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Redenção

Summary:

Clockwork raramente dormia e, quando o fazia, pesadelos raramente o visitavam. Então, quando eles aparecem, ele costuma prestar atenção.

Notes:

Work Text:

​Fantasmas como Clockwork dormiam com pouca frequência.

​Mas “pouca frequência” não era o mesmo que “nunca”.

​De vez em quando, Clockwork sentia o desejo de mergulhar em sua mente subconsciente. Em outras ocasiões, quando lutava contra alguma decisão difícil, ele achava que a clássica recomendação humana — durma com isso na cabeça! — era um bom conselho. Muito raramente, ele apenas precisava de descanso, uma pausa das tensões de sua não-vida, dos Observantes e de sua responsabilidade onipresente sobre a linha do tempo.

​Então, ele dormiu, e acordou revigorado.

​Em um estado de espírito agradável, ele flutuou pelo Agora Eterno, verificando distraidamente se tudo estava em seu devido lugar. Era improvável que algo importante tivesse surgido durante seu sono; ele não havia previsto nada, mas era prudente conferir. Nada estava fora de ordem, então ele seguiu para a sala principal.

​Daniel estava adormecido no sofá, levemente encolhido, de costas para a sala. Daniel certamente não era indesejado ali, mas Clockwork não havia previsto aquilo. Era um sinal de que algo estava profundamente errado. Preocupado, Clockwork voou para o lado de Daniel. Normalmente, ele deixaria a criança dormir — o próprio Clockwork acabara de se entregar à mesma atividade, afinal de contas —, mas ele podia esticar o tempo para o garoto, deixá-lo dormir o quanto precisasse, e necessitava saber o que estava errado para poder consertar.

​— Daniel — ele disse, tocando levemente no ombro do garoto. Daniel se mexeu um pouco. — Daniel...

​Daniel se contorceu de forma abrupta, sua espinha praticamente se dobrando ao meio. Seus olhos estavam vermelhos, os lábios arreganhados revelando dentes triangulares, e ele se lançou sobre Clockwork, sibilando.

​Clockwork acordou, encarando o teto de seu quarto. Um sonho. Mais especificamente, um pesadelo. Não era uma experiência nova, mas era incomum. O que significava? Deveria perguntar a Noturno por esclarecimentos, ou... Não. Ele entendia o que estava tentando dizer a si mesmo.

​Ele assumiu a posição vertical e deixou o quarto. Viajou para baixo, não se incomodando com as escadas, mas despencando direto pelo poço delas. O esconderijo de Clockwork era muito mais profundo do que a maioria dos visitantes imaginava, e Clockwork costumava esconder coisas lá embaixo. Coisas perigosas. Coisas poderosas. Coisas que ele amava. Coisas que ele temia. Coisas das quais se envergonhava. Erros.

​Bem no fundo, havia um grande cofre, protegido por uma porta imensa, espessa e com várias fechaduras. Aquilo era uma isca. Alguns metros antes do cofre, havia uma porta pequena e despretensiosa. Estava trancada, sim, era bastante segura, mas não chegava nem perto de ser tão impressionante quanto o cofre. Além dessa porta, havia uma série de livros. Eram livros raros e perigosos, sim, e alguns eram até notáveis. Escondida além dos livros, no entanto, oculta entre as engrenagens que formavam as paredes do cômodo, havia uma porta que levava a mais uma sala. Essa sala secreta era pequena. Guardava apenas um único objeto: uma garrafa térmica branca, prateada e verde.

​— É você, velhote? — veio uma voz metálica de dentro da Fenton Térmica. Então, mais baixo e com mais raiva: — Claro que é. Quem mais desceria até aqui, idiota?

​Clockwork fingiu que não ouviu a segunda parte.

​— Sim, sou eu, Daniel — ele disse.

​— É Dan — disse o outro, com rispidez.

​— Peço desculpas — disse Clockwork, de forma suave e tranquila.

​Na verdade, aquela criatura tinha tanto de Plasmius quanto tinha de Daniel. Era inadequado chamá-lo pelo nome de Daniel. Ao mesmo tempo, os Observantes haviam dito que ele era responsável por Daniel. Pelos dois. Por todos eles. Ele havia interpretado aquele comando a seu favor, assumindo Daniel como sua criança, mas tinha um dever igualmente grande para com Dan. Mais até, de certa forma. Dependendo de como se analisasse a situação, Clockwork tinha parte da culpa pela dor dele e por sua situação atual. Claro, qualquer pessoa razoável diria que o próprio Dan era o maior culpado. Ninguém o havia forçado a atacar sistemática e persistentemente Amity Park e as cidades vizinhas, ou a tentar arruinar a vida de Daniel por causa do que Clockwork só conseguia descrever como pura inveja.

​— Dan.

​— O que você quer?

​— Pensei que você talvez gostasse de um pouco de companhia — disse Clockwork.

​— A sua companhia, velho intrometido? — disse Dan, com o escárnio evidente na voz. — Dificilmente.

​— Mesmo assim.

​Silêncio. Então:

​— Por que você se importa? Foi você quem me colocou aqui.

​— Eu mesmo não tenho certeza — admitiu Clockwork.

​— ...Você se sente culpado, não é? — Dan riu, secamente. — O grande e poderoso Clockwork sentindo culpa por minha causa. — Ele fez uma pausa. — E deveria mesmo.

​— E por que isso? — perguntou Clockwork, genuinamente curioso.

​— Porque você poderia ter impedido a minha existência — sibilou Dan.

​— Talvez — disse Clockwork.

​— Como assim “talvez”, seu...

​O que se seguiu não foi, talvez, a torrente de xingamentos mais criativa que Clockwork já ouvira em sua existência, mas certamente estava entre as melhores.

​


 

​Clockwork visitou Dan novamente. Ele vinha fazendo isso com mais frequência, ultimamente.

​— O que você quer, afinal? — perguntou Dan, exausto. — Por que continua vindo aqui?

​— Para lhe fazer companhia — disse Clockwork.

​— Conversa fiada, velhote.

​Clockwork flutuou para mais perto, examinando as proteções temporais que mantinham a garrafa térmica em pé e intacta.

​— Muito bem. Eu venho porque eu preciso de companhia, e você é melhor que os Observantes.

​Dan zombou.

​— Isso é uma coisa com a qual podemos concordar.

​— A única coisa? — perguntou Clockwork, com um tom de travessura. — Notei que você não tentou escapar ultimamente.

​As proteções não haviam sido ativadas há vários dias, na verdade. Não desde antes da última visita de Clockwork.

​— Estou poupando minhas forças — resmungou Dan. — Apenas espere, velhote. Vou sair daqui com uma grande explosão, e a primeira coisa que vou fazer será quebrar o seu pescoço idiota.

​— É mesmo? — disse Clockwork.

​— É.

​— Você se lembra de que eu sou um fantasma, não lembra? Quebrar meu pescoço não faria muito efeito.

​— Cala a boca.

​


 

​Dan estava ficando cada vez mais quieto a cada visita. Clockwork não sabia o que se passava na cabeça do fantasma, mas sabia muito bem o que estava acontecendo fisicamente com ele. Dan estava ficando mais fraco. Ele havia se esgotado com suas primeiras tentativas de fuga. A garrafa térmica não era um ambiente particularmente saudável para um fantasma e, dadas as circunstâncias de seu confinamento, suas Obsessões provavelmente estavam colapsando sobre si mesmas. Dan queria vingança, mas o motivo pelo qual ele queria se vingar nunca havia acontecido naquela linha do tempo. Dan queria que os outros sentissem a sua dor, mas ele não podia causar mal algum.

​Clockwork se perguntava se algumas das Obsessões mais benignas que Dan havia herdado de Daniel e de Plasmius começariam a ressurgir, ou se ele apenas desapareceria. Clockwork percebeu que a perspectiva de Dan desaparecer o deixava com um sentimento... de decepção.

​As possibilidades espiralavam a partir daquele ponto no tempo. Dan poderia desaparecer. Ele poderia não desaparecer. Poderia resgatar um de seus melhores traços, ser salvo por uma Obsessão positiva, ou de alguma forma encontrar uma ainda pior à qual se agarrar. Ele poderia mudar, ele poderia continuar o mesmo. Muitas, muitas possibilidades, mas Clockwork acreditava que poderia navegar por elas e alcançar um resultado desejável.

​Um dos muitos motivos pelos quais os Observantes odiavam tanto Clockwork era o fato de que, quando a linha do tempo tinha muito a se beneficiar e quando muitas vidas podiam ser melhoradas, ele corria riscos. Riscos que eles consideravam insustentáveis. Riscos que Clockwork acreditava ser capaz de mitigar.

​— Dan — disse Clockwork —, vamos fazer um acordo.

​— Que tipo de acordo? — perguntou Dan, fraco e desconfiado.

​— Suspeito que você esteja entediado aqui.

​— Não, estou tendo a melhor época da minha vida após a morte — disse Dan, num tom seco. — Estou emocionado o tempo todo. Há tantas coisas interessantes para se fazer aqui dentro deste recipiente de café estúpido.

​— Tenho certeza que sim — disse Clockwork, antes de cair em silêncio.

​— E então? — perguntou Dan, impaciente. — O que você quer?

​— Quero levar você lá para cima.

​— Por quê? O que você ganha com isso?

​— Estou ficando cansado de ter que descer até aqui toda vez que quero falar com você. Esta sala é um tanto distante de onde eu passo a maior parte do meu tempo.

​Dan ficou quieto, revirando a ideia na cabeça.

​— Qual é a pegadinha?

​— Precisaria que você ficasse em silêncio quando outras pessoas estiverem no Agora Eterno — disse Clockwork. — Você pode ouvir, mas não falar. Os Observantes, especialmente, não veriam com bons olhos você estar em um lugar menos seguro.

​Dan sugeriu que os Observantes fossem fazer algo que era fisicamente improvável para os humanos e fisicamente impossível para os fantasmas. Clockwork ergueu uma sobrancelha, mesmo sabendo que Dan não podia vê-lo.

​— Sendo assim, vou deixar você pensar a respeito.

​— Ei! Espera! Calma lá, seu velho estúpido!

​— Sim? — perguntou Clockwork. — O que foi, Dan?

​— Eu aceito o seu acordo idiota!

​Clockwork sorriu.

​


 

​— Eles já foram — disse Clockwork.

​Dan não respondeu.

​— Nada a declarar? Você costuma ser tão barulhento após as visitas de Daniel.

​Era verdade. Certa vez, Dan havia se gabado por horas a fio, orgulhoso do fato de que ainda causava pesadelos em Daniel.

​— Eu tinha me esquecido de como era difícil — disse Dan.

​— Ah?

​Clockwork se perguntou o que havia provocado aquilo. Daniel estava machucado, sim, mas não gravemente. Talvez fosse a forma como ele havia se machucado? Ou algum dos outros assuntos que Daniel havia trazido à tona. Dever de casa? O valentão, Dashiel? Os problemas com a jovem Valerie? As contínuas tentativas de Vladimir de cortejar a mãe dele? O fato de que Daniel havia adormecido no meio de um desabafo? Alguma combinação de tudo isso?

​— Eu me esqueci... Como eu pude me esquecer?

​— Bem, para você, você foi um meio-fantasma por menos de um ano, se estivermos contando apenas pelo lado de Daniel. Não foi uma parte muito grande da sua vida.

​— Mas foi — protestou Dan. Ele parecia perdido. — Foi, sim. Foi importante.

​— Foi? Você deixou isso para trás de forma assustadoramente rápida.

​Dan não respondeu.

​


 

​Dan começou a xingar os Observantes no exato momento em que eles saíram. Clockwork mal conseguiu se conter para não fazer o mesmo. Não seria adequado ensinar a Dan ainda mais palavrões. Dan não tinha, nem de longe, a mesma facilidade que Daniel para aprender idiomas, mas tinha um talento nato para a profanidade.

​Algumas horas mais tarde, Dan tentou escapar pela primeira vez em meses. Foi uma tentativa patética, mas ainda assim, tentou.

​


 

​— Eu jogaria muito melhor se conseguisse ver o tabuleiro — resmungou Dan.

​Clockwork moveu um peão.

​— Peão para B8. Receio que eu não tenha permissão para fazer isso.

​Dan soltou um palavrão.

​— B8?! Quando foi parar aí? — Então, o outro comentário de Clockwork finalmente fez sentido para ele. — Como assim “não tem permissão”?

​


 

​As possibilidades espiralavam a partir daquele momento. Muitas eram negativas, mas a grande maioria era positiva.

​Era tão maravilhoso quando fazer a coisa certa rendia bons resultados.

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