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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-08-28
Updated:
2026-09-24
Words:
76,401
Chapters:
14/?
Comments:
35
Kudos:
44
Bookmarks:
6
Hits:
964

Geada boreal

Summary:

Um vórtice magnético e mágico guarda em seu interior um arquipélago parado no tempo com criaturas que nunca foram vistas em qualquer parte do mundo: dragões. Um povo turrão e desconfiado, mas com uma crença em magia e seres encantados que cria nos guardiões uma esperança que eles há muito tempo não pensavam ser possível: fazer parte de uma comunidade de novo. North criou a ponte, apresentou sua oficina aos vikings que nunca deixavam de acreditar ou acolher qualquer anomalia: os gêmeos Thorston. Uma escolha arriscada e questionável para qualquer viking, mas que abriu portas aos guardiões.
Agora, era a vez do Polo Norte mandar o seu embaixador para ficar e conhecer os costumes de Berk, e Jack foi o escolhido.
O destino dos berkianos depende do que Jack perceber nessa estadia: os guardiões vão desfazer o vórtice e os libertar para conhecer o mundo moderno, ou na realidade aquela anomalia tem a função de os proteger?
E em meio a isso, Soluço se vê prestes a se tornar o líder de Berk para seu pai ir viver com sua mãe. Mas sua vida não é fácil, principalmente se, para conseguir as provisões do Polo Norte, ele agora tem que se tornar amigo de um terceiro gêmeo que mais parece um elfo saído dos contos de assombração.

Notes:

Olá! Bem-vindos à minha primeira fanfic desse fandom (do qual eu fugi quase dez anos porque nunca dei oportunidade, e QUE ARREPENDIMENTO).
Para já lançar a boa, minhas inspirações para isso aqui são: Where the Frost bites back, Snow-Crested Shrines, Of the Northmost Winds and Skies. Elas são realmente INCRÍVEIS e me fizeram coçar para colocar as ideias para fora. E é tão divertido! Espero que vocês gostem!

Há uma versão em inglês também, então é só clicar mais abaixo! Boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter Text

"Essa é Berk. Neva nove meses por ano. Somos vikings. Mas não qualquer tipo, porque nós temos—"

"ENCANTADOS!" gritaram Cabeça Quente e Cabeça Dura ao mesmo tempo, o empurrando para fora do palanque em direção ao chão, fazendo sua perna protética agarrar em um vão nas tábuas e ele praticamente cair de cara. Felizmente, Banguela estendeu a asa para o acudir antes dele passar tal vergonha em meio ao grupo para o qual deveria estar discursando e cumprindo seu papel de futuro chefe.

"Valeu, amigão", suspirou ao acariciar atrás da barbatana de Banguela, que sorriu sem dentes.

"Há muito tempo—" começou Cabeça Quente, fazendo gestos com as mãos como se olhasse para algo além da multidão, mas Cabeça Dura deu uma cotovelada nela.

"Foi ano passado!" ele corrigiu, sorrindo como um lunático. "Os encantados apareceram, curiosos pela nossa recente amizade com essas criaturas incríveis que são os dragões!"

Soluço olhou para Banguela, cruzando os braços no peito. O dragão soltou um murmúrio cético, mas apreciativo.

"Também acho que está sendo menos pior do que poderia", murmurou, e Banguela riu.

"No começo, nós achamos que fosse um ataque, mas Nicolau nos ofereceu presentes e um bom hidromel de início!" Cabeça Dura continuou.

"E uma aliança!" Cabeça Quente acrescentou, animada, fazendo as pessoas sorrirem ao ouvi-los.

"Os termos foram estabelecidos. Acordos fechados! Visitas em ambas as terras! Percebemos que nos daríamos muito bem!" Cabeça Dura bateu o pé ritmicamente no palanque, uma melodia que Soluço já conhecia por ser a mesma que Nicolau cantava quando aparecia.

"E agora—" Cabeça Quente juntou as mãos. "Nosso querido amigo—"

"Nosso irmão de outro reino!" interrompeu novamente Cabeça Dura.

"Por que mesmo deixamos eles serem os embaixadores no reino do norte?" Soluço murmurou para si mesmo. Banguela resmungou, sem resposta clara.

"Sim! Nosso irmão virá como embaixador e também escudeiro de nosso querido perneta!" Cabeça Quente apontou para Soluço com as duas mãos.

A plateia se virou para o encarar. O calor subiu de seu peito até o rosto, um frio na espinha.

"Ok! Muito bom! Parabéns! Mas já chega, vocês dois!" implorou, irritado, subindo no palanque. "Desçam já daqui!"

"Somos os embaixadores oficiais! A gente deveria fazer esse discurso aos nossos aliados do arquipélago!" reclamou Cabeça Dura, e Banguela os empurrou com a cabeça para longe do palanque, ignorando os murmúrios.

Soluço sentiu a atenção da plateia voltar para ele e pigarreou.

"Bem, é essa a razão de termos chamado todos. Vamos apresentar nosso novo aliado e ele passará a ser nossa ponte entre o arquipélago e o reino do norte. E não, nada de encantados. São pessoas normais." Soluço sentiu a boca seca pelos olhares confusos. "Vamos explicar com calma na celebração. Vocês podem ficar à vontade na vila."

"Podemos ver os dragões?" questionou um deles, e Soluço sorriu um pouco mais aliviado do que deveria. Era bom saber que Berk ainda era conhecida por seus dragões e lutas.

Não sabia dizer quanto tempo isso duraria, no entanto, diante de seus novos aliados. Para ser sincero, os chamar de encantados parecia muito justo, mas ele se recusava a acreditar em tal absurdo.

"Claro, teremos batalhas hoje na arena para entretenimento", sorriu, e as pessoas comemoraram animadas ao se dispersarem.

Soltando um suspiro e relaxando os ombros, desceu do palanque apenas para lidar com a dupla caótica que o esperava de forma performática: de pé, de braços cruzados e apoiando as costas em um Banguela no meio deles, que mastigava um peixe especialmente grande.

"Ao menos finja que sente vergonha de ser tão facilmente subornado, seu traidor", bufou.

Banguela jogou o peixe para cima e o engoliu, se abaixando nas quatro patas, e os gêmeos tropeçaram com a falta de apoio — não que aquilo os impedisse de se aproximar de Soluço com olhares acusadores.

"A gente queria contar a história toda!" Cabeça Dura acusou, batendo o dedo em seu peito. "As pessoas precisam saber o que está acontecendo em detalhes sórdidos!"

"As pessoas precisam saber que há um acordo com um povo novo, não que supostamente esse povo vive em histórias assustadoras que geralmente acabam em morte e sequestro. Contar as histórias fantasiosas de vocês não vai ajudar em nada!"

"Você não sabe o que está falando, senhor perneta! A gente podia até conseguir para você uma coisa melhor que isso, sabia? Certeza que o North pode esculpir algo mais legal!" Cabeça Quente disse, animada, chutando sua prostética para dar ênfase, mas sem realmente pôr força. "Tipo, uma com a cabeça do Banguela, pelo menos?"

"Certamente!" Cabeça Dura concordou, balançando a cabeça.

Soluço respirou fundo.

"Sim. Muito legal. Vamos falar dessa fábrica mágica apenas com os cavaleiros de dragão e os líderes, pode ser?"

"Nossa, espero que o Jack congele seu nariz todo dia para você ser menos chato!" Cabeça Dura chiou.

"Sim, claro. Seu amigo de gelo. Nada assustador ou parecido com os demônios que querem invadir nosso mundo." Soluço passou por eles, erguendo a mão para acariciar a cabeça de Banguela quando se colocou ao seu lado.

Os gêmeos o alcançaram.

"Opa, opa, opa!" Cabeça Quente o segurou pelos ombros por trás. "Não gostei dessa atitude."

"Que atitude?" Soluço a olhou por sobre o ombro, franzindo as sobrancelhas pela expressão um pouco séria demais para os gêmeos.

"Você não vai fazer isso aí com nosso querido amigo, não é?" questionou Cabeça Dura, voltando a cruzar os braços no peito.

"Isso?" Soluço os olhou, confuso.

"Esse preconceito aí!" Cabeça Quente o soltou e apontou para seu nariz. "Jack se ofereceu para vir porque gosta das pessoas e seria mais fácil para ele se adaptar. Não queremos que você faça essa cara aí quando ele chegar!"

"Ok, tudo bem. Que cara?" tentou apaziguar, movendo as mãos em rendição.

"Esse preconceito aí." Cabeça Dura apontou para suas sobrancelhas. "Tá igual ao seu pai. Essa ruga enorme entre as sobrancelhas. Parece que você vai gritar a qualquer hora sobre destruição e guerra."

"Tudo bem", disse, abaixando delicadamente os dedos acusadores em seu rosto ao empurrá-los para baixo com as mãos. "Primeiro, não sou meu pai. Segundo, esperam que eu, de todas as pessoas, trate alguém mal por simplesmente ser diferente?"

"Você acabou de o comparar a um gigante de gelo." Cabeça Quente ergueu o queixo.

"Mesmo que Jack possa, de fato, criar gelo. E criar um enorme. Mas não acho que ele poderia se mover…" Cabeça Dura considerou. A postura da irmã vacilou ao entrar novamente naquela espiral confusa que eles dividiam.

"Acho que ele poderia se mover, mas só se Jack ficasse dentro."

"Mas como ele respiraria?"

"Gente!" Soluço interveio, colocando uma mão em cada ombro dos gêmeos. "De todos, eu sou o último com quem vocês deveriam se preocupar sobre tratar o amigo de vocês de forma estranha, tudo bem? Eu entendo a preocupação, acho muito legal, mas além de tudo que essa aliança significa sobre mantimentos no inverno que Nicolau nos ofereceu, eu não sou essa pessoa."

Os gêmeos consideraram, balançando a cabeça.

"Foquem na Astrid e no Melequento", acrescentou sorrindo, e os dois se entreolharam com espanto como se aquilo sequer ocorresse a eles.

Apressados e como se não tivessem tempo a perder, correram pela vila, deixando Soluço respirar direito pela primeira vez no dia.

Banguela bateu o focinho ao seu lado.

"Nah, eles vão ficar bem se não passarem dos limites com a Astrid. Tá tudo bem." Sorriu, e Banguela revirou os olhos, mas seguiram juntos até o salão.

A grande verdade é que Soluço não acreditava em nada do que os gêmeos falavam. Eles sempre contavam histórias e, além de um breve e confuso espectro do que são as personalidades dos habitantes do reino do norte, ele não achava que aquela coisa fictícia de magia existia.

Claro, os dragões deles deviam ser bem diferentes. Não cuspiam apenas fogo, mas também tinham outras formas. Mas, definitivamente, eram dragões. Provavelmente os gêmeos estavam tentando os assustar ao falar dos poderes das feras e os atribuindo ao domador.

E, por tudo que Soluço sabia, Jack tinha um dragão de gelo. O que já era uma preocupação por si só quando era ele quem supostamente ficaria com eles por um período em retribuição ao tempo que os nortenhos receberam os gêmeos. Astrid tinha um receio real de que a escolha fosse menos sobre a diplomacia e mais sobre devolver o problema que Berk enviou primeiro, o que tinha uma grande prova por Jack ser claramente alguém com quem os gêmeos se identificavam. Porém, Soluço discordava um pouco, afinal, ninguém em sã consciência deixaria os gêmeos irem para outro lugar em missão diplomática ou conhecerem costumes, mas foi um pedido específico de Nicolau que fossem eles.

Soluço apenas... não entendia.

Não fazia sentido nenhum. Em todas as visitas diplomáticas, os gêmeos não foram nada mais que, bem, os gêmeos. Jogando perguntas, criando teorias e, mesmo que Nicolau e Sandy houvessem achado graça e até dado alguma corda para os delírios, não parecia ainda o bastante para dar cargos a eles e os receber em seu reino.

Mas Soluço tinha pouca coisa a reclamar ou opinar naquilo, já que, agora, mesmo ficando com os gêmeos por meses a fio por seu próprio risco, o reino do norte estava enviando seu próprio embaixador junto a provisões para ajudar Berk e seus aliados a passarem pelo inverno que espreitava.

Só… parecia bom demais para ser verdade.

"Sua cara está terrível", Astrid disse ao chegar por trás, se jogando no banco ao seu lado. "O que foi? Não quer um escudeiro?"

"Você também ouviu o discurso dos gêmeos", murmurou abaixando a testa na mão, e Astrid riu.

"Achei legal que agora você tem um serviço mágico que solta gelo pelo nariz. Quando ele começar a congelar frutinhas em um palito, me chame para provar."

"Eles estão se empolgando demais", bufou, olhando para a multidão berkana entre os dedos. Tudo parecia em ordem ainda.

Ainda.

Os nortenhos chegariam apenas ao entardecer. Soluço tinha uma sensação muito esquisita ao pensar sobre aquilo. Além da falta de sentido de chegar perto da noite em uma celebração, também havia a questão de como e onde iam pousar.

Porque eles iam pousar, certo? Não chegar de navio.

"Soluço", Astrid chamou, colocando a mão em seu ombro, e ele suspirou ao beber água e mastigar uma carne seca salgada demais. "Bem, de qualquer jeito, ao menos vamos ter uma novidade por aqui. E ele será um homem contra todos nós. Não vejo o que pode dar errado."

"Eu vejo", murmurou pensando em um terceiro gêmeo em sua vida, e um arrepio o fez tremer.

Astrid gargalhou sem se conter, se debruçando em seu ombro.

"Bem, não é como se fôssemos voltar atrás agora. Só espero que o mesmo método que funciona com os gêmeos funcione com esse tal Jack."


O trenó estava sendo arrastado para fora dos túneis quando Jack começou a rir de Bunny escorregando no gelo.

"Tudo bem! Todo mundo ama esse trenó. Mas eu tenho que lembrar que estamos indo para um… o que era aquela coisa?", questionou Bunny ansioso, se levantando com a ajuda de Jack, que sentiu pena do sapatear, mas não tentou em nada esconder o riso.

"Alguma coisa aurora?", tentou Jack, lembrando da única parte à qual prestou atenção por ter um nome bonito.

"Vórtice aurora", sorriu North, puxando as rédeas das renas. "Como Sandy explicou, é uma região não mapeada e que nunca sofreu contato com outra parte da humanidade. Eles vivem na era do ferro até hoje." North soltou as rédeas e passou a mão pelo trenó, limpando o pó. "Basicamente, as bússolas e sistemas quebram antes de chegar perto pela grande concentração de magia e também radiação, então tudo que já quase os encontrou, foi desviado."

"E graças a você, oh, grande Coelho da Páscoa, agora nós sabemos que existe", debochou Jack, subindo em seu cajado, como uma coruja em cima de um galho na parte curva. "E eles têm dragões. Eu só estou nessa por eles, que fique claro. Cabeça Quente e Cabeça Dura me convenceram."

"São criaturas adoráveis!" North sorriu, batendo na própria barriga. "Quando eu, Coelhão e Sandy fomos averiguar aquele arquipélago no ano passado, ficamos encantados!"

"Você ficou encantado, eu só vi os dentes e os esguichos de fogo", Bunny bufou, se apoiando no trenó e cruzando os braços. "E você tem que ficar atento, garoto. Tem fogo e você é um cubo de gelo. Uma graça errada e você derrete."

"Eu fico comovido sobre como você me ama, Bunny, mas acho que eu sou um pouco mais resistente que isso", riu, e Bunny chutou seu cajado para o derrubar, mas Jack apenas passou a flutuar deitado, apoiando a bochecha na mão. "Então, quantos meses eu vou ficar lá?"

"Vamos descobrir. Os gêmeos ficaram três aqui. Acho que podemos começar com isso. Se conseguirmos fazer aquelas pessoas acreditarem, vamos ter um lugar de onde sempre tirar poder e garantir o equilíbrio e proteção das crianças."

"Soa muito estranho falar assim." Bunny franziu as sobrancelhas, e North o olhou, ofendido. "Falo sério. A gente não está indo para colonizar eles e fazer com que um bando de bárbaros crentes passem essa crença a nós. Estamos indo ajudar."

"Claro! Foi o que eu queria dizer!" North sorriu, e Jack trocou um olhar com Bunny.

Mas não seria ele a julgar. Um lugar onde todos acreditavam em Jack Frost? Onde não era invisível? Isso poderia ser facilmente um sonho.

"Será que eu vou poder ter meu próprio dragão?", questionou, olhando para North com esperança, e o homem massageou a própria barba.

"Talvez. Mas não acho que possa usar fora do arquipélago. Não existem dragões fora daquela região. É uma evolução regional."

"Como os cangurus?", provocou Jack, olhando de canto para Bunny apenas para voar para longe quando ele se apoiou nos dois braços na lateral do trenó e tentou o chutar com os dois pés. "Calma, que eu não falei sobre você!"

"Eu vi seu olhar!", Bunny atacou, e Jack girou o cajado, virando e se sentando nele como se fosse um balanço no ar.

"Você acha que viu."

North soltou uma gargalhada.

"É como você disse, Jack", confirmou. "E pela vida extrema próxima ao nosso amado Polo Norte, cada ilha tem tipos diferentes dessa espécie."

"Você fez sua pesquisa hein, North", Bunny sorriu. "Quanto tempo você e o Estoico ficaram conversando?"

"Fui fazer algumas visitas, sim. Aquele lugar é encantador!" North se moveu pelo trenó e puxou um saco vermelho. "Graças a isso eu pude criar brinquedos específicos para as crianças! E também presentes para os adultos."

"Sim, a lista de coisas que você pediu para que eu plantasse na minha toca foi problemática." Bunny fez uma careta. "E Jack não teve dinheiro para metade do resto."

"A única com dinheiro é a Fada", bufou, balançando os pés. "E é muito difícil pedir para as crianças comprarem coisas no supermercado e dar sacos de moedas para elas. As pobres mulheres dos caixas ficaram irritadas." Riu ao lembrar as expressões de desgosto delas por terem de contar cada prata e a expressão de vergonha de Jaime quando via a fila crescendo atrás dele e dos amigos.

Jack ficou com pena, mas foi hilário.

Mas graças a isso e à crescente rebeldia das crianças por estarem ficando mais velhas, todos se recusaram a fazer esse tipo de favor e ainda o atacaram com bolas de neve.

"Tudo bem, as coisas que pedi a Jack eram para facilitar, mas os yetis ajudaram na confecção de algo melhor para presentear aquele povo." North sorriu, ajeitando o saco de brinquedos, e Jack viu uma asa de dragão saindo da borda. "E também, Fada disse que não teria serventia levar algo que precisasse de mais tecnologia que braços para funcionar."

Bunny estreitou os olhos.

"O que você queria que as crianças e Jack comprassem?", sibilou, e Jack riu sem conseguir se conter com o desviar de olhos envergonhado de North.

"Uma geladeira!" Jack girou no cajado, dando a volta completa e parou de cabeça para baixo.

"Não foi apenas isso, Jack!", North tentou, e Jack balançou a cabeça.

"Realmente. Você também pediu doces e tecido e fez os gnomos desembrulharem todos, jogando em potes de madeira."

"Estou respeitando o que Fada disse sobre o período em que eles vivem."

"Acho que isso não conta quando você diz que é de um reino mágico." Bunny apertou a ponta do focinho. "Mas Estoico pareceu aceitar isso de alguma forma. Eu ainda acho que ele acha que você estava brincando."

"Mesmo? Ele parecia muito crente para mim." North cruzou os braços, inclinando a cabeça para o lado. "Os gêmeos foram muito abertos quando apresentamos tudo."

"Porque Cabeça Quente e Cabeça Dura não devem bater bem da cabeça." Bunny murmurou, e Jack moveu o pé para bater os dedos na própria têmpora, sem sair de sua posição de ponta-cabeça.

"Eles são legais. Só têm muita energia e a mente muito acelerada. Na pressa, a gente acaba fazendo bagunça sempre", defendeu, e Bunny sorriu de lado para ele. "O quê?"

"Você gostou mesmo desses pestinhas, não é?"

Jack sentiu a vergonha criar geada em suas bochechas e balançou a cabeça, agora definitivamente chutando Coelho ao girar no cajado e sendo acertado por ele com um tapa de pata fofa no tornozelo.

"Tudo bem, meninos!" Fada chegou com suas fadinhas, uma planilha e um lenço do tipo hijab na cabeça para esconder suas penas. Parecia quase humana daquele jeito. "O que estão fazendo?"

Seus olhos piscaram para Jack e Coelhão se engalfinhando, e North se inclinando para dentro do trenó ao ponto de apenas o traseiro estar de fora, as pernas balançando no ar.

Fada suspirou.

"Podem, por favor, levar isso a sério?"

"Estamos levando", disseram juntos, e Fada sorriu com carinho.

"Gente, são um povo primitivo. Não esqueçam disso. Não falem de como são as coisas no resto do mundo também. Mesmo eu nunca soube por que eles têm o costume de guardar os dentes dos filhos como amuletos." Fada pousou e afastou o pé de Jack da cabeça de Bunny. "Eles se importam com as crianças e são muito temerosos. Nem podemos mostrar poderes."

"Fada, me permita discordar", Jack flutuou de pé, andando no ar. "Mas eles voam em feras cuspidoras de fogo. Poderes realmente são tão estranhos a eles?"

"Em pessoas, sim." Fada colocou as mãos na cintura. "Só vamos ver primeiro, tudo bem? Nada de poderes enquanto estiver lá. A não ser em casos de urgência. Seja… sutil."

"Jack? Sutil?", Bunny desdenhou. "Acho que a paz daquele povo já era."

"Ei!" Jack chiou e riu. "Eu sei me comportar."

"Sabemos o que você considera se comportar. Não está muito correto", Bunny acrescentou, e Jack revirou os olhos, sorrindo.

"Vai ter que confiar em mim, então", provocou se abaixando para falar perto de sua orelha enorme, e Bunny o enxotou como se fosse uma mosca, fazendo ele recuar. "Quando sairemos?"

"Assim que vocês se trocarem", sorriu Fada, entregando roupas a Jack e a North. "Eu poderia ir, mas… acho que não é uma aventura da qual eu e Bunny possamos participar. Não por enquanto. Dependemos de vocês e dos gêmeos para saber o quanto essas pessoas vão nos aceitar."

Jack percebeu o sorriso gentil dela, mas olhando novamente para o hijab, sentiu o peito esfriar. Ela queria ir. Mas obviamente que um lenço não esconderia suas asas e cauda. E Coelhão não possuía nenhum disfarce que o fizesse parecer humano. Se sentiu mal o bastante para pousar no chão e apertar o cajado.

"Vou fazer eles entenderem. Vai ser um lugar para vocês irem também", tentou, sorrindo, mesmo que não sentisse tanto agora. Fada abriu um sorriso.

"Seria bom poder conviver com pessoas de novo, longe de nossos trabalhos e responsabilidades. Porém entendemos que não vai ser fácil. Mas vale a pena correr os riscos."

O olhar dela ficou intenso para ele. Sentiu North e Coelhão espelharem aquele afeto e apertou o cajado nos dedos querendo voar para longe diante daquela atenção calorosa que o desconcertava. Foi Coelhão que puxou seu capuz para cima de sua cabeça, fazendo ele rir e relaxar.

"Você ainda é só um moleque. No mínimo vai ser divertido", disse ele, e Jack queria gritar sem saber mais o que poderia fazer.

Pequenos flocos de neve começaram a cair, gentis e leves diante do que não foi dito, mas estava ali.

Queriam que Jack tivesse uma compensação depois de tudo que havia passado. Um lugar para ele pertencer e ser visto tanto quanto o próprio Jack.

Suspirando, pegou as roupas nas mãos de Fada e saiu voando para se trocar.

Sua próxima parada era Berk e, com aquilo, ser visto por mais que algumas crianças.

Não sabia nem como reagir a isso depois de tanto tempo.

Mas estava ansioso de um jeito excitante.


Sentir o peso da capa azul-anil era algo estranhamente familiar, mesmo que essa fosse muito mais pesada e fofa do que aquela que usava quando ainda era Jackson Overland. Mas ele realmente não sentiu falta dos sapatos.

"Sério?", reclamou, segurando as botas com as pontas dos dedos como se fossem algo nojento, e Fadinha começou a piar ao seu redor em repreensão. "Mas eu não sinto frio de verdade!"

Ele entendia o ponto dela ao chiar sobre os outros em Berk perceberem se ele não usasse roupas adequadas, e que isso ia gerar mais perguntas e menos apoio à causa deles. E também criaria uma diferença entre Jack e os outros, o que faria ser muito difícil saber em que poderiam ajudar de fato aquele povo escondido por radiação e magia misturadas.

Jack estalou a língua e calçou os benditos sapatos pesados, ficando muito incomodado com a dificuldade de flutuar com eles.

Fadinha chiou, parecendo ter guardado aquilo para o final.

"Como assim não vou poder voar?"

A porta se abriu e Jack fulminou Phil, que trazia outros acessórios.

"Só pode estar brincando", choramingou ao ver aquele peso todo ser posto na mesa. "Cintos?"

Fadinha piou, apresentando cada coisa com uma nova informação e como se fossem presentes muito caros.

Não um bando de ferramentas e coisas inúteis que não chegavam perto de seu poder real.

"Espada?", questionou, encarando a lâmina. "Isso aí não vai deixar que eu pule nem um metro do chão!"

Fadinha se estressou, piando contra seu rosto, e Jack encolheu os ombros, rindo. "Entendi! Calma!"

Um último pio. Jack balançou a cabeça em derrota e colocou seus novos apetrechos onde deveriam ficar.

Espada e sua bainha nas costas com uma fita de couro na frente. Cinto com bolsinhas pequenas para guardar coisas no quadril, que pendia meio de lado pelo peso mal dividido na tira, fazendo tudo parecer ficar de um lado só. Jack se recusou a usar o colete de ligas de ferro e as outras armaduras. Já era peso demais e ele se sentia andando em areia movediça com três vezes mais carga, o obrigando a usar as pernas para se sustentar, e isso parecia frustrar Vento um pouco, pois tentou soprar as armaduras para o chão.

"O que acham?", questionou, se movendo na frente do espelho, sentindo que vestia uma fantasia. Phil soltou um som típico de Yeti, erguendo o polegar, e Jack sorriu.

"Concordo."

Fadinha bateu as mãozinhas e apontou para uma cadeira, onde Jack se sentou e viu pelo espelho ela começar a trançar algumas mechas perto da nuca e na lateral.

"Agora vocês estão exagerando", soltou ao ver seu cabelo mudar, e Fadinha piou alegre.

"Se você acha. Mas eu não vou fazer isso tudo lá." Ela piou. Phil grunhiu também. "Vai ser realmente engraçado então quando esse príncipe que vocês querem que eu me pareça sumir no dia seguinte, não?"

Fadinha puxou seu cabelo.

Jack gargalhou.

Quando Fadinha acabou, Jack virou a cabeça de um lado para o outro e revirou os olhos ao encontrar coisinhas brilhantes penduradas em suas minúsculas tranças.

"Sério?", questionou, e Fadinha sorriu feliz e animada. "Tá, tá. Essas joias ficam, mas isso aqui" — seu polegar apontou para a espada em suas costas —, "sai."

Fadinha reclamou, mas Jack já tirava aquele peso gigante e estalava a coluna.

"Me dá um tempo, isso nunca vai sair dessa bainha. Se eu precisar lutar ou algo assim, tem que ser algo que eu saiba usar, não?" Ergueu uma sobrancelha e Phil grunhiu em apoio, movendo a mão peluda. "Ele entendeu."

Fadinha bufou, cruzando os braços. Jack deu de ombros, colocando o cajado na bainha, e ficou satisfeito o bastante ao se sentir mais ele mesmo com isso.

Fadinha pareceu perceber isso e suspirou, piando para Phil, que se aproximou, tirou a bainha de Jack e a ajeitou para que ficasse melhor para o cajado.

Pronto e parecendo um hobbit indo para Mordor, Jack riu e tentou voar para a porta, mas com o piar de Fadinha, se forçou a andar fazendo reclamações baixinho.

O trenó estava pronto, as renas batendo cascos no chão, bufando. North já estava pronto, sentado em sua cadeira com uma capa negra de pelo sobre os ombros, broches de ouro e uma túnica vermelha acolchoada que o fazia parecer bem maior e imponente que suas roupas comuns.

Ele realmente parecia um viking.

Provavelmente não havia uma distância tão grande também entre eles.

"Aí está nosso embaixador!", North sorriu animado, e Jack abriu um sorriso ao pular para dentro. Bunny e Fada estavam no chão, sorrindo para eles.

"Eu vou visitar", disse Bunny de braços cruzados. "Só para ter certeza de que você não vai fazer algo estúpido."

"Obrigado. Sua fé em mim é emocionante", soltou ao revirar os olhos.

"Você está ótimo, Jack! North me disse que tem muitos garotos de sua idade lá. Tente se enturmar!" Fada pediu, as mãos juntas na frente do corpo. "Lembre que lá você não é guardião, mas sim um convidado."

"Vou tentar", respondeu e se ajeitou no banco. "Mas não se preocupe, vai dar tudo certo! Eu estou indo pelos dragões!"

Fada sorriu, carinhosa demais para seu gosto, vendo demais por trás de suas palavras para ele achar que enganou alguém falando dos dragões.

Ele tinha que melhorar para disfarçar as coisas. Não ser mais invisível e ter de conviver com as pessoas estava deixando óbvio demais que ele não conseguia mentir bem nem para salvar a própria vida.

"Então vamos!", North declarou, batendo as rédeas, e Jack se segurou nas laterais quando os cervos começaram a correr.

O vento frio do Polo Norte o recebeu do lado de fora com força de um tirano, e Jack gargalhou, erguendo a mão e criando ele mesmo flocos que se dissipavam, formando uma trilha branca atrás deles.

North riu alto, olhando para ele com expectativa, e Jack sorriu de volta, sentindo os olhos se enrugarem.