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Quinze em Quinze

Summary:

Lorena Ferette ainda está se habituando à nova dinâmica de sua vida como filha de pais divorciados.
Entre maquetes para a aula de Biologia e as desventuras românticas de suas três (!) melhores amigas, ela agora é obrigada a visitar seu pai, Santiago, em outra casa a cada quinze dias. Como se não bastasse, outra novidade é que precisa conhecer a igreja neopentecostal frequentada por sua nova madrasta, Arminda.
Quando tudo parecia de cabeça para baixo, seus dias encontraram um novo eixo: sua conexão inexplicável com uma guitarrista ruiva, cheirosa, evangélica e cinco centímetros mais baixa que ela.

Ou

Lorena é uma menina de catorze anos tentando encontrar seu lugar no mundo. Eduarda é crente e me parece meio a fim de viver um namoro gay.

Notes:

Oi, pessoal!

Esta one shot é minha singela contribuição ao Desafio Loquinha, e é minha resposta ao Desafio 3 ("Mulher de Fases").

Eu estava há SEMANAS obcecada pela ideia de escrever Lorena e Eduarda na adolescência, e decidi juntar tudo isso às minhas vivências de criança crente.

Espero que vocês gostem, pois agora o texto não é mais meu, mas de vocês. Obrigada pelo carinho e apoio de sempre. Torço para que se divirtam como eu me diverti criando.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

As melhores amigas de Lorena argumentaram que havia uma vantagem em ser filha de pais separados: ter duas casas ao mesmo tempo. Tudo seria em dobro. Dois quartos, duas estantes de livros, duas mesadas, dois presentes de aniversário, duas bolsinhas com maquiagem e produtos de skincare coreano.

Ela não rebateu, até porque era hora do intervalo e sua boca estava ocupada com o delicioso folhado da cantina. Mas a verdade é que não entendia como era possível alguém morar em dois lugares. Nos formulários da escola, sempre havia um único campo para preencher o endereço. Quando fazia compras na Amazon, podia sinalizar apenas um destino habitual de entrega como sua localização principal. 

Não queria chamar as meninas de mentirosas, mas para ser franca, elas mesmas não sabiam o que era ter duas casas. Os pais de Maggye brigaram por alguns meses no ano anterior. O pai João continuou vivendo no sobrado, enquanto o pai Kasper passou um tempão morando num hotel tão acabado que não tinha estrela nenhuma, nem mesmo piscina ou café da manhã. Pelo que Lorena lembrava — e sua memória era muito, muito boa —  Magnólia, por pura preguiça de pegar um ônibus e fazer duas baldeações no metrô, não foi visitá-lo nenhuma vez. 

A mãe e o pai de Lucélia nunca foram casados, mas isso também não fazia diferença nenhuma, porque ela foi criada pela avó. Dona Marieta sempre teve uma casa térrea bonita, cheia de plantas, colorida, e o mais importante de tudo: que é uma só.

Gerluce não tinha pai. Quer dizer, tinha, mas só na certidão e em meia dúzia de fotos de recém-nascida. Dizia que estava bom assim porque a mãe valia por dois. 

Bom, valia por dois, mas ocupava um único apartamento!

Lorena acabou engolindo o consolo das garotas junto com a massa folhada integral e o frango desfiado. De qualquer forma, não havia nada que pudesse fazer. Sua família agora tinha uma nova configuração, radical e imutável, que proporcionou a ela duas residências, mas nenhum lar.

 


 

 

— Leonardo! Lorena! O pai de vocês chega em cinco minutos! 

Leo, como um cão adestrado, passou voando pelo corredor assim que ouviu a voz da mãe. O verdadeiro cachorro adestrado da família, Donatello, um Dachshund, estava deitado ao pé da cama de Lorena, como se soubesse que sua fiel companheira precisava de apoio naquele momento tão difícil.

Ela conferiu, pela milésima vez, o conteúdo de sua mochila metalizada. Decidiu levar roupas de verão e inverno, porque nunca se sabe; dois livros físicos e seu Kindle verde matcha, porque nunca se sabe; seu caderno do colégio e o tablet, porque nunca se sabe; seus itens de higiene e um kit de primeiros-socorros que contrabandeou do armário do lavabo, porque nunca se sabe. Pendurou o fone de ouvido no pescoço e subiu o capuz do moletom, embora não estivesse tão frio assim lá fora. 

Saiu do quarto com a bolsa nas costas e os braços cruzados, em protesto. Sua mãe, no entanto, pareceu não dar a mínima para suas reivindicações silenciosas. Toda sorridente, a matriarca beijou as testas dos filhos como se ainda fossem crianças loirinhas e bochechudas. 

— Tchau, meus amores — despediu-se Zenilda, acariciando os ombros de Leo — Se precisarem de alguma coisa, qualquer coisa, vocês sabem que podem ligar pra mim, né? Eu saio de onde estiver e vou correndo na hora.

— Relaxa, mãe — disse Leonardo, se desvencilhando sutilmente dos toques. 

Zenilda, então, abraçou sua caçula. 

— Filhota — sussurrou, num tom cúmplice e um tanto travesso — Você me conta se aquela bruxa estiver lá com o seu pai? 

— Mãe! — repreendeu Lorena, espantada, como se fosse ela a adulta da relação. 

— Mulheres têm que se ajudar, Lolô! — defendeu Zenilda.

Lorena pensou em rebater. Achava curioso ser uma mulher para aquele tipo de tarefa estapafúrdia, mas menina demais para que suas vontades fossem levadas em consideração. 

Como era de seu feitio, contudo, acabou não dizendo coisa nenhuma.

 


 

Contrariando os cinco minutos prometidos, o interfone só tocou quase meia hora depois. 

Lorena permaneceu quieta durante todo o trajeto de elevador, e também ao longo da caminhada pelas áreas comuns do condomínio. Seu irmão não se importou. Estava ocupado rindo para o celular e digitando algo com os polegares. 

Santiago Ferette dirigia o mesmo SUV de meses atrás. O mesmo carro em que acomodou uma vida inteira em malas de viagem e caixas de papelão, à exceção dos dois adolescentes que botou no mundo. 

As roupas que ele usava também eram familiares. A velha camiseta do Palmeiras que sempre vestia em dia de jogo. Os óculos de sol que comprou na última viagem de férias que fizeram, para Fortaleza. 

Muitas coisas estavam iguais, mas Lorena não pôde deixar de perceber que, apesar disso, o pai era diferente, quase outro. Que tirou a barba e aparou bem o cabelo. Que finalmente fez uma limpeza para eliminar o tártaro dos dentes. Que parecia mais jovem, mais bonito. Que estava extremamente perfumado — e para isso ela torceu o nariz, porque odiava perfume masculino. 

— Oi, pai! — saudou Leonardo, tão animado que chegava a ser irritante. O cão adestrado só faltou abanar o rabo. 

— Gente, entrem rapidinho, por favor — pediu Santiago, olhando para todos os lados como se fosse um criminoso em fuga — Eu não posso parar aqui, vou tomar uma multa na fuça. 

Lorena obedeceu, e frustrou-se consigo mesma por ser tão obediente. Bateu a porta e colocou o cinto o mais depressa que pôde. 

— Oi, princesa! — cumprimentou o pai, buscando o olhar dela pelo espelho retrovisor — Tô tão animado pra vocês conhecerem minha casa nova!

— Você comprou mesmo o Playstation 5? — perguntou Leo, e logo emendou um papo qualquer sobre o novo God of War. 

Lorena revirou os olhos. Talvez Zenilda tivesse razão e mulheres precisassem mesmo se ajudar. A solidariedade incondicional de Leonardo com outro exemplar de sua espécie era revoltante. Como ele podia agir tão naturalmente depois de tudo que passaram? 

Para não pensar no assunto, ela arrancou o capuz e cobriu os ouvidos com os fones. Deu play em Olivia Rodrigo no volume máximo. 

 


 

Lorena odiou admitir, mas o novo apartamento de seu pai era surpreendentemente ajeitado. 

O imóvel ficava na Bela Vista. Era antigo, mas reformado. O chão de taco, embora riscado pelas intempéries do tempo, estava bem encerado e até reluzia. As paredes foram pintadas com um amarelo solar. Havia quadros, tapetes e um vaso bonito de orquídeas. Tudo tinha um cheiro muito bom, algo entre lavanda e um outro aroma cítrico que Lorena não conseguia decifrar. O tal Playstation 5 estava ao lado da televisão, em um rack de madeira. Uma estante de aço abrigava todos os livros de Santiago que conhecia tão bem — todas aquelas coisas chatas sobre empreendedorismo e autoajuda, que ele, por algum motivo, chamava de “desenvolvimento pessoal”.

Mas ela logo reconheceu também outras lombadas. Eram títulos que Lorena conhecia do BookTok e que sempre via nas livrarias, mas que sua mãe insistia que não eram apropriados para a idade dela. Títulos de Colleen Hoover e Sarah J. Maas. 

Intrigada, se aproximou para explorar melhor e mais a fundo. Curiosamente, havia mais de uma Bíblia — e uma delas contava uma encadernação cor-de-rosa, com a capa anunciando uma “tradução na linguagem de hoje”. Tinham outras publicações que, ao que parecia, eram religiosas: “Cristianismo Puro e Simples”, “A Imitação de Cristo” e “O Poder da Esposa que Ora”. 

Lorena franziu o cenho, totalmente confusa. As peças do quebra-cabeça foram se alinhando pouco a pouco, quase em câmera lenta, mas ela se recusou a acreditar na hipótese que se desenhou diante dela.

Encarou o pai, inquisidora, embora não soubesse bem do que é que o estava acusando. Não era possível que fosse o que ela estava pensando. Ele teria avisado se fosse isso.

Não teria? 

Leonardo, como um completo idiota, estava quase pendurado na janela, elogiando o horizonte de prédios na vista do décimo terceiro andar. Lorena tentou fazer sinal para o irmão, alertá-lo sobre suas suspeitas. No entanto, os segundos correram velozes, e logo se tornou tarde demais. 

Santiago pigarreou.

— Crianças… — ensaiou — Vocês podem sentar aqui no sofá? Eu queria conversar com vocês um minutinho. 

Ah. Claro. Agora era uma criança. Sua identidade evidentemente era maleável, flexível, moldando-se à necessidade dos adultos conforme era mais conveniente. 

A contragosto, atendeu ao pedido do pai. Leo desabou no lugar a seu lado logo em seguida. 

Santiago permaneceu de pé, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Olhava para todos os cantos da sala, menos para eles. 

— Vocês sabem que são muito importantes pra mim, certo? As coisas mais importantes da minha vida. 

— Claro, pai — assegurou Leonardo.

Lorena não tinha tanta certeza, mas assentiu mesmo assim. 

— Bom, eu… eu amo vocês. Isso não vai mudar nunca, o nosso vínculo é eterno. Mas… como vocês sabem, eu também amei muito, muito a Zenilda, só que neste caso, as coisas mudaram entre a gente. E… quando um sentimento… deixa de existir, outros sentimentos, totalmente novos, podem nascer no lugar. 

Santiago começou a andar de um lado para o outro, como um peru, ou como Donatello quando estava prestes a usar os tapetes higiênicos. 

— Ah, também não sei por que é que eu tô floreando tanto. Vocês já são grandes. Quase adultos!

Aí estava. Agora era mulher novamente. Magicamente, Lorena sentiu-se espichando de novo, suas pernas crescendo tanto que poderia pisotear a cidade. 

— Eu vou arrancar o bandeide, tá bom? Eu tenho uma namorada. Tô namorando! Pronto, falei!

Um silêncio sepulcral, profundo e reticente tomou o cômodo. Leonardo, então, riu. 

— Pô, pai! Era isso? Que susto! Cara, eu achei que…

— Tem mais, Leo — interrompeu Santiago — Ela… eu vou dizer porque acho que vocês vão se lembrar… ela é a mesma mulher que a sua mãe me acusou… injustamente, é claro… de ter um caso. E a gente… tá morando junto. Aqui. Neste apartamento. Agora. 

Infelizmente, Lorena sentiu alguma satisfação ao perceber que, enfim, alguma atitude do pai foi chocante o suficiente para afetar Leonardo. O primogênito da família estava boquiaberto. Os irmãos se entreolharam, igualmente estupefatos, sem vocabulário para reagir. 

— Eu quero que vocês conheçam ela — prosseguiu o pai — porque é alguém muito especial pra mim, assim como vocês são. Eu sei que tudo isso é muito complicado, e a gente não espera que a convivência vire um comercial de Natal logo de cara, mas… quero pedir humildemente que vocês dêem uma chance pra ela, e que todo mundo se respeite, tá bom? Somos todos adultos aqui, Leo é quase um homem, Lolô já é uma moça, e aqui em casa eu quero só harmonia, boas energias e tranquilidade, fechado? 

Dentro de si, Lorena podia ouvir sua própria voz gritando e gritando e gritando, cada vez mais alto, cada vez mais estridente. Mas havia alguma desconexão congênita entre seu cérebro e sua boca. Não foi criada para extravasar seu horror, sua raiva, sua revolta, ao menos não daquela forma. Na antiga casa dos Ferette, ninguém berrava. Todo mundo conversava, explicava, dizia por favor e obrigado. 

Exceto, é claro, pela época em que sua mãe flagrou mensagens suspeitas no celular do marido, e aí ele passou a dormir fora de casa, e aí Zenilda chorava muito diariamente, e aí Santiago jurou que pediria a guarda unilateral dos filhos, e aí Lorena ganhou um Kindle embora ainda não fosse seu aniversário — talvez como compensação por toda aquela gritaria. 

— Crianças? Vocês não querem dizer nada? Ou, sei lá… fazer perguntas?

Lorena quase levantou a mão, como na escola, porque tinha, sim, algumas-várias dúvidas. 

A tal mulher, a tal bruxa, realmente foi amante dele? 

Ele a amava? Mais do que já amou Zenilda?

Se as mensagens não viessem à tona, ele teria abandonado a família por ela?

Ele abandonou a família por ela? 

Ainda eram uma família? 

Teria duas famílias, assim como duas casas?

Tinha duas casas, afinal? 

Tinha alguma casa, afinal? 

— Eu… a gente… tipo… — começou Leo — Quando a gente vai conhecer ela?

Santiago coçou a cabeça.

— Agora, na verdade. Ela… tá aqui. No quarto. Eu… pensei em vocês só se cumprimentarem, coisa e tal. Nada demais. Quer dizer… se vocês quiserem conversar mais, vai ser ótimo. Mas sem nenhuma pressão. 

O pai se voltou para Lorena com muita expectativa. Ela concluiu que deveria dizer algo. Alguma coisa. Qualquer uma. 

— Tá. Tanto faz. Cadê sua namorada? 

— Vou chamar. Aguentem aí. 

Santiago saiu correndo, desembestado, e Lorena revirou os olhos. Era enfurecedor que seu pai estivesse tão nervoso e tão empolgado. 

Era enfurecedor que isso tudo fosse tão importante para ele. 

Pouco depois, pelo mesmo corredor que engoliu o pai, surgiu um casal. Um casal de mãos dadas, que não era seus pais, e nem os pais de ninguém. Um casal que era Santiago, um homem, e uma mulher. 

Uma mulher absurdamente linda.

Lorena ficou brevemente desnorteada, porque nunca tinha visto alguém tão bonita na vida. Precisou de uma fração de segundo para se lembrar que ela era o inimigo, uma pessoa sob suspeição absoluta, que deveria ser conduzida ao banco dos réus e ter sua conduta inspecionada como tal. 

— Meninos, essa é a Arminda — introduziu Santiago, notoriamente orgulhoso. 

Lorena decidiu que não iria julgá-lo pelo orgulho, em particular. 

Arminda parecia uma atriz de novela. Usava um vestido longo, verde, de mangas compridas, que parecia feito de elastano ou algum tecido do gênero. Era uma peça casual, mas alongava sua silhueta e fazia, de alguma forma, com que ela parecesse uma rainha, altiva e imponente. 

Lorena espiou o irmão e percebeu que ele estava tão atônito quanto ela. Isso a desconcertou. Dentro dos limites da estranheza da situação, talvez fosse comum que um moleque ficasse abismado daquela forma com uma deusa. Mas será que era normal ela se abalar tanto? 

As engrenagens de sua cachola trabalharam a todo vapor, e ela encontrou uma justificativa: provavelmente estava nervosa com tamanha beleza porque também queria ser tão deslumbrante assim. Claro. Obviamente era isso. Afinal, era o mesmo que acontecia quando via a Zendaya, ou a Jenna Ortega, ou a Sadie Sink. Nossa, a Sadie Sink. Queria muito ser a Sadie Sink! Todas mulheres que admirava tanto!

Para estabelecer dominância moral, intelectual e física, deu uma cotovelada nas costelas do irmão. Leo reclamou, mas a estratégia deu certo. Ambos voltaram ao eixo.  

— Oi, garoutos! — cumprimentou Arminda, e a saudação millennial soou tão estúpida que automaticamente diminuiu a beleza da namorada de seu pai  — Eu estava super animada pra conhecer vocês! 

A nova madrasta — era bom se acostumar com o termo e a novidade o quanto antes — se aproximou, meio receosa, como se os enteados fossem rosnar para ela a qualquer momento.

— Você deve ser o Leo — supôs ela, apontando para o único garoto da casa, como se houvesse outra possibilidade — E você é a Lolô.

— Ninguém mais me chama de Lolô — corrigiu — Só minha mãe e meu pai que insistem nisso. 

— Claro, claro — concedeu Arminda, complacente — Você já é mocinha, nada mais justo. Com quantos anos você tá, mesmo? 

— Catorze. 

— Ah,  catorze! — e Arminda se virou para o namorado antes de prosseguir — Vamos ter um festão em breve, então?

— Nada — respondeu Santiago, sorrindo — Ela não quer.

— Mesmo? — indagou Arminda — Era o meu sonho quando tinha sua idade!

— Pra mim seria um pesadelo — retrucou Lorena.

Arminda riu. Lorena procurou pela piada, mas não a encontrou em lugar algum. 

— E você, Leo? — prosseguiu a primeira-dama — Tem quantos anos?

— Quase dezessete — disse ele, repetindo a resposta que oferecia a todos.

— Dezesseis, então! — corrigiu Arminda, sustentando um sorriso análogo a um museu de cera — Mesma idade do meu filho!

— Você tem filho? — perguntou Leo, soando mais cortês do que interessado. 

— Sim, o Raul. Ele mora com o pai dele e também vem pra cá de quinze em quinze dias, mas coordenamos os fins de semana pra vocês três não dormirem aqui ao mesmo tempo. Ainda não temos colchões e roupa de cama o bastante pra colocar todos aqui na sala. 

— Como assim? — Lorena ouviu sua própria voz questionando antes mesmo que o pensamento se formasse completamente — A gente vai dormir na sala? 

— Bom, é o jeito, filha — informou Santiago — O apartamento só tem um quarto, que é onde eu e a Arminda dormimos, e como ela precisa ficar por lá quietinha pra fazer home office… 

Pelo amor de Deus. 

Após o divórcio, não haveria dois quartos.

E até existiam duas estantes de livros, mas uma delas parecia patrocinada pelo Café com Deus Pai. 

Lorena não via a hora de jogar na cara das amigas que estavam redondamente enganadas. Precisava descontar sua decepção em algum lugar. 

 


 

Ao fim daquele sábado amaldiçoado, Lorena já estava achando Arminda horrorosa. 

A namorada do pai era uma chata de galochas. Chata de marca maior. 

Para começar, fez várias perguntas inconvenientes:

“Por que você tá de moletom, Lô? Tá até sol lá fora!”

“Sua mamis já te levou no ortopedista? Porque você tá pisando bem tortinho, ó. O seu All Star tá até virado pra dentro”

“Você já pensou em alisar o seu cabelinho? Ia ficar tão lindo…”

“Lô, você já teve o seu primeiro namoradinho? Ha-Ha-Ha, não precisa me responder não, flor, só tô enchendo o saco do seu pai. Olha como ele ficou vermelho!”

Lá pelas oito da noite, a anfitriã decidiu preparar o jantar. Para acompanhar sua aventura culinária, colocou uma playlist de música Gospel para ser reproduzida em uma JBL. 

Neste momento, Lorena estava empoleirada no sofá, tentando ler “O Mundo de Sofia” em seu Kindle. Infelizmente, os cânticos entoando que “os inimigos vão cair” arruinaram sua imersão. Com o volume tão alto, também era inviável estudar para a prova de Química que teria na segunda-feira.

Se os inimigos iriam cair, por que aquela porcaria de caixa de som ainda estava de pé? 

Ao menos, o carbonara servido com empanados de frango da Turma da Mônica e salada de alface estava excelente. Disso não pôde se queixar. 

Mais tarde, quando Arminda foi para o quarto alegando que ainda precisava trabalhar um pouco antes de dormir, e Leo estava no banho, Santiago se aproximou de mansinho e sentou ao lado da filha.

— E aí? — perguntou o pai, ansioso — Você gostou dela? 

Lorena cogitou dizer a verdade: a madrasta era insuportável. Mas por outro lado, que diferença sua opinião sincera faria? 

Então, em vez de sua percepção honesta, o que decidiu responder foi:

— Ela parece te fazer feliz. 

— Sim — e para piorar, Santiago abriu um sorriso largo, imenso, rasgado — Eu sei que ela pode ser um pouco… intensa… mas a espontaneidade da Arminda traz um frescor pra minha vida, sabe? Tudo tem sido um pouco mais leve. E me emociona muito que ela queira tanto se dar bem com você e com seu irmão. 

Lorena pensou que era definitivamente uma escolha tentar se dar bem com uma garota dizendo a ela, nas entrelinhas, “seu pé é torto e seu cabelo é feio”.

— Muito obrigado, filha.

— Pelo quê? 

— Por estar aqui comigo. Com a gente. Eu sei que pode ser meio estranho. 

— É bastante estranho, pai. 

— Um dia vai ser normal, eu prometo. Não sei o que a sua mãe te disse, mas eu não…

— Por favor, não fala na minha mãe. 

— Tá, tá. É justo.

Ficaram em silêncio. Lorena preferia que continuassem assim, mas sabia que isso também era pedir demais. 

— Tem mais uma coisa, Lolô.

Claro que tem. 

— Deixa eu te mostrar aqui um negócio — disse Santiago, pegando o próprio celular e batendo a ponta do dedo indicador na tela algumas vezes — Talvez você já tenha percebido, porque você é esperta, né? Mas a Arminda tem a religião dela. 

— E tinha como não perceber? 

— Olha aqui — e Santiago virou o Samsung para Lorena, mostrando um vídeo de Arminda com um microfone, cantando, até que bem afinada, que a vitória dela tinha sabor de mel — Ela é levita.

— O que que é isso? 

Santiago precisou pensar um pouco.

— Pra ser franco, eu também não sei direito, mas acho que é um cantor. 

— De igreja?

— Isso. De igreja. Ela louva.

— Porque são louvores — concluiu Lorena, pensando alto.

— Isso, isso. Bom. Como você sabe, eu mesmo nunca fui religioso. Eu respeito. Tem que respeitar, isso é o mínimo. Mas aí eu comecei a ir todo domingo pra ver a Arminda cantar… uma coisa foi levando a outra… fui conhecendo o pessoal… o pastor… os diáconos…

— Você virou crente? — perguntou Lorena, tentando chegar logo ao núcleo da questão. 

— Não! Quer dizer… ainda não. Eu não sei, Lolô. Tem muita coisa que eu… você sabe, eu sou muito racional, esse negócio de me jogar, assim, pá-pum, numa fé… é complicado. Tem que estar muito disposto a soltar tudo, entende?

— Não.

— Tem que estar muito disposto a abrir mão do controle, acho que é isso. Enfim, filha, não vem ao caso. Mas eu tô frequentando a igreja. E amanhã é dia de ir.  

— Ah, tudo bem. Pode ir tranquilo. Eu fico aqui estudando. 

— Não, Lolô. Eu gostaria que você fosse junto. 

Lorena abriu a boca, mas não encontrou nada para falar. Esse ciclo se repetiu por mais umas duas ou três vezes até que ela recuperasse a capacidade de costurar sílabas umas nas outras.

— Eu não quero, pai.

— Eu entendo, Lolô. E eu sei que já te pedi muita coisa este fim de semana.

— Todo mundo tem me pedido muita coisa desde que você e a mãe se separaram. 

— Claro, tem isso também. Mas agora eu só estou te pedindo uma coisinha, bem pequena. 

— Vocês sempre disseram que a gente tinha total liberdade pra escolher nossas crenças.

— E vocês têm! Não tô te pedindo pra virar evangélica.

— Que bom, porque eu não vou virar. 

— É só que… — disse Santiago, gesticulando exageradamente como se, assim, pudesse moldar as palavras com as próprias mãos — A minha ideia pra este fim de semana era que vocês, meus filhos, conhecessem um pouquinho mais de como tem sido a minha nova vida. Eu quero compartilhar com você, compartilhar com o Leo. Não precisa ir sempre, mas seria legal se você fosse só desta vez. Poxa, Lolô, você sempre foi tão curiosa, tão aberta…

— Eu sou curiosa, mas igreja é um saco.

— Como você pode saber se nunca foi?

— Eu já fui sim, a Lucélia me levou no grupo de jovens quando tava ficand… conversando com um menino da Assembleia de Deus. 

— Se você foi pela Lucélia, será que também não pode ir pelo seu pai? 

Lorena revirou os olhos. Um aspecto muito complexo de sua relação com o pai era que, para o bem e para o mal, os dois eram muito parecidos. Justamente por isso, ele sabia exatamente os caminhos que precisava tomar para convencê-la de qualquer coisa. 

— Tá bom. Que horas vai ser isso? 

— De manhã.

— Ah, pai… — reclamou Lorena, grunhindo em seguida.

— Calma, também não é tão cedo. Tem uma atividade chamada “Escola Dominical” que é de manhãzinha, a Arminda acorda com as galinhas pra ir, mas eu não costumo frequentar. Podemos ir às dez e meia pro culto.

Todas aquelas palavras eram inacreditáveis. Ainda assim, Lorena concordou. 

 


 

Lorena preparou uma mochila versátil, porque nunca se sabe. Era preciso estar pronta para tudo. 

Acontece que jamais ocorreu a ela que “tudo” poderia incluir, também, uma igreja evangélica. 

Por sorte, não gostava muito de exibir a barriga. Então, pelo menos, suas roupas tinham um comprimento adequado para as melhores práticas da moral e dos bons costumes. No entanto, suas duas únicas opções para o culto matinal eram uma camiseta ilustrada com o boneco Chucky, por quem estava obcecada desde que organizaram uma maratona de filmes de terror na casa de Gerluce há algumas semanas, e outra estampada com uma foto de Olivia Rodrigo exibindo o dedo do meio. 

Após muita meditação, decidiu que o caminho mais sábio era Olivia. Um brinquedo possuído pelo espírito de um serial killer e amplamente conhecido na cultura pop definitivamente tinha um potencial maior para causar problemas. 

Estava quente lá fora. Ainda mais do que no dia anterior, quando sua madrasta encheu a paciência em relação à escolha de uma blusa de manga comprida. Apesar disso, pouco antes de sair, decidiu se enfiar novamente em seu moletom para amenizar a ansiedade com o dress code. 

Leonardo, em uma deslealdade sem precedentes, fingiu que estava com uma dor de barriga súbita causada pelos empanados da Turma da Mônica, ainda que fosse improvável que um produto cuja embalagem contava com uma imagem do Cebolinha fizesse mal a alguém. 

O teatro funcionou, e Santiago deixou Leo estirado em dois colchões de solteiro no chão da sala, com direito a um chá de camomila fresco e uma caixa de água de coco bem gelada. 

Lorena fuzilou o irmão com o olhar. Ele, em resposta, mostrou a língua para ela. Era óbvio que iria passar a manhã jogando videogame e mentindo para meninas indefesas no WhatsApp. 

No carro, ela começou a sentir o peso das consequências de suas escolhas. São Paulo estava um forno, e seu moletom a transformou em um pedaço de carne envolto em papel alumínio. Para ajudar, seu pai insistiu que não precisava ligar o ar-condicionado porque podiam muito bem abrir as janelas. Talvez estivesse morta e aquele fosse o inferno. 

Quando chegaram, Lorena felizmente se distraiu com sua postura analítica diante do mundo. Com isso, quase conseguiu esquecer que sua nuca estava suada. 

A igreja era grande, embora faltasse ao prédio algum charme para ser monumental. A fachada quadrada e simétrica, coberta de painéis de vidro, remetia a um consultório odontológico. Havia uns três pavimentos, e isso era impressionante. Foi difícil supor para que é que um templo precisava de tantas salas e andares. Lorena imaginou que o objetivo era chegar mais perto do céu. 

Assim que entraram, para sua surpresa, seu pai começou a cumprimentar muitas pessoas que o chamavam pelo nome. As saudações consistiam em um aperto de mão seguido da frase “A paz do Senhor”. Como era uma garota bem educada e aprendia rápido, até entrou na dança de trocar o tal toque com alguns dos amigos — se é que o eram — de Santiago, mas não abriu a boca para dizer nada. Tudo tinha limite. Sentiu-se mortificada diante da ideia de articular palavras que soavam estrangeiras até em sua mente, que dirá em sua língua. 

 Ocuparam lugares numa fileira bem à frente do palco — que, mais tarde, Lorena descobriu que se chamava púlpito. Mais tarde ainda, descobriu que isso poderia variar em outras igrejas, pois em algumas delas, púlpito era somente o móvel que ficava em cima do tablado, feito para os pregadores apoiarem suas Bíblias. De qualquer forma, ao que tudo indicava, nenhuma liturgia se referia ao palco como palco, o que pareceu muito estúpido, porque aquilo definitivamente era um palco. 

Homens de terno continuavam cumprimentando Santiago a todo momento. Lorena observou que, quando seu pai a apresentava, não a anunciava como sua filha. Apenas dizia seu nome. 

Depois que isso se repetiu meia dúzia de vezes, ela tomou coragem para perguntar:

— Você tá com vergonha de mim?

— Claro que não! — e, era preciso ser justa, Santiago realmente soou horrorizado diante da possibilidade — Por que isso agora?

— Você não falou pra ninguém que eu sou sua filha. 

— Ah. Pois é. Eu não falei — admitiu ele — É que tem um detalhe.

— Que detalhe? 

Santiago olhou para os lados e falou baixinho:

— O pessoal aqui não sabe que eu sou divorciado.

— Por que não? Tipo, eu sei que crente não pode divorciar, mas você me falou que não é crente.

— É. Por enquanto não sou. 

— E quando você chegou aqui, já tava divorciado. Não tinha como… sei lá, des-divorciar. 

Infelizmente.

— Você tá certa no mérito da questão, Lolô, mas o problema é que a Arminda não pode casar com um cara divorciado. 

— Você vai casar com a Arminda? — Lorena soou mais apavorada do que pretendia. 

— Eu… não… ainda não sei. Sei lá, tá muito cedo. Eu só… — Santiago baixou a voz ainda mais antes de prosseguir — fui morar com ela assim, logo de cara, porque não tinha pra onde ir, entendeu? O advogado falou que eu tinha que deixar o apartamento pra sua mãe, encontrar imóvel em São Paulo é uma droga e aí as coisas foram acontecendo. 

— Mas então você meio que já é casado com ela, não é?

A percepção deixou Lorena um pouco triste.

— De certa forma, filha. É mais… uma união estável. Mas esse é outro ponto. O pessoal aqui não sabe que eu moro com ela. 

— E eu achando que essas pessoas eram suas amigas.

— Elas são! 

— Mas elas não sabem nada de você, pai.

— É que elas não podem saber, Lolô. Aqui não pode morar junto antes do casamento. E, de qualquer forma, se souberem que eu sou divorciado, eu não poderia casar com a Arminda.

— Por que?

— Porque é adultério.

Lorena estava escandalizada. Normalmente não diria mais nada, mas já que estavam tendo uma conversa excepcionalmente transparente diante dos olhos de Deus e de tantos pastores calvos de terno, ela decidiu que era um bom momento para correr um grande risco:

— Então você tá admitindo que traiu minha mãe com ela?

— Lorena! — repreendeu Santiago, com o pescoço vermelho — Não é isso, menina! Não tem nada a ver com traiu ou não traiu. É que se uma pessoa divorciar, ela não pode casar de novo. Se casar, tá cometendo adultério. 

— Mas isso não faz…

— Eu sei, eu sei! — Santiago estava ficando nervoso — É que eles acreditam que o que Deus uniu, o homem não separa. Mesmo que divorcie na lei terrena, na lei do cara lá de cima, você continua casado. Espiritualmente, casamento é pra sempre, irrevogável, a menos que exista um excelente motivo. Todo segundo, ou terceiro, ou milésimo casamento é adultério.

Uau. Lorena ficou admirada. Tinha muitas outras perguntas. Queria saber como é que funcionava essa legislação universal divina, e como isso interferia em outros artigos do Código Civil. No entanto, achou melhor não aborrecer mais o pai com aquele assunto. Até porque desconfiava que ele não tinha muitas respostas. Perguntaria para Gerluce, que era muito sabida sobre as coisas da vida em geral, ou para Lucélia, que passou exatamente seis dias beijando o menino da Assembleia de Deus e descansou no sétimo. 

Ela e Santiago não ousaram trocar um olhar sequer durante uns bons minutos. No entanto, ela ainda tinha mais um questionamento. 

— Pai — chamou Lorena, e pôde jurar que ouviu ele suspirando — Por que tem tanto homem de terno e tanta mulher de salto aqui? Tipo, são dez e meia da manhã. 

— Não sei. Algumas pessoas têm cargos na igreja, então, pra elas até que faz sentido. Mas a maioria não tem. Sei lá. A Arminda vem bem arrumada também. 

— E tem algum problema eu vir de moletom e você vir assim? 

Santiago olhou para o próprio corpo, tentando encontrar algo de errado. Vestia uma camisa polo branca e uma bermuda de tactel cinza. 

— Eu… ah, Lorena, não sei, acho que não. Tem um louvor que fala “vem como estás”. Acho que deve ser algum versículo bíblico. É, deve estar na Bíblia, por que de onde iam tirar essa ideia se não estivesse? Então, é isso aí. Nós viemos como estávamos. 

Ela achou que aquilo fazia muito sentido. “Vem como estás” se parecia bastante com algo que Jesus diria. E se “vem como estás” incluía uma bermuda monstruosa de tactel, com certeza também poderia abarcar uma inofensiva camiseta de Olivia Rodrigo — que, inclusive, era uma mulher com vários dons que só podiam ser concedidos por Deus. 

Perdida em seus devaneios, Lorena não deu a mínima quando um homem baixinho subiu ao púlpito, com um microfone em mãos e uma Bíblia debaixo do braço. Seu pai precisou chamar sua atenção para que ela percebesse que era momento de ficar de pé e orar. 

Este foi um detalhe que logo causou fadiga. Precisavam sentar e levantar e sentar e levantar e sentar e levantar. Já estava com calor o suficiente sem fazer agachamento. Imagine agora que estava envolvida num treino funcional completo. 

Em geral, achou que as pessoas gritavam muito alto, e que também não havia muito respeito enquanto o pastor falava. Ele estava dizendo coisas aparentemente relevantes e os fiéis, em uma baita indelicadeza, o interrompiam para bradar “Glória a Deus” e “Aleluia!”. Mas para ser justa, um ponto muito interessante era que todo mundo orava em um idioma específico, que Lorena nunca tinha ouvido antes. Lembrou de quando Maggye contou que se falava iorubá no terreiro de Candomblé que ela frequentava. Era legal saber que também havia algo assim na igreja. Não viu isso no grupo de jovens do meio-que-quase-ex de Lucélia. 

Eram muitos estímulos, muitas reflexões. Por isso, quando finalmente chegaram aos louvores — que, Lorena supôs, eram a deixa de Arminda — ela já sentia seu rosto viscoso de suor. 

Observou os arredores. O culto por ali era uma grande experiência imersiva. Todos pareciam muito concentrados, alguns quase em transe. Concluiu, com uma confiança repentina, que seria impossível alguém reparar em Olivia Rodrigo mostrando o dedo do meio. Ah, que se dane. 

Justamente quando os músicos começaram a tocar e Arminda, ao microfone, entoou o primeiro verso de uma canção sobre o fogo santo que cairia na igreja, Lorena finalmente tirou o moletom, sem se importar com quem sua roupa ofenderia. Livre e confortável, tentou ajeitar os cabelos desgrenhados. Jogou a franja para trás e sacudiu os fios, na esperança de, ao menos, continuar apresentável. 

Então, ergueu a cabeça na altura do palco ou plataforma ou púlpito ou sabe-se lá o nome. 

E percebeu que havia uma garota olhando fixamente em sua direção.

Não.

Olhando fixamente para ela. 

O estômago de Lorena engoliu a si mesmo, como ouroboros. Seu coração batia mais alto que os instrumentos. Tentou se acalmar, temendo que todos, até mesmo Deus e o Diabo, pudessem ouvir sua pulsação acelerada. 

A garota no palco ou plataforma ou púlpito era a guitarrista da banda. Banda? Eles eram uma banda? Bem, a guitarrista da igreja. Estava com um vestido preto comprido, até os pés. Entre os movimentos da saia, era possível ver que usava botas pretas com cadarços. Seus cabelos eram longos, lisos, vermelhos e impecáveis. O mais perturbador, contudo, eram os olhos — escuros, profundos, infinitos. Acesos como luzes, brilho, estrela, sol. Incandescentes onde Lorena, e apenas Lorena, poderia vislumbrar.

A igreja toda, em coro, cantava um hino pedindo que Deus incendiasse a igreja. O que é que isto queria dizer? Evidentemente não era sobre fogo, de fato. Devia ser uma analogia. Ainda assim, talvez os céus tivessem compreendido a solicitação do coral literalmente, num telefone sem fio. Essa era a única explicação plausível para o calor que se alastrava sob a pele de uma hora para a outra, mesmo sem moletom, mesmo com os ventiladores do templo ligados em potência máxima. 

A ruiva misteriosa alternava sua atenção entre Lorena e seus acordes, Lorena e seus acordes, Lorena e seus acordes, Lorena, Lorena, Lorena. 

Lorena, Lorena, Lorena, por sua vez, estava hipnotizada por ela. 

Outros louvores vieram. Era impossível diferenciá-los. A música flutuava em algum lugar longínquo, fora da órbita, numa dimensão incapaz de atingir a alma das duas meninas que se assistiam com tanta curiosidade e interrogações no fundo dos olhos. 

A apresentação dos levitas terminou rápido demais. Num estalar de dedos, finalizaram o repertório e devolveram a palavra ao pastor, que anunciou a coleta das ofertas e dízimos. 

A guitarrista seguiu Arminda e os outros instrumentistas por uma escada na lateral do palco ou plataforma ou púlpito. Lorena ficou imediatamente taquicárdica. A ruiva ia descer? Acompanharia sua madrasta? Sentariam lado a lado? Iriam conversar? 

Não sabia por que estava tão afetada. Era um pouco tímida, é bem verdade, e sempre ficava tensa quando se via prestes a conhecer pessoas novas. Foi assim quando fez amizade com Lucélia, no sétimo ano, e com Gerluce, no sexto, e até mesmo com Maggye, no Pré II. 

Mas o que sentia naquele momento parecia diferente. Muito diferente. 

Tinha um iceberg no estômago e um pássaro no peito — algo inquieto e imparável que abria as asas e ocupava muito espaço. Em contrapartida, também cantava e era lindo.

Para seu alívio e decepção, tudo ao mesmo tempo, Arminda sentou ao lado de Santiago. A guitarrista, contudo, não estava com ela. 

Discretamente, Lorena olhou para trás, para frente, para ambos os lados. Ficou na ponta dos pés e espiou a multidão por cima dos ombros. Não a viu. Como se fosse miragem, a garota não estava em lugar nenhum que não na esperança de um reencontro. 

Sem localizar a menina, e também sem compreender por que localizá-la era tão crucial, Lorena ficou emburrada. Até tentou prestar atenção na pregação, mas o tema era Noé, e ela já estava careca de saber a tal história do dilúvio. Inclusive, queria perguntar ao pastor como foi que conseguiram convencer os leões a não devorarem todos os outros bichos da arca, e também se embarcaram casais de mais de uma raça de cachorro, só que para sua decepção, não houve um momento reservado para dúvidas ao final do sermão. Bom, provavelmente ficaria com vergonha de levantar a mão e endereçar suas questões diante de toda aquela gente de qualquer forma. 

Ao final do culto, foi espantoso observar que as pessoas se saudaram com apertos de mão novamente, e também distribuíram alguns abraços. Por que gostavam tanto de se encostar? Talvez fosse algo bíblico. Será que era um dos dez mandamentos? Havia tanto sobre o cristianismo que não sabia!

Respeitando a cultura local, assim como na chegada, saiu cumprimentando todos que se aproximavam para conversar com o pai e a madrasta. Não podia ser reconhecida como filha de Santiago, mas ao menos levaria a fama de ser uma agregada bem educada. 

Apertou a mão de uns mil idosos à sua esquerda, de uns dez mil à direita, e quando caiu em si, tomou um susto. 

A ruiva-miragem estava em sua frente. 

Além de tudo, a guitarrista tinha um sorriso perfeito. Também era cheirosa — usava um perfume doce, mas agradável, que se parecia com pêssego e baunilha. 

— Gostei da camiseta — observou a menina, que, agora era possível reparar, devia ser uns cinco centímetros mais baixa do que Lorena — A paz do Senhor.

A ruivinha estendeu a mão. Era dona de dedos compridos e unhas curtas. 

Lorena hesitou, ainda que sem um bom motivo lógico. Sentia, em seu íntimo, que qualquer toque entre elas poderia queimar ou morder. 

Lembrou que Gerluce costumava alertá-la quando estava sendo esquisita demais — e definitivamente estava sendo esquisita demais, encarando a garota sorridente sem dizer nada. Ouviu a voz da amiga no fundo da mente, recitando seu bordão habitual para aquele tipo de ocasião: “Já deu, Donnie Darko”.

Retomou as rédeas de sua sanidade. Segurou a mão da ruiva, concentrada demais na sensação de pele macia contra sua; dos polegares que pressionaram a superfície com mais força que o necessário. 

Não se largaram quando deveriam. O contato se estendeu o suficiente para ruborizar as maçãs do rosto de Lorena, e logo em seguida se desfez. 

— Você também gosta da Olivia? — Lorena, como uma completa imbecil, encontrou vigor para perguntar. 

— Claro. Ela é incrível, super talentosa. E muito bonita também. 

Antes que Lorena pudesse continuar a conversa, sentiu alguém agarrando-a pelos ombros, num gesto ambíguo que poderia ser interpretado como afetuoso ou agressivo, e ambas as hipóteses estariam corretas. 

— Ah! Então vocês já se encontraram! Que bom, eu queria mesmo fazer essa ponte — disse Arminda, eufórica — Dudinha, essa é a Lolô, uma pessoa muito especial pra mim. 

Lorena não soube o que processar primeiro: a revelação do nome da guitarrista, a revelação de seu apelido ou a revelação de que Arminda era mentirosa compulsiva. Se conheciam há menos de vinte e quatro horas. Como poderia ser especial para aquela ridícula?

— Na verdade, meu nome é Lorena — corrigiu, optando pela redução de danos. 

— É um nome lindo — opinou Dudinha, provocando uma nova onda de enrubescimento — Prazer. Pode me chamar de Eduarda. 

Lorena sorriu. Queria agradecer e dizer que o nome dela também era lindo e que ela era lind-

— A Dudinha é a caçula do nosso ministério de louvor — informou Arminda, orgulhosa — Quase minha filha do coração. 

Não sabia o que era um “ministério de louvor”, mas pareceu importante. Sentiu-se insegura, de repente. Inadequada, até. 

Mas talvez Eduarda não pensasse assim, visto que continuava ali, perto demais, com um sorriso simpático e escancarado. 

Arminda continuou falando e falando e falando. As meninas se entreolharam com um ar conspiratório. Lorena ponderou se Dudinha também achava que a namorada de Santiago era um pé no saco. 

— Irmã Arminda — interrompeu Eduarda — O papo tá ótimo, mas eu preciso encontrar meus pais. Adorei te conhecer, Lorena!

Lorena desejou elaborar alguma réplica sagaz e inesquecível, talvez até uma frase de efeito, como nos filmes. No entanto, tudo o que conseguiu foi encolher os ombros e acenar, como uma criança se despedindo de uma amiga no parquinho. 

Assim como apareceu repentinamente, Eduarda se foi, deixando para trás o rastro do perfume e uma sensação estranha, como se passado, presente e futuro estivessem todos sobrepostos por um segundo ou dois. 

 


 

Arminda era muito popular na congregação. Como uma vereadora, parou para conversar e rir com todos os grupos de pessoas que encontraram no caminho até a saída. Não à toa, levaram quase quarenta minutos para finalmente enxergar a luz do sol.

O estômago de Lorena roncou alto. Sustentada apenas pelo café da manhã e pela inexplicável adrenalina após conhecer Eduarda, ela já estava ficando irritada. 

Antes de entrarem no carro, Arminda sacou o celular e anunciou que tirariam fotos em família. A sessão de selfies foi excruciante. Lorena saiu carrancuda em todos os registros, e fez questão de cobrir metade do rosto com a mão direita em alguns deles.  

— Ai, nós somos tão lindos! — opinou Arminda, em êxtase, enquanto avaliava a qualidade das imagens em seu telefone — Lolô, você está tão…

A madrasta arregalou os olhos. Usou o polegar e o indicador, como pinça, para ampliar a tela. 

Encarou a imagem no visor. Depois, a camiseta de Lorena. 

Visor-camiseta-visor-camiseta-visor-camiseta. 

Lorena até ficou apreensiva, mas sua raiva por estar morrendo de fome obliterou qualquer outra emoção. Sustentou o olhar de Arminda com uma postura tão desafiadora que Olivia Rodrigo e seu dedo do meio pareceram uma mensagem proposital. 

Esperou que Arminda dissesse algo — uma bronca ou uma crítica, principalmente. 

Em vez disso, a namorada de Santiago respirou fundo e reconstruiu sua expressão alegre habitual. 

— Vamos embora, amor? — convidou, polida, olhando diretamente para o companheiro — A gente podia levar o Leo e a Lô naquele buffet livre coreano, né?

— No Bom Retiro? — perguntou Santiago, já com a chave do SUV em mãos. 

— Isso! — confirmou Arminda, aplaudindo com as pontas dos dedos e uma empolgação um tanto infantil. 

 


 

O domingo atípico de Lorena — composto por uma série de atividades familiares com seu pai, seu irmão e uma mulher semidesconhecida que não era sua mãe — foi o prenúncio de uma semana atípica. 

Como o esperado, Zenilda a encheu de perguntas assim que os filhos colocaram o pé em casa, por volta das quatro da tarde. Leo, escorregadio e sábio, alegou que não tinha tempo para conversar porque iria jogar basquete com Paulinho. Sobrou para Lorena, é claro, comunicar que Santiago estava namorando. 

Após receber a notícia, a mãe a metralhou com uma série de questionamentos que ela não sabia responder. 

— Seu pai parece apaixonado?

— Que nojo, mãe. Acho que sim. Não sei. 

— Ele confessou que os dois eram amantes? 

— Lógico que não. 

— Ela te tratou bem?

— Eu… não tenho certeza. Tipo, sim. Ela não me tratou mal. Mas tinha alguma cois…

— Você gosta dela?

— Acho que não.

— Como “acho”, Lorena? Ou gosta, ou não gosta.

— Então não gosto. 

— E o seu irmão?

— O que que tem?

— Ele gosta dela?

— O Leonardo é puxa-saco, você sabe…

— Safado!

— Você tá xingando o Leo, mãe?

— Não, Lorena. Tô xingando o seu pai. Aquele sem-vergonha…

Depois do interrogatório, Zenilda beijou a cabeça da filha e agradeceu pela sororidade.

Lorena tentou levar os dias subsequentes com normalidade, mas logo percebeu que estava muito aborrecida. Sabia que separações faziam parte da vida e eram um processo natural. Na verdade, quase todos os seus colegas de turma conviviam com um dos pais somente em fins de semana alternados, assim como ela. 

Saber, no entanto, não foi o suficiente para aplacar sua melancolia. Se sua mãe estivesse certa, seu pai mentiu para a família inteira por meses a fio. Era tudo invenção — as viagens de negócios, as noites trabalhando até tarde, os sábados e domingos em que não pôde estar com eles porque havia alguma “demanda urgente” no “escritório”. 

E agora, ela precisaria coexistir no mesmo universo que Arminda. 

Embora sua madrasta fosse inconveniente e sem noção, precisava admitir que notou um esforço para que ela e Leo ficassem à vontade. Ao mesmo tempo, não podia se dar ao luxo de sequer simpatizar com uma mulher que fez sua mãe sofrer tanto. 

Tudo aquilo era demais, e para ajudar, a escola não dava trégua. Em pleno final de bimestre, estavam abarrotados de provas, trabalhos e atividades. 

Seu único alívio em meio a tanto estresse era, curiosamente, lembrar de Eduarda. 

Volta e meia, seus pensamentos engatinhavam até o instante em que colocaram os olhos uma na outra. Criou a rotina de dissecar a memória como uma tentativa de fixá-la. Se guardasse todos os detalhes em uma caixinha especial no canto do cérebro, talvez não esquecesse nunca. 

Um buraco negro se abria em seu abdômen sempre que recordava as íris escuras, feito praia à noite, convidando a mergulhar. Seu coração disparava, e ela ria, ria, ria, ria, sozinha e boba. 

Não contou nada para as amigas. Tinha certeza de que levantariam muitos questionamentos que ela mesma não saberia responder. Decidiu não pensar no assunto, apenas vivê-lo. Seria seu pequeno e precioso segredo. 

No sábado, quando se reuniram na casa de Lorena para fazer um trabalho em grupo, nenhuma das meninas sequer imaginava que Eduarda existia, nem que os breves momentos que Lorena e ela haviam compartilhado na igreja devoravam toda a capacidade intelectual da anfitriã.

— Donnie Darko — chamou Gerluce — Você acha mesmo que isso aí tá parecendo uma mitocôndria?

Lorena olhou para o pedaço de massinha laranja que manuseava há vários minutos. Se fosse sincera, diria que não parecia com coisa nenhuma. Talvez com um hamster atropelado por um caminhão. 

O projeto que precisavam entregar na terça-feira era a maquete de uma célula. Em uma bola de isopor cortada ao meio, deveriam reproduzir todas as estruturas internas, incluindo o núcleo, citoplasma (com líquido!) e retículo endoplasmático.

E as mitocôndrias, evidentemente. 

— Deixa ela, Gerluce. Vamos fazer qualquer coisa e terminar isso logo, aí podemos tomar gelato — sugeriu Maggye, recostada na cabeceira da cama de Lorena enquanto tentava transformar uma cobra de massinha roxa no Complexo de Golgi. 

— Se eu ficar tirando nota baixa, perco minha bolsa — lembrou Gerluce, com as mãos na cintura.

— A gente vai com você pra escola pública — assegurou Lucélia.

Alguém escancarou a porta do quarto sem bater. As quatro meninas pularam em seus lugares e deram gritinhos agudos. 

Leonardo enfiou aquela cabeça imensa dentro do cômodo e gargalhou ao perceber que assustou as convidadas da irmã. 

— O que você quer aqui, idiota? — perguntou Lorena, empoderada pela presença de suas escudeiras. 

— Idiota é você. E eu quero o controle da garagem que era do pai. Tá com você, né?

Sim, estava com ela. Depois que Santiago foi embora, Lorena guardou em uma caixa de papel cartão, onde ficavam seus itens mais importantes do mundo. 

— Pra quê? — perguntou a caçula, desconfiada. 

— O portão de pedestre tá com problema. A gente vai ter que sair pela garagem. 

Para ilustrar a quem “a gente” se referia, Paulinho, o melhor amigo de Leo, surgiu sobre o ombro dele como um papagaio. 

— Ooooi, Paulinho! — cantarolaram imediatamente Maggye e Lucélia. 

A reação das amigas levou Lorena a revirar os olhos. 

— Oi, Gerluce — cumprimentou Paulinho, como se não houvesse mais ninguém no ambiente. 

Gerluce, àquela altura, estava mexendo no celular. Nem se dignou a erguer os olhos do Instagram para murmurar um “oi” distraído. 

— Pede o controle da mãe — sugeriu Lorena.

— Ela saiu rapidão — informou Leo — Disse que ia dar um pulo no mercado e já voltava.

— Então espera ela voltar. 

— Mas a gente precisa sair agora, Lorena!

— Ei, isso aí é a maquete da célula? — perguntou Paulinho, olhando diretamente para Gerluce — A gente também teve que fazer no primeiro ano. Vocês têm aula com a Rúbia?

— Não, com a Mara — respondeu Gerluce, fazendo questão de dar play em um Reels num volume muito alto e sinalizar que aquele diálogo não significava nada para ela.

Lorena, alheia à conversa, se ajoelhou e tateou o chão, em busca de sua caixa debaixo da cama. Quando a alcançou, precisou de alguns segundos revirando sua bagagem sentimental para encontrar o controle.

— A gente também tá com a Mara no Terceirão — informou Paulinho — Inclusive, Biologia é minha melhor matéria, sabia? Se um dia você precisar de alguma ajuda…

— Não, muito obrigada, Paulo — esnobou Gerluce.

— Eu preciso! — gritou Lucélia, levantando a mão direita.

— Tá aqui — disse Lorena, entregando o controle azul ao irmão — Por favor, cuida direito.

— Claro que eu vou cuidar, garota. Acha que eu vou fazer o que? Enfiar na bunda?

— Não sei. Cada um com suas fantasias. 

— Tchau, Gerluce — despediu-se Paulinho. Sua interlocutora não respondeu. 

O quarteto de meninas permaneceu imóvel e calado em seus respectivos lugares enquanto os garotos se afastavam, barulhentos. Ouviram a porta da frente bater e o som da fechadura trancando a casa. 

E então, todas começaram a falar ao mesmo tempo.

— Meu irmão é insuportável demais, puta merda — reclamou Lorena.

— Gerluce, com todo respeito, você é maluca? — indagou Lucélia.

— Ô, amiga… por que você ainda trata o coitado do Paulinho assim? — perguntou Maggye.

— Gente, gente… — começou Gerluce, atirando o próprio celular no colchão — Eu sei que vocês acham ele bonito, mas não é pra tanto.

— É sim! — discordou Lucélia.

— Eu tenho vários conversantes mais bonitos — afirmou Gerluce. 

Lorena acreditava nela. 

Gerluce foi a primeira delas a usar sutiãs de verdade e apresentar uma cintura com curvas, que não parecia uma tábua de passar roupas. Naturalmente, era quem recebia mais atenção dos meninos e uma chuva de solicitações de seguidores nas redes sociais. 

Isso não incomodava Lorena. Pelo contrário. Era um alívio que houvesse alguém para monopolizar o foco masculino — e gostar disso — quando chegavam todas juntas a algum lugar. 

— O seu conversante mais bonito mora em Brasília — refutou Lucélia.

— O que mora mais perto tá em Ribeirão Preto — complementou Maggye.

— Magnólia, os seus pais se conheceram no Bate-Papo UOL. Você devia ser a primeira a apoiar um amor virtual — retrucou Gerluce — Além do mais, também tem o bonitinho que é Menor Aprendiz junto comigo na UBS…

— O Júnior? — perguntou Maggye, alarmada. 

— O quê? Claro que não — e Gerluce coroou a negativa com uma careta indignada — Eu tenho ódio do Júnior. 

— Por que, amiga? — questionou Maggye — Ele parece tão bonzinho.

— Ele é bonzinho, Mags. Educado, querido, cuida do pai idoso, leva pão caseiro pro lanche coletivo dos funcionários, tudo de bom. Só que é chato trabalhando, como, aliás, quase todo mundo naquele lugar. Veja bem, o nosso trabalho é só separar e guardar os prontuários, tá? Não tem mistério, um Lulu da Pomerânia seria capaz. Não preciso que ninguém me ensine. Aí na quinta-feira agora… 

Lorena puxou o próprio celular da mesinha de cabeceira. Havia duas novas notificações do Instagram.

armindinhaa_dantas começou a seguir você.

armindinhaa_dantas marcou você em uma publicação.

Com um calafrio, Lorena foi investigar.

A postagem era uma das selfies que tiraram na frente da igreja no domingo anterior. Arminda claramente editou a fotografia em alguma Inteligência Artificial. O rosto dela estava um pouco mais fino e as linhas de expressão foram suavizadas. A IA também distorceu alguns traços, de forma que sua madrasta parecia outra pessoa. Santiago, por sua vez, foi rejuvenescido e poderia passar por um homem de uns vinte e cinco anos.  

O registro de Lorena, por sua vez, não passou por muitos retoques. Encarou como um elogio. O ajuste mais notório — e surpreendente — foi em sua camiseta. Olivia Rodrigo e o dedo do meio foram completamente apagados. No lugar deles, havia uma frase em Comic Sans:

"Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, pois o reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas".

A legenda era estruturalmente objetiva, mas factualmente exagerada: “Manhã perfeita na PRESENÇA DO SENHOR com pessoas que amo mtooooo”. Em seguida, uma fileira de corações com todas as cores disponibilizadas pelos teclados da Apple. 

Lorena ficou atormentada e muito constrangida. Abraçou o celular contra o peito na tentativa de esconder a tela, como se as amigas pudessem enxergar aquela publicação monstruosa mesmo à distância. 

— Mas por que você mencionou o Júnior, bicha? — indagou Gerluce, cutucando Maggye — Tá interessada? 

— …Talvez. 

— Aaaah, safada! — berrou Gerluce, esfregando as mãos — Segue ele no Insta, boba!

— Será, amiga? A gente nem se conhece. Só vi ele naquele dia lá…

— E daí, mulher?

— Eu sigo todo mundo que eu ficaria, mesmo que não conheça — comentou Lucélia — Por isso que eu sigo 5.349 contas. 

— Ele é gostoso, eu aprovo — ratificou Gerluce.

— Você acha? Porque acabou de dizer que tem ódio dele — disse Maggye.

— Eu tenho, mas independente, irmã. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. 

A tela do celular de Lorena se iluminou. Ela imediatamente foi verificar do que se tratava, torcendo para que não fosse outra foto de Arminda. 

adudafragoso e outras pessoas curtiram uma foto em que você foi marcado. 

adudafragoso começou a seguir você. 

Lorena não queria criar expectativas, mas seu coração saiu na frente: correu desembestado. Havia apenas uma Duda, Dudinha, que poderia se interessar em segui-la a partir da publicação escabrosa de Arminda.

Abriu o perfil imediatamente e precisou se controlar para não soltar fogos de artifício pelos olhos. Era Eduarda! 

Quer dizer, só podia ser Eduarda. Era meio impossível ter certeza. 

A foto de perfil era de uma garota com a metade do rosto coberta pelo cabelo vermelho. Sua bio consistia em um único emoji de guitarra. No feed, existia apenas um post: uma ruiva de costas, com calça jeans, coturnos e jaqueta de couro, em um mirante no Rio de Janeiro, de frente para o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara. 

A legenda aparentava ser uma música. Lorena não conhecia. Tirou um print para descobrir o título:

“Why am I not wherever you are?

There is no distance that wouldn't be too far

Even on opposite sides of the room

I am orbiting you

So come out, come out, wherever you are.”

Precisou de dez segundos no Google para desvendar que a intérprete era Lucy Dacus. 

— Crente pode ouvir música? — perguntou Lorena — Tipo, música normal? Não que Gospel não seja normal, mas… ah, vocês entenderam. Pode? 

As amigas interromperam a conversa em que estavam engajadas e a encararam como se fosse um extraterrestre. 

— De onde veio isso? — perguntou Maggye, prendendo o riso. 

— Foi só uma dúvida que me ocorreu!

— Do nada, Donnie Darko?

— Pode sim — informou Lucélia, solícita — Tipo, se você for de church moderninha, com parede preta. Em igrejas mais tradicionais, acho que é proibido.

— A Kellen, minha amiga evange, escuta pagode e é fã de Anavitória, e a igreja dela não é nada moderna — compartilhou Gerluce — Mas por que?

— Por nada. Só tô refletindo.

— Tá pensando virar crente, Lorena Ferette? — questionou Gerluce, jogando um pote de massinha para ela — Porque a hora é boa. A gente vai precisar de um milagre pra terminar a maquete. 

— Não tô não — respondeu Lorena, mas o bonde do assunto já tinha seguido em frente. 

 


 

À noite, Lorena e Zenilda sentaram juntas para assistir “Law & Order” (a série original, é claro, porque “as crianças” não eram autorizadas a assistir “Special Victims Unit”).

O que significava que Zenilda estava dormindo e babando no encosto do sofá, enquanto Lorena perambulava pelas redes sociais e comia pipoca com lemon pepper. 

Mantinha-se muito concentrada, tentando encontrar o volume ideal para ver vídeos verticais de Olivia Rodrigo sem acordar a mãe, quando uma notificação deletou todos os pensamentos e sinapses ativos na mente de Lorena. 

Eduarda mandou uma mensagem.

Eduarda mandou uma mensagem. 

Eduarda mandou uma mensagem.

Lorena ajeitou o cabelo, como se pudesse ser vista do outro lado da tela, e abriu o chat. 

 

oi Lorena

não sei se você lembra de mim 

do culto

você vai na igreja amanhã? 

 

Como se fosse possível esquecer! Lorena prendeu a respiração e digitou sua resposta:

 

Oii

Tudo bem?

Lembro sim

Lógicoo que lembro

Amanhã não vou 

 

Estava prestes a jogar o iPhone longe e, para se distrair, reconduzir sua atenção à tela da TV, onde poderia apreciar Angie Harmon — outra mulher que admirava muito e definitivamente queria ser — quando Eduarda começou a escrever.

Mais uma vez, coração esmurrando as orelhas. Sua nova… amiga… estava online! Disponível! Digitando! Sentiu vontade de correr em círculos e gritar.

 

ahhh

não acredito :(

que pena

quando você vai de novo?

 

Aquela era uma dúvida engraçada. 

Porque visitar a igreja de Arminda novamente nunca esteve nos planos de Lorena.

 

Eu só vou a cada duas semanas

 

que específico hahahaha

posso perguntar o motivo?

 

Lorena já estava em vias de compartilhar a verdade — o juiz determinou que Santiago recebesse visitas dos filhos a cada quinze dias, visando o melhor interesse deles, sobretudo de Leonardo, que encheu a paciência dizendo que precisava também de fins de semana “normais” em casa para “fazer as coisas dele” — mas percebeu que não podia. Ainda não conhecia Eduarda direito. E se ela contasse para alguém que seu pai era divorciado?

O ressentimento que acumulou desde o último domingo — e, na realidade, desde que sua família virou de pernas para o ar — borbulhou debaixo da pele. Era muito injusto que precisasse limpar a bagunça dos mais velhos o tempo todo. 

 

Eu visito a Arminda a cada duas semanas

Fui na igreja por causa dela haha

 

entendi

ia te convidar pra sentar comigo amanhã

depois do louvor

eu sempre fico na primeira fileira com meus pais

no cantinho, bem perto da parede

do lado da sala dos Juniores 

 

Lorena não fazia a mínima ideia do que eram Juniores, muito menos de onde ficava a sala deles, mas o fato era que nunca escreveu uma resposta com tanta agilidade em toda sua vida.

 

Eu posso sentar com você na semana que vem

Se você quiser, né

 

EU QUERO

opa

perdão

não era pra ter ido em caps

no CAPS talvez

mas em caps lock não

hahaha

desculpa

piada idiota

eu não sou assim 

na verdade sou

enfim

desculpa

vou dormir

 

Não foi idiota

Foi bem engraçada

Eu ri

HAHAHAHA

Viu?

Boa noite!

 

Antes de dormir, Lorena releu as mensagens até decorá-las e riu como se fosse a primeira vez. Desconfiou, no entanto, que a graça não tinha nada a ver com a piada. 

 


 

Lorena fazia um esforço deliberado para não se tornar uma pessoa viciada na dopamina rápida das telas, como seus pais evidentemente eram. Santiago e Zenilda já amanheciam enfiados no Facebook, perguntando se o vídeo de um filhote de pantera sendo adotado por um dálmata era real ou IA. 

Geralmente, fazia seu skincare matinal, tomava café com calma e, quando não tinha aula, tentava ler algumas páginas em seu Kindle antes de conferir as atualizações da vida em seu WhatsApp.

Aquele domingo foi excepcional. 

Assim que abriu os olhos para o teto de gesso, seu primeiro pensamento foi Eduarda. Eduarda e sua guitarra; Eduarda e seus olhos noturnos; Eduarda e seu perfume; Eduarda e sua pele; Eduarda e seu senso de humor; Eduarda Eduarda Eduarda e, não obstante, Eduarda. 

Tateou o colchão em busca do celular, que ainda estava conectado ao carregador. Nunca tinha experimentado nenhuma ansiedade parecida. Como as pessoas que acreditavam na Lei da Atração (Gerluce e Maggye inclusas), visualizou um futuro próximo em que descobriria incontáveis mensagens de Eduarda e torceu para que fosse uma premonição.

Respirou fundo e fechou os olhos. Sentia-se prestes a soprar as velas de um bolo de aniversário. “Faça um pedido, Lorena”. E ela o fez. 

Talvez Maggye e Gerluce estivessem corretas ao acreditar em todos os vídeos de magos e tarólogas sobre manifestação. 

Havia uma mensagem de Eduarda! Na verdade, mais de uma!

A primeira delas era um link do Spotify, seguida de várias outras. 

 

bom diaa

tava ouvindo essa banda que eu gosto muito

pensei que você pudesse gostar também

as meninas da banda também são letristas

que nem a olivia rodrigo

 

Lorena acessou o link, esperando algum dos louvores que Eduarda tocou na igreja na semana anterior. Para sua surpresa, a música era de um grupo que ela até já tinha ouvido falar, chamado boygenius. A faixa era “Leonard Cohen”.

Ela saltou da cama na velocidade da luz para buscar os Airpods e os enfiou nos ouvidos com tanta força que, por um instante, pensou ter lesionado os tímpanos. Voltou para as cobertas e, abraçada aos joelhos, escutou a música atentamente, acompanhando a letra no Genius. 

A duração era curtinha demais para seu gosto. Não estava habituada com aquele tipo de estrutura. Onde estava a ponte? O que era o refrão? Nunca tinha ouvido algo assim antes. 

Pesquisou as integrantes da banda e descobriu que Lucy Dacus, a cantora da legenda de Eduarda, estava entre elas. Colou um post-it mental para se aprofundar na discografia dela outra hora. 

Lorena colocou a música no repeat. Achou a letra muito bonita e também um pouco engraçada, mas havia algo em seu espírito que desejou perseguir incessantemente e engolir o último verso: “I never thought you'd happen to me”. Queria ser dona de um disco de vinil arranhado, apenas para repetir aquela única frase de novo e de novo e de novo até o fim dos tempos. 

 

Tô ouvindo

Eu gostei muito

Muito mesmo

É linda

E viciante!

Confesso que eu pensei que você fosse me mandar uma música gospel

HAHAHAHAHA

 

Assim como na noite anterior, Eduarda respondeu quase instantaneamente. 

 

eu pensei em te mandar uma banda cristã que eu gosto

mas não sabia se você gostava

achei boygenius mais certeiro 

mas se você quiser ouvir

chama gable price and friends

é um alt rock cristão contemporâneo

 

Lorena encarou a conversa por alguns instantes como se Eduarda estivesse falando grego. 

 

Vou procurar depois

 

se ouvir me conta o que achou

preciso ir aqui

já to na igreja

vamos passar o som antes do culto

ei

vem na escola dominical um dia

pra conhecer

é bem interessante

hoje eu dei uma palavra

li Eclesiastes 3:1-13

 

Claro

Vamos marcar

 

Eduarda não respondeu mais, e Lorena presumiu que ela já devia estar ocupada testando sua guitarra, com amplificadores e pedais. 

Imaginar a cena causou um nervosismo inexplicável. 

Assim como na noite anterior, releu todas as mensagens que trocaram — mas desta vez, com a música indicada por Eduarda se repetindo infinitamente, ecoando dentro dela. 

Examinou a menção a Eclesiastes 3:1-13. Ficou pensativa.

Não era uma ignorante. Sabia que aquilo era um versículo bíblico. Podia procurar no Google e, supunha, acharia facilmente a que se referia. Pensou em fazer isso, mas desistiu. A ideia pareceu um pouco estranha e desconfortável, embora ela não entendesse direito o motivo. 

Tinham muitas coisas ininteligíveis acontecendo naqueles últimos dias. 

Lorena sempre foi uma leitora ávida, mas nunca se interessou pela Bíblia, tampouco leu algo além dos trechos mais populares que as pessoas compartilhavam em status do WhatsApp e panos de prato comercializados na Avenida Paulista. Percebeu que não saberia nem como encontrar Eclesiastes por conta própria num exemplar físico do livro mais vendido do mundo. Era curioso como as pessoas levavam todo tipo de vida e conheciam ou desconheciam todo tipo de coisa.

Ficou deitada por mais uns quinze minutos, vigiando sua conversa com Eduarda. Como não recebeu mais nenhuma notificação interessante, decidiu interromper sua música e ir à caça de algo para comer. 

 


 

— Mãe — chamou Lorena, sentada à bancada americana que separava a sala e a cozinha de sua casa — Por que a gente não tem religião? 

Zenilda estava ocupada preparando ovos mexidos com queijo branco e não conseguiu olhar para a filha enquanto respondia.

— Ah… eu e seu pai somos católicos. 

Lorena pensou em revelar que Santiago agora frequentava uma igreja evangélica com sua nova namorada, mas não achou de bom tom. Em vez disso, continuou tirando suas dúvidas.

— Mas como vocês são católicos se a gente nunca foi numa missa?

— Essas coisas são assim mesmo, Lolô. Mas eu e seu pai somos crismados e casamos na igreja. 

— Você ia na missa quando tinha minha idade?

— Sim. Sua avó me obrigava. Seu pai também era obrigado. Por isso, combinamos que jamais iríamos interferir nas escolhas da vida espiritual de vocês. 

— É que… — Lorena pensou por um instante, tentando elaborar seu ponto — Eu sinto que todo mundo cresceu com uma religião. A Maggye sempre foi no terreiro e a Gerluce é católica, tipo, de verdade.

— Praticante — corrigiu Zenilda, gentilmente — A Lucélia também tem religião?

— A avó dela manda dinheiro pro Inri Cristo. Não sei se isso conta — respondeu Lorena — A questão é que… eu sinto que tem tanta coisa sobre isso que eu não sei. É estranho que eu não saiba? 

— Claro que não. Todos nós temos vivências diferentes, e fé é algo muito particular. Além do mais, é difícil conhecer todas as tradições. Existem milhares de religiões e culturas religiosas no mundo, sabe? É importante estarmos abertos ao novo, ao diverso. E pra nossa sorte, sempre vai ter algo por aí pra nos surpreender. 

— E como a gente sabe quem tá certo e quem tá errado? 

— A gente não sabe — disse Zenilda, dividindo os ovos mexidos em dois pratos brancos de cerâmica — Talvez todo mundo esteja um pouquinho certo e um pouquinho errado. É puramente intuitivo. A gente precisa estar onde se sente bem, no lugar que combina mais com a nossa visão de mundo. E isso pode acontecer em vários templos religiosos e também em nenhum. 

Lorena queria responder, articular, prosseguir, mas não conseguia escolher uma entre tantas incógnitas que rondavam seus pensamentos. 

— Eu, por exemplo — seguiu Zenilda, colocando um dos pratos fumegantes diante da filha e tomando outro para si — Me considero católica, mas como você muito bem pontuou, não vou na igreja há uns… vinte anos, talvez? Em contrapartida, ao longo desse período, já fui na Umbanda como consulente algumas vezes e tomei passe no centro espírita. Não perco a chance de jogar búzios ou de ir numa boa cartomante. Simpatizo muito com vários ensinamentos budistas. A fé é uma teia, Lolô, e nós vamos tecendo de acordo com o que nos toca e nos move.  

— E você acredita em Deus? Tipo, 100%? Sem dúvida?

— Sim. E você?

— Eu?

— É.

Lorena ficou abismada. Não achou que um adulto estaria interessado na opinião dela sobre o assunto. 

Opinião que, inclusive, ela não tinha. Cresceu ouvindo falar de Deus por aí, óbvio, assim como ouviu falar do Triângulo das Bermudas e de areia movediça. Todos esses tópicos foram preocupações em algum ponto de sua infância, de certa forma, mas eram tão distantes de sua rotina material e objetiva que se tornaram abstratos. 

— Eu… não sei, mãe.

— E tudo bem. Pode ser que um dia você enxergue a sua definição de Deus em alguma experiência. E pode ser que não. Em todo caso, o importante é construir uma vida que faça sentido pra você, e somente pra você. É assim que a gente encontra a porção de felicidade que é possível pra nós. 

 


 

A semana se arrastou feito cobra: vagarosa e peçonhenta. 

A maquete da célula ficou abominável. Maggye tentou pedir aos pais, galeristas e artistas plásticos, que dessem uma recauchutada no trabalho, mas eles se recusaram, alegando que as meninas precisavam aprender a resolver seus problemas sozinhas. Com isso, o grupo tirou uma nota mediana e Gerluce passou meia terça-feira e meia quarta-feira sem falar com as outras três. 

Zenilda, possivelmente motivada pelo novo relacionamento do ex-marido, se cadastrou no Tinder. E isso não seria um incômodo para Lorena, se sua mãe não tivesse recrutado sua ajuda para organizar o perfil no aplicativo. 

— Filha, escuta essa bio que eu escrevi: “Sim, sou 40+: 40+ maturidade, 40+ segurança, 40+ dona de mim e do meu tempo”.

— Mãe… — disse Lorena, num fio de voz — Tanto faz, coloca qualquer coisa.

— Aí depois eu botei assim: “Não tenho paciência para joguinhos. Gosto de quem tem bom papo, me faz rir e não desaparece no dia seguinte”.

— Por que você tá me falando de “dia seguinte”? — berrou Lorena, escondendo o rosto em uma das almofadas do sofá.

— É o dia seguinte ao encontro.

— Eu entendi!

— Ai, menina, encontro pode ser só um jantar, um café, um barzinho bem gostoso com música ao vivo… não precisa envolver outra coisa. E o que você acha de eu colocar uma foto sua e do Leo também? 

— Não faz isso, pelo amor de Deus!

— Por que? É pra mostrar que eu tenho família, não tô pra brincadeira.

Depois de uns quinze minutos avaliando as opções de match, Zenilda excluiu a conta. Justificou que “como dizem vocês jovens, a pista está salgada”. 

Apesar das peculiaridades e desafios, havia uma coisa positiva acontecendo na semana de Lorena:

Ela e Eduarda conversaram o tempo todo. 

Depois de longos dois dias no Instagram, migraram para o WhatsApp — e Lorena ficou muito orgulhosa, pois foi ela quem sugeriu a troca de telefones. 

Aos poucos, conheceu a ficha completa de Eduarda. Sua amiga tinha quinze anos e também cursava o primeiro ano do ensino médio. Estudava no Colégio Adventista e precisava seguir uma porção de regras, como não usar brincos e pulseiras.

 

pra você ter uma noção

implicaram quando pintei meu cabelo de ruivo

 

MENTIRA



verdade

minha mãe teve que bater boca na escola

porque o regimento diz que

não pode pintar de cores que não sejam naturais

aí minha mãe falou tipo

“mas ruivo não é natural?”

foi a maior confusão

no fim concordaram que não tinha problema

só não posso pintar de outras cores que eu queria

roxo

azul

rosa

etc

mas tudo bem

porque iam encher o saco na igreja de qualquer forma

se eu pintasse dessas cores



Faz muito tempo que você vai naquela igreja?

 

 

eu congrego ali desde pequena

tinha uns 8 anos

9

por aí 

mas sou evangélica desde sempre

e você?

 

Eu só fui em um grupo de jovens

Com uma amg minha

Uma vez

Fora isso, nunca tinha ido na igreja

 

nossa

nunca????

que doido

 

O dossiê de Lorena sobre Eduarda crescia e crescia e crescia, e ela estava adorando. Queria saber tudo e mais um pouco.

Já tinha conhecimento, por exemplo, de que Eduarda era filha única e os pais dela se chamavam Henrique e Violeta. Moravam em Santana, e antes disso na Aclimação. Já tiveram dois cachorros e agora tinham um gato, o Bóris, que ganhou esse nome porque Violeta gostava de um livro chamado “Guerra e Paz”. Os dois eram advogados, assim como Zenilda, e não pressionavam Eduarda em relação a vestibular e carreira. 

 

as minhas opções são

direito óbvio 

mas também administração pública

ciência da computação

engenharia de produção 

design

e psicologia

mas o que eu queria mesmo era fazer música



Então faz Música



tenho medo de passar dificuldade financeira

não sei do que vive um músico

e não quero dar aula



Justo

Mas você devia, porque é muito boa

E talentosa



você acha mesmo??

de verdade???



Sim

De verdade

Eu lembro de você tocando guitarra o tempo todo



é????

dhfuidhsfuisdnicndsiuh 

eu lembro de você o tempo todo também



E olha que eu não estava fazendo NADA



acho que estava sim

você sempre está fazendo alguma coisa

 

Como parte de seu projeto de mergulhar em Eduarda, Lorena empreendeu uma imersão em Lucy Dacus. Ouviu todos os álbuns e encheu sua biblioteca do Spotify com suas músicas preferidas.

O próximo passo de sua empreitada, naturalmente, foi dissecar a vida pessoal da cantora que tinha acabado de descobrir. 

— Lorena? — chamou Maggye — Tá tudo bem? 

— Uhum. T-tá sim. Por que? 

Era hora do intervalo. Todos os dias, religiosamente, Lorena e as amigas sentavam no alto das arquibancadas para lanchar. Dali, podiam ver o movimento e comentar todos os acontecimentos importantes com mais propriedade. 

— Porque você tá vermelha igual um pimentão, mulher — disse Gerluce — Achei até que tinha se afogado com o bolo da avó da Lucélia.

— Nossa, para com isso. O bolo ficou seco mas tá gostoso — retrucou Lucélia.

Lorena devia mesmo estar vermelha. Fazia sentido. 

Porque estava com calor. Afetada. Passando mal. À beira de um desmaio. 

— Não foi nada — garantiu, com a voz afetada. 

— Fala logo! — pressionou Lucélia.

— Deixa ela, gente — disse Maggye — E passa o pote pra cá, Lucélia. Eu quero mais um pedaço do bolo seco da dona Marieta. 

Mais tarde, quando estavam retornando para a sala de aula, Maggye puxou Lorena pela mão e retardou o passo, se afastando um pouco das outras.

— Lorena, tá tudo bem mesmo? 

— Tá sim — assegurou, desviando o olhar — Foi uma bobagem.

— Se você quiser convers…

— Eu descobri que uma cantora que eu gosto namora uma mulher — disparou, por fim. 

Maggye piscou algumas vezes, evidentemente surpresa e um tanto confusa. 

— Que cantora? 

— Lucy Dacus.

— Ah! Sim, ela namora a Julien Baker tem um tempão. 

— Você conhece a Lucy? 

— Sim. Eu gosto de uma música dela — respondeu Maggye — Mas eu posso te perguntar por que que te chocou tanto ela gostar de mulher?

Lorena congelou. Petrificada, teve a sensação de que iria derreter derreter derreter e ser absorvida pelo chão a qualquer momento.

— Eu… não sei bem. É que… eu acho… sei lá.

— Não é homofobia não, né? — questionou Maggye — Não me diz que isso te incomoda, pelo amor de De…

— Claro que não, Maggye! — Lorena falou alto o suficiente para que uma inspetora esticasse o pescoço na direção delas — Não é isso. Eu juro. 

Maggye estudou Lorena por segundos que pareceram horas, talvez até mesmo anos. 

— Você sabe que se precisar conversar, eu estou aqui, né? E tenho certeza que a Gerluce e a Lucélia também. 

Lorena apenas assentiu, sem forças para emitir qualquer som. 

 


 

No sábado, o interfone tocou às onze da manhã em ponto. Lorena saiu do quarto desenfreada, com a mochila nas costas e Donatello em seu encalço. 

— Anda logo, Leonardo! — berrou, abrindo a porta como se estivesse fugindo de um incêndio. 

— Ei! Sem grito aqui em casa — repreendeu Zenilda — E que animação é essa pra ir visitar o seu pai, hein? 

O coração de Lorena diminuiu, ficou minúsculo. Não queria que a mãe interpretasse sua pressa da maneira errada. Estava empolgada, mas isso não tinha absolutamente nada a ver com Santiago. 

— É que a gente vai no shopping comprar umas coisas. Vai ser legal — explicou Leonardo, totalmente equivocado, como era de seu feitio. 

Em contraponto ao entusiasmo dos filhos, Santiago dirigiu o caminho todo de cara fechada. Lorena estranhou e até se preocupou, mas não levou para o pessoal. Ele sempre foi assim, inconstante. Supôs que devia ser algum problema no escritório ou com Arminda. 

Bem. Era sua vez de estar totalmente equivocada. 

O clima permaneceu bélico enquanto passeavam pelo shopping. Santiago não foi exatamente grosseiro com os filhos, mas também não estava para muitos afagos. 

— Pai, é esse aqui, ó — disse Leonardo, apontando para a vitrine de uma loja de tênis.

— Tá, tá — resmungou Santiago — Pode entrar aí, Leo. 

— Mas você também vem?

— Vou depois. Vai na frente. Eu e a sua irmã vamos conversar um pouco.

Lorena suspeitou que isso não era um bom sinal. Sentou com o pai em um banco comprido de madeira maciça no corredor e aguardou a bomba. 

— Filha — introduziu ele, com as palmas unidas e ambas as mãos encostadas nos lábios, como se estivesse rezando — Aconteceu uma situação meio chata na última vez que você foi lá pra casa. 

Ela enrugou a testa. Tentou puxar pela memória, mas não encontrou nada constrangedor ou malcriado que tivesse feito no apartamento do pai. 

—  A igreja da Arminda é um lugar importante pra ela — prosseguiu Santiago — Um lugar de respeito. Não é espaço pra certas… patifarias.

— Patifarias?

— Patifarias — confirmou ele. 

Lorena foi afetada por uma queda de pressão brusca. Será que, de alguma forma, Arminda descobriu sobre ela e Eduarda?

Mas o que é que tinha para descobrir, afinal? Nada. Eram amigas. Amigas. Amigas!

Ficou nervosa com a ideia de ser flagrada. Depois, ficou nervosa com a ideia de que houvesse algo para flagrar. Por fim, ficou nervosa por estar nervosa. 

Lorena umedeceu os lábios, secos como se tivesse lambido o Salar de Uyuni. 

— E qual foi a patifaria que eu fiz?

— Usou a camiseta de uma menina dando o dedo do meio pra ir na igreja.

Ela o encarou, incrédula. 

— É sério?

— É muito sério, garota. 

A primeira reação de Lorena foi ser lavada, da cabeça aos pés, por uma onda de alívio. 

A segunda reação de Lorena foi ser lavada, da cabeça aos pés, por uma onda de pânico ocasionada pela onda de alívio. 

E a terceira reação de Lorena foi rir. Rir histericamente. Gargalhar.

— Qual é a graça?

Sequer conseguiu responder. Era impossível conter as risadas, que vinham esganiçadas, em soluços e lágrimas. 

— Que deboche é esse, Lorena?

— Desculpa — tentou engolir o riso e seu estômago doeu — É que é tudo tão absurdo.

O pai não precisava saber que “tudo” não se referia somente à situação que discutiam, embora também. 

— Absurdo é você rir assim, na minha cara!

— Você vai brigar comigo porque eu usei uma camiseta da Olivia Rodrigo na igreja?

— O problema não é a Olivia Rodrigues, Lorena. O problema é o dedo do meio. 

— A Arminda te pediu pra me dar bronca, é isso?

— Não. Eu me ofereci pra conversar com você, porque ela ficou muito chateada.

— Chateada? 

— Chateada. Segundo ela, muita gente prestou atenção na sua camisa e comentou. 

Ameaçou dizer que Eduarda, a “filha do coração” de Arminda, elogiou a estampa, mas se conteve. 

— Se as pessoas comentaram, foi sobre mim que elas falaram. No que isso afeta a sua namorada?  

— A igreja não é só um lugar em que a Arminda vai pra buscar a Deus, sabe? Pra ela, é uma comunidade. Ela trabalha remoto, não vê ninguém o dia todo, não tem muitos amigos, não se dá bem nem com o filho e nem com a mãe dela…

— Nossa, por que será? — ironizou Lorena.

— É uma coisa muito, muito, muito importante e central na vida dela, minha filha. Nós somos os convidados, os intrusos. A gente não tem o direito de estragar isso pra ela.

Lorena equilibrou na ponta da língua as palavras duras que gostaria de dizer: Arminda também não tinha o direito de interferir na família deles, mas o fez mesmo assim. Santiago não tinha o direito de mentir para a ex-esposa, mas não se importou muito com isso. 

— Eu quero que você peça desculpas quando chegarmos lá em casa — disse o pai. 

— Que drama!

— O seu pedido de desculpas é inegociável, Lorena. 

— Você acha que eu fiz de propósito, pai? Como é que eu ia adivinhar que a gente ia parar numa igreja evangélica? — e aí, se lembrou da conversa sobre religiões que teve com Zenilda na semana anterior — Você é católico!

— Eu não vou numa missa tem uns vinte anos! Nunca gostei de ir!

— Nada disso teria acontecido se você tivesse contado pra nós com antecedência que tá namorando a Ministra Damares!

— Lorena, me respeita. Eu sou seu pai, não seu amiguinho!

— A minha outra opção era uma camiseta do Chucky! — revelou ela, frustrada — Tudo porque você não me preparou pra nada! Você só conta as coisas quando é interessante pra você! Nunca pensa na gente!

Santiago ficou em silêncio por um momento.

— Chucky? O brinquedo assassino?

— É. O brinquedo assassino.

— Tá. O dedo do meio foi uma escolha melhor do que o brinquedo assassino — concedeu ele — Você pode explicar pra Arminda que não fez por mal. Ela acha que foi um ataque, um recado de que você não gosta dela. 

Bom. Arminda estava apenas parcialmente equivocada. 

— Mas eu não acho… — começou ela.

— Quem são as inimigas da Olivia Rodrigues? — cortou Santiago.

— O quê?! Sei lá. Que pergunta é essa? Não tem inimigas, eu acho. Tipo, teve uma rivalidade com a Sabrina Carpenter por conta do ex-namorado delas, mas já passou. Tem também um negócio com a Taylor Swift, mas ninguém sabe muito bem o que é, e acho que é mais coisa de fandom, porque todo mundo se sente muito confortável em colocar duas mulheres uma contra a outr…

— O que aconteceria se alguém fosse num show da Taylor Swift com a blusa da Olivia Rodrigues dando o dedo do meio? Como isso seria interpretado?

Foi impressionante. Mesmo sem entender nada, teve que admitir que seu pai apresentou um bom exemplo, ainda que acidentalmente. 

— Tá — foi a vez de Lorena ceder — Entendi o seu ponto. Eu… posso pedir… desculpas. 

Santiago soltou um longo suspiro que pareceu sair de seu âmago. 

— Obrigado, Lolô. 

Ficaram ambos ali, com um gosto amargo na boca, assistindo o movimento do shopping.

— Depois de comprar o tênis do Leo, podemos ir no lugar que você disse que queria — propôs ele — Onde era mesmo?

— Galeria do Rock.

— Galeria do Rock?

— Eu quero procurar a camiseta de uma cantora que eu gosto.

— Ah. O que vai ser agora? Foto da Olivia Rodrigues atropelando senhorinhas? 

Lorena revirou os olhos.

— É outra cantora. O nome dela é Lucy Dacus. 

 


 

Naquela noite, enquanto jantavam lasanha congelada e uma salada de folhas de rúcula que eram vendidas já higienizadas em sacos herméticos, Lorena resmungou um pedido de desculpas para Arminda. Em seguida, noticiou que iria ao culto do dia seguinte. O comunicado pareceu o suficiente para erguer bandeira branca e selar a paz, ao menos temporariamente. 

No domingo, levantou com as galinhas para tomar banho e lavar o cabelo. Aproveitou a oportunidade para besuntar todos os cremes caros da madrasta em seus fios castanhos. Misturou produtos muito cheirosos de todas as cores na palma da mão, como costumava fazer com tinta guache na primeira metade do ensino fundamental. 

Depois de beber todo seu café com leite em no máximo três goles grandes e ansiosos, escovou os dentes duas vezes e reservou um bom tempo para escolher o que vestir. 

Sua mochila metalizada estava apinhada de roupas, recheada como se sua dona estivesse fazendo uma longa trilha. Para economizar espaço, não levou o caderno e nem o tablet desta vez. Foi preciso estabelecer prioridades. 

Em sua visita à Galeria do Rock, infelizmente não encontrou a camiseta de Lucy Dacus, mas conseguiu comprar uma da boygenius. Pensou em vesti-la no culto, mas após seu incidente diplomático envolvendo Olivia Rodrigo, decidiu não arriscar — ainda que Phoebe Bridgers, Julien Baker e Lucy não estivessem mostrando o dedo do meio e nem fazendo qualquer outro gesto potencialmente ofensivo na estampa que selecionou. 

Depois de testar todas as combinações possíveis, optou por sua calça wide leg verde, All Star preto e uma blusa também preta, com o logotipo da Adidas em branco, mesma cor das três listras nas mangas. Quase colocou alguns acessórios, mas lembrou que Eduarda não podia usar brincos, colares e pulseiras na escola, e também não se lembrava de tê-la visto com esse tipo de coisa na semana anterior — o que talvez fosse um indicativo de que não usasse nunca. Não sabia como ela se sentia sobre isso, e não quis correr o risco de deixar sua amiga triste. 

Já no carro, seu celular anunciou uma mensagem. Lorena achou que iria vomitar de ansiedade quando viu quem era a remetente.

 

oi lorenaa

eu vou tocar com o pessoal 

mas aí te chamo pra ir sentar junto comigo assim que acabar, tá?

 

Agora treinada, Lorena ficou a postos para trocar apertos de mão com todos os conhecidos de seu pai. Dizer “a paz do Senhor”, no entanto, ainda era um limite que não pretendia ultrapassar. 

A palavra inicial do pastor pareceu demorar décadas. Ela balançava as pernas como terremoto, na tentativa de que sua urgência agilizasse todos os obstáculos que a separavam de seu objetivo. 

Quando finalmente anunciaram a hora dos louvores, tudo que estava ao redor de Lorena desapareceu. As únicas coisas que importavam no mundo eram sua expectativa e…

Eduarda.

Lá estava ela, com os cabelos ruivos ainda mais brilhosos e bem escovados do que na quinzena anterior. Usava um vestido azul-marinho comprido, de decote quadrado e mangas curtas levemente bufantes. A cintura era marcada, e a saia se abria em camadas franzidas até os tornozelos. Calçava um All Star preto, assim como o de Lorena — que sorriu abertamente ao reparar que combinavam em algo. 

Exatamente como catorze dias antes, os olhos castanho-escuros se conectaram aos verdes. Ambas riram discretamente.

Eduarda e sua guitarra eram magnéticas. Lorena assistiu, fascinada, aos movimentos ágeis dos dedos; à pressão, firme e suave na mesma medida, aplicada sobre as cordas. Gostava de como Duda parecia absorta em sua própria energia, a música envolvendo-a como se visível, e ela, por sua vez, parecendo alta, enorme, gigante. 

Lorena percebeu que poderia assisti-la eternamente. Prenderia a respiração para prolongar o momento, e mesmo assim teria oxigênio para viver por mil anos. 

Os hinos terminaram rápido demais, e ela percebeu que não se concentrou em nenhum deles. Novamente, os fiéis choravam, oravam e falavam naquele idioma próprio. Enquanto isso, sua mente habitava outro planeta — um planeta com nome, sobrenome e íris escuras. 

Eduarda desceu do palco ou plataforma ou púlpito trotando pela escada lateral. Lorena precisou se controlar para não agir como nos filmes e correr para encontrá-la no meio do caminho.

Mesmo sem a corrida cinematográfica, Duda a abraçou assim que se aproximou o suficiente. Dadas as circunstâncias, foi um contato breve, de dois ou três segundos. Apesar disso, Lorena sentiu tudo muito intensamente — o perfume inebriante sequestrando todos os seus sentidos; as duas mãos, abertas e seguras, espalmadas em suas costas; a respiração ligeiramente ofegante em seu pescoço. 

Sentiu-se arrepiar de uma forma que era física, mas não só. 

— Pai, eu vou sentar com a Eduarda, tudo bem?

A despeito da cortesia da pergunta, não esperou resposta. Se permitiu ser puxada imediatamente pelas pontas dos quatro dedos da mão esquerda, deixando-se ser conduzida sem sequer se atentar ao caminho. 

Em acordo total com a descrição feita pelo Instagram, os lugares da família de Eduarda ficavam no canto direito da igreja, ao lado de uma porta de madeira que devia ser a dita sala dos Juniores — fossem eles quem fossem. 

Algo que não tinha ocorrido a Lorena seria que sentariam ao lado dos pais de Eduarda. Ao se dar conta deste pequeno detalhe, encolheu. Não tinha se preparado para exercitar seu carisma tanto assim. 

Henrique e Violeta, contudo, foram simpáticos e facilitaram o processo para ela. Os dois abriram enormes sorrisos calorosos assim que as viram. 

— Mãe, pai, essa é a Lorena — apresentou Eduarda.

Lorena acenou para eles, tímida. A introdução de sua amiga sugeriu que seu nome já tinha sido pauta, e isso a deixou mais envergonhada. 

Felizmente, os adultos não demoraram a voltar a prestar atenção no culto, deixando as meninas a sós em sua bolha particular. 

As garotas se entreolharam. Se fitaram. E permaneceram. 

Lorena só desviou quando teve a impressão de sentir seu rosto esquentar. 

— Você gostou dos louvores de hoje? — cochichou Eduarda.

Não tinha como saber, visto que não deu a mínima para nenhum deles. 

— Você arrasou — respondeu, dando um jeito de ser sincera sem precisar dizer a verdade — Foi incrível.

— Obrigada — murmurou Eduarda, com as bochechas rosadas.

Passar o culto com Duda teve um caráter mais educativo para Lorena do que sua experiência acompanhando os ritos com Arminda e Santiago. Sua amiga a explicou, baixinho e pacientemente, tudo aquilo que não conhecia. 

Eduarda elucidou, por exemplo, o que era uma salva — a bolsinha de tecido verde presa a um cabo longo e dourado que era utilizada para recolher os dízimos e ofertas. Também esclareceu qual era o embasamento bíblico para que solicitassem dinheiro tão abertamente, e impressionou com a quantidade de versículos sobre o assunto que guardava de cor e salteado. 

Em seguida, o pregador do dia iniciou sua preleção. Quando ele pediu que abrissem a Bíblia em um livro e capítulo específicos, Eduarda habilmente apanhou a sua — uma Bíblia tradicional, de letras douradas numa capa preta, com uma fita marca-página de cetim vermelho. 

Sua facilidade para encontrar o verso indicado denunciou a intimidade dela com a dita palavra de Deus. Lorena achou aquilo curioso e instigante. Imaginou Duda lendo aquele calhamaço tarde da noite em uma cama hipotética. Ficou refletindo se a Bíblia era maior, menor ou igual a “O Mundo de Sofia”, sua leitura atual, e depois se era maior, menor ou igual a “As Crônicas de Nárnia”, que ganhou em seu aniversário de treze anos e abandonou na metade por achar Aslam um leão chato e moralista. 

Uma sensação nova interrompeu suas divagações.

Eduarda estava muito perto.

Muito perto mesmo.

Seu ombro, na realidade, estava tocando o dela. 

Seu cérebro embarcou em uma espiral de nervosismo. O baque foi tamanho que demorou para compreender o motivo da proximidade: Eduarda estava estendendo sua Bíblia para que lessem juntas, visto que Lorena não tinha uma. 

Tocada pelo gesto, até tentou se esforçar e acompanhar o que o pregador estava falando, mas foi impossível. Todas as letras se embaralharam na superfície das folhas finas e opacas, a ponto de fazê-la matutar se estava sofrendo um derrame. 

Quando a leitura acabou, no entanto, Eduarda não se afastou. Continuou ali, exatamente onde estava, invadindo e ultrapassando limites como uma imperatriz disposta a conquistar.

Um aspecto engraçado daquela pregação era que o rapaz que a conduzia tinha uma mania: de tempos em tempos, mandava que as pessoas olhassem para o irmão que estava ao lado delas e dissessem alguma frase que parecia extraída de um post motivacional no Facebook. 

— Olhe para o seu irmão e diga: “Deus não se esqueceu de você nem por um minuto”.

As pessoas obedeciam — realmente olhavam para o irmão e diziam o que quer que fossem instruídas a dizer. 

Ela e Eduarda também abraçaram a dinâmica. No começo, foi até divertido. Estavam muito próximas, a ponto de o nariz de Duda quase roçar no lábio inferior de Lorena quando se encaravam para repetir o que era proposto. 

— Olhe para o seu irmão e diga: — começou o pregador — “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

Lorena mirou a amiga, pronta para reproduzir a frase, quando Eduarda, a tão poucos centímetros dela, disse:

— Você é muito cheirosa.

A fuga ao roteiro a pegou completamente desprevenida. De guarda baixa, foi incapaz de responder ou sequer processar. 

Voltaram os olhos para o palco ou plataforma ou púlpito e o sermão continuou, mas Lorena viu-se atarantada. Nada mais fazia sentido. 

— Olhe para o seu irmão e diga: “Quem tem promessa de Deus não morre”.

Lorena e Eduarda se encararam novamente. Desta vez, Duda sussurrou:

— E os seus olhos são muito bonitos aqui, de pertinho. 

Mais uma vez, a ausência de reflexos e de destreza em Lorena a impediram de abrir a boca. A dupla tornou a olhar para frente. 

O falatório do pregador tornou-se uma fonte de tensão. Lorena temia pela próxima vez em que precisaria virar a cabeça para a direita. O que é que aconteceria? Um frio tomou-a ao pé da barriga. Tinha a sensação de que tudo era possível, inclusive as possibilidades mais remotas e improváveis. 

— Olhe para o seu irmão e diga…

Lorena fechou os olhos com tanta força que, quando os abriu novamente, enxergou estrelas coloridas e pontos de luz por toda parte. 

— …”Deus vai te surpreender esta semana”.

Deus definitivamente já estava surpreendendo. 

Eduarda virou o rosto primeiro. Lorena seguiu a deixa. 

Desta vez, nenhuma delas disse nada. Podiam sentir suas respirações quentes se encontrando no estreito espaço que as separava. 

Permaneceram em silêncio absoluto e continuaram se encarando, mesmo quando o restante da igreja já havia repetido a frase da rodada. 

Daquele ângulo, podia desvendar novos detalhes no rosto de Eduarda — a constelação de sardas, discretas e quase imperceptíveis; os cílios adornados com camadas grossas e persistentes de rímel; a boca entreaberta, coberta por um brilho labial que, só agora descobria, cheirava a cereja. 

Imaginou como seria o gosto da fruta, doce e ácido, na ponta da língua. 

Imaginou, pela primeira vez em sua curta vida, o paladar e o olfato e a temperatura e a textura e o movimento de beijar outra menina. 

O pensamento a assustou tanto que arregalou os olhos. Como se lesse pensamentos, Eduarda riu e sorriu, ela mesma com as pupilas dilatadas, as orbes um breu. 

Fingindo que nada aconteceu — ou justamente porque tudo aquilo tinha, de fato, acontecido — Duda desistiu do contato visual, focou na pregação e não engajou mais nos convites para dizer qualquer coisa à irmã ao lado dela. 

 


 

Quando o pastor da igreja assumiu o microfone para dar uma palavra final e conduzir a oração de encerramento, Eduarda cutucou Lorena com o cotovelo. 

— Vamos no banheiro comigo? — convidou, completamente casual. 

Para Lorena, é claro, não havia um pingo de casualidade naquela proposta. Ainda estava trêmula e descompensada, com uma rigidez que se espalhava como febre por todos os seus músculos. 

— Agora? Na hora da oração? — perguntou, percebendo que soou como uma idiota assim que as palavras saltaram da boca. 

— Sim. Depois que acaba o culto, fica muito cheio e tem fila. 

A explicação pareceu razoável. Lorena assentiu e foi puxada mais uma vez pelas pontas dos dedos. Seguiram para os fundos do salão a passos rápidos. Viraram à esquerda e depois à direita e depois à esquerda de novo. 

Os banheiros estavam completamente vazios. Tudo era muito branco, pálido, asséptico. No contraste com os azulejos sem vida ou personalidade, Eduarda pareceu ainda mais vívida, ainda mais enérgica, ainda mais bonita. 

O espelho era enorme e horizontal, tomando metade da parede. Duda analisou o próprio reflexo e penteou os cabelos com as mãos. Era só isso que ela queria fazer ali e não podia esperar o fim do culto? 

— O que você achou? — indagou a ruiva, de repente.

— De quê?

— Da igreja.

— Ah — Lorena deu de ombros — Ainda não tenho uma opinião formada. 

— Pode me falar se odiou. Não vou ficar brava. 

— Eu não odiei — assegurou Lorena, e era verdade. 

Como poderia odiar o lugar em que conheceu Eduarda? 

— Eu gosto, mas questiono muitas coisas — confidenciou Duda — Só que meu pai diz que eu não posso perguntar muito, porque a racionalidade afasta de Deus. 

Sobre aquilo, Lorena não soube muito bem o que dizer. Sua família era de outro jeito. Sempre a incentivaram a questionar absolutamente tudo e elaborar suas próprias convicções. 

— O Santiago é seu pai? — questionou Eduarda, mais uma vez sem sobreaviso. 

— Eu… o quê?

— É, não é? 

Lorena pensou em mentir. Apesar de toda sua mágoa com o divórcio e a traição de Schrödinger, a perspectiva de prejudicar o pai causava culpa. Por outro lado, aquilo não era problema dela. Além do mais, achava que podia confiar em Eduarda. 

— É. Como você sabe?

— Vocês se parecem.

— Mesmo? Todo mundo diz que eu puxei a minha mãe. 

— Ah, você tem algo dele, sim. Tipo, fisicamente. Mas eu quis dizer que vocês têm o mesmo jeito. A mesma maneira de falar, de andar e de mexer as mãos. 

Sentiu-se nua diante da ideia de que Eduarda a observasse tanto assim. 

— Eu não falei antes porque… — Lorena tentou replicar a explicação que o pai deu a ela, mas tudo pareceu ainda mais ilógico sob a articulação de suas próprias palavras — Acho que a Arminda não quer ficar mal falada por namorar um divorciado. 

Eduarda balançou a cabeça afirmativamente, com um ar solene.

Aparentemente, fazia sentido para ela. 

— A Arminda é muito julgada aqui por ser mãe solo — contou Duda — Corre uma fofoca de que o pai do Raul era casado com outra mulher quando ela engravidou, mas eu não sei se é verdade. 

Lorena teve certeza de que sim. Logo em seguida, se sentiu mal pelo juízo de valor. 

— Você conhece o Raul? — perguntou Eduarda.

— Ainda não. 

— Ele vinha aqui de vez em quando, agora faz tempo que não aparece. A Arminda queria que a gente fosse amigo ou sei lá. Eu não gostava muito de conversar com ele. Aquele menino é muito esquisito.

— Bom… eu também sou esquisita. 

— O quê? — questionou Eduarda, com uma ponta de indignação — Claro que não. Quem te disse isso? 

— Ah… bastante gente. A minha amiga Gerluce me chama de Donnie Darko. 

— “Donnie Darko” é um filme, né? Eu já ouvi falar. 

— Uhum. A sinopse é… na verdade, é bem complicado. Mas o ponto é que o Jake Gyllenhaal faz um menino esquisito, o Donnie Darko. A gente assistiu na casa da Gerluce e ela me apelidou assim. Carinhosamente. 

— Isso é uma insanidade — opinou Eduarda. — Você é a pessoa mais linda e interessante que eu conheço.

Um carnaval se iniciou na caixa torácica de Lorena. Pela segunda vez no dia e pela segunda vez de todos os tempos, desejou beijar outra garota. 

Desta vez, a vontade nasceu um pouco mais imagética. Conseguiu visualizar perfeitamente suas mãos segurando o rosto de Eduarda como se a pele dela fosse porcelana. Vislumbrou-se colocando uma mecha de cabelo vermelho atrás da orelha de Duda, como nas comédias românticas. E então…

— Posso te mostrar uma coisa? — perguntou Eduarda, arrancando Lorena de seu transe. 

— E-eu… oi? Ah, pode. Pode! Claro que pode!

Eduarda olhou de soslaio para a porta do banheiro, como se pudesse ter certeza de que ninguém iria entrar de supetão. Rapidamente, virou de costas para Lorena e afastou os cabelos, revelando sua nuca. 

Lorena esqueceu como respirar por um milésimo de segundo, mas logo se recompôs. 

Na parte de trás do pescoço de Duda, havia uma tatuagem pequena e com as bordas falhas.

Uma rosa.

— É de verdade? — perguntou Lorena, chocada.

— Não — respondeu Eduarda, rindo — É temporária. Minha amiga comprou várias cartelas na Shopee e a gente fez escondido hoje, na Escola Dominical. 

— Por que escondido?

— Porque não pode.

— Mesmo sendo de mentira?

— É. Eles falam que o nosso corpo é templo do Espírito Santo.

Lorena pensou em argumentar que isso era uma bobagem, já que as pessoas sempre decoraram templos religiosos — incluindo a igreja em que estavam, que era toda ornamentada — e que ela duvidava que o Espírito Santo fosse desaprovar um bom trabalho de arquitetura, reforma e design de interiores. Já estava prestes a abrir a boca quando lembrou de Zenilda e Santiago dizendo que era preciso respeitar as crenças dos outros. 

— Eu quero fazer uma de verdade quando tiver dezoito anos — revelou Eduarda. 

— Combina com você. Vai ser a mulher mais linda do mundo inteiro. 

Duda girou os calcanhares e ficou de frente para Lorena. Estavam perto demais. 

Mais uma vez.

— Eu escolhi a rosa na cartela da minha amiga porque a Julien Baker tem uma rosa na mão. Eu acho muito… bonito.

O rosto de Lorena se iluminou ante a menção à cantora.

— Esqueci de te contar! Ontem meu pai me levou na Galeria do Rock e eu comprei uma camiseta da boygenius!

Eduarda não disse nada. Em vez disso, a fitou com um olhar açucarado. 

E aí — Lorena podia jurar de pé junto — Duda encarou fixamente a boca dela.

— Vamos… vamos… — iniciou a ruiva, umedecendo os próprios lábios com a língua — Voltar? 

Em uma sincronia providencial, ouviram as dezenas de pessoas da igreja, ao longe, dizendo “Amém” em uníssono. 

 


 

Leonardo quis almoçar lámen na Liberdade, e Santiago atendeu ao pedido prontamente. 

Em qualquer outro momento, Lorena estaria muito feliz com seu Miso Ramen acompanhado de Moyashi, ovos, Nori, broto de bambu e carne de porco, mas não era o caso. Mal conseguia sentir o gosto do caldo. 

Sua cabeça estava uma bagunça. Tinha muito o que pensar, refletir, esmiuçar, lembrar. Era uma sorte que a comida quente, pelando, fosse um bom álibi para a vermelhidão que insistia em tomar seu rosto sempre que rebobinava as imagens de sua manhã com Eduarda. 

Ok. Não podia negar que havia química, física e biologia entre elas — logo as três disciplinas que carregavam suas piores notas no boletim. 

Àquela altura de sua existência, já tinha devorado livros, assistido filmes e testemunhado romances de amigas o suficiente para entender que estava, bom, um pouco a fim de Duda. E embora não fosse exatamente uma especialista  na arte de se relacionar, coletou evidências fortes o bastante para supor que era recíproco. 

Mas o que isso queria dizer sobre ela? 

Gostava de meninas? No plural e em geral? Ou era como aquelas celebridades que diziam ter se atraído por uma única e específica pessoa do mesmo gênero, e apenas isso? 

E Eduarda? 

Pelo amor de Deus. Eduarda era evangélica. Ela estava autorizada a beijar uma garota? 

Lorena escondeu o celular debaixo da mesa e começou a pesquisar. Em poucos minutos no Google, descobriu que depende. Existiam congregações inclusivas, várias delas em São Paulo, que eram frequentadas e até mesmo dirigidas por pessoas LGBTQIAPN+. Essa informação desfez parte do nó que atravessava sua garganta. 

No entanto, todos os sites que visitou alertavam que a maior parte das igrejas tradicionais considerava a homossexualidade um pecado. Algumas dessas instituições podiam indicar que membros gays e lésbicas praticassem o celibato vitalício e que bissexuais se relacionassem exclusivamente com o gênero oposto, ou pior: que tentassem se curar. Como se sexualidade fosse uma doença!

Ficou enjoada de repente e largou os hashis. 

— Tá quietinha, Lô — comentou Arminda — Tá tudo certo?

— Tá sim. Só tô pensando em umas coisas que eu tenho que fazer pra escola. 

Por um instante, a mesa foi tomada apenas pelo tilintar de copos e talheres. 

— Deixa eu te falar — prosseguiu Arminda — Você e a Dudinha tão se dando bem, né?

O enjôo se transformou em ânsia, e Lorena achou, mesmo mesmo, que iria vomitar em plena hora do almoço e mudar o curso das vidas de todos os clientes do restaurante. 

— A gente não tá se dando tão bem assim. Tipo… é, a gente é amiga. Quer dizer, estamos virando amigas. Ainda não somos amigas. Eu mal conheço ela. Vamos vendo.

— Eu vou fazer muito gosto dessa amizade, Lô — disse a madrasta, como se a opinião dela tivesse alguma relevância — A Dudinha é uma menina de ouro, vai ser uma ótima influência pra você! 

Lorena teve que se controlar para não revirar os olhos. Claro, usou uma camiseta de Olivia Rodrigo mostrando o dedo do meio e agora iria levar a fama de adolescente problemática que precisava de modelos de comportamento para guiá-la ao caminho certo. 

— Lô, sabe qual é o meu sonho? Que a Dudinha namore o Raul. 

O choque foi tão grande que Lorena derrubou o celular no chão de madeira.

— O quê? — indagou, sem conseguir amenizar a revolta.

— Não sei se você já viu foto do Raul — continuou Arminda, indiferente ao pandemônio que começou — mas eles iam fazer um casal tão lindo!

— Quem disse? 

— Ué, Lô, eu tô dizendo.

— Mas você perguntou pra Eduarda se ela quer namorar o Raul? 

— Lorena… — chamou Santiago, em tom de alerta — Que grosseria é essa? 

— E por que ela não ia querer namorar o meu filho? Ele é um menino lindo, inteligente, faz Técnico em Desenvolvimento de Sistemas, vem de boa família…

— E o que é que você entende de família? — questionou Lorena, se arrependendo antes mesmo de concluir o que estava dizendo. 

O clima de velório que se instaurou no ar conseguiu suspender o tempo. Ninguém ousou se mover um centímetro de que fosse. 

Até Santiago amassar seu guardanapo e atirá-lo em cima da mesa. 

— Lorena — disse ele, em um tom gélido — Pega as suas coisas.

— A gente vai embora? — perguntou Leonardo, pronto para reclamar que seu lámen ainda estava na metade.

— Não — respondeu o pai — Vou levar sua irmã pra casa da sua mãe e depois volto aqui.

— Eu… — ensaiou Lorena, num fio de voz — Eu preciso pegar minha mochila na sua cas-

— O Leo leva mais tarde — disse Santiago. 

— Mas… 

— Agora, Lorena.  

Derrotada e constrangida, se limitou a alcançar o celular no assoalho. Quando passou por Arminda, a madrasta não se dignou a olhar para ela. 

 


 

Durante todo o trajeto de volta, Lorena tentou se desculpar com o pai. Tinha plena consciência de que passou dos limites. Santiago, no entanto, não respondeu. Nem ao menos se despediu quando a filha saltou do carro. 

Para seu alívio, Zenilda não estava em casa quando ela chegou. Sozinha e em paz, teve a oportunidade de chorar copiosamente em seu travesseiro, soluçando até dormir. 

Acordou mais de uma hora depois, sentindo-se muito pequena. Era, definitivamente, a pior pessoa do universo. Odiava decepcionar a família, assim como detestava conflitos e machucar os outros — ainda que a pessoa machucada em questão fosse Arminda, e seus sentimentos por ela fossem complexos. 

Buscou pelo celular embaixo de seu corpo. No visor, ao menos um alento: novas mensagens de Eduarda. Aproveitou a deixa para atualizá-la de seu conflito com Arminda e Santiago, deixando de fora que o estopim da discussão foi a sugestão de que Raul seria um bom namorado para ela. 

 

que merda :(

a arminda é um saco

sinto muito que você tenha passado por isso, Lorena




Tô me sentindo HORRÍVEL

Eu não consigo perdoar totalmente ela e meu pai

Mas também não me sinto bem falando essas coisas

Nem gritando

Que coisa terrível

Acho que vou acabar tendo que pedir desculpas



cara

seu pai provavelmente vai te obrigar



Sim

E ele nem tá de todo errado



conta pra sua mãe

ela pelo menos vai te dar razão

e talvez dar risada



Não sei se vai dar razão

Mas dar risada, com certeza



Lorena

você usa o discord?



Sim

Por que?



quer jogar comigo?

posso te distrair um pouco :) 



Nunca antes um método foi tão efetivo para secar as lágrimas dos olhos de Lorena. 

 

Eu não sei jogar nada

 

eu te ensino

ou a gente pode fazer outra coisa

ver um filme juntas

ou só conversar mesmo

 

E apesar de tudo que deu errado, aquele foi o melhor domingo do ano de Lorena. 

 


 

Ainda que Lorena não fosse merecedora, Deus não parou de surpreendê-la naquela semana.

Exceto pelas horas que passaram em seus respectivos colégios, onde celulares não eram permitidos, ela e Eduarda conversaram o tempo todo. 

As duas trocavam mensagens, áudios e fotos em todas as oportunidades. À noite, entravam em chats de voz no Discord. 

Eduarda ensinou Lorena a jogar Fall Guys e Free Fire. Na quarta-feira, assistiram “Donnie Darko” usando o compartilhamento de tela. Duda amou o filme e discordou veementemente que Lorena fosse tão estranha quanto Donnie, muito embora tenha admitido que Jake Gyllenhaal parecia mais irmão dela do que Leonardo. 

Como Cady em “Meninas Malvadas” (que assistiram na casa de Gerluce quando estavam no sétimo ano), Lorena estava obcecada. Passava 80% do seu tempo falando de Eduarda. E mesmo que ninguém jamais perguntasse nada, aproveitava os outros 20% para falar um pouco mais. 

— Essa Eduarda que você tanto fala está aqui na sala com a gente neste momento? — ironizou Lucélia. Era quinta-feira e o grupo já tinha estourado a cota daquela pauta.

— Pode falar, amiga, a gente aguenta — disse Maggye — A sua amiga nova é mais legal que a gente, né? 

— Claro que sim. Ela é guitarrista — pontuou Lucélia — Todo guitarrista é descolado. A gente é muito inútil. Ninguém aqui toca instrumento nenhum.

— Eu não sou inútil — discordou Maggye — Sei fazer crochê e costurar.

— Sabe quem mais tem essas habilidades, Magnólia? — perguntou Lucélia — Minha avó. 

— A dona Marieta é mais legal do que qualquer guitarrista — argumentou Maggye.

— Não sei não — disse Gerluce — Tinha aquela que tocava com a Demi Lovato na era rock…

— Eu não falo tanto assim na Eduarda — mentiu Lorena, em uma tremenda cara de pau — A Gerluce também vive falando da amiga que trabalha com ela no postinho e ninguém reclama.

— Alto lá! — disse Gerluce, com o dedo em riste — A Viviane é minha melhor amiga do Menor Aprendiz e vocês são minhas melhores amigas da escola, eu já expliquei isso. E eu até parei de mencionar tanto a Vivi depois que vocês deram ataque de ciúme.

— Então vocês querem que eu pare de falar sobre a Eduarda?

— Não, amiga — garantiu Maggye, envolvendo-a com o braço — Pode falar do que você quiser. A gente só… não tá acostumada. 

— Você é nossa amiga nerdolinha que fala de livros e de questões existenciais — contribuiu Gerluce — A gente nunca te viu falar de meninos, nem de outras amigas, e agora isso rolou do nada.

— E a gente não conhece essa menina — emendou Lucélia — Então você fica dizendo que ela é linda, muito engraçada e sei lá o quê, e a gente não faz a mais puta ideia do que você tá falando.

Lorena pensou um pouco.

— Eu posso apresentar a Eduarda pra vocês uma hora dessas.

— Seria legal, amiga — disse Maggye — Pelo que você tanto fala, ela parece muito gente boa.

— Leva ela na próxima vez que a gente for ver filme lá em casa — sugeriu Gerluce. 

A sessão de cinema mensal do grupo estava marcada para a semana seguinte. Pareceu cedo demais. Lorena queria entender melhor o que sentia por Eduarda — e sobre si mesma — antes que as amigas presenciassem a eletrostática entre elas.

— Ah… acho que esse momento é muito nosso, né? Talvez eu apresente a Duda pra vocês no meu aniversário. 

— Tá chegando, né, irmã? — disse Gerluce, dando um tapinha no ombro de Lorena.

— O Paulinho vai estar na festa, Gerluce — lembrou Lucélia — Você podia aproveitar e dar logo o beijo que ele tanto quer.

— Irmãs — começou Gerluce — Esse macho afeta vocês, e somente vocês. Eu não tô nem aí. Não acho esse garoto tudo isso. Não vou dar nada que ele queira.

— Amiga… — disse Maggye, cautelosa — Eu não sou de ficar defendendo homem, você sabe. Mas ele parece gostar tanto de você. Você não ach-

— Não, Magnólia. Não acho.

— Afinal, por que você não quer ficar com o cara que, assim, todo mundo quer? — indagou Lucélia.

— Se todo mundo quer, todo mundo pode ficar à vontade pra pegar — rebateu Gerluce — Vocês precisam entender, de uma vez por todas, que eu não vou ser só mais uma na lista desse garoto. 

— Você é muito radical — opinou Lucélia — Ninguém tá te dizendo pra casar com ele. 

— Vamos encerrar esse assunto? — desconversou Gerluce — Vem cá, Lorena. Vem falar mais um pouquinho da Eduarda. 

Lorena revirou os olhos. Uns cinco minutos depois, mencionou Eduarda de novo. 

 


 

No fim da tarde de sexta, Lorena preparou sua mochila e foi para a portaria aguardar os pais de Maggye. 

Adorava quando Kasper e João Rubens permitiam que dormisse na casa deles. Em geral, sempre faziam algum programa cultural e comiam um lanche divino. Depois, ela e Maggye colocavam videoclipes na televisão gigantesca do quarto e pediam pizza de chocolate com morango tarde da noite. 

Naquele dia, no entanto, tinha um interesse a mais. Estava em busca de respostas. Respostas antropológicas. 

Era amiga de Maggye desde pequena. Por isso, descobriu muito cedo que existiam diversos modelos de família. Santiago e Zenilda também sempre a incentivaram a compreender o quão múltipla era a sociedade, e a existência de casais gays foi naturalizada para ela. 

Tudo era tão normal que, de certa maneira, nunca pensou muito nos pais de sua amiga enquanto indivíduos. Não parou para refletir sobre o que podiam ter sofrido em um país homofóbico, nem no que atravessaram para adotar uma filha. 

Entrou no carro de João Rubens um pouco mais observadora e atenta do que o usual. 

Mal tinha fechado a porta do carro e colocado o cinto quando Maggye começou a tagarelar sobre sua decisão de seguir Júnior no Instagram, depois de Gerluce prometer que mostraria uma foto dela para ele no trabalho. Lorena ouviu a história toda e fez comentários objetivos nas brechas certas, mas sua verdadeira concentração estava em outro lugar. 

João e Kasper estavam nos bancos da frente. Conversavam animadamente sobre pessoas que Lorena não conhecia — algumas eram pintoras e outras colecionadoras de obras de arte, pelo que conseguiu compreender. Revirou suas memórias de outras festas do pijama e percebeu que era sempre assim. Os dois papeavam sem parar, com uma cumplicidade que ela jamais viu em Zenilda e Santiago, e também não via em Santiago e Arminda, e em nenhum dos outros casais heterossexuais daquela faixa etária que conhecia. 

Mesmo no breve período em que os pais de sua amiga ficaram separados, viviam se encontrando civilizadamente, pelo que Magnólia contava. Até porque eram sócios. Não à toa, tanto se viram que voltaram.

Notou, contudo, que eles não se tocavam muito. Não se lembrava de já tê-los visto trocando afeto em público, fosse um beijinho discreto, um afago ou mãos entrelaçadas. Se perguntou os motivos disso. Seria por que estavam na frente dela e de Maggye? Seria receio? Medo? 

Estava aí uma boa questão. Se beijasse Eduarda — e pensar nisso já era o bastante para ficar abalada — também precisaria ter medo? 

Continuou pensando naquilo tudo, a ponto de ser difícil aproveitar adequadamente as atividades da noite. Assistiram a uma peça de teatro muito interessante que criticava o uso da Inteligência Artificial como mediadora na vida e na arte. Depois, foram a uma hamburgueria com jogos de tabuleiro e videogames antigos, onde Lorena aproveitou para tirar várias fotos de um Nintendo 64 e enviar para Eduarda. 

Quando estavam retornando para o carro, Kasper e João Rubens encontraram um casal de amigos, também gays. Os adultos engataram em um papo de elevador, enquanto Maggye e Lorena assistiam a alguns passos de distância.

— Mags — chamou Lorena — Os seus pais têm muitos amigos gays? 

Maggye riu.

— Nossa, amiga. É o que eles mais têm. 

Lorena hesitou. Respirou fundo.

— E lésbicas?

— Também. Minha casa às vezes parece a Parada do Orgulho.

Lorena fingiu rir, porque pareceu o certo a se fazer. 

— Eu tava pensando, Maggye. Eu não conheço nenhuma lésbica.

— Tem a Heloísa.

— Qual Heloísa?

— Do segundo ano B. 

— Eu não conheço ela. Só vejo no intervalo.

— Também tem a professora Mara.

— A de Biologia? — perguntou Lorena, chocada.

— A própria. Casada e tudo. 

— Como você sabe?

— Eu vi no Instagram dela — contou Maggye — Eu segui o perfil no início do ano, mas ela me removeu e trancou a conta logo depois.

— Por que você não disse nada?

— Porque ela claramente não queria que os alunos soubessem.

— E por que será que ela não queria? — era uma pergunta sincera. 

— Amiga…

Lorena suspirou. Sabia que a resposta era óbvia. 

— Ô Mags… você acha que é difícil pros seus pais?

— Ser quem eles são?

— É.

Maggye ficou em silêncio, e Lorena até pensou que ela não diria mais nada. 

Mas estava enganada. 

— Às vezes, tem uns idiotas que tornam as vidas deles muito difíceis. Mas… se uma pessoa não for quem é, qual seria a alternativa? 

 


 

bom dia, linda

indo pra escola dominical



Lorena passou mais de dez minutos lendo a mensagem de Eduarda e hiperventilando. 

Duda a tinha chamado de “linda”.

Linda.

Linda!!!!

Não conseguia parar de sorrir. Escondeu o rosto no travesseiro e sacudiu os pés, em uma tentativa de extravasar a euforia. 

Precisava fingir tranquilidade, mesmo que seu coração estivesse correndo uma maratona. 

Pensou muito no que responderia. Em uma estratégia ousada, resolveu dobrar a aposta. 



bom diaa, amor

vai dar uma palavra hoje?



Eduarda visualizou imediatamente. Mas desta vez, demorou muito para responder.

Isso foi o suficiente para Lorena se desesperar. Será que voou muito perto do sol? Será que assustou Duda com sua ideia imbecil de vocativo? 

Quase vinte minutos depois, recebeu um sinal de fumaça.



não

hoje não

mas se fosse dar uma palavra

seria

Cântico dos Cânticos 4:7



Lorena achou a colocação peculiar. Por que Eduarda citou um versículo específico que nem ia chegar a ler na igreja? Mas antes que pudesse investigar, Zenilda a chamou para ir à feira e ao mercado. Quando voltaram, Gerluce enviou uma mensagem dizendo que já estava chegando na estação de metrô. 

Um atrito de longa data no grupo de amigas de Lorena era que Gerluce, por morar muito longe do restante, vivia se atrasando para tudo que marcavam. No começo, todas tiveram empatia com os desafios de mobilidade urbana enfrentados pela única delas cuja família não tinha carro, mas logo ficou evidente que, para além das intempéries geográficas e de classe, Gerluce era uma tremenda descompromissada com seus horários. Prova disso era que, todos os meses, se atrasava para a sessão de filmes que acontecia na sala da casa dela — em geral, porque esquecia do mundo tomando banho e ouvindo música. 

Para aplacar as frustrações, em janeiro daquele ano, as garotas implementaram um novo sistema à prova de gerluçadas, neologismo que se tornou sinônimo de atraso doloso (quando há intenção de atrasar). 

Quando combinavam algum passeio aos fins de semana, procuravam marcar, no mínimo, para o turno da tarde. Isso dava alguma margem para que Gerluce pudesse se atrasar com calma e, ainda assim, chegar em um horário socialmente aceitável.

A segunda deliberação era que Gerluce jamais iria direto ao ponto de encontro final. Primeiro, ela passaria na casa de Lorena, que era a mais próxima de uma estação de metrô. De lá, iriam juntas ao destino — quase sempre de carona com Zenilda. 

A ideia era que, caso Gerluce gerluçasse, Lorena pudesse avisar Maggye e Lucélia com antecedência. Assim não sairiam à toa, nem ficariam plantadas por uma hora e quarenta esperando uma pessoa específica, como definitivamente já aconteceu antes. 

Lorena, como de costume, buscou a amiga na estação por volta da hora do almoço. Zenilda fez sua espetacular lasanha à bolonhesa com molho bechamel e massa caseira — provavelmente como uma espécie de afronta à Arminda, já que ficou indignada ao descobrir que os filhos jantaram lasanha de microondas no fim de semana anterior. 

Depois de encherem a lava-louças a quatro mãos, as meninas precisaram esperar a hora de ir ao shopping, onde encontrariam Lucélia e Maggye. Para matar o tempo, decidiram levar Donatello para brincar no Espaço Pet do condomínio. 

Lorena ajustou a coleira com peitoral no bichinho e saíram. Ao lado dela, Gerluce narrava em detalhes por que bloqueou seu conversante de Brasília —  justo o mais bonito de todos. 

— Afinal, onde você acha tantos caras de outro estado, hein? — indagou Lorena, destravando a porta com a biometria facial para que pudessem sair do edifício.

— Valorant, Twitter, Instagram… — elencou Gerluce — Todo lugar é um Bumble se você for desenrolada o suficiente. 

O Espaço Pet era um cercadinho com grades de metal e grama bem aparada. Havia uma série de cones, rampas e túneis coloridos para que os animais pudessem se divertir. Apenas uma outra moradora estava lá com seu Yorkshire. Lorena a cumprimentou com um meneio de cabeça e soltou Donatello, que saiu correndo na medida do que suas perninhas curtas permitiam. 

— E você? — perguntou Gerluce.

— O que tem eu? 

— Você realmente nunca conheceu alguém que te interessou? 

— Você diz… romanticamente?

— Ou sexualmente. Não somos puritanas aqui. 

Lorena engoliu em seco. Seus pensamentos tomaram a forma do rosto de Eduarda.

— É o que eu sempre digo pra vocês… sei lá, não consigo me conectar com os meninos. 

Era a mais pura verdade. Nos últimos dois anos, recebeu algumas investidas de garotos no colégio — um deles mandou até uma cartinha bem caprichada dizendo que queria ficar com ela. Mas embora tivesse uma óbvia curiosidade sobre relacionamentos, beijos, paixão e tudo mais, nenhum de seus pretendentes despertou o mínimo de qualquer vontade nela. Não teve paciência nem para manter uma conversa cordial com eles. 

Ficou esperando que Gerluce continuasse o assunto, mas não aconteceu. Em vez disso, sua amiga ficou lá, falando com Donatello usando o mesmo tipo de voz que se usa para falar com bebês. 

Não disseram mais nada por uns bons minutos, até o cachorro parar de dar bola para as humanas. 

— Você acha estranho eu não ligar pros meninos? — retomou Lorena. 

— Não — respondeu Gerluce, na lata, sem cerimônia — Você acha? 

—”Estranho” não é bem a palavra. Mas… eu ando tentando entender. 

— E já chegou em alguma conclusão? 

Lorena hesitou. Por enquanto, sentia que não tinha nem o vocabulário necessário para expressar que talvez gostasse de meninas.

Que gostava de uma menina específica. 

— Você pode ser assexual — sugeriu Gerluce — Ou demissexual, que é um tipo de assexualidade. 

— Eu já li essa palavra num conto, mas não lembro o que significa — confessou Lorena. 

— O demissexual só transa se gostar. Tipo, não rola sexo casual, nem tesão por gente que não tenha um negócio, sabe? Uma faísca. Um amorzinho. 

— Bom, mas aí eu teria que gostar primeiro. 

— Isso é.

— E a questão é que eu nunca gostei de nenhum menino.

A frase que saiu tão natural de sua boca acendeu o alerta de que, talvez, a resposta para suas dúvidas fosse mais simples e óbvia do que parecia. 

Gerluce também deve ter pensado o mesmo, porque disse:

— Você pode ser lésbica. 

Diante da hipótese, Lorena ficou quieta. Imaginou como o rótulo lhe serviria. 

Lésbica.

Sapatão. 

Sentiu vontade de rir. 

Era estranho e estrangeiro, como usar uma roupa de festa pela primeira vez e descobrir toda uma nova versão de si, que na verdade existia o tempo todo e estava apenas a um traje esporte fino de distância. 

— Como eu posso ter certeza, Gerlu?

— Tem um jeito. 

Por um momento, pensou que Gerluce fosse dizer que ela precisava beijar uma garota para descobrir — e com isso ela concordava. 

Tinha até uma candidata em mente!

— Você precisa fazer um teste — disse Gerluce, muito séria.

— Que tipo de teste?

— Um teste. Tipo… de perguntas. Com alternativas. Múltipla escolha.

Lorena ergueu as sobrancelhas.

— Como assim, Gerluce? Um teste, tipo… um quiz?

— Menina, um dia desses, na UBS, eu ganhei uma cartilha de uns residentes, e era justamente uma cartilha sobre sexualidade, identidade de gênero, métodos contraceptivos e prevenção de ISTs pra todas as pessoas, em todos os tipos de relacionamentos. Camisinha, Implanon, PrEP, essas coisas todas. Não vou mentir pra você, Lorena. Eu li sobre bissexualidade e fiquei muito pensativa.

— Ficou?

— Fiquei. 

— Você… acha que é bi?

— Eu não sou — respondeu, categórica.

— Tá.

— E sabe como eu sei que eu não sou?

— Como?

— Porque eu fiz um teste.

— Um quiz. 

— Exatamente. 

Lorena não podia acreditar no que estava ouvindo. Que maluquice. Como é que um teste poderia oferecer algum Norte em um assunto tão sério?

Por outro lado… mal não iria fazer. 

— E que teste foi esse que você fez?

— Não importa, porque você não acha que é bi — respondeu Gerluce — Eu vou ter que encontrar um de sapatona pra você. 

Em menos de dez segundos, Gerluce estava com o teste “Eu sou lésbica?” aberto no celular. 

— Tá! Vamos lá — anunciou, notoriamente animada — Lorena, eu vou ler as perguntas, você responde, depois a gente confere o resultado.

— Eu acho que prefiro fazer sozin…

— E aí eu vou dormir na pia querendo saber o desfecho? Nunca, Donnie Darko. Primeira pergunta: “Você já teve aquela sensação de borboletas no estômago ao falar com uma mulher?”.

Bom, essa seria fácil. Sentia algo assim todas as vezes em que conversava com Eduarda. 

— Alternativa A… — começou Gerluce.

— Não precisa nem ler. Eu com certeza já senti. 

— Que decidida! Gosto assim. Segunda pergunta: "Relacionamentos próximos com amigas já pareceram mais intensos ou meio românticos?".

Lorena titubeou. Aquela era a exata definição de sua dita amizade com Eduarda. Sua postura reticente, é claro, não escapou à Gerluce.

— Ai meu Deus, Lorena! Qual amizade? A gente? Eu e você?

— O quê? Claro que não! 

— Não entendi essa negativa tão enfática — disse Gerluce, um pouco ofendida. 

— A gente é tipo irmã!

— Então é com a Magnólia?

— A Maggye é minha amiga tem quase dez anos.

— A Lucélia?

— É a Eduarda.

— Eu sabia!

— Como assim sabia, Gerluce? Sabia nada. Você chutou todo mundo menos ela!

— Pensando na fofoca, seria muito mais interessante pra mim saber que minhas amigas estão se pegando, ou que minha amiga quer me pegar. Não é novidade nenhuma que você quer lascar um beijo na boca da ruivinha.

— Não é novidade? Como assim não é?

Lorena sentia-se exposta. Alguém gritou que o rei está nu. Será que todo mundo já estava sabendo do que meio-que-assim-mais-ou-menos estava acontecendo entre ela e Eduarda? 

— Você só fala nessa garota, minha irmã. 

— Eu só penso nela, Gerluce. É por isso.

— E o que você tá esperando pra tomar uma atitude, mulher? 

— Eu acho que ela também quer, mas não tenho certeza. 

— E não vai ter nunca se não tentar!

— Eu… acho que não sei tentar. 

Lorena sempre teve noção de que era a mais inexperiente entre suas amigas, mas aquela confissão a fez sentir ainda mais tapada que o normal. 

— Minha irmã, você não pode ser frouxa desse jeito! Eu, hein?

— Não é questão de ser frouxa — Lorena entrou na defensiva — Por acaso a sua cartilha da UBS diz alguma coisa sobre como chegar numa mulher, sendo mulher também, ainda mais quando a outra é religiosa? Porque essa é meio que a minha dúvida. Eu… como é que… sabe? Como é que se faz isso?

Gerluce apoiou os braços na grade do Espaço Pet e encarou o horizonte. Pareceu pensativa, mas também obstinada.

— O que te falta, minha guerreira, é referência — concluiu — Eu vou te ajudar, Donnie. 

— Mesmo? Como?

— Eu tenho uma ideia. Aguarde e verás. 

 


 

— Fico muito feliz em anunciar que o tema da nossa noite de filmes vai ser… — anunciou Gerluce, batendo nas próprias coxas para simular tambores — “Filmes sáficos”!

Estavam na arquibancada da escola. Lorena cogitou se atirar lá de cima, tamanho seu acanhamento. 

Lucélia olhou para os rostos de todas, como uma detetive. 

— A troco de quê? — perguntou, desconfiada.

— A troco da minha soberania como dona da casa, do cabo HDMI e do Drive com os filmes — argumentou Gerluce. 

— Alguma de vocês é sapatão e todo mundo aqui tá sabendo menos eu, é isso? — insistiu Lucélia, soando paranoica, embora não o estivesse tanto assim — Cara, eu sou sempre a última a saber!

— Não tem nada pra saber, Lucélia — assegurou Gerluce — A gente já teve o tema “Filmes gringos em que atores brasileiros dublam a si mesmos” e ninguém aqui se assumiu um ator brasileiro que dubla a si mesmo.

— Infelizmente — comentou Maggye, suspirando — Eu adoraria me assumir Bruna Marquezine em “Besouro Azul”. 

Lorena não ousou comentar nada. Temia que qualquer frase pudesse entregá-la como a possível lésbica do grupo. 

Uma hora depois, quando estavam se organizando para jogar vôlei na Educação Física, Gerluce a abordou no canto da quadra. 

— E aí? Gostou do tema da sessão de filmes?

— Gerluce… não precisav-

— Gostou ou não gostou?

Lorena suspirou.

— Amei — admitiu.

— O cinema vai ser uma faculdade de lesbianismo pra você, Lorena Ferette. 

— Fala baixo, por favor!

O encontro ficou marcado para quinta-feira daquela semana. 

Lígia, a mãe de Gerluce, trabalhava em um emprego com escala 12x36. Seu turno era das sete da manhã às sete da noite. Contudo, uma vez por mês, ela trocava de horário para ajudar uma colega e virava a madrugada no trabalho. Nesta data, acontecia a sessão de filmes. 

As quatro amigas aguardavam ansiosamente por aquele momento. Era uma das poucas ocasiões em que ficavam sem supervisão alguma e seguras de que ninguém apareceria até o amanhecer. 

Na edição “Filmes Sáficos”, Maggye e Lorena foram designadas para fazer o brigadeiro de panela e estourar pipoca na panela de pressão. Lucélia apareceu com o que conseguiu angariar de bebida alcoólica — no caso, cinco garrafinhas de Smirnoff Ice que teriam que dividir — e três refrigerantes de dois litros. 

Gerluce se atrasou. Ficou secando o cabelo em seu quarto enquanto as outras garotas iniciavam os preparativos na cozinha. 

O trio montou o sofá-cama e se acomodou em frente à televisão, enquanto a anfitriã ajustava o notebook para iniciar a transmissão. Lorena aproveitou a deixa para se comunicar com Eduarda. 

 

Oi, amor

A gente já vai começar aqui



oi lindaaa

ta bem

to no ônibus

voltando da aula de guitarra

te aviso quando chegar em casa

você já sabe quais filmes vão ver?

 

— Gerluce, já pode revelar a programação de hoje? — perguntou Lorena.

 

A Gerluce disse que

“Kissing Jessica Stein”

“Imagine Eu e Você”

e “Retrato de Uma Jovem Em Chamas”

 

nunca vi

 

Nenhum deles?

 

na verdade

nenhum filme lésbico

hahahaha

meu pai só deixa ter tv na sala

e tenho medo que olhem meu notebook

e meu usuário nos streamings

hahahaha

mas tenho vontade de ver esse “retrato”

já vi umas cenas

no tiktok



A gente pode dar um jeito

Eu transmito no Discord pra gente

Ooou

Você pode ir na minha casa um dia

E a gente assiste



 

A valentia repentina causou palpitações em Lorena. Fantasiou Eduarda em sua casa, assistindo filmes em sua cama, deixando seu perfume doce entranhado no lençol. Ficou inquieta, desconfortável em seus próprios ossos, com uma vontade absurda de contorcer o corpo.

— Credo, Lorena —  reclamou Lucélia, sentada ao lado dela — Tá com pulga? 

— Desculpa.

 

eu vou adorar ir na sua casa

pode ser quando você quiser

minha família gosta da arminda

acho que meu pai não vai encher o saco

se eu sair com você

 

Ótimo

Talvez você também possa vir numa próxima

Na sessão de filmes

Mais pra frente

Se você quiser

Sem pressão

A Maggye já reclamou que 

Só tem atriz branca na curadoria da Gerluce

Então já combinamos de fazer um “Filmes Sáficos Parte II”

Com mais representatividade



vai ser muito legal conhecer suas amigas

to entrando em casa, linda

 

Obrigada por me avisar

Já vai começar aqui

A Gerluce disse que vai me fazer comer o celular

E tacou pipoca na minha cabeça

E te mandou um beijo



outro pra ela hahaha

bom filme



Lorena ficou absolutamente vidrada na tela durante as seis horas e meia da sessão de filmes — contando as pausas para alguma das amigas ir ao banheiro ou buscar mais refrigerante, e também os cinco minutos que levaram surtando porque Maggye anunciou que Júnior a seguiu de volta no Instagram. 

Estava tão envolvida que mal comeu pipoca, experimentou apenas uma colherada do brigadeiro e nem se preocupou em fingir dar bicadinhas na Ice para se enturmar, como sempre fazia. 

Adorou “Kissing Jessica Stein” até certo ponto. A jornada de descoberta da protagonista foi elucidativa para ela, e o filme era divertido. Contudo, detestou o final, pegou asco da história e não entendeu por que o roteiro não usou o termo “bissexual”. Pesquisou no Letterboxd e descobriu que a produção era de 2001. Será que não existia bissexualidade antigamente? 

Amou “Imagine Eu e Você”. Definitivamente iria rever com Eduarda em algum momento, e depois dar um lírio a ela. Foi atravessada por um encantamento inédito ao descobrir uma comédia romântica envolvendo duas mulheres. Havia uma alegria, um orgulho, uma sensação estranha de pertencimento. Espiou o mundo ao redor e tudo pareceu diferente — um brilho novo em todas as cores. 

O que achou de “Retrato de Uma  Jovem em Chamas” certamente ainda não tinha nome. Era uma obra muito inteligente e sensível, repleta de referências — algumas que, desconfiou, nem compreendeu completamente. Percebeu em diversas lacunas de sua própria assimilação que faltava a ela repertório para entender o discurso em sua totalidade. Tinha muito para absorver com o intelecto, sem dúvidas. O mais impressionante, no entanto, foi onde o filme a tocou no que era ininteligível. Lorena encontrou na ficção um fragmento de seu espírito que vagou perdido por catorze anos; um pedaço de si que agora se revelava, de novo e de novo e de novo a cada instante. Algo que reluzia, e não podia ignorar. 

— Lorena? — chamou Maggye, cautelosa — Você tá chorando?

Sim. Estava.

Lorena chorava aos soluços, num fluxo incontrolável, diante dos créditos finais. Na frente dos outros e na frente de si, nua e crua, e também nova. Uma nova pessoa, uma nova Lorena. Agora, tinha um abismo no centro do peito que a deixou muito assustada, mas também a fez se sentir infinita, pequenina e imortal, tudo ao mesmo tempo. 

— O filme é muito bonito, né? — disse Maggye, subindo em Lucélia para alcançar Lorena e afagar a perna dela. 

Lucélia, mimetizando o acolhimento de Maggye, acariciou os cabelos de Lorena. 

Gerluce, sabendo um pouco mais da situação do que as outras, sorriu para ela sem mostrar os dentes. Seus olhos, então, se encheram de lágrimas também.

 


 

No sábado, Lorena estava apreensiva. 

Queria desesperadamente ir para a casa do pai porque ir para a casa do pai significava que encontraria Eduarda. Ao mesmo tempo, não sabia o que esperar depois da confusão da última vez. 

Entrou no carro em completo silêncio, abraçada à mochila e em um contraste gigantesco com Leo, que começou a falar pelos cotovelos assim que sentou no banco do carona. 

— Tudo bem, Lolô? — perguntou Santiago, quando já estavam no meio do caminho. 

— Uhum — respondeu ela, receosa — E com você? 

— Tudo certo — devolveu o pai, oferecendo à filha um sorriso amável pelo retrovisor — Fica tranquila, tá? Tá tudo certo de verdade. 

A interação a acalmou. Talvez o intervalo de duas semanas entre as visitas fosse uma coisa boa, afinal. Pelo menos era tempo o suficiente para acalmar os ânimos quando se desentendiam, sem mortos e feridos. 

Para Arminda, no entanto, não estava tudo certo. 

Assim que chegaram, a namorada de Santiago dirigiu a palavra apenas à Leonardo. E ao longo do dia, só falou com a enteada quando foi estritamente necessário e inevitável.

Lorena não se chateou, propriamente. Na verdade, para ela, era até melhor e mais agradável não conversar com Arminda. Mas estava se sentindo um tanto culpada, com o estômago embrulhado. 

Naquela tarde, compartilhou o cenário e suas percepções com Eduarda. 



Eu não sei o que fazer

Não gosto de conflito

Nem de causar problemas

Sei lá

Que sacooo

Me sinto péssima




o que eu posso fazer pra você se sentir melhor?




Pede pro meu pai largar essa mulher

Parece que aí

Todos os problemas vão SUMIR



Inclusive o problema que engloba Arminda querendo que o filho dela namorasse Eduarda. Lorena se irritou só de lembrar disso. 



isso acho que não posso

hahahaha

mas vou fazer outra coisa

 

O que?

 

peraí um pouco



Lorena esperou. Dez, quinze, vinte minutos. Nada.

Depois, precisou ir ao mercadinho da esquina com o pai. Quando voltou, finalmente havia uma mensagem.

 

olha meus stories 



Lorena obedeceu, é claro. Quem não o faria? 

E quase desmaiou ao ver do que se tratava.

Eduarda publicou um vídeo. Tocando guitarra.

Na gravação, os cabelos ruivos estavam presos em um coque e ela usava uma regata preta. O celular foi apoiado em algo que ficava em cima da cama — talvez um travesseiro ou um livro — e a filmagem foi feita de baixo para cima. 

Lorena demorou um pouco para processar o que estava ouvindo, muito embora fosse capaz de reconhecer aqueles acordes em qualquer lugar. 

Então, Eduarda começou a cantar. Com uma voz de anjo. Perfeitamente afinada. 

 

“One night I was bored in bed

And stalked you on the internet”

 

Era drop dead, de Olivia Rodrigo. 

 

“It's feminine intuition

'Cause I always had a vision of us standing like this

All pressed up in the bathroom line

You're looking like an angel on the walls of Versailles

The most alive I've ever been

But kiss me and I might drop dеad”.

 

Bom. Eduarda poderia ter postado esse vídeo antes. Teria poupado a Gerluce todo o tempo que gastou com o teste e a seleção dos filmes para a sessão de quinta-feira. 

Porque Lorena definitivamente gostava de mulheres. 

 

Eduarda

Eu preciso te ver.

 


 

Como um passe de mágica, a oportunidade providencial surgiu meia hora depois, quando Santiago sentou ao lado de Lorena no sofá da sala. 

— E aí, filha? Como tão as coisas? 

Ela encarou o pai e continuou em silêncio.

— Clima meio ruim, né? — comentou ele. 

— Isso é gentileza da sua parte. 

— Eu e a Arminda conversamos muito nesses últimos dias. Eu… fiquei muito bravo com você naquele dia, sabe? Não gostei de te ver agindo como uma mimada, fazendo escândalo no restaurante. Você não é assim. É uma menina gentil, amorosa, educada. E aí eu percebi que… talvez tenha te dado motivos pra agir daquele jeito. Eu botei o carro na frente dos bois, não devia ter colocado vocês pra conviverem com uma namorada minha tão cedo. 

Lorena deslizou no estofado. Mais uma vez, estava se sentindo culpada. 

Quer dizer, claro que tudo isso começou no divórcio, mas o fato é que explodiu com a madrasta por ciúmes de Eduarda. Precisava admitir isso para si mesma também. E ninguém tinha nada a ver com o fato de gostar tanto de Duda que ficou perturbada com a ideia de ela namorar outra pessoa. Talvez isso nem fosse saudável. Ai, meu Deus. Será que estava sendo tóxica? Perguntaria a opinião de Gerluce na segunda-feira. 

— Pai… me desculpa, tá? Eu me arrependi do que eu fiz, do que eu falei.  

— Tudo bem, Lolô. Eu já te desculpei.

— Mas a Arminda não.

— Você tentou pedir desculpas pra ela?

— …Não. 

— Bom, talvez esteja aí a sua resposta. A Arminda ficou muito magoada, Lorena. Família é um tema muito sensível. Você pegou bem na ferida dela. Não foi legal. 

— Eu sei, eu sei. Foi golpe baixo. 

— E sem fair play. 

Percebeu que os dois estavam sentados na mesma posição, fitando os próprios pés. Talvez Eduarda tivesse razão sobre compartilharem um jeito de fazer todas as coisas. 

— Me desculpa também, Lolô.

— Pelo quê? 

— Por… ah, eu fiz tudo errado. 

Lorena não respondeu. Não sabia exatamente por que ele estava se desculpando, e também não sentia que podia perdoá-lo quando nem ela mesma compreendia a dimensão da mágoa que vinha alimentando. 

— Eu vou na igreja com a Arminda agora à noite, tudo bem? — disse ele, mudando de assunto — A gente vai deixar o cartão, aí você e o Leo podem ped…

— Na igreja? — perguntou Lorena, como um cachorro erguendo as orelhas. 

— É. Hoje é dia de Santa Ceia.

Ela não fazia a menor ideia do que isso queria dizer, mas não importava.

— Eu quero ir junto. 

— Sério? — perguntou Santiago, surpreso. 

— Seríssimo — respondeu Lorena, já pulando do sofá — Vou tomar banho rapidinho!

Enquanto corria para escolher uma roupa, enviou uma mensagem para Eduarda. 



Você vai me ver hoje, sabia?



é sério??

onde???



Na santa ceia 

 


 

Agora que tinha novos interesses na casa do pai, Lorena preparou sua mochila de maneira um pouco mais estratégica. Para o culto de sábado à noite, escolheu uma regata marrom ajustada ao corpo, com decote arredondado e alças finas, e um cardigã creme de tricô. Sua calça jeans azul-clara tinha a cintura alta e um cinto marrom com uma fivela dourada. Excepcionalmente, trocou o All Star pelo Samba marrom que furtou discretamente de Zenilda. 

Entrou na igreja exultante, como uma noiva prestes a casar. Escaneou o ambiente em busca dos pais de Eduarda, e se sentiu vitoriosa ao encontrá-los. Acenou alegremente para Violeta e Henrique. Nunca esteve tão confiante na vida. 

Avistou Duda logo em seguida. 

Ela usava um vestido preto e acinturado, que se abria em uma saia rodada. A parte mais surpreendente é que era muito mais curto do que qualquer outro modelo que Lorena já a tinha visto usando — embora ainda em um comprimento adequado para o decoro do ambiente. O tecido terminava cerca de meio palmo acima do joelho. Havia ainda um decote com uma pequena abertura, ainda decente, mas que deixava o suficiente para a imaginação de uma garota de catorze anos. 

Lorena ficou boquiaberta. Porque Eduarda estava linda, divina, fantástica, mas também por um motivo extremamente humano: era a primeira vez que via as pernas dela. Foi difícil se controlar para não secá-la de cima a baixo, e talvez sua missão não tenha sido lá muito bem sucedida, porque Duda percebeu e corou. 

As duas se abraçaram com força, abandonando-se no encontro, sem nenhum limite ou ressalva. Sorriam abertamente, irrestritas, permitindo que o momento durasse muito mais do que qualquer contato amigável duraria. 

Mesmo quando se afastaram para poderem dar uma boa olhada uma na outra, não separaram os corpos. Eduarda manteve as duas mãos nos ombros de Lorena, e Lorena manteve as duas mãos na lombar de Eduarda. 

— Oi — disse Duda, sorridente.

— Oi — devolveu Lorena, rindo para o ar. 

— Ô, Lorena! — chamou Santiago — Vem cá.

Ela atendeu, a contragosto. 

— O que é?

— Você vai sentar com a Duda?

Lorena assentiu o mais enfaticamente que pôde.

— Tá. Vou te explicar um negócio sobre a ceia pra não ter problema — disse ele — Vão distribuir um pãozinho e uma bebida.

— O corpo e o sangue de Cristo — interveio Arminda, se esforçando para não olhar para a enteada. 

— É, é. Isso aí — acatou Santiago — Mas o ponto, minha filha, é que você não pode comer e nem beber.

— Por que? — perguntou a garota.

— Porque você não é batizada e não aceitou a Jesus — explicou o pai.

— Como assim eu não aceitei a Jesus? 

— Você não aceitou a Jesus como seu único Senhor e Salvador — explicou Arminda, tentando soar indiferente. 

Lorena a encarou como se não entendesse a língua portuguesa. 

— Foca no que importa aqui, Lolô: você não pode comer e nem beber, é isso. 

— Tá, pai. Combinado.

Ainda tentando compreender, saiu em disparada para ocupar sua posição ao lado de Eduarda.

— Tudo bem? — perguntou Duda, apreensiva — Brigaram com você por… alguma coisa? 

— Não brigaram, não. Vem cá, como é que se aceita a Jesus? 

— Você quer aceitar a Jesus? — questionou Eduarda, em absoluto choque. 

— Eu não sei nem o que é isso! Eu só queria comer o pãozinho que vão dar hoje aqui. 

Eduarda gargalhou, a ponto de chiar como um porquinho. 

— Eu te explico depois, linda. Mas fica em paz, o pão é velho e seco. Não tá perdendo nada. 

Com Duda a chamando de “linda” pessoalmente, realmente não estava perdendo coisa alguma. Só tinha a ganhar, ganhar, ganhar, ganhar, e não parava nunca de vencer.

 


 

Com tanta cerimônia em torno da ceia, Lorena criou a expectativa de uma solenidade diferente. Se decepcionou ao perceber que era, basicamente, um culto normal. 

Houve o momento dos louvores, assim como aos domingos, mas um pouco mais enxuto. Eduarda não participou, e explicou que aquele era um dia de hinos com uma execução um pouco mais tradicional, usando apenas teclado e violão. 

Depois, o pastor pediu que abrissem a Bíblia em um versículo sobre a última ceia de Jesus com seus discípulos, o que Lorena achou um pouco baixo astral. Antes que pudesse reclamar, no entanto, percebeu Duda colada nela novamente, no intuito de compartilhar a leitura. 

Assim como no último domingo, Eduarda não se afastou ao fim do verso. Lorena, então, percebeu uma novidade incrível.

O dorso de sua mão esquerda estava recostado no dorso da mão direita de Eduarda. 

O toque era tão inocente e despretensioso que parecia acidental, mas sua constância denunciava a intimidade. 

Em seguida, os fiéis foram convidados a fechar os olhos e orar, pedindo perdão pelos pecados.

Lorena espiou Eduarda e viu que ela estava com as pálpebras cerradas, embora não estivesse mexendo os lábios para dizer nada. Decidiu imitá-la. 

Enquanto as orações cresciam ao redor, altas e fervorosas, Lorena refletiu se havia algo para pedir perdão. Quer dizer, ela definitivamente cometeu alguns erros nas últimas semanas e estava longe, muito longe de ser perfeita. Mas pelo que aprendeu recentemente, ainda não sabia se concordava com a definição de pecado.

Cometia muitos equívocos — alguns por ignorância; outros por saber que estava errada e, ainda assim, não conseguir fazer diferente. Mas existiam muitas coisas em sua vida que a ajudavam a ser melhor a cada dia: seus pais, com suas conversas que podiam ser muito irritantes e um pouco sem noção, mas eram úteis; suas amigas, cada uma à sua maneira soltando pérolas de sabedoria que eram produzidas a partir de seus próprios enganos; e agora Eduarda, que a estava ensinando tanto sobre novos sentimentos e um novo mundo. 

Percebeu que era muito sortuda. Ainda não tinha certeza se acreditava em Deus, mas não sentia necessidade de pedir perdão a Ele (Ele? Ou Ela? Ou Elu? Elu parecia fazer mais sentido, para falar bem a verdade). Já tinha quem a libertasse do peso das falhas que a faziam ser quem era. 

E se não pudesse ser quem era, qual seria a alternativa?

Seus olhos ainda estavam bem fechados quando a mão de Eduarda, encostada na sua, se movimentou. 

E, na velocidade de um ato impulsivo, entrelaçou seus dedos. 

Será que Duda estava ouvindo esse barulho? Seu coração esmurrando o peito dessa forma? 

Sem ousar abrir os olhos, apertou a mão de Eduarda com ainda mais força. Queria assegurar a ela que estava tudo bem, tudo ótimo, tudo maravilhoso. E mesmo sem enxergar, sentiu que Eduarda estava sorrindo também. 

 


 

— Você vai tomar a ceia? — perguntou Eduarda, enquanto assistiam aos diáconos posicionando uma montanha de pedacinhos de pão em bandejas de prata. 

Continuavam de mãos dadas. 

— Meu pai disse que eu não posso.

— Muita gente aqui não pode, mas as pessoas não tão nem aí.

— Eu acredito, mas meu pai e a Arminda vão me encher o saco e eu não tô a fim de brigar com eles hoje — disse Lorena — Você pode tomar?

— Posso.

— Então você é batizada.

— Desde os doze anos.

— E aceitou Jesus?

— Também. 

Lorena estava muito curiosa sobre essa história de “aceitar a Jesus”. Aceitar Jesus aonde, exatamente? E o que isso tinha a ver com comer um pedaço de pão? Parecia um pouco arbitrário partindo de quem multiplicou pães e peixes. 

— Mas eu sei de um lugar em que nós duas podemos tomar a ceia — cochichou Eduarda, conspiratória.

— Onde? 

— Espera aí que eu tenho um plano. 

Lorena deu um sorriso de canto. Não sabia o que aconteceria, mas mal podia conter a animação para descobrir. 

Alguns minutos se passaram e os diáconos começaram a organizar as pessoas em filas, para que pudessem receber a Santa Ceia. 

— Você vai tomar, filha? — perguntou Violeta. 

— Vou deixar mais pro final, mãe — respondeu Eduarda, com uma expressão angelical digna de Oscar — Vou ficar fazendo companhia pra Lorena.

Violeta assentiu, e logo desapareceu em meio a multidão ao lado do marido. 

— Vamos — disse a ruiva, puxando Lorena pela mão assim que os pais sumiram do campo de visão. 

Como sempre, Lorena permitiu que Eduarda a conduzisse pelo labirinto da igreja. Caminharam apressadamente por um corredor e outro e outro e outro e outro. Desceram dois lances de escada e foram parar em uma garagem no subsolo. Havia uns poucos carros estacionados ali e nenhuma alma viva. 

Pensando melhor, talvez Lorena tivesse algo para pedir perdão: o pensamento obsceno que passou pela cabeça dela naquele exato momento.

Eduarda a conduziu até uma salinha claustrofóbica. Era uma cozinha. 

Havia uma senhora de cabelos grisalhos encostada na pia, assistindo a um vídeo num volume altíssimo em seu celular. 

— Oi, Rosa! — cumprimentou Eduarda, usando o mesmo tom dissimulado que dedicou à mãe minutos antes — O meu pai pediu pra pegar as coisas da ceia.

— Oi, Dudinha! — Rosa soou como se a adorasse — Pode pegar, meu bem. Mas vai precisar de mais, é? Já foi tanto lá pra cima…

— Pois é… — disse Eduarda, soltando a mão de Lorena para se movimentar habilmente, abrir um dos armários e agarrar uma garrafa de vidro, um saco de papel pardo e vários copinhos de plástico, uns enfiados nos outros  — Casa cheia hoje!

— Que benção então, né? — respondeu Rosa.

Eduarda se despediu e saiu, veloz. Lorena entendeu que deveria segui-la. 

Se embrenharam por mais alguns corredores e degraus. Viraram aqui e ali e também lá. 

— Como você conhece isso aqui tão bem? — perguntou Lorena.

— O meu pai era diácono, eu vivia aqui quando tinha uns… oito, nove, dez anos. Depois ele largou o cargo, porque acha que o pastor-presidente é, nas palavras dele, “muito mole”. Mas continuamos frequentando, como você pode ver. 

Depois de muito caminhar, finalmente pararam diante de uma porta. Eduarda entregou o saco de pães para Lorena e girou a maçaneta. 

A sala era simples — pequena, com paredes brancas e luz amarela. Havia uma pilha de cadeiras plásticas de vários tamanhos, adultas e infantis. A única decoração era um painel em formato de arco-íris, com os dizeres “Sejam bem-vindos”.

— Essa aqui era a salinha do ministério infantil quando eu era criança — explicou Eduarda — Depois mudaram pra uma sala maior, conforme a igreja foi crescendo. Eles têm vários planos pra usar esse cômodo aqui, mas até agora nada. 

As duas sentaram no chão, em posição de lótus, uma de frente para a outra. Duda ajeitou seu vestido como se estivesse preocupada com os bons modos, mas a verdade é que não fez tanta questão assim de esconder as coxas à mostra. 

Lorena foi atingida por uma repentina necessidade de se abanar.

Abriram o saco de pães, e Eduarda tinha razão: os pãezinhos já deviam estar fazendo aniversário. Estavam todos secos e esfarelando. 

— Não era bem isso que eu esperava de um evento chamado “Santa Ceia” — comentou Lorena, decepcionada.

— Tem sentido, quando você pensa que o objetivo é nos lembrar que alguém morreu por nós na cruz, por conta dos nossos pecados. 

Bom, realmente. O pão francês dialogava diretamente com o clima fúnebre.

Eduarda girou a tampa da garrafa de vidro até romper o lacre. 

— Isso é vinho? — perguntou Lorena

— Não — e Duda riu — É suco integral de uva. 

— Sério? — Lorena estava decepcionada. 

— Amor, você achou mesmo que iam distribuir vinho pra galera? Esse pessoal é inimigo da diversão. 

Lorena não conseguia mais se lembrar do que achou. Estava desnorteada por ser chamada de “amor”.

— Você gosta de vinho? — perguntou Eduarda, casualmente.

— Eu… n-não sei. Tipo… ai. Minhas amigas gostam, mas eu sou medrosa pra bebida. Tenho certeza que a minha mãe vai descobrir se eu beber de verdade, e aí vai ser uma confusão. 

— Eu já bebi vinho. Não é tão diferente assim desse suco — disse Duda, pouco antes de tomar um gole comprido do suco diretamente da garrafa. 

Lorena assistiu em silêncio. Sentiu a densidade do ar mudando, como uma tempestade se aproximando no horizonte. 

— Vamos jogar “Eu Nunca”? — convidou a ruiva, numa entonação despreocupada mas que, de alguma forma, também soou predatória. 

— Como… como joga?

Eduarda alcançou dois copinhos de plástico. Encheu-os vagarosamente. 

— Você diz algo que supostamente nunca fez. Tipo… “Eu nunca tomei vinho”. E aí, quem nunca fez bebe um gole de… bom, vai ter que ser suco, né? 

— Tecnicamente, é sangue.

— Na verdade, só é a partir da consagração, e esse aqui saiu direto da cozinha, mas… acho que fica menos bobo se a gente pensar assim.

Colocaram a garrafa entre elas e cada uma segurou um copo.

— Vou começar — anunciou Duda — Eu nunca… bebi vinho. 

— Mas você já bebeu!

— Sim. Mas a premissa pode ser falsa. Talvez seja apenas algo que você quer saber sobre o outro. 

E Eduarda, como se fosse o Diabo, piscou para Lorena e virou seu copo, apenas para enchê-lo novamente em seguida. 

— É sua vez, linda. 

— Tá. É… hm… eu nunca… me apaixonei antes. 

Lorena logo compreendeu que construiu uma armadilha para si mesma. Achava que assim, talvez, quem sabe, podia estar apaixonada, ou se apaixonando, por Eduarda. Mas ainda não tinha certeza.

Agora, teria que pensar muito rápido para chegar a uma conclusão. 

Eduarda bebeu sua porção. Lorena, pressionada pela urgência, fez o mesmo. 

— Eu nunca… — disse Duda, enquanto enchia ambos os recipientes — …beijei uma menina. 

Foi como se alguém esbofeteasse Lorena. Sentiu-se zonza e também viva, muito viva, extremamente viva. Olhando em retrospecto, deveria ter imaginado que esse era o rumo do jogo. 

Ela, é claro, permaneceu imóvel. 

Eduarda, por sua vez, bebeu até a última gota. 

Aquilo foi… esclarecedor. Talvez Duda soubesse o que estava fazendo com ela, com elas, o tempo todo. 

A ideia de beijar uma garota mais experiente, que saberia onde levá-la e o que fazer, causou um arrepio na espinha. 

Lorena respirou fundo e seguiu para sua rodada.

— Eu nunca beijei ninguém.

O rosto de Eduarda, tão caçador, se desfez um pouco em suavidade. 

— Mesmo?

— Mesmo.

Nenhuma das duas se mexeu. Qualquer movimento seria, por natureza, brusco. 

Lorena começou a levar o copo até a boca — simplesmente porque seus lábios ficaram subitamente secos, ainda que realmente nunca tivesse beijado na vida — mas Eduarda segurou seu pulso no intuito de impedi-la. Delicadamente, tomou o copinho da mão dela e colocou no chão.

Se olhavam fixamente. A eletricidade era a única forma de comunicação entre elas; idioma comum que fluía de uma para a outra, de outra para uma, e combinava em segredo o que fariam a seguir. 

 Eduarda, tentando inutilmente ajeitar o vestido, deslizou pelo chão gelado na direção de Lorena. Se aproximou até que os joelhos de ambas, ainda em lótus, se tocassem e estivessem quase sobrepostos. 

Lorena estava tão nervosa. Sua mente foi tomada por um turbilhão. Revirou os arquivos de sua memória em busca de todos os beijos que leu em livros e todos os beijos que viu em filmes e todos os beijos que presenciou em festas e todos os beijos que deu em Duda dentro de sua imaginação. 

A mão da guitarrista tocou sua bochecha e a acariciou com o polegar. Os nervos de Lorena entraram em curto-circuito enquanto ela reparava em tudo de novo —  as sardas e o rímel e a boca a boca a boca a boca e o cheirinho de cereja. 

Eduarda aproximou o rosto, e Lorena soube, enquanto fechava os olhos, que jamais esqueceria aquele segundo específico; o pequeno e inestimável segundo em que sabia, com toda certeza, que estava prestes a beijar a menina que tanto desejou; que estava, sim, claro, absolutamente, apaixonada por ela; e que finalmente seria como nos livros, como nos filmes.

Naquele segundo específico, sabia, com a plenitude de seu coração, que Eduarda era — e portanto sempre seria — seu primeiro amor. 

Quando os lábios de Eduarda tocaram os dela, houve tudo que a ficção prometeu e também um pouco mais. 

Enxergou fogos de artifício e ouviu trombetas (esperava que não fossem as do Apocalipse. Mas se fossem, tudo bem. Para ela, estava ótimo). Experimentou a sensação de queda livre em seu estômago, competindo diretamente com a textura macia do beijo e o gosto mesclado de cereja e uva na ponta da língua. 

No começo, Lorena tinha consciência de que era muito desajeitada. Beijar envolvia coordenar muitas tarefas ao mesmo tempo. Tentou acelerar o ritmo, porque tinha sede e pressa, mas entendeu que Eduarda queria um pouco mais lento e deixou que ela ditasse a velocidade, já que evidentemente possuía mais bagagem. Ajustaram o encaixe e, no processo, colidiram os dentes da frente. Lorena ficou muito envergonhada, mas logo esqueceu o incidente. 

Modéstia à parte, não demorou muito para pegar o jeito. Isso se devia ao fato de que Duda era uma excelente professora. Aos poucos, entendeu a mecânica da coisa. Conforme adquiriu confiança, passou a explorar mais Eduarda com a língua. Queria ascender ao céu da boca e ir o mais fundo possível, até ter a sensação de que poderia engolir e também ser engolida de volta. 

Seu corpo matou a racionalidade e agiu instintivamente, puxando as alças do vestido de Duda contra si, apenas pela necessidade de se agarrar a algo que fosse físico e terreno. Não sabia dizer como isso aconteceu, mas de repente, estava em cima da ruiva, praticamente no colo dela. Em retribuição, com a mesma naturalidade com que segurava sua guitarra, Eduarda enlaçou a cintura de Lorena.

Eram muitas sensações, todas viciantes, inebriantes e trêmulas, competindo entre si e também se entrelaçando. Lorena avançava, cada vez mais exploratória. Desejava ir a outros lugares, descobrir novos cantos, novas formas. 

Seu apetite de algo incompreensível era tanto que, quando deu por si, percebeu que estava empurrando Eduarda em direção ao chão. Duda, sem qualquer noção espacial dada a situação, chutou um dos copos, e o suco de uva se espalhou pelo piso de linóleo branco. 

Felizmente, elas não estavam nem aí para o incidente, tampouco para a bagunça que causaram. 

Na tentativa de retomar o controle, Eduarda segurou Lorena com firmeza e, sem nunca quebrar o beijo, rolou com ela pelo chão. Rolaram uma vez, duas, três, e…

Ouviram o som inconfundível de vidro rachando. 

Lorena empurrou Duda e levou a mão até o bolso de trás da calça, onde estava seu celular. 

— Ai, a gente… a gente… — Eduarda estava ofegante a ponto de nem conseguir construir uma frase simples — A gente estragou seu telefone?

Temerosa, Lorena avaliou os danos — e também viu outra coisa na tela que a preocupou. 

— Não, amor. Foi só a película, dá pra trocar. Mas a gente tem outro problema…

— Qual?

Lorena exibiu o visor do celular para sua… bom, o que quer que Eduarda e ela fossem ser quando conversassem sobre isso. 

Havia dezesseis chamadas perdidas do contato “Pai”. 

— Que droga — disse Eduarda, se levantando em um pulo e oferecendo as mãos para ajudar Lorena a se erguer também — Me desculpa, amor, eu perdi totalmente a noção do tempo e…

Lorena a interrompeu com um selinho estalado. 

— Relaxa, Duda. Vai ser só mais uma bronca pras tantas que eu venho levando. A gente vai sobreviver.

— A Arminda vai te odiar.

— Acho que eu vou superar — disse Lorena, rindo.

As garotas avaliaram a situação. Já que estavam ferradas de qualquer forma, poderiam tirar pelo menos uns dois minutos para ir ao banheiro e tentar disfarçar o que tinham acabado de fazer. As bocas de ambas estavam inchadas e os cabelos completamente desgrenhados. 

— Ei… — ensaiou Eduarda, enquanto caminhavam pela igreja de mãos dadas — Sabe a palavra que eu te falei na semana passada que daria na Escola Dominical, se fosse dar alguma?

— Eu lembro disso, mas pra ser sincera, não lembro o versículo. 

— Você não chegou a procurar?

— Não. Eu ia, mas…

— Não procure.

— Ué, Eduarda. Por que não?

— Deixa pra lá. Era uma bobagem que eu tentei fazer…

— Agora é que eu vou olhar!

— Lorena, por favor…

— Tá. Então me dá outro versículo aí e eu prometo que não olho aquele. 

Eduarda não precisou pensar muito. 

— Primeira Coríntios treze, do versículo quatro ao versículo sete. 

— Tá. Me manda isso aí por mensagem que eu prometo que, se não tirarem meu celular de mim pra sempre depois do nosso sumiço, eu procuro quando chegar em casa.

— Lorena?

— O que foi?

Duda a encarou com aqueles olhos de jabuticaba enormes repletos de ternura. 

E Lorena soube: finalmente encontrou Deus em alguma experiência. 

 

Notes:

Agradeço às queridas do Desafio Loquinha por me darem a oportunidade de contar essa história. Criei um amor muito profundo pela versão teen de nossas queridas meninas, e escreveria esse universo pra sempre hahahaha

Vocês me contam o que acharam? Ansiosa pelos feedbacks!

Beijo a todas todos todes, obrigada por tudo e obrigada por tanto.