Work Text:
— Nós já sabemos que você consegue andar pelas paredes, Danny — disse Sam. — É legal e tal, mas por que nos trazer até aqui?
— Não, não — disse Danny. Ele apontou para os tijolos vermelhos perto de seus pés. — Não sou eu quem está fazendo isso.
— É você, sim — retrucou Tucker. — Nós dois estamos te vendo.
— Não, o que eu quis dizer é que não estou usando meus poderes fantasmas para fazer isso.
Sam e Tucker franziram a testa e examinaram a parede do parque mais de perto. Era um canto isolado, escondido do resto do parque pelos banheiros e por uma grande árvore. Caso contrário, Danny nem teria tentado aquilo, não importava o que tivesse visto o esquilo fazer.
— Tem certeza? — perguntou Sam, depois de um minuto.
— Absoluta. Tipo, você tem que tocar nos tijolos certos, senão não funciona. E ficar perto da borda... — Ele apontou para o topo da parede. — ...é esquisito, mas definitivamente não são os meus poderes. É que a gravidade é estranha por aqui.
— Muitas lutas contra fantasmas não acabam passando por aqui? — perguntou Tucker. — Você acha que a energia poderia, sei lá, grudar de algum jeito?
— Se fosse assim — ponderou Danny —, a minha casa inteira seria desse jeito.
— Você já tentou andar pelas paredes sem estar na forma fantasma? — perguntou Sam. Ela fez uma careta e murmurou algo baixinho sobre a própria gramática.
— Acredite ou não, sim — respondeu Danny. — Seria bem mais fácil aspirar as paredes se funcionasse desse jeito. Eu nem precisaria esconder do meu pai e da minha mãe. De qualquer forma, eu acho que existem alguns outros lugares por aí que são parecidos com este. Onde as leis da física estão meio que... quebradas, eu acho. — Ele franziu a testa. — Tipo aquela rua que é mais curta do que deveria ser indo para um lado, e mais longa para o outro, mesmo tendo o mesmo comprimento...
Ele deixou a frase morrer no ar.
— Tudo bem, antes de entrarmos nesse assunto, vamos ter certeza de que isso é real, e não apenas os seus poderes fantasmas — cortou Sam. — Onde eu preciso pisar para fazer dar certo?
Danny mostrou a ela.
Realmente não eram apenas os poderes dele.
— E eu posso simplesmente... andar por aí?
— É. Pelo que percebi, age como a gravidade normal, exceto pela direção. Eu consegui até ficar pendurado no topo da parede. Mas não recomendaria isso para você.
— Por que não?
— Eu sei voar. Você só despencaria.
— Ah. É. Isso seria... é — concordou Sam. — Mas você disse que ficava esquisito?
— E isso não é esquisito o bastante?
— Justo. E as outras paredes? — Ela apontou.
Danny deu de ombros.
— Agem como paredes. Você pode se encostar nelas. É estranho.
— Você pode se encostar nelas de qualquer jeito — comentou Tucker, enquanto Sam dava alguns pulinhos experimentais. — Elas são paredes.
— Sim, mas não a partir desta direção — explicou Danny. — Confia em mim, é estranho.
— Você não precisa confiar nele — provocou Sam. — Venha tentar, covarde.
Tucker, tendo provado em múltiplas ocasiões que era o exato oposto de um covarde, revirou os olhos.
— Tá bom, tá bom. Pelos fantasmas, você tem razão, isso é muito esquisito.
— Viu? Eu te avisei.
— Legal, legal — disse Tucker. — Mas, hã, odeio ser aquele que pergunta isso, mas como a gente desce?
— Ah, é fácil. É só tocar no chão.
— Como assi... — Tucker não conseguiu se segurar a tempo quando a gravidade se reafirmou na direção correta. — Ai.
— Você está bem?
— Meu orgulho não.
— Justo — disse Danny, aproveitando sua habilidade de voar e seu senso de equilíbrio nada padrão para simplesmente sair andando da parede. — Quer uma ajuda? — perguntou ele a Sam.
— Não, eu me viro — recusou Sam, estendendo as mãos com cuidado.
— Eu odeio vocês dois — resmungou Tucker, ainda de cara na grama.
— Ah, nós também te amamos — brincou Danny, fazendo biquinho.
— Eu não consigo te ver, mas consigo te ouvir. E é a minha vez de ficar com a Fenton Térmica esta noite. Posso tornar as coisas muito inconvenientes para você.
— Mas você não vai.
— É, eu não vou — concordou Tucker, finalmente se movendo. Ele empurrou os óculos de volta para o topo do nariz. — Você disse que havia outros pontos como este?
— Ah, sim. Vários.
— Pode mostrar pra gente?
Ninguém costumava passar por baixo do viaduto, nem mesmo os moradores de rua, o que era uma pena, porque aquilo era insano.
Embora, parando para pensar, talvez fosse exatamente por isso que ninguém passasse por ali.
Danny soltou mais uma pedra no ar.
— Elas simplesmente ficam aí? — perguntou Sam.
— Contanto que você as coloque neste nível exato, sim — explicou Danny. — Mas se você der qualquer impulso, ele se mantém, elas saem do lugar e caem, então tem que tomar cuidado com o jeito que as solta.
— Mesmo se você as empurrar para cima?
— É. Fica bem esquisito, olha só. — Ele deu um toquinho na pedra para cima, e ela continuou naquela direção por um instante antes de virar e cair.
— Pareceu normal para mim — comentou Tucker.
— Não segue a trajetória balística correta — explicou Danny. — Não acelera quando está nessa faixa. Olha de novo, tá? — Ele repetiu o movimento com outra pedra.
— Continuo não vendo.
Sam deu uns tapinhas nas costas de Danny.
— Eu acho que você simplesmente tem um olho melhor para coisas relacionadas à física do que nós.
Danny suspirou.
— Certo, o que mais você tem? — perguntou Tucker, fazendo algum tipo de anotação no seu PDA.
— Ai, caramba, ai, meu Deus, ai, caramba — exclamou Tucker. — Por que eu sou amigo de vocês? Falando sério, isso é horrível, isso é muito horrível. Me põe no chão, me põe no chão, me põe no chão.
— Você já está no chão — respondeu Danny.
— Eu não estou no chão, eu estou a trinta metros de altura e de cabeça pra baixo! Eu juro, Danny, se você não...
Danny suspirou e o puxou para fora da tampa do bueiro.
— Ah — murmurou Tucker.
— É só uma ilusão — explicou Danny.
— Vocês poderiam ter me avisado.
— Você não esperou — retrucou Danny, franzindo a testa.
— Foi mal, a culpa é minha — confessou Sam, erguendo a mão. — Eu o desafiei a fazer isso.
— Mesmo que seja uma ilusão — começou Tucker, parando para recuperar o fôlego. — Isso é meio perigoso. Ainda bem que ninguém passa por aqui...
— É — concordou Danny. — Ainda bem que tudo isso fica isolado. Pelo menos até agora...
— O que foi? — perguntou Sam.
Danny fez uma careta.
— Só... pensando em como seria bom se a gente pudesse, sei lá, fazer um mapa e contar para as pessoas sobre esse tipo de coisa. Para que ninguém acabasse ficando preso ou se machucando sem querer. Talvez a gente pudesse fazer panfletos, ou algo do tipo.
— É, mas quem acreditaria na gente? — perguntou Sam, dando de ombros.
— A gente poderia tentar envolver os seus pais? — sugeriu Tucker.
— Vamos... vamos deixar isso como último recurso — descartou Danny. — Por enquanto... acho que é só algo para mantermos em mente. Especialmente se realmente encontrarmos algo perigoso, ou um daqueles... como eles chamavam... um portal fantasma natural. Quero dizer — continuou ele, franzindo a testa —, deve existir algum desses por aí. Nem todos os fantasmas passam pelo nosso portal.
— A segurança do seu pai é meio inútil — comentou Tucker.
— Não tão inútil assim — defendeu Danny —, e eles melhoraram um bocado desde toda aquela história com o Johnny. — Ele fuzilou a lembrança com o olhar.
O PDA de Tucker apitou.
— Eita, eu preciso ir para casa — avisou ele. — Pode me levar voando?
— Você ainda tá usando o seu PDA pra agendar coisas?
— Funcionou, não funcionou? Além disso, eu codifiquei todos os lugares, então se o Skulker a roubar de novo, ela vai mandá-lo para Timbuktu.
— Eu ficaria com pena de Timbuktu — disse Danny —, mas tá, eu te levo. Sam?
— Eu, na verdade, quero dar uma passada na livraria — disse ela. — Vejo vocês amanhã?
— Beleza — concordou Danny.
— É bom que você tenha coisas mais esquisitas ainda pra gente ver — avisou ela, quase andando de costas.
— Pode deixar! — prometeu Danny. Ele se virou para Tucker. — E então, quer que eu te leve pelos braços, de cavalinho ou no estilo noiva?
