Work Text:
Era sabido, em certos círculos sociais da Casper High, que nos dias em que Danny Fenton chegava à escola com hematomas na cabeça e um olhar distante, ele podia ver o futuro, mas não conseguia se lembrar dele. Bom. Pelo menos ele conseguia profetizá-lo, e suas profecias eram precisas. Assustadoramente precisas.
Às vezes, ele soltava uma do nada. Dizia a um calouro que seu gato ia morrer, ou as notas que todo mundo tiraria na próxima prova. Ele se aproximava dos atletas do último ano e os avisava sobre uma festa que daria muito errado. Ele se sentava na hora do almoço e dava spoiler de uma semana inteira de séries de alguém — porque a energia na casa da pessoa ia cair e, de outro modo, ela perderia os episódios; e a energia caía mesmo. Essas previsões raramente passavam de um mês no futuro.
Mas, se Danny fosse pego no clima certo, as pessoas podiam fazer perguntas. Coisas que não aconteceriam por muito tempo, meses ou até anos. Admissões na faculdade, casamento, esportes, eventos, política, amizades, concursos, romances, mortes. Ninguém havia testado uma profecia que fosse além de alguns meses, mas ele raramente errava; e quando errava, não era por muito. Um aluno ficou na lista de espera de uma faculdade, em vez de ser aceito de cara. Outra encontrou provas de que o namorado a traía antes do que Danny havia previsto. Um terceiro conseguiu evitar se machucar naquele jogo de basquete.
O mais importante era que, naqueles dias, seus conselhos eram sempre certeiros.
Hannah Weston observava Danny Fenton há um tempo. Diferente de seu primo mais velho, ela não achava que Danny fosse Phantom — isso era meio loucura —, mas tinha um fraco por teorias da conspiração e rumores sobre o oculto.
Sua teoria atual? Danny era algum tipo de sensitivo. Ou um necromante, no sentido original da palavra. Toda a família dele era esquisita. Cientistas malucos. Todo mundo sabia que eles tinham um laboratório no porão, e que haviam feito alguma coisa com o governo, de acordo com os fóruns de conspiração de Amity Park. Eles poderiam ter feito... algo. Algo para deixar Jazz superinteligente, e para dar a Danny a premonição.
E quem diria que Danny não tinha premonição o tempo todo? Ele certamente sumia do mapa durante ataques de fantasmas. Parecia sempre saber quando iriam acontecer. Seu “modo profeta” também parecia sempre ativar logo após grandes lutas fantasmagóricas. A teoria de trabalho de Hannah era que os poderes dele funcionavam à base de ectoplasma (ectoenergia?), e o ectoplasma liberado nas grandes batalhas o sobrecarregava, deixando-o menos cuidadoso na hora de esconder suas habilidades.
Claro, nem todo mundo seguia a lógica de Hannah, e era por isso que ela e algumas das outras garotas “socialmente neutras” estavam tentando encurralar Danny longe de seus eternos protetores, Sam Manson e Tucker Foley.
Era tão estranho pensar em si mesma como “socialmente neutra”. Por outro lado, considerando todos os fantasmas, ser uma teórica da conspiração em Amity Park era quase respeitável. Logo ali, lado a lado com o ocultismo e aquele minúsculo culto de verdade focado em fantasmas.
O que apenas tornava o status de excluído do Danny ainda mais esquisito. Que seja. Ninguém disse que a dinâmica social do ensino médio tinha que ter lógica.
A ideia delas (não de Hannah) era que, se Danny já conseguia prever bem as coisas, então ele conseguiria prever ainda melhor com alguns apetrechos de adivinhação de verdade. Não fazia sentido na cabeça de Hannah, mas ela estava disposta a dar corda para as amigas, e aquele era o único jeito de conseguir fazer perguntas a ele sem que Sam ou Tucker a enxotassem dali.
Não que ela tivesse algo realmente urgente para perguntar. Só estava curiosa.
Ela espiou pela janela da sala de aula. Sua amiga Mia havia descoberto que Danny e seus dois amigos passavam o intervalo naquela sala quando Danny estava num clima profético. O espaço era usado mais como depósito, então os professores não ligavam, embora os alunos tecnicamente não devessem estar ali.
O sistema de som da escola tossiu de volta à vida, chamando Sam e Tucker para a diretoria, como planejado. Sarah, sua outra amiga, tinha ficado encarregada disso. Agora era a vez de Hannah. Ela bateu na janela e acenou para Danny.
Danny se aproximou e a abriu.
— Eu posso ajudar você, a Mia e a Sarah — disse ele, antes que Hannah pudesse recitar seu roteiro —, mas está frio demais perto do campo.
— Hã — soltou Hannah.
— A gente podia ficar perto das escadas para o telhado, já que os veteranos que fumavam lá foram pegos. — Danny sorriu de forma distraída, com os olhos vidrados. — Espero que eles parem de fazer isso agora. Fumar não faz bem.
Hannah pensou sobre o assunto por um segundo.
— Claro, deixa eu mandar uma mensagem para a Mia.
— E também, eu não sei como o tarô funciona.
— Tudo bem.
Sarah trouxe uma Bola 8 Mágica. Mia trouxe cartas.
— Eu não consegui achar uma bola de cristal — Sarah justificou, na defensiva, tirando o brinquedo da mochila.
— Sem problema. — Hannah espiou as cartas de Mia. Eram pretas e douradas. — São bonitas.
— Obrigada — disse Mia. — Minha avó me deu de aniversário.
— Então — começou Sarah, levemente corada. Ela ergueu a Bola 8 Mágica. — O que a gente faz primeiro?
Surpreendendo a todas, Danny estendeu a mão para a Bola 8.
— Os sinais apontam que não — disse ele, e chacoalhou a bola.
Todas se inclinaram para ver a resposta. A bola dizia: OS SINAIS APONTAM QUE NÃO.
Após mais alguns minutos, ficou óbvio que Danny conseguia prever com precisão qual resposta a Bola 8 mostraria toda santa vez. E ficou igualmente óbvio que, enquanto ele estivesse com a bola, aquilo seria tudo o que ele faria.
Hannah puxou a bola de perto dele.
— Vamos tentar as cartas — disse ela. Já estavam na metade do horário de almoço e, por mais legal que o truque fosse, ficava chato depois de um tempo.
— Ah — murmurou Danny, com o rosto caindo de decepção. — Mas eu não sei como o tarô funciona.
— Tudo bem — assegurou Mia, estendendo as cartas. — Só faça o que parecer certo.
— Eu vou tentar — Danny concordou, em dúvida. Ele embaralhou as cartas. — Acho que a Sam ia gostar dessas aqui — comentou, passando o dedo sobre o verso de papel laminado dourado. — Qual é a pergunta que vocês querem fazer?
— Você primeiro — Sarah apontou para Mia. — As cartas são suas.
Mia umedeceu os lábios.
— Me diga o que vai acontecer se eu me tornar aluna de intercâmbio. — Fazia um tempo que Mia queria fazer intercâmbio. Até estava fazendo aulas avançadas de espanhol. Os pais dela, contudo, não estavam muito entusiasmados com a ideia.
Danny dividiu as cartas em três pilhas.
Ele virou uma carta. Mostrava um par de mãos dadas, cada uma usando um bracelete.
— Não vai acontecer do jeito que você espera — disse Danny.
Ele virou a próxima carta. Mostrava duas flores.
— Você vai para bem longe, mas os seus planos não vão ajudar.
Ele virou a carta no topo da última pilha. Tinha um par de esqueletos nela.
— Mas você vai encontrar uma coisa importante.
— Hã, você não poderia ser talvez um pouquinho mais... específico? — perguntou Mia.
— Não?
— Eu avisei que não ia funcionar — disse Hannah. Ela estava só um pouquinho convencida.
— A Sam e o Tucker estão me procurando — avisou Danny. — Vocês não deveriam estar aqui quando eles chegarem. Aqui estão as suas cartas.
— Obrigada — disse Mia. Ela e Sarah desceram as escadas. Hannah enrolou mais um pouco.
— Aquelas duas vão ficar juntas algum dia? — perguntou Hannah, apontando com o polegar por cima do ombro.
Danny piscou para ela.
— Você não estava prestando atenção?
— Hannah! — chamou Sarah. — Anda logo, a gente tem que ir.
— Bom, tchau — disse Hannah.
— Tchau — disse Danny, acenando. Ele se levantou e se espreguiçou. Não tinha sido tão ruim assim. Pelo menos elas não tinham pedido os números da loteria.
Sua concussão estaria melhor até o dia seguinte.
