Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Categories:
Fandoms:
Relationships:
Characters:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-05-08
Completed:
2025-05-09
Words:
13,859
Chapters:
6/6
Comments:
6
Kudos:
13
Bookmarks:
1
Hits:
426

Vou mostrar que eu não sou só pra entrar no seu esquema

Summary:

A súbita imagem dos olhos de Percy surgiu em sua mente e, por um instante, sentiu como se o mundo estivesse finalmente fazendo sentido. Como se uma resposta muito importante estivesse finalmente ganhando forma em seu mundo e se apresentando como realmente era. Não pela primeira vez, Grover se sentiu um completo idiota por não ter percebido antes o que esteve bem diante de seus olhos esse tempo todo. Porque a forma como Percy segurou sua mão e como seu próprio coração acelerou com simplesmente estar diante do olhar dele significava tudo aquilo que Grover estava mantendo longe de seus pensamentos por tanto tempo.

Ou;

Cinco vezes que Grover acreditou que poderia ter sentimentos por outra pessoa e uma vez quando ele finalmente percebe por quem esteve apaixonado esse tempo todo.

Notes:

Olá! Meu intuito original era escrever uma pequena continuação de "Nada contra ele, inclusive até faria, mas acho que quem caberia bem melhor sou eu" no POV do Grover, mas acabei me empolgando e escrevendo bem mais do que o planejado. Além disso, embora ainda possa ser considerado como uma continuação, é praticamente uma coisa própria e não precisa do contexto do outro trabalho para ler esse, mas vou deixar o link nas notas finais caso surja algum interesse.

Eu escrevi tudo junto, mas vou dividir em capítulos para a leitura não ficar tão cansativa. Embora eu não tenha nenhuma intenção de ser cronologicamente fiel, cada capítulo se passa em algum momento dos livros entre O Mar de Monstros e A Marca de Atena, mas seguindo talvez um pouco da lógica dos acontecimentos da série. O título vem da música "Filme de Cinema" da banda Jovem Dionísio.

Por fim, espero que tenham uma boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Irritantemente inconstante, você não consegue me acompanhar (Luke)

Summary:

Em meio a sua busca por Pã, Grover se encontra sendo levado a bordo do Princesa Andrômeda e se depara com a profundidade da solidão de Luke.

(Durante os eventos de O Mar de Monstros).

Notes:

Como podem ver, ainda penso muito na dinâmica entre Grover e Luke e as possibilidades infinitas deles. Essa ideia de Grover ser levado a bordo do Princesa Andrômeda é uma mistura do sequestro que acontece no segundo filme com a escolha da série de fazer Grover procurar por Pã no oceano e eu acabei expandindo isso para falar um pouco sobre o relacionamento de Luke e Grover no passado e como é no presente.

O título do capítulo é da música "suas razões/minhas razões" da cantora Clarissa, porque eu considero que a letra se encaixa com a complexidade do relacionamento deles e sempre me passa uma sensação de angústia e saudade que combina com eles no geral.

Enfim, espero que tenham uma boa leitura!

Chapter Text

I.

Grover se sentia trêmulo em suas roupas molhadas. A noite se estendia no horizonte janela afora tornando quase impossível distinguir o que era o céu e o que era o oceano. O quarto onde o colocaram era escuro e mal cuidado, com o papel de parede descascado e os móveis quebrados. Não que se pudesse esperar organização de um exército de monstros, mas não ajudava a conter os tremores. Grover tinha a sensação persistente de que morreria ali. Não pela primeira vez desde começou sua busca pelo oceano, desejou que Percy estivesse ao seu lado e se perguntou o que o garoto estava fazendo naquele momento.

A porta do quarto abriu subitamente, iluminando um pedaço do campo de visão de Grover com as luzes do corredor. As sombras que se esgueiravam atrás da sombra humana seria o bastante para fazer uma criança ter pesadelos pelo resto da vida. Grover já havia enfrentado desafios piores em sua curta vida.

– Eu disse para eles te darem uma roupa nova. – A sombra humana disse com pesar e entrou no quarto. A porta foi fechada com força afundando ambos na escuridão.

– Luke? – Grover perguntou esperançoso. A luz de uma lanterna iluminou levemente o ambiente tornando a expressão de descontentamento de Luke visível aos seus olhos. – O que você está fazendo aqui?!

– Eu quem deveria te fazer essa pergunta. – Luke sorriu. Parecia uma expressão estranha diante da palidez e as olheiras fundas que assombravam seu rosto antes tão jovial.

– Sou um Buscador agora. – Grover respondeu com os dentes batendo.

Luke se agachou ao lado dele e tirou a capa. – Isso é tudo que você sempre quis, não é? Estou feliz por você.

Grover balançou a cabeça. – É pele de animal. Eu não posso aceitar.

– E eu não posso te ver morrer de frio no meu navio. Aceite, pelo menos por enquanto. Vou arranjar roupas secas para você. – Luke insistiu sem qualquer inflexão na voz. Como um líder que não está disposto a ter suas ordens questionadas. Grover imaginou que aquela autoridade era necessária para fazer os monstros respeitarem sua posição entre eles.

Os cascos de Grover batiam no carpete mofado incontrolavelmente. Sua pele estava ficando aos poucos cada vez mais pálida e a respiração de ambos exalava fumaça. Mesmo assim, convicto das próprias crenças, Grover balançou a cabeça se recusando a pegar a capa de pele.

– Eu não posso…

– Estou falando sério, Grover. Ou você tira a roupa e aceita a capa por conta própria, ou eu vou fazer você aceitar a força.

Por alguns instantes os olhos de Luke brilharam com contornos dourados e seus dentes pareciam se arregaçar em sua gengiva. Grover se arrastou para longe dele por instinto, mas não emitiu nenhum som que denunciasse seu medo. Como se percebesse a reação, a expressão de Luke suavizou e o arrependimento brilhava em seus olhos castanhos de sempre.

– Por favor, Grover. Não faça com que eu me arrependa da minha misericórdia.

– O que você vai fazer comigo? Me dar de petisco para o seu exército? Se vou morrer, então pelo menos me deixe morrer com os meus próprios princípios. – Grover respirou fundo. – Eu sei que você pode ser cruel, Luke, mas nunca pensei que pudesse ser tão baixo.

As mãos de Luke foram mais rápidas do que os instintos de Grover. Sendo mais alto e mais forte, não importou muito que Grover tenha se contorcido e lutado contra o ataque. Com uma faca brilhante, Luke cortou as roupas úmidas de Grover com uma precisão quase cirúrgica como se estivesse tomando cuidado para não cortar a pele. Não havia expressão alguma em seu rosto ao ver o sátiro tentar escapar de baixo de seu corpo. Grover, por outro lado, não se conteve em arranhar seu atacante em qualquer parte de suas longas unhas alcançassem. Embora Luke não tenha tocado a pele ou mantido os olhos além do necessário para executar sua tarefa, Grover se sentia vulnerável em sua nudez forçada.

– Vou trazer roupas para você. Quando eu voltar, espero que esteja aquecido e pronto para cooperar.

Luke saiu levando os panos molhados consigo. Grover se encolheu em si mesmo o máximo que pode tentando garantir algum calor, mas a cada segundo se sentia mais frio e desolado. Seus olhos foram para a capa feita de pele de leopardo e murmurou um pedido de desculpas para Pã ao se enrolar nela. Porque apesar de tudo, Grover não queria morrer naquele barco.

Seus dentes haviam parado de tremer e seu pelo estava quase completamente seco quando Luke retornou com roupas e comida. – Eu trouxe outro casaco para você não precisar ficar com a pele.

– Porque vocês me trouxeram a bordo? – Grover pegou a roupa e percebeu que era um vestido preto longo, com gola alta e mangas compridas, junto com um cardigã verde afofado. Sem qualquer hesitação passou a gola do vestido pela cabeça e jogou a pele de leopardo para longe.

– Eu não sabia que era você. Meus homens sentiram o seu cheiro e ficaram curiosos e com muita fome, mas eu tive uma espécie de instinto. Não é sempre que se encontra um sátiro navegando sozinho em alto mar. Faz sentido agora que sei que você é um Buscador. – Luke hesitou. – Percy está com você?

– Não está. Eu viajo sozinho. – Grover arrumou o cardigã nos ombros.

– Então porque procurar no oceano?

– Os sátiros procuram Pã há milhares de anos. Todo o território terrestre dentro e fora do alcance dos deuses já foram revistados incontáveis vezes, mas existem poucos registros de buscas no mar. Foi um palpite.

– Você não está mentindo para mim, não é?

– Porque eu mentiria? Para te impedir de tentar matar meu melhor amigo de novo?

– Pensei que eu fosse seu melhor amigo.

Grover hesitou. – Um dia. Não mais.

– As coisas realmente mudaram, não é? – Luke sorriu de forma cínica. – Coma. Agora que você está aqui, pode ser útil para nós.

– Eu não quero te ajudar com nada que você esteja planejando!

– Eu acho que você não tem muita escolha agora, velho amigo.

Grover resistiu em se alimentar o máximo possível, mas quando Luke ameaçou forçá-lo a comer e sabendo muito bem que ele era capaz disso, não houve escolha além de ceder. Desde que voltou de sua missão, sempre houve melancolia no fundo do olhar de Luke, mas naquele momento tudo que Grover conseguia identificar era raiva. Alguém tão forte não deveria ter um sentimento tão intenso.

– Que navio é esse?

– É o meu iate, Princesa Andrômeda. Eu tenho alguns semideuses bem poderosos no mundo dos mortais no meu exército. O mais difícil foi manter a construção dele em segredo. Posso te levar em um tour quando você se sentir melhor.

– Para atiçar ainda mais a fome dos seus monstros? Não, obrigado. Prefiro que você me mantenha trancado nesse quarto imundo. – Grover respondeu sarcasticamente.

Luke riu da mesma forma que fazia quando estava no acampamento. Genuinamente, sem nenhuma intenção de soar condescendente ou zombeteiro, e com todos os dentes e linhas de expressão que seu belo rosto permite. Por alguns instantes, quase era como se ele ainda fosse o garoto que Grover escoltou com tanto empenho até o acampamento tantos anos atrás. Então a cicatriz brilhou na luz da lanterna e o aspecto anormal de seu corpo deixava claro que aquele jovem não era mais aquele garoto. Que Grover não estava mais diante de um amigo.

– Eu ando tão tenso ultimamente que nem tinha percebido que sentia falta dessas conversas. Estou feliz que você esteja aqui, apesar de tudo.

– Há momentos que eu realmente não te entendo, cara. – Grover respirou fundo e consumiu mais da metade do sanduíche em uma única mordida.

– Espero que entenda enquanto estiver aqui.

Luke se aproximou lentamente, como se testasse o quanto realmente poderia se aproximar de Grover sem assustá-lo, e limpou alguns farelos da bochecha dele com a ponta dos dedos. Foi um gesto gentil e cuidadoso, como ele costumava fazer com ele, Annabeth e Thalia quando viajavam juntos, mas que sempre fez borboletas surgirem no estômago de Grover. Porque Luke sempre foi um garoto bonito, forte e fácil de amar. Havia algo na dor dele que despertou todos os instintos de proteção de Grover e era tão fácil se render a essa natureza, que foi o que fez desde o instante que o conheceu.

– O que aconteceu com você, Luke? – Grover perguntou inconscientemente. A mão de Luke não se afastou de seu rosto. O toque gélido transmitia calafrios por sua pele.

– É difícil de explicar e eu não acho que você entenderia completamente. – Luke balançou a cabeça. – Sabe, você finalmente parece mais velho.

Isso era algo que Grover havia percebido também. Quando viajou com Luke, Annabeth e Thalia tantos anos atrás, tinha a mesma aparência de quando conheceu Percy, no entanto, nos últimos meses, seu corpo envelheceu muito mais rápido do que o normal para os sátiros. Ainda não sabia ao certo o que causou essa mudança brusca em sua natureza, mas suspeitava que pudesse ter alguma relação com o fato de seus sonhos estarem recheados de momentos cotidianos de Percy Jackson. Grover sabia muito pouco sobre esse tipo de vínculo, mas tinha pleno conhecimento de que não precisava ser recíproco. Ele poderia ligar sua existência a de Percy sem a necessidade de uma ligação de volta e viver em torno dele conforme o próprio desejo. Talvez fosse apenas um reflexo do medo de perder seu melhor amigo para o tempo. Havia coisas mais urgentes para se pensar naquele momento.

– Eu não sou mais o mesmo. – Grover sentiu seu coração acelerar diante da intensidade do olhar de Luke.

– Sim. Você é. 

O polegar de Luke roçou suavemente no lábio inferior de Grover. Seu movimento foi tão rápido que se Grover não estivesse completamente concentrado no garoto sentado ao seu lado, provavelmente não teria sido capaz de impedi-lo juntar seus lábios. Suas mãos empurraram o peito de Luke colocando distância entre seus rostos. Ainda assim, conseguia sentir a respiração próxima. Havia quase uma súplica nos olhos castanhos de Luke e uma parte de Grover queria ceder, queria finalmente concretizar uma fantasia que o acompanhou por tanto tempo, mas seu lado racional sabia que aquele não era mais o mesmo Luke e, de certa forma, também não era mais o mesmo Grover.

– Não, Luke. Eu não sou.

Luke se levantou em um pulo colocando a distância de alguns passos entre eles. Havia conflito em seus olhos, como se quisesse descontar sua raiva em Grover e, ao mesmo tempo, quisesse chorar em seus braços mais do que qualquer coisa. Exatamente como aquele garotinho que o atacou com uma faca sem hesitação quando Grover se apresentou como um enviado de Hermes. No entanto, o brilho dourado do fundo de seus olhos deixava claro que havia muito mais por trás desses sentimentos. Rapidamente desviou o olhar e pegou a pele de leopardo do chão. Ele quase parecia um general dos tempos antigos daquela forma.

– Termine de comer. Quando eu voltar, vou te mostrar o iate e te contar o meu plano. Você pode escolher algumas roupas extras também, mas já adianto que não temos outra coisa além de lojas de vestidos. Não parece que vai ser um problema para você. – Luke deu uma última olhada em Grover, como se memorizasse sua imagem, e se virou para a porta. Ele hesitou com a luz do corredor envolvendo sua expressão em sombras. – Sabe, talvez você tenha um motivo maior para ter escolhido o mar entre todos os lugares. Às vezes encontramos conforto nas coisas mais inesperadas.

Grover observou a porta se fechar com um estrondo. Pelo menos tinha a luz da lanterna como companhia. Sua mente precisava se concentrar em formas de escapar ao invés da profundidade das palavras de Luke. Se estava em um iate então talvez tivesse botes para o caso de emergências. Escapar não seria fácil diante de tantos monstros e com Luke aparentemente tendo planos para ele, mas precisava tentar. Talvez uma distração envolvendo as lojas de vestidos. Uma ideia começava a se formar na mente de Grover. Arriscada e perigosa, mas provavelmente sua melhor forma de sobreviver. Seus olhos foram novamente para o oceano infinito e, por alguns instantes, imaginou que Percy provavelmente pensaria em um plano semelhante. Que ele o esperava no acampamento muito em breve. Bom, há coisas mais importantes para se pensar, de qualquer forma.