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Marionete

Summary:

A mais nova adição ao Circo Gótico encolheu-se no canto do vagão do trem, balançando o corpo para frente e para trás. Os outros artistas involuntários o observavam com preocupação.

Notes:

Aviso de Gatilho: Esta história retrata cenas de abuso psicológico e físico (dentro do contexto do cânone de Danny Phantom). Por favor, leia com cautela caso esses temas sejam sensíveis para você.

Work Text:

​A mais nova adição ao Circo Gótico encolheu-se no canto do vagão do trem, balançando o corpo para frente e para trás. Os outros artistas involuntários o observavam com preocupação. Ele não era o menor deles, esse era o Garoto Verde, o anão, mas era obviamente muito mais jovem. Os fantasmas podiam até estar sob o controle de Freakshow, mas ainda mantinham suas personalidades e tinham permissão para expressá-las, desde que Freakshow não estivesse por perto.

​— Isso não está certo — comentou o Garoto Verde.

​Golias deu de ombros com sua estrutura maciça.

​— Não é como se pudéssemos fazer alguma coisa a respeito.

​— Ele não é como nós — insistiu o anão. — Ele não é do circo.

​— Não importa. Ele é agora.

​— Não — discordou Elástica, juntando-se à conversa pela primeira vez. — Ele não é.

​Ela se aproximou do canto oposto onde estava e agachou-se, ficando na mesma altura do jovem fantasma.

​— Nós estamos razoavelmente bem, mas isso é porque gostamos do circo. Sempre vivemos do circo. Somos artistas. Ele não.

​Ela se aproximou um pouco mais. O jovem fantasma sussurrava algo baixinho. Era quase ininteligível.

​— Ele tem uma Obsessão diferente — apontou o Garoto Verde.

​Golias sibilou:

​— Nós não falamos sobre isso. Não aqui.

​Provavelmente não importava. Mesmo que Lydia fosse muda, ela ainda podia contar a Freakshow sobre coisas como Obsessões, e o próprio Freakshow possuía um vasto conhecimento do sobrenatural. Ainda assim, eles não gostavam de falar sobre assuntos de fantasmas onde ele pudesse ouvir. Algumas coisas deviam permanecer em segredo, deviam ser privadas, não deviam ser entregues aos humanos.

​— Muito jovem — lamentou Elástica. — Ei. Garoto.

​Ela franziu a testa, forçando a memória para lembrar o nome dele. Talvez tivesse escutado durante a luta deles alguns dias atrás.

​— Invisi-Bill?

​O fantasma ergueu o rosto, os olhos vermelhos brilhando em fúria.

​— Esse não é o meu nome.

​— Qual é, então? — perguntou Elástica, com cuidado. A maioria dos fantasmas era sensível com coisas como nomes.

​— Phantom.

​Ele realmente era jovem, se achava que se chamar literalmente de “fantasma” em inglês era uma boa ideia. Provavelmente era novato também. Juntando as duas coisas, ele não devia ser muito bom em controlar sua Obsessão, que seria... Sinceramente, Elástica não sabia o que seria. Ela não tinha muita experiência com crianças. Ruim, provavelmente.

​— Eu sou a Elástica — apresentou-se. Ele esqueceria. Esqueceria várias vezes, antes de se ajustar ao que o cajado faria com ele. — Aqueles são o Golias e o Garoto Verde.

​— Oi — respondeu Phantom, hesitante. Ele piscou com força e esfregou os olhos antes de voltar a murmurar: — Ir para o trem, entrar, ficar lá, ir para o trem, entrar, ficar lá, ir para o trem, entrar, ficar lá, ir para o trem...

​— Ei — chamou Elástica. — Você está aqui, está tudo bem. Nós vamos ajudar você. Somos todos amigos aqui.

​— Amigos? — perguntou Phantom. Lágrimas brotaram em seus olhos, a luz vermelha interior refletindo nelas de um jeito estranho. — Amigos? — Ele soluçou. — Onde...?

​As íris dele começaram a sangrar um tom de verde. Elástica recuou no susto.

​— Onde eu estou? Onde estão os meus amigos? Eu quero...

​Houve um baque surdo.

​— Chega! — gritou Freakshow, com o cajado em mãos.

​Os olhos de Phantom rapidamente voltaram a ficar vermelhos, toda a sua atenção cravada em Freakshow. O foco de Elástica também foi puxado naquela direção, mas ela havia dominado a habilidade de se conter, de se dissociar, permitindo-se apenas observar, sem se conectar ao que Freakshow a obrigava a fazer. Todos os três haviam aprendido a fazer aquilo. Enlouqueceriam, caso contrário.

​Freakshow marchou para dentro do vagão, parando bem na frente de Phantom. Ele atingiu o jovem fantasma com a base do cajado.

​— Levante-se, fantasma.

​Phantom, trêmulo, escorregou para cima pela parede, apoiando-se nela. Freakshow enfiou a orbe na ponta da haste no rosto de Phantom, com força suficiente para fazer a parte de trás da cabeça do garoto bater na parede com um estalo seco. Os olhos de Phantom estavam arregalados, refletindo o brilho espiralado da joia.

​— Que história é essa de “amigos”? Explique-se.

​— Eu quero... meus amigos. Quero... eu... quero meus amigos... Por favor. — A voz dele soava artificial, as palavras tropeçando umas nas outras. — Meus amigos.

​Algo verde cintilou no fundo dos olhos dele, mesmo com a orbe bem na sua cara.

​— Eu preciso...

​— Que amigos? — exigiu Freakshow.

​— Sam... e Tucker. Eles são meus melhores... amigos. — Ouviu-se aquele som de soluço outra vez.

​Freakshow desdenhou.

​— Você é um fantasma — retrucou. — Fantasmas não têm amigos. Você não tem amigos.

​— Meus amigos...

​— Você. Não. Tem. Amigos. Ponha isso na sua cabeça. Repita algumas vezes.

​— Você não tem amigos, você não tem amigos, você não tem amigos.

​O vagão estaria em total silêncio, não fosse pela respiração de Freakshow, mas a mudez no ar era densa, sufocante. Freakshow sorriu devagar, e seu sorriso era doentio e cruel.

​— Você tem razão. Eu não tenho amigos, mas não preciso deles. Eu tenho marionetes como você, não é mesmo?

​— Isso mesmo.

​— Agora, diga-me como você não tem nenhum amigo, porque você é um fantasma, marionete.

​— Eu tenho amigos.

​Freakshow agarrou Phantom pelo colarinho e o arremessou para o centro do vagão. Fantasmas eram leves, quase sem peso algum, então até mesmo alguém como Freakshow conseguia fazer aquilo com facilidade. Phantom se pôs de pé novamente, ainda seguindo a ordem anterior.

​— Dance para mim, marionete.

​Phantom começou a dançar. Ele era... ruim. Pateticamente ruim, na verdade.

​— Repita comigo: “Eu sou um fantasma, eu não tenho amigos.”

​— Eu sou um fantasma, eu não tenho amigos — repetiu Phantom, um pouco sem fôlego.

​— De novo.

​— Eu sou um fantasma, eu não tenho amigos.

​— Ótimo. Agora continue fazendo isso. — Freakshow virou-se para Elástica e os outros fantasmas. — Como podem ver, nossa mais nova atração não é exatamente o que chamaríamos de um grande dançarino. Toda vez que ele fizer algo errado, batam nele. Ah, e você, anão — ordenou, esparramando-se em uma cadeira que lembrava um trono —, traga-me uma bebida.

​


 

​— Acho que já chega — declarou Freakshow.

​Ele já havia mudado suas ordens aos fantasmas algumas vezes àquela altura, e ocasionalmente os interrompia para poder interrogar e atormentar Phantom. Elástica preparou-se para novos horrores.

​— Queremos que ele esteja em ótima forma esta noite. — Freakshow deu uma risada. — Ele estará bem ocupado, afinal, começando pelo show da noite.

​Freakshow se levantou e caminhou até onde Phantom havia desabado no chão. O jovem fantasma estava surrado, coberto de hematomas escuros e esverdeados, com ectoplasma vazando de cortes que já começavam a cicatrizar.

​A base do cajado atingiu o garoto no estômago.

​— O que você diz a isso, marionete?

​— Eu sou um fantasma — Phantom sussurrou, a voz rouca —, eu não tenho amigos.

​O rosto de Freakshow contorceu-se em desgosto.

​— Não, não, não. Não isso. O que você diz?

​O mestre de cerimônias cravou a ponta do cajado em cima de uma das mãos de Phantom. O fantasma soltou um ganido.

​— S-sim, mestre.

​— Muito bem! Talvez ainda haja esperança para você.

​Freakshow saiu do vagão sem dizer mais nenhuma palavra.

​Phantom, enquanto isso, arrastou-se pelo chão até voltar para o seu canto.

​— Phantom... — começou Elástica.

​O jovem fantasma respondeu com um sibilo fraco.

​— Não se dê ao trabalho — aconselhou o Garoto Verde. — Ele mal sabe o que está acontecendo. Não vai confiar na gente depois dessa.

​— Garoto — chamou Golias. As mãos do gigante tremiam. — Ele foi muito insistente sobre os amigos dele. E se... E se eles fossem aquilo? Sabe como é.

​— Então ele vai desaparecer. Vai ser mais gentil do que isso.

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