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Invocação

Summary:

Clockwork odeia ser invocado. Danny vive (após a morte) pelo caos.

Notes:

Work Text:

Danny congelou, estupefato. Clockwork parecia completamente desnorteado. A essa altura, Danny já tinha visto o fantasma mais velho demonstrar uma série de estados emocionais, de eufórico a preocupado, mas nunca o vira desnorteado daquele jeito. Para piorar a situação, Clockwork alternava rápida e aleatoriamente entre um punhado de suas formas mais jovens. Bebê, adolescente, pré-adolescente, criança de colo, bebê de novo, na casa dos vinte anos, da mesma idade que Danny, no ensino fundamental...

​Ele também não parava de desaparecer, piscando e sumindo como uma lâmpada quebrada. Fantasmas podiam fazer isso, é claro. Danny fazia isso com bastante frequência, na verdade. Mas Clockwork não. Não daquele jeito.

​— Vovô? — perguntou Danny, intensamente preocupado.

​Clockwork girou nos calcanhares. Ele não tinha...? Ele não sabia que Danny estava ali?

​Clockwork atravessou a sala às pressas, intangível (Como? Eles estavam na Zona Fantasma.), passando por dentro de seus equipamentos de laboratório. Ele agarrou Danny pelos ombros.

​— Preciso da sua ajuda — ele disse. E, então, sumiu da existência.

​Danny engasgou, os olhos arregalados. Clockwork não tinha ficado apenas invisível, ele tinha desaparecido de verdade.

​Antes que Danny pudesse fazer qualquer coisa a respeito daquela constatação bastante perturbadora, Clockwork estava de volta.

​— Você está doente? — perguntou Danny, disparando a primeira pergunta que lhe veio à mente.

​— O quê? Não, eu... — Sumiu. Depois, voltou de novo. — Sim. Qual era a pergun... — Clockwork desapareceu. Dessa vez, ele ficou fora por tempo suficiente para que Danny começasse a tentar fazer uma lista de tudo o que possivelmente poderia causar aquilo a Clockwork e como ele conseguiria impedir.

​Então, ele estava de volta, mas em um lugar ligeiramente diferente. Parecia furioso.

​— Estou sendo invocado — disse Clockwork, falando tão rápido que as palavras se atropelavam. — Eu achava que tinha destruído todas as cópias daquele ritual, mas... — Ele sumiu de novo. — ... consertar isso sozinho, mas eles continuam fazendo de novo, não consigo nem organizar meus pensamentos. Mal consigo manter o tempo em ordem... — Sumiu. — ... correspondendo com minha linha do tempo pessoal... — Nada. — ... tentando me coagir. Meu eu do futuro deveria conseguir consertar isso, mas parece achar que a situação é engraçada demais. — Clockwork fez uma pausa, preparando-se. Em seguida, franziu a testa. — Será que eu acertei o temp... — Ele desapareceu.

​Danny respirou fundo. Ele tinha uma explicação parcial agora. Não sabia o que fazer com aquilo, mas tinha. Clockwork muito provavelmente estaria de volta em alguns minutos e, se o eu do futuro dele achava a situação engraçada, nada muito grave poderia acontecer.

​Ele se remexeu, inquieto. Clockwork tinha pedido sua ajuda, e ele estava cercado pelos equipamentos de visualização temporal de Clockwork. Mas, sem mais informações, não sabia o que fazer com eles. Não sabia onde, quando, nem qual era a causa raiz daquilo. Se fizesse alguma coisa, poderia piorar tudo.

​Os relógios do Agora Eterno batiam incessantemente, sobrepostos uns aos outros. Com cautela, meio convencido de que levaria uma bronca, ele se aproximou do equipamento em que Clockwork estava trabalhando, uma escultura bizarra de lentes coloridas e espelhos curvos.

​Clockwork se rematerializou entre Danny e o objeto, fazendo Danny dar um guincho agudo e pular de susto.

​— Isso não — disse Clockwork. — Há uma brecha no ritual. Posso enviar o meu aprendiz em vez de ir pessoalmente.

​— Então, você quer que eu...?

​— Sim. Isso deve me dar tempo suficiente para consertar o problema.

​— Hã, claro — disse Danny. Então, com mais confiança: — Sim, é claro. — Ele era o aprendiz de Clockwork? Não sabia o que aquilo envolvia exatamente, mas parecia legal.

​— Deve ser seguro — disse Clockwork. Os olhos dele se estreitaram. — Mas faça com que eles se arrependam disso.

​A boca de Danny se curvou em um sorriso perverso diante da permissão para causar confusão.

​— Pode deixar!

​Clockwork puxou Danny para um abraço, e então Danny sentiu um puxão estranho em seu cerne. Símbolos e sensações se gravaram brevemente em sua mente. O mundo pareceu virar do avesso e girar como um caleidoscópio, antes de se transformar em um funil reverso e soltar Danny no espaço normal.

​Espaço quase normal. Danny ainda conseguia sentir uma conexão, um tubo estreito, que levava de volta ao Agora Eterno. Se ele realmente tentasse, provavelmente conseguiria se enfiar de volta lá dentro. Ele se perguntou se era isso que Clockwork estava fazendo e, caso fosse, a agitação dele fazia todo o sentido.

​— Ha! — gritou uma voz próxima, triunfante. — Peguei ele dessa vez!

​Danny piscou e avaliou os arredores. Parecia que ele estava no porão de alguém, ou na garagem, mas não dava para ter certeza de qual dos dois, porque as paredes, e vários itens com o formato suspeito de prateleiras, tinham sido cobertos com tecido preto. O chão, no entanto, era de concreto, vazio exceto pela parafernália de invocação, e se inclinava até um ralo em um dos lados da sala.

​Danny examinou a tal parafernália de invocação rapidamente. Giz, sal, símbolos, velas, vários relógios quebrados e baratos, uma pilha suspeita de cinzas, um monte de ervas ainda em chamas e um livro grande. Com as possíveis exceções das ervas e do livro, nada daquilo era uma ameaça real a Danny. Ele, Sam e Tucker tinham testado uma série de remédios tradicionais contra fantasmas nele. O sal raramente funcionava até mesmo em fantasmas completos.

​Por fim, Danny voltou sua atenção para os invocadores. Havia dois garotos e duas garotas, e três deles pareciam estudantes universitários. Mais precisamente, universitários modernos. Aquilo surpreendeu Danny um pouco. Ele quase esperava ser invocado no futuro distante ou no passado remoto. Ou ser invocado por fantasmas, ou até mesmo alienígenas.

​(Danny sabia e, de forma um tanto incomum, entendia que a Terra não era a única coisa no universo, embora fosse, sob várias perspectivas válidas, o centro dele.)

​Um dos garotos era alto, loiro e um pouco desengonçado. Ele claramente já tinha saído do ensino médio, mas tinha uma aparência distintamente inacabada. Como se ainda não tivesse encorpado de vez. O outro garoto era bem diferente. Era rechonchudo, provavelmente acima do peso, e tinha a pele do mesmo tom de marrom que o verniz de algumas das carteiras da Casper High.

​Das garotas, a mais velha situava-se entre aqueles dois extremos em termos de aparência geral, com o adendo de parecer o tipo de pessoa que gostava de sair para correr. A outra garota parecia ter pelo menos cinco anos a menos, e poderia perfeitamente ser irmã do primeiro garoto. Na verdade, ela provavelmente era.

​Todos eles usavam “túnicas”. Parecia que tinham sido recortadas de lençóis de feltro preto.

​Danny sentiu os cantos da boca se contraírem para cima num princípio de sorriso. Era isso que estava dando tanto trabalho a Clockwork? É verdade que Danny sabia melhor do que ninguém como algo aparentemente inofensivo podia arruinar o dia de alguém, mas não tinha força de vontade suficiente para resistir a zoar Clockwork por causa daquilo. Só um pouquinho.

​A garota mais velha franziu a testa.

​— Eu não sei, não, Jonah. Ele não parece um pouco diferente de antes?

Danny apenas inclinou a cabeça. Seria melhor, ele decidiu, apenas ouvir por enquanto. Ver o que eles sabiam e como agiam. Depois, ele decidiria o que fazer. Se estivessem apenas brincando por tédio e simplesmente o deixassem ir (improvável, considerando o estado em que Clockwork estava), ele provavelmente não faria muita coisa. Se, por outro lado, tentassem barganhar com ele, ou forçá-lo a fazer alguma coisa... Bom. Clockwork tinha dito para fazer com que eles se arrependessem daquilo.

​— Ele tinha um monte de aparências diferentes antes — disse o loiro, na defensiva, apertando o livro contra o peito. — Ele é o Mestre do Tempo. Pode mudar a própria idade para o que quiser. É o que o livro diz.

​A garota mais nova fuzilou Danny com os olhos, o lábio inferior preso entre os dentes.

​— É, mas ele parece mais diferente agora.

​O loiro fechou a cara.

​— Pare de ficar do lado da Janet.

​— Bom, quando o seu lado fizer sentido, talvez eu fique.

​— “Fizer sentido”? Alô? Eu acabei de invocar uma abominação cósmica aqui. Um deus antigo e sem nome!

​Ok, aquilo machucou um pouco. A categoria de “abominação cósmica” até podia servir em Danny como uma luva, mas eles não precisavam ser maldosos a respeito. Além disso, tanto ele quanto Clockwork tinham nomes.

​— Acho que elas têm razão, na verdade — o outro garoto disse, devagar. — Antes, ele era mais roxo.

​Jonah revirou os olhos.

​— E daí? Ele é um metamorfo. Não importa. Provavelmente está tentando nos enganar, ou algo assim. Talvez ache que a Angela vai soltá-lo.

​A garota mais nova virou-se para encará-lo, a perplexidade evidente no rosto.

​— Por que eu o soltaria?

​— Bom, ele parece ter a sua idade, não parece?

​— Você está brincando. Acha que eu nunca vi um filme de terror?

​— Não, mas você lê um monte daqueles romances paranormais.

​— Ei — disse a garota mais velha (Janet?). — Podemos focar aqui? Nós nos empolgamos um pouco quando vimos que a coisa estava funcionando, mas o que fazemos com ele agora que o pegamos? Ele está me dando um pouco de medo, só flutuando aí desse jeito.

​— Você não ouviu nada do que eu disse antes de começarmos? — perguntou Jonah, horrorizado.

​— Ouvi, mas não achei que fosse funcionar. Fiquei um pouco distraída com o fato de ter dado certo.

​— Você simplesmente não estava prestando atenção da primeira vez, não é? — acusou Jonah.

​— Para ser sincera, não.

​— Bom, Janet — disse Jonah, cruzando os braços e inclinando a cabeça para trás —, nós vamos ficar ricos e famosos além dos nossos sonhos mais loucos.

​— Hã, Jonah? — disse o outro garoto. — Eu não quero ser famoso. Só rico.

​— Tanto faz. Você pode ficar só com essa parte, se quiser. — Jonah voltou sua atenção para Danny. — Ei, você.

​Danny fez questão de ignorá-lo.

​— Mestre do Tempo. Ei. Estou falando com você.

​Danny continuou sem reconhecer a presença dele, preferindo, em vez disso, examinar as próprias luvas. Como ele poderia maximizar o caos e a sua própria diversão?

​— Desculpe, meu cérebro acabou de dar curto-circuito com tanta burrice — disse Janet, apertando a ponte do nariz. — Você invocou essa... entidade, para um esquema de ficar rico rápido? Quando você, sei lá, poderia pedir as respostas para as grandes perguntas do universo?

​— E de que isso serve? Ei! Quais são os números sorteados da loteria de amanhã?

​Houve um puxão suave em seu cerne, um impulso inegável para responder. Ah. Ele estava se perguntando como aquilo funcionaria. Não havia muito pder por trás da ação, contudo, não como a invocação em si. Danny não teria que fazer muito esforço para resistir. Se quisesse resistir. Ele não queria, àquela altura, e não queria que eles fizessem nada para tornar o comando mais forte. Considerando o quão aflito Clockwork estava, aquilo provavelmente era uma possibilidade.

​— Eu não sei — disse Danny.

​Silêncio.

​— Como assim, você não sabe? Você deveria saber de tudo! Você é o Mestre do Tempo!

​— Eu quero dizer — disse Danny, imitando a postura de Clockwork —, que eu não sei. Tenho coisas melhores para fazer do que memorizar números de loteria. Vocês têm ideia de quantas loterias existem por aí? Eu não sou o Mestre das Minúcias Inúteis.

​— Ações, então. Em quais devemos investir?

​— Eu não acho que ações sejam um bom investimento para você.

​— Por quê?

​— Porque, para começar, eu não o vejo executando nenhuma boa ação que justifique algum tipo de recompensa cósmica.

​— Não esse tipo de ação!

​— Ah, você quis dizer rações? Rações são sempre um bom investimento, contanto que você tenha um animal de estimação.

​— Eu quis dizer a bolsa de valores! A bolsa de valores.

​— Certo.

​— Você entendeu?

​— Claro.

​Jonah bateu o pé, impaciente.

​— E então? O que você acha?

​— Eu acho que nunca deixa de me impressionar a frequência com que grupos de pessoas escolhem seu integrante mais idiota para ser o líder.

​O líder, Jonah, ficou muito pálido. Angela deu uma risadinha discreta.

​Danny voltou-se para Angela. Hora do caos.

​— Você parece razoavelmente inteligente, Angela. Por que não está no comando?

​— Ei! — disse Jonah. — Não fale com ela!

​— Por que não? Ela também me invocou. — Seus olhos vagaram para Janet, ignorando o segundo garoto de forma muito deliberada. — E quanto a você, então, Janet? Você tinha algumas perguntas.

​— E quanto a mim? — reclamou o garoto.

​— Cala a boca um segundo, Matt, estou pensando — disse Janet.

​Ops. Talvez Danny tivesse calculado mal.

​O olhar de Janet tornou-se astuto.

​— Quem é você? — ela perguntou.

​Ele já estava esperando por isso, mais cedo ou mais tarde. Embora torcesse pelo “mais tarde”. Ah, paciência. Não era como se ele tivesse muita experiência com esse tipo de coisa.

​Dessa vez, Danny decidiu lutar contra o puxão em seu cerne.

​— Vocês que me digam. Foram vocês que me invocaram. Deveriam saber.

​Os olhos de Janet se estreitaram ainda mais.

​— Quem é você? — ela repetiu. Os invocadores estavam unidos novamente pela curiosidade.

​Hora de mentir na cara dura.

​— Sou o Mestre do Tempo — ele disse, com um tom imperioso.

​As velas piscaram e queimaram em chamas vermelhas.

​— Você não é o Mestre do Tempo? — perguntou Jonah, incrédulo. — Então quem é você?

​Então eles tinham um sistema para detectar mentiras. Interessante. Ele não achou que tivessem tido todo esse trabalho.

​— Se fazem questão de saber, eu sou o aprendiz dele. Eu atendo as ligações às vezes, faço uns favores, essas coisas.

​Angela começou a rir.

​— Meu Deus, nós pegamos o estagiário faz-tudo da abominação cósmica.

​— Mas você ainda sabe de coisas — disse Janet.

​— Depende de quais coisas você quer saber.

​Enquanto isso, Jonah folheava o livro enorme. Danny não gostou nada daquela atitude.

​— Como o universo vai acabar?

​— Nossa, existem tantas possibilidades para essa. Quer que eu comece pela...

​— Hah! Achei! — interrompeu Jonah. — Ainda podemos tirar proveito disso!

​— É sério? — perguntou Matt.

​— Jonah, estou tentando conseguir algumas informações aqui.

​— Por favor. Não é como se saber o fim do universo fosse servir de alguma coisa. Eu só coloquei as velas porque achei que poderíamos conseguir algum conhecimento do futuro, mas esse cara vai ser inútil para isso, então...

​— Eu estou bem aqui — disse Danny, contrariado.

​— Nós podemos forçá-lo a fazer o que quisermos, se tivermos um sacrifício grande o bastante... esperem. Droga. Matt, você é muito apegado ao seu hamster?

​— Cara — disse Danny —, que nojo. Eu não quero isso.

​— Eu não vou te dar o Capitão Rogers.

​— Ou a gente pode fazer um acordo, eu acho. — Ele ergueu os olhos para Danny. — O que você quer?

​— Depende. O que você quer? — Danny não tinha certeza de como se sentia em relação a um “acordo”. Considerando toda a preparação no local, com certeza seria algo coercitivo. Um pensamento cruzou sua mente, e ele sorriu de forma maliciosa. — E é isso que todos vocês querem? Não tenho certeza se vocês têm o suficiente para mais de um acordo.

​Isso foi o bastante para fazê-los começar a brigar de novo, e Danny aproveitou o tempo para antecipar o que eles pediriam que ele fizesse e inventar maneiras de arruinar tudo. Roubar um banco? Fazer as tarefas domésticas deles? Conseguir vingança? Fazer o dever de casa? Procurar por um tesouro enterrado? Causar sobreposição nas pessoas? Fazê-los entrar de fininho no cinema? Alguma coisa que ele de fato não conseguisse fazer, como mudar a aparência deles?

​A discussão chegou ao fim quando Angela arrancou o livro das mãos de Jonah. Ela o virou e fuzilou as páginas com o olhar, como se pudesse arrancar respostas dele através da pura intimidação. Aparentemente, ela era capaz de fazer isso, pois, um minuto depois, ergueu a cabeça e voltou seu olhar fulminante para Jonah.

​— Você é um idiota — ela disse. — Esperem aqui.

​Ela empurrou o livro de volta para Jonah e passou direto pela cortina preta, deixando apenas Danny e os três invocadores mais velhos no recinto. Danny a ouviu subir um lance de escadas e o som de uma porta se abrindo e fechando.

​— O que ela está fazendo? — perguntou Matt.

​— Eu não sei — disse Jonah, erguendo a mão livre.

​Janet pigarreou.

​— Se não se importam, eu estava fazendo algumas perguntas?

​— Eu me importo, na verdade — disse Danny.

​Janet fechou a cara, depois sorriu.

​— Que pena. Primeiro: qual é o sentido da vida?

​— E como eu vou saber disso? Você percebe que eu sou um fantasma, não percebe?

​— Um fantasma?

​— É.

​— Do tipo... uma pessoa morta, um fantasma?

​— Essa é a ideia.

​Janet e Matt se viraram para fulminar Jonah com o olhar.

​— Você não disse que nós íamos invocar um fantasma.

— Eu não quero ser um necromante!

​— Mas nós não somos! Era para pegarmos o Mestre do Tempo! Não esse cara.

​— Esperem — disse Janet. — Isso significa que existe vida após a morte?

​— É, pelo menos uma. Mas não acho que vocês vão entrar. — Danny não tinha certeza se gostava de ser chamado de “esse cara” com aquele tom de voz. Quanto a Matt não querer ser um necromante, ele deveria ter pensado nisso antes de vestir vestes pretas e fazer um ritual de invocação em um porão.

​— Por que não? — perguntou Janet.

​— Sinceramente, todos vocês são chatos demais. É sério. Vocês tentaram invocar o meu Mestre para conseguir os números da loteria.

​Uma porta se abriu.

​— Achei! — gritou Angela. Houve o som de passos descendo as escadas e, em seguida, ela passou pela cortina. Ela segurava uma caixa grande.

​— Você achou o quê?

​— Um sacrifício.

​— Você não tem um animal de estimação.

​— Eu não preciso de um. O sacrifício não precisa ser um ser vivo. Só precisa ter valor. De preferência valor emocional, pessoal ou espiritual. Está escrito aí de forma bem clara. Você é que não queria perder as suas coisas.

​Jonah corou quando os amigos o fuzilaram com o olhar. Angela, enquanto isso, estava arrumando as coisas dela (bichos de pelúcia, brinquedos, roupas velhas, uma fotografia, miçangas, um pen drive, uma fita vermelha de “segundo lugar”) ao redor do círculo de sal. Danny não estava gostando nada da aparência daquilo. Ele não estava gostando da sensação daquilo. A cada bugiganga adicionada, a pressão em seu cerne aumentava, embora não o estivesse puxando para nenhuma direção específica. Ainda.

​O “buraco” de volta para o Agora Eterno parecia cada vez mais convidativo.

​— Vocês querem adicionar alguma coisa? — perguntou Angela.

​Matt e Janet se entreolharam. Janet deu de ombros, puxou uma carteira debaixo da túnica e tirou um maço de papéis de biscoito da sorte.

​— Você é bem esquisita às vezes, sabia? — disse Jonah.

​— Você é quem tem uma entidade extradimensional no porão. Matt?

​— Eu não ando com nada desse tipo comigo — protestou o garoto.

​— Legal. Isso significa que a Janet e eu podemos decidir o que ele tem que fazer. — A garota mais nova agarrou a mais velha pelo braço e a puxou para um canto.

​— Ei — disse Danny, para os dois invocadores restantes —, vocês vão mesmo deixar elas fazerem isso? Vocês me invocaram também, afinal de contas. Deveriam ter alguma palavra a dizer.

​— Ele tem razão! — declarou Jonah, afastando-se a passos largos. Matt o seguiu rapidamente.

​Danny, é claro, ainda conseguia ouvi-los, mas prestou atenção apenas em parte. Ele estava mais focado na sensação que os itens colocados ao redor do círculo lhe transmitiam. Eles o estavam pressionando, sim, mas também exalavam uma sensação de poder. De alguma forma, ele sabia que, assim que os quatro invocadores fizessem suas exigências, aquele poder seria dele, mesmo que o prendesse de forma mais completa. Ele não tinha certeza de como. Teria que perguntar a Clockwork sobre a mecânica de tudo aquilo assim que voltasse.

​Essa percepção, no entanto, explicava por que alguns fantasmas se deixavam invocar de propósito.

​Quando os invocadores terminaram de discutir, as velas quase tinham se apagado. Danny sabia exatamente o que eles iam pedir, e tinha pelo menos uma ideia de como distorcer aquilo para a diversão e retaliação dele (e de Clockwork). E para a educação daqueles quatro idiotas, que acharam que seria divertido tentar invocar aleatoriamente um dos Lordes Anciões, é claro. Minha nossa, e se eles tivessem pego o Vortex? Ou o Undergrowth? Não, eles precisavam receber uma intervenção naquele exato momento, antes que se tornassem um conto de advertência para os outros.

​— Pelo poder deste sacrifício, nós o prendemos a três tarefas — disse Jonah, formalmente, engrossando a voz de propósito.

​— Aham — disse Danny, agora flutuando de cabeça para baixo.

​— Primeiro, você não pode nos machucar, nem causar mal a nós.

​— Tanto faz — disse Danny. Ele não tinha a intenção de fazer isso, de qualquer modo, e havia uma brecha quilométrica naquela frase.

​— Segundo — entoou Jonah —, você deve nos proteger do perigo.

​— Claro — disse Danny. Mais uma vez, havia uma brecha gigante ali. Eles deveriam ter tentado usar as Três Leis da Robótica, mesmo que o livro dissesse que não haveria poder suficiente para algo tão abrangente. Danny adoraria dar uma olhada naquele livro e ver se ele realmente mencionava as Três Leis da Robótica (o que não era impossível, já que se tratava de como invocar um fantasma viajante do tempo), ou se apenas dizia algo sobre não fazer o tipo de pedido “eu desejo ter mais desejos”.

​— Terceiro — aí vinha a tarefa com a qual Danny poderia realmente brincar —, você deve fazer com que todos que conhecermos gostem de nós.

​— Ok, beleza.

​— Pelo poder deste sacrifício, nós o prendemos a estas tarefas por um ano e um dia, a menos que o libertemos.

​Os outros se juntaram com algo que soava como latim, mas que era pura falação sem sentido, até onde Danny conseguia perceber. Um vento se levantou. As velas brilharam intensamente e, em seguida, se apagaram. As ervas e o sal foram levados pelos ares. As linhas de giz desbotaram e borraram. Os sacrifícios se dissolveram em névoa (Danny sabia, de alguma forma, que eles não tinham sido destruídos. Só estavam em outro lugar.). O influxo de poder foi vertiginoso, inebriante, sem falar no puxão intensamente angustiante em seu cerne. Danny forçou a si mesmo a ficar invisível, não querendo que os invocadores vissem como ele fora afetado, e sentou-se no chão, estabilizando-se de propósito.

​Sentindo-se firme, estável, Danny abriu os olhos. Ele havia perdido uma boa parte da conversa, mas isso não importava.

​— ...ir para casa — disse Janet. — Podemos testar se funciona depois. Está tarde e eu estou cansada.

​Danny deu um sorriso largo e começou a se dividir em duplicatas. Ah, tinha funcionado, sim. Só não do jeito que eles queriam.

​


 

​— Tem alguma coisa errada — disse Janet. Ela parecia muito exausta, quase tão mal quanto Clockwork esteve, em nada parecida com o que era antes. — Não consigo falar com ninguém além de vocês três, seus idiotas, há três dias. Toda vez que tento, ou eles ficam com uma expressão esquisita no rosto e saem correndo, ou de repente eu estou em outro lugar.

​— Eu também — disse Matt —, e toda vez que tento usar o telefone, a minha ligação cai.

​— As chaves do meu carro sumiram — disse Jonah —, e todas as facas da casa também.

​— Eu acho que todos os móveis foram movidos alguns centímetros — disse Angela —, e alguém andou comendo a nossa comida.

​— Essas não são as únicas coisas desaparecidas — disse Janet.

​Danny e suas sete duplicatas deram risadinhas silenciosas. Ver as reações deles às suas travessuras tinha sido surpreendentemente divertido.

​Havia um aspecto sério nisso tudo também, no entanto. Danny tinha certeza de que Clockwork o levaria de volta para o seu próprio tempo, não importava quanto tempo ele passasse ali, mas ele não queria ficar naquele lugar por um ano inteiro. Com sorte, aqueles quatro fariam a coisa certa e o libertariam.

​— É com certeza ele, não é? — disse Matt.

​— É uma aposta segura — disse Angela.

​— Eu sabia que isso era uma péssima ideia — reclamou Jonah. Ele foi recompensado com três olhares fulminantes. — O quê?

​Janet balançou a cabeça.

​— Nós podemos dizer para ele parar com isso, ou editar nossas ordens, alguma coisa assim?

​— Não que eu tenha encontrado no livro — disse Angela.

​— Vocês sempre podem simplesmente me libertar, sabiam? — disse Danny, com um de seus corpos voltando a ficar visível. Ele foi recompensado com vários gritos de susto. — Aí eu não precisaria fazer isso.

​— Como assim — disse Janet, recuperando-se primeiro —, você precisa fazer isso?

​— Eu só estou seguindo as instruções de vocês — disse Danny, com uma inocência ensaiada.

​— Nós não mandamos você nos isolar e afastar as pessoas de nós — disse Matt.

​— Vocês disseram para garantir que todo mundo que conhecessem gostasse de vocês. Vocês provavelmente não notaram, mas não são pessoas muito agradáveis, e eu não faço controle mental.

​Angela franziu a testa.

​— Então como você está mantendo eles afastados?

​— Isso é controle corporal e amnésia seletiva. Completamente diferente.

​— Nós não dissemos para você pegar as nossas coisas — disse Jonah. — Eu quero as chaves do meu carro de volta.

​— Mas chaves de carro e facas são tão perigosas. Vocês poderiam se machucar, e disseram para eu não deixar isso acontecer. Aquela comida não era nada saudável, também. Era quase tudo doce. É sério, foi melhor que tenha sumido.

​— E os móveis? — instigou Janet.

​— Ah. Aquilo. Tá bem, aquilo fui só eu. Mas foi engraçado, não foi?

​— Não — disse Janet, severamente. — Não foi. Agora, pare com isso.

​— Não vou, não — disse Danny, balançando no ar com uma risada mal contida.

​Angela bateu o pé.

​— Não foi isso que nós queríamos.

​— Bem, jura? Acreditem ou não, isso também não estava no topo da lista de afazeres, nem minha, nem do meu Mestre. — Danny virou de cabeça para baixo. — Mesmo se vocês não pudessem abrir mão dessa coisa toda de servidão forçada, poderiam ter perguntado se eu conseguiria fazer o que queriam. Mas nãããããão, pelo visto, vocês acham que todos os espíritos misteriosos são gênios, ou algo do tipo. E sabem de uma coisa? Nem os gênios gostam disso. Na verdade, vocês têm sorte de não terem invocado um gênio, porque eles realmente acabariam com vocês. Eles têm mais experiência. E sorte em dobro para vocês — disse Danny, respirando fundo —, vocês têm uma saída. Libertem-me, e eu deixarei vocês em paz.

​— Sem chance — disse Jonah. — Essas ordens são a única coisa que impede você de tentar nos matar! Eu sei bem! Eu assisti a esses filmes!

​— E você fez isso, mesmo assim? — disse Danny, inexpressivo. Ele balançou a cabeça. — Eu não tenho a menor intenção de machucar vocês, muito menos de matá-los. Mas, se não acreditam em mim, podemos fazer um acordo. Acordos estão cobertos no livro de vocês, não estão? — Danny sabia que estavam. Ele tinha conseguido folhear o livro nos últimos dias.

​— Estão — disse Jonah, desconfiado.

​— Ótimo — disse Danny. — Este é o acordo. Vocês me libertam, e eu deixo vocês em paz, para que possam voltar às suas vidas normais. Parece justo? Se não for, eu posso oferecer de novo em... ah, uma semana é um bom prazo. Não acham?

​No fim das contas, eles não tinham nenhuma escolha.

​— Nós aceitamos o acordo — disse Janet. — Angela, o que precisamos fazer?

​— Só precisamos dizer que aceitamos o acordo, e que o libertamos de seus vínculos — disse Angela. — Eu aceito o seu acordo — ela disse, diretamente —, e o liberto de seus vínculos. Agora vocês.

​Matt e Janet repetiram as palavras, e Danny sentiu uma pequena dose de alívio. Jonah, no entanto, permaneceu teimosamente calado.

​— Qual é, Jonah — disse Angela. — Eu não quero passar um ano inteiro assim. Quero conversar com os meus amigos.

​— E se eu não puder falar com ninguém, vou reprovar nas matérias! — disse Matt. — Eu tenho trabalhos em grupo.

​— Eu prefiro reprovar a ser morto! — protestou Jonah. Ele pegou o livro de onde estava pousado entre eles e começou a folheá-lo. — Tem que ter algum tipo de solução aqui dentro.

​— Sabem, a sociedade como um todo é bem perigosa. Eu conheço um lugar ótimo no norte do Canadá, logo ao sul do círculo polar ártico, sabem. Sem nenhum humano por quilômetros e quilômetros... Eu poderia levar vocês quatro para lá.

​Jonah empalideceu.

​— Está bem — ele sibilou. — Eu o liberto dos seus vínculos. Feliz?

​Danny abriu um sorriso radiante quando seu cerne foi libertado.

​— Muito.

​— Jonah, você não aceitou o acordo — sussurrou Angela.

​Danny riu, e arrancou o livro das mãos de Jonah antes de desaparecer. Depois, dispensou suas duplicatas e voou através do telhado para o céu claro. Com acordo ou não, ele não faria nada com Jonah. Havia malícia mais do que suficiente nele, contudo, para deixar Jonah continuar pensando o contrário.

​


 

​Um portal azul se abriu no ar acima dele, e Danny sorriu. Bem na hora. Clockwork já deveria estar se sentindo melhor. Ele voou através do portal, piscando na penumbra relativa do Agora Eterno. Aquilo era cheiro de pipoca?

​— Eu estava me perguntando — disse Clockwork, a voz retornando à sua calma habitual —, se você gostaria de se juntar a mim para assistir a alguns dos melhores momentos da sua mais recente aventura. Acredito que você perdeu algumas das reações mais divertidas.

​Danny assentiu e, em seguida, estendeu o livro.

​— O que eu devo fazer com isto?

​Clockwork estendeu a mão, e Danny o entregou. Danny piscou, e o livro foi substituído por uma tigela de pipoca.

​Clockwork gesticulou com o cajado, indicando um sofá posicionado em frente a uma de suas lentes de visualização.

​— Vamos?

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