Work Text:
— Só porque meu cabelo acorda bagunçado não significa que um fantasma está tentando me sequestrar — disse Danny, inclinando-se para mais perto do espelho para desfazer o nó.
Maddie agarrou o pulso dele.
— O quê? — ele perguntou, sem emoção. Era cedo demais para aquilo.
— As lendas dizem que fantasmas...
— Fadas — corrigiu Danny.
— Dá no mesmo, se você voltar no tempo o suficiente — disse Maddie. — Elas teceriam azar nos nós. Se você os desamarrar, será amaldiçoado. Eles têm que ser cortados.
— Não se atreva — disse Danny, cujo cabelo mal tinha conseguido crescer até um tamanho razoável depois do último encontro com o barbeiro local. Ele percebeu que Maddie já segurava uma tesoura e recuou, apenas para esbarrar em Jack, que estava com a máquina de cortar cabelo.
— Desculpe, filho — disse Jack.
— Só pode ser brincadeira — disse Danny.
— Nós sabemos que você tem tido pesadelos, Danny.
— Por favor, não me digam que vocês acham que um fantasma está causando isso — implorou Danny. Ele considerou usar a intangibilidade para escapar daquela mais recente loucura dos pais, mas decidiu que seria óbvio demais.
— Mas eles causam! Eles sentam no seu peito...
— Meu Deus, vocês estão literalmente descrevendo paralisia do sono.
— Que é causada por fantasmas!
— Não.
O cabelo de Danny não sobreviveu à confusão que se seguiu.
Clockwork olhou para seu pupilo adormecido com horror. Ele já sabia, é claro, mas, ainda assim.
O cabelo dele. (O cabelo dele! (Seu belo cabelo. (Isso não significava que ele simpatizasse ou compreendesse a Obsessão de Néftis com o próprio cabelo.)))
Ele tirou a luva e passou a mão sobre o cabelo macio, porém espetado e um tanto irregular, no topo da cabeça de Danny. Ele deveria, ou não deveria?
Geralmente, Clockwork era a própria imagem da contenção e da moderação.
Tudo com moderação. Incluindo a moderação.
Com um pouco de incentivo fantasmagórico, os dedos de Clockwork logo estavam penteando vários centímetros de um cabelo escuro e espesso.
Danny encarou seu reflexo com um tipo de exaustão profunda na alma, conhecida apenas por aqueles que foram verdadeiramente amaldiçoados pelo universo.
Ele tinha várias opções ali, e nem todas eram mutuamente exclusivas.
Ele poderia cortar o cabelo. Poderia usar um chapéu. Poderia torcer para que Maddie e Jack não notassem que seu cabelo havia crescido de novo. Poderia ir dar uma bronca em sua figura semi-parental e geralmente semi-responsável por ter feito aquilo, porque, francamente, era idiota e chamativo. Poderia rezar para que Maddie e Jack não cortassem seu cabelo outra vez, reiniciando todo aquele ciclo.
O espelho parecia frio contra sua testa, mas não fez nada para aliviar sua dor de cabeça.
Seus pais notaram.
Que fique registrado que todos os fantasmas são estupidamente mesquinhos e competitivos, dada a motivação certa. Incluindo aqueles que fingem ser figuras parentais sensatas e responsáveis.
Uma semana depois, Danny entrou a passos pesados no Agora Eterno.
— Daniel! — exclamou Clockwork, alegremente. — O que o traz aqui hoje?
Danny apontou para o próprio cabelo, que agora descia até o final de suas costelas.
— Eu até entendo fazer crescer de novo — disse ele, indignado. — Mas precisava deixar mais longo? Precisava fazer uma trança? Eles estão instalando uma câmera no meu quarto, Clockwork. Uma câmera. No meu quarto.
— Você gostaria... — começou Clockwork, hesitante — que eu reiniciasse a semana?
Danny fechou os olhos.
— Por favor.
