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Amor & paciência

Summary:

Uma oportunidade de emprego ainda é uma oportunidade, mesmo em outro país.

Incapaz de resistir a uma oferta tão boa, César está viajando para a filial de uma grande empresa de pesquisa de tecnologia e desenvolvimento de equipamentos aeroespaciais. Era um trabalho simples na rede se ciberseguranca, se o seu supervisor não fosse tão insistente e irritante. E atencioso.

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| Dia 8: Alternative Timeline AU | Prompt Challenge |

Notes:

perdi o controle da minha vida a maldição do ao3 me pegou... olha o tamanho disso pqp

aproveitem e relevem qualquer erro por favor

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Sempre que podia escolher os contratos onde ele podia trabalhar do conforto da sua casa eram sempre sua primeira opção. Ele amava isso. Mas agora, esse trabalho era diferente — mais tempo, mais complicado e valendo muito mais do que ele ganhou desde que iniciou sua carreira.

 

Não era só o dinheiro que estava envolvido aqui, sua relevância no mercado de cibersegurança definitivamente ia decolar. Além disso, como recusar? As passagens e a estadia também estavam sendo incluídas no contrato. Não havia nenhum contra.

 

Ele nem precisou pensar duas vezes. Respondeu o e-mail de proposta naquela mesma noite e na semana seguinte, ele estava finalmente pousando em solo Norte Americano, sob o céu nublado de Seattle.

 

César não trouxe muita bagagem. Embora fosse ficar por longos três meses, ele não tinha muita coisa para trazer e desde que ia ficar em um quarto de hotel durante tudo isso, quanto menos coisas, melhor. 

 

— Sim, mãe… Tá tudo bem. — Ele resmungou, fechando a porta. Acendeu os abajures ao entrar, incomodado com a luz direta do teto e tratou imediatamente de fechar as persianas enquanto ouvia sua mãe despejando suas preocupações no seu ouvido pelo celular, — Eu sei me virar, não sou uma criança… Tenho 27 anos, lembra? Além disso, eu falo muito bem o idioma daqui. Vai dar tudo certo, você nem vai sentir minha falta.

 

O programador revirou os olhos, um sorrisinho de canto surgindo em seus lábios. Pedir a sua mãe para não se preocupar era uma causa perdida, então ele apenas prometeu tomar cuidado e se esforçar como sempre.

 

Quando a ligação terminou e ele finalmente pode processar o quão longe estava de casa, respirou fundo e foi para o banheiro tomar um banho. 

 

Amanhã ele teria que comparecer na Kōshin Co. pessoalmente. Seria um longo dia.

 

[ . . . ]

 

A Kōshin Co. era um prédio exageradamente alto no meio de South Lake Union, com uma fachada bonita apesar de ser um prédio cinza como tantos outros ali. O tráfego era terrivelmente barulhento como esperado de um bairro como aquele numa cidade grande, o que César particularmente não sabia lidar.

 

Tentando escapar das pessoas apressadas andando para lá e pra cá sem se importar se estavam quase atropelando uma as outras, ele quase perdeu os fones de ouvido e o seu dedo mindinho ao atravessar a rua correndo, mas conseguiu chegar do outro lado antes que o semáforo se fechasse e o fluxo de carros voltasse.

 

Quando finalmente estava dentro da sede, o barulho diminuiu. Dentro do prédio ainda havia pessoas ocupadas caminhando de um lado para o outro sem nem olhar para frente, mas era umas dez vezes menos pior do que do lado de fora.

 

— Bom dia, senhorita… Harley. — Ele leu o nome no crachá da recepcionista de brincos exageradamente grandes antes de engolir em seco e mostrar suas credenciais provisórias.

 

A moça sorriu, amigável e pediu um minuto enquanto registrava seu crachá oficial. 

 

César não gostava de recepções. Eram muito abertas, o que fazia ele sentir que estava exposto demais ali em pé parado, chamando atenção das pessoas que passavam pela mesa alta e curva feita de um material preto reluzente. Ele tinha certeza que as pessoas olhavam para ele pelo canto do olho, o julgando por estar ali igual um idiota, como um novato óbvio que não sabia para onde ir.

 

A voz calma de Haley interrompeu ele e o batuque nervoso dos seus dedos no balcão da recepção. 

 

— Aqui, Sr. Cohen. O presidente está em uma reunião no momento, mas a equipe já está pronta para reunião com você às nove e meia. É no quinto andar, sala 12. 

 

O homem pegou o novo crachá de forma apressada e saiu andando sem nem agradecer à pobre moça. Ela balançou a cabeça devagar e voltou ao seu trabalho, ignorando o rapaz rude. 

 

Ele só notou que esqueceu de agradecer quando estava no elevador — felizmente, quase vazio — e se repreendeu mentalmente.

 

O resto foi relativamente fácil: achar a sala, se sentar em silêncio, cumprimentar os seus futuros colegas de trabalho temporários torcendo para que não notassem as mãos suadas e prestar atenção na reunião. Ele fez algumas anotações durante a reunião só para se certificar que não ia esquecer de nada do projeto principal que ele ia trabalhar, visto que realmente parecia uma coisa grande.

 

A Kōshin Co. era um grande conglomerado de pesquisa em tecnologia aeroespacial, que agora parecia investir mais em inovações maiores com inteligências artificiais. Sua sede principal era longe, no Japão, mas ali em Seattle um novo projeto estava sendo iniciado: um satélite equipado com IA que deve prever e ajudar a controlar os danos de desastres naturais.

 

— Você devia vir com a gente, lá pra cima.

 

— Hum?

 

O programador ergueu os olhos. Samuel, um dos caras que iam trabalhar com ele na programação e treinamento do sistema, falava com ele de um jeito muito simpático, o convidando para se levantar.

 

— Vem, vou te mostrar o laboratório de programação antes de você começar. 

 

Uma moça loira os acompanhou quando César concordou. Ela não falou com ele, manteve o nariz empinado, o óculos cuidadosamente equilibrado na ponta — suas postura era estranhamente reta para alguém que trabalhava com TI, mas se ela escolheu não dizer nada, ele estava satisfeito. Era um problema a menos.

 

O laboratório consistia em uma sala de janelas amplas, completamente branca do piso ao teto, com uma mesa circular ocupando o centro. Nos quatro cantos, três eram ocupados por bancadas equipadas com computadores de última geração, enquanto o quarto abrigava apenas uma porta fechada, cuja finalidade ele desconhecia.

 

 — Aquela ali é sua.

 

Samuel indicou a mesa no cantinho mais perto da porta, que estava meio vazia. Além da mesa com os computadores, tinha um gaveteiro ao lado da mesa. As outras duas mesas claramente eram ocupadas por Samuel e sua colega loira esnobe — a de Samuel estava cheia de post-its amarelos colados, o teclado brilhava com RGB definitivamente fora das normas de uma empresa comum e tinha um bonequinho decorativo perto do monitor principal. 

 

— …Ah, o Lucian.

 

Ele reconheceu o herói quase imediatamente. Samuel pareceu feliz em saber que mais alguém conhecia LOL naquele lugar, abrindo um sorriso largo, prestes a se gabar sobre suas habilidades no jogo. Infelizmente, a porta do laboratório se abriu novamente.

 

— Leticia, você viu que teve um acidente na máquina de café de novo? Vou precisar de– Ah. 

 

César observou o homem entrar, ele parecia um zumbi descabelado e com olhar cansado, genuinamente triste com o que quer que tenha acontecido com a máquina de café. No crachá estava escrito Calisto, e as olheiras na foto eram um pouco mais leves que as que ele tinha atualmente. 

 

Desajeitado, César acenou timidamente.

 

— Oi.

 

— Oi, oi… Meu nome é Calisto. Tecnicamente, eu sou seu supervisor. — Ele educadamente apertou as mãos de César, guardando o bloquinho de notas que tinha em mãos no bolso — Mas infelizmente me forçaram a tirar uma licença… Então eu não vou estar aqui por um tempinho.

 

O homem não parecia muito interessado na conversa. Ele se aproximou de Leticia, pegando a pequena garrafa de café rosa da mesa dela para tomar um pouco.

 

— Nossa, seu café é uma delícia… Você é incrível, nunca se esqueça disso, viu? — Ele sorriu suavemente para a bebida antes de pigarrear e se recompor, voltando a prestar atenção em César, — O presidente teve um imprevisto e não vai poder vir, mas o supervisor novo de vocês já deve estar a caminho. Mantenham o foco e não esqueçam de ler meus e-mails, eu vou voltar em algumas semanas assim que o RH parar com essa bobagem de burnout…

 

Depois de dar um tapinha amigável no ombro do programador de cabelos compridos, o homem ruivo saiu, levando a garrafa térmica da programadora loira e arrancando uma risadinha de Samuel. 

 

O rapaz de dreads se sentou na sua mesa, pronto para trabalhar em paz.

 

— Bem-vindo, a equipe de Desenvolvimento de Software.

 

E, enquanto Leticia saiu da sala com o salto dos seus sapatos fazendo um barulho alto demais reclamando sobre sua garrafa perdida, e César sentou na própria cadeira. Ele tinha muito que trabalhar.

 

[. . .]

 

Quando estava terminando as configurações do seu computador, ele passou a dar uma revisada no cronograma. Nisso, Samuel o ajudou muito. 

 

A verdade é que ele era alguém muito legal. Mais legal do que qualquer pessoa que César se lembra de ter trabalhado em equipe antes. 

 

Perto da hora do almoço, eles fizeram uma pausa. César soltou um suspiro ao esfregar os olhos cansados quando se viu recusando o convite de Samuel.

 

— Tem certeza que não vai se juntar a nós no almoço hoje? 

 

— Tenho algumas coisas para resolver com o RH.

 

Não era mentira desta vez, embora uma parte de si estava contente em evitar mais interações sociais. Só hoje, ele provavelmente apertou mais mãos do que faria em um ano comum, e mal lembrava o nomes deles. Eram complicados demais para que ele se importasse.

 

No RH, ele pode finalmente oficializar o contrato. A mulher sentada na sua frente tinha uma grande pinta na bochecha que seria difícil desviar o olhar se a expressão dela não fosse sempre tão desagradavel, mas pelo menos isso tornou toda a parte burocrática mais rápida — ambos queriam se livrar do outro o mais rápido possível.

 

A maior parte das cláusulas eram sobre seus deveres para com a empresa. Muitas linhas sobre o termo confidencialidade da natureza do projeto e sobre o tamanho do processo que ele levaria se decidisse vender informações ou vazar alguma coisa.

 

— Tenha um bom dia de trabalho, César Cohen. É um prazer ter você aqui na Kōshin Co.

 

Mas César era mais esperto. Não havia nada além de cortesia falsamente educada naquelas palavras.

 

Finalmente fora do setor de recursos humanos, ele voltou para o térreo, onde se lembrava de ter visto uma máquina de bebidas energéticas. Ele sorriu de alívio para a primeira coisa familiar desde que ele chegou ali.

 

— Isso faz muito mal ao coração, sabia?

 

Um rapaz definitivamente mais jovem que ele estava parado ao seu lado, com um sorrisinho. O suéter vermelho dele o destacava do restante das pessoas ali que preferiam se mesclar com as cores monocromáticas do ambiente corporativo, fazendo dele praticamente um ponto destoante em tudo aquilo. Mesmo falando em inglês, seu sotaque asiatico era forte. Não dava para disfarçar.

 

— Ah, desculpa. Meu nome é Joui Jouki. — Com um sorriso estupidamente largo, ele ensinou a cabeça para César, curioso sobre algo que ele não tinha certeza antes de apertar sua mão, — A honradíssima senhora Collins me avisou que você já oficializou as coisas… É um prazer de te conhecer!

 

César piscou várias vezes antes de segurar a mão dele de volta e apertar. As palavras eram amigáveis demais para seu cérebro entender as motivações, mas no momento ele estava meio atordoado para pensar em uma reação melhor.

 

— Espera, desculpa, o quê? 

 

— Não se preocupe. Você é César-san, né? Sou o novo supervisor da equipe de Desenvolvimento de Software.

 

O rapaz de feições asiáticas soltou sua mão, mas manteve aquele sorriso perto dele. Incapaz de entender como alguém podia ser tão estranhamente confiante, César tentou sorrir de volta antes de desviar o olhar.

 

— S-sim. Quer dizer, o Callisto me falou sobre você. — César murmurou, dando de ombros. — Não sabia seu nome, nem esperava encontrar você, senhor Jouki. 

 

— Ah, não. Nada de senhor. Por favor, só Joui.

 

[. . .]

 

Seus dias consistiam em quase a mesma coisa. Depois de uma noite de sono questionável em seu quarto de hotel, ele comprava uma lata de energético no caminho, se enfurnava na sua mesa no escritório, trabalhava até pouco tempo antes do horário de almoço, quase sempre escapava para o andar do terraço antes de ser convidado para almoçar com a equipe e depois voltava para trabalhar até um pouco tempo depois do seu horário de saída.

 

Hoje não deveria ser diferente. Samuel e Leticia já tinham saído na hora certa, e César ficou para conduzir mais alguns testes no código do projeto até bastante tempo depois.

 

— Você não gosta dos outros?

 

— Hum? 

 

De novo, lá estava Joui. Ele quase sempre estava por ali, observando e escutando os programadores, lendo e revisando por cima os relatórios de progresso. Não falava muito, mas ele podia sentir o olhar sobre ele durante alguns momentos do dia. Era suave, um olhar que César não tinha certeza do que significava.

 

— Ah, eu… Achei que você já tinha ido embora.

 

César desviou o olhar da tela do computador desligando, e se levantou da cadeira ao tentar fingir normalidade com o outro ali atrás dele encostado na parede.

 

— Eu sei. Você sempre espera todo mundo ir embora… Achei que você e Samuel fossem amigos.

 

— Hum. Somos bons colegas. Só isso…

 

César se afastou da mesa, apressando os passos com as mãos dentro dos bolsos. Joui o seguiu, curioso e insistente.

 

— Mas você nunca almoça com eles.

 

Quando alcançou a porta do laboratório, a irritação do programador estourou ele se virou apontando o dedo na cara dele enquanto gritava. Ele estava cansado de tentar continuar invisível e feliz na sua vida simples e pessoas de todos os jeitos tentarem o atrapalhar, seja despretensiosamente ou não.

 

— Você quer, pelo amor de Deus, me deixar em paz? Porra, nada disso é da sua conta. 

 

Joui parou de falar e seu rosto ficou sério. A testa franzida do programador se mantiveram por alguns segundos antes que ele se desse conta que estava gritando na cara de alguém muitos cargos acima do dele.

 

O moreno de cabelos arregalou os olhos, dando alguns passos para trás até que suas pernas travaram no meio do caminho. Quando ele estava prestes a implorar para não perder o emprego, o japonês segurou a própria barriga e começou a gargalhar.

 

— O que… O que? Quer dizer, desculpa. Eu não queria… Gritar.

 

Quando ele parou de rir, estava se apoiando na parede, recuperando o fôlego. O japonês ergueu a mão, silenciando César por um instante só para que ele pudesse secar suas lágrimas.

 

— Aí, minha nossa, eu não imaginei que você fosse simplesmente gritar comigo… Quer dizer, eu achei que você ia apenas me ignorar mas… Isso foi muito melhor. — Aquele sorriso despreocupado estava de volta em suas feições jovens, o rapaz se recompondo completamente agora — Não se preocupe, eu perdoo você.

 

— Mesmo?

 

— Com uma condição.

 

Havia um quê de travessura no seu tom que fez César se sentir mais nervoso do que quando ele pensou que seu emprego estava em risco.

 

— …Qual?

 

— Você vai me deixar te pagar uma bebida, para compensar meu comportamento.

 

[. . .]

 

Obviamente, ele aceitou o convite por puro e exclusivo medo.

 

Obviamente.

 

Joui o levou até um bar calmo do bairro, algumas ruas acima. Algumas pessoas estavam nas mesas de fora aproveitando o vento fresco do início da noite, e na parte de dentro, além de uma bartender de cabelos vermelhos e uma pequena banda de jazz no palco do canto, o estabelecimento estava quase todo vazio.

 

Apesar do silêncio entre eles durante o caminho, César decidiu tentar alguma coisa quando eles se sentaram nos banquinhos confortáveis dali.

 

— Você não tem cara de que bebe…

 

— Não bebo mesmo. — O rapaz respondeu, antes de pedir duas bebidas para a moça do outro lado. Seu sorriso não sumiu, e mesmo com sua postura excessivamente formal, seus ombros estavam mais relaxados do que o programador jamais tinha visto nas últimas duas semanas. — Mas eu me ofereci para te pagar uma bebida, seria mal educado te deixar beber sozinho, não?

 

— Uma cerveja para você e um mojito sem álcool para você.

 

Duas bebidas deslizaram suavemente pela bancada em uma manobra praticada e meio exibida da bartender — uma caneca cheia de cerveja e sua espuma branquinha até a borda e um copo de cristal meio redondo cheio de limão e gelo flutuando na bebida transparente.

 

César arqueou uma sobrancelha, sorrindo.

 

— Sem álcool? Isso não conta.

 

Orgulhoso de ter conseguido fazer o outro homem sorrir, Joui devolveu o gesto, dando de ombros antes de dar um gole em seu mojito.

 

— Claro que conta! Meu corpo é um templo, nada de álcool aqui.

 

— Aham, sei… 

 

Ele deu um risinho, satisfeito com sua cerveja bestaferamente no ponto.

 

— Porra, tá muito bom… 

 

— Eu estou perdoado por ter insistido demais em algo que não era da minha conta? — O japonês começou a descascar alguns amendoim da tigelinha na sua frente, comendo sem nenhuma pressa. Apesar de seu tom suave, por baixo disso, ele sentiu uma pontada de preocupação.

 

O japonês, por sua vez, realmente se preocupava. A última coisa que ele precisava era problemas com alguém no trabalho, além de que, fazia muito tempo que ele não saia para beber com alguém. Não desde que seus amigos começaram a faculdade, cada um em um lugar completamente oposto ao do outro.

 

— Tudo bem. Eu achei que estava indo bem evitando o pessoal.

 

O olhar do moreno se perdeu nos rótulos das bebidas atrás do balcão. Os armários de vidro iam quase até metade da parede, sem nenhum espaço vazio dentro. Bebidas importadas, nacionais e outras que ele nem podia ter certeza de onde eram enchiam o espaço e refletiam a luz quente dos lustres  foscos do salão.

 

— Estava. Tem um motivo específico?

 

— Hum, tem. Mas eu não vou dizer.

 

Joui sorriu, erguendo as mãos em rendição. Ele girou o gelo algumas vezes no fundo do copo antes de tomar outro gole.

 

— Certo, o que eu posso fazer para merecer a resposta?

 

 — Ah, isso é fácil. O que você está fazendo por aqui? Seu sotaque me diz que você é de longe mas mesmo assim, aí está.

 

— Como assim? 

 

— Callisto disse que você está substituindo ele por um tempo, mas eu fiquei curioso. O que te motivou a aceitar o emprego?

 

O japonês hesitou, o que quase fez César se arrepender de dar ouvidos a sua curiosidade.

 

— Eu to fazendo administração. Isso aqui é meio que meu estágio, entendeu?

 

César se endireitou, surpreso. Ele não parecia um estudante de administração, nem estágios eram fáceis de conseguir naquele lugar. Principalmente para o cargo que ele ocupava.

 

— Faz sentido… Você acha que vai ficar lá quando seu curso terminar? Parece uma oportunidade perfeita.

 

O programador se virou para olhar para o outro, que tinha o corpo ligeiramente inclinado na sua direção. Algo sombrio passou pelos olhos do mais jovem, mas ele soltou uma risadinha e virou seu copo de bebida.

 

— Sim, sim. Vai ser incrível trabalhar lá…

 

— …Eu disse alguma coisa errada?

 

— Não, não. Só que é sua vez: porque está evitando Leticia e Samuel se você não os odeia?

 

A cerveja estava descongelando rápido, e mesmo assim César não teve pressa em responder. Joui não o pressionou desta vez — tinha todo o tempo do mundo.

 

— Tudo bem se não puder responder agora.

 

César se encolheu um pouco no banquinho do bar, se sentindo mais como uma criança do que um adulto funcional. Joui se levantou e vestiu novamente a jaqueta que ele tinha pendurado no encosto da cadeira ao lado. Depois de deixar uma quantia um pouco generosa demais de forma despreocupada no balcão, ele parou perto de César e esperou ele terminar sua cerveja.

 

— …Por que eu sinto que tem algum porém?

 

— Vou esperar você me contar até o fim do seu contrato… Mas você não pode mais me evitar. Esse é o trato.

 

César soltou um suspiro cansado, mas não teve coragem de acabar com a alegria no rosto do rapaz. Quando ele estendeu a mão, sorrindo e fazendo o estômago do programador revirar de incerteza, ele simplesmente apertou, resignado.

 

— Negócio fechado então, César-san.

 

— Não me faça me arrepender disso…

 

— Tarde demais. Você já concordou, lembra?

 

Com aquele sorrisinho que fez o outro se sentir estranho outra vez, ele deixou Cesar para trás.

 

[. . .]

 

Na semana seguinte, ele quis poder chutar as pernas compridas do seu supervisor. Este, não satisfeito em começar a sumir com suas latas de energético, também tinha começado a sumir com as suas doses de café, que ele só conseguia ter porque a máquina finalmente voltou a funcionar. Mas era inútil, já que ele nunca devolvia as canecas, e Leticia já tinha dado dois sermões sobre desaparecer com o patrimônio da empresa para César, como se ele fosse o culpado.

 

Pelo canto do olho, ele viu o japonês se aproximar, os cabelos úmidos o deixando com um rosto ainda mais pálido. Apesar da sua beleza, César estava determinado a não deixar ele levar sua bebida.

 

— Se você roubar a minha caneca de café de novo…

 

— Não vou. — Ele sorriu até as covinhas aparecerem, — Não hoje, pelo menos…

 

— Eu já entreguei meu relatório, se é isso que você veio buscar.

 

— Eu sei, foi o último relatório da fase de codificação da IA, não foi?

 

César assentiu. O primeiro mês tinha voado. Enquanto ele e Samuel terminavam os códigos e testes do sistema, Leticia manteve seus trabalhos mais focados com o setor de engenharia e design, planejando como seriam os servidores do projeto e o armazenamento de dados. E agora, perto do final do primeiro mês e com o prazo desta primeira fase acabando, todos os envolvidos precisavam enviar um relatório extenso e cansativo sobre o que foi feito até ali.

 

— Foi, por que? Tinha alguma coisa faltando?

 

— Não, na verdade o pessoal da presidência está satisfeita com tudo. Mas vamos sair para comemorar agora, na hora do almoço. 

 

— Eu ainda preciso resolver algumas coisas antes.

 

— Negativo. — Joui balançou a cabeça, acabando com todas as esperanças de César de evitar o almoço com a equipe — Você pode terminar o que tem para fazer quando voltar.

 

— Você tá usando sua posição para me obrigar a socializar?

 

Incrédulo, ele girou sua cadeira completamente para encarar o outro. Isso não o intimidou. Na verdade, só o fez cruzar os braços com o peito estufado de orgulho.

 

— Estou.

 

— Você não tem vergonha nenhuma… — Ele resmungou, se afastando da própria mesa. 

 

Joui deu dois tapinhas nada consoladores em suas costas enquanto o levava para fora e assistia o homem esfregar o rosto em frustração. 

 

— Relaxa, você vai se sair bem. 

 

— Por que você tá me dando apoio moral? Você não vem?

 

Ele queria ficar mais irritado, mas apesar de tudo, Joui estava sendo mais paciente e compreensivo do que deveria. A ideia de sair com os outros colegas sem o asiático por perto o deixava desanimado. Sempre que ele e Leticia conversavam ou Samuel e ele estavam rindo, Joui estava lá. Silenciosamente inspirando confiança, sendo algum tipo de amuleto da sorte ou seja lá o que fosse aquele efeito que ele tinha sobre o programador.

 

— Ah não, eu não.

 

— … Por que não?

 

— Não precisa ficar triste, César-kun, eu só tenho um assunto familiar para resolver hoje. E ninguém fica realmente feliz de sair entre amigos e seu chefe estar lá.

 

— Eu não estou triste, de onde você tirou isso? — ele retrucou, desviando o olhar.

 

 As orelhas dele queimavam devido a vergonha de ter sido tão facilmente descoberto, o fazendo levantar a gola do seu sobretudo. Se Joui notou ou não, ele não sabia dizer com certeza.

 

— Mas tudo bem. A gente se vê amanhã. 

 

O programador acenou, timidamente, antes de se virar e sair. Seus colegas o esperavam na entrada do prédio, já ansiosos para sair e se divertir.

 

Apesar das ressalvas de César sobre ficar sozinho com aqueles dois, foi simplesmente muito bom. Samuel era bom demais puxando assunto, Leticia sempre sabia o que dizer e durante toda a noite depois dos cinco minutos de constrangimento esquisito, ele se sentiu parte de algo.

 

Falaram sobre o trabalho, os planos para o futuro, a época na faculdade, partidas de LOL e as fofocas sobre celebridades que Leticia jurava que não eram mentira, mesmo sendo dignas de algum roteiro ruim de novela mexicana.

 

Quando voltou para o hotel naquela noite depois de muitas pizzas e cerveja gelada, ele se sentou na sua cama e chorou. Mesmo tão longe de casa, ele se sentiu genuinamente feliz como não se sentia a anos.

 

[ . . . ]

 

— Sabe que não pode andar usando o telefone pelos corredores, certo? 

 

César ergueu os olhos do celular, dando de ombros suavemente. Leticia andava apressadamente ao seu lado, abraçando sua agenda e seu laptop contra o peito como seus bens mais preciosos, e embora ela fosse uma pessoa certinha demais, ele sabia que ela não estava fazendo por mal. 

 

Sua postura era meio tensa enquanto eles caminhavam, afinal, aquele era o grande momento dela. Dois vice-diretores do projeto iriam pessoalmente verificar o primeiro dia de funcionamento da sala dos servidores, a qual ela foi a engenheira principal.

 

— Vai dar certo. Você é tipo, a melhor em impressionar as pessoas. Quer pipoca? Pipoquinha faz bem, come um pouquinho antes da apresentação.

 

— Ah, cala a boca, César.

 

Ela soltou um suspiro irritado, pegou um punhado do pacote de pipoca doce que ele estava comendo — embora, secretamente fosse seu café da manhã — e saiu andando mais depressa, resmungando. Ele a encontraria depois para começar a instalar o sistema de segurança dos servidores, assim que pegasse um café quentinho.

 

No fundo ele sabia que a amiga só estava sendo teimosa e não sabia reagir bem a elogios, mas ele não tinha dúvidas de que ela ia conseguir.

 

Amiga.

 

Um termo que definitivamente um mês antes ele não usaria para ninguém ali. Na verdade, provavelmente em corporação nenhuma. Mas ali estava ele, com um companheiro de partidas de LOL, uma patricinha nerd mal humorada e um japonês atrevido que sempre estava lá quando ele precisava.

 

Menos naquela manhã, pelo visto.

 

Ninguém veio o impedir de tomar sua caneca generosa de café triplo ou reclamar sobre ele estar roendo as unhas no meio do escritório. 

 

Joui simplesmente não deu as caras. O que o deixou inquieto demais para ser só sua ansiedade atacando. Tinha alguma coisa acontecendo, pelo jeito como ninguém pareceu se importar muito em perguntar sobre o rapaz ou nada parecido.

 

Ele deu meia volta em direção ao andar dos servidores, abandonando seus café na bancada da copa.

 

— Leticia. — Ele chamou, baixo, se aproximando da mulher na penumbra da sala dos servidores. A apresentação aos vice-diretores tinha acabado de terminar e agora ela parecia ocupada anotando coisas numa prancheta rosa choque. — Você viu o nosso supervisor por aí?

 

— Hum, não. Agora que você falou, é estranho. Ele devia vir ver os primeiros testes do sistema dos servidores… Que merda. Vamos começar sem ele então.

 

Prática como de costume, a mulher não esperou a opinião de César. Com seu laptop, ela se sentou na mesa posicionada entre dois racks e iniciou o painel do KVM switch. Basicamente, aquilo era o centro de todas as coisas, onde muito em breve seria possível não apenas controlar o sistema de banco de dados, mas também de monitoramento de toda infraestrutura com o uso da virtualização que tornava muito mais fácil executar servidores virtuais de diferentes funções sem precisar da construção de outro físico. Este definitivamente já era grande e potente o suficiente.

 

E terrivelmente frio, por razões óbvias.

 

— Tá congelando aqui dentro.

 

— Se te incomoda, pode sair. O sistema foi parcialmente aprovado pelos vice-diretores graças a minha apresentação, e eu não vou precisar de você até que o protótipo do satélite chegue.

 

Ele considerou a ideia por um momento. Queria sair e escapar do frio da sala, sim, mas sua principal preocupação estava para com seu amigo de olhos gentis. Apesar disso, não podia deixar o trabalho por causa disso. 

 

É verdade, seu principal trabalho além de escrever os códigos fonte principais do servidor de monitoramento era torná-lo praticamente impenetrável. Projetar, criar, implantar e testar o sistema de segurança daquela sala sempre foi o objetivo e ele não podia se desviar disso.

 

— Não precisa tentar ficar com toda diversão. Você odeia diversão.

 

Ela revirou os olhos ao ouvi-lo, apesar de estar definitivamente exibindo um sorriso.

 

César empurrou suas preocupações para um canto escuro da sua mente, puxou uma cadeira ao lado dela e se contentou com a pequena vitória de ter feito sua amiga sorrir antes de começar a trabalhar.

 

[ . . . ]

 

Só durou até metade do horário de almoço. Quando Leticia saiu para almoçar, César ficou ali andando em círculos para se esquentar, incapaz de ignorar a própria inquietação. 

 

— Foda-se. — Ele saiu, trancou a sala e pegou o celular enquanto ligava para Samuel.

 

— Por que você tá me ligando? Em que século você vive, cara? 18?

 

— Você viu o Joui hoje?

 

— Hã, bom dia pra você também. É bom ouvir sua voz.

 

— É sério…

 

Do outro lado da linha, o homem riu, passando os dedos pela própria barba curta ao pensar.

 

— Honestamente, o vi em um corredor hoje bem cedo. Perto da sala de reuniões. Acredite se quiser, mas o Diretor do projeto e o CEO estavam por lá também, deve ser alguma coisa grande… Por quê?

 

— Nada. Não, não é exatamente nada mas… Eu explicaria se tivesse algo além de um pressentimento ruim. Estatisticamente, está tudo bem.

 

— Estatisticamente, sim.

 

César desligou o celular e o enfiou de volta no bolso depois de agradecer a ajuda do amigo.

 

Estatisticamente. Era uma base firme, sólida. Dava a César todas as certeza que ele precisava para seguir seus dias — a previsão do tempo, o cardápio da lanchonete barata no final da rua, o tempo cronometrado do elevador, César gostava de ter certeza das coisas. Gostava de poder calcular os riscos de suas decisões com base nas estatísticas óbvias que podiam ser previstas.

 

Coisas assim, não dava para calcular e prever.

 

Nem sua mente afiada nem seu computador mais rápido poderiam ter previsto o resultado daquela situação na sala de reuniões.

 

Sim, ela estava praticamente vazia. As cadeiras permaneciam posicionadas milimetricamente em seus lugares, como se ninguém sequer tivesse se dado ao trabalho de se sentar para a reunião.

 

Mas, debaixo da mesa, havia uma figura escondida.

 

— Joui…?

 

O rapaz ergueu o rosto, os olhos vermelhos molhados de lágrimas em pânico por um segundo. Pego de surpresa, ele imediatamente tentou se levantar, só para bater a cabeça com tudo no tampo da mesa e voltar a se encolher com o rosto escondido.

 

Foi um vislumbre de uma face do outro que ele nunca tinha visto. Nunca tinha o visto triste, ansioso ou preocupado — era como se nada o abalasse. No momento, César estava se considerando um idiota por considerar isso.

 

— Ei, calma. Por que você tá aqui embaixo? O que aconteceu?

 

A resposta dele foi se afastar, saindo do alcance do programador. Novas lágrimas brotaram, seu rosto queimando de vergonha e desgosto de ter sido tão fraco e estúpido ao ponto de ser pego escondido como uma criança em pânico.

 

— Eu… Gomen- Desculpa. Desculpa.

 

A respiração dele vinha em suspiros entrecortados, e se mantendo acuado contra uma das paredes da sala, ele ergueu as mãos para manter César longe.

 

O programador parou a princípio mas depois balançou a cabeça devagar. O amigo nunca o deixaria sozinho naquela situação, ele seria terrivelmente teimoso e insistiria.

 

— Não.

 

Sem hesitar muito, segurou o pulso do japonês com firmeza, o afastando. Seu corpo envolveu o dele em um abraço que de início parecia tenso e estranho, mas apenas alguns segundos depois, Joui já estava fortemente retribuindo o gesto.

 

As mãos de Joui, compridas e quentinhas, se acomodaram nas costas de César, o puxando para perto com força demais. O corpo inteiro tremia como esforço de chorar tão silenciosamente como ele estava fazendo. Sua respiração sôfrega e delicada nos ouvidos do programador eram a única indicação do sofrimento pelo qual o rapaz estava vivenciando.

 

César se permitiu ser segurado por quanto tempo Joui precisou daquilo. O choro permaneceu como um barulho suave e reprimido, que deixou o programador ainda mais triste, com um incômodo em seu peito o impelindo a perguntar, a tentar saber o motivo, para que ele pudesse entender o motivo de seu choro ser contido, como se ele não soubesse fazê-lo de outro jeito. 

 

Ele não disse nada. Quando o homem em seus braços respirou fundo e reuniu forças para se afastar do toque acolhedor do de cabelos compridos, César ainda manteve as carícias circulares em suas costas. Agora, com o rosto tão perto, ele conseguiu acha-lo mais bonito do que antes.

 

— Isso foi… Inapropriado, César.

 

O mais velho riu baixinho, tentando aliviar o clima enquanto o ajudava a secar as lágrimas do homem de voz rouca e quebrada. Nenhum dos dois se moveu para se levantar do chão da sala de reuniões.

 

— Eu tenho uma ideia de como você pode compensar isso.

 

Intrigado, Joui piscou. Seus olhos avermelhados se estreitaram um pouco e ele levou a mão ao peito fingindo estar magoado.

 

— Mal começou a trabalhar aqui e já foi consumido pelo espírito das grandes corporações de troca de favores?

 

— Vai me dizer que, se eu precisasse, você não ficaria algumas horas depois do expediente para me ajudar com algo pessoal? 

 

Ele sabia que estava se arriscando demais com aquela conversa. Ele era só um subordinado, mas algo em seu âmago lhe dizia que ele não o via desse jeito. 

 

— Claro que eu ajudaria, César. — seu tom de voz ficou sério. Se inclinando, ele segurou firme a mão do programador e olhou no fundo dos olhos antes de continuar, — Você é meu amigo. Eu nunca me negaria quando você precisa de algo.

 

Aquela certeza inabalável na voz do seu supervisor o fez desviar o olhar, uma risadinha nervosa escapando do seus lábios que só fez deixar o japonês confuso.

 

— Ei, não precisa ficar tão sério. Eu só preciso da sua ajuda com uma coisa…

 

— O quê?

 

O asiático não demonstrou nenhuma resistência quando o amigo o puxou para cima. Finalmente em pé, ele terminou de secar o rosto, ajeitou as roupas no lugar e seguiu o outro para fora. Seguindo pelo corredor nenhum dos dois se deu conta que ainda estavam segurando as mãos.

 

— sabe aquele prédio grande? 

 

— Descreveu 97% da cidade, vai precisar ser mais específico…

 

Cesar revirou os olhos se esforçando para lembrar o nome daquele prédio bonito alto da cidade em vão. Quando finalmente ambos saíram do lado de fora, Cesar caminhou um pouco pela calçada até ter uma visão melhor e apontou.

 

— Aquele. — o rapaz indicou os olhos semicerrados por causa do sol do meio do dia, e joui se aproximou por trás para tentar ver do mesmo ponto, — O Space Noodle.

 

— Space Needle?

 

— Mesma coisa… 

 

— Claro que não, César, quem diabos nomearia um prédio de macarrão japonês?

 

Incrédulo, ele encarou o rapaz. César deu de ombros, levemente irritado.

 

— É menos pior do que tipo, agulha… Agulha espacial ainda por cima.

 

— Você não entende, ele é fino como uma agulha e foi feito na época da—  

 

Ele se interrompeu, notando o programador o observando com um rosto inexpressivo beirando o tédio.

 

— Quer saber? Não importa… O que? Você quer vê-lo? É quase uma hora daqui, não sei se dá tempo…

 

O outro balançou a cabeça devagar, abrindo um sorriso suave. Quase era possível ver as engrenagens girando no topo da cabeça dele, pensando em como dar um jeito de levá-lo até o observatório.

 

— Não é isso, idiota. Minha mãe adora receber fotos. Ela me pediu fotos das coisas legais por aqui, então… Pode dar um jeito de conseguir uma foto legal dele?

 

Joui assentiu, deixando os pensamentos vagarem por quase um minuto. Então, um sorriso surgiu em seus lábios. Virou-se para a rua e ficou observando os carros para lá e pra cá enquanto organizava mentalmente todos os detalhes do plano. 

 

— Vem! 

 

O programador não teve tempo para ficar confuso ou questionar, por que o asiatico simplesmente começou a correr. Atravessou a rua nos últimos segundos do sinal fechado, se espremeu em ruas estreitas, fez César desviar de cachorros e alguns hidrantes no caminho e se recusou a ir mais devagar não importava o quanto ele gritasse com o homem, seja em inglês ou portugues. Se ele soubesse alguma coisa em japonês, ele usaria também.

 

Ele nunca foi uma pessoa atlética. Na verdade, ele se considerava alguém realmente sedentário e tinha orgulho disso. 

 

Evitou as aulas de educação física na escola e qualquer atividade extracurricular que envolvesse se mover muito durante sua época na faculdade, então tentar acompanhar seu supervisor estava sendo um desafio e tanto. Ele claramente não corria como uma pessoa normal — se movia com o vento, os cabelos curtos se divertindo no vento que ele criava ao desviar de qualquer pessoa que se metesse no seu caminho, pulando lixeiras só para se divertir rindo e zombar de César e sua lentidão. Se ele não trabalhasse em um escritório, ele arriscaria dizer que o japonês era algum tipo de atleta.

 

O japonês o levou ainda por mais dois becos e desceu duas ruas inteiras antes de parar no meio de algumas escadas sujas.

 

— Seu maluco, ta tentando me matar?!

 

Os pulmões dele ardiam demais para que ele falasse sem precisar respirar entre as palavras. Se apoiando nos próprios joelhos, César ergueu o rosto suado pronto para continuar gritando, mas suas costelas estavam doendo e agora que tinha parado de se mover, suas pernas estavam dormentes e pinicando ao mesmo tempo.

 

Joui, por sua vez, exibia um sorriso de orelha a orelha. Ele chegou pertinho o suficiente para colocar uma mecha de cabelo bagunçada de volta no lugar.

 

— Longe de mim. Adoro você.

 

— Aham, sei. Que porra, você saiu correndo igual um maluco, nunca mais faça isso se quiser que eu ainda tenha pernas. — Envergonhado, ele se afastou do toque suave em sua bochecha e cabelos e se endireitou, cruzando os braços — E não toca no meu cabelo assim. 

 

Joui deu uma risadinha. 

 

Agora que tinha recuperado um pouco do fôlego, ele conseguiu ver melhor onde tinham ido parar. Em alguma parte mais distante do centro de South Lake Union, na entrada um prédio que  só tinha alguns andares, mas ficava na parte mais alta do bairro. Parecia fechado —  com as janelas tapadas por um monte de papeis e cartazes velhos rasgados. A fachada em branco dizia que provavelmente o prédio tinha sido reformado há muito tempo, mas talvez nem tivesse chegado a ser usado.

 

— …Pra que você me trouxe aqui?

 

— Vou te mostrar meu lugar preferido dessa cidade. Se você deixar.

 

O asiatico estendeu a mão para o programador, que hesitou um pouco, seus olhos alternando entre os dedos compridos e o rosto calmo dele.

 

— Esse tipo de coisa parece errada. 

 

— O que?

 

— Você sabe do que eu to falando, Joui.

 

Ele considerou, soltando um arzinho pelo nariz. Mas César colocou a mão na dele devagar.

 

— Eu sei. Não leva pro pessoal.

 

Os dois começaram subir as escadas do prédio que apesar de estar abandonado não tinha nenhuma pichação nas paredes, mesmo estando aberto. Ele não queria invadir propriedade privada de ninguém, mas decidiu confiar em seu supervisor.

 

Em silêncio, César ficou encarando as costas do asiatico que subia as escadas um pouco á sua frente. não podia negar o quanto a presença dele o fazia bem, e mesmo que Joui estivesse sendo atrevido demais, o conhecia o suficiente para saber que no segundo que ele não quisesse mais, o outro se afastaria sem questionar. Ele era bonzinho demais, gentil demais. Provavelmente a pessoa mais gentil que ele já conheceu — afinal, ele não estava ganhando nada o ajudando.

 

Lá em cima, no terraço, César estava pronto para reclamar de novo por ter subido tantas escadas, mas Joui já estava lá na frente, na beira do prédio de frente para a vista mais linda da cidade.

 

No meio de tantos arranha-céus, o Space Needle se descava, quase perto o suficiente para ver a si mesmo no reflexo das janelas. O vento soprou forte, trazendo o cheiro do mar e César se virou para ver os barcos indo e vindo na água, as pessoas lá embaixo bem pequenininhas, os carros cortando o trânsito. Era de tirar o fôlego.

 

Joui nunca se cansaria daquela vista, principalmente agora que o homem mais velho fazia parte dela, contemplando a paisagem com um olhar deslumbrado e um sorriso genuíno, livre de toda a fadiga que o acompanhava como uma maldição.

 

— Jou, isso é… 

 

— Lindo. Com toda certeza.

 

Joui e César não estavam falando da mesma coisa, mas nenhum dos dois se importou com isso.

 

— Como você ficou sabendo desse lugar?

 

César se afastou da borda do prédio, buscando o celular no bolso. Ele saiu andando pelo terraço, testando ângulos até conseguir pegar o melhor enquadramento da vista e tirar a foto, mas joui o interrompeu, se aproximando por tras, uma mão no ombro, deixando as bochechas se tocarem.

 

— Uma pessoa me falou sobre. — ele deu de ombros, seu olhar se erguendo para a vista a sua frente, mesmo com a mente em outro lugar —  Mas por que você não vai sair na foto também? Tenho certeza que sua mãe ia adorar uma foto sua.

 

— Não quero tirar foto, Joui.

 

— Não quer deixar sua mãe feliz? Que coisa feia…

 

Fingindo grande decepção, ele começou a balançar a cabeça devagar de olhos fechados. Depois de muitos resmungos irritados do programador, eles estavam com as fotos e voltando para o escritório de táxi. 

 

[. . .]

 

Nenhum dos dois mencionou nada quando voltaram ao trabalho normalmente pelo resto da semana.

 

As três semanas seguintes passaram voando. Cesar estava sempre trabalhando com Leticia na sala dos servidores em seus códigos de segurança, e embora estivesse orgulhoso do seu progresso sabia que o prazo estava perto e ele não podia descansar enquanto não estivesse perfeito enquanto o sistema não estivesse impenetrável.

 

Embora em sua opinião pessoal nenhum sistema era realmente 100% seguro, você só precisava saber onde procurar as brechas e se aproveitar delas. Isso era um conhecimento universal de todo bom programador.

 

Por outro lado, César sabia que o seu surto de vício no trabalho também tinha outros fatores o influenciando, afinal ele não ficava 12 horas naquela sala fria digitando códigos até os dedos ficarem dormentes sem um bom motivo.

 

Depois do dia no terraço com Joui, as coisas mudaram um pouco. Samuel foi o único a questionar, durante o horário de almoço, sobre o comportamento de César. Em uma semana, ele passou a sair pela saída oposta do prédio para evitar as caminhadas com joui até a rua do seu hotel, às quais ele tinha se tornado tão apegado, começado a virar o corredor toda vez que via Joui se aproximando e se comunicando basicamente só por e-mails sobre os relatórios de progresso.

 

— Vocês brigaram?

 

— O que?

 

— Você e o Jouki. — o rapaz deu uma garfada na salada dele, e Cesar bufou. 

 

Toda aquela besteira de dieta era coisa cabeça dele e provavelmente não ia durar mais de uma semana. Ele apostou cinquenta dólares com a Leticia.

 

— Não brigamos, está tudo bem…

 

— Olha, cara, eu sei que não está tudo bem. Mas você precisa resolver isso.

 

— Eu- Samuel, eu não vou discutir isso com você. Não tem nada acontecendo. Estou ocupado demais para ficar de conversinha.

 

— Então porque você está perdendo tantas ranqueadas? Eu sou seu parceiro, —  ele gesticulou com o garfo cheio de pepino, seu olhar sério demais para estar falando de um jogo online —  eu entendo dessas coisas.

 

E então, Leticia sentou na mesa junto deles, e o assunto se tornou mais leve de novo.

 

De volta ao trabalho, sua cabeça doía encarar as telas brilhantes do painel. Ele já tinha revisado duas vezes aquela parte do código e mesmo assim, ao ser executado, a pequena mensagem de erro insistia em piscar na sua frente.

 

— Ô, merda… 

 

Como jogar tudo para o alto não era uma opção, ele só xingou e se levantou com um movimento brusco e barulhento.

 

— Cesar-kun? Algum problema?

 

— Hã? Eu.. Nada.

 

Ele tinha se esquecido que ele estava ali. Conversando com Leticia sobre algum protocolo que ela tinha certeza que precisava ser revisado o quanto antes. Alguma coisa sobre o refrigeramento dos racks que precisava de um aprimoramento da ventilação para não deixá-los nem chegar perto de superaquecer.

 

— Mas você xingou. Em português, ainda por cima.

 

— … É só uma dor de cabeça.

 

Joui franziu a testa, fazendo o programador querer sumir quando aqueles olhos infantis ficaram quase iguais aos de um cachorro filhote, cheio de preocupação. César evitou contato visual, indo para  a porta da sala com um ligeiro dar de ombros. O movimento fez o asiatico se aproximar, segurando seu pulso com firmeza.

 

Foi o primeiro toque que eles tiveram há dias, o que fez ele estremecer.

 

— Você está trabalhando com dor?

 

Ele não se deu ao trabalho de olhar nos olhos. Só se desvencilhou da mão do outro para finalmente sair dali antes que ele cedesse ao estresse e o cansaço acumulado, que ele temia ser quase puramente emocional.

 

— Igual a todo mundo, Joui. Bem vindo ao nono círculo do inferno corporativo.

 

Graças a Deus, nem Leticia nem Joui vieram atrás dele. No banheiro, depois de ter certeza que estava completamente sozinho, ele deu um longo grito contra as mãos no próprio rosto até sua voz falhar no final. Em seguida, jogou água fria no rosto, esfregando os olhos até o sono diminuir e as pontadas na cabeça cessarem o bastante para que pudesse ficar de pé sem se sentir tonto.

 

Se permitindo parar de pensar por um instante, ficou parado diante do espelho, respirando devagar, enquanto as gotas geladas escorriam pela ponta do nariz e do queixo antes de caírem na pia branca.

 

Ele devia ter sido tão ríspido. Principalmente com alguém como Joui.

 

Mas quanto mais pensava nisso, mais sua dor de cabeça aumentava. 

 

Decidido a voltar a parar de pensar, ele voltou para o escritório. Joui não estava mais lá, mas havia uma cartela de remédios para enxaquecas na sua mesa, junto da garrafinha de água. 

 

Ele deu uma risadinha e tomou os comprimidos. O detalhe de que sua latinha de energético também tinha sumido não passou despercebido.

 

[. . .]

 

César passou as semanas seguintes mal humorado. 

 

— Eu não pedi isso.

 

— O quê?

 

Samuel girou a cadeira devagar, espiando curiosamente o objeto na mesa de César que ele olhava com desdém. Parecia ser só uma caixinha de comida tailandesa, mas tinha uma carinha sorridente desenhada na caixa o encarando de volta.

 

— Eu não pedi essa merda.

 

— Ah, já tava aí quando eu cheguei. Acho que é seu almoço, cara. — Samuel sorria como quando uma criança ao pegar alguém fazendo besteira e sabia que podia se aproveitar disso. — Não gosta de comida tailandesa?

 

— Não. Quero dizer, gosto. Isso não importa.

 

— Então… Você não vai comer?

 

Ele se virou para o amigo, que sorria em expectativa e soltou um suspiro cansado. Mesmo sem ter almoçado ainda, aceitar aquilo era admitir que estava aceitando ser favorecido.

 

— Pode comer, não tô com fome.

 

Ele nem terminou de empurrar a comida para a borda da mesa para que o rapaz pegasse e começasse a se empanturrar enquanto trabalhava. O programador colocou os fones de ouvido para abafar os barulhos da comida enquanto trabalhava no resto dos testes simulados de segurança.

 

No dia seguinte, ele achou um copo de café — sem cafeína — na sua mesa antes do horário de trabalho. No dia seguinte, um punhado de paçocas que ele nem sabia que dava para se encontrar no meio de Washington estava esperando por ele quando ele voltou do almoço. E no outro, ele achou um maneki neko de porcelana sorridente perto do monitor.

 

O sorriso do gatinho fortuna era largo, os olhinhos fechados como quando Joui dava uma risada alta de alguma piada ou história dele no fim do expediente. Parecia que tinha sido há tanto tempo atrás, mas tinha sido apenas uma questão de dias. 

 

Ele estaria mentindo se dissesse que não estava com saudades. A cada dia se tornava um pouco mais difícil lembrar a si mesmo do porque estava se afastando — e não de qualquer pessoa, daquele por quem seu peito apertava e sua mente se confundia tentando dar um nome ao sentimento.

 

Repetir para si mesmo que estava se protegendo não ia mais funcionar.

 

Era muito mais fácil quando Joui fazia alguma coisa irritante. Quando era convencido demais, quando fazia piadas idiotas, quando aparecia perto demais sem fazer barulho e sorria daquele jeito que fazia César esquecer o que estava fazendo, mas não aquilo. 

 

Todos aqueles gestos, cuidando dele a distância e principalmente não tentando convencê-lo de nada, dando o espaço que ele pediu sem nem precisar usar palavras e principalmente o fato de que ele não estava o convencer de nada, não estava tentando o pressionar, estava sendo quase irritantemente paciente, tornando a vida de César mais difícil por não conseguir encontrar um motivo concreto para o dispensar.

 

Até agora ele só tinha sido… Atencioso. Calmo. Perfeito.

 

Ele saiu de casa naquela manhã, sob o sol ameno do início de outono em setembro ainda em conflito. Mas ao ver Joui se aproximando da mesa dele com alguma outra coisa em mãos, sua raiva estalou. Ele se levantou abruptamente e se virou para o asietico, segurando ele pela jaqueta. Não havia ninguém para ver, afinal.

— Para com isso.

Joui franziu a testa.

— Com o quê?

— Com esses presentes. Com essas coisas. Com ficar me olhando desse jeito.

Uma confusão cruzou os olhos do outro, o que fez o sangue de César ferver ainda mais.

— Eu não estou fazendo nada.

— Esse é exatamente o problema!

— Mas… César você precisava de espaço. Eu estou te dando espaço.

— Você está tornando isso impossível!

— O que?

— Te odiar! Te dizer não! Te manter afastado! — suas mãos tremeram, ele já não conseguia o segurar tão firmemente.

— Então não faça. — a honestidade e a necessidade na voz de Joui era crua. Ele aproximou mais os rostos, a testa franzida em uma expressão dolorosa de se olhar — Não me odeie, não me afaste. Diga sim para mim, César.

O programador abaixou a cabeça, desviou o olhar do rosto do outro e estremeceu. Suas mãos desistiram de segurar a jaqueta do mais novo, agora que sua raiva perdeu a força e todas as suas frágeis motivações.

— …Eu não sei como, Joui. Esse trabalho é temporário. Mas o que eu sinto por você, definitivamente não é.

Joui relaxou, os dedos longos desaparecendo entre os cabelos do mais velho em uma carícia suave, o trazendo para deitar a cabeça no ombro dele.

— Eu sei, eu sou irresistível. — ele murmurou, convencido, tentando aliviar o clima.

E César riu, de verdade, como não ria a dias. Afastou-se o suficiente para olhar nos olhos outra vez, sustentando o contato — não havia expectativa nenhuma. Eram apenas dois homens se segurando perto, tentando decidir o que fazer com os sentimentos. César obviamente não era um especialista, mas sabia o que queria fazer agora.

— Você é impossível.

— Eu sei.

— E para de sorrir.

— Não.

O programador revirou os olhos, o sorrisinho atrevido em seus lábios se tornando lentamente idêntico ao de Joui. Então ele se inclinou, o beijando.

Por alguns segundos, Kaiser simplesmente esqueceu o motivo de estar tão irritado. Toda a frustração, as desculpas que havia ensaiado e as tentativas de manter distância desapareceram de uma vez, substituídas pela constatação irritante de que era exatamente aquilo que vinha tentando evitar e pela sensação perfeita da boca quente do japonês com gosto suave de hortelã.

Quando finalmente se afastou, ainda permaneceu perto demais, os dois com pequenos risinhos enquanto Joui distribuía beijos menores e barulhentos pela bochecha do programador.

Ele abriu um sorriso pequeno, quase divertido.

— Posso considerar isso uma resposta?

E César, completamente vermelho agora que se sentia hiperconsciente do que os dois acabaram de fazer na sala vazia do setor, respondeu baixinho.

— Cala a boca.

[. . .]

 

Ele continua achando que café descafeinado é uma invenção diabólica, mas não consegue negar que o gesto atencioso do outro faz suas manhãs. 

Agora, tudo tinha se tornado uma existência confortável. Mesmo com pouco tempo juntos lá dentro já que o prazo final estava perto do fim e todos estavam atarefados e quase sem tempo, César achava um jeito de mandar mensagens de texto para o japonês nos intervalos, que sempre respondia com uma figurinha bonitinha e uma reclamação sobre o trabalho.

No final do expediente, eles sempre saiam juntos. Conheciam lanchonetes novas, restaurantes chiques, bares divertidos, ou simplesmente um lugar bonito na cidade perto do cais para apreciar o céu cheio de estrelas e o mar. Se algum dos dois estivesse esgotado de um dia ruim, o quarto de hotel do programador se tornava o seu lugar especial para comer comida não saudável, conversar e dormir juntos.

Mesmo assim, um tipo de ansiedade perigosa revirava seu estômago ao assistir os dias passarem. Em mais duas semanas, ele terminaria esse trabalho e finalmente estaria em casa de novo, mas não conseguia se ver feliz mesmo no Brasil, não quando aqui ele estava perdidamente feliz e apaixonado.

 

Essa manhã, ele estava revisando seu sistema. Leticia tinha conseguido resolver a questão do resfriamento e Samuel, que tinha recebido o protótipo do satélite para os testes oficiais, estava bastante otimista sobre isso, se seus e-mails nada profissionais cheios de exclamações para os amigos fossem uma indicação.

— Você vai quebrar o teclado se continuar apertando essas teclas desse jeito, querido.

— Estou revisando, Jou. — ele respondeu sem tirar os olhos da tela. Seu punho tinha começado a doer, mas ele não estava diminuindo o ritmo.

— Você já fez isso. Umas cinco vezes.

— Seis.

— Isso era pra ajudar? — Joui suspirou, puxando a cadeira dele para longe do computador e ignorando as reclamações do amado — Olha, se você acha que eu vou deixar você trabalhar assim, tá muito enganado.

— Eu estou perfeitamente bem. Você tá me atrapalhando…

Ele conhece o próprio trabalho, sabe que é impossível deixar melhor que isso, então tecnicamente não há um motivo racional para estar se estressando — e Joui sabe, por que o conhece às vezes melhor que si mesmo.

— Que rude… — O rapaz mais jovem riu, girando a cadeira até eles estarem de frente um para o outro — Você não me ama mais?

— Você é um bobão. — César resmungou, incapaz de segurar seu sorriso quando a sua razão de sorrir estava bem ali, encostando o nariz no seu e tentando o acalmar — É claro que eu te amo. Mas você entende que é importante. É meu trabalho final, precisa estar perfeito.

— E já está.

Deu um peteleco na testa do programador, o tirando dos seus pensamentos idiotas. Não havia nada para se preocupar.

Com um movimento sutil do corpo, ele se inclinou e beijou o mais velho. Os ombros tensos dele relaxaram e Joui se viu sorrindo contra os lábios de gosto de café, o coração batendo tão forte quanto na primeira vez que se beijaram.

E funcionou, o toque amoroso do  japonês silenciou sua mente, o permitindo não pensar em nada além do amor que tinha os levado até ali. 

Pequenas lágrimas surgiram no cantinho dos olhos, o fazendo rir na sua mente por estar chorando de felicidade desse jeito.

Mas o riso morreu no instante em que a porta da sala se abriu.

— …Jouki, você se importaria de me explicar o que está fazendo? 

Atrás deles, a figura imponente do CEO os observava com as mãos para trás, em seu terno cinza fino e impecável. Os olhos escuros, estreitos sob as sobrancelhas pesadas, permaneceram fixos neles com uma frieza quase desconcertante que beirava o desdém.

— Pai…

César sentiu a garganta se fechar, observando o homem de feições orientais se transformar não só no homem que detinha controle sobre tudo naquele prédio, mas também no pai do homem por quem ele estava saindo.

Homem este, que nunca achou uma boa ideia contar quem era de verdade. 

Joui recuou, o soltando imediatamente para caminhar em direção ao pai. A rapidez da perda do contato doeu mais do que se ele tivesse o mantido.

Havia um zumbido terrível em seus ouvidos que o impedia de ouvir exatamente o que a voz trêmula de Joui dizia, por que ele não conseguia desviar o olhar do Jouki mais velho. A postura do homem não demonstrava raiva. Era justamente isso que tornava sua presença tão desconfortável; ele o examinava com a calma de quem já havia decidido o que pensar a respeito dele e com um movimento calmo das mãos, cortou a fala do filho. Ele já tinha tirado suas próprias conclusões e não se importava nem um pouco que alguém tivesse algo a dizer. 

Ele devia saber. O jeito como Joui evitava falar sobre os detalhes do estágio dele, como não falava da sua família além da sua irmã mais nova, como quase nunca falava do futuro — ele deveria saber que tudo isso era um sinal de algo estava errado. De que ele estava escondendo coisas.

— Pelo menos esperasse que o contrato acabasse antes de trazer essa vergonha para o seu nome. 

— Otousan, por favor… Eu-

— Aqui não.

César só notou que estava sozinho quando o clique suave da porta interrompeu a espiral de ansiedade em sua mente. As lágrimas de alegria de antes se juntaram às de tristeza, transbordando com um soluço dolorido.

Ele saiu da sala ainda tremendo, ignorando as pessoas por quem precisou passar no caminho de volta ao laboratório. Sua mente estava ocupada demais com todas as coisas que Joui havia deixado de contar, com as mentiras que agora pareciam se esconder em cada detalhe dos últimos meses.

E se tudo aquilo tivesse sido uma mentira?

O pai dele parecia alguém horrível e insensível. Dormir com César poderia ter sido apenas outra forma de mantê-lo satisfeito, produtivo e disposto a entregar resultados melhores como estagiário.

Ele já nem conseguia acreditar que Joui fosse apenas um estagiário.

O desgraçado estava estudando administração, pelo amor de Deus. Provavelmente assumiria aquela empresa inteira um dia. E César tinha se deixado apaixonar por ele.

Tinha confiado nele.

Tinha deixado que um milionário o transformasse em alguma espécie de brinquedo particular porque, por algum motivo, acreditara que aquele homem gostava genuinamente dele.

Quando tropeçou para dentro do laboratório, Samuel estava lá. Ele não fez nenhuma pergunta, mas trancou a porta e abraçou o amigo. Quando Leticia saiu da sala adjacente com uma sobrancelha arqueada prestes a reclamar do barulho, ela só precisou de um olhar preocupado de Samuel para entender.

— Eu fui tão idiota…

 

— Não precisa se odiar por isso. — a mulher o cortou, servindo uma xícara de café quente de verdade da sua garrafa térmica — Você simplesmente é uma boa pessoa. Agora beba.

 

— A gente pode segurar as pontas por aqui, amigo. Você precisa ir para casa. — o rapaz de pele escura complementou, mais suavemente.

 

Agora ele já tinha parado de chorar e estava apenas tremendo e com uma enorme dor de cabeça.

 

— Tecnicamente, seu trabalho aqui terminou, embora ainda haja uma semana de contrato restante. — completou Leticia, mais seca do que deveria. Samuel lhe deu um olhar sério, mas ela deu de ombros — Não se preocupa com o RH. Você tem dois dias de folga que nunca usou desde o início do trabalho, então tire esse tempo para decidir o que você realmente quer fazer. Se quer conversar, se prefere encerrar o contrato mais cedo ou continuar aqui.

 

— Sim,  cara, a gente vai te apoiar, somos um time de verdade…

 

Cesar respirou fundo, um desconforto estranho no seu estômago. Receber esse tipo de apoio de amigos era algo novo para ele. Além de Bruno, seu antigo amigo de infância, ninguém tinha falado assim com ele durante uma crise. Provavelmente porque durante uma crise, ele escolhia sumir do mapa e só voltar quando achava que o problema tinha sido resolvido.

 

Lembrar sobre como ele tinha conseguido mudar e se abrir para as pessoas era um lembrete incômodo sobre o quanto ele tinha mudado desde que chegou, em parte por influência de Joui.

 

— Eu agradeço, pessoal, de verdade… Mas eu já sei o que deveria fazer. — ele murmurou, bebendo o café que a amiga ofereceu — Não vou conseguir continuar aqui sem me sentir constantemente julgado pelos outros e envergonhado pelo que fiz.

 

Samuel pareceu um pouco decepcionado, mas assentiu. Leticia ainda tentou ser um pouco mais racional e questionar sua decisão, mas ele descartou o conselho, firme.

 

— Sei que parece apressado, mas isso é o que eu sinto. Não vai mudar… Apesar do que aconteceu, eu só tenho um arrependimento. — ele engoliu em seco, encontrando o olhar dos dois amigos com lágrimas nos olhos — De ter tido tanto medo de criar conexões reais com as pessoas por medo e não ter começado a almoçar e saído com vocês dois desde o começo.

 

— Seu merdinha… Não me faça chorar agora. Quero discutir com você…

 

A loira foi a primeira a o abraçar, escondendo o lábio trêmulo que denunciava sua tristeza. Samuel a seguiu, abraçando os dois enquanto chorava um pouco, mais abertamente.

 

— Não pense nem por um segundo que a distância vai me impedir de te encher de mensagens e convites pra ir uma ranqueada, ta ouvindo?

 

— Deus não seria tão misericordioso…

 

[. . .]

 

Os dois dias seguintes foram um borrão. Ele não se deu ao trabalho de sair do quarto de hotel ou verificar as mensagens de ninguém. A única coisa que ele leu foram algumas revistinhas que ele trouxe na viagem e os diálogos extensos de Zelda enquanto jogava.

 

No final do dia, Samuel mandou uma mensagem para ele sobre o RH. O amigo tinha mexido uns pauzinhos para o encerramento do contrato e agora tudo que ele tinha que fazer era alguns relatórios burocráticos e assinar os termos do encerramento. Nada demais, tirando o fato que ele ia ter que voltar para o escritório para fazer tudo isso.

 

Ele reuniu um pouco do restante da sua coragem naquela manhã terrivelmente nublada, ignorou as notificações de chamadas perdidas de Joui no celular que estavam ali desde terça-feira quando o desastre aconteceu e saiu.

 

Na entrada diante da porta giratória do prédio, Leticia estava esperando por ele. Embora definitivamente não soubesse como apoiar alguém emocionalmente, ela era boa em encorajar as pessoas. Geralmente.

 

— Você está uma merda. 

 

— Bem, é o que acontece quando se passa dois dias inteiros se sentindo uma merda.

 

— Você precisa sair por cima, mostrar para ele que isso não te afeta. 

 

Seria uma grande mentira que ele não tinha energia para manter, mas resolveu não discutir isso, principalmente porque os dois já estavam subindo de elevador até o setor administrativo. 

 

Sua amiga se recusou a sair do seu lado durante a pequena reunião com a mulher desagradavel de sempre. A senhora Collins continuou sendo uma pessoa de presença desconfortável como da última vez, nem pior nem melhor. Leticia deu seu melhor com a parte do apoio psicológico silenciosamente encarando a outra mulher de uma forma que provavelmente era falta de educação.

 

Felizmente, em meia hora, tudo já estava acertado. O salário restante que ele ia receber, o termo de confidencialidade, o contrato e tudo que declarava que ele não havia mais nenhuma pendência no projeto, assim como as datas da sua viagem de volta.

 

— Você vai ficar bem, certo?

 

Cesar parou de encarar o piso branco para olhar para ela. Mesmo sem falar abertamente sobre o elefante na sala, os dois sabiam o quão desconfortável ia ser simplesmente esbarrassem com a causa do problema. Desta vez, ele tinha quase certeza que era o outro que o estava evitando, porque ele estava sem energia nenhuma para isso e ainda não tinha o encontrado pelos corredores ou no elevador.

 

— Eventualmente…

 

Com uma caixa de papelão pequena, ele finalmente estava sozinho com sua mesa do laboratório. Seu headset, seu mouse confortável, um cacto feio que ganhou de Leticia, uma caneca preta que Samuel emprestou a ele para guardar as canetas dele, tudo coube dentro da caixinha sem problema. Agora o gatinho da fortuna parecia estranho na sua mesa. Ele considerou deixar ele pra lá, talvez jogar no lixo, mas simplesmente não conseguiu. Jogar fora significava abrir mão de toda felicidade e de tudo que ele tinha passado ao lado do japonês, e apesar da dor das memórias, ele não queria se livrar delas.

 

Sem pensar mais, ele enfiou o gatinho na caixa e fechou. 

 

No lobby, ele deixou suas credenciais com a secretária de óculos quadradinhos e até acenou para ela, torcendo para que isso compensasse a maneira acidentalmente rude que ele a tratou quando se conheceram.

 

— Tenha uma boa viagem de volta, Sr. Cohen.

 

— Obrigado, Srta. Haley.

 

Mas bastou apenas colocar os dois pés para fora e ficar cinco segundos do lado de fora na ventania fria do início de outono para que um trovão soasse acima da sua cabeça, seguida de pequenas gotas de chuva que tomaram velocidade ao cair. Com sua sorte habitual, provavelmente só ia piorar. Ele queria largar a caixa no chão, gritar depois sumir e parar de existir, mas no momento ele só fez o que era socialmente aceitável e ficou parado na chuva decidindo o que fazer.

 

Antes que pudesse ficar completamente ensopado, um guarda chuva vermelho o amparou.

 

César pensou que seria mais difícil vê-lo, mas na verdade não foi. Foi estranho, mas nenhum dos dois disse nada por um tempo, nem se afastaram.

 

Joui continuou ali, permitindo que a chuva o molhasse até ele parecer um pássaro ensopado, o encarando com culpa em todas as linhas da sua expressão.

 

— Cesar… Eu-

 

— Eu ainda estou puto com você. — ele o cortou, a voz o mais firme do que ele achou que conseguiria manter naquela situação.

 

— Eu sei que eu fiz merda, mas se você me deixasse explicar, eu juro que posso te fazer entender.

 

— Jura, é? e o que te faz pensar que eu quero entender você?

 

— Porra, você nem ta tentando me ouvir!

 

— Desculpa, coitadinho de você, filho do chefe. — ele gritou, segurando a caixa com mais força. deixando de encarar os carros passando para e para cá em alta velocidade em um borrão de farois no cair da noite, ele encarou o japonês — Só me fala, você dorme com todos os seus subordinados ou eu era especial?

 

— Você realmente só sabe pensar em você? Realmente olhando para trás é isso que você pensa que nós tivemos? Que eu dormi com você pra, sei lá, brincar com você? — foi a vez dele também começar a gritar — eu estava emocionalmente envolvido, caso você tenha sido cego demais para perceber.

 

A mágoa na voz de Joui não passou despercebida por César, mas ele estava além da razão agora.

 

— Só não envolvido o suficiente para sentir que eu merecia saber das coisas! saber quem você era de verdade!

 

— Não seja estudpido, César, aquele sempre fui eu. — ele se inclinou, e o programador recuou como um reflexo. O japonês ainda manteve o guarda chuva sobre ele, levantando a voz para ser ouvido por cima do barulho da chuva — O que você queria que eu fizesse? Entrasse na sala e dissesse "oi, sou o filho do homem que contratou você"? 

 

— Talvez!

 

— E depois disso? O que diabos mudaria?!

— Depois eu saberia quem você era! — ele se inclinou de volta dessa vez, sem se importar com o fato de que deveria parar de gritar no meio da rua — E poderia escolher o que eu pensava de você, não pensar o que eu queria que eu pensasse de você. 

— Eu era eu! Você sempre me viu como eu era. Eu estava ali todos os dias. Eu fiz o trabalho com você. Eu te levei para comer. Eu fiquei acordado até tarde porque você não conseguia fazer aquele maldito sistema funcionar ou quando uma crise era dificil demais para lidar sozinho. Eu fui a mesma pessoa o tempo inteiro! Não porque eu tinha segundas intenções, mas porque eu queria estar com você, te ajudar, te amar! Merda…

Joui fechou os olhos marejados com força, tentando respirar sem desabar e chorar. César já estava chorando provavelmente desde o começo, mas mal notou. Todo aquele sentimento cru estava levando os dois a discutirem e tremer de frio e da pressão dos sentimentos reprimidos, finalmente podendo serem destilados sem pensar muito.

Quando o programador não disse nada, Joui abaixou a cabeça antes de continuar.

— Você ia embora. — ele murmurou, antes de erguer o rosto — Eu não queria que você me visse de forma diferente, não quando eu sabia o quão difícil era para você se relacionar com os outros…

— Não era uma decisão sua, Joui. Esse é o problema. —  ele balançou a cabeça devagar, e sua voz saiu rouca de tanto gritar — …Você me amou com meus defeitos, por que não podia me deixar amar você com os seus?

O japonês ficou quieto, sentindo a culpa aumentar ainda mais em seu peito. O programador sentiu ele tocar sua mão, os dedos molhados o fazendo segurar a sombrinha por conta própria, enquanto seu rosto chegava bem perto de sua orelha

— Eu sinto muito. — Joui sussurrou, de olhos fechados.

— Eu também. — ele devolveu, falhando em manter a voz sem falhar.

Cesar ficou ali até suas pernas ficarem dormentes depois que Joui se afastou e desapareceu calçada a fora.

[. . .]

Antes do vôo dele de volta no outro dia, Samuel decidiu que os três deveriam sair para beber juntos naquela mesma noite, Leticia concordou então ele não podia dizer não. Seria deixar aquele problema se espalhar para o restante da sua vida e ele não queria isso.

Ninguém estava muito feliz, mesmo assim todos beberam e riram juntos das piadas ruins de Samuel e das histórias engraçadas da infância de Leticia, que depois de uns três copos de vinho, estava rindo e sorrindo como uma pessoa completamente normal.

No fim da noite, quase duas da manhã, eles decidiram encerrar a noite, já que o bar ia fechar muito em breve.

— Acho que é isso… — o rapaz murmurou, deixando César desconcertado.

 

— Não fala assim… Ele tá nos deixando! Como eu vou sobreviver sem um homem sensato naquele laboratório? — ela choramingou, embora estivesse reclamando nos braços do amigo que a consolava como se ela não estivesse diretamente o ofendendo. 

 

César riu da cena, já sentindo os olhos queimarem com a vontade de chorar.

 

Eles tinham combinado de não dizer adeus, sem nada brega ou melancólico, afinal nada impedia eles de se verem numa folga e continuar trocando mensagens.

 

Mas a questão é que era muito mais fácil falar do que fazer. E nada nunca mais seria a mesma coisa.

 

[. . .]

 

Só Deus sabia o quanto César odiava finais. De ciclos, de relacionamentos, de rotinas.

 

E ele estava encerrando todas essas coisas ao mesmo tempo em menos de uma semana.

 

Ele fez o check out do hotel algumas horas antes, e agora estava dentro do táxi para o aeroporto. Uma enxaqueca terrível da ressaca o perturbava, afastando o cochilo que ele queria. Queria dormir, pensar o mínimo possível sobre o que estava deixando para trás, esquecer todas as coisas que doíam mesmo sem querer esquecer das coisas que não doíam.

 

Foram os quase três meses mais longos que ele tinha vivido.

 

— Foda-se. — ele resmungou para si mesmo, se lembrando de que prometeu a si mesmo que não ia chorar depois de ter saído do hotel, principalmente em público — Obrigado, cara, tenha um bom dia…

 

Ele pagou o taxista de bigode suspeito antes de sair com sua mala e mochila. O programador respirou fundo, determinado a desligar o cérebro para fazer tudo no automático e ignorar o lugar cheio de pessoas apressadas, mal educadas e barulhentas que ele tinha que caminhar entre.

 

Ele conferiu as informações no balcão de check in da companhia, despachou sua mala com um cara nervoso no departamento de despacho e seguiu para a inspeção de segurança com a sua etiqueta sem muitos problemas. Os seguranças pareciam um pouco entediados, mas foi tudo perfeitamente tranquilo. Ele tinha seu cartão de embarque, passaporte e a mala de mão prontas para a viagem de volta.

 

O peso aterrador em seu peito só aumentava quanto mais ele andava procurando pelo portão do seu vôo.

 

— EI! CÉSAR!

 

Congelado no lugar quase imediatamente, o programador sentiu um alívio estúpido brotar no seu peito. Era Joui, seu Joui, correndo como um idiota desesperado na sua direção.

 

Ele poderia decidir gritar com ele, xingar, fugir e entrar no avião, mas tudo que cedeu ao que seu coração exigia — abriu os braços quando ele chegou perto.

 

— Meu Deus eu quase cheguei tarde demais, eu sinto muito… — ele estava chorando nos cabelos compridos de César, ocupado demais para notar que quase tinha derrubado os dois no chão — César eu- Eu sei, eu sei. Provavelmente estou sendo egoísta demais. Eu nunca devia ter privado você de saber das coisas… Não quando estávamos envolvidos romanticamente.

 

César assentiu devagar, a garganta apertada com vontade de chorar. Ele segurou as mãos do asiático, que tremiam como as dele, enquanto o ouvia falar.

 

— Eu-

 

— É sério, César, eu sei que você acha que eu sou um mentiroso e-

 

— Para, Joui. — ele pediu, suavemente. — Eu fui injusto com você porque estava magoado… Mas sei, aqui, no meu peito, que era real.

 

E ele definitivamente estava falando sério. Nos flertes, no cuidado, nos beijos, nas noites juntos, em tudo ele sentiu que era real, todo aquele sentimento além da paixão, construído com amor e respeito de verdade.

 

O programador ergueu uma das mãos, segurando o rosto molhado de lágrimas do asiático.

 

— Por isso, eu te perdôo.

 

— Você… — o rapaz mais jovem ficou tenso, surpreso  Não tinha vindo ali atrás de perdão, pois já tinha desistido de ser perdoado — Você me perdoa…?

 

— Sim.

 

— Nossa, eu- Um segundo por favor… — ele sorriu no meio das lágrimas, como uma criança incapaz de controlar suas emoções, rindo e chorando.

 

Suas lágrimas eram uma mistura agridoce de alívio, culpa, tristeza, felicidade e amor.

 

— Você não achou que eu ia te perdoar, Jojo?

 

— Não, — ele respondeu com convicção — nem foi por isso que eu vim… Eu não podia te deixar ir embora sem reparar meu erro.

 

O programador observou, confuso, o japonês tirar um envelope branco arrumado da pasta que ele tinha soltado no chão ao se jogar nos braços do outro. Não tinha nome, apenas um selo elegante lacrando o envelope e a logomarca da Kōshin Co centralizada no final das costas do envelope.

 

— Eu não sou meu pai. Não uso as pessoas. Não usei você, Cesinha, então deixe-me fazer uma coisa por você como seu supervisor tá?

 

Ele franziu a testa, mais confuso do que antes, enquanto puxava o envelope até abrir. Com as primeiras palavras do título do documento lá dentro, ele encarou Joui boquiaberto.

 

Era uma carta de recomendação. Legítima. Específica. Elogiando todo o trabalho dele. E ainda, com a assinatura do renomado CEO da empresa, o pai de Joui.

 

— Eu… Você lembrou. — balbuciou o rapaz de cabelos compridos, incrédulo — como conseguiu isso?

 

— Isso era importante pra você. Eu dei um jeito, querido. 

 

Ele não tem ideia de como conseguiu conversar com o pai dele para assinar uma recomendação, mas no momento ele nem queria saber. Os dois ficaram se olhando igual dois tontos antes de se abraçarem com força.

 

— Eu te amo, César.

 

— Então me beija, seu idiota.

 

Joui riu, as mãos ligeiramente calejadas nos cabelos de César, o trazendo para um beijo recheado de desejo e saudades.

 

Nos altos falantes, o voo de César estava sendo chamado para embarcar.

 

— Joui… — ele murmurou, sem fôlego.

 

— Eu sei. Eu sei. — o outro respondeu, a respiração falhando por causa do beijo — Nós dois sabíamos que ia ser difícil no final.

 

— Isso não é o fim, você sabe.

 

— Eu sei, querido. Você sabe que eu vou te visitar em breve.

 

— É bom mesmo. Esse trabalho tosco de escritório… Não combina com você.

 

Houve um breve silêncio, uma compreensão que Joui carregaria em seu peito pelo resto da sua vida. Alguém que ele tanto amava, reconhecendo o quão desconfortável era tentar ser alguém que ele não era, numa função que ele odiava.

 

De novo, a mulher não auto falantes chamou os passageiros do vôo 108.

 

César saiu correndo, com o coração quase explodindo de alegria. 

 

E Joui observou seu amado embarcar e decolar, se sentindo o homem mais amado do universo.

 

Em breve, se reuniram e nada ficaria no caminho da felicidade dos dois, porque o que tinham e sentiam um pelo outro era real. Um amor de verdade, feito para superar os solavancos da vida.

 

Notes:

amanhã eh meu aniversario então provavelmente só vai sair algo no sábado... ate depois lindos!!

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