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Todo cliente que via-se saindo da pequena padaria na colina apresentava uma expressão de puro alívio. O sentimento devia-se ao neto do dono do estabelecimento — um jovem peculiar chamado Zenitsu.
Peculiar e tagarela.
Zenitsu falava pelos cotovelos com toda pessoa que entrava para comprar algo, especialmente com as garotas que vinham depois da aula a fim de conseguir os deliciosos croissants de chocolate e os pães quentinhos de maçã que o padeiro fazia e que acabavam num piscar de olhos. O avô de Zenitsu confiava muito em seu talento culinário para temer que o neto afastasse os clientes com sua tagarelice, então deixava-o cuidando do balcão sem se preocupar com nada além das massas que tinha de sovar e assar.
Como de praxe, numa bela tarde de sol, Zenitsu aguardava as moças chegarem para comprar guloseimas e ouvirem-no sobre as novidades do dia.
Ele não tinha novidade nenhuma, mas sempre tinha muito a falar — sobre o quanto elas eram bonitas, sobre o quanto ele as amava, sobre o filme de terror que ele vira na noite anterior e que não o deixara dormir, e que por isso ele estava com olheiras, sobre o susto que ele levou ao ver as mesmas olheiras no espelho pela manhã, sobre a reclamação que seu avô fizera em relação a seus gritos de horror, sobre…
Muitas coisas a falar.
Entretanto a tarde passou e nenhuma daquelas moças viera. A hora de fechar a padaria chegava junto com a noite sorrateira e o desânimo de Zenitsu só aumentava.
Mas o dia ainda não havia terminado.
A campainha da entrada tocou com a abertura da porta e uma garota de olhos cor-de-rosa dirigiu-se até o balcão. Zenitsu nunca tinha visto aquela garota, ela com certeza vinha de outra cidade.
Ele ergueu seu maior sorriso, pronto para transbordar o charme que ele achava que tinha para a pobre moça, e disse:
— Boa tarde, o que deseja? Nós temos os melhores croissants de chocolate da cidade, mas temos também os de queijo, os de creme… Que tal um bolo de chocolate ou você prefere de laranja? Eu acho que você vai adorar nossas tortas de frutas, a propósito, qual seria o nome da bela dama?
A garota piscou algumas vezes, não respondeu, sequer abriu a boca. Sua única ação foi erguer as mãos e fazer sinais que Zenitsu não entendia.
— Me desculpe, eu não… — começou a dizer, mas se deu conta de que a garota poderia ser surda, portanto suas palavras não fariam a menor diferença. Tentou imitar a garota fazendo gestos que ela poderia compreender. — Você… — apontou para ela e depois para os próprios ouvidos — pode me ouvir?
Ela negou com a cabeça e em seguida apontou para os muffins de morango na cesta em cima do balcão.
— Você — disse Zenitsu apontando para ela e depois para a cesta — quer um desses?
A garota usou o indicador para apontar três muffins.
— Você quer três? — perguntou o outro fazendo o sinal de 3.
Ela assentiu sorrindo e Zenitsu não pôde deixar de sentir-se satisfeito consigo mesmo por ter sido capaz de atender a garota. Foi algo diferente, ele sempre tagarelava para todos os clientes e não iria negar que gostaria de tagarelar para a garota nova também, mas entendia que ela tinha outras formas de comunicar-se que não a fala.
Mais tarde, naquela mesma noite, Zenitsu usou o computador para pesquisar sobre a Linguagem de Sinais, reconheceu alguns dos gestos que a garota fizera e viu uma porção de vídeos. Antes de dormir já conseguia fazer seu primeiro nome.
Nos dias que se seguiram Zenitsu, com suas constantes pesquisas e seu desempenho em aprender, fez inúmeras descobertas.
O nome da garota era Nezuko e, de fato, ela era nova na cidade e surda de nascença.
Nezuko vinha na padaria quase todos os dias para comprar seus três muffins de morango. Ela e Zenitsu comunicavam-se cada vez melhor e quando ele finalmente sentiu que era capaz de dizer tudo o que quisesse na Linguagem de Sinais, não havia quem o segurasse quando Nezuko chegava.
Zenitsu agora era duas vezes mais tagarela e dez vezes mais indiferente às outras moças que vinham à padaria. Gostava era de conversar com Nezuko, de vê-la sorrindo e de saber que podia entendê-la, de separar os melhores muffins de morango para quando ela viesse, de saber quais eram as novidades da parte dela.
Porque, realmente, Nezuko também falava muito com as mãos, era tagarela que nem Zenitsu.
