Actions

Work Header

Frutos

Summary:

Danny tentou destruir aquele diário velho, mas isso só deixou seus pais ainda mais interessados no que John Fenton-Nightingale tinha a dizer.

Notes:

Work Text:

​Graças ao Restaurador Fenton de Fólios Desbotados, o diário encharcado, rasgado e levemente chamuscado do ancestral favorito e mais notório de Jack estava finalmente legível. Ou, pelo menos, fotografias cuidadosamente escaneadas das páginas podiam ser lidas. Jack mal podia esperar para ler aquilo. Ele e Maddie haviam ficado acordados até as primeiras horas da madrugada digitalizando as páginas.

​Se ao menos fossem jovens novamente, capazes de virar noites em claro... Infelizmente, esse não era o caso.

​Ainda assim, ele estava com a energia nas alturas quando se levantou naquela manhã. Como de costume. Ele desceu as escadas aos pulos na frente de sua esposa, deixando todo o seu entusiasmo transbordar.

​— Ei, Mads, que tipo de técnicas históricas e iradas de caça a fantasmas você acha que vamos encontrar no diário do velho John Fenton-Nightingale? Meu avô me disse que ele lutou contra um fantasma demoníaco com as próprias mãos uma vez, consegue imaginar?

​Ele ouviu um som de engasgo vindo da cozinha e entrou aos saltos, apenas para encontrar seu filho, Danny, engasgado com o próprio cereal. Ele deu um tapa vigoroso nas costas do garoto, e Danny começou a puxar o ar com força.

​— Tudo bem por aí, filhão?

​— Eu estou, sim, estou bem. É que... Atrasado para a escola! Tenho que ir!

​Danny saiu correndo pela porta sem dar mais nenhuma explicação. Jack coçou a cabeça.

​— Ué. Ainda não é meio cedo?

​— Hoje é sábado — disse Maddie, preocupada. — Nós deveríamos ir atrás dele?

​— Ah, não, ele vai perceber logo logo! — disse Jack. — É muito bom vê-lo tão ansioso para ir! E, falando em ansiedade, vamos ver como o bom e velho John despedaçava os fantasmas nos velhos tempos!

​


 

​— As flores de sangue estão extintas, não estão? — Danny perguntou a Sam, observando-a regar as plantas na estufa, com as mãos apoiadas nos próprios joelhos. — Quero dizer, definitiva e absolutamente?

​— Até onde eu consegui descobrir, sim — disse Sam. — Falei com todos os meus contatos de jardinagem. Só uma pessoa já tinha ouvido falar delas, e ela estava convencida de que era apenas uma rosa esquisita. Sinceramente, até do lugar onde eu estava amarrada deu para perceber que não eram rosas, então... Sobre o que é isso, de qualquer modo? Os seus pais descobriram sobre elas?

​— Não, mas estão quase. Eles conseguiram deixar o diário do Nightingale legível.

​— Droga. Achei que você tivesse jogado isso no lixo.

​— Eu tentei! Eu realmente tentei! Mas aí o meu pai colocou na cabeça que os fantasmas estavam tentando destruí-lo porque ele guardava segredos ocultos de caça a fantasmas...

​— É, isso é verdade, mas continue.

​— ...e eles ficaram muito entusiasmados com isso. Eles construíram uma máquina inteira só para conseguir ler aquilo!

​Sam abaixou o regador e deu um tapinha nas costas de Danny.

​— Bem, tomara que não tenha nada lá dentro que seja pior do que flores de sangue.

​Danny gemeu.

​— Por que você diria uma coisa dessas?

​


 

​— ...e elas ficam ótimas em sanduíches! — exclamou Jack.

​— Elas com certeza parecem incríveis — disse Maddie, enquanto digitava no computador do laboratório. — Seriam um trunfo maravilhoso, mas não consigo encontrar nada sobre elas na internet, nem mesmo nada que se pareça com elas. Me mostra a foto de novo? Talvez eu possa perguntar para alguns conhecidos.

​— É claro, Mads! — Jack entregou a Maddie a página em questão. — Você conhece um lugar chamado de A Lombada?

​— Não me vem à cabeça agora, por quê?

​— Porque o John disse que é lá que ele escondeu um monte de sementes, apenas para o caso de aqueles fantasmas covardes tentarem destruí-las!

​— Ele escondeu as sementes na lombada? — repetiu Maddie, desviando o olhar do computador. — Você tem certeza?

​— Foi o que ele disse!

​— Jack, e se ele quis dizer... a lombada do livro?

​Os dois correram pelo laboratório até o local onde o diário estava guardado, em uma caixa à prova de fantasmas. Maddie pegou uma tesoura.

​— Eu sinto muito se estiver errada, Jack — ela disse.

​— Não sinta! É o que o John teria querido!

​Ela abriu a tampa e tirou o livro destruído de lá.

​— Talvez seja por isso que os fantasmas foram tão insistentes em tentar destruir isto agora. Eles sabiam das sementes.

​— Eu não duvido nada deles!

​Maddie desmontou o que havia sobrado da encadernação e, sem surpresa, um pequeno saco de tecido estava aninhado junto às dobras das páginas. Cuidadosamente, Jack pegou o saquinho e desamarrou a ponta. Ele abriu um sorriso largo e mostrou os pequenos frutos secos, de um tom marrom-avermelhado, para Maddie.

​— Elas estão aqui, Maddie! Espere até eu contar para as crianças! Elas vão ficar tão empolgadas! Um pequeno pedaço da história da família, bem aqui, nas nossas mãos.

​— Espere, Jack — disse Maddie, segurando o braço dele. — Eu não acho que devemos contar a eles.

​O sorriso de Jack desapareceu.

​— Por que não?

​— Bem — disse Maddie, franzindo a testa —, você sabe como eles são em relação aos fantasmas. Eu acho que deveríamos manter isso em segredo. Para que os fantasmas não descubram, como descobriram com o diário.

​— Você não acha que a Jazz ou o Danny contaram aos fantasmas sobre o diário, acha?

​Maddie balançou a cabeça.

​— Não, não necessariamente. Mas eles poderiam ter contado aos amigos, e os fantasmas poderiam ter ouvido por acaso. Isso é simplesmente muito importante para o nosso trabalho e para a história da sua família, e eu odiaria que tudo fosse destruído por causa de um erro como esse.

​— Certo, nós vamos manter isso em segredo, então. Pelo menos até estarem prontas para usar! Nós podemos usar a Prisão Fenton! As crianças nunca descem até lá.

​


 

​— Você não ouviu mais nada sobre o diário? — Danny perguntou a Jazz, uma semana depois. Ele se encostou nervosamente no batente da porta do quarto dela. Estava tendo pesadelos e lembranças do século dezessete, ou de qualquer ano infernal de onde John Fenton-Nightingale tivesse vindo.

​— Qual diário? — perguntou Jazz. — Eu leio vários. A revista Psychology Today?

​— O quê? — perguntou Danny, enrugando o nariz. — Isso não é uma revista? Não, o diário do ancestral do pai. Aquele que ele e a mãe achavam que estava cheio de coisas antigas de caça a fantasmas.

​— Não — disse Jazz. — Por quê? Ele está cheio de coisas antigas de caça a fantasmas?

​Danny deu de ombros.

​— Eu não olhei com muita atenção antes de tentar incendiar a coisa toda, mas, é.

​— Foi você? Por quê? — perguntou Jazz, levantando os olhos do livro e balançando as pernas para fora da cama.

​— Porque o cara tentou matar a Sam — disse Danny, com uma expressão sombria.

​— O... O nosso ancestral, que viveu nos anos 1600, tentou matar a Sam? — perguntou Jazz. — Caramba, eu não fico sabendo nem da metade das coisas em que vocês se metem, não é? Por que ele tentaria matar a Sam?

​— Ele achou que ela era uma bruxa. Achou que eu fosse um demônio, também.

​— Então o demônio que o papai estava dizendo que ele lutou...

​— Provavelmente era eu, para ser sincero.

​— Só para você saber — disse Jazz —, eu estou intensamente perturbada.

​— Somos dois. Apenas fique com os ouvidos atentos caso eles falem sobre flores de sangue ou qualquer coisa assim, tudo bem?

​— É claro, maninho. E flores de sangue são...?

​— Incrivelmente dolorosas para fantasmas. Ou para meio-fantasmas que, por acaso, estejam na forma fantasma. — Danny fez uma careta, relembrando. — Eu estava sentindo tanta dor que não conseguia nem pensar em voltar ao normal.

​— Você quer falar sobre isso?

​— Não — disse Danny. — Na verdade não.

​— Bem, se você mudar de ideia...

​— Obrigado — disse Danny.

​


​— Atchim!

​— Parece que você está com alguma alergia aí, garoto! — disse Jack. — Eu também costumava ter isso quando tinha a sua idade!

​— É, é — resmungou Danny. Quando suas alergias não apareceram no ano seguinte ao se tornar um meio-fantasma, ele tinha achado que havia se livrado delas para sempre, mas aparentemente elas estavam apenas de tocaia, porque agora estavam piores do que nunca. Ele resistiu ao impulso de esfregar os olhos.

​Se ele algum dia descobrisse qual planta estava fazendo isso com ele, iria destruí-la sem a menor piedade.

​— Nós vamos comprar algum remédio para alergia na próxima vez que formos ao mercado. De qual você gostava mesmo? Allegra? Claritin?

​— Não me importo — disse Danny. — Qualquer um.

​— Bem — disse Maddie, colocando uma panela sobre a mesa —, talvez isso ajude a limpar os seus seios da face, pelo menos um pouquinho. Eu coloquei um monte de temperos. — Ela serviu a sopa cor-de-rosa primeiro na tigela de Danny, depois na de Jazz.

​— É uma velha receita de família! — disse Jack, orgulhosamente.

​Danny ficou imediatamente desconfiado. Claro, ele provavelmente estava apenas sendo paranoico, mas não conseguiu deixar de lembrar que John Fenton-Nightingale havia comido flores de sangue. Danny duvidava muito que consumir algo assim faria bem para ele, não importava em qual forma estivesse.

​Ele fingiu espirrar com muita força e derrubou sua sopa da mesa.

​— Ah, cara — ele disse, encarando a bagunça.

​— Não se preocupe, filhão! Você pode ficar com um pouco da minha!

​— Não, não — disse Danny. — Eu, na verdade, não estou me sentindo com muita fome... Acho que vou apenas para a cama.

​Ele fugiu da sala de jantar sem esperar por uma resposta.

​


 

​— Jack — disse Maddie —, você acha que o Danny estava agindo de forma estranha no jantar de hoje?

​Ela ainda não havia se acostumado à forma como sua voz ecoava na Prisão Fenton, mesmo depois de todos aqueles anos.

​— É. Nossa, ele está com uma alergia brutal, hein?

​Maddie podou um galho de um dos maiores arbustos de flores de sangue.

​— Você viu o jeito que ele estava olhando para a sopa de flor de sangue? — ela perguntou.

​— Na verdade não! Eu estava ocupado demais olhando para a minha e, cara, estava deliciosa ou o quê?

​— Obrigada, Jack — disse Maddie, sorrindo brevemente. Seus pensamentos voltaram-se para Danny, e o sorriso desapareceu. — O livro dizia que as frutas eram boas contra possessão, não é?

​— Certíssimo, Mads!

​— Quanto tempo até elas começarem a dar frutos, você acha?

​


 

​A resposta para a pergunta foram duas semanas. Durante duas semanas, Maddie viveu sem saber se o seu filho era ou não um fantasma. Durante duas semanas, Danny viveu em um estado constante e crescente de ansiedade e paranoia.

​Ele podia sentir Maddie observando-o. Ele podia sentir a dúvida dela. Literalmente. Isso o deixava doente. Ou seriam apenas as alergias? De qualquer forma, estava sendo brutal e Danny se via usando todas as desculpas possíveis para sair de casa. Ele raramente comia em casa. Não podia confiar na comida.

​Jazz não achava que aquilo fosse saudável. Danny também não, mas não era culpa dele.

​— Você tem alguma prova? — perguntou Jazz, exasperada.

​— Prova de quê?

​— De que a mamãe está agindo estranho, ou de que está tentando envenenar você.

​— Não — admitiu Danny. — Mas isso não quer dizer que ela não esteja.

​— Você perdeu quase cinco quilos, Danny, e você já era um palito. As pessoas vão achar que você está anoréxico. — Ela fez uma pausa. — Você não está realmente anoréxico, não é?

​— Não! — disse Danny. — Isso é estupidez. Eu comeria se pudesse confiar em alguma coisa. O que eu não posso.

​— Por favor, Danny. Pelo menos coma um biscoito. Eu vi a mamãe fazer. Ela não colocou nada de estranho. Exceto pelas uvas-passas, imagino.

​Danny abaixou o olhar para o prato na mesa, com água na boca. Eles cheiravam tão bem, e ele estava com tanta fome.

​— Tudo bem — ele disse —, mas você tem que observar para o caso de eu morrer ou algo assim.

​Jazz revirou os olhos.

​— Está bem — ela disse.

​Danny pegou um biscoito e deu uma mordida.

​— Você tem certeza de que são uvas-passas? — ele perguntou, tirando o pedaço mastigado da boca.

​— Elas estavam na caixa de uvas-passas — disse Jazz.

​— Elas têm um gosto meio esquisito — disse Danny. Seu pulso havia acelerado. Droga, ele estava tendo um ataque de pânico? Por causa de um biscoito?

​— Eu imagino que estivessem meio velhas — admitiu Jazz. Ela mesma pegou um biscoito. — Eles não estão ruins. Danny? Você está bem?

​Danny, encostado no balcão, balançou a cabeça.

​— Não consigo respirar — ele chiou.

​— Ai meu Deus, você está inchando — disse Jazz.

​A visão de Danny afunilou e escureceu completamente.

​


 

​— ...algo de novo no dia a dia dele? Na dieta dele?

​A voz era desconhecida para Danny.

​— Nós arranjamos umas plantas novas no mês passado... Estivemos testando na culinária.

​— Nos biscoitos?

​— As frutas, sim, são uma variedade de herança.

​— A senhora poderia trazer algumas? Eu gostaria de fazer alguns exames, mas o meu diagnóstico inicial é de que Danny tem uma alergia severa a algo que comeu.

​Havia um som irritante de bipe.

​— É claro. — Ah, aquela era a mãe dele. Ela soava preocupada. — Quando o senhor acha que ele vai acordar?

​— A qualquer momento. Mas há algumas outras coisas que nós descobrimos sobre as quais eu gostaria de falar com a senhora. Se importaria de sair comigo por um instante? Muito bem, então...

​— Você pode parar de fingir que está dormindo — disse Jazz.

​Danny gemeu.

​— Eu te avisei.

​— Avisou mesmo — concordou Jazz.

​— O que eles notaram? — perguntou Danny, abrindo os olhos para se ver em um quarto de hospital.

​— Nada de mais, não se preocupe. Eu acho que eles apenas querem perguntar sobre a sua cicatriz do portal.

​— Hum — disse Danny, esfregando o próprio peito. — Então...

​— Reação alérgica severa. Eles te deram uma injeção de epinefrina.

​— Legal. Isso funcionou?

​— Aparentemente.

​


 

​— Vocês têm certeza de que se livraram de tudo? — perguntou Danny, mantendo uma boa distância da porta da frente.

​— Nós temos absoluta certeza, querido — disse Maddie.

​— É, garoto — disse Jack. — Nós limpamos tudo com o Fenton Tira-Pólen-o-Matic! Apenas... deixe a gente compensar você por isso, tudo bem, amigão? Nós não queríamos que as coisas tivessem terminado assim.

​— Eu sei — disse Danny.

​Ele endireitou os ombros e entrou na casa.

​


 

​Danny sentou-se em sua cama, de pernas cruzadas. Ele precisava checar aquilo agora, ao invés de deixar para mais tarde, mesmo que apenas o pensamento do que provavelmente iria acontecer o fizesse encolher os ombros, receoso.

​Não, ele tinha que pensar positivo. Afinal, quais eram as chances de o universo odiá-lo tanto assim?

​Muito altas.

​Certo. Pensamentos positivos não estavam funcionando. Hora de encarar os fatos.

​Ele puxou a energia do seu cerne, invocando os seus anéis de transformação. Eles apareceram, brilhantes e brancos, ao redor de sua cintura. Começaram a se separar, e...

​Ele foi atingido por uma parede de dor cegante. Seus anéis se juntaram novamente em um estalo brusco.

​Típico, de verdade.

​Ele alcançou o celular e discou um número.

​— Ei, Tucker. Quanto tempo demorou para aquelas flores de sangue saírem do seu sistema?

Series this work belongs to: