Chapter Text
Ontem à noite, eu acho que bebi demais
Vamos chamar de nossa crise temporária
Com palavras quebradas eu tentei dizer
"Querida não tenha medo"
Se nós não temos nada, temos nós mesmos
Ela está sozinha.
Onde não há nada, ela cria, e primeiro se tem o amor. Ela enche cada parte do éter infinito com amor, e usa-o para dar forma à primeira criatura viva: Lúcifer. Assim que ele passa a existir, ele a ama, pois amor é a única coisa que existe. Ela dá a ele olhos para que ele a possa ver e asas para que a possa seguir, então ele o faz.
Ela cria, pois é para isso que ela foi feita, e Lúcifer a ama, pois é para isso que ele foi feito.
No éter ela forja lealdade, confiança e admiração. Gentileza, compaixão e paciência vêm em seguida, com misericórdia e diligência logo atrás.
Lúcifer assiste enquanto ela cria outro igual a ele e inventa a linguagem para que os possa nomear: anjos. Este ela chama de Miguel. Ela inventa família para eles, os chama de Irmãos, então eles são. Para cada um deles ela dá um pedaço de si, para que eles possam criar ao seu lado.
Com o amor deles, ela começa a forjar o Universo.
Aziraphale acha a primeira em uma terça-feira, bem mais de dois meses desde que ele se manteve firme diante dos chefes de ambos Céu e Inferno e se recusou a deixar que eles fomentassem o Apocalipse. Mais de dois meses depois que Adam tinha voltado para sua família e Aziraphale tinha voltado para sua livraria. Mais de dois meses desde que ele tinha entrado em uma banheira de água benta e botado as Legiões do Inferno pra correr com o rabo entre as pernas apenas com o seu pedido por um pato de borracha.
Mais de dois meses depois de Crowley entrar em fogo infernal no seu lugar e sair ileso, pronto para enfrentar o que quer que viesse em seguida.
O que quer que Aziraphale estivesse esperando que viesse, não era… isso.
Uma única pena de contorno escura, escondida na dobra de sua asa.
Ela fica deslocada entre todas as suas penas brancas e imaculadas, uma marca escura em uma tela branca. Ele acha que talvez seja um truque da luz, e se vê abrindo a asa sob a luz do sol, onde a pena não parece diferente, exceto talvez por brilhar um pouco mais.
Ele engole a apreensão que sobe de seu estômago e a arranca.
Ele sabe que isso não vai resolver o problema, mas por agora, terá que servir. Existe uma loja cheia de livros no andar de baixo para cuidar, um almoço com Crowley em algumas horas e uma reunião com um estudioso do outro lado do país, para determinar se o fragmento de pergaminho que o homem descobriu é genuíno.
Ele não tem tempo para se preocupar se está ou não Caindo, ou se questionar sobre o que isso significa para seu futuro.
O que não o impede de fazer isso, mesmo que seja um pouco.
Ela os mostra como construir. Delicadamente, ela pega o éter e molda-o suavemente em esferas para iluminar a escuridão. Primeiro ela cria enxofre para que queime suave e azul, com seu núcleo derretido sangrando como o primeiro coração irá.
Ela pega o núcleo brilhante para formar uma tiara, que coloca na cabeça de Lúcifer e se torna parte dele, como uma marca. Embora a tiara esfrie, ainda emite uma auréola de luz vermelha ao redor dele, como se o coração da estrela continuasse vivo. Sua cor queima em seu núcleo, marcando-o em vermelho.
O que resta depois da estrela perder seu coração, ela usa para fazer uma segunda auréola, dessa vez para Miguel. Não há nada de sólido na coroa de luz azul cintilante. Ela emite uma luz em todos os olhos de Miguel e os torna azuis.
Quando ela termina, não há nada sobrando da primeira estrela, mas ainda há luz no universo. Lúcifer e Miguel a ajudam a criar mais, cada estrela com um coração e uma auréola, cada uma com lampejos de luz que alcançam a escuridão e enviam pedaços de si mesmas em busca de contato. Ela dá mãos à Lúcifer e as segura para criar o primeiro planeta. É pequeno e sólido e gira em um eixo instável.
Lúcifer amarra o planeta à primeira estrela que eles criaram juntos e o observa girar e girar e orbitar ao redor do objeto brilhante. “É como se ele amasse a estrela”, Lúcifer diz a Ela.
Ela sabe que a dor que sente por ele nesse momento nunca mais irá deixá-la. “Não pode ser amor se não houver escolha”, ela fala gentilmente.
“Escolha?” ele pergunta.
Ela ainda não inventou o livre arbítrio. Ele a ama da forma que o planeta orbita a estrela - porque foi para isso que eles foram criados.
“Você verá”, ela diz, já sabendo o que aprender fará com ele.
Aziraphale tira a segunda bainha de uma plúmula escura três dias depois. É outra pena de contorno, desta vez na asa esquerda. Ele a deixa lá por uma hora inteira antes de puxar essa também. Em algum nível ele está ciente de que arrancar as penas não vai impedi-lo de Cair; não vai nem atrasar o inevitável. Mas irá prevenir que ele fique encarando a evidência o dia todo, e talvez o mais importante, vai impedir que Crowley se preocupe.
Alguém pode dizer que a segunda é a menor das razões, mas na experiência de Aziraphale, quando Crowley começa a se preocupar, ele entra em pânico, e quando em pânico, ele começa a só fazer coisas, como um cão que sabe que deve seguir comandos que nem ele entende. Ele perde o anticristo e faz planos de fuga para outros sistemas solares e dirige através de fogo infernal em um carro antigo apenas com força de vontade de manter a Morte longe. Como eles acabaram de salvar o mundo, Aziraphale certamente não está disposto a colocá-lo em perigo de novo se tornando a causa do próximo ataque de ansiedade de Crowley.
Ele esconde a segunda pena com a primeira, e tenta não pensar muito nisso.
Depois da segunda, as penas só continuam vindo.
Aparecem mais três, depois sete, depois dez, dentro de uma semana. Uma secundária branca brilhante e imaculada cai, para ser substituída por uma pena com sangue que não clareia a medida que se torna uma pena de alfinete. Ele consegue evitar Crowley por dois dias inteiros, até que não sangre mais quando ele as arranca. O espaço vazio é óbvio, e ele se encontra escondendo as asas o melhor que pode quando eles se encontram para o café da manhã.
Não ajuda muito. Crowley não é nada menos do que observador, e, dadas as circunstâncias, mais do que justificadamente paranóico. “O que está acontecendo aqui?” ele pergunta, assim que Aziraphale se senta na mesa.
“Onde?” Aziraphale pergunta, inocentemente olhando ao redor.
“Bem aqui” Crowley diz, apontando enfaticamente para as asas que Aziraphale está tentando manter firmemente presas ao seu corpo. “para a sua asa, bem aqui. Está faltando penas. Você não entrou em uma briga, né?”
“Nada do gênero” Aziraphale o assegura, e é pelo menos parcialmente verdade. Não é nada como ter ido para a batalha. É muito mais como descobrir que ele escolheu o lado errado da batalha, mesmo que ele tenha acreditado que era a coisa certa a se fazer. Mesmo que ele ainda acredite que fez a coisa certa. Mesmo que essa seja a consequência. “Só estou trocando elas, eu espero”.
Crowley olha para ele de forma suspeita, como se não acreditasse na mentira, mas não chega a desafiar a desculpa. Ele se volta para a sua bebida, e Aziraphale mal consegue aguentar o silêncio. Ele quer muito pedir pela atenção de Crowley, mesmo sabendo que é uma benção que ele não a tenha.
Ou talvez, pensa ele sombriamente, é uma maldição. Difícil dizer hoje em dia.
Ela observa enquanto Lúcifer coleta a poeira das estrelas e puxa o poder do éter para formar uma criatura não muito diferente dele. Lúcifer lhe dá o nome de Rafael, mas Ela sabe seu nome verdadeiro, o que ele mesmo escolherá quando estiver pronto.
Para este, Ela dá um coração. Ele vai precisar de um, para sobreviver. O coração vai se partir, de novo e de novo e de novo. Ela mesma vai parti-lo pela primeira vez. Ele vai desejar não tê-lo, e mesmo assim não deixará que ninguém o tire dele. Ele vai dá-lo, no fim, e finalmente, o coração estará seguro.
Para se desculpar pelo coração, Ela inventa imaginação. É o mínimo que Ela deve depois de tudo que fará com ele.
“Você me fará muito orgulhosa, Crowley”, Ela o diz.
Ela transforma suas asas na cor do éter, para que ele se lembre de onde veio, mesmo sabendo que ele deve esquecer. Ela já se arrepende do que deve acontecer com ele em sua jornada.
Ele a adora, de coração e alma.
Ele é o único anjo que pode verdadeiramente dizer isso.
Depois de outra semana, Aziraphale teme que não pode mais continuar se escondendo. Existe um limite do quanto Crowley o deixa não atender o telefone, e ele sabe que este foi atingido quando o sino da sua loja toca alegremente e a porta trancada se abre para a única pessoa que não precisa de uma chave. Por um breve momento, Aziraphale contempla se esconder, mas os lugares potenciais para isso são limitados, e nenhum deles o deixaria com a dignidade intacta.
“Anjo…?” Crowley chama suave, como se estivesse em uma biblioteca ao invés de uma livraria. “Você está aqui?”
“Aqui atrás”, Aziraphale responde, sem falar em qual corredor está. Se ele não sair de onde está, talvez possa prevenir Crowley de sua órbita habitual e, possivelmente, até esconder suas asas o suficiente para que ele não note.
É claro, seus planos falham em considerar o fato de que esconder suas asas seria um ato estranho o suficiente para ser notado. Em qualquer dia normal sua desatenção para detalhes poderia ter importado muito, mas hoje, Crowley vira a esquina de uma maneira incomumente dramática e diz: “Onde você esteve? Eu estive ligando o dia todo.”
Aziraphale pisca. Ele não ouviu o telefone. “Erm, sem sinal?” ele diz esperançoso. “Feito seu, talvez?”
Crowley lhe dirige um olhar seco. “Não seria muito esperto da minha parte derrubar o sinal se eu precisasse usar, seria?” ele diz, como se ele já não tivesse feito isso uma dúzia de vezes antes. “E você não tem um telefone fixo, de qualquer forma?”
“O que você quer, Crowley?” Aziraphale diz, um pouco exasperado. Ele espera que a resposta seja alguma coisa, porque nada tem muitas implicações que ele não tem capacidade para lidar agora.
“Nada”, Crowley diz, e um músculo da mandíbula de Aziraphale salta quando ele a aperta.. “Eu só- bom, você está bem, certo? Nós temos que ficar juntos agora.”
“Eu estou bem”, Aziraphale lhe assegura. “Você precisava de mais alguma coisa?”
A dor aparece nas feições de Crowley, quase rápido demais para Aziraphale notar, e talvez ele não tivesse mesmo notado, se não estivesse procurando por qualquer sinal de que Crowley suspeitasse que ele estava tramando algo. “Não”, ele diz, recuando um passo. Aziraphale avança, mas não se permite segui-lo. “Eu acho que não.”
“Ah, Crowley?” Aziraphale diz, antes que Crowley possa escapar de vez. Ele pausa, e Aziraphale analisa todas as milhões de coisas que gostaria de dizer, antes de finalmente se decidir em: “Já que você está aqui, posso te pedir algo que você não irá gostar muito?”
As sobrancelhas de Crowley se erguem, claramente não tendo esperado tal pergunta. Aziraphale não o culpa; ele mesmo não tinha esperado falar isso, mas ele prefere ter essa conversa do que magoar Crowley. É apenas um pequeno alívio quando o outro faz um gesto convidando-o a continuar e Aziraphale consegue, de alguma forma, evitar torcer as mãos.
“É, uhm, é sobre… bem, eu gostaria de saber o que aconteceu quando você Caiu?” O coração de Aziraphale sobe pela garganta quando Crowley se irrita e ele se apressa para continuar. “N-não sobre- veja bem, eu- eu estava me perguntando sobre o que aconteceu com as suas…” ele se interrompe no limiar da sua última rota de fuga, sabendo que Crowley adivinhará sua condição se ele continuar. Mas se ele quer evitar sentimentos feridos, há de terminar o que começou. “Com as suas asas…”
Mesmo através dos óculos escuros, Aziraphale vê os olhos de Crowley se moverem para ter um vislumbre das asas que ele está tentando manter escondidas. As de Crowley estão bem escondidas atrás dele, escuras como breu e quase imperceptíveis, apesar do seu tamanho. Ele não tem uma resposta rápida. Na verdade, ele nem responde.
“Eu sinto muito,” Aziraphale finalmente diz, se entregando. Ele não quer uma briga. Não agora.
“Nada aconteceu com elas”, Crowley diz, como se a informação tivesse sido tirada dele sem permissão. O som suave das suas penas roçando umas nas outras preenche o cômodo enquanto ele abre as suas elegantes e pretas asas, apenas o suficiente para enfatizar seu ponto. Elas parecem mais maltratadas do que o normal, com penas faltando em alguns pontos e algum tipo de mancha nas bordas que poderia ser apenas truque de luz. “As penas vieram todas pretas, na próxima troca após a Queda.”
“Pretas?” Aziraphale diz, muito mais confuso de repente. Ele, obviamente, não havia se associado com qualquer demônio após a Queda. Ninguém havia. Depois que todos os anjos rebeldes foram expulsos do céu, ninguém ouviu nada sobre eles por um longo tempo, e da próxima vez que ouviram, os demônios pareciam… diferentes. Com mau aspecto, certamente, mas na mesma essência que possuem hoje, com asas negras e tudo o mais.
Crowley assente com a cabeça. “Esteve assim desde então”. Parece ser parte da verdade, pelo menos.
A mente de Aziraphale acelera. Penas pretas. As que ele tem arrancado são mais escuras que as suas próprias, mas não pretas. Ele presumiu que havia um estágio intermediário, que elas se tornariam mais escuras com o tempo ou com as ações. “Não cinzas, então?”
Lentamente, as asas de Crowley fecham e ele encara Aziraphale como se tivesse levado um soco no estômago, se esforçando ao máximo para esconder as asas agora. Aziraphale acha que realmente ultrapassou algum limite - Crowley nunca se esconde dele.
“Me desculpe”, ele diz novamente, só que dessa vez ele consegue soar convincente. “Eu não quis-”
“Você acha que é possível Cair para cima?” A pergunta vem tão do nada que assusta Aziraphale, que não consegue fazer nada além de encarar o demônio assim que ele pergunta. Crowley, por sua vez, faz um ótimo trabalho evitando contato visual.
“Bem, eu- eu acho que isso é só voar”, o anjo diz, incapaz de pensar em uma resposta inteligível. Não é uma pergunta justa. Ser expulso do Céu é uma passagem extremamente só de ida que ele já aceitou ter comprado. Mas, ele percebe com um segundo susto, ele não está perguntando pelo bem de Aziraphale. Ambas as asas do demônio tem pele rosada ao redor das álulas também. “Por que você pergunta?”
“Curiosidade,” ele diz, parecendo distintamente desconfortável, o que é uma mentira óbvia, ou pelo menos parcialmente mentira. “Eu só pensei, sabe, se anjos podem Cair, demônios não poderiam des-Cair?”
Aziraphale tenta seguir o raciocínio. “Você diz, se tornarem anjos de novo?” Ele descobre assim que as palavras saem de sua boca, que com elas é trazido algo que ele definitivamente não merece: esperança.
“E por que não?” Crowley pergunta, na defensiva, mesmo que não haja nada contra o que lutar. Ele parece querer sair da própria pele para escapar da conversa que iniciou, mas segue em frente mesmo assim. “Qual é o sentido? Qual é o sentido de tudo isso, se você não pode melhorar? Qual é a motivação para fazer o bem, se o Inferno só vai te punir por isso, e o Céu não te deixa voltar de forma alguma? Não faz sentido!”
“Crowley,” o anjo diz, e ele sabe que soa como uma briga começando, então ele continua a partir do início da refutação meio formada de Crowley. “Eu espero que você esteja certo.”
“-e… er… você o que?” Ele pára para tomar um ar de que não precisa, e apenas encara Aziraphale.
O anjo hesita, segurando os vestígios de sua antiga esperança, a de não preocupar o Crowley. Entretanto, se ele adivinhou certo, algo está acontecendo e ambos vão ter que lidar com isso eventualmente. Então ele solta suas asas, deixando-as abertas o suficiente para que suas álulas nuas e as secundárias arrancadas estejam visíveis, e os olhos amarelos não parecem conseguir olhar para outro lugar.
“Suas asas…” Crowley sussurra, parecendo tão abatido quanto Aziraphale se sentiu quando o demônio lhe disse que a livraria havia queimado.
“Eu acho que… eu acho que estou Caindo”, o anjo diz, as palavras tão frágeis que ele está com medo que se quebrem enquanto ele as fala. “Acho que já faz um tempo.”
Crowley fica imóvel encarando, e apesar de Aziraphale conhecê-lo por mais de seis mil anos, ele não reconhece a expressão nos olhos com pupilas de fenda. O anjo já viu dor e raiva, tristeza e preocupação. Ele já viu - ou achava que viu - todo o espectro de emoções humanas cruzar as feições de Crowley em algum momento, mas o demônio não é humano e Aziraphale não sabe como reagir.
“Por que você não disse nada?” Crowley consegue expressar, olhos finalmente se erguendo para encontrar os de Aziraphale. “Por que não me contou?”
“Você se preocupou o suficiente por nós dois durante meses” o anjo diz, “e o que você teria feito a respeito, mesmo que eu tivesse falado?”
“Eu poderia ter certeza de que você não estava sozinho, para começar” suas asas caindo um pouco antes de se abrirem mais e então ficarem completamente visíveis. Aziraphale consegue ver penas faltando por todo o interior delas, com duas primárias desaparecidas da pele danificada. Ele as arrancou, ou cortou, ou tirou nos dentes, pelo que parece, e o anjo não consegue entender porquê.
“Por que você não iria querer des-Cair?” ele diz, sem ter certeza de como eles deviam chamar isso.
E ali está uma expressão que ele reconhece: ofensa. “Bem, não foi algo premeditado, foi?” Crowley pergunta. “Foi todo esse negócio de salvar o mundo que gerou isso, eu espero. Muito pouco demoníaco da minha parte.” Seu rosto volta a ficar inescrutável, mas as próximas palavras dele trazem consigo grande alívio e compreensão. “E aparentemente muito pouco angelical de você”.
Arrependimento, Aziraphale pensa com uma pontada atrás das costelas. Essa é a emoção que ele não havia reconhecido. Não combina em nada com Crowley e só serve para que o anjo queira destruir o que quer que o tenha causado.Isso é terrivelmente inconveniente, já que ele suspeita que seja sua culpa.
“O que nós fazemos agora?” ele pergunta, pequeno e mais do que um pouco com medo da resposta.
As asas de Crowley se dobram, mas não com força. Ele não tem mais motivo para escondê-las. “Nós seguimos em frente”, ele diz suavemente após um momento de reflexão e um dar de ombros. “Não há mais nada a fazer, na verdade.”
Ela encontra Crowley no meio de centenas de estrelas que Ela criou, as asas dele agitando poeira estelar nas nuvens que Ela chamará de nébula. Ele percebe a luz dela e fica imóvel, esperando. Amor irradia dele.
“Eu tenho algo para você”, Ela diz e produz um pequeno objeto para ele, e o dá mãos para que ele possa aceitá-lo. Ela gosta de mãos.
“O que é?” ele pergunta enquanto olha admirado. É lindo, pequeno e brilhante, com bordas recortadas nas laterais.
“Uma chave”, Ela diz. Ela ainda não inventou fechaduras. Isso irá para outra coisa.
“O que irei fazer com isso?” ele pergunta, virando suas dezenas de olhos dourados para Ela.
“Proteja-a”, Ela instrui. “Vai te levar para onde você precisa ir, um dia.”
“Um dia?” ele repete. Ela ainda não inventou o tempo. Ela o aquece com sua diversão e ele não faz mais perguntas.
Curiosidade, ela pensa. Ela terá que lembrar disso. Ela dará isso aos humanos, quando eles estiverem prontos para serem criados. Vai salvá-los, um dia. Irá arruiná-los primeiro, mas os salvará no final.
Eles não Caem e nem Ascendem, exatamente.
Aziraphale nunca apreciou a experiência de uma muda. O resultado, um conjunto totalmente novo de penas limpas e intactas, não pode ser discutido, mas o processo é sempre bagunça, coceira e exaustão. Assim que ele para de arrancar, parece que as penas caem ainda mais rápido, e a sua volta na forma de substitutas cinzas e macias o deixam totalmente esgotado.
Normalmente, anjos não tem motivos para dormir; é uma ideia vagamente horripilante, ficar inconsciente e não saber se você vai acordar ou não. Aziraphale tentou uma vez, quatro séculos atrás durante a última troca, e se arrependeu assim que acordou. Quatro dias tinham se passado, sem mais nem menos. Ele poderia ter feito inúmeras coisas. Ele poderia ter lido um livro. Negocio espantoso, dormir.
Mesmo assim, ele se pega cochilando na escrivaninha e acaba no apartamento de Crowley alguns minutos depois, sem ideia do que planeja fazer a seguir.
“Eu não quero dormir sozinho”, ele diz, e só repara em como isso soa depois de ter dito.
Crowley parece entender de qualquer forma. Ele o deixa entrar e o mostra o quarto tão imaculado que parece nunca ter sido usado. “Você quer que eu te acorde?”, é tudo o que ele diz.
Aziraphale hesita mas então, assente. “Por favor”.
Quando ele acorda, Crowley está sentado na ponta da cama, não lhe dando atenção mas não o deixando sozinho também, exatamente como ele havia pedido. As asas dele estão mais cinzas que pretas agora, mais pálidas que as de Aziraphale mas nem de longe brancas. Ele as tem abertas, relaxadas em cada lado, como um pássaro tomando banho de sol num raio de luz particularmente delicioso, exceto que não há sol, e Crowley dificilmente é um pássaro.
Talvez o mais surpreendente seja ter um livro no colo de Crowley. Aziraphale ouviu falar em sonhos parecerem reais e, apesar do fato dele saber que anjos e demônios não sonham, ele se preocupa de estar em um.
“Pombos”, Crowley diz, só olhando para cima quando Aziraphale não responde por não ter nada a dizer. Crowley inclina o livro para que o anjo possa ver as duas capas, e parece ser um livro para identificar pássaros. Crowley levanta uma asa e a torce até o limite, para que possa olhar para elas. Depois, ele as espalha sobre Aziraphale para que ele também possa olhar. “Elas são cinza como a dos pombos.”
O coração de Aziraphale fica suave e quente, e ele não consegue evitar de sorrir. “Cinza como a dos pombos” ele repete com muito carinho. Ele ama pombos. “São pássaros muito humanos”, ele diz a Crowley enquanto luta para se sentar também, de frente para Crowley nos pés da cama. As asas do demônio se erguem o suficiente para que ele se mova, antes de se acomodarem novamente em seu colo, como se estivesse em exibição. “Os humanos os chamavam de pombas-das-rochas e os domesticaram há muito tempo, porque os amavam demais. Eles acreditavam que os pássaros eram gentis, bonitos e pacíficos. Que eram perfeitos para a convivência.”
Crowley sorri, o tipo de sorriso que Aziraphale não se importaria de se perder por alguns dias. “Você realmente acha que somos assim?” perguntou. “Não somos assim tão sofisticados, eu acho.”
“Mesmo pombos selvagens são amados pelos humanos”, Aziraphale diz. Ele consegue parar de olhar para uma parte de Crowley para olhar para outra, com seus dedos traçando a linha de uma fina e elegante pena primária em direção à ponta da asa do outro. “Há sempre alguém alimentando bandos deles nos parques e cidades”.
Só tem dois de nós”, Crowley diz, com os olhos se voltando para as asas de Aziraphale por um momento. “Dificilmente pode ser chamado de bando.”
Aziraphale ri e olha para cima, para que possa olhar para o rosto de Crowley quando diz: “Eles formam pares para o resto da vida, sabia? Os pombos, quero dizer.”
Crowley fica muito, muito quieto e não quebra o contato visual. “É mesmo?” Ele obviamente entendeu o que Aziraphale quis dizer.
Aziraphale concorda, um movimento quase imperceptível, e sorri incerto. “Eu não acho que precisamos de um bando,” arrisca ele timidamente. “Você acha?”
Lentamente, Crowley fecha o livro e o deixa de lado, suas asas se arrastando pelas cobertas para serem dobradas fora do caminho. Ele balança a cabeça em negação e um pequeno sorriso surge em suas feições como um pássaro cauteloso. “Não, pombinho. Acho que não.”
Ela o flagra olhando as suas mais novas invenções, antes que Ela as tenha inventado. Ela ainda não começou o tempo, e agora ele se espalha para frente e para trás e em círculos ao redor deles. O espaço está lotado de pré-tempo, e eles podem ver tudo e nada.
“Eles são lindos”, ele A diz. Ela ainda não havia inventado a respiração, mas ele estaria sem ar se ele já existisse. As asas dele tremem. “Do que eles são chamados?”
“Humanos”, diz Ela suavemente, com tanto amor que dói.
“Para que eles servem?” ele pergunta, fascinado pelas atividades deles, com seus inícios e fins e tudo o mais.
Ela olha para eles, que serão sua criação de maior orgulho. Eles enfrentarão muitas dificuldades. “Quero testá-los”, Ela diz. “Gostaria de saber do que eles são feitos.”
“Você os fez”, ele diz. “Você não sabe do que são feitos?”
Ela o ama.
“Eles vão precisar da sua ajuda um dia”, Ela admite para ele. Ela não devia, mas ele não vai se lembrar - pelo menos não das palavras. Ele irá lembrar da intenção, e isso quase o destruirá. Quase.
Eles observam os humanos juntos. Ela irá inventá-los em breve, e começar o tempo junto com eles, e Crowley será arrastado pelo mesmo rio, sendo capaz de ver apenas o presente. Ele não se lembrará do passado ou futuro, mas conhecerá o presente.
“Crowley”, Ela diz. Ele consegue desviar alguns de seus olhos dos humanos, então Ela sabe que tomou a decisão correta. Ela não tem certeza de que pode errar, mas sabe que pode tomar decisões das quais se arrepende. “Eu tenho mais uma coisa para você.”
“O que é?” ele pergunta, com todos os seus olhos voltados para Ela agora.
“Um momento” Ela diz. É o mínimo que pode fazer, lhe dar um momento fora do tempo. ele não se lembrará que o tem até que precise dele. Ele não precisará até que Lúcifer ameace tirar todo o tempo dele. Por isso Ela veio até ele agora. Lúcifer será expulso.”
“Por que?” A palavra é suave, meramente curiosa. Ele não consegue se alarmar - o Inferno ainda não foi inventado. Nem “lá embaixo”. Ele ainda não sabe o que significa ser expulso. Ele confia implicitamente que Ela não os machucaria, mas ele está curioso.
“Ele se recusará a me obedecer” Ela diz enquanto observa a mudança que ocorre em sua essência. Ele está confuso. Ele não sabe porque alguém iria desobedecê-la, especialmente Lúcifer. Ela espera outras milhões de perguntas, mas não a que ele lhe dirige.
“O que você pede dele?”
Ela indica os humanos. “Eu pedirei que ele os ame mais do que ama a mim. eu pedirei isso de você também.”
Ela espera que ele resista. Outros dirão sim ou não. Ela amará aos dois, mas expulsará aqueles que se recusam a obedecer. Cada lado tem um propósito, e um precisará do outro. Ela espera que ele escolha um lado também, mas ele faz o que sempre faz e pergunta: “Por que?”
“Fé”, Ela diz. Os humanos lhe ensinarão o significado dessa palavra. “Você verá, mais tarde.”
Ele não entende mais tarde. Só o agora existe, e no agora, ele A ama mais do que consegue imaginar. Ela o expulsará também, mas não por desobedecer. Ela o expulsará porque é aí onde seu caminho deve começar, se ele quiser chegar onde pertence no final. Ele não vai entender. Ele terá esquecido o éter antes do tempo, ou pelo menos a maior parte dele.
Ele irá querer parar de amá-La e vai desejar que isso possa matá-lo. Para Crowley ela inventa o sacrifício, e ele nunca A perdoará por isso.
E ela o amará, mesmo assim.
Suas novas asas terrenas crescem, uma pena por vez, até que eles tenham tons de cinza combinando, escuros e claros e estampados de uma maneira que nenhum outro anjo ou demônio jamais teve. Eles passam seus dias entre os humanos, onde Aziraphale continua não vendendo nenhum livro e Crowley continua causando travessuras pelas quais não precisa mais receber nenhum crédito, e eles são, se não felizes, pelo menos contentes.
E à noite, quando os humanos ao redor da casa deles dormem e o mundo descansa sobre os louros aguardando o amanhecer, Aziraphale pode ser encontrado, na maioria das vezes, no apartamento de Crowley. Ou pelo menos no que costumava ser o apartamento dele, mas em virtude da ocupação compartilhada agora pertence aos dois. Esse novo acordo é incomum e provisório, mas sem sombra de dúvidas, o que ambos desejam. Funciona muito melhor do que o último acordo deles, e mesmo esse não foi assim tão ruim, no final.
Eles não ouvem nada dos seus lados anteriores por um bom tempo, e quando ouvem, não é da forma que estão acostumados. O primeiro a chegar é um anjo, que dobra suas asas tão forte que elas parecem uma mochila e ele abaixa a cabeça enquanto fala, quase inaudível, que eles fizeram a coisa certa parando o apocalipse. Ele pede para se juntar a eles, e Aziraphale olha para Crowley até que ele admita que não, eles não podem mandá-lo embora. Tem outra guerra a caminho e eles deveriam recrutar o máximo que podem até lá.
O anjo, Hadriel, ganha sua primeira pena prata menos de um mês depois, apenas dias antes do primeiro demônio se juntar a eles também.
“Talvez”, Crowley diz para Aziraphale aquela noite, depois de se acomodarem juntos no sofá, “nós teremos um bando afinal.”
Aziraphale espalha suas asas no colo de Crowley como um cobertor, relaxando na sensação suave dos dedos de Crowley enquanto ele começa a pentear as penas prateadas e lustrosas de Aziraphale.
“Isso não seria incrível?” Aziraphale diz, enquanto fecha os olhos e sorri.
E se nós só vivemos uma vez
Eu quero viver com você
