Work Text:
Danny estava sentado no topo do centro de operações, observando Amity Park, com uma perna puxada contra o peito e a outra balançando livremente pela beirada do prédio. Era um dia lindo, claro, ensolarado e quente, no auge do esplendor do verão. Até os fantasmas estavam dando uma trégua. Nada poderia dar errado em um dia como aquele.
Só que, há exato um ano, algo tinha dado.
Danny havia morrido.
Ele puxou o ar em uma respiração longa e trêmula, lembrando a si mesmo de que podia fazer aquilo. De que ainda podia respirar, de que seu coração ainda batia, de que seu corpo ainda estava quente. Ou quase, se comparado à temperatura ambiente. Ele ainda estava vivo.
Mas ele também estava morto, e já fazia quase um ano, faltando apenas algumas horas. A ansiedade estaria acabando com ele, se já não fosse tarde demais para isso. Não sabia por que se sentia daquele jeito, não sabia por que estava com os nervos tão à flor da pele que parecia prestes a desmontar de tanto tremer. Provavelmente deveria ir conversar com Jazz; agora que ela sabia o seu segredo, com certeza diria algo calmante e totalmente incompreensível sobre traumas e memórias. Mas ele não conseguia encarar a ideia de estar perto de outras pessoas naquele momento.
Ou melhor, para ser mais exato, não conseguia suportar a ideia de estar perto de humanos agora.
Sua pele pinicava, uma coceira rastejando pelas cicatrizes quase invisíveis de sua morte. Ele esfregou as mãos de cima a baixo pelos braços, tomando cuidado para não usar as unhas que havia roído até o sabugo mais cedo. Deu uma sacudida no corpo. Tinha subido ali para se distrair, não para chafurdar.
Ele varreu o horizonte com os olhos. Provavelmente, era a única pessoa capaz de enxergar a cidade daquele jeito, com todos os seus segredos cintilantes e sobrenaturais.
(As distorções de espaço e tempo que pendiam como cortinas peroladas. As ruas que só existiam em um sentido, ou mediante pedágio. Os fantasmas de arranha-céus esquecidos e jamais construídos. Os redemoinhos espaciais dos portais fantasmas naturais, que os humanos viam apenas como discos verdes. As estradas retas que davam voltas em si mesmas. A sombra do subúrbio que só existia em dias de chuva. A pulsação ansiosa das paredes das lojas de conveniência. A floresta do parque que ficava mais funda, mais vasta, quanto mais se entrava nela.)
O tecido da realidade era fino ali, e estava ficando cada vez mais fino. Provavelmente sempre fora assim, mas a mudança ficou bem mais evidente desde que Pariah Dark havia roubado a cidade em março. Até mesmo as pessoas normais começavam a notar os lugares mais óbvios. Danny sabia que alguns alunos da sua turma tinham começado a usar a “estrada do atalho” em junho. Na semana passada, ele precisou resgatar Wes de uma distorção espacial bem feia, mas felizmente passageira (não que Wes tivesse agradecido), e ontem mesmo ele ouviu dois funcionários de uma loja de conveniência discutindo se a loja normalmente tinha seis corredores de prateleiras ou apenas cinco.
Ele esperava que não fosse perigoso. Mas, mesmo que fosse, duvidava muito que conseguiria impedir. Seus pais não tinham conseguido.
Danny estremeceu. Parecia que sua pele estava apertada demais. Sua pele humana tinha ficado pequena, e seu lado fantasma zumbia e formigava logo abaixo dela; a aura pressionando por dentro como milhares de picadas de agulha. Ele desejou com todas as forças saltar para fora daquele corpo, deixá-lo mole e vazio jogado ali no telhado.
Ao mesmo tempo, ele sabia que se transformar em fantasma àquela altura seria uma péssima ideia. Mais do que isso, não queria abrir mão nem sequer da aparência de humanidade naquele momento. Ele se agarrava à vida. Ele estava vivo.
Como se para zombar de sua determinação, a invisibilidade o banhou suavemente, deixando-o transparente e fantasmagórico, mesmo em sua forma humana. Ele gemeu e enterrou a cabeça entre os braços. O coração martelava no peito, e algo mais fundo, naquele lugar de onde ele puxava a sua forma fantasma, estava tremendo. Sentiu-se enjoado. Fraco e apagado, em mais de um sentido.
O que havia de errado com ele? Mesmo que fosse o aniversário da sua... do Acidente, no fundo, era só mais um dia. Assim como um aniversário qualquer era só mais um dia. Não existia — não deveria existir — nada mágico nisso. A menos que fosse uma coisa de fantasma, ou, mais especificamente, uma coisa de Mortos: ter uma crise de ansiedade horrível e paralisante no aniversário do dia em que viraram fantasmas.
Pelo menos sua Obsessão não estava atacada. Não muito. Todo mundo estava a salvo hoje e continuaria assim, muito obrigado, nem que ele precisasse arrancar a própria pele com as unhas para garantir. Em outras circunstâncias, ele poderia estar grudado em Sam ou Tucker, talvez agarrado à irmã, ou até seguindo seus pais como uma sombra, mas não queria impor sua presença a ninguém estando naquele estado. E o mais importante de tudo: ele estava com medo.
(Se fosse honesto consigo mesmo, admitiria que tinha subido ali para se esconder.)
Então, um calafrio o percorreu e sua respiração saiu em uma névoa branca; seu corpo detectando a presença de um fantasma. Ele saltou para se colocar de pé (ou pelo menos tentou; seus pés mal faziam contato com o telhado) e se virou, não estando nem um pouco preparado para uma luta.
Por sorte, porém, parecia que não precisaria lutar.
— Clockwork? — perguntou ele, surpreso, mas aliviado. — O que... O que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?
— Não exatamente — Clockwork respondeu, encarando Danny com algo que talvez fosse simpatia. — Hoje é o seu Dia da Morte.
Danny assentiu, inclinando-se um pouco para o lado. Clockwork pousou uma mão firme em seu ombro, mantendo-o de pé.
— Você consegue se transformar? — perguntou Clockwork, sendo cuidadosamente gentil.
— Isso vai ajudar?
— Vai mudar a sua perspectiva — explicou Clockwork —, e tornará mais fácil chegarmos aonde estamos indo.
Danny mordeu o lábio inferior, forte o bastante para sentir o gosto de sangue. Ele realmente não queria se transformar, realmente não queria ir a lugar nenhum. Mas Clockwork sempre tinha um bom motivo para o que pedia, então Danny buscou sua metade fantasma (nem precisou ir tão fundo quanto de costume) e acionou a transformação.
Quase imediatamente, a sensação de que sua pele estava apertada demais desapareceu. Em seu lugar, veio um pico avassalador de ansiedade fincado direto em seu coração.
Havia perigo. Havia perigo em algum lugar. Sua família estava em perigo. Seus amigos estavam em perigo. O povo dele estava em perigo. Tinham que estar, caso contrário, por que ele estaria se sentindo assim? Ele precisava impedir isso, tinha que fazer parar, agora. Precisava ajudá-los, precisava protegê-los, mantê-los a salvo, tinha que ir, ir, ir...
Clockwork o segurou pela barra da blusa bem no instante em que ele ia se atirar do telhado.
— Eles estão bem, Daniel. Os fantasmas sabem que dia é hoje para você. Eles não vão perturbar o seu território.
— Sério? — perguntou Danny, cético. — Até os animais?
— Sua amiga, a Caçadora, vai cuidar dos poucos que passarem por aqui hoje. Será uma boa experiência de aprendizado para ela.
— Ela não vai se machucar? — perguntou Danny, olhando nervosamente para Amity Park. Nossa, todos aqueles carros. Carros eram perigosos. Ele deveria...
— Ela vai se machucar — respondeu Clockwork, distraindo Danny com sucesso —, mas isso será benéfico para ela no futuro.
Danny hesitou, mas concordou com a cabeça. Benefício a longo prazo. Certo. Ele precisava se lembrar de ver as coisas por esse ângulo, levar isso em consideração.
Espera um pouco. Clockwork o havia segurado pela blusa. Sua blusa, não o seu traje. Ele olhou para baixo. Estava vestindo suas roupas normais. Mas, sem dúvida, continuava na forma fantasma. Sua pele estava brilhando.
— É o seu Dia da Morte, Daniel. Os Mortos aparecem como eram em vida no seu Dia da Morte. Não se preocupe. Veja. — Ele pegou a mão esquerda de Danny e a virou; o tecido das luvas sussurrando contra a pele nua do garoto.
Danny olhou. Não havia nada ali. Ele puxou a mão, esfregando a palma com o polegar da outra mão. Não era algo perceptível quando estava na forma humana, mas sempre havia uma sombra da sua cicatriz de morte ali. Agora tinha sumido. Ele não tinha certeza de como se sentia em relação a isso.
— É temporário — tranquilizou Clockwork.
— Tudo bem — disse Danny, enfiando as mãos nos bolsos. Ele tentou dar um sorriso. — Aonde nós vamos?
Clockwork passou o braço pelos ombros de Danny.
— Você está pronto? — perguntou.
Danny começou a assentir, mas algo lhe ocorreu.
— As pessoas não vão... hum. Eu não posso voar por aí com essa aparência. Ou, pelo menos, não deveria. Hum. — Ele não queria decepcionar Clockwork. E também não deveria forçá-lo a encontrar uma solução. — Eu poderia entrar rapidinho e pegar um moletom, ou algo assim... Ou, bem, acho que eu poderia apenas ficar invisível — concluiu, corando. Por que ele estava agindo daquele jeito?
— Isso seria o suficiente — disse Clockwork. — Mas podemos fazer isto, em vez disso.
Ele envolveu Danny com sua capa, puxando-o para perto de modo que o garoto ficasse quase totalmente escondido sob o tecido roxo. Danny conseguia ouvir o tique-taque dos relógios no pulso de Clockwork, além do badalar mais profundo daquele que ficava em seu peito.
— Ah — soltou Danny, sentindo-se extremamente tímido. Ele enganchou os dedos no cinto de Clockwork, puxando-se só um pouquinho mais para perto. — Tudo bem.
— Podemos ir?
Danny assentiu com o rosto afundado na lateral do corpo de Clockwork, e retirou o próprio peso, tornando-se leve. Como não fazia ideia de para onde estavam indo, Clockwork teria que guiá-los.
Clockwork levantou voo muito mais devagar do que Danny esperava. Deixando de lado as diferenças entre não ter peso e não ter massa, ele não era tão grande assim. Mas logo Danny percebeu que Clockwork só estava indo devagar para não assustá-lo. Isso era legal, embora um tanto constrangedor. Poucos adultos tinham tanto cuidado com ele, mas a última coisa que Danny queria era ser um incômodo para Clockwork. (Bem, talvez não a última coisa. Havia várias outras coisas que ele queria fazer ainda menos. Mas, mesmo assim.)
De qualquer forma, entre a aura calmante de Clockwork, o tique-taque rítmico dos relógios e a pacífica vista aérea de Amity Park, a ansiedade afiada como arame farpado, que passava por dentro e em volta do peito de Danny o dia todo, começou a afrouxar. Voar sempre o ajudava a se acalmar. Por que ele não tinha pensado em voar antes?
Parecia que Clockwork os estava levando para o Edifício Sunshine Union. Fazia sentido. O prédio de trinta e sete andares era o mais alto e mais impressionante de Amity Park. Quer dizer, teria sido, se tivesse sido concluído.
Em algum momento nos anos setenta ou oitenta — antes de Danny nascer, de qualquer forma —, uma empresa chegou à cidade com a promessa de modernizar Amity Park e trazer uma riqueza muito necessária. Eles registraram plantas de construção, fizeram discursos de vendas, contrataram arquitetos, exibiram maquetes e até atraíram possíveis inquilinos. Só precisavam de mais alguns investidores, apenas mais algumas pessoas para darem entrada em um apartamento que logo seria construído. Então, quando conseguiram que mais de um décimo da população de Amity Park comprasse a ideia, a empresa desapareceu, e nunca mais se ouviu falar dela.
As pessoas ficaram insatisfeitas com isso, para dizer o mínimo.
(Alguns moradores mais velhos ainda achavam que o prédio poderia ser construído.)
Normalmente, um golpe como esse não deixaria nada para trás além de sonhos despedaçados, dívidas e, talvez, algumas plantas registradas para fazer as mentiras soarem mais convincentes. Mas aquilo era Amity Park. O normal não tinha muita vez por lá.
O Edifício Sunshine Union nunca foi construído, mas seu fantasma ainda se erguia, imponente, sobre a cidade. Não que muitas pessoas pudessem vê-lo. Na verdade, a menos que alguém fosse excepcionalmente sensível ao paranormal, mesmo para os padrões de Amity Park, só era possível enxergar o prédio se estivesse mais alto do que ele. Ou apenas “alto”. Algumas drogas podiam aumentar temporariamente (ou, com a mesma frequência, diminuir) a capacidade de uma pessoa de perceber as bizarrices da cidade. Ainda assim, mesmo que se estivesse acima dele, os andares inferiores pareciam desaparecer, até serem substituídos pelo prédio de escritórios muito mais modesto que realmente existia ali. Como o Edifício SU era o mais alto de Amity Park... Bem. Com exceção dos fantasmas, muito poucos sabiam da sua existência.
Havia três maneiras de entrar no arranha-céu fantasma. A primeira era entrar no prédio normal, pegar o elevador e segurar dois botões — quaisquer dois botões — até que as luzes piscassem e a música mudasse. Então, o elevador o levaria a um andar no Edifício Sunshine Union. A segunda maneira era pegar a escada “em obras” (a escada não estava, de fato, em obras. No entanto, uma breve pesquisa revelava que alguém havia sido assassinado lá), mas essa era complicada, porque só dava para chegar lá se você pulasse certos degraus, e a síndica tentaria impedi-lo se o visse se esgueirando para as escadas. A terceira maneira era a mais fácil. Isso se você soubesse voar, é claro. Se pudesse chegar ao prédio por cima, bastava pousar no telhado. A partir dali, era fácil acessar o resto do edifício, já que a cobertura havia sido projetada como uma combinação de piscina e área de estar.
Parecia ser esse o objetivo de Clockwork. Danny examinou o prédio em busca de qualquer coisa fora do normal. Tirando a própria existência do prédio, claro. Ele não encontrou nada. Por outro lado, também não esperava encontrar. Ele não costumava visitar o SU com frequência. O edifício imaginário possuía moradores fantasmagóricos, mas eles nunca haviam causado problemas, então Danny os deixava — e ao prédio — em paz.
Os dois aterrissaram no telhado. A piscina estava seca, com seus azulejos rachados formando padrões que até mesmo Danny conseguia reconhecer como arcanos. Não havia cadeiras, e uma hera fantasma brilhante com manchas vermelhas cobria a maior parte das outras superfícies. Estando ali, eles provavelmente estavam mais próximos da Zona Fantasma do que do mundo material.
Danny esperou que Clockwork não se importasse com o quanto ele estava grudado.
(Danny provavelmente deveria estar envergonhado da forma como estava agindo. Ele tinha quinze anos agora, não cinco, e estava se comportando como uma criancinha carente. O que havia de errado com ele?)
— É normal — disse Clockwork, começando a guiar Danny em direção à porta.
— O quê? — soltou Danny, surpreso.
— A maneira como você está se sentindo — explicou Clockwork. — É normal. Você é um fantasma jovem, e este é o seu primeiro Dia da Morte. Você precisa se lembrar de que, em muitos aspectos, você tem apenas um ano de idade. — Eles pararam em frente às portas. — Você tem o direito de se apoiar em um adulto de vez em quando.
Danny abriu a boca, pronto para argumentar que não, ele não tinha, não com o rumo que sua meia-vida havia tomado, mas então corou em um tom esverdeado quando o significado mais profundo daquelas palavras finalmente o atingiu. Ele fechou a boca com força e afundou o rosto na lateral do corpo de Clockwork.
— Obrigado — agradeceu, com a voz abafada.
Clockwork deu um tapinha no ombro de Danny e empurrou a porta para abri-la. Quase que imediatamente, o sentido fantasma de Danny disparou, seguido de perto pela sua guarda, que se ergueu na mesma hora.
— Unuili — disse o fantasma que os aguardava. Era um espírito antigo, Danny podia perceber, e um que não se dignava a assumir uma forma humanoide. Parecia quase como se alguém tivesse pegado um pincel muito gasto e quase seco e o passado verticalmente pelo ar, usando a realidade como tela. Quase. Ele era tridimensional e se movia, cintilando e mudando de forma, mas aquela primeira impressão permanecia. O ser continuou a falar em Alto Espectro Antigo, um idioma que Danny ainda não dominava muito bem.
Clockwork respondeu no mesmo idioma.
O fantasma piscou, e as luzes fracas do corredor fizeram o mesmo. Então, ele flutuou para o lado e atravessou a parede, manchando a pintura com listras verticais.
— O que ele queria? — perguntou Danny, enquanto continuavam pelo corredor quase vazio. O prédio era extremamente assombrado. As sombras se moviam de forma estranha ao entrar em contato com as auras de Clockwork e de Danny. Coisas corriam apressadas dentro delas. Danny as ignorou. Eram inofensivas, apenas em busca daquele pico emocional que conseguiriam causando um susto de pular.
— Saber por que estamos aqui.
— E por que estamos aqui?
— Porque é o seu Dia da Morte — explicou Clockwork. — O fim do seu primeiro ano como fantasma. Isso merece ser marcado. Celebrado.
Danny enrijeceu ao ouvir a última palavra.
— Uma celebração silenciosa, é claro — continuou Clockwork, tranquilizando o garoto.
— Certo — murmurou Danny. — Silenciosa. Pequena?
— Sim — concordou Clockwork. — Este não é um dia para se estar sozinho, mas também não é um dia para ser sobrecarregado por uma multidão.
Danny exalou o ar suavemente, só então percebendo que estava prendendo a respiração.
— Obrigado.
Eles entraram em um elevador, flutuando direto pelas portas fechadas, e Clockwork apertou um botão roxo e pulsante. As luzes acendiam e apagavam, enquanto outras figuras fantasmagóricas se aglomeravam lá dentro. A música ambiente provavelmente era tocada em um serrote musical, mas também poderia estar sendo cantada.
O andar em que desceram era feito de espelhos e vidro. Cada superfície era prateada e brilhante, tingida em tons de neon pelos brilhos fantasmagóricos e de azul pelo céu do lado de fora.
Uma fantasma — esta humanoide, vestindo um terno impecável — flutuou até eles, seus reflexos se aproximando e recuando.
— Suas reservas estão prontas — disse ela, o cabelo de chamas azuis dançando ao redor do rosto. — Por aqui, por favor.
Danny continuou grudado a Clockwork, meio escondido sob a capa do fantasma mais velho, enquanto a mulher os guiava. Ela olhou para trás.
— Primeira vez? — perguntou ela. O tom era compreensivo, mas a curiosidade queimava nos discos lisos de seus olhos.
Danny mordeu o lábio, mas assentiu.
— Eu me lembro da minha primeira vez — disse a fantasma. — Fica mais fácil. Com o tempo, você vai acordar no seu Dia da Morte, e vai ser só mais um dia.
Eles chegaram a uma porta espelhada com textura de espirais. A mulher abriu a porta e deu passagem para que Clockwork e Danny entrassem. O ambiente lá dentro era muito mais escuro do que o corredor. Danny precisou piscar algumas vezes para que seus olhos se acostumassem.
A sala era bem espaçosa. Havia almofadas e pufes alinhados junto às paredes, além de uma mesa baixa no centro. O teto era coberto por luzes minúsculas, dispostas como constelações e espirais de galáxias. A parede do fundo era, na verdade, uma imensa janela, mas a vista não dava para Amity Park, e sim para uma paisagem noturna completamente alienígena.
Jazz estava empoleirada em um dos pufes, com uma postura de quem ainda não tinha decidido se deveria relaxar ou não. Tucker estava esparramado de bruços no chão, aparentemente já no décimo sono. Ele realmente precisava parar de virar a noite jogando videogame. Sam estava de pé perto da janela, roendo as unhas — o que nunca era um bom sinal. Danielle estava sentada no chão, comendo amendoins.
— Volto com o pedido de vocês em um instante — avisou a mulher, fechando a porta e deixando a sala ainda mais escura.
— Ellie! — exclamou Danny, jogando as mãos para o alto.
— Danny! — rebateu Ellie, erguendo as dela.
Danny contornou Clockwork para agarrar a meio-fantasma, que agora era só um pouquinho menor do que ele.
— Faz uma eternidade!
— Faz, tipo, uns dois meses — retrucou Ellie.
— É, e você não tem nem um ano de idade, então... — A voz de Danny foi sumindo. — Senti sua falta. A gente tem que te arrumar um celular ou algo assim.
— Eu posso cuidar disso — disse Sam, tirando a unha do polegar da boca. — Um daqueles celulares pré-pagos serve, né?
— Ah, claro — concordou Ellie.
Clockwork se acomodou em uma das almofadas, enrolando sua cauda ao redor dela. Daniel estava distraído agora, embora não tanto quanto Clockwork gostaria. Ainda havia uma espécie de rigidez em seus movimentos, uma energia nervosa que o fazia olhar por cima do ombro e checar a porta a todo instante.
Clockwork fez uma careta mentalmente. Havia outras opções, mas aquele era, de fato, o melhor lugar para celebrar a data. O Agora Eterno era inadequado por uma série de motivos (todos os quais tinham apenas um olho). O Esconderijo de Daniel estava fora de cogitação, visto que o garoto ainda não o havia descoberto, e duas “primeiras vezes” de uma só vez seriam um estímulo forte demais. Os Confins Congelados chegaram a ser considerados, mas, no fim das contas, ficavam muito longe de Amity Park para ser uma escolha prática, além de não oferecerem privacidade suficiente. E simplesmente deixar Daniel lidar com aquele dia sozinho... Clockwork sequer cogitara a ideia. Teria sido perigoso demais.
Ele tinha exemplos de sobra de fantasmas crianças se machucando no primeiro Dia da Morte. Ou nos subsequentes.
Ali, Daniel estava em um ambiente seguro, quase livre de quinas. Até mesmo a mesa, sendo imaginária como o resto do edifício, podia ser recolhida num piscar de olhos, nivelando-se ao chão, bem longe de qualquer parte vulnerável de um corpo. A sala era à meia-luz e podia ficar ainda mais escura. A comida, quando chegasse, seria toda na base de petiscos — nada que exigisse sequer uma colher —, e os copos eram de plástico.
No entanto, parecia que essas medidas de segurança não seriam necessárias por um bom tempo. No momento, Daniel e Danielle empilhavam almofadas em cima de Tucker, em uma alegre competição para ver quem conseguia equilibrar mais travesseiros nele antes que o garoto acordasse, com Samantha atuando como juíza.
Jasmine, por outro lado, tinha se esgueirado até onde Clockwork estava sentado.
A ruiva mordeu o lábio.
— Sr. Clockwork — começou ela, com a voz muito suave —, obrigada por ajudar o Danny. Acho que nós não conseguiríamos nem tê-lo rastreado... e ele está uma pilha de nervos a semana inteira, mas... — Ela parou, emanando nervosismo. Clockwork esperou, pacientemente. — Por que ele estava tão agarrado ao senhor daquele jeito?
O que ficou não dito no ar era o fato de que, sob a perspectiva de Jasmine, Daniel conhecia Clockwork havia apenas alguns meses.
— As crianças costumam achar a presença de um adulto reconfortante, não é mesmo? O mesmo vale para os fantasmas.
— Sim — concordou Jasmine, claramente lutando para colocar sua objeção em palavras.
— Este não é exatamente o lugar para discutir isso — cortou Clockwork, antes que ela pudesse continuar. — E, principalmente, não é o momento.
Jasmine suspirou.
— O senhor tem razão — cedeu ela, com uma ponta de frustração. Assim como o irmão, ela detestava ficar com a curiosidade insatisfeita.
Clockwork assentiu. A qualquer minuto.
— Meu Deus! — soltou Danielle, abafando o riso com as duas mãos. — A gente precisa de uma foto. A gente precisa de uma foto. Algum de vocês está com uma câmera, né? Vocês têm que estar.
O sorriso de Daniel pareceu um pouco mais tenso do que o da irmã mais nova, mas ainda assim era genuíno.
— Foi mal — disse ele. — Eu nem peguei meu celular antes de sair, muito menos uma câmera.
Jasmine balançou a cabeça negativamente quando Danielle virou os olhos enormes e o lábio inferior trêmulo na direção dela.
— Meu celular não tira fotos. E, de qualquer forma, câmeras de celular costumam ficar horríveis no escuro.
— Sam? — chamou Danielle, dando uma cambalhota para trás e caindo de cabeça para baixo.
— Você ainda está com aquela Polaroid, né? — perguntou Daniel. Havia um tremor muito sutil na sua voz.
— S-sim — confirmou Samantha. — Peraí. — Ela puxou a relíquia quadrada de dentro da mochila. — Mas o flash provavelmente vai acabar acordando ele.
Danielle deu uma risadinha.
— Tira logo! — incentivou ela.
— O primeiro material de chantagem, é? — brincou Samantha, com um sorrisinho de canto.
— Tira a foto! — repetiu Danielle. Daniel parecia um pouco pálido.
Sam levou a câmera ao rosto e apertou o botão. O flash disparou como um relâmpago, iluminando cada canto da sala por menos de um segundo. Tucker deu um pulo assustado, desmoronando a torre de um metro de almofadas que estava nas suas costas. Danielle comemorou. Daniel congelou, prendendo a respiração. Como esperado. Clockwork até tinha tido esperanças, mas...
Bem, não importava agora. Aquela era apenas a primeira do que seriam muitas crises de pânico. Era inevitável. Tudo o que Clockwork podia fazer era minimizar os danos. Ele deslizou até Danny e envolveu o garoto com os braços.
— Respire, Daniel — pediu ele, com a voz serena. — Respire.
No segundo aviso, Daniel puxou o ar pelo nariz com força.
— E-eu consigo fazer isso. Eu consigo. Certo. Eu... eu tô bem. Desculpa, Sam, o que... o que você, hum. — Ele balançou a cabeça, tremendo e se encolhendo ainda mais contra Clockwork. — O que você estava dizendo?
— Eu não disse nada — respondeu Samantha. — Você tem certeza de que está bem?
— Tenho — sussurrou Danny.
Não demorou um tempo terrivelmente longo para que uma sensação de relativa normalidade se restabelecesse. Clockwork tinha avisado aos amigos de Daniel o que poderia acontecer — que aquilo, ou coisas ainda piores, poderiam ocorrer —, e estava grato por ter feito isso. A melhor estratégia era simplesmente impedir que Daniel focasse naquilo; impedir que ele pensasse em coisas como por que o flash de uma câmera o assustara tanto, ou por que ele se sentia tão à flor da pele. Sim, essas coisas poderiam ser exploradas mais tarde, depois que a hora exata da sua morte tivesse passado.
Clockwork era a única pessoa acordada na sala agora. A hora da morte de Daniel tinha chegado e passado, trazendo consigo uma longa crise de choro que acabou exaurindo todos os humanos — e meios-humanos — presentes no recinto. Na verdade, tudo tinha corrido muito melhor do que ele esperava, especialmente depois que Samantha sugeriu alguns jogos em grupo. De alguma forma, Clockwork não havia previsto essa ramificação de opções e desfechos durante o seu planejamento inicial.
O tempo havia passado o suficiente para o sol começar a despontar sobre a paisagem alienígena além da janela, e Clockwork se perguntava vagamente se deveria levar os humanos de volta para suas casas. No fim das contas, não importava muito se eles acordariam ali ou em suas próprias camas, mas, às vezes, Clockwork sentia a necessidade de fazer jus à aura “misteriosa” de sua reputação.
Por outro lado, ele não queria nem um pouco incomodar Daniel, que, embora não estivesse dormindo em cima dele, estava parcialmente escorado na mesma almofada grande que Clockwork usava para descansar. Na verdade, qualquer movimento mais brusco da parte de Clockwork acabaria, em nove entre dez vezes, acordando todas as crianças, que tinham se acomodado pelo chão em um formato que Clockwork sentia uma forte tentação de chamar de “dominó do sono”.
Bem, Clockwork estava mais do que satisfeito em apenas observar o nascer do sol. Afinal, ele tinha todo o tempo do mundo.
