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Em Jogo

Summary:

Danny quer apresentar Ellie a alguém...

Notes:

Work Text:

Poucos fantasmas iam a Elmerton.

​Ficava logo ali do outro lado do rio, em frente a Amity Park, e a realidade lá era fina também, então, claro, alguns fantasmas acabavam parando lá, mas não tantos quanto se esperaria. Havia vários motivos para isso. Facilidade de acesso, recursos, a presença de Phantom e sua habilidade de capturar a maioria dos fantasmas antes que saíssem de Amity Park, lugares mais interessantes em outros cantos, etcetera, etcetera.

​Mas, naquele momento, isso não importava. Havia um fantasma por lá, agora, aterrorizando a população. E a população local, por estar muito menos acostumada com fantasmas, era mais fácil de ser aterrorizada, até mesmo por um fantasma tão fraco quanto aquele.

​— Cuidado! — gritou o fantasma, balançando seus dedos azuis.

​A garota no beco suspirou, observando a cena. Ela tinha vindo ali para se reabastecer para sua turnê mundial, em algum lugar onde seu primo não a encontrasse. Mesmo uma recém-nascida como ela sabia que precisava de suprimentos, embora isso fosse, em parte, graças às memórias emprestadas.

​Ela suspirou de novo. O Fantasma da Caixa era basicamente inofensivo. Mas. Ênfase no basicamente. Ele era parecido demais com o primo dela.

​Com uma mudança de pensamento e um flash de luz, ela deixou de ser uma garota humana e passou a ser uma fantasma. Ela voou para fora do beco.

​— Ei, Caixinha! — gritou ela, carregando um raio ectoplasmático.

​Outro raio, não o dela, derrubou o fantasma do céu, seguido rapidamente pelo feixe azul-esbranquiçado de captura de uma Fenton Térmica. A garota se encolheu. Droga.

​Era seu primo.

​— Ellie! — exclamou ele, flutuando ao redor dela de um jeito que a fez lembrar de um beija-flor grande e ansioso. — Você está bem?

​— Estou bem, estou bem. Era só o Fantasma da Caixa.

​— Eu sei. Só, você sabe como é. — Ele a abraçou. Ela pôde sentir seu cerne se estabilizar levemente e começou a captar as emoções dele. — Senti tanto a sua falta. Procurei por você em todos os lugares.

​Ela o abraçou de volta. Também tinha sentido falta dele, mas...

​— Você sabe por que eu fui embora. — Seu cerne girava com emoções e sentimentos que ela não conseguia verbalizar muito bem.

​— Você quer ser sua própria pessoa, eu entendo. — Ele se afastou um pouco para poder sorrir para ela. — Sabe, se você algum dia quisesse que eu... Eu faria. Você é da família.

​— É, só que... eu não estou pronta pra isso. — Ela achava que Danny também não estava pronto para o que ela estava oferecendo. Não que ele não faria em um segundo, por ela, mas... Ela não queria obrigá-lo.

​Danny assentiu.

​— É só que fico preocupado de você estar sozinha, sem nenhum suporte. — Ele se animou. — É por isso que quero que você conheça alguém!

Ellie franziu a testa.

​— Quem?

​— Um amigo meu.

​Não era a Jazz, então. Mas ela já tinha conhecido Sam e Tucker, e não achava que Danny tivesse outros amigos.

​Aquilo era meio triste, na verdade...

​Talvez fosse alguém de quem ela não se lembrava. Afinal, ela não tinha todas as memórias de Danny. Só um monte delas.

​— Ok, ok, tudo bem, combinado.

​Danny abriu um sorriso radiante.

​— Ótimo! — Ele pegou a mão dela e a puxou de volta para Amity Park.

​Eles não conversaram muito depois disso, contentes em compartilhar emoções vagas, até que começaram a se aproximar da FentonWorks.

​— Ei, esse amigo não é, tipo, seus pais ou algo assim, né?

​— O quê? Não. Quer dizer, se você quiser conhecê-los...

​— Não — respondeu Ellie, apressada. — Estou bem assim.

​— Eles são seus pais também.

​— Não quero lidar com isso. Mas eu gostaria de saber para onde estamos indo.

​— Ah, é, imagino que isso pareça estranho. Meu amigo mora na Zona Fantasma.

​Elliefranziu a testa.

​— Poindexter?

​Danny riu.

​— Não, mas eu poderia te apresentar a ele também, se você quiser.

​— Não, estou bem.

​Eles entraram na FentonWorks pela janela do quarto de Danny e desceram sorrateiramente pela casa até o laboratório. Danny abriu as portas do portal, e eles entraram na Zona Fantasma.

Ellie já tinha estado lá antes, com Vlad, mas não por muito tempo, nem com frequência. A maioria de suas memórias daquele lugar eram de Danny. Viajar por ali desse jeito, indo fundo e navegando por estranhas pequenas rugas do espaço-tempo, era muito melhor.

​Até o momento em que ela avistou o destino deles.

​O Agora Eterno.

​Ela parou.

​— O que foi? — perguntou Danny. — Você está bem? Está... Está tudo bem você ter voado até aqui?

​— Estou bem — disse Ellie. — É que estou... surpresa.

​Danny sorriu.

​— É incrível, não é?

​— Com certeza — respondeu Ellie.

Ellie tinha memórias de Clockwork, mas eram difíceis para ela. Estavam todas emaranhadas e confusas com memórias que Danny tinha conseguido daquele outro cara, e elas doíam.

​Além disso...

Ellie sabia que Danny confiava em Clockwork. Ela não. Por muitos motivos.

​Ela provavelmente deveria dar meia-volta. Colocar-se ainda mais sob o poder de algum cara estranho do tempo não estava na sua lista de tarefas.

​Por outro lado, ir embora com certeza chatearia Danny, e que chance melhor ela teria de confrontar o sujeito? Se ele fosse tão suspeito quanto suspeitava, ela não queria Danny nem perto dele.

​Ela seguiu Danny.

​Eles voaram até pairarem em frente às enormes portas duplas, que se abriram para dentro, completamente em silêncio. Danny lhe deu um sorriso encantado e voou para dentro.

​Ela suspirou e seguiu atrás. Danny não deveria ser o mais cansado da vida e cauteloso? Ellie tinha acabado de nascer este ano, afinal. Mas, não, Danny era quem confiava no monstro temporal ancestral. Se os dois não fossem eles próprios bem ancestrais, Ellie estaria ainda mais preocupada.

​O interior do prédio era tão sinistro quanto o exterior. Nem um segundo lá dentro, e o tique-taque já estava a deixando louca. Era excessivo demais, e a arquitetura era estranha, até mesmo para a Zona Fantasma. Será que todas aquelas engrenagens eram realmente necessárias?

​— Clockwork! — exclamou Danny, alegre demais. Ele mergulhou sobre o fantasma de manto roxo que flutuava na outra extremidade da sala.

Ellie ficou para trás e observou. Danny se enroscou em Clockwork, com sua cauda enrolada firmemente na ponta do manto dele. Clockwork sorriu para Danny com indulgência, exatamente com a mesma expressão que Vlad reservava para Maddie, a gata.

​Aquilo fez Ellie se sentir enjoada. Ela cruzou os braços sobre o peito e engoliu em seco.

​... Não. Aquela não era a postura certa. Ela nunca venceria Clockwork em uma luta, afinal. Ela derreteria muito antes de conseguir deixar qualquer marca nele. Não. Para vencê-lo, ela precisaria ser sorrateira, descobrir o que ele queria e usar isso a seu favor. Como Vlad a ensinou. Que nojo.

​Ela relaxou os braços e curvou os ombros, tentando parecer tímida, em vez de repelida, quando Clockwork deu um tapinha na cabeça de Danny.

​Danny se soltou e voou de volta para Ellie.

​— Ellie, este é Clockwork — disse ele, colocando uma mão em seu ombro. — Clockwork, esta é Ellie. Ellie, não sei se você já sabe, mas Clockwork me ajudou a sair de algumas situações muito ruins, e ele me deixa ficar por aqui, às vezes. Ah, e ele me dá aulas de história, mas isso é mais um lado negativo, sabe como é — terminou Danny, brincando.

​— Assim como é para Daniel — respondeu Clockwork, suavemente, com sua voz profunda e rica —, você é bem-vinda aqui sempre que desejar vir.

​— Obrigada — disse Ellie, com rigidez. Seria natural ser um pouco reservada em um primeiro encontro, não seria? Talvez ela devesse ter se esforçado mais nas suas habilidades interpessoais, afinal.

​— Ei — disse Danny, com a voz baixa e encorajadora —, você não precisa ser tímida. Clockwork é muito legal.

Ellie franziu o nariz. Ela não estava sendo tímida. Ela estava sendo cautelosa.

​Se ela se lembrava bem, as pessoas geralmente faziam perguntas umas sobre as outras depois de serem apresentadas pela primeira vez. Ela lambeu o lábio inferior.

​— Então, ele simplesmente deixa você ficar por aqui? Assim, do nada?

​Danny olhou para Clockwork, e Ellie teve a impressão de que Danny achava que ela estava sendo rude, de alguma forma.

​— Bom, eu o ajudo com algumas coisas, imagino, mas... — Ele coçou a nuca. — Eu sinto que nós, hum, gostamos da companhia um do outro?

​Tarefas. Certo. Como o que Vlad a obrigava a fazer. Como “vá buscar o DNA do Daniel no meio da metamorfose”. Credo, Clockwork até usava os nomes completos deles como Vlad fazia. Os paralelos eram intermináveis.

​— Eu gosto, de fato — disse Clockwork, sorrindo levemente, revelando uma pequena brecha entre os dois dentes da frente. Ele voltou seu olhar para Ellie, o sorriso desaparecendo para ser substituído por uma expressão muito mais neutra. — Você não aprova.

​— O quê? — disse Danny, olhando de um para o outro. — O que você quer dizer? Não aprova o quê?

​Clockwork ergueu uma sobrancelha. Droga. Ele já sabia.

​Ela deveria saber que não era boa ideia tentar ser mais sorrateira que alguém que era como Vlad, mas que também podia controlar o tempo. Olhando para trás, aquilo foi bem estúpido.

​— Ele está usando você — disse Ellie, flutuando para mais perto de Danny, colocando-se levemente entre ele e Clockwork.

​— Eu... O quê?

​— Ele está usando você. Ele te “ajudou”, mas não foi ele quem causou tudo logo no início? — Mesmo que suas memórias emprestadas dos incidentes não fossem claras, ela com certeza tinha ficado com essa impressão. — E agora ele está te obrigando a fazer coisas? — Ela fuzilou Clockwork com o olhar. — Você é igualzinho ao Vlad! — Ectoplasma cintilava e estalava ao redor de suas mãos.

​— Ellie — disse Danny —, eu não... — Ele olhou para Clockwork. — Ele realmente me ajudou. A situação é meio complicada.

​Ela olhou feio para Danny.

​— Você ao menos percebe como você age perto dele? É como se fosse controle mental ou algo assim!

​Danny franziu as sobrancelhas e puxou os lábios para dentro.

​— Não é isso que está acontecendo. É... Hng... Oh meu Deus, isso é meio embaraçoso, na verdade.

​— Você está corando?

​— … Talvez.

​Aquilo tinha ido longe demais.

​— Clockwork, me desculpe, acho que, hum, acho que deveria conversar com a Ellie um pouco, provavelmente deveria ter conversado com ela antes, desculpe. — Danny a puxou para trás, para longe de Clockwork.

​— Tire o tempo que precisar — murmurou Clockwork.

​Idiota convencido...

​Danny a puxou para um canto e a fez virar.

​— Ellie — disse ele —, Clockwork não está fazendo controle mental em mim, e o que aconteceu com... — ele empalideceu visivelmente — ...com o Dan, a culpa não foi dele. Provavelmente teria sido pior se ele não tivesse feito nada.

​— Ok, então explica — exigiu Ellie, olhando de volta para onde Clockwork flutuava.

​— Eu vou, eu vou, se acalma, por favor. Clockwork é... Ele tem um contrato com os Observantes.

​— E os Observantes são?

​— Idiotas de um olho só. Eles têm um problema com meio-fantasmas. Mas o contrato, é basicamente, bem... — ele baixou a voz de novo —, escravidão. Mas mágica. Ele não tem escolha a não ser fazer o que eles querem. Ele conseguiu encontrar uma brecha para mim. Para nós, na verdade. Mas... É.

​— Beleza. E a outra coisa?

​— Hum. — Danny ficou inquieto. — É uma coisa que fantasmas da nossa idade fazem às vezes, eu acho? Quando a gente se apega a, você sabe, um fantasma adulto. Perguntei para a Dora sobre isso, e é algo real. Nem todo mundo é como o Vlad, Ellie. Eu sei que ele mentiu, mas algumas pessoas podem dizer as mesmas coisas e estar falando a verdade.

​— Não é sobre isso. — Mas será que era? Será que ela estava tão presa ao Vlad assim?

​— Ok — disse Danny, erguendo as mãos. — Você não precisa ficar aqui, ou vir aqui, se não quiser. Só achei que poderia ser uma coisa boa se você tivesse um lugar seguro para ir quando precisasse de ajuda.

​... E agora Ellie se sentia mal. Danny estava tentando ajudá-la, e ela estava sendo ingrata.

​Isso não significava que ela estava errada sobre Clockwork.

​— Não estou pedindo para você ser melhor amiga do Clockwork imediatamente, mas talvez dê uma chance a ele? Temos que tomar muitas decisões rápidas em nossas vidas, mas essa não precisa ser uma delas.

Ellie franziu os lábios.

​— Tá bom — disse ela.

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