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Vocabulário

Summary:

Danny está aprendendo um idioma. Outro idioma.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

— Clockwork — chamou Danny, franzindo a testa para o livro que brilhava fracamente à sua frente —, você pode me dizer se estou pronunciando isso direito?

​— Certamente — respondeu Clockwork, meio distraído com a visão através de uma de suas telas temporais. Aquela era uma situação que ele precisaria monitorar.

​— Lucúbracas... ção.

​— Lucubração — corrigiu Clockwork.

​— Lucubração — repetiu Danny, com cuidado.

​— Vejo que o Escritor Fantasma decidiu incluir português arcaico junto com as suas lições de inglês antigo.

​— Só um pouco — respondeu Danny. — É bizarro o quanto as coisas mudam. Mas tem umas palavras bem úteis. Tipo, eu fico em constante lucubração o tempo todo. Se alguém me perguntar o que há de errado e por que pareço tão cansado, eu posso dizer que estava em lucubração em vez de explicar que fiquei fritando acordado na cama desde a meia-noite matutando sobre os problemas. É bem mais curto. Só que ninguém sabe o que diabos lucubração significa, então isso meio que diminui a utilidade dela.

​— Sim, isso tende a acontecer — concordou Clockwork. — Idiomas mudam, palavras caem em desuso, novas palavras são criadas ou tomadas por empréstimo e, com o tempo, a língua se torna irreconhecível. Esse é o caso da maioria das coisas.

​— É — murmurou Danny —, acho que sim.

​Ele ficou em silêncio por alguns minutos e então se virou no sofá, pendurando-se no encosto para encarar o aliado.

​— Ei, Clockwork?

​— Sim? — respondeu o fantasma mais velho, pacientemente, desviando o olhar da tela.

​— Se eu aprender isso, e se contar como idiomas separados dos normais, então eu vou saber oito línguas. Inglês, português, inglês antigo, português arcaico, esperanto, latim, grego elísio e francês. — Ele fez uma pausa, como se esperasse a informação ser absorvida ou Clockwork comentar algo. — Isso é muito bizarro, não é? Quer dizer, soa como aquilo que dizem em programas de TV ou em livros para mostrar que um personagem é um gênio. Aprender idiomas deveria ser difícil, mas simplesmente tem... acontecido, eu acho. — Ele fez uma nova pausa. — Isso é coisa de fantasma? É uma coisa de fantasma, não é? Um poder ou só algo que todos os fantasmas têm? Porque eu sei que não sou um gênio.

​— Você deveria se dar mais crédito, Daniel. Receio que sua família e seus amigos tenham imposto a você padrões absurdos.

​Danny se jogou de volta no sofá em uma exibição física de exasperação.

​— Eu sou um aluno de nota C. Sou no máximo mediano. Qual é, isso é algum tipo de poder fantasma, ou habilidade fantasma, ou algo do tipo. Vários fantasmas que eu conheci são poliglotas. Certo? — Ele se sentou novamente, buscando uma resposta de Clockwork.

​— A maioria dos fantasmas que conhece vários idiomas o faz porque existe há muito tempo e viveu entre diversas culturas, ou porque aprendeu essas línguas em vida.

​Danny inclinou a cabeça.

​— Só a maioria?

​— Existe um poder que permite a alguém falar vários idiomas. É, no entanto, incrivelmente raro.

​— Rá! Eu sabia!

​— Ele também não ajuda a pessoa a aprender um idioma de verdade.

​— ... Espera, o quê?

​— Pelo que eu posso perceber — continuou Clockwork —, você, de fato, não possui esse poder.

​— Mas isso não faz o menor sentido — objetou Danny.

​— Considerando a infinita variedade de poderes fantasmas, e que você já manifestou outras habilidades únicas, não é impossível que você tenha desenvolvido um poder que lhe permita adquirir idiomas mais rapidamente.

​— Você diz isso como se não soubesse — comentou Danny.

​Clockwork sorriu.

​— Apesar das minhas afirmações anteriores, eu, na verdade, não sei de tudo. Chame isso de licença dramática da minha parte.

​As sobrancelhas de Danny se uniram enquanto ele processava aquela informação.

​— Então você, tipo o quê, não consegue ver o que se passa dentro das pessoas?

​— Não a menos que isso seja, ou possa ser, revelado no tempo.

​— Então nós nunca saberemos.

​— Eu não diria que é impossível. O tempo é vasto, e conhecer o futuro é apenas uma das muitas coisas que podem mudá-lo. Ou gravá-lo em pedra, dependendo do caso. Essa “coisa de ler mentes”, como você chama, é simplesmente uma combinação de olhar alguns minutos para o futuro e conhecer você muito bem.

​Danny fechou a boca, engolindo a pergunta que estava prestes a fazer.

​— Isso é perturbador.

​— É mesmo? — perguntou Clockwork, acomodando-se ao lado de Danny no sofá. Se o garoto não o conhecesse tão bem, diria que Clockwork havia soado preocupado.

​Danny cantarolou baixo e se encostou no fantasma mais velho, escutando o tique-taque do relógio em seu peito.

​— Não você. É que eu... acho que não gosto de pensar que sou tão previsível assim. Essa é a parte perturbadora.

​— Daniel, confie em mim. Você é tudo, menos previsível.

​— Você é quem saberia — disse Danny. — O Escritor Fantasma realmente acha que eu vou usar alguma dessas palavras? Quero dizer, a oportunidade de usar a palavra comensal não vai surgir em uma conversa do dia a dia, embora caturrice talvez apareça com mais frequência do que eu gostaria. Caturrice. Meus pais têm muitas caturrices. — Ele fez uma careta. — Muitas e muitas. Ou esse é o jeito errado de falar... Uma caturrice é a ideia, não a pessoa que tem a ideia, não é?

​— Pode ser ambos — respondeu Clockwork.

Notes:

Gente, um detalhe super legal sobre essa tradução! A Marsalias originalmente escreveu o texto focando apenas no fato de que o Danny estava aprendendo Inglês Antigo e usou algumas palavras reais e extremamente obscuras do inglês. Para que a piada não se perdesse e a leitura ficasse divertida e natural para nós, eu adaptei o texto (o que na tradução chamamos de "localização") para dizer que o Escritor Fantasma também está ensinando Português Arcaico/Erudito para ele!

Aqui está a fofoca linguística de como eram as palavras originais e o que elas viraram:

- Uhtceare (Inglês antigo): É o sentimento de acordar de madrugada antes do sol nascer e ficar deitado na cama ansioso e se preocupando com os problemas. Na nossa versão, virou Lucubração (que significa passar a noite em claro matutando/estudando sobre problemas de forma exaustiva).
- Lanspresado (Gíria inglesa do séc. XVII): É aquela pessoa que chega nos lugares sem um centavo e faz você pagar a conta. Na nossa versão, eu adaptei para Comensal (no sentido daquele que senta à mesa e come às custas dos outros, o famoso parasita).
- Mumpsimus (Inglês): Uma tradição ou ideia ultrapassada que alguém se recusa a abandonar mesmo quando provam que está errada, ou a própria pessoa teimosa. Na nossa versão, temos a palavra perfeita: Caturrice (para a ideia) e o famoso Caturra/Casmurro (para a pessoa)!

Quando o Danny lista as línguas que fala, eu também adicionei o português na cota dele para fazer sentido no nosso contexto brasileiro (e cá entre nós, ele certamente iria aprender rs)! Espero que tenham gostado dessa curiosidade!

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