando fotos da casa da família esquisita do namorado quando estava lá para o apoiar em um momento delicado.
— Quanto tempo, filho. Não sabia que ao ser convidado para a cerimônia fúnebre do seu tio, você considerasse uma boa ideia trazer um turista para nossa casa.
Ao lado dele, o programador sentiu o ginasta ficar tenso. Joui se curvou educadamente para a mulher. Ela tinha os mesmos olhos infantis que ele, mas havia algo diferente neles — eram mais escuros, quase sem brilho. Um reflexo perfeito de suas palavras.
— Oi, mãe. Não trouxe um turista… Este é meu parceiro, Kaiser. Kaiser Cohen. — o rapaz trouxe o outro para mais perto, segurando sua mão. A mulher não expressou nenhuma reação além de erguer uma sobrancelha, então Joui continuou, — Sinto muito por não ter avisado que ele viria, simplesmente não houve tempo.
— Parceiro? Você nunca mencionou isso antes.
— É recente.
Uma mentira, ele sabia, mas era melhor do que lidar com as perguntas da sua mãe. Vestida em seu mofuku escuro, sua mãe parecia mais cansada do que no dia que ele se foi. De alguma forma ele sentia como se estivesse a decepcionando de novo, mas não disse nada. Não faria nenhum bem.
A ausência das joias que ela gostava de usar o fez se lembrar do motivo dele ter vindo ali.
— …Seja bem-vindo a nossa casa, Cohen-san.
Kaiser estava inquieto. Ele não precisava saber japonês fluente para entender o teor da conversa — a postura estranhamente formal de Joui com a mulher, as semelhanças no rosto dos dois e o olhar frio dela na direção a ele, tudo entregava que ele era o assunto daquela conversa estranha entre mãe e filho. Ele achou estar preparado para tudo, mas quando ela falou com ele em português com um sotaque forte e uma expressão menos agressiva, sua postura vacilou.
A matriarca saiu andando em seguida, a barra das suas vestes de seda fúnebres arrastando no chão e seus tamancos silenciosos a acompanhando até que ela desapareceu dentro da casa, sem esperar a resposta de ninguém.
— Não sabia que sua mãe falava português…
Ele se virou para o amado, que estava tão surpreso quanto ele.
— Nem eu…
Ele achou que sua mãe odiava tudo relacionado ao exterior. Ela não falou com ele quando saiu de casa. Não queria nem falar com ele quando ele ligava para a irmã. Saber que em sua ausência ela se preparou para conversar com o filho, fez o ginasta reconsiderar os motivos do silêncio de sua mãe.
A mulher em seus pensamentos amaldiçoou a si mesma. Que tola ela era, aprendendo uma língua na esperança de receber uma carta, um cartão ou qualquer mensagem de seu filho mais velho. O que era uma bobagem — seu marido nunca deixou que ela ligasse para Joui de qualquer forma.
Se pudesse, ela riria de ver até onde ela foi, movida pelo medo que ele pudesse ter se esquecido de algo como sua língua materna.
— —
Na entrada da casa, dois empregados de roupas simples pareciam mais amigáveis e sorriam quando Joui entrou. Lá, uma garota muito bonita estava esperando por eles.
Kaiser mal tirou os sapatos antes que ela se aproximasse correndo, abraçando ele o Joui com força. Ela sorria de orelha a orelha, vestida praticamente igual a mãe. A diferença é que seu penteado era um pouco mais elaborado, usando uma presilha prateada com detalhes brancos em pérolas.
Alegre, ela também cumprimentou o programador como uma pessoa normal faria, sem muitas formalidades. Era bom ver que pelo menos alguém naquela casa não agia tão diferente do que ele estava acostumado.
— Ei, Junko. Também senti saudades…
Era um lado de Joui que Kaiser não tinha certeza do que pensar sobre. Ali, mesmo ao lado de sua irmã, ele automaticamente assumiu uma postura contida e melancólica — não era seu Joui curioso e dramático por natureza, era um irmão mais velho cheio de saudade e um filho distante carregando o peso de ser algum tipo de fracasso que Kaiser ainda não compreendia completamente.
Mesmo os empregados da casa pareciam evitar ficar muito tempo perto do recém chegado. No começo Kaiser achou que o problema fosse ele, mas enquanto andavam pelos corredores longos guiados por Junko e sua falação incansável, os familiares de Joui o olhavam com uma reprovação silenciosa que ele parecia bom demais em ignorar.
— Vamos passar só essa noite aqui, depois podemos ir. O velório vai começar em breve, então… Vai encher de gente aqui. Preciso me vestir.
Joui colocou a mala perto da janela do quarto que recebeu, a abrindo para tirar algumas coisas. Ele tirou algumas roupas e a pendurou no armário apenas para manter tudo arrumado.
— Hum, Joui, por que diabos o velório acontece na casa?
— Honestamente? Eu acho que é por que o vovô não sai de casa. É simples fazer os funerais em um salão como todo mundo, mas minha família é tradicional demais às vezes.
Enquanto o ginasta mexia na cômoda do quarto, Kaiser se sentou na cama. Lembrou da situação estranha no lago com a mãe dele — que péssima primeira impressão ele tinha dado à sogra…
— Desculpa por mais cedo… Eu me empolguei. E ainda passei vergonha na frente da sua mãe.
O japonês parou, trazendo consigo um par de vestimentas pretas e duas faixas brancas bem dobradas e engomadas que provavelmente foram deixadas ali pensando nos dois. Ele se sentou ao lado dele, segurando a mão dele com carinho.
— Ah, Kai, nunca dá pra saber o que minha mãe pensa. E não se preocupe, você não passou vergonha. Eu devia ter explicado melhor como isso funciona… — fazendo uma pausa, ele colocou o cabelo do namorado atrás da orelha e sorriu, antes de colocar uma das vestes no colo dele, — Tem alguma pergunta?
— Tenho. Como funciona o funeral? Eu tenho que vestir… Um kimono preto?
A expressão dele mudou de preocupada para confusa ao desdobrar uma parte da seda preta.
— Um mofuku. E sim, precisa. O funeral é… Um monte de gente importante e familiares próximos juntos fazendo oferendas, alguns discursos e esperando que o sacerdote termine tudo.
— Eu preciso dizer alguma coisa?
Joui balançou a cabeça devagar e se levantou. Ele começou a tirar o casaco e a jaqueta do parceiro casualmente, rindo um pouco do nervosismo dele.
— Não ria de mim Joui, é sério! Eu não quero fazer nada errado!
— Você nem vai fazer nada… Relaxa.
O toque em seu rosto foi gentil quando as mãos calejadas do samurai ergueram o rosto de Kaiser. Seus lábios se encontraram em um beijo lento, tranquilizando ambos os corações sem precisar de palavra alguma.
— Tudo bem. Eu confio em você.
Kaiser sorriu, sua mão descansando por um instante na do outro.
Ele deixou que Joui o ajudasse a tirar o casaco e ajeitasse suas roupas, apreciando aquele tipo de intimidade tranquila que existia entre os dois. Havia algo reconfortante no toque cuidadoso e afetuoso sobre cada cicatriz, no modo como Joui se preocupava em mantê-lo aquecido e confortável.
Kaiser retribuiu o cuidado, ajudando-o a se vestir sem pressa. Eles talvez não tivessem todo o tempo do mundo, mas aquilo não importava naquele momento.
Alguns minutos depois, os dois estavam vestidos como esperado. O kimono de Kaiser era em cores pretas e marrons, quase igual ao de Joui, presos em uma faixa branca muito bonita que combinava com o hakama cinza escuro. As meias eram quentinhas, pelo menos, mas na parte superior de Joui, estavam estampados em branco cinco símbolos muito bonitos que ele explicou serem os brasões da família.
Um lembrete grande o suficiente para nunca mais Kaiser se esquecer o quão ricos e poderosos provavelmente eram os Jouki.
Mal podia esperar para voltar para casa e para a vida simples ao lado do namorado: combater monstros, salvar pessoas e às vezes, quem sabe, ter uma refeição decente quando o dia terminar.
——
O salão cabia definitivamentea lgumas dezenas de pessoas. Grande e amplo, o cômodo estava quase cheio, com almofadas no chão diante do altar e do caixão fechado.
Muitas pessoas já estavam lá dentro, sentadas e em silêncio, acendendo incensos. Algumas até choravam, conversando mais baixo.
— Kono tabi wa goshūshō-sama desu.
Joui ofereceu um envelope em branco na recepção, antes de entrar, junto com suas condolências. A tia dele, que estava recebendo todos, agradeceu com um beijo educado nas mãos dele e voltou a chorar baixinho.
Kaiser teve pena da mulher. Ela parecia a única a estar triste de verdade.
— O que era naquele envelope? — Kaiser perguntou baixinho, cochichando enquanto entravam na sala, tomando um lugar nas primeiras fileiras perto do altar. Joui segurou a mão dele o tempo inteiro, e o respondeu baixinho assim que eles se acomodaram em seus devidos lugares.
— Um pouco de dinheiro. Se chama kōdenbukuro, como forma de dar as condolências.
O japonês se arrumou em seu lugar, mantendo a postura impecável. Perto do altar, seu pai estava terminando de colocar alguns arranjos de lírios brancos perto do retrato do irmão, com um rosto impassível. Mesmo depois de perder alguém tão próximo, ele não tremia ou vacilava. Sua calma parecia manter todos calmos também — exceto pela esposa do falecido, claro.
Era tudo um pouco exagerado. A iluminação, os grandes arranjos de crisântemos, as garrafas de bebidas colocadas como oferenda no altar, o caixão preto de material reluzente; para Kaiser, tudo parecia exagerado. Não porque houvesse algo de errado com a cerimônia em si, mas porque aquela família parecia incapaz de fazer qualquer coisa sem transformá-la em uma demonstração de poder.
Por um segundo, o olhar dele e do pai se encontraram e ele soube imediatamente que toda aquela arrogância era de propósito. Uma demonstração clara a todos os homens de negócios que entre os convidados que mesmo perdendo alguém importante da família, eles não tinham com o que se preocupar.
Ele cerrou o punho com força, mantendo a vontade de vomitar sob controle.
Seu pai sentou à direita dele, seguido de sua mãe, sua irmã, seu avô, sua tia e os filhos dela. Com todos enfileirados, o sacerdote entrou e iniciou a cerimônia.
No único assento à sua esquerda, Kaiser se manteve como uma presença tranquilizadora.
——
Eram quase oito horas da noite quando os últimos familiares terminaram as oferendas depois do rito e como de costume, todos saíram. Na sala principal da ala leste da casa, um pequeno jantar de agradecimento estava sendo servido pela senhora da casa e mesmo que o clima ainda estivesse mórbido, todos conversavam entre si, os rostos tristes. Kaiser sentia que estava em um ninho de cobras que viviam rodeados de falsidade e decoração cara.
— Joui. Você não disse que ia ter um jantar depois! — ele resmungou, puxando o namorado para um canto mais afastado. Joui coçou a nuca, procurando uma desculpa, mas o mais velho foi mais rápido em continuar, — Achei que a gente ia poder finalmente dormir.
— Não queria que você ficasse nervoso sem necessidade…
— SEM NECESSIDADE?
— Joui.
Uma terceira voz, fria, firme e sem paciência cortou a conversa dos dois. As roupas dele eram iguais às dos outros da família, mas os cinco brasões da família eram bordados em dourado em seu kimono fúnebre. O homem mais velho estava segurando uma xícara de saquê em mãos quando se aproximou do filho.
Aquele homem, com uma mão no ombro de Joui, fez o ginasta recuar um pouco. Quase imediatamente, Kaiser ficou tenso e deu um passo à frente, sem se importar se achariam isso rude ou não. O Jouki mais velho agiu como se ele fosse invisível.
— Sei que você é terrível nisso, mas faça o favor de se comportar como um Jouki até a hora de ir embora. Não cause mais problemas, não agora. Você já nos envergonha o suficiente mesmo quando não está aqui.
Colocou a bebida na mão do filho, como se estivesse esperando alguma coisa.
— Eu-
O ginasta se calou, esquecendo-se de usar a língua materna e engoliu em seco.
— Eu compreendo, pai. Como o senhor está?
— Bem. A família vai ficar bem. A maior parte de nós é resiliente.
E foi embora, juntando-se aos outros convidados.
— O que foi isso? Tá tudo bem, Jou?
O ginasta respirou fundo, tomou a bebida em um único gole rápido e beijou a testa de Kaiser com os ombros curvados de cansaço.
— Vai ficar. Só mais uma hora.
Felizmente, eles eram pontuais. O programador observou e comeu por quase uma hora enquanto alguns tios, colegas de trabalho do pai e primos de Joui o cumprimentavam e perguntavam como as coisas estavam, o que era engraçado. A resposta era sempre a mesma, sobre treinamentos, uma lesão que fez ele fazer uma pausa, qualquer coisa que os afastasse da verdade, porque ele definitivamente não era apenas um ginasta. Não mais.
— Você está ficando bêbado.
O homem de cabelos compridos murmurou, os olhos vagando pela expressão estranha no rosto do asiático. Seus passos eram lentos, e suas respostas em japonês começaram a ser interrompidas por soluços uma vez a cada três frases. O que fazia sentido levando em consideração que depois da sexta dose de saquê, Kaiser desistiu de contar mas o outro não desistiu de beber.
Quando ficaram apenas os familiares do círculo próximo, todos deixaram as bebidas e conversas melancólicas e se retiraram para os quartos de hóspedes, ficando só eles e Junko.
— Ei, Jojo, cuidado…
Joui soluçou, mal notando o namorado o amparando depois de tropeçar.
— Não se preocupe. Ele quase sempre faz isso quando tem que lidar com o papai.
Junko interveio, o ajudando com o corpo pesado do irmão pelo outro lado. Era reconfortante ter alguém falando algo que ele entendia naquela família, mas sua mente ficou em outra coisa completamente diferente: era sempre assim. Joui sempre se gabou de não fazer esse tipo de coisa, não fazia sentido.
— …Não o julgue tanto. Não estou dizendo que ele é alcoólatra, mas lidar com os nossos familiares todos de uma vez é um pouco cansativo. — a jovem se apressou em acrescentar, ao notar o silêncio de kaiser. Ela abriu a porta do quarto onde tinham ficado suas coisas, deixando um espaço para que eles pudessem entrar e ela permanecer na entrada. — Às vezes, eles ignoram as escolhas que meu irmão fez, achando que ele vai voltar para casa e assumir responsabilidades com a família simplesmente por estar aqui.
— Não, não é isso, só… Acho que não achei que fosse tão ruim. Eu não entendi nada do que eles disseram quando falaram com o Jou, mas não pareceu nada legal.
— Com certeza não foram. Papai deixa claro que é contra tudo que meu irmão escolheu fazer com sua vida, desde a escolha de se vestir. — ela suspirou, a mão no peito. Observou Joui se jogar na cama com um resmungo baixinho e bêbado antes de colocar a mão delicada sobre a do programador, os encarando nos olhos. — Mas com a mamãe é diferente.
Era como ver a cópia do rosto de Joui, alguns anos mais jovem, mas definitivamente tão gentil quanto. Talvez até mais. Ela tinha uma energia brilhante — quando estava perto dos outros, sabia ser exatamente o que queriam que ela fosse. A filha educada e bonita, a pretendente inteligente com uma carreira brilhante pela frente que traria prosperidade e status para sua casa. O motivo de orgulho de todos.
— Porque é diferente?
— …Não posso falar por outras pessoas. Mas eu sei que no fundo, ela está feliz. Sabia que Jojo não era feliz aqui. — ela abriu um pequeno sorriso e deu um passo para trás antes de acrescentar baixinho apenas para os dois — Sabe, quando ele escolheu ir embora, ela apenas perguntou se ele tinha certeza. Não se seria feliz, não se ele queria mais tempo para pensar ou como ele viver sozinho longe de casa. Nunca sequer fez questão de pedir que ele ficasse.
Junko fez uma reverência educada antes de dar um tchauzinho alegre.
— Muito obrigada por ser parte da felicidade do meu irmão, César-san.
Desconcertado e desconfortável, o hacker ainda ficou um tempinho na entrada do quarto antes de sair e fechar a porta.
Ele considerou vagamente que estava escuro, que já era tarde e que Joui estava dormindo em uma posição que provavelmente lhe renderia uma bela dor nas costas pela manhã. Tudo isso era importante, mas Kaiser precisava urgentemente fumar.
Quase suspirou de felicidade quando encontrou uma porta que dava para o jardim.
Sorriu ao ver os peixinhos nadando no lago lá embaixo. Por alguns instantes, tudo o que conseguiu ouvir foram os grilos e a própria respiração. Contente em ter um tempo sozinho, tirou um cigarro do bolso e o segurou entre os dentes. Estava tentando fazer o isqueiro funcionar quando uma sombra surgiu no canto de seu campo de visão.
Kaiser se virou imediatamente, mas parou no meio do movimento.
Um velho enrugado havia surgido ao seu lado. Arrastava os pés quase sem fazer barulho e, agora parado junto à ele no parapeito da ponte, o encarava com uma expressão fechada.
— Ah… Oi?
Estupidamente, o programador encarou o velho de volta. Mesmo vestindo roupas normais, ele reconheceu o patriarca da família. Durante o funeral do filho mais novo, ele se recusou a dizer algo e passou a cerimônia inteira se mantendo firme e evitando conversar demais, como se qualquer movimento em falso pudesse fazê-lo perder a compostura.
O homem não respondeu, mas fez um gesto, estendendo a mão para ele ao pedir um cigarro — que Kaiser entregou e acendeu para ele depois de hesitar um pouco.
Os dois ficaram ali fumando, até que o velho quebrou o silêncio. As palavras dele não fizeram nenhum sentido, e o programador se virou para o encarar, soltando fumaça pelo nariz. Seu rosto provavelmente o entregou, pois depois de um suspiro, o senhor tentou novamente.
— Joui wa... daijōbu desu ka?
Desta vez, ele conseguiu entender o nome de joui pronunciado devagar, mas ainda não tinha muita certeza do que responder.
— Dormindo. — Ele respondeu devagar, juntando as mãos perto da cabeça como quando se deitam para dormir.
O homem assentiu, dando uma tragada longa no cigarro. Ele tossiu um monte de fumaça antes de erguer a cabeça na direção da janela do quarto em que Joui dormia.
— Ano ko wa, mukashi kara ganko datta.
Um sorriso sutil brotou nos lábios do idoso, que sacudiu as cinzas do cigarro entre os dedos enrugados. O rosto levemente franzido pela frustração do homem de cabelos longos fez ele soltar uma risadinha antes de limpar a garganta com um pigarro rouco.
— He… Happy?
O inglês do homem era enferrujado e quase impossível de entender, mas o programador estava acostumado.
Devagar, ele assentiu, tentando entender se o velho barbudo achava que ele falava inglês simplesmente por ser do ocidente. O velho sorriu, parecendo tranquilo.
O cigarro já estava no fim quando ele fez uma reverência mínima e deu uns tapinhas nas costas de kaiser, um pouco forte demais para um velho quase com o pé na cova.
— ...Sou ka.
O momento ficou repassando na mente do rapaz. Quanto mais ele pensava sobre as pessoas naquela família, menos ele entendia.
Provavelmente era assim que as famílias funcionam em todo lugar.
Depois de mais dois cigarros, ele achou melhor voltar para o quarto. Quando encontrou a porta certa e entrou, Joui não estava mais na cama onde ele deixou e a culpa o dominou por um minuto.
Que tipo de namorado deixa o outro sozinho e bêbado depois de um dia difícil?
— Joui?
Nenhuma resposta veio, no banheiro, alguma coisa caiu no chão, seguido de um xingamento baixo.
— Ah, Joui…
O japonês estava sentado no chão do banheiro anexo ao quarto, enrolado numa toalha, com os cabelos ainda pingando depois de um banho. Kaiser se ajoelhou perto dele, erguendo o rosto vermelho e choroso para o encarar com mais cuidado.
Depositando um beijo demorado no rosto do outro, ele trouxe o namorado para ficar pé junto dele. Com cuidado, secou os cabelos curtos e o ajudou a se vestir, antes de o colocar deitado na cama.
— Desculpa.
O programador, que estava em pé no canto do quarto desatando o fecho do mofuku para vestir seu pijama quente, se virou na direção do amado com uma expressão confusa. Ele era quem devia pedir desculpas, não Joui.
— Por que você tá se desculpando? Eu que sai pra fumar e nem te avisei onde ia…
— Mas você precisava disso. Depois do que eu te fiz passar vindo até aqui comigo.
A borda da cama afundou ligeiramente quando Kaiser se sentou na cama, se aproximando do namorado até estarem deitados de frente um para o outro. Seus olhos se encontraram — os cansados de Kaiser e os avermelhados de Joui, por um pequeno instante antes que que o mais velho envolvesse o outro, o puxando contra seu peito.
Ali, naquele pequeno espaço, entrelaçados um no outro, o ginasta finalmente se permitiu chorar. Pequenos espasmos se transformaram em um choro que sacudia todo o seu corpo. Kaiser limpou seu rosto com um polegar, segurando seu rosto até conseguir encarar por completo o estado desolado do seu amado com um aperto no peito.
— Querido, você não me fez passar por nada. Eu quis vir aqui com você, então não me peça desculpas por nada, tá bom? Eu tô aqui agora.
O aperto do asiático no suéter quentinho do programador aumentou, até seus dedos ficarem brancos. Escondeu o rosto no peito dele, sentindo suas lágrimas quentes molhar o tecido. A barreira que mantinha todos os sentimentos pesados e difíceis dentro do peito se rompeu como uma corda desgastada e agora embora tentasse, não conseguia parar de chorar.
Alternando entre beijos gentis no topo da cabeça de Joui e cafunés suaves em seus cabelos, o hacker ficou ali até que o outro conseguisse se acalmar.
Foi gradual — o japonês já estava meio rouco, mas seus soluços foram aos poucos se tornando suspiros e tremores menores. Mesmo assim, nenhum dos dois se moveu por bastante tempo.
Kaiser não entendia completamente o que ele sentia, talvez nunca poderia. Mas ele sabia que o outro precisava colocar para fora, se deixar quebrar de verdade e ser alguém além do que sua família um dia esperou que ele se tornasse.
— E-eu odeio esse lugar… Odeio essa casa…
— Tá tudo bem. Não é sua casa, lembra?
A casa dele, a de verdade, era bem longe — para a qual ele felizmente podia voltar pela manhã. Para sua louça para lavar e monstros para matar.
