Work Text:
Hyunjin se achava um cara de sorte por ter conseguido um emprego na área de entretenimento. Desde criança ele vivia nos bastidores junto ao seu pai, que era diretor de palco e sabia trazer muitas ideias impossíveis para a realidade. Admirava o tipo de trabalho que ficava atrás das performances, tornando possível uma coisa que foi só fantasiada, permitindo que muitas pessoas pudessem ter uma experiência incrível. Foi assim que naturalmente se interessou por profissões envolvidas à arte, especialmente a música, mas não para que fosse a estrela a entreter os fãs. E, sim, para que permitisse que aquela celebridade estivesse lá e desse o melhor de si.
Por mais que fosse atrativo se esgueirar à sombra de seu pai e tentar fazer o mesmo que ele, optou por gerenciar a carreira de artistas, porque havia algo de muito brilhante em se envolver com quem estaria no palco, dando a vida para um show . Ele gostava muito de conhecer as celebridades que criavam a música que seria ouvida por milhares de pessoas, compartilhadas e então cantadas a plenos pulmões.
Exceto, é claro, em momentos como esse, em que precisava lidar com o temperamento deles.
— Eu não vou voltar lá — Chan, um cantor de uma banda de rock famosa e também seu amigo de longa data, disse ao cruzar a sala depois de entrar dramaticamente pela porta da frente. — Não quero mais saber disso.
Hyunjin rolou os olhos e respirou bem fundo. Esse seria mais um dia daqueles.
— Posso saber o que deu errado dessa vez? — perguntou com toda a calma que conseguiu reunir. — Você não espera que eu adivinhe sempre o que você desaprova. Por mais que você tenha seus caprichos, eu ainda sou um homem comum.
— Que se foda — reclamou entredentes e foi na direção da cristaleira buscando a garrafa pesada de rum com a mão esquerda. — Eu não preciso de nada disso.
— Ok, que tal a gente não descontar as frustrações no álcool enquanto estamos tomando remédios? Só pra variar? — sugeriu cuidadosamente e interrompeu Chan na hora de servir um copo. — Eu sei que é tentador, mas…
Chan retribuiu o olhar suplicante do seu agente e desistiu da vontade de queimar a garganta só porque dessa vez ele estava verdadeiramente cansado de brigar.
— Vamos lá. O que aconteceu dessa vez? Você vai precisar me deixar te ajudar. Já faz três semanas, Chan. Você precisa começar um tratamento para fortalecer sua musculatura. Só repouso não vai adiantar. E quando começarmos a fazer shows novamente? Você não quer voltar para o palco usando essa coisa, quer?
O cantor mordeu a bochecha e flexionou os dedos da mão direita, sentindo uma agulhada de dor subir por todo o seu braço que se apoiava numa tipóia.
— Eu não acho que fisioterapia vai me ajudar. Sério. Eu acho que essa dor é passageira. Quando eu voltar a malhar, isso vai sumir.
— Foi um acidente feio. Você quer mesmo confiar que não é nada ? — o encarou com incredulidade.
— Já faz tempo. Eu estou tomando os remédios. Não fiz porra nenhuma além de repousar. Agora você vem com essa história de reabilitação.
— Porque eu não estou imaginando a sua careta de dor quando você levanta o braço. Você não consegue mais tocar sua guitarra. Vai querer viver à base de anti-inflamatórios pelo resto da vida?
— Não me parece má ideia. Não tem um milhão de pessoas que fazem isso?
— Está falando sério?
Chan se sentou no sofá e encarou o teto.
— A fisioterapeuta te tratou feito uma fã maluca? Nós fizemos ela assinar um termo de confidencialidade.
— Não é isso — falou baixinho. — É só que… deixa pra lá. Estou cansado disso. Já é a terceira profissional que consultamos. Por que acha que isso ainda vai dar certo? Elas são todas horríveis. Elas não entendem a minha dor.
Hyunjin quis fingir náuseas ao escutar aquele melodrama. Os artistas eram tão sensíveis com a própria dor que se isso não virasse música e eles lucrassem, Hyunjin já teria surtado por muito menos.
— Podemos tentar uma última vez, pelo menos? — concedeu, abordando uma tática diferente porque ele sabia que era impossível convencer Chan quando ele já estava estressado depois de tantas tentativas fracassadas. — E aí eu abandono a ideia. Hein? O que acha?
O cantor suspirou pesadamente e balançou a cabeça.
— Você ao menos podia me achar um fisioterapeuta bonitinho já que vou ter que aturar uma hora de sofrimento.
E ouvindo essas palavras mágicas, Hyunjin teve uma ideia.
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Han Jisung não se orgulhava de estar comendo o terceiro pedaço de cheesecake num intervalo de uma hora, mas ele não ligava para isso quando se escondia no armário para afogar as mágoas com doce. Ele precisava se alegrar de algum jeito, ok? E ele amava comer cheesecake.
— Jisung? — sua colega de trabalho falou do outro lado da porta, já adivinhando onde ele tinha se enfiado. — Telefone pra você.
Jisung engoliu a última colherada e saiu da sua caverna com curiosidade.
— Quem é?
— Disse que é amigo seu. Quer marcar uma consulta.
Jisung jogou fora o garfo e o prato vazio de plástico e foi até a recepção.
— Oi? Jisung falando.
— Oi, Jisung! É o Hyunjin. Lembra de mim? Você cuidou da minha mãe quando ela caiu no ano passado.
— Lembro sim. Sua mãe está bem?
— Muito bem. Graças a você. Hoje ela faz natação no clube e até karatê.
— Bom, ela sempre foi uma senhorinha muito ativa. Não foi trabalho nenhum cuidar dela. Ela fez todo o trabalho sozinha — comentou com um sorriso. — Ela acabou se machucando novamente?
— Não. Ela está bem. Na verdade eu estou precisando contratar um fisioterapeuta para outra pessoa. Para um amigo com uma fratura no ombro.
— Sério? O que aconteceu?
— Um acidente. Caiu de moto. Já tem um mês. Agora ele precisa voltar a se exercitar, mas…
Jisung fez um ruído em concordância e começou a procurar por horários em sua agenda.
— Estou com essa semana bem cheia, Hyunjin, mas talvez eu consiga encaixá-lo. Qual foi a prescrição médica?
— Ele precisa de três sessões na semana. Mas a gente pode negociar o que couber na sua agenda.
— Tem certeza? — uniu as sobrancelhas, intrigado com a insistência. — Tem outros fisioterapeutas que eu conheço que tem mais horários disponíveis e eles são muito bons…
— Não vai rolar. Tem que ser um fisioterapeuta tipo você.
Jisung riu.
— Isso é muito lisonjeiro, mas…
— Prometo que pago muito bem.
— Isso está me cheirando a paciente problemático.
— Longe disso. É que eu vi seu trabalho com a minha mãe. Ela ia toda arrumada pra sessão com o fisioterapeuta bonitinho dela. Espirrava perfume e colocava os brincos de pérola. Você era o queridinho dela.
Jisung soltou outra risada, se lembrando com carinho da senhora simpática.
— Você teve muito carinho com a minha mãe. E eu acho que esse meu amigo está precisando disso no momento.
— Hm… será que seu amigo consegue vir amanhã cedo para eu examiná-lo?
— Tem problema você vir até a casa dele? É só porque ele anda um pouco zangado por causa da dor. Queria que ele não precisasse se movimentar muito.
— Tudo bem. Mas provavelmente ele vai ter que vir aqui na clínica para as próximas vezes.
— Claro, claro. É só pra ele te conhecer.
Jisung concordou ainda cético com aquela conversa, mas ele não quis forçar Hyunjin a dar mais detalhes. Provavelmente não receberia mais informações a julgar toda aquela discrição. Anotou o endereço na agenda e foi continuar os atendimentos do dia.
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Hyunjin tomou o tablet da mão de Chan e o escutou protestar.
— Já chega.
— Eu estava lendo as notícias!
— Você estava se entupindo de comentários que eu sei. Você não precisa dessa merda negativa.
— Eu queria saber como a família do garoto está.
— Está muito bem. E está muito satisfeita que você cuidou de todo o tratamento do filho que já se recuperou e voltou à vida normal. Ao contrário de você, que em vez de melhorar, regride a cada dia.
— Eu achei que você seria mais dócil comigo — Chan fez uma careta chateada.
— Doce eu fui lá no começo, quando você sentia dor de verdade. Agora estou começando a achar que você está se machucando de propósito.
O som da campainha tocando interrompeu o que quer que Chan estava prestes a argumentar em sua própria defesa.
— O fisioterapeuta chegou — Hyunjin exclamou aliviado.
— O quê ? Você chamou o fisioterapeuta aqui ? — sobressaltou.
— Não tive escolha. Agora veste uma camisa e se comporte como um garoto bonzinho.
Hyunjin foi até a porta e convidou Jisung a entrar.
— Desculpa o atraso. Não sabia que eu ia ter que passar por uma inspeção na entrada do condomínio — o fisioterapeuta sorriu sem graça.
— É, desculpa não mencionar essa parte. O que me leva a ter que te passar outra situação. Meu amigo… bem… meu amigo é bem famoso. E eu vou precisar que você assine uns papéis. É por questões legais. Nada demais. Termos de confidencialidade.
— Famoso? — a palavra causou calafrios em Jisung. — Q-Quem é o seu amigo?
— Bang Chan. Talvez você já tenha ouvido falar.
Jisung meneou a cabeça, vasculhando a memória. Não se recordava do nome de nenhum lugar. Isso não ajudou muito a atenuar seu nervosismo, pois atender um paciente famoso significava muita coisa. Ele conhecia fisioterapeutas que depois de atenderem atores, músicos e influenciadores começaram a receber uma clientela muito importante em seguida. Aquele encontro poderia pesar para a sua carreira se corresse tudo bem.
— Você poderia ter avisado por telefone esse pequeno detalhe.
— Fiquei com medo de que você recusasse. Foi mal — Hyunjin admitiu e Jisung se compadeceu dele. — Estou um pouco desesperado — sussurrou e espiou por cima do ombro. — Ele já dispensou uns profissionais antes por motivos discutíveis e precisa de ajuda antes que aquele braço fique pior.
— Ok, vou fazer o meu melhor. Mas não garanto nada.
Jisung ficou impressionado com a quantidade de cláusulas, mas numa rápida lida deu pra notar que era só pra deixá-lo ciente de que ele não poderia vazar informações ou seria processado. Sem fotos. Sem vídeos. Sem fofocas.
— Obrigado por sua compreensão — Hyunjin disse com suavidade. — Muito obrigado por ter vindo me socorrer. Eu já não sabia mais o que fazer.
Eles foram até a sala e Jisung ficou boquiaberto com a decoração luxuosa cheia de instrumentos musicais, discos de vinil e poltronas que deviam custar seu salário anual. Ele se perdeu admirando os detalhes que mal reparou que havia mais uma presença na sala que tinha o tamanho da sua casa inteira.
— Chan, esse aqui é o Jisung. Jisung, conheça o Chan — Hyunjin os apresentou.
Jisung olhou para o rapaz que devia ter mais ou menos a sua idade e estava vestido com uma calça preta, o braço direito numa tipóia e exibia uma expressão desgostosa. A camiseta que ele tentava vestir estava pendurada no ombro bom, o que o fez lembrar de um vídeo de um gato que foi obrigado a vestir roupinhas e não parecia nem um pouco contente com a brincadeira de sua dona.
Hyunjin olhou com advertência para Chan.
— Você teria um lugar mais reservado para que eu possa atendê-lo? — Jisung pediu.
— Vai ser aqui mesmo — Chan o cortou, sem dar qualquer margem para discussão.
Hyunjin pediu desculpas com o olhar e avisou que buscaria alguma bebida. Jisung pousou a mochila no chão e deu mais uma olhada no cenário ao redor, o ambiente amplo deixando-o ligeiramente intimidado. Hyunjin voltou com uma bandeja com uma jarra cheia de água, gelo e rodelas de limão siciliano. Ele serviu um copo alto muito bonito de cristal ao fisioterapeuta que outra vez ficou momentaneamente abalado pela demonstração de riqueza.
— É só um copo — o mau humorado Chan disse para Jisung quando eles ficaram a sós novamente e o fisioterapeuta não tinha parado de se encantar pelo objeto.
— Ah… — Jisung corou, pego desprevenido pelo comentário maldoso. — Bom, é um copo bonito. E eu gosto de olhar para coisas bonitas com atenção.
Jisung tomou um pequeno gole da água gelada e pigarreou. Tirou um caderno da mochila e uma caneta, procurando uma página em branco.
— Nós não vamos ser muito técnicos aqui. Vou só fazer algumas perguntas sobre como você está se sentindo.
— Com dor — respondeu curto e rápido.
— De zero a dez, quanto você diria que é o tamanho dessa dor?
— Ah, uns 9. Se eu não me mexer, não dói absolutamente nada — ele evitou olhar para Jisung na maioria da fala, como se estivesse incomodado ou acanhado de confessar aquilo.
— Imagino que esteja difícil pra dormir.
— Eu tomo vários comprimidos porque não consigo relaxar.
— Eu posso tocar em você?
Ao ouvir isso, Chan ergueu o queixo e olhou intensamente para o fisioterapeuta que se esforçou bastante para não tremer sob o peso daquele escrutínio. Após o que pareceu uma eternidade, ele concordou relutante. Jisung soltou a respiração que nem tinha percebido ter segurado.
— Vou tirar sua tipóia. Quero ver a extensão dos seus movimentos. Você vai me dizer se a dor é pouca ou intensa, ok?
Jisung já tinha visto vários tipos de corpo durante os atendimentos e até no período da sua graduação e, apesar de ter reparado na beleza do seu novo paciente, ele a ignorou em prol de fazer um serviço bem feito. Era para isso que ele estava ali, afinal.
Claro que não era cego, então notou as tatuagens espaçadas que cobriam os braços e os ombros do seu paciente, em sua maioria desenhos meio góticos com lobos e caveiras, na que estava nas costas, que era um dragão serpente enorme, e uma tímida e simples cruz com rosas na altura das costelas. Para completar o visual, Chan usava brincos pretos nas duas orelhas e um piercing da mesma cor no canto do lábio.
Jisung se perguntou o que faria alguém tão bonito com uma casa tão bonita se entristecer daquele jeito. Mesmo com todas aquelas coisas ao redor dele e tanto prestígio exibido nos troféus armazenados em um expositor na parede, ele ainda tinha um olhar caído, como se tivesse parado de achar graça na vida. Era de partir o coração.
Depois do exame físico, Jisung conseguiu ter uma noção do problema. Ele fez mais algumas perguntas básicas sobre as características da dor, se ela era como uma agulhada, se ela irradiava, se era quente ou fria. Chan respondeu a todas sem oferecer muita descrição, sua expressão denotando o quanto ele queria que aquilo terminasse o mais depressa possível.
— Como foi o acidente? — Jisung por fim quis saber, guardando o caderno na mochila.
— Eu caí de moto.
— Certo. Como você caiu exatamente?
— Eu estava… correndo. Eu puxei o freio da frente quando reparei no garoto de bicicleta que não prestou atenção na sinalização. Eu passei de raspão nele, mas ainda o derrubei na calçada. Ele fraturou o pé e arranhou o corpo, mas não foi nada grave. A família dele disse que…
— Ok, tudo bem — o interrompeu delicadamente. — E você ? O que aconteceu com você ?
Chan pareceu surpreso com a pergunta.
— Eu caí de lado no asfalto — ele gesticulou como se estivesse vendo a cena à frente.
— E como foi o acidente pra você?
— Como assim?
— Exatamente isso. Como esse acidente foi pra você. No que você estava pensando, sentindo, quando aconteceu.
Chan achou estranho ter que falar sobre isso. Nenhum outro profissional teve interesse nesses detalhes subjetivos. Ele continuou a mirar o horizonte, perdido em memórias. Se recordou do medo. Da adrenalina. Da tristeza.
— Não estava pensando em nada — disse por fim, não querendo revelar nada àquele fisioterapeuta desconhecido.
Jisung sabia que aquilo era mentira, mas não perdia nada em perguntar.
— Bom. Acabamos por aqui. Eu disse a Hyunjin que a primeira sessão poderia ser aqui porque eu viria apenas para te examinar, mas as próximas eu preciso que você vá até a clínica. Teria algum problema?
— Não — ele resmungou.
— Bom — Jisung quis se estapear por estar se repetindo e fazendo um bobo de si mesmo. — Eu vou agora, espero que você não mude de ideia sobre fazer o tratamento.
Chan franziu o cenho ao ouvir aquilo. E como se não bastasse o sorrisinho carismático do fisioterapeuta, ele deu um tchauzinho com a mão coberta pela manga do casaco moletom.
— E aí? — Hyunjin surgiu quando Jisung foi embora e se aproximou como se ele fosse uma vizinha fofoqueira, cochichando e espreitando. — Você gostou dele?
Chan ainda totalmente abalado, fez que sim com a cabeça porque não confiava nem um pouco na força da voz.
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No dia seguinte, quinze minutos antes da sessão de Chan, Jisung fofocava com a sua colega, Yeji, sobre o seu novo paciente. Provavelmente estava quebrando umas quinze cláusulas daquele contrato que ele assinou, mas quem ligava? Ele estava uma pilha de nervos e precisando conversar.
— Eu pesquisei ontem sobre ele e… ele é um cantor de banda de rock — Jisung cochichava atrás do balcão, as mãos gesticulando conforme ele falava. — Ele é todo tatuado, tem um piercing bem aqui no lábio e, meu Deus, ele é tão bonito . A casa dele era enorme e cheia de guitarras por toda a parte. Nem consigo acreditar que ele pode, tipo, contratar o melhor fisioterapeuta do mundo e ele vai vir aqui na clínica.
— Jisung está ficando importante — Yeji comemorou e balançou o amigo num abraço de lado. — Oh! É ele ali? Aquele vulto das trevas?
Jisung se aprumou e avistou Chan aparecer vestido de preto da cabeça aos pés, usando boné e óculos escuros. Um Hyunjin animado o acompanhava logo atrás, carregando os exames de imagem que Jisung tinha pedido. A cena era engraçada justamente porque Hyunjin era como um tutor cheio de energia carregando seu aprendiz emburrado, que claramente preferia ter ficado em casa.
— Que pedaço de mal caminho — Yeji comentou baixinho.
— Shhh — Jisung a repreendeu e foi receber seu paciente. — Bom dia! Como você está?
— Ah, melhor não falar com ele antes do café — Hyunjin fez uma careta de quem precisava lidar com frescuras piores e entregou as documentações ao fisioterapeuta. — Ele ainda está funcionando no cérebro reptiliano.
— Sem problemas. Nós temos café aqui na clínica.
— Vou deixá-lo em suas mãos. Daqui uma hora venho buscá-lo — e assim ele se despediu, apertando o ombro de Jisung como se tivesse lhe entregado uma bomba para desarmar.
— Por aqui — ele indicou e eles entraram no salão reservado com os equipamentos. Ele teve o cuidado de não permitir que houvesse outros pacientes naquele horário para permitir que a celebridade tivesse um pouco de privacidade.
— Pilates? — Chan resmungou ao tirar os óculos e se ajustar à claridade. — Isso não é alongamento de mulher?
Jisung, que estava acostumado a ouvir todo tipo de comentário ignorante e mesmo assim ainda não conseguia lidar muito bem com o preconceito em relação ao seu trabalho, soltou sem conseguir segurar a língua:
— E rock não é música de vagabundo?
Quando Chan arregalou os olhos, Jisung praticamente sentiu uma carimbada de “rejeitado” em seu registro de fisioterapeuta. Ele respirou fundo e devagar, assim como aprendeu no youtube , e continuou a falar sem perder o rebolado (porque ele jamais pisaria em seus princípios):
— Acho melhor você respeitar a minha profissão e assim eu também não insulto a sua arte. Fechado?
O roqueiro o examinou com curiosidade e, por incrível que pareça, riu. E meu Deus, como ele ficou ainda mais lindo com aquele sorriso. Jisung não sabia se sentia alívio ou só se conformava que tinha acabado de perder a primeira oportunidade de atender alguém famoso.
— Gostei de você — Chan simplesmente disse e tirou o boné para pendurá-lo em um gancho na parede.
Jisung agradeceu mentalmente pela nova oportunidade e ajudou Chan a remover a tipóia.
— Vamos aquecer, fazer alguns exercícios e perto do final eu faço uma massagem relaxante. Ok?
Chan foi atraído pela palavra “relaxante”, olhando as mãos do seu fisioterapeuta e a imaginando tocando seu corpo de novo.
— Por mim, ótimo.
— Ainda quer um cafézinho antes de começarmos?
— Por favor — exasperou numa súplica.
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Depois de fazer exercícios que praticamente zombaram da sua capacidade limitada de mover o ombro, Chan estava pronto para pedir trégua. Ele queria desaparecer daquele lugar e não passar mais pela humilhação de não conseguir fazer movimentos básicos, mas Jisung sequer tirou sarro dele. Em vez disso, pediu para que ele removesse a camiseta e deitasse de bruços numa maca.
A massagem relaxante envolvia um massageador elétrico e depois as mãos do fisioterapeuta besuntadas em um óleo muito cheiroso. Chan teve que se esforçar para não gemer vergonhosamente ao ter seus músculos apertados do jeito certo, levando-o a encontrar as portas do céu.
— Como se sente? — Jisung perguntou depois de um tempo e Chan mal notou que tinha cochilado. Fazia tempo que ele não se sentia tão confortável assim.
— Bem… bem melhor — admitiu com a voz rouca.
— Que bom ouvir isso. Hyunjin já está aqui. Quer que eu peça pra ele esperar?
Chan praguejou o horário, desejando que ele se estendesse por mais uma hora se isso significava que ele seria massageado de novo.
— Quer ajuda para se vestir?
Chan sentiu um rubor subir às faces, mas se controlou para não pensar bobagem demais. Jisung era um fisioterapeuta, totalmente profissional, que só queria ajudá-lo a colocar a camiseta porque sabia da sua dor no ombro. Não era nada demais. Não tinha nenhuma intenção escondida.
— Se precisar de mais alguma coisa ou tiver alguma dúvida, você pode entrar em contato com a clínica — Jisung disse depois de ter passado alguns exercícios que Chan poderia fazer no conforto de casa.
— Está bem. Obrigado.
Chan se escondeu atrás dos óculos escuros e do boné mais uma vez e seguiu Hyunjin para dentro da range rover estacionada.
— E aí? Como foi? — Hyunjin estava ansioso para saber.
— Foi legal — respondeu baixinho.
— Que cheiro gostoso é esse?
— É de um óleo que ele passou no meu ombro.
— Hm…
— Que é?
— Você gostou dele. Fala que sim! Admite logo.
— Sim. Ele é… ótimo. Ele é… — pigarreou, olhando para frente. — Ele é bom.
— Vamos voltar depois de amanhã?
Chan suspirou e disse que sim.
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Depois de três semanas sem faltar a uma sessão, Chan começou a sentir a diferença na recuperação do seu ombro. A tipóia que costumava usar apenas porque odiava a dor que se espraiava por seu braço cada vez que se mexia ficou abandonada em seu quarto quando se sentiu mais confiante e as agulhadas diminuíram do nove para um dois na escala de intensidade. Seu sono também estava regulado graças ao conforto que era dormir sem se preocupar com a dor e isso notavelmente fez uma grande diferença em seu humor.
— Tsc, vou ter que ir à gravadora para uma reunião agora. Odeio essas coisas de última hora — Hyunjin dizia ao digitar furiosamente no celular uma hora antes do horário da fisioterapia (e Chan claramente não tinha acordado cedo e já estava arrumado, seu café tomado, e contando os minutos, olhando o relógio para ver se os ponteiros andavam mais rápido). — Como se sente dirigindo? Ou você quer que eu chame um táxi? Ou a gente pode pedir para o Jisung reagendar…
— A gente pode ir agora também e eu fico esperando lá até o atendimento — Chan sugeriu. — Eu não me importo.
— Hm… vou ter que avisar a clínica. Só um segundo.
Quando Hyunjin voltou, Chan já tinha calçado os tênis e ido para o hall de entrada para esperar. O agente evitou rir para não constranger o seu amigo, mas adorava ver essa reação ansiosa dele. A mudança no semblante dele nas últimas semanas era surpreendente e muito reconfortante.
— A Yeji disse que está bem tranquilo lá então nós podemos ir.
Na clínica, apenas a fisioterapeuta foi vista no balcão, escrevendo em prontuários. Ela sorriu ao recebê-los, explicando que aquele horário Jisung aproveitava para treinar porque não havia agendamentos, então ele estava lá dentro praticando os exercícios avançados.
— Eu espero aqui — Chan se sentou no sofá, imperturbável.
— Me avisa quando estiver pronto — Hyunjin pediu e foi embora.
— Você aceita alguma coisa? Café? Chá? — Yeji ofereceu.
— Estou bem. Onde fica o banheiro?
— Por aqui — ela indicou o corredor.
Chan se levantou e foi até lá, mais para checar a aparência do que pra fazer qualquer outra coisa. Quando retornou, viu um entregador deixar um buquê de rosas nas mãos de Yeji que agradeceu e deixou no balcão. Ela fez cara feia para as flores e depois estalou a língua, indecisa.
— Namorado arrependido? — ele perguntou curioso.
— Antes fosse. É o ex do Jisung.
O sorriso de Chan desapareceu na mesma hora.
— Ai, esse cara não aprende — ela reclamou. — Não sei nem se eu deixo o Jisung ver isso. Sinceramente.
— Por quê?
— Ah… esse cara não merece o Jisung… — ela começou a explicar, mas parou de repente, reparando em alguma coisa do lado de fora da clínica, no outro lado da rua. — Ai, desculpa. Eu acho que é melhor você ficar lá dentro pra ninguém ficar xeretando sua vida aqui.
Ela puxou as cortinas longas cor de marfim para cobrir as portas de vidro, trancando-as e virando a placa de “aberto” para “fechado”. Recentemente alguns paparazzi e fãs inconvenientes de Chan tinham descoberto que ele estava frequentando a fisioterapia para se recuperar e os mais intrometidos quiseram atrapalhar sua reabilitação tirando fotos suas ou fazendo perguntas na clínica. Nada a que o roqueiro não estivesse habituado depois de anos no ramo, mas os fisioterapeutas insistiram que aquela sessão deveria ser respeitada.
— Sinto muito por isso — Chan pediu.
— Ah, sem problemas. O que é uma vida normal sem alguém palpitando sobre ela, não é mesmo? — ela brincou e o guiou para a sala reservada.
Chan entrou no momento em que Jisung se pendurava nas barras de ferro e ficava de ponta-cabeça. Uma música tocava ao fundo e o fisioterapeuta parecia cantarolar junto com ela como se fizesse isso desde sempre.
— Desculpa interromper — Yeji dizia ao conduzir Chan para que ele ocupasse um assento encostado à parede. — Tem umas pessoas lá fora. Vou deixar ele aqui dentro.
— Tudo bem — Jisung respondeu calmamente, o fluxo sanguíneo todo indo para a cabeça.
Depois que Yeji saiu, Jisung arqueou as costas e continuou inclinando a cabeça para trás, como se ele fosse feito de borracha. Chan ficou de boca aberta, impressionado com a elasticidade e força dele. O movimento continuou a se repetir algumas vezes e o roqueiro se aproximou para admirar de perto, encantado com a forma que Jisung fazia aquilo parecer fácil.
O fisioterapeuta respirou fundo antes de vagarosamente voltar à posição original, se colocando de pé sobre o cadillac .
— Uau — Chan soltou.
— Daqui a pouco você vai estar fazendo a mesma coisa — Jisung disse sem fôlego e pegou a toalha branca pendurada para enxugar o suor da testa e do pescoço.
— Nem ferrando.
— Tenha um pouco mais de fé em você — sorriu.
— Eu jamais faria um negócio desse.
Jisung desceu e se sentou no equipamento, indicando para Chan se sentar ao lado dele na superfície estofada.
— Por que chegou tão cedo? Ou já é o seu horário? — ele procurou pelo relógio na parede, levemente preocupado que tivesse se excedido em seus exercícios diários.
— Não, eu é que estou adiantado. Hyunjin não conseguiria me trazer no horário e aí eu vim com ele mais cedo. Espero que não seja problema.
— Não, não é problema nenhum.
E como se Jisung ainda estivesse sozinho, ele continuou cantarolando.
— Sometimes you just don't know the answer/'Til someone's on their knees and asks you/"She would've made such a lovely bride/What a shame she's fucked in the head," they said .
E então parou, como se ele só tivesse esperado aquele momento para cantar e deixar o restante da canção para a Taylor Swift. Jisung sorriu ao perceber que tinha sido observado e achou graça daquela cena.
— Não é fã dela, não é? — riu ao ver a expressão séria e concentrada do seu paciente.
Chan balançou a cabeça em negativa e permaneceu sem esboçar nada, seu olhar intenso em Jisung que logo enrubesceu, constrangido pela atenção indivisível.
— Você tem uma voz bonita — Chan elogiou por fim.
— Obrigado — o fisioterapeuta desviou o olhar para frente, mas se arrependeu porque tinha um espelho gigante grudado na parede e nele dava para ver o reflexo contrastante entre os dois. Enquanto o roqueiro tinha uma afeição pela escuridão e tinha uma pose de marrento, Jisung era o oposto ao usar cores pastéis e era um baita de um swiftie de carteirinha.
— Não sabia que a Taylor Swift xingava nas músicas dela.
— Ah, não faz muito tempo não. Ela prefere palavras mais complexas.
Jisung mordeu o lábio e fechou os olhos por uns segundos, imaginando que era um pouco tosco falar sobre música quando era evidente que eles tinham gostos muito distintos.
— Bom. Você quer começar a aquecer? — o fisioterapeuta sugeriu, ansioso para sair daquela situação e não se colocar em oportunidades que o tornariam mais bobo.
— A gente pode conversar até dar o horário — Chan falou casualmente, com as mãos no espaço vazio entre as pernas abertas.
— Sobre o que vamos conversar?
— Você gosta só das músicas da Taylor?
— Hm… — Jisung ergueu o canto da boca e estreitou o olhar para Chan, que não parecia malicioso com aquela pergunta, mas o fisioterapeuta se sentia à vontade o suficiente para provocá-lo depois de algumas semanas tratando-o. — Quer saber se eu escuto suas músicas e tentar saber o que eu acho?
— Não! — Chan ergueu as mãos e as balançou na defensiva. — Eu só estava querendo saber seu gosto musical mesmo.
— Ah, que bom. Eu detestaria ter que te desapontar. Não que eu não tenha escutado suas músicas… por curiosidade. Não é muito meu estilo. Mas elas são boas.
— Não precisa tentar me agradar.
— Não estou tentando.
— Por que você não gosta de rock? — ele perguntou com genuína curiosidade, como se saber mais sobre Jisung o fascinasse de alguma maneira.
— Não é que eu odeie . Eu já tive uma fase assim. Na faculdade. Eu mudei depois que comecei a ter crises de ansiedade. O rock me lembra muito essa época, sabe? Associei muito os sons com aqueles episódios. Então eu escolho muito bem o que eu vou escutar agora. Isso e o fato de que eu sou um idiota romântico — debochou.
Chan se recordou do buquê de rosas deixado naquela manhã. Ele até pensou em não se intrometer porque não era da sua conta, mas acontece que ele tinha uma veia saltando em sua têmpora só de cogitar a possibilidade de que ele voltaria para casa com uma dúvida que o mataria lentamente.
— Deixaram rosas para você aí hoje cedo — falou despretensioso, vigiando pelo rabo de olho a reação do fisioterapeuta.
— Ah, sério? — ele descruzou os braços e soltou um suspiro derrotado.
— Parece que alguém quer se desculpar.
— Nem que ele apareça com ingressos para o Eras Tour eu volto pra ele.
Jisung se levantou aborrecido e desligou a música.
— Desculpe. Não queria te chatear — Chan engoliu em seco, incomodado de ver Jisung exibir uma expressão diferente de todas as dóceis que ele tinha mostrado até aquele momento.
— Tudo bem.
— O que aconteceu? O que ele fez pra você?
Jisung colocou as mãos na cintura e passou os dentes no lábio inferior uma vez.
— Ele me traiu no mês passado. E agora está arrependido. Eu sou um bobo, mas não idiota assim.
Chan sentiu raiva e indignação queimar seu corpo todo.
— Só um minuto — Jisung pediu.
O fisioterapeuta atravessou a sala para ir até a recepção. Chan o seguiu para ver o que ele faria e assistiu com satisfação quando ele pegou o buquê e jogou no lixo sem hesitar.
— Pronto. Agora podemos começar.
— Talvez eu devesse ter dito isso depois — Chan brincou. — Agora você vai arrancar o meu couro.
— Engraçadinho. Para lá. Vou aumentar a carga do seu exercício — ordenou.
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No momento do relaxamento, Chan estava deitado na salinha iluminada por uma meia-luz agradável e observava Jisung arrumar os óleos perfumados na prateleira com paciência. O fisioterapeuta ficou mais quieto depois de saber que seu ex tinha deixado rosas para ele e o roqueiro se sentiu culpado por ter levantado o assunto.
Chan pigarreou.
— Oi? — Jisung desfez a ruga entre as sobrancelhas e Chan quis entender de verdade o que é que tinha feito demais para ser tratado daquele jeito tão cuidadoso.
Chan se ergueu na maca para ficar sentado.
— Você tinha me perguntado o que eu estava pensando no acidente — ele disse, num quase sussurro, sua postura incerta. — Eu estava… pensando em fugir. Às vezes… isso tudo… é demais — ele fez um gesto vago ao redor. — Eu amo a música, mas tem momentos em que o universo que a rodeia me estrangula. É muita coisa acontecendo. Muita pressão.
O músico não se lembrava da última vez que tinha conversado assim com alguém. Sempre lidou com suas dores através da arte e sentia uma enorme força quando milhares de pessoas cantavam as letras que ele compôs como se elas soubessem exatamente do que ele falava. No entanto, não era a mesma coisa que ter alguém com quem pudesse contar. Alguém tangível, presente, que estaria de verdade com ele nos seus momentos mais obscuros.
E não é como se estivesse sozinho nessa, porque ele tinha Hyunjin e seus colegas de banda que enfrentavam os desafios da carreira junto com ele, mas mesmo com todas essas pessoas para apoiá-lo, ele não tinha sentido a mesma compreensão que obteve ao conviver com Jisung naquelas últimas semanas. O fisioterapeuta o enxergou para além dos seus demônios e cuidou de sua dor. E o fez se sentir normal e não um monstro por estar pedindo ajuda.
— E você estava tentando chegar a algum lugar antes de ser interrompido por um obstáculo no caminho?
— Ele não era um obstáculo! — Chan se aborreceu pela comparação. — Ele era um menino.
— E você não sentiu raiva por ele ter entrado no seu caminho?
— É claro que não.
— Certeza? — ele cruzou os braços. — Porque está tudo bem se você sentiu. Às vezes queremos fugir e quando algo nos impede, ficamos chateados. E sentimos culpa porque não deveríamos ter sentido a vontade de fugir primeiro. Não é mesmo? — sorriu com gentileza.
Chan olhou para Jisung e aquela empatia passou um bálsamo na sua alma que parecia ter libertado uma gaiola cheia de pássaros assustados. Como o fisioterapeuta foi capaz de ver aquilo? Como ele foi capaz de perceber algo que ele não conseguia encarar sozinho e ficou ali com ele, como se ele merecesse amor assim como um bebê recém-nascido também merece?
— Fiquei pensando no motivo que o levou a ficar tão chateado que não quis aceitar tratamento — Jisung explicou acanhado. — E a primeira coisa que me veio foi a culpa por ter ferido alguém que não tinha nada a ver com seus problemas. Acho que eu também ficaria me sentindo muito culpado se eu fizesse algo no meio da minha raiva e prejudicasse alguém inocente.
Chan continuou sem dizer nada, absorto em pensamentos.
— Eu vi o que você fez pelo menino. E foi muito nobre da sua parte. Ele tem sorte que foi alguém que, apesar de tudo, se importou com ele.
— Obrigado, Jisung — disse cheio de emoção.
— Ah, sem problemas — Jisung corou. — Eu espero que você fique bem melhor. Só isso.
Chan desceu da maca e ficou de pé diante do fisioterapeuta. Jisung sentiu seu corpo inteiro formigar como se aquela proximidade o espremesse. Quando Chan encurtou mais um passo, Jisung sentiu o ar rarefeito e sentiu quando aqueles olhos pararam em sua boca, esperando, ansiando.
— Chan?! Está pronto? — a voz de Hyunjin soou da porta e ainda bem que eles estavam escondidos numa sala diferente ou ele teria presenciado uma situação difícil de explicar.
Chan se afastou, recobrando a lucidez e Jisung voltou a respirar, atordoado.
— Obrigado, de novo — o roqueiro disse com a voz fraca e pegou a camiseta para vestir.
— D-De nada — gaguejou e colocou a mão na nuca quente.
Chan se afastou a passos rápidos e Jisung se agachou no chão, desconfiado que suas pernas não aguentariam seu peso por mais tempo.
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— Oxe , vai malhar cedo? — Hyunjin perguntou do lugar dele no sofá, o notebook no colo.
Chan tinha descido de banho tomado, muito bem perfumado por sinal, usando uma regata que revelava mais do que o necessário, bermuda e tênis. Ele alcançou com o braço direito a jarra pesada com suco de laranja posta na mesa, mal percebendo que tinha feito isso sem fazer careta. Ele serviu um copo e bebeu tudo numa velocidade impressionante.
— Tem fisioterapia hoje — ele disse como se fosse óbvio e enfiou na boca um pedaço de bolo, elogiando os dotes culinários da moça que trabalhava na cozinha entre uma mordida e outra.
— Você sabe que suas sessões terminaram antes de ontem, não sabe?
O roqueiro paralisou com as bochechas estufadas.
— Não — ele protestou de boca cheia. — Quem disse?
— O Jisung. Ele te deu alta. Disse que você estava totalmente recuperado e que você podia voltar a malhar. Você não lembra?
— É doido. Eu não ‘tô bem não. Eu ainda estou sentindo muita dor.
Hyunjin o encarou cético, olhando do seu amigo para a jarra que ele tinha acabado de levantar tranquilamente como se ela não pesasse uns três quilos. E presenciou com incredulidade quando o roqueiro simplesmente fez uma cara de dor que veio bem atrasada e segurou o ombro como se tivesse levado um tiro nele.
— Você só pode estar de brincadeira comigo — Hyunjin murmurou para si mesmo.
— O quê? Está doendo! — ele reclamou. Um verdadeiro ator. Ryan Gosling teria chorado. — Não precisa me dar carona. Eu posso ir até lá sozinho.
— Chan, você não tem mais horário lá. Jisung já fez um favor enorme para te encaixar e eu tive que insistir muito . Você não pode ir lá simplesmente e pedir pra ele te atender.
Os olhos de Chan dardejaram de um lado para o outro, como se ele estivesse um pouco constrangido. Ao mesmo tempo, ele parecia irredutível.
— Ah, meu Deus! Com esse bico, eu não posso! — Hyunjin jogou os braços para cima, exasperado, e pegou o celular. — Vou ver se eu consigo mais uma hora pra você, ok?
Chan abriu um sorriso vitorioso.
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Jisung estava terminando de escrever os prontuários dos seus pacientes quando ele foi surpreendido pela ligação de Hyunjin.
— Oi, Hyunjin?
— Oi, Jisung — a voz dele soou cansada. — Sei que seria demais e que estou passando dos limites, mas será que seria possível atender o Chan hoje?
— Mas eu dei alta para ele. Ele me parecia muito bem. Aconteceu alguma coisa? — ele se endireitou quando a preocupação o deixou ansioso. Será que ele tinha feito alguma coisa errada? Pegou muito pesado nos últimos exercícios?
— Não, mas o Chan alega que ele ainda está sentindo dor. Muita dor. Dor de verdade. Dor que faz ele mancar de tanta dor que é — Hyunjin recitou numa voz meio robótica, como se estivesse vendo alguma coisa escrita na frente dele.
— Nossa. Mas… que estranho — o fisioterapeuta ficou aturdido.
— É. Bizarro pra caramba. E então? Olha, pode me dizer se você não puder, viu? Eu levo o Chan em outra clínica sem problema nenhum .
— Bom…
Jisung coçou o pescoço e investigou sua agenda.
— Eu tenho uma paciente que cancelou hoje cedo e o horário dela é na parte da tarde, se…
— Está ótimo. Perfeito.
Jisung escreveu o nome de Chan em sua agenda debaixo do nome riscado da sua paciente e ficou intrigado enquanto tentava imaginar o que teria feito o roqueiro sentir tanta dor no ombro depois que ele saiu da clínica tão bem. E sentiu as mãos suarem só de recordar da proximidade entre eles, o quanto eles estiveram perto de…
Esquece isso, Jisung!
Ele se repreendeu mentalmente e se obrigou a não pensar no motivo da aceleração em seu coração. Porque era ridículo imaginar que Chan o beijaria. Foi só coisa da sua cabeça aquela tensão. Eles não tinham como dar certo. Universos tão diferentes. Gostos tão distantes. Aquilo não fazia o menor sentido. Chan era tão bonito e profundo, ele podia ter pessoas muito mais interessantes aos pés dele. Era tolice do seu jeito bobo romântico idealizar uma história de final feliz com alguém tão fora do seu alcance.
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Chan chegou dez minutos adiantado e atraiu a atenção de dois pacientes que aguardavam na recepção. Nenhum tinha cara de tê-lo reconhecido, idosos demais para curtir um rock moderno. Ele os cumprimentou brevemente antes de ir para o balcão.
— Ah, o Jisung foi buscar um café gelado aqui do lado e já volta — Yeji explicou a ausência de seu colega fisioterapeuta.
Chan, um pouco desgostoso, foi se juntar aos outros e ficou fuçando o celular enquanto aguardava. Quando a porta de vidro abriu, ele logo foi espiar para ver e seu coração saltou de alegria ao identificar Jisung chegar com uma embalagem de cartão suportando dois cafés.
— Aqui o seu — ele entregou o segundo para Yeji e abriu um sorriso ao ver que Chan estava ali, vigiando seus passos como se ele fosse uma câmera com sensor de movimento. — E aí, Chan? Hyunjin me disse que está com dor no ombro ainda?
— Ah, sim. Principalmente quando eu aperto assim — ele se levantou apressado e mostrou com a mão esquerda a região do sofrimento.
— Então para de apertar — o fisioterapeuta sugeriu em tom de brincadeira. — Ok. Vamos lá dentro para eu examinar de novo e entender o que acontece com você.
Eles pararam perto da entrada para a outra sala quando um rapaz segurando um buquê de flores surgiu e olhou diretamente para Jisung. Chan sentiu-se enrijecer instantaneamente.
— Agora não, Hyunjae. Eu estou trabalhando — o fisioterapeuta falou com muita gentileza.
— Por favor, Jisung. Podemos conversar? Você não atende as minhas ligações…
— Ele não tem o que conversar com você — Chan assumiu um tom sério, entrando na frente de Jisung para impedi-lo que ele gastasse energia com alguém tão insignificante.
— Quem é você? — Hyunjae perguntou incomodado.
— O namorado atual dele. E se eu souber que você fica rondando a clínica e continua perturbando a paz dele, eu vou me certificar que você passe o resto da vida se alimentando por um tubo.
Hyunjae arregalou os olhos. Envergonhado, se retirou sem dizer mais nenhuma palavra, considerando sabiamente que ele não tinha chance alguma contra alguém mais robusto e com um olhar tão afiado como aquele.
Chan se virou e viu Yeji com as mãos na boca, os olhos brilhantes de animação, e Jisung atônito.
— Desculpa — ele pediu, sem graça de ter feito uma cena e talvez ter arruinado a imagem de bonzinho que queria ter criado para impressionar.
— Tudo bem — o fisioterapeuta despertou do transe e os conduziu para dentro da sala. — Você não precisava ter feito aquilo. Mas… obrigado mesmo assim.
— Espero que ele pare de te incomodar.
— É, eu também — falou sem ar.
— Jisung.
O fisioterapeuta ainda estava vestido com o moletom com o qual tinha se agasalhado para ir até a cafeteria e Chan sentiu uma vontade enorme de senti-lo num abraço, saber qual era a sensação.
— Você disse que ainda está com dor? Onde?
Chan se sentou e usou o indicador para circular o ombro. Ele continuou a olhar para o fisioterapeuta, devorando cada micro expressão dele, umedecendo os lábios.
— Mas é muito forte? Talvez seja melhor tirar outro raio-x para verificar…
Jisung tocou delicadamente o músculo, perdido em pensamentos que o levavam da situação que tinha acabado de acontecer ao fato de que ele não conseguia acreditar que ainda havia dor no ombro de Chan.
Namorado.
O namorado atual dele.
O atual namorado .
NamoradoNamoradoNamorado .
Jisung pigarreou e ele sabia que estava corando num tom vermelho intenso porque sua pele queimava como se estivesse na frente de um forno.
— Jisung — Chan tentou novamente, ansioso.
— Eu posso fazer uma massagem, se você quiser, eu só… — ele estava desesperado para escapar e se afastar, recobrar o fôlego.
Uma mão em seu braço o impediu de se mover. Eles se entreolharam e Jisung sentiu uma boca na sua, fazendo sua mente parar.
— Posso te beijar? — Chan sussurrou perto da sua boca, quando ele se afastou só um pouquinho, seu hálito de menta resvalando em seu rosto.
— Bom… eu acho que… eu acho… eu — ele balbuciou. — Você deveria ter pedido antes, não?
Chan abriu um sorriso felino e se levantou, tomando a boca convidativa em outro beijo lento, enlaçando a cintura de Jisung com seus braços.
— E agora? Eu ainda posso te beijar?
O fisioterapeuta piscou e abriu um sorriso tímido.
— Vocês, roqueiros, são todos diretos assim?
Chan teve a decência de acanhar-se e se afastar um pouquinho. Em sua defesa, ele tinha conseguido apenas aquele horário e assim que Jisung percebesse que sua dor era de mentira, ele não teria mais nenhuma desculpa para voltar à clínica. Precisava fazer alguma coisa e não deixar que aquele fisioterapeuta escapasse das suas mãos.
— Você quer sair comigo? Adoraria te levar em encontros. Conhecer mais sobre você.
— Assim está melhor. Sou bem romântico, lembra? — riu e tomou a mão de Chan, puxando-o para um abraço. — Seu ombro não voltou a doer, não é? — adivinhou.
— Não sei. Eu ainda acho que vou precisar daquela massagem.
— Diretos e também muito espertos — Jisung estreitou os olhos, mas não ficou zangado.
Afinal, quem era ele para dizer que não queria aquilo também?
